para a avó
Depois que morreu, desfizeram-lhe o quarto.
Mudaram a colcha (agora guardada num baú do quarto de arrumos) e
Fizeram a cama de lavado.
Um a um, despregaram da parede os quadros dos santos à cabeceira.
Levaram para outras prateleiras, umas longe da casa,
As hagiografias da pequena estante de vimes ao canto.
Abriram os armários.
Primeiro chamaram as filhas, depois as noras, depois as netas, por fim as criadas.
Dividiram a sua roupa e deram o que cresceu aos pobres.
Empilharam as caixas que estavam no toucador, agora esvaziadas,
E como tinha dito, cada mulher do seu sangue recebeu uma jóia.
Com gravidade mandaram a escrivaninha para a casa de restauro
Prometendo mantê-la como peça de família,
Herança de disputa entre aqueles que a quisessem.
Até a velha cadeira de vimes junto à janela, onde antes fazia costura,
Está agora no jardim para que, sentados, a possamos lembrar em dias de sol.
Os homens da casa instalaram depois o escadote de ferro
E fizeram descer as cortinas azuis de folhos brancos.
Limparam-se as gavetas, distribuíram-se os terços, mudou-se a cómoda alta
E eu fiquei com o crucifixo do antigo oratório que tinha vindo em panos de linho
Pelas mãos da avó Maria Augusta.
Abrimos as cartas que eram para ler. E lemos. Ficámos muitas horas deitados
Na cama velha lendo uns aos outros pequenos bocados que nos
Apanhavam a atenção.
Houve silêncio.
A casa era este retrato físico de ausência.
Era uma coisa indizível em todas as gargantas.
Chorámos e mandámos dizer missa em igrejas da cidade.
Continuámos a amar.
Depois fomos felizes.
Enquanto Lisboa namora o Tejo...
Sexta-feira, Janeiro 27, 2012
Sexta-feira, Dezembro 23, 2011
Sábado, Dezembro 10, 2011
Natal
Pequena medida certa para todas as coisas.
Sítio da casa. Um jardim de
Pequenos seixos. As mãos enrolando
Arduamente
Os dedos,
as peças,
o jogo,
as palavras.
Era aquela morte lenta e súbita
Do espanto com que entendíamos
Os dias.
Foi Outono,
depois houve tarde.
Tu sentavas-te no balcão
E bebias chá de jasmim com pó de canela.
Lá dentro era um segredo.
A casa ordenava uma a uma
As coisas ordinárias e quotidianas.
Houve esta tarde de comboios
Rápidos e ultra-sons.
Houve esta tarde de risos,
licor,
amigos,
compotas.
As panelas eram mexidas
Em intervalos exactos
De 2 horas,
Uma calda doce escorrendo
Com a eternidade do mundo
Pela colher de pau.
Às vezes abríamos a janela
E o frio entrava.
Gostavas de deixar as bochechas congelarem
Equilibrando-te com os pés em bico no
Degrau da varanda.
Vivíamos na cozinha.
Debaixo da pedra preta da chaminé
Tinhamos feito instalar o fogão
Como numa sala de trono.
Vivíamos para aquele espaço,
naquele espaço,
durante este espaço.
Os amigos chegavam.
Com que habilidade pares de mãos
Se juntavam para colocar os talheres
Numa ordem premeditada
Muito tempo antes nos palácios
D'el-rey de França.
Bebíamos por copos de cristal
E por isso éramos inevitavelmente chiques,
elegantes,
alegres,
sofisticados.
Dizias: - Somos nós que temos
O monopólio do bom gosto.
Mexíamos pequenas peças nos tabuleiros
Preparados de ante-mão.
Passávamos o tempo,
além do tempo,
sem contar o tempo.
Uma jogada calculada na exactidão
Das suas consequências.
Também fizeram a árvore de Natal,
Decorada das coisas que havíamos comprado
Em Paris, no outro inverno.
Foi naquele dia em que corremos as ruas
De Vaugirard
Entre os mercados de peixe com ostras sobre o gelo
Buscando perfeitos enfeites de vidro.
