Tenho por hábito passear entre a Baixa e o Chiado tanto como tenho o hábito de não escrever sobre mim e aquilo que faço, ou pelo menos não directamente. O primeiro prende-se com o meu lado de alpinista social, o segundo com o meu ar pseudo-intelectual de quem procura estar ausente à escrita que produz. Um dos sítios que encontrei para melhor conjugar estas duas facetas da pessoa que sou eu é um simpático cadeirão preto colocado de costas para a janela da segunda sala da Bertrand Chiado. É um dos espaços mais agradáveis de leitura que Lisboa oferece e já cheguei a passar tempos bem largos ai sentado, normalmente ao cair da tarde, perdido e absorto em livros, ausente de qualquer outra realidade.
A última vez que lá estive tinha de facto um propósito: ia em busca de um presente para umas primas pequenas. Presente esse que os deuses haviam guardado para mim num canto escondido da última sala- era o único volume em toda a Lisboa. E a par encontrei mais dois livros que levaram a que me sentasse no dito cadeirão: "Fim d'Época" de Lourenço Pereira Coutinho e "Geneticamente Fúteis" de Cláudio Ramos.
Uma vez que apenas li ambos en passant vou guardar as críticas e ater-me a breves comentários que me parecem interessantes. "Fim d'Época" passa-se na Lisboa da primeira década do Século XX tendo como personagem principal o Dr. Miguel Sebastião Telles de Almeida, filho dos Condes de Valverde. As descrições ricas e o tratamento cuidado da época, fundado nos conhecimentos do autor que além de historiador já publicou ensaios sobre a época, fazem da obra um agradável retrato da alta sociedade lisboeta e das suas preocupações políticas, sociais e económicas que por sua vez a torna agradável a quem, como eu, vive em paixão constante pela História Social. "Genéticamente Fúteis" passa-se na Lisboa da primeira década do Século XXI. Conta a história do assassinato e consequente investigação do crime dum afamado colunista social e da trupe que vivia em seu redor. A escrita não é das melhores e, muito num estilo da literatura-light, é pouco profunda atendendo mais às frivolidades da acção que à importância quer da descrição, quer da reflecção. Notemos agora aspectos interessantes: se pusermos as classes que cada livro representa, que pretende ser a mesma com 100 anos de diferença, nós é que encontraremos diferenças abismais. Não só a maneira de estar, mas sobretudo a maneira de ver e entender o mundo, bem como a imagem que certa classe projecta de si mesma mudou radicalmente, talvez como nunca antes tenha mudado num tão curto espaço de tempo. A família e as soirées, a arte de receber e de estar com amigos, as discussões sobre o tenso ambiente político de "Fim d'Época" são substituídas em "Geneticamente Fúteis" pelas festas e vernisages, a arte de enganar e fazer amigos proveitosos e as discussões sobre o cabeleireiro ou o último desfile daquele costureiro famosíssimo.
Dizer que prefiro um ao outro está longe do ambito desta crónica. Tenho as minhas escolhas pessoais e reservo a outros o direito de terem as suas. Note-se apenas a mudança de uma elite culta e preocupada, ainda que um pouco desfazada da realidade, para uma pseudo-elite sem ethos ou mesmo savoir-faire que o seu autor retrata como sendo de facto geneticamente fútil.
Se puderem e quiserem vão a uma livraria peguem nos dois livros, escolham um canto e tirem as vossas próprias conclusões. Só peço que me deixem o meu cadeirão contra a janela.
terça-feira, maio 06, 2008
quarta-feira, abril 16, 2008
Palavras de coisas do Oriente ou Anseios por cidades tão distantes
Onde os horizontes de Edo e Kioto?
Perdi-os nos olhos fechados do teu sono.
Oh, diz-me agora
E outra vez de Edo e Kioto para que os sonhe
Como em ti são lembrados.
Perdi-os nos olhos fechados do teu sono.
Oh, diz-me agora
E outra vez de Edo e Kioto para que os sonhe
Como em ti são lembrados.
Poema das tardes dos pássaros
E se houvesse pássaros?
Até onde voariam as tardes, até onde se alongariam as horas?
E se houvesse pássaros em vez de crepúsculos?
Que triste seria o para sempre.
Até onde voariam as tardes, até onde se alongariam as horas?
E se houvesse pássaros em vez de crepúsculos?
Que triste seria o para sempre.
segunda-feira, abril 14, 2008
Varandas sobre o Tejo ou Canto crespuscular da cidade numa casa de Alfama
Duma varanda donde se veja o Tejo
Numa tarde
Duma tarde em que se embale em palavras
Numa varanda
Agora Lisboa, ainda de dia
Depois logo à noite, quando for noite
Mas ainda palavras
Como ruas
Pelas ruas
Palavras de dizer coisas nuas
como uma
Varanda donde numa tarde
Se veja o Tejo
Numa tarde
Duma tarde em que se embale em palavras
Numa varanda
Agora Lisboa, ainda de dia
Depois logo à noite, quando for noite
Mas ainda palavras
Como ruas
Pelas ruas
Palavras de dizer coisas nuas
como uma
Varanda donde numa tarde
Se veja o Tejo
Evocando a Lagoa de Óbidos
Digo-te assim
Prazer e mar
De teu corpo-lagoa
Riacho, atraso
Perdido de tempo
De espaços e de palavras que digam
Talvez, fruto, pedra, planta,
Horas
De quem se guarda em devaneios junto da água
Num qualquer dia primeiro de Primavera
Prazer e mar
De teu corpo-lagoa
Riacho, atraso
Perdido de tempo
De espaços e de palavras que digam
Talvez, fruto, pedra, planta,
Horas
De quem se guarda em devaneios junto da água
Num qualquer dia primeiro de Primavera
sexta-feira, abril 04, 2008
Palavra de Viagem
Palavra de Viagem,
De coisa passada, de coisa vivida,
De cheiro que dorme e que nasce na gente
A cada reviver.
Palavra de Viagem
É palavra que desperta,
Que alegra, que chama,
E que anda com a gente pelas ruas da Cidade.
Palavra de Viagem,
Que vai onde não vou
E volta de coisas que têm sempre voltar.
De coisa passada, de coisa vivida,
De cheiro que dorme e que nasce na gente
A cada reviver.
Palavra de Viagem
É palavra que desperta,
Que alegra, que chama,
E que anda com a gente pelas ruas da Cidade.
Palavra de Viagem,
Que vai onde não vou
E volta de coisas que têm sempre voltar.
Poema da Viagem
Sabes versos antigos?
Entãos diz-mos em mansidão agora que a Cidade se prepara para dormir.
Tu buscas os cheiros da cidade. Cada pessoa tem um cheiro e cada pessoa é uma cidade.
Quantas pessoas perfazem a tua Cidade?
Agora que a noite caí sobre nós diz-me depressa, mas de manso, quantas palavras são precisas para que tu olhes e digas- Cidade.
Entãos diz-mos em mansidão agora que a Cidade se prepara para dormir.
Tu buscas os cheiros da cidade. Cada pessoa tem um cheiro e cada pessoa é uma cidade.
Quantas pessoas perfazem a tua Cidade?
Agora que a noite caí sobre nós diz-me depressa, mas de manso, quantas palavras são precisas para que tu olhes e digas- Cidade.
terça-feira, abril 01, 2008
Experimentação para "Conto de Gustavo-IV"
Revirou os olhos. Que havia de dizer? Era a quarta vez que a Ana perguntava se ele não o achava maravilhoso. Não que se referisse ao aspecto, pelo menos em princípio, mas à eloquência do homem. Porque para Gustavo era isso que ele era: um eloquente.
Lá estava, gordo e transpirado, com uma grande linha quase nas fraldas da camisa a marcar o suor. Tinha um lencinho de bolso que tirava mais vezes do que se desejava e limpava a testa molhada arrastando as mãos pequenas e sapudas de um lado para o outro como se estivesse a puxar lustro. Estava a falar há quase quinze minutos e ainda não dissera nada que valesse a pena ouvir. Vagamente percebia-se que falava de Tácito. Ia alternando o seu discurso barroco e bacoco ora com evidências óbvias ("A noite em Tácito é fundamental"), ora em emaranhados vazios ("Há que entender a questão não só do ponto de vista histórico e filosófico, como igualmente perante a necessidade de ser literário"). Era, enfim, um eloquente. Um homem de muita sabedura, mas muito pouco saber. Lá que lera Tácito e o seu latinório nem Gustavo punha em causa. Lá que ele não dizia nada que na Sorbonne ou em Oxford ou Princeton já antes não se tivesse dito era bem verdade.
Ainda assim, a Ana continuava a espetar-lhe o dedo no ombro de forma cada vez mais furiosa conforme a sua excitação aumentava. E eram gritinhos de "Fabuloso!" ou "Muito bom!" a cada nova balela que o gordo empapado em suor soltava.
O Artur gostava de dizer que a Ana era uma freira com falta de homem. As coisas eram, contudo, mais complexas. A Ana era, nas palavras de Gustavo, uma vítima do sistema. Licenciada em Estudos Clássicos com média de 18,7 valores passara o curso agarrada às saias das professoras que a passeavam e elogiavam como uma mãe vitoriana quando o filho diz a primeira palavra ou aprende a primeira habilidade. A Ana era esperta, tinha boa cabeça e boas ideias. Tinha era a cabeça muito enfiada nos livros e era pouco livre em relação a eles. E das poucas vezes que voava, lá iam as boas professoras, quais fadas madrinhas, impedi-la de voos tão altos que ferissem a menina. E assim a Ana foi-se adaptando àquela maneira académica de estar, comezinha e banal, do pequeno palanque e do pequeno poder. Mestrou-se com uma tese sobre Catulo, tão gémea da tese da sua orientadora, que não trazia nada de novo. Depois, com os trabalhos de doutoramento e a docência universitária trazida pelo mestrado a Ana instalara-se. Agora, às portas de defender a tese, era um produto acabado do sistema: servil e pouco ambiciosa, bastando-se nos seus conhecimentos escolásticos que ia buscar ao saber sacrossanto dos livros que a Sorbonne regorgitara nos anos setenta. Mas não era má miúda. Os alunos adoravam-na e ela adorava-os e a verdade era que os protegidos da Ana eram por norma mesmo muito bons, como as grandes professoras de ballet que, incapazes de terem elas mesmas uma grande carreira, têm, ainda assim, olho para aqueles a possam vir a ter. E depois era divertida e no meio daqueles salamaleques todos da faculdade era bem desempoeirada. Claro que tantas vezes era demasiao infantil, dessas crianças que as bibliotecas conservam para sempre crianças por falta de ver o mundo. O Artur bufava cada vez que a sabia lá em casa para jantar. Era certo que ia ter uma noite repleta de todos os pormenores mais íntimos da faculdade e dos meandros dos seus departamentos, desde a última tese ao último escândalo. Mas Gustavo gostava dela e o sentimento era bastante mútuo.
"Brilhante, brilhante. Muito, muito bom!", gritava a Ana enquanto batia as mãos uma contra a outra. O presidente da mesa começou nos agradecimentos e acabou nas perguntas. Gustavo não ia aguentar mais nada daquele homem. Enquanto arrumava as coisas na pasta largou um beijinho no ar à Ana e, o mais silenciosamente possível, esgueirou-se pela porta direita do Anfiteatro III. Desceu as escadas num repente e atravessou o longo corredor em passo largo. Pegou no telemóvel. 13h28. Aquele papalvo do coimbrão eloquente tinha-lhes comido vinte minutos a mais e ainda estava lá para cima a despejar idiotices. Virou no corredor do Departamento de História ainda indeciso entre ser apanhado no corredor da secretaria pela Dona Ifigénia ou no átrio central por um aluno ou colega qualquer. Decidiu-se pelo átrio e atravessou-o a toda a pressa oferencendo aos alunos que o cumprimentavam sorrisos distantes e pouco convidativos. Desceu os degraus da porta principal da faculdade e olhou para trás. Lá estava Letras, igual há dez anos atrás, senão um pouco mais podre e mais suja pelos cantos.
No telemóvel tocou uma mensagem. Era o Artur "Demoras?" O Artur não tinha um doutoramento, nunca lera Tácito e de Latim sabia dizer E pluribus unum e Pisces conam furant. Mas dava-lhe a certeza de uma vida além de todas estas coisas de que ele gostava. O Artur era, em grande medida, o que o impedia de ser como a Ana. E ao menos o Artur suava por razões melhores que o jagunço de Coimbra.
Lá estava, gordo e transpirado, com uma grande linha quase nas fraldas da camisa a marcar o suor. Tinha um lencinho de bolso que tirava mais vezes do que se desejava e limpava a testa molhada arrastando as mãos pequenas e sapudas de um lado para o outro como se estivesse a puxar lustro. Estava a falar há quase quinze minutos e ainda não dissera nada que valesse a pena ouvir. Vagamente percebia-se que falava de Tácito. Ia alternando o seu discurso barroco e bacoco ora com evidências óbvias ("A noite em Tácito é fundamental"), ora em emaranhados vazios ("Há que entender a questão não só do ponto de vista histórico e filosófico, como igualmente perante a necessidade de ser literário"). Era, enfim, um eloquente. Um homem de muita sabedura, mas muito pouco saber. Lá que lera Tácito e o seu latinório nem Gustavo punha em causa. Lá que ele não dizia nada que na Sorbonne ou em Oxford ou Princeton já antes não se tivesse dito era bem verdade.
Ainda assim, a Ana continuava a espetar-lhe o dedo no ombro de forma cada vez mais furiosa conforme a sua excitação aumentava. E eram gritinhos de "Fabuloso!" ou "Muito bom!" a cada nova balela que o gordo empapado em suor soltava.
O Artur gostava de dizer que a Ana era uma freira com falta de homem. As coisas eram, contudo, mais complexas. A Ana era, nas palavras de Gustavo, uma vítima do sistema. Licenciada em Estudos Clássicos com média de 18,7 valores passara o curso agarrada às saias das professoras que a passeavam e elogiavam como uma mãe vitoriana quando o filho diz a primeira palavra ou aprende a primeira habilidade. A Ana era esperta, tinha boa cabeça e boas ideias. Tinha era a cabeça muito enfiada nos livros e era pouco livre em relação a eles. E das poucas vezes que voava, lá iam as boas professoras, quais fadas madrinhas, impedi-la de voos tão altos que ferissem a menina. E assim a Ana foi-se adaptando àquela maneira académica de estar, comezinha e banal, do pequeno palanque e do pequeno poder. Mestrou-se com uma tese sobre Catulo, tão gémea da tese da sua orientadora, que não trazia nada de novo. Depois, com os trabalhos de doutoramento e a docência universitária trazida pelo mestrado a Ana instalara-se. Agora, às portas de defender a tese, era um produto acabado do sistema: servil e pouco ambiciosa, bastando-se nos seus conhecimentos escolásticos que ia buscar ao saber sacrossanto dos livros que a Sorbonne regorgitara nos anos setenta. Mas não era má miúda. Os alunos adoravam-na e ela adorava-os e a verdade era que os protegidos da Ana eram por norma mesmo muito bons, como as grandes professoras de ballet que, incapazes de terem elas mesmas uma grande carreira, têm, ainda assim, olho para aqueles a possam vir a ter. E depois era divertida e no meio daqueles salamaleques todos da faculdade era bem desempoeirada. Claro que tantas vezes era demasiao infantil, dessas crianças que as bibliotecas conservam para sempre crianças por falta de ver o mundo. O Artur bufava cada vez que a sabia lá em casa para jantar. Era certo que ia ter uma noite repleta de todos os pormenores mais íntimos da faculdade e dos meandros dos seus departamentos, desde a última tese ao último escândalo. Mas Gustavo gostava dela e o sentimento era bastante mútuo.
"Brilhante, brilhante. Muito, muito bom!", gritava a Ana enquanto batia as mãos uma contra a outra. O presidente da mesa começou nos agradecimentos e acabou nas perguntas. Gustavo não ia aguentar mais nada daquele homem. Enquanto arrumava as coisas na pasta largou um beijinho no ar à Ana e, o mais silenciosamente possível, esgueirou-se pela porta direita do Anfiteatro III. Desceu as escadas num repente e atravessou o longo corredor em passo largo. Pegou no telemóvel. 13h28. Aquele papalvo do coimbrão eloquente tinha-lhes comido vinte minutos a mais e ainda estava lá para cima a despejar idiotices. Virou no corredor do Departamento de História ainda indeciso entre ser apanhado no corredor da secretaria pela Dona Ifigénia ou no átrio central por um aluno ou colega qualquer. Decidiu-se pelo átrio e atravessou-o a toda a pressa oferencendo aos alunos que o cumprimentavam sorrisos distantes e pouco convidativos. Desceu os degraus da porta principal da faculdade e olhou para trás. Lá estava Letras, igual há dez anos atrás, senão um pouco mais podre e mais suja pelos cantos.
No telemóvel tocou uma mensagem. Era o Artur "Demoras?" O Artur não tinha um doutoramento, nunca lera Tácito e de Latim sabia dizer E pluribus unum e Pisces conam furant. Mas dava-lhe a certeza de uma vida além de todas estas coisas de que ele gostava. O Artur era, em grande medida, o que o impedia de ser como a Ana. E ao menos o Artur suava por razões melhores que o jagunço de Coimbra.
quinta-feira, março 27, 2008
Carta de Servília a Décimo
Não esperes que responda ao que me pedes. E não me leves a mal que o não faça. Aos oitenta e quatro anos aprendi a dizer não. Este não que descobri tão tarde não é, no entanto, igual a esse outro desses jogos perigosos de tirar e dar e que raramente quer dizer o que quer dizer. Assim, não esperes por mim. Não. Definitivamente.
Encontrei, nos campos de Lutércia, uma paz que nunca esperei e talvez por isso ela me saiba tanto melhor. Sei que os romanos urbanizados da grande Urbe acham estas terras selvagens e ermas. Não selvagens, mas virgens. Há qualquer coisa aqui que pode nascer. Perco alguns dias a pensar no que será e não chego a nenhuma conclusão. Mas sinto nesta terra uma vontade. É algo diferente desse infernal acampamento de Godorico onde conheci a verdadeira selvajaria dos bárbaros. Lutércia tem árvores altas e chãos fecundos e o mar é tão forte que o seu cheiro chega até aqui nas brisas das manhãs de Primavera.
Xenofonte levou-me a ver o mar. Esse grego velho que eu vi nascer e que é mais velho do que eu é o meu bordão de todas as horas. Na sua paciência infinita preparou tudo e num dia de Junho do ano passado meteu a sua senhora num carro e levou-me. Não te digo quantos dias levei porque prefiro acreditar que não sei esse número e que não os contei. Deixa-me que te fale do mar. Tu andaste nos barcos, mas alguma vez viste a fúria do mar? Quem pode, no resguardo do comandante, onde nos enfiam, ver a verdadeira fúria do mar? Pois eu te digo que o mar dos gauleses é solto e livre, como no fundo também eles, e que a vida de cem imperadores não bastaria para domá-lo. E prefiro que seja assim, que haja algo que fugiu à Ordem e à Norma. Não penses que me perdi nos excessos do orientalismo. Confesso-te, contudo, que gosto de ouvir os magos dos gauleses, a quem eles chamam druídas, e que tenho aprendido muito com eles. Falam-me de coisas distantes de nós e os seus deuses não são senão alma e alheios aos caprichos. Não seria melhor acreditar em deuses assim? Não penses também que aderi ao seu culto, no entanto, ou pior que virei cristã. Não. Cultivei um único ódio na vida e esse foi o ódio pelos cristãos. Não desejo nada de bom a esses semitas sujos e ao seu deus crucificado. Os cristãos trariam mais Norma do que Ordem. Se morro feliz com a idade a que cheguei uma das razões é saber que não serão precisos mais que dez imperadores, ou menos ainda, para que os nomes dessa gente nunca mais sejam escritos.
Mas fecha os olhos agora e não ouças mais os delírios desta velha. Não estou cansada da vida, mas estou já um pouco cansada de ir morrendo. Não sei se verei as folhas caírem e nascerem de novo nas grandes árvores de Lutércia e por certo Xenofonte é agora tão velho que, ainda que quisesse, não me poderia mais levar a ver o mar. E não, não voltarei a Roma. Queres que morra como uma grande matrona num leito de seda do grande palácio que construíste na Urbe? Perdoa o orgulho de uma velha que lhe toma a melhor, mas digo-te não. Uma coisa gostava no entanto, de ver-te outra vez e poisar a minha mão sobre o teu rosto. Também estás velho agora? Quantos anos passaram por ti desde que o meu rapaz se tornou um grande general do Império? Não me digas quantos pois prefiro fingir que os não contei.
Anseio apenas que na tua idade ainda não tenhas aprendido a dizer não como eu aprendi e que sejas tu a aceder ao meu pedido. Vem pelo caminho mais seguro, mas vem depressa, meu filho. Não que morra já, mas porque desejo mais que tudo ter-te a meu lado novamente.
Encontrei, nos campos de Lutércia, uma paz que nunca esperei e talvez por isso ela me saiba tanto melhor. Sei que os romanos urbanizados da grande Urbe acham estas terras selvagens e ermas. Não selvagens, mas virgens. Há qualquer coisa aqui que pode nascer. Perco alguns dias a pensar no que será e não chego a nenhuma conclusão. Mas sinto nesta terra uma vontade. É algo diferente desse infernal acampamento de Godorico onde conheci a verdadeira selvajaria dos bárbaros. Lutércia tem árvores altas e chãos fecundos e o mar é tão forte que o seu cheiro chega até aqui nas brisas das manhãs de Primavera.
Xenofonte levou-me a ver o mar. Esse grego velho que eu vi nascer e que é mais velho do que eu é o meu bordão de todas as horas. Na sua paciência infinita preparou tudo e num dia de Junho do ano passado meteu a sua senhora num carro e levou-me. Não te digo quantos dias levei porque prefiro acreditar que não sei esse número e que não os contei. Deixa-me que te fale do mar. Tu andaste nos barcos, mas alguma vez viste a fúria do mar? Quem pode, no resguardo do comandante, onde nos enfiam, ver a verdadeira fúria do mar? Pois eu te digo que o mar dos gauleses é solto e livre, como no fundo também eles, e que a vida de cem imperadores não bastaria para domá-lo. E prefiro que seja assim, que haja algo que fugiu à Ordem e à Norma. Não penses que me perdi nos excessos do orientalismo. Confesso-te, contudo, que gosto de ouvir os magos dos gauleses, a quem eles chamam druídas, e que tenho aprendido muito com eles. Falam-me de coisas distantes de nós e os seus deuses não são senão alma e alheios aos caprichos. Não seria melhor acreditar em deuses assim? Não penses também que aderi ao seu culto, no entanto, ou pior que virei cristã. Não. Cultivei um único ódio na vida e esse foi o ódio pelos cristãos. Não desejo nada de bom a esses semitas sujos e ao seu deus crucificado. Os cristãos trariam mais Norma do que Ordem. Se morro feliz com a idade a que cheguei uma das razões é saber que não serão precisos mais que dez imperadores, ou menos ainda, para que os nomes dessa gente nunca mais sejam escritos.
