terça-feira, fevereiro 17, 2009

Tela Roubada de A. (Revisited)

Entenda-se umas águas furtadas na Baixa de Lisboa. É Maio e por isso há sol. Frente a uma das janelas da casa há uma cadeira e uma mesa próxima da cadeira. A. está sentada e tem uma revista sobre o colo. As mãos, por vezes, passam as folhas, mas ela está sobretudo distraída com a luz da manhã lá fora. Olha para o lado. Sobre o sofá está o vestido que usou ontem à noite. Caído ao acaso A. descobre-lhe uma posição estética como se tivesse caído assim com alguma razão. Depois volta a concentrar-se na luz que vem da janela. Ainda tem a revista no colo, mas já não a folheia. Em cima da mesa há um copo com sumo de laranja. A. pegue nele e leva-o aos beiços. Bebe uns goles. Pousa o copo e levanta-se. Debruçada sobre o varandim A. corta algumas camélias. A. tem três varandins e ao longo deles plantou camélias. Antes havia rosas, encarnadas e brancas, mas o seu cheiro intenso e doce empastava a casa nos dias quentes de Agosto. Era apenas insuportável. Então A. desceu à Parça da Figueira e numa loja de esquina comprou sementes de camélia. Delicadamente, como quem estuda um gesto sem saber A. pega numa jarra. As camélias estão agora na jarra e A. dá-lhes um último toque. Pára uns momentos entre o distraída e o absorta e pensa no que irá fazer. Há mais um corpo deitado na sua cama e há que equacioná-lo. Entra no quarto. O homem está só ligeiramente tapado pelo lençol. A. repara nas costas fortes, nos ombros largos e na pele profundamente morena. E na luz que entra pela janela e banha o corpo do homem que dorme. A. entra na banheira. Com um gesto rápido roda a torneira e sente a água fria. O corpo contrai e a respiração torna-se mais rápida. Sente cada parte. Enquanto passa o sabão pelo corpo lembra-se da noite d'ontem. A música, a dança frenética, a casa, a cama, o seu corpo demasiado branco contra o corpo dele demasiado moreno. A. envolve-se agora na toalha. No quarto ele acordou com o som da água e levantou-se. Veste-se rapidamente e diz que prefere tomar banho em casa. A. olha-o talvez esperando que ele saia do quarto. Ele senta-se numa ponta da cama ainda por fazer. A. arranja os cabelos, livra-se da toalha e veste o vestido amarelo. Ele olha-a sempre em tudo. Ela está de costas, ams ve-o e isso deixa-a feliz.

Agora sairam. Passaram o Rossio e começam a entrar na Praça da Figueira. Daqui a pouco não será mais manhã. Gentilmente ele abre-lhe a porta da Confeitaria Nacional. Ouve-se uma música alegre. Dessas que os cantores americanos lançam na Primavera. Ela sobe a escada à frente e lá em cima escolhe a mesa. Senta-se numa cadeira junto à janela. O empregado vem e eles pedem. Enquanto esperam e depois enquanto comem falam de coisas supinamente triviais. C. tinha uma exposição perto da Graça que eles tinham que ir ver. I. lançava um novo romance nessa tarde, mas ele não podia ir. E depois a política, e a sociedade e o estado da arte. Mas a vida acontecia lá fora. A. equilibrava-se agora entre a conversa com ele e a vista sobre a Praça da Figueira. E os skaters perto da estátua, e os homens encostados à paragem do metro de olhares vagos, e as prostitutas que abriam as janelas das suas pensões de ratos e baratas. Os autocarros amarelos da Carris e os eléctricos estridentes. As pessoas apressadas e mais aquela que quase ia sendo atropelada por não respeitar o sinal. Os miúdos que chupavam em grandes doces ou trincavam bons bolos e as mães desesperadas com o melaço que escorre e mancha e suja tudo. E a possibilidade de tantas outras coisas entre a janela de casa e o varandim da Confeitaria Nacional. Ele está a pagar. Ela lança a mão à bolsa, mas ele cobre o gesto com a sua mão. Eles descem a escada e ela vai à frente. Já na rua despedem-se com um beijo. E têm mesmo que ir ver a exposição de C. e ele não vai mesmo poder ir hoje ao lançamento do livro de I., mais por embirração do que por indisponibilidade. A. tem que passar por casa antes de ir almoçar com L. como prometeu. Levanta o pulso e olha o relógio. Ainda tem tempo. A. desce a Rua Augusta. Quantas vezes podem oferecer drogas a uma pessoa? Os turistas debruçados nas montras das lojas típicas e os portugueses a encherem a Zara. E som e luz e cor. E vida! E A. chega a uma Praça do Comércio agora restaurada, agora longe dos tempos da crise. O coração da cidade bate ao mesmo tempo que o seu. Cedo A. vai partir para Berlim e ainda não sabe quando volta. Voltar isso há-de voltar. Tem voltado sempre à cidade. E no cais das colunas, o rio em frente e a cidade nas costas, A. fecha os olhos e inspira com força. Tem os pulmões cheios do ar do rio. Agora A. constrói o amanhã.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Em Alexandarplatz ou Um dia na toirada ou ainda Viagem entre a Alemanha e a arena dentro de mim mesmo