A cidade profundamente fria.
E os centros comerciais cantando
Músicas americanas do Natal.
O Natal nasceu afinal nos Estados Unidos
Nas fábricas da Coca-cola.
Nós bebemos chocolate quente
Nos cafés de Lisboa
Que servem brunch ao fim de semana.
Porque somos urbanos, internacionais
E porque fingimos ver nas Amoreiras
O Empire State Building.
Voltamos a casa
E despejamos no cabide da entrada
Um exército de casacos,
lãs,
cachecóis.
pull-overs.
Enquanto,
Amontoas pedaços de lenha
Com que enches a lareira
Agora crepitante,
Os pés enrolados nos meus,
Os pratos na mesa com restos de bacalhau
E agora adormecemos juntos
Antes que o Menino Jesus traga
Os nossos presentes.
Segunda-feira, Novembro 21, 2011
O meu amigo Q
Para Q, de quem já tinha saudades
O meu amigo Q voltou. Andou lá por fora e voltou. Foi "viajar, perder países", porque o Q é um homem mais que moderno- urbano. Q tem um apartamento novo num edifício antigo que decorou com cuidado e gosto. Nada é por acaso nos metros quadrados da casa do Q à excepção dos cocós do cão, que de resto já nunca se vêem. Como homem urbano Q veste bem. Tem uma colecção imensa de camisas penduradas em cabides apoiados nos puxadores das quatro portas da casa. Na verdade, Q tem tanto gosto e tanta roupa que não dorme num quarto, mas num walk-in closet. A acompanhar a roupa Q tem uma colecção admirável de acessórios: um cão lindo e eléctrico; um namorado super divertido; uma irmã fabulosamente elegante e que anda sempre tão bem vestida como ele; amigas engraçadas, giras e bem-dispostas que compõem imenso o quadro. Q tem uma família que adora, cresceu na verdadeira Alta de Lisboa (o triângulo Campo de Ourique-Amoreiras-Campolide) e é um homem educado. Tem um belo emprego e vai para o escritório num óptimo carro que é da empresa. Q gosta de moda, não vê programas parvos na tv, papa séries pela net, tem uma estante com livros do Pedro Paixão por baixo dos livros do Harry Potter e organiza jantares de aniversário no Bar do Peixe em Novembro porque toda a gente com gosto sabe que estar na praia (nunca ir à praia) no Inverno enrolado em camisolões é imenso chique. De Q pode dizer-se que tem alma de pássaro e por isso podia bem ser uma personagem dum romance de Margarida Rebelo Pinto.
De Q pode dizer-se isto, mas dirá quem não o conhece. Q é um amigo. Q andou por fora e nós não andámos mais tristes, mas por certo andámos menos alegres. E percebemos isso quando ele voltou. Q deixa-nos alegres e sempre com muitas gargalhadas na boca. Porque o meu amigo Q tem isso com ele- ele faz bem aos outros, faz genuinamente bem aos outros. Como é que ele faz isso não sei. Tão pouco acho que ele mesmo o saiba. Mas fá-lo melhor que toda a gente que conheço. Mesmo quando Q está sério, está alegre, mesmo quando está triste está ainda assim alegre. Isto não quer dizer que Q seja um tolo. Quer dizer que eu acho que Q é uma pessoa genuinamente alegre a quem o sorriso sai sem esforço porque a vida lhe dá razões para isso. Na vida de Q também deve haver chuva, dias em que o café se entorna nas calças, conversas desagradáveis e decisões difíceis, mas a sua alegria sobrepõe-se a isso. Eu e Q não somos os amigos mais íntimos, não partilhamos segredos, não trocamos confidencias. Eu e Q somos amigos e Q faz-me bem. E eu e já tinha mesmo saudades e ele voltou e faz-me mesmo bem!