Mas fecha os olhos agora e não ouças mais os delírios desta velha. Não estou cansada da vida, mas estou já um pouco cansada de ir morrendo. Não sei se verei as folhas caírem e nascerem de novo nas grandes árvores de Lutércia e por certo Xenofonte é agora tão velho que, ainda que quisesse, não me poderia mais levar a ver o mar. E não, não voltarei a Roma. Queres que morra como uma grande matrona num leito de seda do grande palácio que construíste na Urbe? Perdoa o orgulho de uma velha que lhe toma a melhor, mas digo-te não. Uma coisa gostava no entanto, de ver-te outra vez e poisar a minha mão sobre o teu rosto. Também estás velho agora? Quantos anos passaram por ti desde que o meu rapaz se tornou um grande general do Império? Não me digas quantos pois prefiro fingir que os não contei.
Anseio apenas que na tua idade ainda não tenhas aprendido a dizer não como eu aprendi e que sejas tu a aceder ao meu pedido. Vem pelo caminho mais seguro, mas vem depressa, meu filho. Não que morra já, mas porque desejo mais que tudo ter-te a meu lado novamente.
terça-feira, março 18, 2008
Beijos por Lisboa ou Aquilo que levamos da Cidade
Para Rosa de Medeiros Carreiro e Sara Guia d'Abreu que comigo vão vivendo e amando Lisboa que namora o Tejo.
Deixa que na mesa as velhas digam a sua conversa
Lenta, cansada e sempre igual.
E os cães passam e ladram sem caravanas
E as pessoas passam pelas mesas dos cafés
Aos olhos atentos do Pessoa
E Lisboa assim é um pouco mais Lisboa no crepúsculo duma tarde.
Numa esquina ou numa escada
Escorrega as tuas mãos sobre a minha cintura
E cola a tua boca na minha num beijo
Que não quero levar mais nada da Cidade.
Deixa que na mesa as velhas digam a sua conversa
Lenta, cansada e sempre igual.
E os cães passam e ladram sem caravanas
E as pessoas passam pelas mesas dos cafés
Aos olhos atentos do Pessoa
E Lisboa assim é um pouco mais Lisboa no crepúsculo duma tarde.
Numa esquina ou numa escada
Escorrega as tuas mãos sobre a minha cintura
E cola a tua boca na minha num beijo
Que não quero levar mais nada da Cidade.
quarta-feira, março 12, 2008
Canto do Chegar
Diz-me de chegar
E de tardes com braços abertos
E beija-me de beijos
Que digam coisas
Que mesmo as palavras não dizem.
E de tardes com braços abertos
E beija-me de beijos
Que digam coisas
Que mesmo as palavras não dizem.
Lamento de Partida
Diz-me de partir
E leva-me em palavras de consolo
Que embalado em palavras dói menos ir
Onde tenho de ir.
E leva-me em palavras de consolo
Que embalado em palavras dói menos ir
Onde tenho de ir.
Anseio pelo Lótus
Verei plantas e flores de lótus, génio do lago?
Diz-me se verei plantas e flores de lótus.
Diz-me se verei plantas e flores de lótus.
Retrato de rapariga em casa de praia
Os dedos longos. As mãos. As mãos enroladas em si mesmas. Os dedos entre os dedos. Os dedos longos.
O cabelo caído, um ombro. Os olhos como os do gato. O gato lá atrás. O dos olhos. Atrás dos olhos. Atrás. O Gato. O outro ombro, cabelo caído. Voa como um sopro porque
a janela está aberta. A janela vai dar ao mar. Tem lascas nos caixilhos de ser velha. A janela. Um ombro, o outro ombro; cabelo caído. Velha. A janela branca. Não ela. A cara branca. Jovem. Lisa como uma tira de seda ou como cabelo caído sobre um ombro, ou sobre o outro ombro.
Na casa em cheiro de mar. Entra. Na casa. Maresia. Cheiro de mar. Na sala, pela janela. Velha. A janela e a sala. Branca. A janela, a maresia. A maresia é branca como o rosto. O rosto dela. O rosto dela na janela.
Cabelo, tira de seda, mãos e dedos e cara. E vento, pela janela e que traz o cheiro da maresia. Branca. Como a janela e o rosto dela na janela. E os dedos, e as mãos; um ombro, o outro ombro. E
ela, branca na janela branca, velha de caixilhos velhos, não como ela, mas como a janela
O cabelo caído, um ombro. Os olhos como os do gato. O gato lá atrás. O dos olhos. Atrás dos olhos. Atrás. O Gato. O outro ombro, cabelo caído. Voa como um sopro porque
a janela está aberta. A janela vai dar ao mar. Tem lascas nos caixilhos de ser velha. A janela. Um ombro, o outro ombro; cabelo caído. Velha. A janela branca. Não ela. A cara branca. Jovem. Lisa como uma tira de seda ou como cabelo caído sobre um ombro, ou sobre o outro ombro.
Na casa em cheiro de mar. Entra. Na casa. Maresia. Cheiro de mar. Na sala, pela janela. Velha. A janela e a sala. Branca. A janela, a maresia. A maresia é branca como o rosto. O rosto dela. O rosto dela na janela.
Cabelo, tira de seda, mãos e dedos e cara. E vento, pela janela e que traz o cheiro da maresia. Branca. Como a janela e o rosto dela na janela. E os dedos, e as mãos; um ombro, o outro ombro. E
ela, branca na janela branca, velha de caixilhos velhos, não como ela, mas como a janela
Três salas em três mulheres ou Caminho da inspiração
Uma sala com uma mesa com um livro em cima da mesa.
Uma sala com uma cadeira e uma janela aberta a poente (ponto de luz).
Uma sala com grandes cadeiras encarnadas.
[Silêncio]
Uma mulher lê o livro.
Uma mulher levanta-se da cadeira e corre as cortinas (ainda um ponto de luz).
Uma mulher está estirada numa das grandes cadeiras encarnadas.
[Silêncio]
Saem as três.
(Procuro os gestos, as formas, os estares. Há ainda uma mulher em cada sala.
[Silêncio]
Sento-me eu frente à janela com um livro branco na mão esquerda.
[Silêncio]
Primeiro sonho, ou depois crio, ou antes escrevo?)
Uma sala com uma cadeira e uma janela aberta a poente (ponto de luz).
Uma sala com grandes cadeiras encarnadas.
[Silêncio]
Uma mulher lê o livro.
Uma mulher levanta-se da cadeira e corre as cortinas (ainda um ponto de luz).
Uma mulher está estirada numa das grandes cadeiras encarnadas.
[Silêncio]
Saem as três.
(Procuro os gestos, as formas, os estares. Há ainda uma mulher em cada sala.
[Silêncio]
Sento-me eu frente à janela com um livro branco na mão esquerda.
[Silêncio]
Primeiro sonho, ou depois crio, ou antes escrevo?)
Matrimonius ou Tradução em três variações
Ubi Gaia, ego Gaio; Ubi Gaio, ego Gaia.
Onde Gaia, eu gaio; Onde Gaio, eu Gaia.
Onde fores Mulher, eu serei Homem; Onde fores Homem, eu serei Mulher.
Onde tu fores, eu serei.
(votos matrimoniais no casamento romano)
Onde Gaia, eu gaio; Onde Gaio, eu Gaia.
Onde fores Mulher, eu serei Homem; Onde fores Homem, eu serei Mulher.
Onde tu fores, eu serei.
(votos matrimoniais no casamento romano)
domingo, março 02, 2008
Reencontro dum amigo
Para Filipa Seiceira, feliz de a ter reencontrado.
A noite tem mais graça
(e vejo-a pelo canto do olho) quando se encontra alguém guardado há muito tempo.
(abraço-a) "Sabes que te odeio?" com um sorriso palerma. "Sabes que te amo?" E um abraço ainda mais forte.
E a noite tem mais graça.
Conversamos, conversamos, conversamos, conversas...
A noite tem mais graça
(e vejo-a pelo canto do olho) quando se encontra alguém guardado há muito tempo.
(abraço-a) "Sabes que te odeio?" com um sorriso palerma. "Sabes que te amo?" E um abraço ainda mais forte.
E a noite tem mais graça.
Conversamos, conversamos, conversamos, conversas...
sexta-feira, fevereiro 22, 2008
Conjunto de quatro telas roubadas ou Quatro amigos retratados em dois presentes, um futuro e um intermeio
IVAN
Está lá em baixo, sentado num penhasco qualquer. Tem as costas meio curvadas. Tem as pernas ao acaso. E olha o mar.
Que será que faz? (Tem um caderno em branco nas mãos). Respira. Fundo e forte. E olha o mar.
Cada onda rebenta dentro dele mesmo e deixa-lhe os pés molhados. (Será que está descalço?) O mar é azul. Muito azul. Intensamente azul.
Há vento, uma brisa, e os cabelos finos agitam-se. Ele continua a respirar. Fundo e forte.
O mar é um prolongamento dele mesmo. Ele é forte e duro como o mar.
Lá, em cima do penhasco, sentado sobre as ondas, o rapaz de asas marcadas pelo fogo é infinitamente belo.
ROSA
A Rosa chega ao Kaffa e entre a conversa vai murmurando entre dentes “A mesa do canto, por favor. A mesa do canto!” A Rosa chega ao Kaffa e ri-se e alegra-se porque a mesa do canto está livre. Entra, senta-se e despacha os pratos sujos em cima da mesa com grande rapidez. Até agora nunca parou de falar.
A Rosa chega ao Kaffa e fala duma maneira ininterrupta. Às vezes diz tolices, mas o que ela nunca diz são coisas sem sentido. Senta-se na mesa do canto porque é o melhor sítio para se observar as pessoas. A Rosa chega ao Kaffa e gosta de observar as pessoas.
O empregado é muito simpático e a Rosa é sempre simpática para ele mesmo quando não tem vontade de ser simpática. Porque a Rosa é naturalmente simpática.
A Rosa alegra todos à sua volta com a sua conversa. Ela sabe ter uma conversa animada, interessante e em que qualquer um cabe e tem lugar.
Às vezes a Rosa pára de falar. Olha para o lado esquerdo, onde se senta o seu homem. Ri porque ter o seu homem ao seu lado no Kaffa numa tarde de sol e com boa companhia a lembra de como ela é feliz.
Mas é tudo muito breve. Volta logo a falar.
A Rosa usa um casaco encarnado e um colar comprido de contas ao pescoço. Não é alta, mas é linda.
A Rosa tem fome da vida e tem fome da cidade. É por isso que gosta de ir ao Kaffa em dias de sol e sentar-se na mesa do canto.
Às vezes a Rosa pára de falar, pouco depois de chegar ao Kaffa, e olha para o lado esquerdo. É sempre um momento que passa num instante. Mas é quando é melhor ver a Rosa sorrir.
HUGO
Enquanto o suor escorre fino e frio pelo rosto do pintor o Hugo diverte-se. O pintor tem um ar sério e muito grave e traça cada pincelada como se em cada uma Deus (que é o próprio pintor) criasse de novo o mundo (que é cada pincelada). O pintor nunca dirá ao Hugo para ficar quieto e o Hugo não vai ficar quieto até que o pintor lho peça. Diverte-se a criar este ciclo que apenas ele pode quebrar.
Não é que ele se mexa muito, ou fale, ou esteja a ser alarve. Assim, o Hugo seria apenas para o pintor mais um parvenu para ser pintado. Às vezes o braço descai, outras o braço treme, outras agita-se e outras ainda desenha círculos breves com as pontas dos dedos.
O Hugo tem o cotovelo esquerdo apoiado na mesa e a mão direita derramada sobre ela. Aberto está um livro com alguns sermões do Padre António Vieira. A edição é do Hugo. Do pescoço cai-lhe o cachecol azul, porque os cachecóis do Hugo são como jóias que ele usa, e o cachecol azul é a jóia mais delicada. É preciso mais que este pintor para perceber a elegância do Hugo.
O pintor olha para ele como quem lança um anátema. O Hugo é o retratado mais herético que ele já teve. Porque os retratados são muito direitos e bem comportados e têm orgulho que o pintor lhes pinte o retrato. Porque os retratados deste pintor são parvenus. Mas o Hugo não é um parvenu para ser pintado. Em conjunto com os braços, dobrado e derramado, com o Vieira e o cachecol azul o Hugo pôs na ponta da mesa um frasco imenso de wasabi e uma lindíssima caixa repleta de delícias turcas.
Às vezes o braço descai. Mas o Hugo tem sempre aquele sorriso de quem também sorri com os olhos que se abre ligeiramente entre os beiços ao canto esquerdo. E o sorriso faz o pintor pintar fino e frio.
ANA
É uma manhã de sábado e é Primavera. Porque o céu está limpo a luz de Lisboa é incomparável. A varanda das águas furtadas tem camélias plantadas. A Ana experimentou rosas primeiro, mas as rosas não resistem tanto como as camélias e as rosas intoxicavam a casa de um cheiro melado nas tardes de Verão. A Ana experimentou depois as camélias e agora estão na varanda das águas furtadas.
A Ana tem uma cadeira frente à janela. A janela tem quase o pé direito da sala e abre para uma praça de Lisboa. A Ana senta-se na cadeira frente à janela numa manhã de sábado de Primavera.
Numa mesa ao canto há dois copos usados e agora vazios. A Ana ontem foi ao teatro e voltou tarde depois de passar por Santos. A Ana ainda dançou um bocado no Lux. Mas só um bocado porque a Ana não perde noites, goza-as. Quando chegou a casa bebeu alguma coisa com ele. Agora, numa manhã de sábado de Primavera, ele está nu, deitado na cama do quarto grande. Ela está sentada frente à janela e pensa no que vai fazer no dia de hoje. Uma amiga tem uma exposição de pintura numa galeria do Rato. Depois há-de jantar num restaurante qualquer. A Ana é conhecida nas galerias e nos restaurantes porque a Ana tem uma vida. A vida da Ana é a Cidade. Às vezes o teatro, os bailados, os concertos, mais raramente a ópera. Muitas vezes as tertúlias, os cafés, os Grémios, mais raramente o Bairro Alto.
A Ana é aquilo que ela fez de si mesma.
Daqui a cerca de duas horas ele vai acordar. A Ana vai voltar ao quarto, vai guardar a roupa da noite passada e vai vestir o vestido amarelo. Porque a Ana pode vestir um vestido amarelo numa manhã de sábado de Primavera. Depois vão falar e rir muito e descer as escadas do prédio. Então a Ana há-de ir ao encontro da Cidade.
Vão tomar o pequeno-almoço à Confeitaria Nacional e vão ficar numa mesa frente a uma janela porque a Ana não pode ficar nunca sem ver a Cidade. Depois a Ana vai despachá-lo com uma desculpa qualquer. Qualquer pessoa que passasse e lhe perguntasse ele diria que era namorado dela. A Ana não diria o mesmo. Antes de ir a casa chamar almoço a uma sandes rápida a Ana desce a Rua Augusta, atravessa a Praça do Comércio e chega ao Rio. Ela é parte da sua cidade em cada rua.
Em frente ao rio a Ana respira. É assim que a Ana constrói o amanhã.
Está lá em baixo, sentado num penhasco qualquer. Tem as costas meio curvadas. Tem as pernas ao acaso. E olha o mar.
Que será que faz? (Tem um caderno em branco nas mãos). Respira. Fundo e forte. E olha o mar.
Cada onda rebenta dentro dele mesmo e deixa-lhe os pés molhados. (Será que está descalço?) O mar é azul. Muito azul. Intensamente azul.
Há vento, uma brisa, e os cabelos finos agitam-se. Ele continua a respirar. Fundo e forte.
O mar é um prolongamento dele mesmo. Ele é forte e duro como o mar.
Lá, em cima do penhasco, sentado sobre as ondas, o rapaz de asas marcadas pelo fogo é infinitamente belo.
ROSA
A Rosa chega ao Kaffa e entre a conversa vai murmurando entre dentes “A mesa do canto, por favor. A mesa do canto!” A Rosa chega ao Kaffa e ri-se e alegra-se porque a mesa do canto está livre. Entra, senta-se e despacha os pratos sujos em cima da mesa com grande rapidez. Até agora nunca parou de falar.
A Rosa chega ao Kaffa e fala duma maneira ininterrupta. Às vezes diz tolices, mas o que ela nunca diz são coisas sem sentido. Senta-se na mesa do canto porque é o melhor sítio para se observar as pessoas. A Rosa chega ao Kaffa e gosta de observar as pessoas.
O empregado é muito simpático e a Rosa é sempre simpática para ele mesmo quando não tem vontade de ser simpática. Porque a Rosa é naturalmente simpática.
A Rosa alegra todos à sua volta com a sua conversa. Ela sabe ter uma conversa animada, interessante e em que qualquer um cabe e tem lugar.
Às vezes a Rosa pára de falar. Olha para o lado esquerdo, onde se senta o seu homem. Ri porque ter o seu homem ao seu lado no Kaffa numa tarde de sol e com boa companhia a lembra de como ela é feliz.
Mas é tudo muito breve. Volta logo a falar.
A Rosa usa um casaco encarnado e um colar comprido de contas ao pescoço. Não é alta, mas é linda.
A Rosa tem fome da vida e tem fome da cidade. É por isso que gosta de ir ao Kaffa em dias de sol e sentar-se na mesa do canto.
Às vezes a Rosa pára de falar, pouco depois de chegar ao Kaffa, e olha para o lado esquerdo. É sempre um momento que passa num instante. Mas é quando é melhor ver a Rosa sorrir.
HUGO
Enquanto o suor escorre fino e frio pelo rosto do pintor o Hugo diverte-se. O pintor tem um ar sério e muito grave e traça cada pincelada como se em cada uma Deus (que é o próprio pintor) criasse de novo o mundo (que é cada pincelada). O pintor nunca dirá ao Hugo para ficar quieto e o Hugo não vai ficar quieto até que o pintor lho peça. Diverte-se a criar este ciclo que apenas ele pode quebrar.
Não é que ele se mexa muito, ou fale, ou esteja a ser alarve. Assim, o Hugo seria apenas para o pintor mais um parvenu para ser pintado. Às vezes o braço descai, outras o braço treme, outras agita-se e outras ainda desenha círculos breves com as pontas dos dedos.
O Hugo tem o cotovelo esquerdo apoiado na mesa e a mão direita derramada sobre ela. Aberto está um livro com alguns sermões do Padre António Vieira. A edição é do Hugo. Do pescoço cai-lhe o cachecol azul, porque os cachecóis do Hugo são como jóias que ele usa, e o cachecol azul é a jóia mais delicada. É preciso mais que este pintor para perceber a elegância do Hugo.
O pintor olha para ele como quem lança um anátema. O Hugo é o retratado mais herético que ele já teve. Porque os retratados são muito direitos e bem comportados e têm orgulho que o pintor lhes pinte o retrato. Porque os retratados deste pintor são parvenus. Mas o Hugo não é um parvenu para ser pintado. Em conjunto com os braços, dobrado e derramado, com o Vieira e o cachecol azul o Hugo pôs na ponta da mesa um frasco imenso de wasabi e uma lindíssima caixa repleta de delícias turcas.
Às vezes o braço descai. Mas o Hugo tem sempre aquele sorriso de quem também sorri com os olhos que se abre ligeiramente entre os beiços ao canto esquerdo. E o sorriso faz o pintor pintar fino e frio.
ANA
É uma manhã de sábado e é Primavera. Porque o céu está limpo a luz de Lisboa é incomparável. A varanda das águas furtadas tem camélias plantadas. A Ana experimentou rosas primeiro, mas as rosas não resistem tanto como as camélias e as rosas intoxicavam a casa de um cheiro melado nas tardes de Verão. A Ana experimentou depois as camélias e agora estão na varanda das águas furtadas.
A Ana tem uma cadeira frente à janela. A janela tem quase o pé direito da sala e abre para uma praça de Lisboa. A Ana senta-se na cadeira frente à janela numa manhã de sábado de Primavera.
Numa mesa ao canto há dois copos usados e agora vazios. A Ana ontem foi ao teatro e voltou tarde depois de passar por Santos. A Ana ainda dançou um bocado no Lux. Mas só um bocado porque a Ana não perde noites, goza-as. Quando chegou a casa bebeu alguma coisa com ele. Agora, numa manhã de sábado de Primavera, ele está nu, deitado na cama do quarto grande. Ela está sentada frente à janela e pensa no que vai fazer no dia de hoje. Uma amiga tem uma exposição de pintura numa galeria do Rato. Depois há-de jantar num restaurante qualquer. A Ana é conhecida nas galerias e nos restaurantes porque a Ana tem uma vida. A vida da Ana é a Cidade. Às vezes o teatro, os bailados, os concertos, mais raramente a ópera. Muitas vezes as tertúlias, os cafés, os Grémios, mais raramente o Bairro Alto.
A Ana é aquilo que ela fez de si mesma.
Daqui a cerca de duas horas ele vai acordar. A Ana vai voltar ao quarto, vai guardar a roupa da noite passada e vai vestir o vestido amarelo. Porque a Ana pode vestir um vestido amarelo numa manhã de sábado de Primavera. Depois vão falar e rir muito e descer as escadas do prédio. Então a Ana há-de ir ao encontro da Cidade.
Vão tomar o pequeno-almoço à Confeitaria Nacional e vão ficar numa mesa frente a uma janela porque a Ana não pode ficar nunca sem ver a Cidade. Depois a Ana vai despachá-lo com uma desculpa qualquer. Qualquer pessoa que passasse e lhe perguntasse ele diria que era namorado dela. A Ana não diria o mesmo. Antes de ir a casa chamar almoço a uma sandes rápida a Ana desce a Rua Augusta, atravessa a Praça do Comércio e chega ao Rio. Ela é parte da sua cidade em cada rua.
Em frente ao rio a Ana respira. É assim que a Ana constrói o amanhã.
segunda-feira, fevereiro 11, 2008
Tejo Brasileiro
Quem dera Tom Jobim. Por um pouco numa escada de Lisboa. Um porto. O crepúsculo outra vez. Passando em minha frente breve garota de Ipanema. De pé descalço pela calçada do Chiado. Lá vai ela. Me enche de graça.
Entretanto olhos de oliva espreitam do canto. Vinícius, Deus meu, que saudade. E tudo na esquina entre o Carmo e a Trindade.
E Chico que passa com a Banda, Caetano tão ao de leve segurando a mão de sua irmã Bethânia.
Lisboa, suave, namora o Tejo, lá até onde ele chega na Baía de Salvador.
Entretanto olhos de oliva espreitam do canto. Vinícius, Deus meu, que saudade. E tudo na esquina entre o Carmo e a Trindade.
E Chico que passa com a Banda, Caetano tão ao de leve segurando a mão de sua irmã Bethânia.
Lisboa, suave, namora o Tejo, lá até onde ele chega na Baía de Salvador.
quarta-feira, janeiro 30, 2008
Cinco teorias sobre o riso ou Conjunto de cinco quadros bastante risonhos
I
Uma gargalhada. Algures na ponta da mesa alguém disse alguma coisa sem graça (fez-nos rir apenas a vontade de rir).
II
É certo que há silêncios em todas as viagens. Vamos dizer ordinarices só para os chatear.
III
Nada existe superior à Linguística. É por isso que nos rimos tantas vezes.
IV
Entre a Linguagem, a Farmácia e a História podem criar-se múltiplas ligações. Assim como um rendez-vous de coisas apatetadas que existem num mesmo espaço por acaso.
V
Por fim, a procura do sentido nas coisas sem sentido dá-nos vontade de rir ainda mais. O riso lembra-nos da nossa estupidez natural.
Uma gargalhada. Algures na ponta da mesa alguém disse alguma coisa sem graça (fez-nos rir apenas a vontade de rir).
II
É certo que há silêncios em todas as viagens. Vamos dizer ordinarices só para os chatear.
III
Nada existe superior à Linguística. É por isso que nos rimos tantas vezes.