Para G., sem autorização de ser miserabilista.

Algures no vazio de Alexanderplatz passeia uma multidão de gente. Os sons estridentes da cidade, entre os comboios velozes e os infindáveis autocarros. A Galeria e as salsichas e os donuts e todas as coisa que fazem uma praça da cidade.

Depois olhei para dentro de mim mesmo.

Era um dia de arena e toirada. E a vida feito toiro marrava num recanto até correr na minha direcção. E fiquei sem ar e quase sem pulmões e não respirei durante segundos demasiado longos. E tive os olhos sempre fechados. Mas quando os abri tinha agarrado o toiro pelos cornos.

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Berlim- Impressões II

Entre as avenidas largas gosto de olhar as pessoas. Berlim entre os anos noventa e o estilo alternativo. As bicicletas passam por estradas de pedra vermelha em cima dos passeios. Ninguém sorri, mas três portugueses falam sempre muito alto onde quer que estejam. Nas lojas o hábito latino faz-nos mexer em tudo. "Olha, não achas giro?" e os olhares da caixa registadora meio desconfiados. O preto é quase imperante na rua, seja nas roupas, seja nos grandes outdoors que aqui e ali vestem os prédios altos da cidade. É uma cidade de contrastes entre a riqueza dos edifícios capitalistas e a dureza magnânima dos edifícios da RDA. Na parte boémia onde vivemos, os jovens andam em grupo e abraçam-se muito. A vitória do capital sente-se muito aqui. Entre pequenas lojas de colares e bugigangas e mercearias de cantinho há por todo o lado aliciantes fast-food's. Chineses, japoneses, vietnamitas, tantos turcos e claro os normais americanos. Oásis são as pastelarias alemãs e os seus muitos bolos de aspecto e sabor maravilhoso. Custa não comer quase tanto como custa fazê-lo. No país mais caro da Europa os preços sobem. Mas é irressistível com tantos belos convites. Nos nossos sacos comprados a vinte cêntimos descemos a rua até uma mercearia aqui perto. Os olhos bem fechados para não cair em tentação. Na casa branca, breve e quente o pão com gouda lembra de alguma maneira o pequeno-almoço em Portugal. Lá fora Berlim em stand-by só durante um momento.

Berlim- Impressões I

Numa praça de Berlim, com frio pelas pernas, o rio ao fundo sob pequenas pontes. O mundo cosmopolita atravessado por uma linha velha e ténue onde o comunismo existe em pequenos homens nos semáforos. Alguém passa com um chocolate quente na mão. A vida pelas montras das lojas. A vida das avenidas largas e das gentes apressadas em bicicletas e metros de rua. Berlim dos homens vestidos de preto e dos grandes outdoors. A cidade cosmopolita e intensa sob o frio imenso quase que gela.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Noite

Nada sei de estórias de reis que te conte

E de embalar sei a vida que me passa

E não me deixa nunca, nunca...

Os mares além da Grécia

Diz-me de sonhos breves

Assim, na minha mão

Casa e corpo e pão

E canto leve

Onde te cante dias de encanto e espanto

Sonho ainda breve

E trémulo e meu

Ondas de um mar Egeu

Sem fim, mas com pranto.

De um mar de azul e ondas

De azul e ondas
Como primeiro

É dia sem riscas

Meu quarto de sala de alma
De forno quente de coisa alguma

Registo marujo e espuma
Como num mar encarniçado

De azul e de ondas.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Gustavo- Corte (I)

A Tia Bé tinha uma casa nas Azenhas do Mar. Era branca e breve. Não tinha telhado, mas terraço e a todo o comprimento uma grande varanda estendia-se sobre o mar. Não havia nada de extraordinário nesta casa. A Tia Bé era uma mulher que tinha dinheiro suficiente para pagar somas exurbitantes para viver numa pequena casa branca numa colina frente ao mar. Não havia nada de romântico nisto, só de económico. O dinheiro da Tia Bé era a fonte que alimentava a beleza da sua casa.