O meu amigo Q voltou. Andou lá por fora e voltou. Foi "viajar, perder países", porque o Q é um homem mais que moderno- urbano. Q tem um apartamento novo num edifício antigo que decorou com cuidado e gosto. Nada é por acaso nos metros quadrados da casa do Q à excepção dos cocós do cão, que de resto já nunca se vêem. Como homem urbano Q veste bem. Tem uma colecção imensa de camisas penduradas em cabides apoiados nos puxadores das quatro portas da casa. Na verdade, Q tem tanto gosto e tanta roupa que não dorme num quarto, mas num walk-in closet. A acompanhar a roupa Q tem uma colecção admirável de acessórios: um cão lindo e eléctrico; um namorado super divertido; uma irmã fabulosamente elegante e que anda sempre tão bem vestida como ele; amigas engraçadas, giras e bem-dispostas que compõem imenso o quadro. Q tem uma família que adora, cresceu na verdadeira Alta de Lisboa (o triângulo Campo de Ourique-Amoreiras-Campolide) e é um homem educado. Tem um belo emprego e vai para o escritório num óptimo carro que é da empresa. Q gosta de moda, não vê programas parvos na tv, papa séries pela net, tem uma estante com livros do Pedro Paixão por baixo dos livros do Harry Potter e organiza jantares de aniversário no Bar do Peixe em Novembro porque toda a gente com gosto sabe que estar na praia (nunca ir à praia) no Inverno enrolado em camisolões é imenso chique. De Q pode dizer-se que tem alma de pássaro e por isso podia bem ser uma personagem dum romance de Margarida Rebelo Pinto.
De Q pode dizer-se isto, mas dirá quem não o conhece. Q é um amigo. Q andou por fora e nós não andámos mais tristes, mas por certo andámos menos alegres. E percebemos isso quando ele voltou. Q deixa-nos alegres e sempre com muitas gargalhadas na boca. Porque o meu amigo Q tem isso com ele- ele faz bem aos outros, faz genuinamente bem aos outros. Como é que ele faz isso não sei. Tão pouco acho que ele mesmo o saiba. Mas fá-lo melhor que toda a gente que conheço. Mesmo quando Q está sério, está alegre, mesmo quando está triste está ainda assim alegre. Isto não quer dizer que Q seja um tolo. Quer dizer que eu acho que Q é uma pessoa genuinamente alegre a quem o sorriso sai sem esforço porque a vida lhe dá razões para isso. Na vida de Q também deve haver chuva, dias em que o café se entorna nas calças, conversas desagradáveis e decisões difíceis, mas a sua alegria sobrepõe-se a isso. Eu e Q não somos os amigos mais íntimos, não partilhamos segredos, não trocamos confidencias. Eu e Q somos amigos e Q faz-me bem. E eu e já tinha mesmo saudades e ele voltou e faz-me mesmo bem!
Sexta-feira, Outubro 28, 2011
Sábado, Setembro 17, 2011
Da perda
Perder vem de manso e instala-se nesta cadeira ao meu lado. Depois jogo este quebra-cabeças sem número em que cada dia é mais uma peça falando-me do que perdi.
Sábado, Setembro 10, 2011
Ritual
Como se das ondas um campo trigado.
Tuas mãos côncavas em alegre seara.
Um jeito de correr, corpo molhado,
Coleccionando as espigas da estrada.
De tarde nunca falavas.
Tisnado do sol, aquele banho
Era o ritual de outras coisas.
Tuas mãos côncavas em alegre seara.
Um jeito de correr, corpo molhado,
Coleccionando as espigas da estrada.
De tarde nunca falavas.
Tisnado do sol, aquele banho
Era o ritual de outras coisas.
No meu regresso
Quantas vezes isto houve no meu regresso?
Deixa que aconteça- o poema
Dir-se-á até ao final.
Era assim que lhes falavam
Os antigos chefes das tribos.
Os homens dançavam uma
Dança de barro.
Chamavam-lhe início.
Depois foi de dia...
Deixa que aconteça- o poema
Dir-se-á até ao final.
Era assim que lhes falavam
Os antigos chefes das tribos.
Os homens dançavam uma
Dança de barro.
Chamavam-lhe início.
Depois foi de dia...
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