IV
Entre a Linguagem, a Farmácia e a História podem criar-se múltiplas ligações. Assim como um rendez-vous de coisas apatetadas que existem num mesmo espaço por acaso.
V
Por fim, a procura do sentido nas coisas sem sentido dá-nos vontade de rir ainda mais. O riso lembra-nos da nossa estupidez natural.
Viagem através do Silêncio ou Contorno de outras palavras
Para dizer alguma coisa bastaria que me calasse.
Ainda assim as minhas palavras iriam até onde tu estás.
Ainda assim as minhas palavras iriam até onde tu estás.
quarta-feira, janeiro 23, 2008
Porque assim se esconde a solidão ou Lamechices em torno do estar só
Se tudo isto existe numa resposta à minha solidão
Então porque existe esta dor como se eu amasse de facto?
Então porque existe esta dor como se eu amasse de facto?
A Sala, o Branco e a Janela
Não há nada de novo na sala vazia e antiga, senão a invenção do Branco todas as manhãs pela janela.
Ad Te
Assim,
Distante,
Então tão longe,
Onde guardo, ainda que por pouco, uma ideia tua.
(E o teu sorriso teimoso teimando em surgir entre cada conversa)
Distante,
Então tão longe,
Onde guardo, ainda que por pouco, uma ideia tua.
(E o teu sorriso teimoso teimando em surgir entre cada conversa)
sexta-feira, janeiro 18, 2008
O teu corpo e a minha noite
Enlaço meu laço enlaçado
Em torno do torno do teu torso
E sigo seguindo a noite
Até que breve o sol a verta em manhã.
Em torno do torno do teu torso
E sigo seguindo a noite
Até que breve o sol a verta em manhã.
quarta-feira, janeiro 16, 2008
Brevidades a que mal se pode dar um nome ou Claro anseio pelo verão enquanto é de noite
Se esta noite se alongar em meu corpo
Que me chegues de Verão e Esperança
E cansado derrames em torno
Quantas palavras couberem no teu ventre novo.
Que me chegues de Verão e Esperança
E cansado derrames em torno
Quantas palavras couberem no teu ventre novo.
quinta-feira, janeiro 10, 2008
Enquanto me deito com as tuas palavras
É quando me chegas
Que tenho ganas de me deitar com as tuas palavras
Longas, lisas, leves,
Mas tuas, como o meu corpo é teu
Agora que morro de uma pequena morte dentro de ti.
Que tenho ganas de me deitar com as tuas palavras
Longas, lisas, leves,
Mas tuas, como o meu corpo é teu
Agora que morro de uma pequena morte dentro de ti.
Mediterrâneo ou A essência do Branco ou ainda Súbitos anseios mediterrânicos pela palavra Poesia
Para a Daniela, sobre uma conversa, mas sobretudo sobre o Branco.
Nem às escuras, nem sob as sombras,
Ausente da seiva de sangues correntes,
Ou da cadência dos corpos mortos,
Sem mágoa, ou raiva, ranger de dentes
Ou mesmo a força em fúria de braços tortos,
Será limpo e leve o dia novo
Filho dum Crepúsculo de Verão
Na casa, no mar, além do povo,
Por onde o labor das aranhas corra o chão.
A ânfora, a coluna, o Fado, o encanto,
A História e em tudo o odor do orégão
E no dia branco, no pateo branco,
Eis que surjem, escondidos dum canto,
Os deuses que a palavra Poesia carregam.
Nem às escuras, nem sob as sombras,
Ausente da seiva de sangues correntes,
Ou da cadência dos corpos mortos,
Sem mágoa, ou raiva, ranger de dentes
Ou mesmo a força em fúria de braços tortos,
Será limpo e leve o dia novo
Filho dum Crepúsculo de Verão
Na casa, no mar, além do povo,
Por onde o labor das aranhas corra o chão.
A ânfora, a coluna, o Fado, o encanto,
A História e em tudo o odor do orégão
E no dia branco, no pateo branco,
Eis que surjem, escondidos dum canto,
Os deuses que a palavra Poesia carregam.
domingo, janeiro 06, 2008
Palavras que diga ao amigo distante ou Dança moribunda de quotidianos outrora íntimos
Era tudo na banalidade dum restaurante pela hora do jantar. Algures em Lisboa, desses sítios onde, com hora marcada, se consegue uma mesa para sentar-se mais de oito. O preço, claro, vem com o corre-corre das pessoas por aqui e por ali roçando-se contra as costas das cadeiras (“Com licença, com licença!”), roçadas todas umas de encontro às outras numa rentabilização implacável do espaço.
Por sítios destes tudo começa em tom mais elevado, sobretudo as conversas. Leves, fluidas, banais e breves e sobretudo fáceis de mudar o rumo. Discorriam sobre tantas coisas poucas, memórias dum passado ainda recente, ainda presente em quem é jovem de mais para contar a memória em décadas.
E pelo meio dos outros ele rejubilava. Uma alegria exagerada, dessas que a culpa leva em lume brando até estar bem cozinhada. Uma euforia em melaço, quase aos gritos. Queria tudo ao mesmo tempo. Quase em pontas (as cadeiras sempre tão próximas) corria a mesa de ponta a ponta e perguntava tudo a todos: por onde estavam, que faziam, com que vagar lhes corria a vida mais que os dias. Dava grandes palmadas nas costas dos homens e beijos alongados pelas bochechas das meninas. Era como um vinho mau que todos devem suportar num jantar de cerimónia.
O outro ali ficava olhando, esperando, rindo por vezes. Como que aprendia. Sentados lado a lado quantas vezes ele lhe espetou os dedos no ombro “Então pá, que tal vai isso?”. Soltava lugares comuns em resposta. Percebia agora que amontoava palavras mais do que verdadeiramente falava. Deixava-as sair em catadupa, quase sem controlo, tantas vezes tão próximas da histeria do outro. Eram quase sempre molhos de palavras lambidas na vontade imensa que por uma vez soassem como antes, como quando conseguia falar e ser escutado.
Este é o momento em que a intimidade regride. E uma dor em todas as maneiras dolorosa atravessa-os aos dois, tão diferente porém em cada um, como os lados opostos e intocáveis de uma mesma coisa. Um soltava promessas de futuros jantares, anseios de encontros. Lançava-se num devaneio de projectos quixotescos como se de cada vez tentasse baixar a culpa por um fracasso que só ele considerava. Porque em verdade tantas promessas não eram mais que a negação do seu falhanço na gestão da sua vida, das suas horas onde os amigos podiam encontrá-lo talvez uma vez de dois em dois meses. O outro evitava-o enquanto se evitava. Aprendia o contrário da intimidade, que é bem mais difícil que o caminho contrário a esse. Recusava-se as respostas, moderava-se nos sorrisos, contava os olhares no medo que fossem já demais. Era uma luta de fera ferida travada consigo mesmo, em si mesmo, como se se negasse um grande prazer que sabia de antemão mais que efémero, algo já no limbo confuso e leve da sua vontade e do real.
Entre os dois não havia agora silêncios, mas vazios. Não havia nada para dizer à boca fechada agora que o seu quotidiano inexistente sufocava moribundo ao peso das horas. Porque entre eles calcavam-se fundas as horas, os dias, os espaços que não partilhavam mais, tudo aquilo que agora já não dividiam. E assim afundavam-se ainda mais nessa dança macabra e triste do desespero de recuperar algo que talvez se tivesse irremediavelmente transformado.
No fim de quase todas as coisas, depois de quase todas as lutas, entraram no carro para que ele o levasse a casa. E pela primeira vez o vazio, que entre eles se sobrepunha ao silêncio, tornara-se esmagador. E mesmo que tivessem tentado quebrá-lo não teriam sido capazes de quebrar algo que escapava desgraçadamente ao seu controlo.
Saiu do carro sem abraços, quase sem palavras. A dor era tão funda, tão cavada entre os dois no abismo do vazio que preferiam não se falar assim como dois amigos que, na iminência duma viagem, preferem não se encontrar no dia da partida para não sofrer mais esse instante. Não sabem que o sofrimento de partir não é senão a materialização do medo de perder que é o maior de todos os medos. Mas é ao mesmo tempo o alento do desejo de voltar. É quando a dor chega a sítios tão fundos que toca os nossos sentimentos que sabemos que é hora de forjar novas palavras e viver ainda novos dos infinitos quotidianos que se podem viver entre duas pessoas.
Por sítios destes tudo começa em tom mais elevado, sobretudo as conversas. Leves, fluidas, banais e breves e sobretudo fáceis de mudar o rumo. Discorriam sobre tantas coisas poucas, memórias dum passado ainda recente, ainda presente em quem é jovem de mais para contar a memória em décadas.
E pelo meio dos outros ele rejubilava. Uma alegria exagerada, dessas que a culpa leva em lume brando até estar bem cozinhada. Uma euforia em melaço, quase aos gritos. Queria tudo ao mesmo tempo. Quase em pontas (as cadeiras sempre tão próximas) corria a mesa de ponta a ponta e perguntava tudo a todos: por onde estavam, que faziam, com que vagar lhes corria a vida mais que os dias. Dava grandes palmadas nas costas dos homens e beijos alongados pelas bochechas das meninas. Era como um vinho mau que todos devem suportar num jantar de cerimónia.
O outro ali ficava olhando, esperando, rindo por vezes. Como que aprendia. Sentados lado a lado quantas vezes ele lhe espetou os dedos no ombro “Então pá, que tal vai isso?”. Soltava lugares comuns em resposta. Percebia agora que amontoava palavras mais do que verdadeiramente falava. Deixava-as sair em catadupa, quase sem controlo, tantas vezes tão próximas da histeria do outro. Eram quase sempre molhos de palavras lambidas na vontade imensa que por uma vez soassem como antes, como quando conseguia falar e ser escutado.
Este é o momento em que a intimidade regride. E uma dor em todas as maneiras dolorosa atravessa-os aos dois, tão diferente porém em cada um, como os lados opostos e intocáveis de uma mesma coisa. Um soltava promessas de futuros jantares, anseios de encontros. Lançava-se num devaneio de projectos quixotescos como se de cada vez tentasse baixar a culpa por um fracasso que só ele considerava. Porque em verdade tantas promessas não eram mais que a negação do seu falhanço na gestão da sua vida, das suas horas onde os amigos podiam encontrá-lo talvez uma vez de dois em dois meses. O outro evitava-o enquanto se evitava. Aprendia o contrário da intimidade, que é bem mais difícil que o caminho contrário a esse. Recusava-se as respostas, moderava-se nos sorrisos, contava os olhares no medo que fossem já demais. Era uma luta de fera ferida travada consigo mesmo, em si mesmo, como se se negasse um grande prazer que sabia de antemão mais que efémero, algo já no limbo confuso e leve da sua vontade e do real.
Entre os dois não havia agora silêncios, mas vazios. Não havia nada para dizer à boca fechada agora que o seu quotidiano inexistente sufocava moribundo ao peso das horas. Porque entre eles calcavam-se fundas as horas, os dias, os espaços que não partilhavam mais, tudo aquilo que agora já não dividiam. E assim afundavam-se ainda mais nessa dança macabra e triste do desespero de recuperar algo que talvez se tivesse irremediavelmente transformado.
No fim de quase todas as coisas, depois de quase todas as lutas, entraram no carro para que ele o levasse a casa. E pela primeira vez o vazio, que entre eles se sobrepunha ao silêncio, tornara-se esmagador. E mesmo que tivessem tentado quebrá-lo não teriam sido capazes de quebrar algo que escapava desgraçadamente ao seu controlo.
Saiu do carro sem abraços, quase sem palavras. A dor era tão funda, tão cavada entre os dois no abismo do vazio que preferiam não se falar assim como dois amigos que, na iminência duma viagem, preferem não se encontrar no dia da partida para não sofrer mais esse instante. Não sabem que o sofrimento de partir não é senão a materialização do medo de perder que é o maior de todos os medos. Mas é ao mesmo tempo o alento do desejo de voltar. É quando a dor chega a sítios tão fundos que toca os nossos sentimentos que sabemos que é hora de forjar novas palavras e viver ainda novos dos infinitos quotidianos que se podem viver entre duas pessoas.
sábado, dezembro 29, 2007
Escrever
Escrever sobre nós e sobre aquilo que sentimos não guarda nada em si de extraordinário. Qualquer um é capaz de escrever sobre o que tem aflorado na pele.
Escrever sobre o resto, tudo aquilo que existe além de nós, é bem mais difícil. Criar outros Eus (qualquer personagem criada por nós é sempre um alter ego) implica ao mesmo tempo uma catábase e uma anábase em nós mesmos, porque a escrita, como qualquer forma de produção artística, é o melhor exemplo do acto fenomenológico. Nada do que existe para nós pode ser exterior a nós mesmos, o que não impede que muitas dessas coisas nos sejam estranhas. A viagem à percepção dessas coisas que temos interiorizadas mas em campo inexplorado representa em simultâneo a dor profunda de arrancar algo de nós e a alegria maior de nos conhecermos mais profundamente.
Qualquer personagem nasce das dores do seu criador, porquanto qualquer personagem é uma parte desse mesmo criador a que foi dada forma e nome concreto. A partir do momento que algo tem nome é real e existe! A Palavra define tudo.
Quem escreve, escreve assim para ser Deus não de si mesmo, mas em si mesmo.
Escrever sobre o resto, tudo aquilo que existe além de nós, é bem mais difícil. Criar outros Eus (qualquer personagem criada por nós é sempre um alter ego) implica ao mesmo tempo uma catábase e uma anábase em nós mesmos, porque a escrita, como qualquer forma de produção artística, é o melhor exemplo do acto fenomenológico. Nada do que existe para nós pode ser exterior a nós mesmos, o que não impede que muitas dessas coisas nos sejam estranhas. A viagem à percepção dessas coisas que temos interiorizadas mas em campo inexplorado representa em simultâneo a dor profunda de arrancar algo de nós e a alegria maior de nos conhecermos mais profundamente.
Qualquer personagem nasce das dores do seu criador, porquanto qualquer personagem é uma parte desse mesmo criador a que foi dada forma e nome concreto. A partir do momento que algo tem nome é real e existe! A Palavra define tudo.
Quem escreve, escreve assim para ser Deus não de si mesmo, mas em si mesmo.
sexta-feira, dezembro 21, 2007
Duas janelas ou Espaço de se ver o mar
Ambas chegam até onde o mar começa
E na maioria das vezes vão até onde o mar acaba.
E na maioria das vezes vão até onde o mar acaba.
Por onde- as palavras
Para Rosa de Medeiros Carreiro em certa noite
Pensei em dizê-las,
Um sorriso, em sussurro,
Correndo em riacho, torrentes,
por onde- as palavras...
Pensei em dizê-las,
Um sorriso, em sussurro,
Correndo em riacho, torrentes,
por onde- as palavras...
domingo, dezembro 16, 2007
Talvez ou Viagem Breve em torno das ideias
Servília em viagem. O corpo na liteira, largado como as peles de leopardo largadas sobre o corpo frio. Busca do calor. Lá fora o mundo. Por uma nesga, uma cortina. Diáfano.
Gustavo e o excesso. A busca de algo entranhado. O páteo certo. Talvez o mar do Meco e as medidas exactas de um páteo branco. Como que algas nos seus pés. É uma dança em torno de si mesmo. Haverá tempos? Quantos aoristos? Onde se encontra Gustavo na verdade? A casa, a árvore, o mar. Por aí andará Gustavo.
Lucília quase por nascer. Demóstenes segurando-lhe a mão. Amedrontad(). Mais eu do que ela. Não há paisagens que lhe descreva. Talvez as mãos, o cabelo, por certo o corpo quebrado em contorno na cintura. Lucília, como um prazer desenrolado na língua. Para quando?
Depois Tristão Vaz da Cunha e Gabriel Tavares, ainda longe, mais que muito incertos, aquém das ideias, mas já além de mim mesmo. Como que existem sem mesmo eu conseguir que existam. Quem dirá deles alguma coisa? Quem poderá fazê-lo?
Começo pelo corpo. É sempre preciso dar-lhes um corpo. Mais tarde talvez a vida.
Gustavo e o excesso. A busca de algo entranhado. O páteo certo. Talvez o mar do Meco e as medidas exactas de um páteo branco. Como que algas nos seus pés. É uma dança em torno de si mesmo. Haverá tempos? Quantos aoristos? Onde se encontra Gustavo na verdade? A casa, a árvore, o mar. Por aí andará Gustavo.
Lucília quase por nascer. Demóstenes segurando-lhe a mão. Amedrontad(). Mais eu do que ela. Não há paisagens que lhe descreva. Talvez as mãos, o cabelo, por certo o corpo quebrado em contorno na cintura. Lucília, como um prazer desenrolado na língua. Para quando?
Depois Tristão Vaz da Cunha e Gabriel Tavares, ainda longe, mais que muito incertos, aquém das ideias, mas já além de mim mesmo. Como que existem sem mesmo eu conseguir que existam. Quem dirá deles alguma coisa? Quem poderá fazê-lo?
Começo pelo corpo. É sempre preciso dar-lhes um corpo. Mais tarde talvez a vida.
Poesia d'Inverno
Tempo d'Inverno,
Sem palavras, sem sol, até mesmo sem sombras.
É como tactear às cegas num quarto de luz.
Sem palavras, sem sol, até mesmo sem sombras.
É como tactear às cegas num quarto de luz.
segunda-feira, dezembro 03, 2007
O Início de outra história ou Tempo vigilante das saudades
Para a Sofia Palma Baracho, que me fez lembrar os cheiros. Para as minhas avós e todas as tardes em que tudo começou assim.
- Não mexa nisso Margarida! Já sabe que não gosto que mexa nisso. Era da minha mãe.
(Tem o ar calmo. Lá fora pela janela o dia é mais ou menos idêntico. As mãos são já máquinas automáticas de fazer tempo cada vez que segura as agulhas.)
-Tu tens mãe, avó!?
(O ar breve e marcado do espanto natural.)
-Claro que sim Margarida. A mãe da avó é a avó Luísa.
Fala por sorrisos. Margarida encontra um lugar rápido nas pernas cansadas da avó. As mãos mansas que a acolhem já largaram as agulhas. Que se diria de Penélope nesta cena?
- Não mexa nisso Margarida! Já sabe que não gosto que mexa nisso. Era da minha mãe.
(Tem o ar calmo. Lá fora pela janela o dia é mais ou menos idêntico. As mãos são já máquinas automáticas de fazer tempo cada vez que segura as agulhas.)
-Tu tens mãe, avó!?
(O ar breve e marcado do espanto natural.)
-Claro que sim Margarida. A mãe da avó é a avó Luísa.
Fala por sorrisos. Margarida encontra um lugar rápido nas pernas cansadas da avó. As mãos mansas que a acolhem já largaram as agulhas. Que se diria de Penélope nesta cena?
quarta-feira, novembro 28, 2007
Elisa
For the charming young lady Reynolds, who has inspired these words.
Elisa; que fascínio! Vê-la, pudesse eu vê-la como ontem, como antes, como há dias! Branca, bela e breve, longa, lisa e leve. Quando ela passa, passa e ao passar traz encanto.
Admirá-la é ganhar tempo. Enquanto as suas mãos pousam ao seu colo Elisa é também os seus olhos. Que palavras para os olhos de Elisa? Que sonho quando nos olha com seus olhos sonhadores. A gente mergulha e s'entorna em seus recatados pudores.
De Elisa dir-se-á que é bela. Que ela é bela é nela um estado de existência. Elisa. Que nome, que insistência. Elisa!
Elisa em brevidade, Elisa em sonho, em cratera, em porvir.
Elisa meu sonho manso, deleite de meu descanso, Elisa do meu devir.
Elisa; que fascínio! Vê-la, pudesse eu vê-la como ontem, como antes, como há dias! Branca, bela e breve, longa, lisa e leve. Quando ela passa, passa e ao passar traz encanto.
Admirá-la é ganhar tempo. Enquanto as suas mãos pousam ao seu colo Elisa é também os seus olhos. Que palavras para os olhos de Elisa? Que sonho quando nos olha com seus olhos sonhadores. A gente mergulha e s'entorna em seus recatados pudores.
De Elisa dir-se-á que é bela. Que ela é bela é nela um estado de existência. Elisa. Que nome, que insistência. Elisa!
Elisa em brevidade, Elisa em sonho, em cratera, em porvir.
Elisa meu sonho manso, deleite de meu descanso, Elisa do meu devir.
quinta-feira, novembro 22, 2007
Palavras de um amor que já não é mais ou Pequeno episódio trágico dos quotidianos
De ti tenho nojo e abstracção. Que há mais entre nós agora que viciámos as palavras?
Nunca mais te poderei dizer nada de belo e não voltará a haver horas entre nós agora que encheste o silêncio de vazios.
E ainda assim insistimos os dois neste mundo de coisas não-partilhadas, nesta cama descoberta e desfeita onde agora só dormem dois corpos.
Houve um tempo em que soubemos ser um. Mas o tempo do mito foi há muito tempo.
Fomos comidos pelos dias e não temos senão as sobras parcas de um quotidiano exausto.
Já não há mais nada em mim que te dê.
Já não há nada de ti que eu espere na lonjura dos dias.
Não esperes o meu corpo esta noite deitado ao lado do teu.
Nunca mais te poderei dizer nada de belo e não voltará a haver horas entre nós agora que encheste o silêncio de vazios.
E ainda assim insistimos os dois neste mundo de coisas não-partilhadas, nesta cama descoberta e desfeita onde agora só dormem dois corpos.
Houve um tempo em que soubemos ser um. Mas o tempo do mito foi há muito tempo.
Fomos comidos pelos dias e não temos senão as sobras parcas de um quotidiano exausto.
Já não há mais nada em mim que te dê.
Já não há nada de ti que eu espere na lonjura dos dias.
Não esperes o meu corpo esta noite deitado ao lado do teu.
domingo, novembro 18, 2007
O milagre da existência das coisas ou Espanto em contínuo que me corre as palavras
Eis que o dia ligeiro se acomoda.
Sob os raios da primeira luz
As coisas existem plenas de espanto
Em ser elas mesmas.
Sob os raios da primeira luz
As coisas existem plenas de espanto
Em ser elas mesmas.
As tuas mãos, um mistério
Sei sempre onde encontrar
Os caminhos das tuas mãos.
São segredos à tarde.
Longos, brandos, mansos,
Chegam cedo.
Ficam.
Restam.
Lá no caminho das tuas mãos
Que ainda joga calmamente
O jogo das minhas coisas
No demorar certo de todas as horas.
Os caminhos das tuas mãos.
São segredos à tarde.
Longos, brandos, mansos,
Chegam cedo.
Ficam.
Restam.
Lá no caminho das tuas mãos
Que ainda joga calmamente
O jogo das minhas coisas
No demorar certo de todas as horas.
Palavras que perco
Onde, por onde,
Mais longe, cada vez mais...
Palavras minhas que correm soltas
Em espaços que ficam
Para além dos dedos das minhas mãos.
Mais longe, cada vez mais...
Palavras minhas que correm soltas
Em espaços que ficam
Para além dos dedos das minhas mãos.
quarta-feira, novembro 14, 2007
Segredos que se perdem nas palavras do silêncio
Porque me pedes algo de maior
Dir-te-ei o silêncio
De cada coisa
Que fala sempre nas horas perdidas
Para que saibas do espanto e da verdade
Em tudo o que existe.
Dir-te-ei o silêncio
De cada coisa
Que fala sempre nas horas perdidas
Para que saibas do espanto e da verdade
Em tudo o que existe.