Gustavo nunca pensou isto da casa da Tia Bé. Era para ele um espaço ideal onde cada coisa era guardada num sítio exacto de ser. As ânforas milimetricamente colocadas por uma questão de estilo eram para ele uma essência dum mundo onde ele ansiava por chegar, duma forma una e real de existir.

Mal chegou Gustavo enfiou-se na varanda. Podia ter ficado a contemplar o mar, mas sentou-se, dobrou os joelhos e meteu a cabeça no meio deles. O barulho do mar era forte e o seu cheiro era intenso. Deve ter ficado assim muito tempo porque de súbito sentiu escuro à sua volta e é sabido que no Verão o escuro demora muito a chegar e quase nunca existe verdadeiramente. Além do cheiro do mar havia um cheiro intenso a orégãos. A casa da Tia Bé cheirava sempre a orégãos porque era feita para cheirar sempre a orégão. Era um cheiro mágico de acalmar as mágoas e de despertar a fome.

O mar batia mais forte sobre a areia lá fora, agora que era noite. Como nascendo dum estado fetal Gustavo foi-se levantando. Erguido, aproximou-se da varanda, olhou o mar de frente, fechou os olhos e encheu os pulmões de maresia. Há um tempo breve a porta tinha-se aberto e a Tia Bé tinha-se esgueirado por ela. Pôs-se de pé, sempre muito direita e deixando os olhos no horizonte perguntou-lhe:

- Até onde é que consegues ver?

- Até dentro de mim. Ou é assim que pelo menos tudo isto me parece.

sexta-feira, dezembro 26, 2008

Experimentação para Conto de Gustavo-IV ou Conversa sobre Tejo e Tágides

Debruçado sobre o varandim esvoaçou a mão para afastar o fumo do cigarro.

- Que mariquices! Agora nem na minha varanda posso fumar, perguntou Sara brincando enquanto apagava o cigarro.
- Vês ao fundo? É preciso que nos curvemos um pouco e que empoleiremos aqui a barriga para ver o Tejo. Dói e custa manter este equilíbrio, mas quem pensa nisso assim que vê o rio? O Tejo é tão azul. Hoje como em Agosto. Tem princípio mas é tolo dizer que tem fim. Onde acabará o Tejo?
- Já me fazia falta essa tua maneira de falar. Diz-me um poema, dizes?
- Ao longe é rio e ele vai até ao país das fadas. Porque não podemos lá ir nós também? Vês quantas perguntas faço hoje? Hoje é noite de construir poemas e dir-te-ei quantos quiseres. Porque moras em Alfama e debruçado da tua janela vejo o rio. Isso deixa-me feliz. E deixa-me feliz partilhá-lo contigo porque sabes o que é ter uma janela para o Tejo. Nós temos olhos de ver o país das fadas, não temos Sara?

Sara passou a mão levemente pelo cabelo de Gustavo enquanto lhe dava um beijo no rosto.

- Temos, porque tu e eu sabemos construir palavras de ver coisas d'alma.

A rapariga tinha o braço esticado, o corpo flectido e apoiado no varandim.

- Vês lá longe, aquela luz? Porque não dizer que aí resta o país da fadas?

quarta-feira, dezembro 24, 2008

domingo, dezembro 14, 2008

Estórias de Anícios e Petrónios do antigamente ou Um dia de mudar a vida das coisas antigas

A mulher fala-me. Não é muito bonita, mas é de certa forma elegante. Sorri e acena muito em concordância. Gosta de mim e eu gosto dela como estas coisas se dão entre académicos: gostamos das ideias um do outro.

Ao fundo Anícia Demétrias, ainda com catorze anos, empuleira-se no vão da escada e deixa cair pelo grande fosso a carta de São Jerónimo. A avó, matrona grave, olha-a em repreensão. A criança quase freira sorri mostrando por trás do véu da castidade uma beleza louvável no mundo dos vivos. Sexto Cláudio, espreita-me do alto, soberano, enquanto Hermoginiano acompanha o homem que vem confirmar que é real tudo aquilo que se passa.