Palavras brancas ou Poemas em branco
Espanto
Quando a palavra ganha corpo
Na exactidão da página branca.
Como é certa
A linha traçada
E ainda assim eu resto aquém
De tudo aquilo que guardo para dizer.
Quando a palavra ganha corpo
Na exactidão da página branca.
Como é certa
A linha traçada
E ainda assim eu resto aquém
De tudo aquilo que guardo para dizer.
Esperança clássica
E agora, ó Parcas, que vos dizer de mim?
Tarde é a hora dos deuses, jovem a hora dos Homens.
Que sabemos nós do sonho de Adriano ou do canto perdido da Sibila?
Tarde é a hora dos deuses, jovem a hora dos Homens.
Que sabemos nós do sonho de Adriano ou do canto perdido da Sibila?
Declinação em torno do outro ou Ligeiro cansaço ao estudo do Grego
Podia pois discorrer sobre todas as declinações do seu nome.
Como se numa brincadeira descobrisse para si o jogo da sua essência.
Como se numa brincadeira descobrisse para si o jogo da sua essência.
Passeio pelas salas de uma casa que mal existe
O silêncio da casa violenta-me os sentidos. De lento, exploro. Em cada quarto explode uma confissão.
Em baixo nas salas há o cheiro novo da tinta. Inspiro. Alguém apaga passados.
Cansado, busca as camas em cada quarto. Quem dera pudesse o meu corpo dormir em todas elas numa mesma noite.
Um retrato na mesa ligeira sorri. Quem poderá dizer que estórias ele guarda? Somos todos felizes nos retratos. Quem não sorri para um retrato?
A casa dança uma dança interminável de escadas. Vão dar a todos os sítios possíveis, mas quase sempre onde não queremos ir. Não há portas a não ser as que levam para outros quartos.
Enfado. Um tédio brutal e de morte invade-me. Acomoda-se. Jogado sobre uma poltrona velha. Que há para entender nesta casa?
Não há cor, não há brisa, não há linhas. Desespero, angústia e tanto cheiro a coisas perdidas.
É um banho de suor que me acorda.
Em baixo nas salas há o cheiro novo da tinta. Inspiro. Alguém apaga passados.
Cansado, busca as camas em cada quarto. Quem dera pudesse o meu corpo dormir em todas elas numa mesma noite.
Um retrato na mesa ligeira sorri. Quem poderá dizer que estórias ele guarda? Somos todos felizes nos retratos. Quem não sorri para um retrato?
A casa dança uma dança interminável de escadas. Vão dar a todos os sítios possíveis, mas quase sempre onde não queremos ir. Não há portas a não ser as que levam para outros quartos.
Enfado. Um tédio brutal e de morte invade-me. Acomoda-se. Jogado sobre uma poltrona velha. Que há para entender nesta casa?
Não há cor, não há brisa, não há linhas. Desespero, angústia e tanto cheiro a coisas perdidas.
É um banho de suor que me acorda.
Divagações sobre um Inverno próximo
Pudera eu ser como tu. Atenta como antena escutas o poema indizível até que se diga por completo ao teu ouvido.
O pateo é branco como uma manhã de Inverno e certo como a névoa e o frio. Perdidas no suor da tarde as aranhas desenham calmamente o seu labor.
Há uma delicadeza de orégãos pelo ar. Cheira a tempo novo.
A tua mão poisa de súbito sobre o espanto das coisas. Eis que acordam!
Há muito tempo foi o tempo do mito.
O pateo é branco como uma manhã de Inverno e certo como a névoa e o frio. Perdidas no suor da tarde as aranhas desenham calmamente o seu labor.
Há uma delicadeza de orégãos pelo ar. Cheira a tempo novo.
A tua mão poisa de súbito sobre o espanto das coisas. Eis que acordam!
Há muito tempo foi o tempo do mito.
sexta-feira, novembro 09, 2007
terça-feira, novembro 06, 2007
Palavras para um velho amigo
Ao meu Pedro.
Velho amigo,
Os fins de tarde já são longos agora. A noite chega mais cedo. Talvez devesse dizer como fomos felizes antes. Nos tempos em que era de dia quando era dia. Há quem diga que sim...
Preocupa-te com outras coisas. Não te assustes com elas. Não reconheço qualquer ausência do Verde nestes dias mais escuros.
A horas certas chamo e continuas a vir. Sinto mais saudades do teu abraço do que antes. Talvez seja por isso que hoje ele me sabe melhor.
Continuas quente. Continuas no meu quotidiano.
Tenho orgulho em ti. Caminhos que traces. Metas onde chegas. Ensinaste-me o esforço de todos os dias.
Ensinaste-me os tempos do silêncio e as palavras que o silêncio mede.
São dias novos, velho amigo.
Não há nada de bom em continuar a viver bons tempos, mas antigos. Entusiasmante é atravessar contigo, por onde quer que andes, todos os tempos que nos cheguem.
Velho amigo,
Os fins de tarde já são longos agora. A noite chega mais cedo. Talvez devesse dizer como fomos felizes antes. Nos tempos em que era de dia quando era dia. Há quem diga que sim...
Preocupa-te com outras coisas. Não te assustes com elas. Não reconheço qualquer ausência do Verde nestes dias mais escuros.
A horas certas chamo e continuas a vir. Sinto mais saudades do teu abraço do que antes. Talvez seja por isso que hoje ele me sabe melhor.
Continuas quente. Continuas no meu quotidiano.
Tenho orgulho em ti. Caminhos que traces. Metas onde chegas. Ensinaste-me o esforço de todos os dias.
Ensinaste-me os tempos do silêncio e as palavras que o silêncio mede.
São dias novos, velho amigo.
Não há nada de bom em continuar a viver bons tempos, mas antigos. Entusiasmante é atravessar contigo, por onde quer que andes, todos os tempos que nos cheguem.
segunda-feira, novembro 05, 2007
Carta aberta a um amigo
-Tenho pensado muito no que me disseste. Custa-me tanto tudo. Pensei que não ia ser assim, esperei que não fosse. Mas custa-me.
-Estás magoado comigo, é isso?
-Não contigo, com aquilo que tu disseste.
-Isso é exactamente a mesma coisa. Nós somos aquilo que dizemos. Existimos na medida das nossas palavras. Podemos ficar aquém do que dizemos, mas nunca além. São as palavras que nos moldam, que nos fazem. O que eu te disse é o que eu sou.
-Mas as tuas opiniões sobre mim, sobre o que eu sou...
-As minhas opiniões não são sobre ti. Não foi isso que me pediste, não foi isso que eu te dei.
-Mas é igual ao que disseste. São sobre algo que eu sou, algo que em tantas coisas me define. São contra o que eu sou.
-São contra uma parte de ti. Uma parte importante, é verdade. E não é que seja fácil transpor o que eu acho sobre isto e passá-lo para ti. É como se eu preferisse que tu existisses à parte disso. Mas não pode ser assim.
Tens razão. É contra uma parte de ti. Que eu não entendo, nem aceito.
Não é fácil. É muito difícil.
Mas olha para mim. Eu não posso existir além de todos estes anos. Eu sou aquilo que fiz de mim mesmo. Mas aquilo que fiz de mim mesmo não deixa de ser influenciado pelos sítios por onde andei até agora. E foram tantos anos...
Tu indignas-te e julgas-me porque eu não aceito. E eu? Eu devo aceitar que tu não me aceites? Porque tu não me aceitas. Nem me entendes. Ao menos eu procurei entender-te.
Mas tu, tu chegaste cheio de certezas das tuas filosofias democráticas. Tu vieste com os teus chavões e os teus rótulos. Foste tu o primeiro a acusar. Quem foi mais justo de nós os dois?
Podia dizer-te que gostava de não pensar assim. Não é verdade. Gostava de não ter que pensar nisto. Gostava que não fosses assim.
Mas és, e eu gosto de ti. Não é fácil. É muito difícil. Mas eu estou a tentar. Estou a tentar mesmo. Só que resulta melhor se tu tentares comigo.
Não podemos existir além das nossas palavras, mas podemos existir além de todas as nossas partes. Apenas as palavras são o nosso todo.
E ele ficou ali. Quedo, imóvel. Quieto e à escuta. Para ouvir a chegada dos dias em que chegassem as palavras.
-Estás magoado comigo, é isso?
-Não contigo, com aquilo que tu disseste.
-Isso é exactamente a mesma coisa. Nós somos aquilo que dizemos. Existimos na medida das nossas palavras. Podemos ficar aquém do que dizemos, mas nunca além. São as palavras que nos moldam, que nos fazem. O que eu te disse é o que eu sou.
-Mas as tuas opiniões sobre mim, sobre o que eu sou...
-As minhas opiniões não são sobre ti. Não foi isso que me pediste, não foi isso que eu te dei.
-Mas é igual ao que disseste. São sobre algo que eu sou, algo que em tantas coisas me define. São contra o que eu sou.
-São contra uma parte de ti. Uma parte importante, é verdade. E não é que seja fácil transpor o que eu acho sobre isto e passá-lo para ti. É como se eu preferisse que tu existisses à parte disso. Mas não pode ser assim.
Tens razão. É contra uma parte de ti. Que eu não entendo, nem aceito.
Não é fácil. É muito difícil.
Mas olha para mim. Eu não posso existir além de todos estes anos. Eu sou aquilo que fiz de mim mesmo. Mas aquilo que fiz de mim mesmo não deixa de ser influenciado pelos sítios por onde andei até agora. E foram tantos anos...
Tu indignas-te e julgas-me porque eu não aceito. E eu? Eu devo aceitar que tu não me aceites? Porque tu não me aceitas. Nem me entendes. Ao menos eu procurei entender-te.
Mas tu, tu chegaste cheio de certezas das tuas filosofias democráticas. Tu vieste com os teus chavões e os teus rótulos. Foste tu o primeiro a acusar. Quem foi mais justo de nós os dois?
Podia dizer-te que gostava de não pensar assim. Não é verdade. Gostava de não ter que pensar nisto. Gostava que não fosses assim.
Mas és, e eu gosto de ti. Não é fácil. É muito difícil. Mas eu estou a tentar. Estou a tentar mesmo. Só que resulta melhor se tu tentares comigo.
Não podemos existir além das nossas palavras, mas podemos existir além de todas as nossas partes. Apenas as palavras são o nosso todo.
E ele ficou ali. Quedo, imóvel. Quieto e à escuta. Para ouvir a chegada dos dias em que chegassem as palavras.
Dizer de palavras
Para a Luísa Vaz Ferreira, amiga de pouco tempo, mas de tantas e tantas coisas com o carinho profundo das palavras.
Leves, longas, lisas,
Assim as palavras.
Como a mão experiente
Como os frutos que colhe
Azuis como o mar
Brancas como o páteo
Breves como o Verde.
Enlaçam estranhos desenhos
Mistérios antigos.
Têm cheiro de orégãos
E odor forte de coisas que voam.
Uma viagem pelo que foi.
Velhos barcos, novas velas.
Escuta onde quebra a onda, atenta.
De baixo de água abre os olhos.
É o espanto das coisas enquanto existem.
Assim as palavras,
Leves, longas, lisas.
Leves, longas, lisas,
Assim as palavras.
Como a mão experiente
Como os frutos que colhe
Azuis como o mar
Brancas como o páteo
Breves como o Verde.
Enlaçam estranhos desenhos
Mistérios antigos.
Têm cheiro de orégãos
E odor forte de coisas que voam.
Uma viagem pelo que foi.
Velhos barcos, novas velas.
Escuta onde quebra a onda, atenta.
De baixo de água abre os olhos.
É o espanto das coisas enquanto existem.
Assim as palavras,
Leves, longas, lisas.
domingo, novembro 04, 2007
O rapaz de asas marcadas pelo fogo (L'énfant aux ailes brûlées)
O texto que aqui apresentamos foi descaradamente roubado a um amigo. A tradução que o segue surgiu do nosso fascínio por esse mesmo texto.
"L'enfant est resté là-bas. Perdu, il croise les chemins qui mènent aux sommets des volcans.
L'enfant aux ailes brûlées, essaie d'entendre le vent. Les voix des temps oubliés, des murmures qu'il ne comprend plus.
Il pleure l'Atlantique. Du feu dans son sang, du noir dans son coeur. Le corps par terre, il désire le ciel. Noyé dans sa mer, il rêve l'infini.
Je sais bien que tu me cherches. Moi aussi, je voudrais te retrouver."
O rapaz ali restou. Perdido, ele busca os caminhos que apontam ao cimo dos vulcões. O rapaz de asas marcadas pelo fogo procura compreender o vento. As vozes de tempos esquecidos, murmúrios que não entende mais.
Ele chora o Atlântico. O fogo no seu sangue, o negro no seu coração. Com o corpo por terra, ele anseia o céu. Mergulhado no seu mar, ele sonha o infinito.
Sei bem que me procuras. Pudesse, também eu, encontrar-te.
"L'enfant est resté là-bas. Perdu, il croise les chemins qui mènent aux sommets des volcans.
L'enfant aux ailes brûlées, essaie d'entendre le vent. Les voix des temps oubliés, des murmures qu'il ne comprend plus.
Il pleure l'Atlantique. Du feu dans son sang, du noir dans son coeur. Le corps par terre, il désire le ciel. Noyé dans sa mer, il rêve l'infini.
Je sais bien que tu me cherches. Moi aussi, je voudrais te retrouver."
O rapaz ali restou. Perdido, ele busca os caminhos que apontam ao cimo dos vulcões. O rapaz de asas marcadas pelo fogo procura compreender o vento. As vozes de tempos esquecidos, murmúrios que não entende mais.
Ele chora o Atlântico. O fogo no seu sangue, o negro no seu coração. Com o corpo por terra, ele anseia o céu. Mergulhado no seu mar, ele sonha o infinito.
Sei bem que me procuras. Pudesse, também eu, encontrar-te.
sexta-feira, novembro 02, 2007
Colheita de palavras ou O esforço da escrita
Para a Susana Correia, que pediu as minhas palavras.
Digo-te
Um espaço onde se construam palavras.
Um olhar deitado ao quotidiano.
Atento, quase imóvel,
O outro, o breve,
A essência.
E assim encontro um espaço
Quase terrível,
Quase de medo
Em cada página branca onde escrevo.
Digo-te
Um espaço onde se construam palavras.
Um olhar deitado ao quotidiano.
Atento, quase imóvel,
O outro, o breve,
A essência.
E assim encontro um espaço
Quase terrível,
Quase de medo
Em cada página branca onde escrevo.
A tela sobre o Tejo
Palavras que não são de escrever,
Cidade em plácido anonimato,
As pessoas que passam pelas ruas,
O sangue que flui durante as horas.
Lisboa sem retratos
Retratada de gente.
Entre os passos suas histórias,
Segredos que digam um dia.
Enquanto,
Respiro, reflicto.
A cidade, o rio, talvez o fado.
Coisas que conte depois de amanhã.
Agora
Fecho os olhos,
Descanso.
Deixo pousar
De manso
A tela sobre o Tejo.
Cidade em plácido anonimato,
As pessoas que passam pelas ruas,
O sangue que flui durante as horas.
Lisboa sem retratos
Retratada de gente.
Entre os passos suas histórias,
Segredos que digam um dia.
Enquanto,
Respiro, reflicto.
A cidade, o rio, talvez o fado.
Coisas que conte depois de amanhã.
Agora
Fecho os olhos,
Descanso.
Deixo pousar
De manso
A tela sobre o Tejo.
quinta-feira, novembro 01, 2007
Carta ao rapaz atlante
Ao Ivan, em fraternas insularidades.
Rapaz atlante, era preciso que tivesse palavras para te dar. Que podes ter tu de mim que eu te dê?
Tu sabes da bruma e do cheiro que ela encerra, conheces as palavras guardadas no vento do oceano e vês para onde o açor vira as suas asas.
Eu não tenho mais tempo senão em que te diga aranha, orégão, odor. Tempo em que te fale da tarde e em que descreva as medidas exactas de um pateo grego.
Que há das máscaras, dos ditos, dos coros, que te diga em cima do palco de Dioniso essencialmente nu? Estou como quem não pode estar, na frieza de uma estátua grega de Praxíteles, certo como coluna no frontão do Templo.
Eu que sou do Branco e dórico no corpo, que há em mim que se assemelhe a teu passo invulgar de divindade celta? Não penso que haja palavras que nos possamos dizer.
A vida não é uma delicadeza que se lê numa elegância de fim de tarde.
Que posso eu que sou mar dar-te a ti que és também oceano? Atento como a onda quando quebra, escuta.
Et pourtant, est-ce que je peux aussi pleurer l'Atlantique? Je veux tellement rever l'infini.
Rapaz atlante, era preciso que tivesse palavras para te dar. Que podes ter tu de mim que eu te dê?
Tu sabes da bruma e do cheiro que ela encerra, conheces as palavras guardadas no vento do oceano e vês para onde o açor vira as suas asas.
Eu não tenho mais tempo senão em que te diga aranha, orégão, odor. Tempo em que te fale da tarde e em que descreva as medidas exactas de um pateo grego.
Que há das máscaras, dos ditos, dos coros, que te diga em cima do palco de Dioniso essencialmente nu? Estou como quem não pode estar, na frieza de uma estátua grega de Praxíteles, certo como coluna no frontão do Templo.
Eu que sou do Branco e dórico no corpo, que há em mim que se assemelhe a teu passo invulgar de divindade celta? Não penso que haja palavras que nos possamos dizer.
A vida não é uma delicadeza que se lê numa elegância de fim de tarde.
Que posso eu que sou mar dar-te a ti que és também oceano? Atento como a onda quando quebra, escuta.
Et pourtant, est-ce que je peux aussi pleurer l'Atlantique? Je veux tellement rever l'infini.
sexta-feira, outubro 12, 2007
Jantar do conde e do general
O criado fechou a porta. Entram minutos que se vão arrastar até determinadas infinitudes antes que o criado a volte a abrir. É um ritual longo, mas sobretudo arrastado pelo tempo que se prepara. Não há música e quem fosse atento diria não haver respiração. Apenas o toque constante e confuso do relógio sobre o mármore da madeira no tic-taquear infinito do tempo que guarda. São oito horas exactas e é de noite. Talvez seja Novembro. Se for, em meses será Primavera e quando os ponteiros chegarem ali será de dia. Mas serão sempre oito horas. Sem estações, sem manhãs ou noites e quase sempre sem tempo.
O general não é um homem velho. Alguma coisa acabou nele há muito tempo, ainda assim. Dir-se-ia dele o resultado dos estragos que os anos trazem, mais do que provocam. Foi um homem duro que se deixou vencer pelas durezas da vida. Vive numa lucidez que só em si é lúcida e o grande espelho por cima da lareira devolve-lhe uma imagem que só ele vê. Outros veriam um homem alto e de meia-idade. Ele verá coisas que não podemos saber. Não vemos com os seus olhos.
O conde já lá está, sentado para as janelas, perdido numa poltrona qualquer da sala. Nunca é a mesma. Há-de se sentar em todas para que o general entenda que não se pode sentar em nenhuma. Existe cada vez mais elegante, cada vez mais artificial na esperança de alguma vez existir para ele. Os olhos do general estarão sempre fixados no espelho sobre a lareira. A cada ruga uma razão, a cada traço um motivo, a cada gesto a certeza de que nada mudou. Ainda que o conde use um magnífico colete em seda selvagem pouco lhe importa. É um esforço que não há-de fazer. Um esforço que também há de ter retorno. Quantas vezes, no prolongar dum ritual vazio de sentido, tentou o conde encontrar o outro reflexo no reflexo do general?
Sentam-se. A mesa em toda a elegância da etiqueta gela o que já de si é menos que morno. Nada para o aproximar. Tudo para o espantar. Cada espaço ocupado no desejo de um olhar que se desprenda do espelho. Mas porque há-de ele olhar para outro lado que não para o espelho? Que há dele nesta sala senão o seu próprio retrato inventado na devolução do reflexo? O conde nunca olha para o espelho. Não para aquele, ou não para aquele como se fosse aquele. São tantos os seus espelhos nos seus corredores da sua casa que repetem a sua imagem cada dia mais magnífica. Um homem que veste um colete bordeaux de seda selvagem há-de ser realmente esplêndido. Que lhe interessa o reflexo? Que interesse pode ter para o general a extravagância palerma dum colete bordeaux?
A sala é ampla e branca em seus contornos. A mesa fica para lá da porta e para cá das duas poltronas que enfrentam a lareira, as janelas, o jardim. Mas as cortinas foram corridas pelo criado quando o conde se levantou. O criado já serve há muito tempo. Frente a frente o conde e o general trocam expressões delicadas. Um há-de mostrar ao outro que aquele é o seu espaço. O outro nem sequer se lembrará de pensar nisso durante todo o jantar. O olhar reprovador do general recai sobre o prato quase cheio do conde, mas mais sobre os talheres cruzados. Será que percebe que o conde lhe devolve um olhar de raiva? (Será que ambos sabem que se destroem no terror das coisas breves que se calam?)
Que criança parva é esta que brinca às bonecas neste palácio de muitas salas que a sorte mais que a morte da mãe lhe deixou? Que homem frio é este que nada sabe dos outros, ou dele ainda que fosse?
Apenas dele, nem que fosse apenas dele. Uma tarde. Que bom seria Abril. O jardim. Uma mesa lá fora. O gosto bucólico das conversas banais. Depois um abraço, um recanto. Algo onde se esconder. Ele que o protegesse.
No vai-e-vem do garfo há-de pensar que criança pequena que não soube crescer.
Não há lugar para coisas idealizadas. Não há lugar para bucolismos. Não há espaço para abraços. Há só o ar pesado e sufocante da sala. O barulho ensurdecedor do relógio. O arrastar mais que lento do tempo. A dor que os dois pagam para estar aqui. Frente a frente- o conde e o general, no braço de ferro das emoções. Que não se chegue ao outro nunca, que não se diga nunca nada. Que nesta sala não haja lugar para fraquezas.
(E se ainda assim ele visse alguma coisa no espelho. E se ainda assim ele reparasse no colete bordeaux.)
O relógio já bateu horas. O tictaquear dos tempos é mais lento, mais calmo, mas constante. Já quase se pode respirar. O conde levanta-se, o general também. Olham-se, estão frente a frente- o conde e o general. É a hora das palavras:
-Então até à próxima quarta.
-Até à próxima quarta, pai.
O general não é um homem velho. Alguma coisa acabou nele há muito tempo, ainda assim. Dir-se-ia dele o resultado dos estragos que os anos trazem, mais do que provocam. Foi um homem duro que se deixou vencer pelas durezas da vida. Vive numa lucidez que só em si é lúcida e o grande espelho por cima da lareira devolve-lhe uma imagem que só ele vê. Outros veriam um homem alto e de meia-idade. Ele verá coisas que não podemos saber. Não vemos com os seus olhos.
O conde já lá está, sentado para as janelas, perdido numa poltrona qualquer da sala. Nunca é a mesma. Há-de se sentar em todas para que o general entenda que não se pode sentar em nenhuma. Existe cada vez mais elegante, cada vez mais artificial na esperança de alguma vez existir para ele. Os olhos do general estarão sempre fixados no espelho sobre a lareira. A cada ruga uma razão, a cada traço um motivo, a cada gesto a certeza de que nada mudou. Ainda que o conde use um magnífico colete em seda selvagem pouco lhe importa. É um esforço que não há-de fazer. Um esforço que também há de ter retorno. Quantas vezes, no prolongar dum ritual vazio de sentido, tentou o conde encontrar o outro reflexo no reflexo do general?
Sentam-se. A mesa em toda a elegância da etiqueta gela o que já de si é menos que morno. Nada para o aproximar. Tudo para o espantar. Cada espaço ocupado no desejo de um olhar que se desprenda do espelho. Mas porque há-de ele olhar para outro lado que não para o espelho? Que há dele nesta sala senão o seu próprio retrato inventado na devolução do reflexo? O conde nunca olha para o espelho. Não para aquele, ou não para aquele como se fosse aquele. São tantos os seus espelhos nos seus corredores da sua casa que repetem a sua imagem cada dia mais magnífica. Um homem que veste um colete bordeaux de seda selvagem há-de ser realmente esplêndido. Que lhe interessa o reflexo? Que interesse pode ter para o general a extravagância palerma dum colete bordeaux?
A sala é ampla e branca em seus contornos. A mesa fica para lá da porta e para cá das duas poltronas que enfrentam a lareira, as janelas, o jardim. Mas as cortinas foram corridas pelo criado quando o conde se levantou. O criado já serve há muito tempo. Frente a frente o conde e o general trocam expressões delicadas. Um há-de mostrar ao outro que aquele é o seu espaço. O outro nem sequer se lembrará de pensar nisso durante todo o jantar. O olhar reprovador do general recai sobre o prato quase cheio do conde, mas mais sobre os talheres cruzados. Será que percebe que o conde lhe devolve um olhar de raiva? (Será que ambos sabem que se destroem no terror das coisas breves que se calam?)
Que criança parva é esta que brinca às bonecas neste palácio de muitas salas que a sorte mais que a morte da mãe lhe deixou? Que homem frio é este que nada sabe dos outros, ou dele ainda que fosse?
Apenas dele, nem que fosse apenas dele. Uma tarde. Que bom seria Abril. O jardim. Uma mesa lá fora. O gosto bucólico das conversas banais. Depois um abraço, um recanto. Algo onde se esconder. Ele que o protegesse.
No vai-e-vem do garfo há-de pensar que criança pequena que não soube crescer.
Não há lugar para coisas idealizadas. Não há lugar para bucolismos. Não há espaço para abraços. Há só o ar pesado e sufocante da sala. O barulho ensurdecedor do relógio. O arrastar mais que lento do tempo. A dor que os dois pagam para estar aqui. Frente a frente- o conde e o general, no braço de ferro das emoções. Que não se chegue ao outro nunca, que não se diga nunca nada. Que nesta sala não haja lugar para fraquezas.
(E se ainda assim ele visse alguma coisa no espelho. E se ainda assim ele reparasse no colete bordeaux.)
O relógio já bateu horas. O tictaquear dos tempos é mais lento, mais calmo, mas constante. Já quase se pode respirar. O conde levanta-se, o general também. Olham-se, estão frente a frente- o conde e o general. É a hora das palavras:
-Então até à próxima quarta.
-Até à próxima quarta, pai.
sábado, outubro 06, 2007
Embalo das coisas ou Variação às suas exortações
Em longas linhas leves, mas tensas
Tento
Encontrar o acordo secreto das coisas.
Acordo e é mar.
Enquanto,
Tudo se encanta de estar em seu canto.
Encantamento.
Tormento sábio, mas manso
De tudo o que existe embalado
Em seu vivo descanso.
Tento
Encontrar o acordo secreto das coisas.
Acordo e é mar.
Enquanto,
Tudo se encanta de estar em seu canto.
Encantamento.
Tormento sábio, mas manso
De tudo o que existe embalado
Em seu vivo descanso.
Segredo de Francisca
De repente falou:
-Francisca.
E o sabor da romã invadiu-lhe
De súbito a boca.
Seus olhos rasos
De novo em mar.
Seu mar de corpo
De novo no espanto das coisas
Que nascem da terra.
Sua terra nascida
De um seu próprio nome
Como se ao dizê-lo
Num mesmo jogo
Lhe roubassem e devolvessem
Num mesmo instante
A magia primeira da sua palavra.
-Francisca.
E o sabor da romã invadiu-lhe
De súbito a boca.
Seus olhos rasos
De novo em mar.
Seu mar de corpo
De novo no espanto das coisas
Que nascem da terra.
Sua terra nascida
De um seu próprio nome
Como se ao dizê-lo
Num mesmo jogo
Lhe roubassem e devolvessem
Num mesmo instante
A magia primeira da sua palavra.
sexta-feira, outubro 05, 2007
If you love somebody set them free ou Despedida cantada em agonizando
Ao Pedro.
Pedaço distante,
Instante exacto,
Tempo constante,
Em que te vais,
Em que me perco,
Em que te alongas,
Em que m'esgoto.
Além de mim,
Além de ti,
P'r'àlém de nós,
Depois de algo,
Palavras que não diga mais.
Certezas outras,
Novas manhãs,
Velhas dúvidas,
Coisas que restam-
If you love somebody set them free.
Pedaço distante,
Instante exacto,
Tempo constante,
Em que te vais,
Em que me perco,
Em que te alongas,
Em que m'esgoto.
Além de mim,
Além de ti,
P'r'àlém de nós,
Depois de algo,
Palavras que não diga mais.
Certezas outras,
Novas manhãs,
Velhas dúvidas,
Coisas que restam-
If you love somebody set them free.
quinta-feira, outubro 04, 2007
Retrato de rapaz em algumas variações (Revisited)
Guardo uma imagem em mim:
Uma janela (alta, grande e de vidro); um jardim (que é como se a vida acontecesse além de tudo isto); ele.
Que ele exista não é mais que uma quase certeza. A banalidade do que veste torná-lo-ia real, não fosse a abstracção com que se coloca exactamente no meio de tudo.
Ele está em todo o lado (por todo o lado) sem que possa existir sequer aquém de si mesmo. Que o corpo esteja largado a uma canto (contra a janela, contra o jardim) não é mais que um pormenor. É estruturalmente clássico sem que deixe de ser desejosamente latino. É o seu corpo que o diz além do terceiro botão aberto da camisa.
Anseio mais pela sua imagem do que ambiciono o seu corpo. O mármore das estátuas é sagrado demais para que se lhe toque e o fogo dos deuses trar-lhe-ia um calor humano demais para que não se perdesse. Ele deve existir acima de tudo mesmo que para isso não deva existir.
É sumamente belo. É sumamente arrogante. É sumamente divino. (e todas estas coisas existem em consequência umas das outras)
Se vive nem quero saber. De pouco me vale aquilo que nele há de humano.
A sua imagem. Apenas a sua imagem. Continuadamente a sua imagem...
Uma janela (alta, grande e de vidro); um jardim (que é como se a vida acontecesse além de tudo isto); ele.
Que ele exista não é mais que uma quase certeza. A banalidade do que veste torná-lo-ia real, não fosse a abstracção com que se coloca exactamente no meio de tudo.
Ele está em todo o lado (por todo o lado) sem que possa existir sequer aquém de si mesmo. Que o corpo esteja largado a uma canto (contra a janela, contra o jardim) não é mais que um pormenor. É estruturalmente clássico sem que deixe de ser desejosamente latino. É o seu corpo que o diz além do terceiro botão aberto da camisa.
Anseio mais pela sua imagem do que ambiciono o seu corpo. O mármore das estátuas é sagrado demais para que se lhe toque e o fogo dos deuses trar-lhe-ia um calor humano demais para que não se perdesse. Ele deve existir acima de tudo mesmo que para isso não deva existir.
É sumamente belo. É sumamente arrogante. É sumamente divino. (e todas estas coisas existem em consequência umas das outras)
Se vive nem quero saber. De pouco me vale aquilo que nele há de humano.
A sua imagem. Apenas a sua imagem. Continuadamente a sua imagem...
A existência dum corpo ou A probabilidade da inexistência
Tem o corpo esgarço partido contra uma coluna. Há copos à sua volta. O vidro faz barulho de encontro ao vidro. É vida que existe.
Tem olhos com que diga coisas. Não as diz. É possível que as guarde. Aguarda o tempo. As pessoas existem continuamente em seu redor. Encantamento.
Resta parado. Os outros passam. Vivem, ele observa. Talvez exista nos outros, para além de si. Não existe, não pode existir!
O seu corpo esgarço continua partido contra a coluna da sala.
Tem olhos com que diga coisas. Não as diz. É possível que as guarde. Aguarda o tempo. As pessoas existem continuamente em seu redor. Encantamento.
Resta parado. Os outros passam. Vivem, ele observa. Talvez exista nos outros, para além de si. Não existe, não pode existir!
O seu corpo esgarço continua partido contra a coluna da sala.
Breve estória de sinhàzinha
S'engravidou-se sinhàzinha de tempo
Por não ter mais tempo por onde andar
S'engravidou-se sinhàzinha de coisas
Por onde houvesse mistérios para dizer
S'engravidou-se sinhàzinha de vida
E partiu na barca funda
Pelo anseio profundo de partir
Por não ter mais tempo por onde andar
S'engravidou-se sinhàzinha de coisas
Por onde houvesse mistérios para dizer
S'engravidou-se sinhàzinha de vida
E partiu na barca funda
Pelo anseio profundo de partir
quinta-feira, setembro 27, 2007
Coisas que a vida traz ou Pequeno episódio tragi-cómico no autocarro
Uma mulher de preto no autocarro.
"-Morreu-lhe alguém?
-O meu marido em Agosto!
-Ai, que as pessoas nascem, morrem e vão a enterrar e eu não sei nada.
-Também, sai de casa de madrugada só volta à noite..."
Será que se acordar mais tarde posso ver morrer o marido das outras?
"-Morreu-lhe alguém?
-O meu marido em Agosto!
-Ai, que as pessoas nascem, morrem e vão a enterrar e eu não sei nada.
-Também, sai de casa de madrugada só volta à noite..."
Será que se acordar mais tarde posso ver morrer o marido das outras?
A varanda e o seu palácio
Au jeune comte du Petit-palais, avec toute m'amitié.
-Este é o Pedro, avó.
-Muito prazer. Como está?
Há-de durar mais um tempo o constrangimento. Ele não é trémulo, mas treme. A Condessa resta inalterada. Está estática. Permanece. Ele também, mas bem gostava de não o fazer. A Condessa falhou com a sua parte do ensaio. Não houve nenhuma das suas mãos que se tenha levantado. A direita sobre a esquerda. Ambas sobre o colo. Há-de durar mais um tempo o constrangimento até que perceba que o ensaio acabou. Ainda não é hoje que ele lhe alcançará a mão.
Estão frente a frente. Francisco mais ao lado. Manso, o tio Afonso trinca o seu cachimbo maciço, esparramado na poltrona. A tia está lá por cima a atarantar a criada (a que restou) com o final das mudanças. Queixa-se do corpo fraco e sobrecarrega a criada com as dores do corpo, mas mais com as dores da alma. É possível que António esteja no quarto. Estão frente a frente, ele e a Condessa. A Condessa é mais imponente do que bonita, como convém. É imensa. A Condessa está por toda a casa, desde as lojas que cedo não serão suas às escadas e aos corredores por onde corre o sangue dos dias do seu palácio. Ele está apenas onde está. É mais alto do que ela, mas agora é quase corpuscular. Nessa noite a Condessa só lhe voltará a dedicar as palavras de despedida. Não haverá mais palavras por agora. Isso basta para que ele saiba da sua inexistência nesta casa.
-Nós vamos para o quarto.
Finalmente acabou. O corpo respira de alívio. A Condessa deu-lhe as costas. Eles já vão na porta. A Condessa murmurou alguma coisa em francês ao tio Afonso. Ele não consegue perceber o que foi, mais pela distância que pelo seu mau francês. Não há-de saber como a Condessa confessava ao filho que lhe tinha achado bom ar. Há pouco de belo na Condessa (ela não o ignora). Tão pouco teve um marido bonito e fez filhos em vez de beldades. A beleza não é senão um prazer rechonchudo de fim de tarde para as burguesinhas do Príncipe Real (que agora habitam em Telheiras). Francisco, o neto, é mais bonito do que Pedro. Mas Pedro tem bom ar. Isso evita-o à vulgaridade. A Condessa há-de lembrar-se disso.
Podiam ter ido pelo corredor, mas foram antes pelas duas salas que levam ao quarto de Francisco. O quarto de jantar guarda a imagem antiga dum fresco que cobriu as janelas antes da cal descascar-se. Agora nada disfarça as rachas. O vazio da antecâmara encerra o segredo das partilhas numa família que já guarda pouco que dividir.
Chegam ao quarto. Arejado, honesto, simples. Os livros foram uma desculpa, as mãos não. Encontram-se na excitação do silêncio. A Condessa continua a estar por toda a casa. Há que guardar o barulho para outros dias. É fim de tarde. Lá fora Lisboa. As bocas. Dos turistas que devoram vorazmente um último pedaço de pão. A respiração lenta. Dos cães que passeiam pelas esquinas da cidade. As roupas caídas. Nas montras das lojas que fecham. Os corpos deitados. De dois namorados que se encontram num banco do Camões. O grito abafado. Do estertor do eléctrico acabado pelos barulhos das ruas. Francisco salta da cama, meio nu como uma estátua. Tem um ar meio provincial de fidalgo minhoto. Tem um embrulho nas mãos. Dá-o. Pedro recebe-o. São promessas de coisas que podem existir. Francisco lê-lhe entre os beiços "Amo-te". É mentira. Ainda não é verdade. Talvez seja. Nenhum dos dois sabe. Que importa? É verdade desde que ele o disse e enquanto o outro o acreditar. O telemóvel. Uma mensagem para o António (estará no quarto?). "Fumamos na varanda?(está cá o Pedro)". O primo aparece logo. Francisco abre a vidraça. Lá fora o século XXI. Lá fora Lisboa. A varanda é curta demais para os três, mas encaixam-se. António está tão esmagado como constrangido entre os dois. Está a aprender. São tão etéreos como o fumo. Os fins de tarde de Lisboa. Talvez Francisco e Pedro. Encontram-se pelo canto que cada um ocupa na varanda. Existem além de António. Só um para o outro. Conversam. Conversam sempre. António não pode perceber. Não porque seja um segredo. Porque é um segredo apenas deles.
Pedro atravessa o corredor. Já não treme. A Condessa está onde a deixou. Não a tivesse visto falar com o filho diria que tinha ficado sempre ali. Afonso não está. Talvez com a mulher em qualquer lado do sótão.
-Até amanhã. Muito gosto.
-Boa noite. O prazer foi meu.
Sorri. Afinal ele tem bom ar. A Condessa há-de lembrar-se disso. Mas ainda não haverá mãos levantadas, pelo menos por hoje. Francisco existe meio alheio à cena. Pedro faz o seu papel que aprendeu depressa. Sem ensaios desta vez. Devolve o sorriso. Saem.
Cá em baixo na porta hão-de demorar-se até ao estertor abafado do próximo eléctrico. Lá fora Lisboa. Talvez a Condessa se lembre disso.
-Este é o Pedro, avó.
-Muito prazer. Como está?
Há-de durar mais um tempo o constrangimento. Ele não é trémulo, mas treme. A Condessa resta inalterada. Está estática. Permanece. Ele também, mas bem gostava de não o fazer. A Condessa falhou com a sua parte do ensaio. Não houve nenhuma das suas mãos que se tenha levantado. A direita sobre a esquerda. Ambas sobre o colo. Há-de durar mais um tempo o constrangimento até que perceba que o ensaio acabou. Ainda não é hoje que ele lhe alcançará a mão.
Estão frente a frente. Francisco mais ao lado. Manso, o tio Afonso trinca o seu cachimbo maciço, esparramado na poltrona. A tia está lá por cima a atarantar a criada (a que restou) com o final das mudanças. Queixa-se do corpo fraco e sobrecarrega a criada com as dores do corpo, mas mais com as dores da alma. É possível que António esteja no quarto. Estão frente a frente, ele e a Condessa. A Condessa é mais imponente do que bonita, como convém. É imensa. A Condessa está por toda a casa, desde as lojas que cedo não serão suas às escadas e aos corredores por onde corre o sangue dos dias do seu palácio. Ele está apenas onde está. É mais alto do que ela, mas agora é quase corpuscular. Nessa noite a Condessa só lhe voltará a dedicar as palavras de despedida. Não haverá mais palavras por agora. Isso basta para que ele saiba da sua inexistência nesta casa.
-Nós vamos para o quarto.
Finalmente acabou. O corpo respira de alívio. A Condessa deu-lhe as costas. Eles já vão na porta. A Condessa murmurou alguma coisa em francês ao tio Afonso. Ele não consegue perceber o que foi, mais pela distância que pelo seu mau francês. Não há-de saber como a Condessa confessava ao filho que lhe tinha achado bom ar. Há pouco de belo na Condessa (ela não o ignora). Tão pouco teve um marido bonito e fez filhos em vez de beldades. A beleza não é senão um prazer rechonchudo de fim de tarde para as burguesinhas do Príncipe Real (que agora habitam em Telheiras). Francisco, o neto, é mais bonito do que Pedro. Mas Pedro tem bom ar. Isso evita-o à vulgaridade. A Condessa há-de lembrar-se disso.
Podiam ter ido pelo corredor, mas foram antes pelas duas salas que levam ao quarto de Francisco. O quarto de jantar guarda a imagem antiga dum fresco que cobriu as janelas antes da cal descascar-se. Agora nada disfarça as rachas. O vazio da antecâmara encerra o segredo das partilhas numa família que já guarda pouco que dividir.
Chegam ao quarto. Arejado, honesto, simples. Os livros foram uma desculpa, as mãos não. Encontram-se na excitação do silêncio. A Condessa continua a estar por toda a casa. Há que guardar o barulho para outros dias. É fim de tarde. Lá fora Lisboa. As bocas. Dos turistas que devoram vorazmente um último pedaço de pão. A respiração lenta. Dos cães que passeiam pelas esquinas da cidade. As roupas caídas. Nas montras das lojas que fecham. Os corpos deitados. De dois namorados que se encontram num banco do Camões. O grito abafado. Do estertor do eléctrico acabado pelos barulhos das ruas. Francisco salta da cama, meio nu como uma estátua. Tem um ar meio provincial de fidalgo minhoto. Tem um embrulho nas mãos. Dá-o. Pedro recebe-o. São promessas de coisas que podem existir. Francisco lê-lhe entre os beiços "Amo-te". É mentira. Ainda não é verdade. Talvez seja. Nenhum dos dois sabe. Que importa? É verdade desde que ele o disse e enquanto o outro o acreditar. O telemóvel. Uma mensagem para o António (estará no quarto?). "Fumamos na varanda?(está cá o Pedro)". O primo aparece logo. Francisco abre a vidraça. Lá fora o século XXI. Lá fora Lisboa. A varanda é curta demais para os três, mas encaixam-se. António está tão esmagado como constrangido entre os dois. Está a aprender. São tão etéreos como o fumo. Os fins de tarde de Lisboa. Talvez Francisco e Pedro. Encontram-se pelo canto que cada um ocupa na varanda. Existem além de António. Só um para o outro. Conversam. Conversam sempre. António não pode perceber. Não porque seja um segredo. Porque é um segredo apenas deles.
Pedro atravessa o corredor. Já não treme. A Condessa está onde a deixou. Não a tivesse visto falar com o filho diria que tinha ficado sempre ali. Afonso não está. Talvez com a mulher em qualquer lado do sótão.
-Até amanhã. Muito gosto.
-Boa noite. O prazer foi meu.
Sorri. Afinal ele tem bom ar. A Condessa há-de lembrar-se disso. Mas ainda não haverá mãos levantadas, pelo menos por hoje. Francisco existe meio alheio à cena. Pedro faz o seu papel que aprendeu depressa. Sem ensaios desta vez. Devolve o sorriso. Saem.
Cá em baixo na porta hão-de demorar-se até ao estertor abafado do próximo eléctrico. Lá fora Lisboa. Talvez a Condessa se lembre disso.
segunda-feira, setembro 24, 2007
Just like Marie Antoinette. Retrato de elegante no Lux. (Revisited)
Leva-me a dançar ao Lux, she said just like Marie Antoinette.
Uma maravilha de betão e vidro- ela ou o loft? A chuva que escorrega pelas janelas, ela que nunca escorrega por lado nenhum. Ela existe. Há o espaço exacto do vazio da sua presença. É por lá que ecoa a sua voz. As palavras nas paredes. Algo chega até ele. Ele cuida dos gestos quotidianos: o casaco, o guarda-chuva, as chaves do carro. Ela existe. Imensa, soberana, imperial, just like Marie Antoinette.
Ela está próxima das pessoas. Nunca pode estar entre elas. As suas linhas são distantes demais para que possa existir no meio das pessoas. Há os risos, os olhares. Para ela, nunca dela. Os seus olhares não se desperdiçam e as suas palavras não são palavras, mas desejos.
Há um equilíbrio delicado (e medido) enquanto sobe as escadas. Estas ou as de qualquer rua de Lisboa. A subida de uma escada é um espaço onde a elgância pode viver. Ela é curva como os espelhos onde encontra a projecção de si mesma. Eles não lhe mentem. Ela ama-se até à infinitude do seu reflexo, just like Marie Antoinette.
Pisa o chão como quem pisa a vida, agarra o copo como quem prende algo seu entre as mãos. Despeja nos lábios algo inútil. Nunca nada será tão seu como ela própria. O corpo meio estendido sobre um dos sofás. Ela pertence, não observa. Ela também é a elegância urbana do espaço.
Vêem-na, olham-na, observam-na. Talvez a desejem. Nada a preocupa, just like Marie Antoinette. Pelo corpo um vestido de veludo escarlate, perto do peito, solto na cintura. O vestido ondula, ela não. É estática como qualquer peça dali. Caem-lhe três fiadas de pérolas e no decote uma jóia de Lalique. Pelas pernas os collants pretos e os stillettos encarnados.
Nunca se farta, mas cansa-se por vezes. Levanta-se. Outras escadas, a mesma elegância. Os seus gestos são uma repetição de todos os outros. Na pista tudo se mexe. Ela fica parada. As bolas giram depressa demais, as luzes brilham demasiado. Tudo é rápido. Ela é exacta.
As pessoas teimam em existir à sua volta. Alguém lhe toca. De repente, ouve a música. O corpo dominado desprende-se. Ela mexe-se. Uma maravilha de betão e vidro- o loft; ela derreteu por entre a pista. Agora dança. Freneticamente como as luzes. Os cabelos existem. Ondeiam. Ondulam-se. É real. Mas é só um instante. Os espelhos não mentem. Ela ama-se até à infinitude do seu reflexo, just like Marie Antoinette.
Há-de voltar ao seu elemento,
Just like Marie Antoinette.
Uma maravilha de betão e vidro- ela ou o loft? A chuva que escorrega pelas janelas, ela que nunca escorrega por lado nenhum. Ela existe. Há o espaço exacto do vazio da sua presença. É por lá que ecoa a sua voz. As palavras nas paredes. Algo chega até ele. Ele cuida dos gestos quotidianos: o casaco, o guarda-chuva, as chaves do carro. Ela existe. Imensa, soberana, imperial, just like Marie Antoinette.
Ela está próxima das pessoas. Nunca pode estar entre elas. As suas linhas são distantes demais para que possa existir no meio das pessoas. Há os risos, os olhares. Para ela, nunca dela. Os seus olhares não se desperdiçam e as suas palavras não são palavras, mas desejos.
Há um equilíbrio delicado (e medido) enquanto sobe as escadas. Estas ou as de qualquer rua de Lisboa. A subida de uma escada é um espaço onde a elgância pode viver. Ela é curva como os espelhos onde encontra a projecção de si mesma. Eles não lhe mentem. Ela ama-se até à infinitude do seu reflexo, just like Marie Antoinette.