A mulher e o homem falam e combinam coisas e acertam pormenores, meio alheios à minha existência, enquanto a decidem. Não podem ver a agradável corte que os cerca. Anícios e Petrónios do antigamente, ainda meio apagados, ainda meio etéreos. Hermoginiano já está de novo ao lado dos pais, espreitando-me do cimo das escadas. Vieram todos e espreitam com o seu ar desconfiado de romanos o rapaz que lhes faz promessas. Só Demétrias não está com eles, ainda empoleirada no vão da escada. Escorrega por ele e desce com graça os últimos degraus. De súbito, a sua mão no meu ombro. Pouco antes de acordar olho-os a todos e ouço dizê-la ao meu ouvido "Agora, dá-nos voz!"

terça-feira, dezembro 09, 2008

Estória em tom menor

Tem o beiço caído e o corpo jogado no cadeirão frente à janela. Da cidade e do Tejo algum enjoo.

A mulher abeira-se dele.

"Dói-me a cabeça como a noite."

Lá fora há noite e escura e densa.

Rosário, pensa: como pode doer a cabeça como a noite? Onde estão as palavras que faltam?

sexta-feira, novembro 21, 2008

Poema do fim da tarde

Para Stijn Luyten.

Pois tu dirás pedra
Para que eu diga mar.

A vida é um dia de sol
Quando jogamos no degrau da
Entrada
Este secreto jogo
De silêncios.

Tua advinha de palavras d'alma
É cidade
Onde diga
Luz, casa e amigo.

sexta-feira, novembro 14, 2008

Uma noite numa livraria de Lisboa

Um dia mais ingénuo, como em ramos de árvore.

É de noite e alguém fala numa livraria de Lisboa.

Naufrago agora nas letras e de súbito sou derrotado pelo livro.

Vivo em extâse!

Coisas de dizer

Mais uma vez repito:
Entre nós os dois há o silêncio!

(Os teus olhos rodopiam ferverosamente irritados)

Há o teu sorriso quando me vês
E o teu abraço frente ao rio
E um sim constante em todas as horas
E uma coisa rebrilhante de teatro de ser coisa quotidiana.

Nem pedra, nem fruto, nem arca,
Ou estória ou dia ou parábola.

Ouves agora as palavras no nosso silêncio?

Rua da cidade ou Evocação de Sara

Dizias alma
Como se cada palavra fosse tua para dar.

Tu eras uma rua estreita e sem sentido certo.
Eras Lisboa sem Tejo, prédio arruinado.
E eras homem e mulher de pedir esmola e coisas do cair da tarde na cidade.

E amei-te tanto que em cada palavra
Calcetei nova pedra
E foste rua nova frente ao rio.

sexta-feira, novembro 07, 2008

Tarde erotisante na sala do piano ou Viagem dos antigos

Na sala do piano meu corpo aguarda por ser tocado em teclas frias.
Teclas brancas ou negras, mas frias.
De corpo roçagante no rosa do sofá, de alma perdida na viagem continua de cada moldura.

quinta-feira, novembro 06, 2008

Um brinde ao Presidente B.H. Obama

Ontem fez sol de manhã. E eu sentei-me na minha sala. E ouvi todas as músicas, os baladeiros de Abril. E li todos os poetas. E abri uma garrafa de Madeira. E o Ary, o Gedeão e tantos outros vieram beber comigo. E deixei-me mergulhar em tudo isto. Sentado na minha sala embebedei-me de música e poesia e livros e filmes.

Ontem foi um dia de acreditar. Hoje talvez já não, mas ontem sim. O dia de ontem é nosso para sempre. O dia em que o mundou soube voltar a acreditar e em que a democracia falou alto até às fronteiras de tudo. Ontem sonhei, bêbedo do mundo, e acreditei em tudo o que é bom acreditar.

Não sei o que será hoje. Mas sei o que foi ontem. E ontem soubémos e sonhámos que o sonho comanda a vida. E que este homem sonhou para que o mundo pulasse e avançasse como bola colorida por entre as mãos duma criança.

Soul Mates

Para Daniela Varela, ela há-de saber porquê.

Fico aqui, à beira de ti. Namoro docemente a tua voz. Por onde vou ou por onde ando, tu sabes. Já olhaste para dentro de mim.

A tua música é gémea da minha alma. Às vezes ouço-te e gostava que o mundo se vestisse de nós.

Não desisti. Lentamente murmuro às águas "Oh, quero ver, quero mais e sonho, depois do rio o que é que vem?"

Tenho uma infância como tu e não a esqueço. Moldo-me e olhamo-nos dentro um do outro.

A tua alma é gémea da minha!


http://www.myspace.com/flordelisbanda