Pisa o chão como quem pisa a vida, agarra o copo como quem prende algo seu entre as mãos. Despeja nos lábios algo inútil. Nunca nada será tão seu como ela própria. O corpo meio estendido sobre um dos sofás. Ela pertence, não observa. Ela também é a elegância urbana do espaço.
Vêem-na, olham-na, observam-na. Talvez a desejem. Nada a preocupa, just like Marie Antoinette. Pelo corpo um vestido de veludo escarlate, perto do peito, solto na cintura. O vestido ondula, ela não. É estática como qualquer peça dali. Caem-lhe três fiadas de pérolas e no decote uma jóia de Lalique. Pelas pernas os collants pretos e os stillettos encarnados.
Nunca se farta, mas cansa-se por vezes. Levanta-se. Outras escadas, a mesma elegância. Os seus gestos são uma repetição de todos os outros. Na pista tudo se mexe. Ela fica parada. As bolas giram depressa demais, as luzes brilham demasiado. Tudo é rápido. Ela é exacta.
As pessoas teimam em existir à sua volta. Alguém lhe toca. De repente, ouve a música. O corpo dominado desprende-se. Ela mexe-se. Uma maravilha de betão e vidro- o loft; ela derreteu por entre a pista. Agora dança. Freneticamente como as luzes. Os cabelos existem. Ondeiam. Ondulam-se. É real. Mas é só um instante. Os espelhos não mentem. Ela ama-se até à infinitude do seu reflexo, just like Marie Antoinette.
Há-de voltar ao seu elemento,
Just like Marie Antoinette.
terça-feira, setembro 18, 2007
Breve meditação sobre Sara
À Sara Guia d'Abreu que povoa os meus dias.
Uma tarde,
Um intento,
Incenso que arde devagar.
Tarde.
Luz do sol sobre os teus óculos,
Um carro numa rua de Lisboa.
Nós!
Um cheiro doce de canela,
Coisas lembradas nas esplandas da cidade.
Recantos,
Encantos fadados,
Lembrados de coisas,
Livros sobre as mãos.
Esquinas de dizer palavras.
Corpos molhados.
Rimos,
Gargalhadas.
Quadros pendurados nas paredes procuradas,
Bailados,
Janelas em que digas:
Lisboa.
Palavras deitadas à toa
À tona do corpo,
Dos lábios.
Vagueamos, vagamos lugares,
Breves sábios.
Entendimentos,
Intentos,
Incensos
Que queimamos no arrastar lento dos dias lentos.
Uma tarde,
Um intento,
Incenso que arde devagar.
Tarde.
Luz do sol sobre os teus óculos,
Um carro numa rua de Lisboa.
Nós!
Um cheiro doce de canela,
Coisas lembradas nas esplandas da cidade.
Recantos,
Encantos fadados,
Lembrados de coisas,
Livros sobre as mãos.
Esquinas de dizer palavras.
Corpos molhados.
Rimos,
Gargalhadas.
Quadros pendurados nas paredes procuradas,
Bailados,
Janelas em que digas:
Lisboa.
Palavras deitadas à toa
À tona do corpo,
Dos lábios.
Vagueamos, vagamos lugares,
Breves sábios.
Entendimentos,
Intentos,
Incensos
Que queimamos no arrastar lento dos dias lentos.
domingo, setembro 16, 2007
Anseios do Verão
terça-feira, setembro 11, 2007
A nós que nos vamos dizendo
Ao Luisillo e ao Pedro.
Devo dizer-vos palavras
Se nos vamos dizendo
Em cada dia
Por onde a vida nos encontra?
Devo dizer-vos palavras
Se nos vamos dizendo
Em cada dia
Por onde a vida nos encontra?
Epitáfio do Verão ou Devaneio sobre algumas estações e seus sucedimentos
Esperar na linha longa do mar
Que Outubro vire Outono
E que na volta do Inverno
Haja de novo vislumbres do Verão.
Que Outubro vire Outono
E que na volta do Inverno
Haja de novo vislumbres do Verão.
Ele e Ela ou Poema dos amantes que sabem viver
Ele
Ela
Dançando, entendendo-se
Enlaçando-se
Verão, volta
Fruto.
Experimenta palavras para poesia.
Que dizer?
Ele
Ela
Seus corpos.
Haverá mãos por onde traçar mapas?
Encanto
Folha cadente
Ensaio de amor em poucas palavras.
Gemido
Gritinhos soltados em frente ao televisor.
Não sei mais.
Ele
Ela
Sabem talvez
O que se diga
Mas sobretudo por onde se viva.
Viver uma morada
Na ideia
A casa, a janela, o recanto de aldeia
Num canto chamado cidade
Onde lhe conte estórias da Sherazade.
Vislumbre, perdão
Quotidiano perdido na mesa da cozinha.
Verdade.
Ele
Ela
Sabem mais.
Ele
Ela
Sabem horas, anos, dias,
Esperas.
Ela
Dançando, entendendo-se
Enlaçando-se
Verão, volta
Fruto.
Experimenta palavras para poesia.
Que dizer?
Ele
Ela
Seus corpos.
Haverá mãos por onde traçar mapas?
Encanto
Folha cadente
Ensaio de amor em poucas palavras.
Gemido
Gritinhos soltados em frente ao televisor.
Não sei mais.
Ele
Ela
Sabem talvez
O que se diga
Mas sobretudo por onde se viva.
Viver uma morada
Na ideia
A casa, a janela, o recanto de aldeia
Num canto chamado cidade
Onde lhe conte estórias da Sherazade.
Vislumbre, perdão
Quotidiano perdido na mesa da cozinha.
Verdade.
Ele
Ela
Sabem mais.
Ele
Ela
Sabem horas, anos, dias,
Esperas.
Pequena declaração no parapeito de uma janela de Lisboa
Anseio.
Mente de manso.
Tarde acabada num jardim.
Que dizer sobre as mãos que param de par em par à tua janela?
Mente de manso.
Tarde acabada num jardim.
Que dizer sobre as mãos que param de par em par à tua janela?
Devaneio sobre as cidades dos livros ou Busca incoerente de algo que se chame amor
Por hoje uma mão. Para outros instantes a outra.
Palavras
Escorregam
De
Manso.
Encanto. Sussurro na ausência das palavras: faltas-me!
Quando te direi?
Páras porque cidade? Quem te viu já nas ruas tortuosas de Alexandria?
Tens poemas como as planicies onde estão os prédios elegantes de Paris. És pouco atento ao crepúsculo.
Ondas, folhas, falas.
Falhas em alguns instantes. Faltam-te cidades. O gosto do mar.
Tens troncos e és de árvores. Talvez por algum dia perdido te falte o verde.
Faltas-me!
Para quando? Por onde? Para onde?
Meu corpo que sossega, respiração lenta, sossego.
Por hoje uma mão. Para outros instantes a outra.
Outros dias, outras luas, novas palavras.
Palavras
Escorregam
De
Manso.
Encanto. Sussurro na ausência das palavras: faltas-me!
Quando te direi?
Páras porque cidade? Quem te viu já nas ruas tortuosas de Alexandria?
Tens poemas como as planicies onde estão os prédios elegantes de Paris. És pouco atento ao crepúsculo.
Ondas, folhas, falas.
Falhas em alguns instantes. Faltam-te cidades. O gosto do mar.
Tens troncos e és de árvores. Talvez por algum dia perdido te falte o verde.
Faltas-me!
Para quando? Por onde? Para onde?
Meu corpo que sossega, respiração lenta, sossego.
Por hoje uma mão. Para outros instantes a outra.
Outros dias, outras luas, novas palavras.
Crónica de dois amantes junto ao rio
Para o Sérgio e o Stijn, com todo o meu carinho.
Ele estava mais calado. Talvez porque os seus olhos verdes tenham um pouco mais de rio. O outro tem mãos mais fortes e rosto construído de cidade. Tem menos palavras que diga, mas quase tantas para dar como ele. Entendem-se por vezes em silêncios longos.
Constroem dias. Apercebem-se um do outro nas dificuldades incontornáveis do quotidiano. Qual a dose de amor que pode ter uma taça de cereais deixada ao acaso da súbita falta de fome? É o instante em que se engolem as palavras. Amar é também saber calar-se.
Não é fácil a cedência, a compreensão dos limites do tu face ao intento expansionista do eu. Eles sabem que não é fácil. Não soubessem não eram construtores de dias. Têm a certeza das tardes longas e da possibilidade de um por-do-sol roubado a alguma horas de outras coisas.
Enlaçam um entendimento. Descobrem-se. Magoam-se pelo caminho. Cravam-se um ao outro perdidos entre o eu, o tu e o nós.
Mas ele tem o corpo calmo. O outro também. A tarde escorre ao lado do rio. Lisboa ergue-se no alto das colinas e o rio atlântico leva sensações do Mediterrâneo. Dois homens de mãos dadas. Uma compreensão superior a eles mesmos. Deixam-se partir numa tarde soalheira de Domingo. Haverá outras para o regresso. Haverá sempre o regresso.
Ele estava mais calado. Talvez porque os seus olhos verdes tenham um pouco mais de rio. O outro tem mãos mais fortes e rosto construído de cidade. Tem menos palavras que diga, mas quase tantas para dar como ele. Entendem-se por vezes em silêncios longos.
Constroem dias. Apercebem-se um do outro nas dificuldades incontornáveis do quotidiano. Qual a dose de amor que pode ter uma taça de cereais deixada ao acaso da súbita falta de fome? É o instante em que se engolem as palavras. Amar é também saber calar-se.
Não é fácil a cedência, a compreensão dos limites do tu face ao intento expansionista do eu. Eles sabem que não é fácil. Não soubessem não eram construtores de dias. Têm a certeza das tardes longas e da possibilidade de um por-do-sol roubado a alguma horas de outras coisas.
Enlaçam um entendimento. Descobrem-se. Magoam-se pelo caminho. Cravam-se um ao outro perdidos entre o eu, o tu e o nós.
Mas ele tem o corpo calmo. O outro também. A tarde escorre ao lado do rio. Lisboa ergue-se no alto das colinas e o rio atlântico leva sensações do Mediterrâneo. Dois homens de mãos dadas. Uma compreensão superior a eles mesmos. Deixam-se partir numa tarde soalheira de Domingo. Haverá outras para o regresso. Haverá sempre o regresso.
segunda-feira, agosto 27, 2007
Ser poeta, o que é?
À Rosa Carreiro.
Há por aí uma bela dona que me chama de poeta.
Não me insultes de maneira vil, dona rica. Não quero ser poeta, não quero.
Ser poeta é andar de cabeça perdida, sem cabeça talvez e não ver as cores havidas das coisas vividas de cada dia em mim.
Ser poeta é saber significados ocultos, palavras, tumultos, que os ferem a eles mais do que a nós. É dar nós em pontas de facas. É ser esmoleiro, alarde, aldrabão.
Ser poeta é ser vendido às coisas do havido. É ser poeta repetido e reclamar uma invenção.
Ser poeta é tanta coisa sem saber se é pouca, se muita, se tanta, se coisa alguma. É andar perdido e gostar-se de lá estar.
Ser poeta é fazer más rimas, é criticar em palavras finas as finuras d'outros que tais.
Ser poeta é soltar ais. Ais que não são nossos, dores que não podemos haver.
Ser poeta é tudo isto, é pior ainda talvez. É uma história nunca finda, viagem morta de vez.
Que'é ser poeta não sei. Não sou, não quero, não posso. Falta-me o orgulho moço de por dados a rolar em mim.
Por isso te peço bela dona não me chames poeta ainda que em tal palavra finda dar-me meu triste fim.
Há por aí uma bela dona que me chama de poeta.
Não me insultes de maneira vil, dona rica. Não quero ser poeta, não quero.
Ser poeta é andar de cabeça perdida, sem cabeça talvez e não ver as cores havidas das coisas vividas de cada dia em mim.
Ser poeta é saber significados ocultos, palavras, tumultos, que os ferem a eles mais do que a nós. É dar nós em pontas de facas. É ser esmoleiro, alarde, aldrabão.
Ser poeta é ser vendido às coisas do havido. É ser poeta repetido e reclamar uma invenção.
Ser poeta é tanta coisa sem saber se é pouca, se muita, se tanta, se coisa alguma. É andar perdido e gostar-se de lá estar.
Ser poeta é fazer más rimas, é criticar em palavras finas as finuras d'outros que tais.
Ser poeta é soltar ais. Ais que não são nossos, dores que não podemos haver.
Ser poeta é tudo isto, é pior ainda talvez. É uma história nunca finda, viagem morta de vez.
Que'é ser poeta não sei. Não sou, não quero, não posso. Falta-me o orgulho moço de por dados a rolar em mim.
Por isso te peço bela dona não me chames poeta ainda que em tal palavra finda dar-me meu triste fim.
Criar ou O desespero do acto e da palavra
Criar.
É ainda o peso aterrador da palavra que me assusta, que me ausenta. O medo da palavra que me atormenta. Quedo, imóvel, instável, cruzo no tempo do instante a possibilidade da palavra,
Criar.
Enlaço, engano, enredo. É uma fonte de fictícias ilusões abstraídas obtidas no momento mais desesperante dos momentos, o momento errante. Errando, escrevendo, criando, temendo.
Criar.
É ainda o peso aterrador da palavra que se alevanta para o levante de inesgotáveis invenções que a palavra há-de guardar.
É ainda o peso aterrador da palavra que me assusta, que me ausenta. O medo da palavra que me atormenta. Quedo, imóvel, instável, cruzo no tempo do instante a possibilidade da palavra,
Criar.
Enlaço, engano, enredo. É uma fonte de fictícias ilusões abstraídas obtidas no momento mais desesperante dos momentos, o momento errante. Errando, escrevendo, criando, temendo.
Criar.
É ainda o peso aterrador da palavra que se alevanta para o levante de inesgotáveis invenções que a palavra há-de guardar.
Lembrança do Verão
Já não é mais a tarde,
Mas a memória da tarde.
Já não é mais a música,
Mas a memória da música.
O espaço de recordar. Vivo talvez para a lembrança.
Ando perdido entre o que foi e o que me fica.
Entretanto apenas recordo.
Embaraço das horas
Contadas sendo vividas ou lembradas.
Quem sabe para que se vê?
Se para viver se para lembrar.
Já não é mais o cheiro,
Mas a memória do cheiro.
Já não é mais o Verde,
Mas a memória do Verde.
Lembro o tempo vivido
Até que o tempo vire para o viver.
Vivo para a lembrança. Talvez.
Mas a memória da tarde.
Já não é mais a música,
Mas a memória da música.
O espaço de recordar. Vivo talvez para a lembrança.
Ando perdido entre o que foi e o que me fica.
Entretanto apenas recordo.
Embaraço das horas
Contadas sendo vividas ou lembradas.
Quem sabe para que se vê?
Se para viver se para lembrar.
Já não é mais o cheiro,
Mas a memória do cheiro.
Já não é mais o Verde,
Mas a memória do Verde.
Lembro o tempo vivido
Até que o tempo vire para o viver.
Vivo para a lembrança. Talvez.
A dança dos mosquitos
O silêncio imenso da noite é quebrado pelo zumbir tremeluzente dos mosquitos. Em cada quarto cada um prepara uma orgia de sangue. É irónico que nos comam enquanto sonhamos.
Enquanto espero o fim das férias
Já não estou,
Ou por outra
Estou mas não fico.
Agora só anseio por lembrar.
Ou por outra
Estou mas não fico.
Agora só anseio por lembrar.
sábado, agosto 25, 2007
Tarde de Primavera numa sala de retratos
Para o Ricardo Proença que me pediu uma coisa assim.
Há uma sala velha. As paredes estão pintadas de novo. Creme. Em tempos foram cor-de-rosa. No pequeno sofá semi-curvo e de canto, que também é rosa, as molas saem por debaixo do acento. Um número pouco certo e certamente alternado de almofadas esconde o que falta. Guardam em si desenhos a ponto cruz da vida oriental. Buscam conforto em coisas que não existem. Há duas senhorinhas: uma ao lado do sofá, a outro no outro canto da sala. Há também cadeiras. Tudo é rosa e tudo tem as molas a sair.
Na senhorinha do canto da sala está sentada uma mulher mais ou menos velha. Tem os cabelos longos como as suas pernas e um vestido de veludo púrpura cobre-lhe os pés como um mar. Os cabelos debatem-se entre o louro e o branco evidente. Tem de volta do pescoço um fio de lã. Faz crochet. No sofá há uma velha realmente velha. Magra, cadavérica. Os braços, que são ossos, estão destendidos sobre o sofá. Usa um vestido leve de flores. Ao piano, que fica na outra parede da sala, uma criança de dez anos toca uma sonatina furiosa. Tem os cabelos em ouro, molhados e ondulados e veste um fato de banho. Toca com uma calma complacente, mas a música que sae do piano é imensa.
A sala é pejada de retratos antigos a preto e branco. Nos dois maiores uma senhora e um senhor olham-se e cumprimentam-se. Não têm braços com que se tocar. Lamentam-se. Noutro decorre um piquenique. Uma rajada de vento ameaça fazer voar os chapéus de pluma das elegantes senhoras que seguram os chapéus com uma mão e as saias com a outra. Um rapaz de fato à maruja olha curioso para as saias das primas. O bebé que está no outro retrato cai e chora por uma mãe que não lhe pode valer, por não existir naquele mesmo espaço. A noiva do retrato pequeno rasga o vestido contra a mão imperiante do marido complacente e espectante. O comendador assusta-se com o bolor que já lhe come as pernas no seu retrato.
De súbito, a mulher mais ou menos velha suspira:
- A Primavera outra vez.
A velha do sofá parece despertar por um segundo para voltar a ficar absorta outra vez. As figuras dos retratos descobrem-se. Cumprimentam-se, parentes que não se veem há muito tempo. Talvez há tempo demais. O bebé pára de chorar vendo a mãe e o pai que lhe vão fazendo caretas que divertem todos. Todos riem. As três mulheres na sala não estão ausentes, mas distantes da cena. Permanecem. Trocam-se estórias, anedotas de salão e novidades de coisas que podem ter-se passado há um século.
A Primavera entra pela sala. As cortinas brancas tornam-se imensas até cobrirem tudo. Há o silêncio. Um silêncio feliz de quem viveu muito.
As cortinas retornam. A sala continua velha e pintada de novo. A criança terminou a sonatina. Já nenhuma das três tem um ar fantasmagórico e já não existem cabelos estendidos até ao joelho. Uma mulher de sessenta anos bem passados põem a mão sobre o ombro da criança:
- Vamos lanchar? Há refresco de maracujá, sussurra como um segredo.
-E a Titi, perguntam os olhos da criança num tom naturalmente subido.
-Adormeceu.
As duas contemplam a mulher nonagenária que dorme ausente no sofá. Saem por uma porta. A velha fica a dormir com a cortina esvoaçando.
Há uma sala velha. As paredes estão pintadas de novo. Creme. Em tempos foram cor-de-rosa. No pequeno sofá semi-curvo e de canto, que também é rosa, as molas saem por debaixo do acento. Um número pouco certo e certamente alternado de almofadas esconde o que falta. Guardam em si desenhos a ponto cruz da vida oriental. Buscam conforto em coisas que não existem. Há duas senhorinhas: uma ao lado do sofá, a outro no outro canto da sala. Há também cadeiras. Tudo é rosa e tudo tem as molas a sair.
Na senhorinha do canto da sala está sentada uma mulher mais ou menos velha. Tem os cabelos longos como as suas pernas e um vestido de veludo púrpura cobre-lhe os pés como um mar. Os cabelos debatem-se entre o louro e o branco evidente. Tem de volta do pescoço um fio de lã. Faz crochet. No sofá há uma velha realmente velha. Magra, cadavérica. Os braços, que são ossos, estão destendidos sobre o sofá. Usa um vestido leve de flores. Ao piano, que fica na outra parede da sala, uma criança de dez anos toca uma sonatina furiosa. Tem os cabelos em ouro, molhados e ondulados e veste um fato de banho. Toca com uma calma complacente, mas a música que sae do piano é imensa.
A sala é pejada de retratos antigos a preto e branco. Nos dois maiores uma senhora e um senhor olham-se e cumprimentam-se. Não têm braços com que se tocar. Lamentam-se. Noutro decorre um piquenique. Uma rajada de vento ameaça fazer voar os chapéus de pluma das elegantes senhoras que seguram os chapéus com uma mão e as saias com a outra. Um rapaz de fato à maruja olha curioso para as saias das primas. O bebé que está no outro retrato cai e chora por uma mãe que não lhe pode valer, por não existir naquele mesmo espaço. A noiva do retrato pequeno rasga o vestido contra a mão imperiante do marido complacente e espectante. O comendador assusta-se com o bolor que já lhe come as pernas no seu retrato.
De súbito, a mulher mais ou menos velha suspira:
- A Primavera outra vez.
A velha do sofá parece despertar por um segundo para voltar a ficar absorta outra vez. As figuras dos retratos descobrem-se. Cumprimentam-se, parentes que não se veem há muito tempo. Talvez há tempo demais. O bebé pára de chorar vendo a mãe e o pai que lhe vão fazendo caretas que divertem todos. Todos riem. As três mulheres na sala não estão ausentes, mas distantes da cena. Permanecem. Trocam-se estórias, anedotas de salão e novidades de coisas que podem ter-se passado há um século.
A Primavera entra pela sala. As cortinas brancas tornam-se imensas até cobrirem tudo. Há o silêncio. Um silêncio feliz de quem viveu muito.
As cortinas retornam. A sala continua velha e pintada de novo. A criança terminou a sonatina. Já nenhuma das três tem um ar fantasmagórico e já não existem cabelos estendidos até ao joelho. Uma mulher de sessenta anos bem passados põem a mão sobre o ombro da criança:
- Vamos lanchar? Há refresco de maracujá, sussurra como um segredo.
-E a Titi, perguntam os olhos da criança num tom naturalmente subido.
-Adormeceu.
As duas contemplam a mulher nonagenária que dorme ausente no sofá. Saem por uma porta. A velha fica a dormir com a cortina esvoaçando.
Dentro de mim
Para o meu Pedro Miguel.
Há um recanto onde há palavras,
Tardes de segredo.
Em quantas manhãs esvaziámos boca e alma?
Quantas vezes nos percorremos um ao outro
Na busca do que o outro é?
Questionámo-nos ao longo das noites
Em rumos obtusos de significados
Como músicas sussurradas em lábios
Que encerram dentes cerrados.
Perdi-te, achaste-me. Foi ao contrário
Também.
E agora há um dia em que estamos parados na elegância
De Lisboa,
Há uma mesa de café verde e há as nossas mãos
Que nos desenham entre as nuvens de Monet.
Busca-me até ao Tejo,
Dentro de ti
Como tu estás dentro de mim.
Há um recanto onde há palavras,
Tardes de segredo.
Em quantas manhãs esvaziámos boca e alma?
Quantas vezes nos percorremos um ao outro
Na busca do que o outro é?
Questionámo-nos ao longo das noites
Em rumos obtusos de significados
Como músicas sussurradas em lábios
Que encerram dentes cerrados.
Perdi-te, achaste-me. Foi ao contrário
Também.
E agora há um dia em que estamos parados na elegância
De Lisboa,
Há uma mesa de café verde e há as nossas mãos
Que nos desenham entre as nuvens de Monet.
Busca-me até ao Tejo,
Dentro de ti
Como tu estás dentro de mim.
quarta-feira, agosto 08, 2007
Conto de Servília (1ª parte)- Corpus et Verbum
O conto de Servília baseia-se na minha leitura de As memórias de Adriano de Marguerite Yourcenar. Não tem assim nada de original na sua essência. Contudo, também não foi minha intenção plagiar a autora. O que aqui se apresenta é o resultado do acto fenomenológico da escrita.
Maruliano meu avô acreditava nos astros. Gastou os últimos dias de uma vida calma perdido no seu observatório achando pela primeira vez para si astros que outros haviam encontrado. Foi nesses anos de criança e com Maruliano que me apercebi da importância de descobrirmos em nós mesmos aquilo que já outros descobriram. Só aí é que as coisas passam a ser verdadeiramente nossas. Foi debaixo da sua capa que encontrei o mundo que ficava do outro lado do portão da nossa villa. O mercado era o centro buliçoso da cidade e como todos os lugares de negócio era interdito às mulheres. Só àquelas que não podiam traçar os seus antepassados até épocas longínquas é que se permitia perderem os dias atrás de uma banca qualquer. Mais tarde apercebi-me da diferença entre quem compra e quem vende: o vendedor pode até exercer uma certa pressão sobre o comprador, mas quem vende precisa desesperadamente mais de quem compra do que o contrário. Esta verdade revelou-se-me ao longo dos anos nas caras dos muitos mercadores que encontrei pelos mercados onde estive.
Não sei se alguma vez acreditei nos astros. De resto, isso foi de pouca importância no correr da minha vida. Era mulher demais para me dedicar à astronomia, era patrícia demais para me perder na astrologia. Encontrei-me em outros campos. O meu corpo foi o primeiro e o mais importante. Nunca fui capaz de amá-lo porque nunca fui capaz de entender essa filosofia que encontra no corpo um ser ao mesmo tempo estranho e íntimo, companheiro de jornada, exterior a nós mesmos. Só os homens podem amar os seus corpos porque só eles podem procurar a sua ascese. As mulheres não têm tempo para isso. A sua sobrevivência insiste num jogo diário que decide quem ganha e quem perde, quem continua e quem cessa de existir. Ao meu corpo domei-o sempre sob jugo forte.
Adriano, meu primo, amou os corpos nessa profundidade filosófica. Encontrei sempre beleza nas suas palavras, mas já não fui capaz de a reconhecer nos corpos que teimava em divinizar. Adriano, meu imperador, gabou-se de ter melhorado a vida das mulheres. Nunca lhe censurei esta vã-glória. Era a sua condição natural de homem e não algo que ele pudesse contornar que o impedia de ver o breve alcance das suas leis. Também não tentei explicar-lho nas muitas cartas que trocámos. Não é para o mundo dos homens perceber o mundo das mulheres. Os homens andam por estradas longas e abertas, as estradas com que construíram o mundo. As mulheres movem-se por becos tortuosos, quase sempre sem saída. Tão tortuosos que atrevo-me a dizer que é mais difícil morrer velha e patrícia em Roma que velho e imperador. O casamento e a minha partida para o Lácio trouxeram-me a certeza de que não há lugar para as mulheres no mundo que é Roma. Mesmo as grandes patrícias devem nascer sob a sombra paterna, viver sob a sombra matrimonial e morrer sob a sombra dos filhos. A glória que foi reservada a algumas não foi senão o resto da glória dos homens a quem se ligaram e que tantas vezes ajudaram a construir.
Foi esta certeza da minha dificuldade de mulher que me fez olhar para o meu corpo. Tirei dele tudo o que ele me pôde dar. Tive a sorte, mais que a inteligência, de ter tido olhos sempre tão claros como os espelhos que me reflectiam e vontade de me ver neles. Soube pesar o tempo em medidas tão exactas que pude usar o meu corpo consoante cada época que a vida me trouxe. Na minha juventude levei-o em jogos perigosos de sedução em que se promete nada, perde-se muito e compromete-se tudo. Mas soube orientá-lo bem nos sentidos que me interessavam e não houve homem, enquanto a minha pele foi fresca, que me tenha resistido. Cedi poucas vezes às tentações do corpo. Talvez tenha sido o bocado de estoicismo que me sobrou da minha educação: não aceitei nenhum senhor, nem mesmo esse. Lamento-me, no entanto, dessas fraquezas que me seriam breves de esquecer não fosse a imensa vergonha que me trazem. Essas são as cicatrizes do meu corpo.
Hoje tenho a certeza, que também já esboçava na altura, de que o meu corpo foi o meu melhor aliado político nas poucas ambições que tive com o meu marido. Achei sempre extraordinário que duas criaturas que nutriam uma profunda indiferença uma pela outra se entendessem tão bem na política. Talvez porque ele tivesse a masculinidade necessária e eu o conhecimento induzido dum mundo tão parecido com o das mulheres. Não acho que seja por acaso que a palavra política é feminina. Tivémos os dois uma ambição medida e sem grandezas e sobretudo uma consciência clara da nossa posição enquanto primos do imperador. De quase nada valia em Roma o nosso parentesco com Adriano a não ser para nos granjear inimigos que quase nunca conhecemos em aberto, mas contra os quais tivemos que lutar até ao fim da vida. De resto, em Roma nunca conheci diferença entre ter-se a cabeça a prémio ou ostentar-se o título imperial.
Maruliano meu avô acreditava nos astros. Gastou os últimos dias de uma vida calma perdido no seu observatório achando pela primeira vez para si astros que outros haviam encontrado. Foi nesses anos de criança e com Maruliano que me apercebi da importância de descobrirmos em nós mesmos aquilo que já outros descobriram. Só aí é que as coisas passam a ser verdadeiramente nossas. Foi debaixo da sua capa que encontrei o mundo que ficava do outro lado do portão da nossa villa. O mercado era o centro buliçoso da cidade e como todos os lugares de negócio era interdito às mulheres. Só àquelas que não podiam traçar os seus antepassados até épocas longínquas é que se permitia perderem os dias atrás de uma banca qualquer. Mais tarde apercebi-me da diferença entre quem compra e quem vende: o vendedor pode até exercer uma certa pressão sobre o comprador, mas quem vende precisa desesperadamente mais de quem compra do que o contrário. Esta verdade revelou-se-me ao longo dos anos nas caras dos muitos mercadores que encontrei pelos mercados onde estive.
Não sei se alguma vez acreditei nos astros. De resto, isso foi de pouca importância no correr da minha vida. Era mulher demais para me dedicar à astronomia, era patrícia demais para me perder na astrologia. Encontrei-me em outros campos. O meu corpo foi o primeiro e o mais importante. Nunca fui capaz de amá-lo porque nunca fui capaz de entender essa filosofia que encontra no corpo um ser ao mesmo tempo estranho e íntimo, companheiro de jornada, exterior a nós mesmos. Só os homens podem amar os seus corpos porque só eles podem procurar a sua ascese. As mulheres não têm tempo para isso. A sua sobrevivência insiste num jogo diário que decide quem ganha e quem perde, quem continua e quem cessa de existir. Ao meu corpo domei-o sempre sob jugo forte.
Adriano, meu primo, amou os corpos nessa profundidade filosófica. Encontrei sempre beleza nas suas palavras, mas já não fui capaz de a reconhecer nos corpos que teimava em divinizar. Adriano, meu imperador, gabou-se de ter melhorado a vida das mulheres. Nunca lhe censurei esta vã-glória. Era a sua condição natural de homem e não algo que ele pudesse contornar que o impedia de ver o breve alcance das suas leis. Também não tentei explicar-lho nas muitas cartas que trocámos. Não é para o mundo dos homens perceber o mundo das mulheres. Os homens andam por estradas longas e abertas, as estradas com que construíram o mundo. As mulheres movem-se por becos tortuosos, quase sempre sem saída. Tão tortuosos que atrevo-me a dizer que é mais difícil morrer velha e patrícia em Roma que velho e imperador. O casamento e a minha partida para o Lácio trouxeram-me a certeza de que não há lugar para as mulheres no mundo que é Roma. Mesmo as grandes patrícias devem nascer sob a sombra paterna, viver sob a sombra matrimonial e morrer sob a sombra dos filhos. A glória que foi reservada a algumas não foi senão o resto da glória dos homens a quem se ligaram e que tantas vezes ajudaram a construir.
Foi esta certeza da minha dificuldade de mulher que me fez olhar para o meu corpo. Tirei dele tudo o que ele me pôde dar. Tive a sorte, mais que a inteligência, de ter tido olhos sempre tão claros como os espelhos que me reflectiam e vontade de me ver neles. Soube pesar o tempo em medidas tão exactas que pude usar o meu corpo consoante cada época que a vida me trouxe. Na minha juventude levei-o em jogos perigosos de sedução em que se promete nada, perde-se muito e compromete-se tudo. Mas soube orientá-lo bem nos sentidos que me interessavam e não houve homem, enquanto a minha pele foi fresca, que me tenha resistido. Cedi poucas vezes às tentações do corpo. Talvez tenha sido o bocado de estoicismo que me sobrou da minha educação: não aceitei nenhum senhor, nem mesmo esse. Lamento-me, no entanto, dessas fraquezas que me seriam breves de esquecer não fosse a imensa vergonha que me trazem. Essas são as cicatrizes do meu corpo.
Hoje tenho a certeza, que também já esboçava na altura, de que o meu corpo foi o meu melhor aliado político nas poucas ambições que tive com o meu marido. Achei sempre extraordinário que duas criaturas que nutriam uma profunda indiferença uma pela outra se entendessem tão bem na política. Talvez porque ele tivesse a masculinidade necessária e eu o conhecimento induzido dum mundo tão parecido com o das mulheres. Não acho que seja por acaso que a palavra política é feminina. Tivémos os dois uma ambição medida e sem grandezas e sobretudo uma consciência clara da nossa posição enquanto primos do imperador. De quase nada valia em Roma o nosso parentesco com Adriano a não ser para nos granjear inimigos que quase nunca conhecemos em aberto, mas contra os quais tivemos que lutar até ao fim da vida. De resto, em Roma nunca conheci diferença entre ter-se a cabeça a prémio ou ostentar-se o título imperial.
Talvez esta fosse uma razão secreta para Adriano ter estado tão pouco tempo em Roma, perdido nos seus ímpetos criadores. Ou talvez porque foi o primeiro homem a aperceber-se que Roma era já todo o mundo aonde chegavam as estradas e o latim e não mais essa capital, em tanto já decadente, que agonizava longe dos seus adorados Júlios e Antónios, esses patrícios que traçavam as suas ascendências além da realeza até aos casamentos celestes. Não havia lugar na Urbe para os imperadores nascidos de homens. Esses tinham o seu lugar nas estradas que saem das sete colinas a construir o mundo novo. Adriano soube-o melhor que outros.
Os meus receios políticos ligaram-me desde o início a Plotina, a imperatriz de Trajano, e a quem Adriano me recomendara. Quando a conheci Plotina vivia já nessa casa pequena onde morreu à margem da cidade e à margem da vida. Trajava nos seus véus de luto a única soberba que lhe conheci: a de ser uma matrona romana dos tempos da Respublica. A sua vida marginal não fez dela na sua viuvez, no entanto, uma mulher desatenta do mundo. O espaço da sua casa tinha o tamanho dos seus aposentos no palácio imperial. Confessou-me mais tarde que isto não se devia ao acaso e menos ainda à humildade: este era o espaço preciso em que se habituara a governar. Com Plotina entrei realmente no mundo das mulheres. No mundo das mulheres encontrei os limites do meu corpo e aprendi com dura facilidade que o que nos ganha o mundo dos homens perde-nos quando o mundo passa a ser no feminino. O nosso não é um mundo de corpos, mas da palavra. O mundo das mulheres é o mundo da palavra. O dos homens o mundo das palavras. Os homens, que são senhores do tempo, podem perder-se na busca ascética que cada palavra encerra num significado único que a singulariza e a torna ao mesmo tempo distante e próxima das outras palavras igualmente únicas. Para nós, que vivemos de bocados de tempo, cada palavra encerra o significado do universo. É preciso ter a atenção das mãos que vagueiam pelo tear na escuta das palavras das mulheres. As suas palavras são um código antigo de múltiplos significados em poucos significantes. O instante da palavra mal entendida pode deitar a perder o mundo de uma mulher.
Os meus receios políticos ligaram-me desde o início a Plotina, a imperatriz de Trajano, e a quem Adriano me recomendara. Quando a conheci Plotina vivia já nessa casa pequena onde morreu à margem da cidade e à margem da vida. Trajava nos seus véus de luto a única soberba que lhe conheci: a de ser uma matrona romana dos tempos da Respublica. A sua vida marginal não fez dela na sua viuvez, no entanto, uma mulher desatenta do mundo. O espaço da sua casa tinha o tamanho dos seus aposentos no palácio imperial. Confessou-me mais tarde que isto não se devia ao acaso e menos ainda à humildade: este era o espaço preciso em que se habituara a governar. Com Plotina entrei realmente no mundo das mulheres. No mundo das mulheres encontrei os limites do meu corpo e aprendi com dura facilidade que o que nos ganha o mundo dos homens perde-nos quando o mundo passa a ser no feminino. O nosso não é um mundo de corpos, mas da palavra. O mundo das mulheres é o mundo da palavra. O dos homens o mundo das palavras. Os homens, que são senhores do tempo, podem perder-se na busca ascética que cada palavra encerra num significado único que a singulariza e a torna ao mesmo tempo distante e próxima das outras palavras igualmente únicas. Para nós, que vivemos de bocados de tempo, cada palavra encerra o significado do universo. É preciso ter a atenção das mãos que vagueiam pelo tear na escuta das palavras das mulheres. As suas palavras são um código antigo de múltiplos significados em poucos significantes. O instante da palavra mal entendida pode deitar a perder o mundo de uma mulher.
segunda-feira, agosto 06, 2007
Versos pouco inspirados para os dias de férias
De mar e ondas, novas verdades.
Intensos caminhos, rios,
Riscos corridos sobre as ondas
Da manhã que tarda em chegar.
O dia começa às onze
Com o corpo estendido sobre a cama.
O sol existe na extensão da alvura
Dos meus lençóis.
As coisas gozam uma existência
Calma, cálida, breve,
Temperada.
O tempo é medido em proporções diferentes do ser.
Existimos de outra maneira.
As tardes são como os avessos de nós mesmos.
Longos instantes sobre o calor abrasador
Em que o nosso mundo vive
Das praias onde as horas nos permitem chegar.
De mar e ondas as noites,
Com cheiro de sal e coisas das ilhas.
A elegância dos turistas passeia-se
Nos múltiplos promenades das ruas.
São festas de vestidos brancos e ondulantes
Com encantos musicais
Que se pode dizer surgirem dentro de nós.
De mar e ondas e cores
Os sonos, os sonhos,
Vagos, distantes, confusos,
Linhas blândulas, obnubiladas,
Existências vagueantes, calmas,
Plácidas.
Segredos de agora, depois,
De amanhã, de outros dias.
De mar e ondas os tempos...
Intensos caminhos, rios,
Riscos corridos sobre as ondas
Da manhã que tarda em chegar.
O dia começa às onze
Com o corpo estendido sobre a cama.
O sol existe na extensão da alvura
Dos meus lençóis.
As coisas gozam uma existência
Calma, cálida, breve,
Temperada.
O tempo é medido em proporções diferentes do ser.
Existimos de outra maneira.
As tardes são como os avessos de nós mesmos.
Longos instantes sobre o calor abrasador
Em que o nosso mundo vive
Das praias onde as horas nos permitem chegar.
De mar e ondas as noites,
Com cheiro de sal e coisas das ilhas.
A elegância dos turistas passeia-se
Nos múltiplos promenades das ruas.
São festas de vestidos brancos e ondulantes
Com encantos musicais
Que se pode dizer surgirem dentro de nós.
De mar e ondas e cores
Os sonos, os sonhos,
Vagos, distantes, confusos,
Linhas blândulas, obnubiladas,
Existências vagueantes, calmas,
Plácidas.
Segredos de agora, depois,
De amanhã, de outros dias.
De mar e ondas os tempos...
sábado, julho 14, 2007
Poema de Pedro e Catarina
Dizes-me noites de poemas magoados
Para que eu os entenda.
Vive em ti um mistério confuso
Como se de uma vez duas árvores nascessem enroladas.
Procuro chegar-te nas calmas completas
Das tardes de praia
Quando em Julhos soalheiros
O teu corpo cabe debaixo dos meus braços.
Perco-te tantas vezes
Nas horas confusas que te assombram
E te levam em demandas de cabelos soltos,
Cavalos largados ao largo de chãos infinitos.
Hei-de saber esperar-te.
Nas horas do consolo
Eu me acalmo
Para que haja paz
Em teu estar confuso
E magoado de viver.
Envolve-me em teu corpo,
Prisão dos cheiros que de ti me prendem.
Sou teu chão onde plantes alicerces
Fundos como a profundidade
Dos momentos em que de súbito és minha.
Porque eu quero-te,
Quero-te além das palavras.
Para que eu os entenda.
Vive em ti um mistério confuso
Como se de uma vez duas árvores nascessem enroladas.
Procuro chegar-te nas calmas completas
Das tardes de praia
Quando em Julhos soalheiros
O teu corpo cabe debaixo dos meus braços.
Perco-te tantas vezes
Nas horas confusas que te assombram
E te levam em demandas de cabelos soltos,
Cavalos largados ao largo de chãos infinitos.
Hei-de saber esperar-te.
Nas horas do consolo
Eu me acalmo
Para que haja paz
Em teu estar confuso
E magoado de viver.
Envolve-me em teu corpo,
Prisão dos cheiros que de ti me prendem.
Sou teu chão onde plantes alicerces
Fundos como a profundidade
Dos momentos em que de súbito és minha.
Porque eu quero-te,
Quero-te além das palavras.
segunda-feira, julho 09, 2007
Poema dum operário que perdeu a esperança num dia de pouco mar
Quase nada
Um resto de pouco
Um viver adormecido
Sobre o cais de amanhã
Pouco pão
Pouco sol
Muita luta
Braços molhados
De longos mares outonais
Corpos caidos de cansados
Que sobram
O Mundo,
Uma existência triste,
Enrolada em tiras
Do seu cabelo espalhado ao vento
Um resto de pouco
Um viver adormecido
Sobre o cais de amanhã
Pouco pão
Pouco sol
Muita luta
Braços molhados
De longos mares outonais
Corpos caidos de cansados
Que sobram
O Mundo,
Uma existência triste,
Enrolada em tiras
Do seu cabelo espalhado ao vento
quinta-feira, julho 05, 2007
Diz ao mar que passo
Não disse ao mar que passava.
Em quantas luas me esvaí?
Prados que se arrastam
Pela infinidade lenta
Da terra fecundada.
No suor dos dias de trabalho
O labor burila as horas.
Eu perdi-me em que durantes?
Os pés escavam na areia
Palavras que diga
Amanhã,
Depois do tempo.
Mas não disse ao mar que passava.
Em quantas luas me esvaí?
Prados que se arrastam
Pela infinidade lenta
Da terra fecundada.
No suor dos dias de trabalho
O labor burila as horas.
Eu perdi-me em que durantes?
Os pés escavam na areia
Palavras que diga
Amanhã,
Depois do tempo.
Mas não disse ao mar que passava.
quarta-feira, junho 06, 2007
Segredos dos amantes escondidos
Para I. e A., até que chegue a Setembro.
I
Na noite quente das amoras
Escrevo-te.
Vê que há uma liberdade
Só nossa na noite.
É nosso aquilo que
Só nós conhecemos.
As minhas mãos escorrem
Pelas paredes brancas da casa.
É como se te acariciasse.
Vivo nas palavras dos segredos
Escondidos,
Guardados nas horas dos
Recantos onde desenhamos
As hipóteses dos primeiros beijos.
Amo-te como se ama o
Fim da tarde:
Ao fim de um longa espera.
II
Falo-te na manhã fresca dos frutos.
O cheiro inunda agora
A casa
Com os nossos segredos.
Compomos um tesouro feito
De palavras não ditas.
É uma música que dança
No silêncio provocado
Dos nossos corpos.
Ardo por te encontrar.
Que as minhas mãos
Sejam os meus olhos,
Aranhas que traçam
Teias sobre o teu corpo.
Desenho-te no espaço
Ensaiado das horas
Em que te espero
Permaneço. Anseio-te.
I
Na noite quente das amoras
Escrevo-te.
Vê que há uma liberdade
Só nossa na noite.
É nosso aquilo que
Só nós conhecemos.
As minhas mãos escorrem
Pelas paredes brancas da casa.
É como se te acariciasse.
Vivo nas palavras dos segredos
Escondidos,
Guardados nas horas dos
Recantos onde desenhamos
As hipóteses dos primeiros beijos.
Amo-te como se ama o
Fim da tarde:
Ao fim de um longa espera.
II
Falo-te na manhã fresca dos frutos.
O cheiro inunda agora
A casa
Com os nossos segredos.
Compomos um tesouro feito
De palavras não ditas.
É uma música que dança
No silêncio provocado
Dos nossos corpos.
Ardo por te encontrar.
Que as minhas mãos
Sejam os meus olhos,
Aranhas que traçam
Teias sobre o teu corpo.
Desenho-te no espaço
Ensaiado das horas
Em que te espero
Permaneço. Anseio-te.
terça-feira, junho 05, 2007
Homero talvez
Homero talvez,
Um encanto de fim de tarde.
Ilha grega:
Teu corpo,
Minhas mãos.
Intenções.
Repouso a cabeça
Sobre o teu peito,
Hora dos ritos.
Construção das tardes
Iniciáticas
Dos nossos dias longos.
Árvore,
Homero talvez.
Palmeira de Delos.
Fruto, sonho.
Mergulho.
O mar é mais azul
Quando se guarda o Mediterrâneo na boca.
As tuas mãos seguram os meus
Tornozelos.
Nado.
Busco a unidade.
Ânfora, coisa d'alma,
Homero talvez.
O encanto de um
Pateo branco
Sobre um porto
Breve.
Recriação,
Começo,
Cais.
Partimos.
Viagem incessante
Das mãos.
Altar.
Teu corpo, terra de
Imolação.
Primícias.
O vento vem do mar
Leve, forte,
Preciso.
A casa constroe-se
Na luz das suas janelas.
A minha alma é branca
Como as partes que
Conheço do teu corpo,
Homero talvez.
Dizes noite.
Música.
Os teus pulsos seguram
Os meus.
Levanto-me.
A força dos meus braços
Ergue-me acima da
Materialidade das coisas vivas.
Espanto,
Homero talvez.
Vinho, vinha, vento.
Barco, branco, breve.
Mar Mediterrâneo.
Desafogo.
Teus olhos,
Terras de oliveira.
Doce labor dos azeites
Que me escorrem pelas mãos
Na tarde das aranhas.
Orégão.
Trinco os frutos verdes
Da areia pedregosa.
Sal.
Há uma saída
Além nas grutas,
Homero talvez.
Ulisses, Aquiles, Heitor,
Minha Tróia feita
De muros caídos.
Anseio constante
De estrada que sobe.
Soneto medido na
Perfeição do templo.
Minha coluna dórica,
Meu espaço idílico,
Centro de mim.
Projecto fabrico
Real festa enfeite
Vida,
Homero talvez.
Um encanto de fim de tarde.
Ilha grega:
Teu corpo,
Minhas mãos.
Intenções.
Repouso a cabeça
Sobre o teu peito,
Hora dos ritos.
Construção das tardes
Iniciáticas
Dos nossos dias longos.
Árvore,
Homero talvez.
Palmeira de Delos.
Fruto, sonho.
Mergulho.
O mar é mais azul
Quando se guarda o Mediterrâneo na boca.
As tuas mãos seguram os meus
Tornozelos.
Nado.
Busco a unidade.
Ânfora, coisa d'alma,
Homero talvez.
O encanto de um
Pateo branco
Sobre um porto
Breve.
Recriação,
Começo,
Cais.
Partimos.
Viagem incessante
Das mãos.
Altar.
Teu corpo, terra de
Imolação.
Primícias.
O vento vem do mar
Leve, forte,
Preciso.
A casa constroe-se
Na luz das suas janelas.
A minha alma é branca
Como as partes que
Conheço do teu corpo,
Homero talvez.
Dizes noite.
Música.
Os teus pulsos seguram
Os meus.
Levanto-me.
A força dos meus braços
Ergue-me acima da
Materialidade das coisas vivas.
Espanto,
Homero talvez.
Vinho, vinha, vento.
Barco, branco, breve.
Mar Mediterrâneo.
Desafogo.
Teus olhos,
Terras de oliveira.
Doce labor dos azeites
Que me escorrem pelas mãos
Na tarde das aranhas.
Orégão.
Trinco os frutos verdes
Da areia pedregosa.
Sal.
Há uma saída
Além nas grutas,
Homero talvez.
Ulisses, Aquiles, Heitor,
Minha Tróia feita
De muros caídos.
Anseio constante
De estrada que sobe.
Soneto medido na
Perfeição do templo.
Minha coluna dórica,
Meu espaço idílico,
Centro de mim.
Projecto fabrico
Real festa enfeite
Vida,
Homero talvez.
Mesa de estudo
As horas não te trouxeram:
Levaram-me.
O tempo não perdoa:
Ditador.
Ficam as minhas palavras,
Já soltas,
Perdidas.
Encontra-as, acha-as
E fala-me delas,
Espantos que me digam coisas
Do cair da noite.
Levaram-me.
O tempo não perdoa:
Ditador.
Ficam as minhas palavras,
Já soltas,
Perdidas.
Encontra-as, acha-as
E fala-me delas,
Espantos que me digam coisas
Do cair da noite.
sexta-feira, junho 01, 2007
Desabafos literários ou O milagre da criação das coisas exteriores a nós
Não tenho encontrado tempo para escrever, mas apetece-me muito. Talvez eu não saiba investir tempo. Escrever é como ser artesão e dedilhar o tempo com as mãos. Eu com certeza perdi essa noção vagarosa do tempo, perdido entre as coisas que no meu tempo levam as pessoas a perderem-se. Vamos chamar-lhe futilidades. Eu prefiro ilusões breves, mas talvez sejam na verdade futilidades.
A cidade traz-me muitas vezes o que escrever. Se o Tejo não se esgota de água também não me esgota a inspiração. Vão nascendo dentro de mim. Muitos morrem. Aprendi tarde, mas bem, que escrever é ser Deus, logo é um acto blasfémico. Não devíamos poder escrever, a escrita aproxima-nos da criação e logo de Deus. E Deus não deve estar próximo, mas presente, ainda que de esguelha, naquilo que escrevemos.
Esta aura de criação e de criacionismo que envolve a escrita seduz-me como uma bebedeira de licor de chocolate ou como um Domingo de sol passado na Pena. Viajo várias vezes ao passado para criar. Algumas ao passado de mim, muitas ao passado dos outros. Os outros são sempre mais interessantes porque os seus segredos são confessáveis. Os nossos nunca!
Andam por aqui algumas personagens. Felizmente são poucas e dão-me o trabalho que me chegue. Tenho sobre elas uma visão completamente paternalista e isso já não me incomoda. Não são minhas: são eu. São parte intrínseca de mim, foi de mim que as arranquei. (Ainda que tudo isto surja como um cliché, os clichés também se sentem). Ando é com falta de vestidos no armário para elas. Têm andado nuas e ainda assim parece-me que passam bem. Lamento é quando elas ainda são disformes ou quase nada. Por vezes surje serem assim. Elas pedem-me muitas coisas. Nem sempre acedo.
Estou constantemente fascinado comigo próprio quando crio ou penso criar. Descobri-me. É um processo pouco modesto e quase sempre arrogante. Algo em contrário foge à verdade. Ao real foge-se sempre quando se cria. Mesmo para depois retornar. Há saídas nos movimentos fenemenológicos e a composição das letras, que constroem a composição das personagens, é talvez a maior das divagações.
Mas para tudo é preciso tempo. É uma certeza bíblica que o Eclesiastes nos garante. Quem me dera saber tecê-lo. Talvez me faltem Ulisses que me ofereçam tempo mais do que amor. Lá fora, felizmente, ainda não deixei de me deslumbrar. Lá fora. Quase tudo é lá fora. Mesmo quando é cá dentro. Fenemenologias da escrita. Hei-de ser artesão. Mais tarde, quando houver tempo. Por agora nascem pelas ruas, sedes das igrejas onde Deus sou eu.
A cidade traz-me muitas vezes o que escrever. Se o Tejo não se esgota de água também não me esgota a inspiração. Vão nascendo dentro de mim. Muitos morrem. Aprendi tarde, mas bem, que escrever é ser Deus, logo é um acto blasfémico. Não devíamos poder escrever, a escrita aproxima-nos da criação e logo de Deus. E Deus não deve estar próximo, mas presente, ainda que de esguelha, naquilo que escrevemos.
Esta aura de criação e de criacionismo que envolve a escrita seduz-me como uma bebedeira de licor de chocolate ou como um Domingo de sol passado na Pena. Viajo várias vezes ao passado para criar. Algumas ao passado de mim, muitas ao passado dos outros. Os outros são sempre mais interessantes porque os seus segredos são confessáveis. Os nossos nunca!
Andam por aqui algumas personagens. Felizmente são poucas e dão-me o trabalho que me chegue. Tenho sobre elas uma visão completamente paternalista e isso já não me incomoda. Não são minhas: são eu. São parte intrínseca de mim, foi de mim que as arranquei. (Ainda que tudo isto surja como um cliché, os clichés também se sentem). Ando é com falta de vestidos no armário para elas. Têm andado nuas e ainda assim parece-me que passam bem. Lamento é quando elas ainda são disformes ou quase nada. Por vezes surje serem assim. Elas pedem-me muitas coisas. Nem sempre acedo.
Estou constantemente fascinado comigo próprio quando crio ou penso criar. Descobri-me. É um processo pouco modesto e quase sempre arrogante. Algo em contrário foge à verdade. Ao real foge-se sempre quando se cria. Mesmo para depois retornar. Há saídas nos movimentos fenemenológicos e a composição das letras, que constroem a composição das personagens, é talvez a maior das divagações.
Mas para tudo é preciso tempo. É uma certeza bíblica que o Eclesiastes nos garante. Quem me dera saber tecê-lo. Talvez me faltem Ulisses que me ofereçam tempo mais do que amor. Lá fora, felizmente, ainda não deixei de me deslumbrar. Lá fora. Quase tudo é lá fora. Mesmo quando é cá dentro. Fenemenologias da escrita. Hei-de ser artesão. Mais tarde, quando houver tempo. Por agora nascem pelas ruas, sedes das igrejas onde Deus sou eu.
segunda-feira, maio 21, 2007
Anseios de Lisboa ao fim da tarde
Para a Raquel Lemos, a Ana Ferreira e a Migui Carvalho-Salgueiro.
O rio passa lento
Sobre o meu corpo.
Deixei-me afogar
No mar de gente
Que povoa o fim da tarde
Entre as ruas.
Algures as vidas passam
Em minha volta.
Levam o encanto de viver em Lisboa.
Cidade/rio,
Descanso primaveril,
Cavalo, palavra, cerca em aberto.
Grandes arcos
Arqueiam ideias.
Suspiros vagos,
Vivos,
Corpos esperando a
Cidade.
Anseios.
O Sol ainda existe
Atrás das casas.
Amarelas as casas
Nos raios de sol,
Janelas brancas de Lisboa.
Olhar com que se ama o rio,
As janelas,
As pessoas.
O rio passa lento
Sobre o meu corpo.
Deixei-me afogar
No mar de gente
Que povoa o fim da tarde
Entre as ruas.
Algures as vidas passam
Em minha volta.
Levam o encanto de viver em Lisboa.
Cidade/rio,
Descanso primaveril,
Cavalo, palavra, cerca em aberto.
Grandes arcos
Arqueiam ideias.
Suspiros vagos,
Vivos,
Corpos esperando a
Cidade.
Anseios.
O Sol ainda existe
Atrás das casas.
Amarelas as casas
Nos raios de sol,
Janelas brancas de Lisboa.
Olhar com que se ama o rio,
As janelas,
As pessoas.
sexta-feira, maio 18, 2007
Jogo das coisas ao longo das ruas de Lisboa
Espera pelo fim da tarde, há uma magia na luz que traz. Guarda os olhos bem abertos para a veres.
Lisboa dir-te-á um poema, um consolo, ao ouvido, de mansinho. E há uma sala fresca na elegância dos apartamentos do Saldanha. Lá dentro a tarde escorre pelas paredes brancas da casa. O poema constrói-se em cada divisão: da casa, do corpo, de ti. Uma música chega-nos e o cheiro intenso da cozinha impregna o ar. É o cheiro da vida que chega do pateo de trás. A vida passa-se aí, nos pequenos recantos dos prédios de Lisboa. O cheiro traz-te leves recordações de infância como os acordes de um perfume. A vida é um jogo de peças modeladas pouco a pouco.
Com o fim da tarde tu esculpes a memória até daquilo que ainda não aconteceu. Perdes-te algures nos corredores brancos da casa. Ligeiramente à deriva. Tudo te leva à porta, à rua, à vida. Procura uma esquina do Chiado que te agrade. Saberás dizer que restos aí sobram da vida das pessoas? Para e constrói. Olha atento a vida que desfila à tua frente como uma tela de museu. Há seiva nas coisas, nas pessoas. Nada é estático. Tudo é estético. A vida consumida na elegância de se viver.
Vai. Algures além dum arco Lisboa oferece-se a quem a sabe ver. Algures alguém há-de morrer na cidade. São ainda as peças do teu jogo que se resolve pouco a pouco. Agora deixa-te guiar pelas palavras, ruas secretas, escondidas, oferecendo a possibilidade de sol. Afinal, tu andas contra o fim da tarde. O sol ameaça por-se. O jogo resta por terminar. Tu não descansas. Os olhos continuam deitados sobre as coisas que te envolvem. Buscas a estética perdida das coisas. Crias elos em cadeias que começam a fazer sentido dentro de ti. Quase tudo é natural, como o espanto das coisas sobre elas mesmas.
Lentamente a fadiga acorda-te: as pessoas não param de existir. Quantas peças já recolheste? Agora sabes mais da vida das gentes do que elas mesmas. Tens algo que elas não têm: a atenção por sobre o que passa. A estrada oferece-se longa. Mas é preciso continuar. Entregue às sombras que agora tomam os bocados de todos os recantos não te entregues. Continua. Hás-de chegar à porta da casa. Lá dentro a noite instalou-se. O poema continua a dizer-se ao longo das paredes brancas, é Lisboa que se canta. Senta-te. Espera de mansinho que as palavras que agora moram em ti se venham dizer.
Lisboa dir-te-á um poema, um consolo, ao ouvido, de mansinho. E há uma sala fresca na elegância dos apartamentos do Saldanha. Lá dentro a tarde escorre pelas paredes brancas da casa. O poema constrói-se em cada divisão: da casa, do corpo, de ti. Uma música chega-nos e o cheiro intenso da cozinha impregna o ar. É o cheiro da vida que chega do pateo de trás. A vida passa-se aí, nos pequenos recantos dos prédios de Lisboa. O cheiro traz-te leves recordações de infância como os acordes de um perfume. A vida é um jogo de peças modeladas pouco a pouco.
Com o fim da tarde tu esculpes a memória até daquilo que ainda não aconteceu. Perdes-te algures nos corredores brancos da casa. Ligeiramente à deriva. Tudo te leva à porta, à rua, à vida. Procura uma esquina do Chiado que te agrade. Saberás dizer que restos aí sobram da vida das pessoas? Para e constrói. Olha atento a vida que desfila à tua frente como uma tela de museu. Há seiva nas coisas, nas pessoas. Nada é estático. Tudo é estético. A vida consumida na elegância de se viver.
Vai. Algures além dum arco Lisboa oferece-se a quem a sabe ver. Algures alguém há-de morrer na cidade. São ainda as peças do teu jogo que se resolve pouco a pouco. Agora deixa-te guiar pelas palavras, ruas secretas, escondidas, oferecendo a possibilidade de sol. Afinal, tu andas contra o fim da tarde. O sol ameaça por-se. O jogo resta por terminar. Tu não descansas. Os olhos continuam deitados sobre as coisas que te envolvem. Buscas a estética perdida das coisas. Crias elos em cadeias que começam a fazer sentido dentro de ti. Quase tudo é natural, como o espanto das coisas sobre elas mesmas.
Lentamente a fadiga acorda-te: as pessoas não param de existir. Quantas peças já recolheste? Agora sabes mais da vida das gentes do que elas mesmas. Tens algo que elas não têm: a atenção por sobre o que passa. A estrada oferece-se longa. Mas é preciso continuar. Entregue às sombras que agora tomam os bocados de todos os recantos não te entregues. Continua. Hás-de chegar à porta da casa. Lá dentro a noite instalou-se. O poema continua a dizer-se ao longo das paredes brancas, é Lisboa que se canta. Senta-te. Espera de mansinho que as palavras que agora moram em ti se venham dizer.
quinta-feira, maio 10, 2007
Os amores da filha do marquês ou Gentil despedida experimentada em rimas
Encanto guardado com graça,
Recato primaveril.
Espanto de tudo o que passa
Em seu viver juvenil.
Cabelos loiros voando,
Vontade amarrada ao cais.
Idos de quem vive amando,
É uma aristocracia que vai.
Talvez regresse na vinda
Tal belo e jovem inglês.
Talvez seja uma história finda,
Os amores da filha do marquês.
Mas espera ainda, gentil dona,
Que em esperar há bem razão.
Pois por certo que a este cais torna
Quem naquele barco te leva o coração.
Recato primaveril.
Espanto de tudo o que passa
Em seu viver juvenil.
Cabelos loiros voando,
Vontade amarrada ao cais.
Idos de quem vive amando,
É uma aristocracia que vai.
Talvez regresse na vinda
Tal belo e jovem inglês.
Talvez seja uma história finda,
Os amores da filha do marquês.
Mas espera ainda, gentil dona,
Que em esperar há bem razão.
Pois por certo que a este cais torna
Quem naquele barco te leva o coração.
sexta-feira, maio 04, 2007
Kirsten Dunst

No recentemente estreado filme Homem-Aranha 3 há apenas uma coisa que vale mesmo a pena ver: o desempenho de Kirsten Dunst.
Na sua beleza encantada de mulher petite Kirsten mostra-se mais uma vez como a actriz das pequenas coisas. Nela guardam-se os pequenos sorrisos do quotidiano e os gestos leves que desenhamos sem pensar. Se ela os pensa ou não, não sei e tão pouco me importa. Ela encanta-me e é isso que eu busco nela. Não admira portanto que a actriz seja um dos fetiches da brilhante Copolla que busca precisamente as pequenas pequenezes do quotidiano. E é toda uma naturalidade que nos apresenta em Marie Antoinette (até hoje o seu mais genial desempenho) que continua a oferecer-nos em Homem-Aranha 3 apesar de todas as limitações oferecidas por Mary Jane Watson.
Verdade que Dunst está ainda longe do brilhantismo. Falta saber transpor a sua naturalidade das pequenas coisas para aquelas maiores. Ainda teatrais restam muitas das suas cenas de choro e dor ou de profunda paixão, um cliché americano que acredito seja difícil de largar para qualquer actor. Mas Kirsten lá vai guiando a sua carreira com cuidado, como a delicadeza dos seus gestos, escolhendo um filme aqui e outro ali, ora mais comercial ora menos. Eu continuo à espera que ela me continue a surpreender!
(Não deixem de ver, se ainda não viram, O Sorriso de Mona Lisa e Marie Antoinette, as suas duas melhores actuações)
domingo, abril 29, 2007
Crescendo
Sabes quantas voltas há no recomeço?
Passeiam por mim as horas incontáveis
Enquanto espero viver
Segundos que não acabem.
Reescrevo o sentido da vida.
As águas trazem-me de volta.
Digam-se as palavras:
Pedra, planta, fruto.
A tarde aquece-me
Com inspirações de verde.
Agora busco as ruas
Por onde deves ter perdido a minha poesia.
Lembra-me para não te voltar a dar
Intimidades.
Passeiam por mim as horas incontáveis
Enquanto espero viver
Segundos que não acabem.
Reescrevo o sentido da vida.
As águas trazem-me de volta.
Digam-se as palavras:
Pedra, planta, fruto.
A tarde aquece-me
Com inspirações de verde.
Agora busco as ruas
Por onde deves ter perdido a minha poesia.
Lembra-me para não te voltar a dar
Intimidades.
quarta-feira, abril 25, 2007
Amando-nos
Dá-me palavras, segredos, espantos.
Enlaça-me em teus cabelos, cavalos soltos.
Encantos distantes, valsas.
Teu corpo, bocado de terra, país.
Meu corpo, descanso e casa.
Acasala.
Murmúrio, meu ouvido,
Secreto, suspiro.
Inspiro-te,
Teu odor leve,
Tua força bruta,
Tuas mãos,
Tua virilidade tão ferida e aflorada.
Desinquietas-me,
Enfrentas-me.
Nosso amor não é algo sossegado,
Não tem lago,
Nem água.
Destreza das tuas mãos
Prendendo as minhas.
Eu rendo-me,
Tu entras-me.
Quietos
Respiramos.
Os corpos violentos
Inclinam-se, lutam-se,
Perdidos, onde (?),
Ficamos
Amando-nos.
Enlaça-me em teus cabelos, cavalos soltos.
Encantos distantes, valsas.
Teu corpo, bocado de terra, país.
Meu corpo, descanso e casa.
Acasala.
Murmúrio, meu ouvido,
Secreto, suspiro.
Inspiro-te,
Teu odor leve,
Tua força bruta,
Tuas mãos,
Tua virilidade tão ferida e aflorada.
Desinquietas-me,
Enfrentas-me.
Nosso amor não é algo sossegado,
Não tem lago,
Nem água.
Destreza das tuas mãos
Prendendo as minhas.
Eu rendo-me,
Tu entras-me.
Quietos
Respiramos.
Os corpos violentos
Inclinam-se, lutam-se,
Perdidos, onde (?),
Ficamos
Amando-nos.
Mediterrâneo
O poema diz-se enquanto a tarde se instala
Através das paredes nuas da casa.
A média-luz do início faz-nos lembrar
Que o branco
É um estado mediterrânico de ser.
O corpo do mar é longo e calmo
E repousa sob o sol
No pátio quadrado da casa da ilha.
Há algures o cheiro novo dos orégãos
E do azeite.
Nas ânforas guardadas na rua
Restam as esperanças antigas
Do dia de amanhã.
As aranhas trabalham desafogadamente,
Enquanto vem a tarde,
No seu labor de séculos.
O sumo das laranjas frescas
Refresca-me.
Tudo é natural e bom
Na tarde branca e fresca da ilha,
Como se as coisas vivessem
Espantadas de ser elas.
Lar antigo dos deuses,
Pátio da eterna recriação,
Viagem à Hélade antiga
Em busca de algo que perdemos
E não conseguimos lembrar,
Memória das tardes brancas do sol.
Através das paredes nuas da casa.
A média-luz do início faz-nos lembrar
Que o branco
É um estado mediterrânico de ser.
O corpo do mar é longo e calmo
E repousa sob o sol
No pátio quadrado da casa da ilha.
Há algures o cheiro novo dos orégãos
E do azeite.
Nas ânforas guardadas na rua
Restam as esperanças antigas
Do dia de amanhã.
As aranhas trabalham desafogadamente,
Enquanto vem a tarde,
No seu labor de séculos.
O sumo das laranjas frescas
Refresca-me.
Tudo é natural e bom
Na tarde branca e fresca da ilha,
Como se as coisas vivessem
Espantadas de ser elas.
Lar antigo dos deuses,
Pátio da eterna recriação,
Viagem à Hélade antiga
Em busca de algo que perdemos
E não conseguimos lembrar,
Memória das tardes brancas do sol.
segunda-feira, abril 16, 2007
Poema do homem bucólico
Às angústias que nestes dias me angustiam.
Ligeiros chegam os fins-de-tarde de Abril
E trazem consigo os primeiros crepúsculos do ano.
Abril fala-me sempre da Primavera,
Dum chão novo
Que os deuses renovam para nós.
Tu és como as manhãs calmas de Sol
Ouves atentamente o que eu digo
Como se as minhas palavras fossem de beber.
Bebes os sonhos que te conto
De coisas distantes que encontras nos momentos
Escondidos das tardes e das flores.
Tu és como o riacho manso e de água doce-
Corres devagar, mas sabes por onde andas
E para onde vais.
Tens uma sede de coisas maiores
Que procuras sofregamente
Saciar nas minhas palavras.
Não percebes que todas as minhas palavras
Cabem em ti;
Em ti onde me esgoto, onde me começo,
Onde me renasço.
Súbita Primavera constante,
Que toldas minhas tardes de uma alegria
Feita de gestos simples e certos,
Como desenhos de crianças quando chega o Sol,
Breves e duradoiros reinos de luz.
Não sabes que sabes das cores
E das coisas que elas ensinam.
Tudo em ti é tão natural e simples
Que não te permites pensar,
Mas apenas viver as coisas,
Os dias,
As horas.
Sabes apenas que queres mais,
Assim como eu sei que te quero a ti.
Ligeiros chegam os fins-de-tarde de Abril
E trazem consigo os primeiros crepúsculos do ano.
Abril fala-me sempre da Primavera,
Dum chão novo
Que os deuses renovam para nós.
Tu és como as manhãs calmas de Sol
Ouves atentamente o que eu digo
Como se as minhas palavras fossem de beber.
Bebes os sonhos que te conto
De coisas distantes que encontras nos momentos
Escondidos das tardes e das flores.
Tu és como o riacho manso e de água doce-
Corres devagar, mas sabes por onde andas
E para onde vais.
Tens uma sede de coisas maiores
Que procuras sofregamente
Saciar nas minhas palavras.
Não percebes que todas as minhas palavras
Cabem em ti;
Em ti onde me esgoto, onde me começo,
Onde me renasço.
Súbita Primavera constante,
Que toldas minhas tardes de uma alegria
Feita de gestos simples e certos,
Como desenhos de crianças quando chega o Sol,
Breves e duradoiros reinos de luz.
Não sabes que sabes das cores
E das coisas que elas ensinam.
Tudo em ti é tão natural e simples
Que não te permites pensar,
Mas apenas viver as coisas,
Os dias,
As horas.
Sabes apenas que queres mais,
Assim como eu sei que te quero a ti.
quinta-feira, abril 12, 2007
Peter Pan
A mim.
Wendy: "Acabaram-se as tuas aventuras, rapaz!"
Peter: "Não! Viver é ainda a maior das aventuras!"
Wendy: "Acabaram-se as tuas aventuras, rapaz!"
Peter: "Não! Viver é ainda a maior das aventuras!"
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