Para D., enquanto ouvia as suas músicas.
Olha, meu amor
Hoje vem a Lua Nova.
Namorámos a cidade
Lento a lento
Comendo o prazer de cada rua
Como a ambrósia irrepetível
Dos deuses.
Do Olimpo algumas cores
Como um quadro que pintaras
Lá longe
Quando os dias eram outros.
Deste se dirá rosa,
Daquele branco e daqueloutro amarelo.
São as janelas da cidade, meu amor.
Mas eis que vem a Lua Nova!
Meu corpo apartado do teu
Escuta ainda a tua voz
ao longe
não distante
Como canto de matar
Saudade.
Como canto de dizeres-
"Hoje-me aqui, meu amor.
Não me vês, mas ouves-me.
Ouves como canto para ti nas
Noites diurnas da cidade.
Até mesmo nesta em que hoje
É Lua Nova."
Fora eu de novo menino
Assim, como era no mar da infância
E de rir e de brincar
E de jogar as pedras e as palminhas
Cantavas para mim, meu amor?
Cantavas para mim ainda que
Fora menino
E sendo a Lua Nova tivera medo do
Papão?
Dizes-
"De nos sonhos
Nada se tem medo.
Estão nos sonhos as máquinas para fazer o mundo
E eu estou sempre nos sonhos
Para que possas encontrar-me."
Eu pergunto:
Mesmo hoje que é a Lua Nova
Sonhamos juntos, meu amor?
"Sim, mesmo hoje que é a Lua Nova
Sonhamos juntos, meu amor."
(E dizes-me ainda:)
"Ouve agora como quando me vês
Perto do gradeamento
Chorando à paisagem idílica da cidade.
Ouve agora dos poemas brancos
Que te canto
Sente-me perto
Sempre perto
Porque agora,
no fim das palavras que se dizem,
Aqui
onde o silêncio começa,
Já quase não há a Lua Nova.
sexta-feira, maio 28, 2010
sábado, maio 22, 2010
Do choro, lágrimas
Tivera hoje como uma vontade de chorar.
Não que houvesse razão, mas assim se dera.
Chorava, pois.
De manso, choro conjugado.
De mim para mim pensava-
Porque choro, ora?
De nada havia que pudesse dizer-
Eis esta a razão de chorar.
Mas chorava, chorei
Chorara já.
Não muito... pouco assim,
lágrimas escorregando lentas, quentes
Com a noite de verão insuportável.
O corpo como um vestido pegajoso
Pegando todos pedaços da pele
E elas escorrendo-
Lágrimas de contra-gosto sem nelas compreender
Razão.
Assim, de lágrimas
Vontade e escrita
Do choro virou poema
Virado nesta queda das palavras que aqui deixo
Como se nesta noite dissera-
Chorava com gosto de as escrever.
Não que houvesse razão, mas assim se dera.
Chorava, pois.
De manso, choro conjugado.
De mim para mim pensava-
Porque choro, ora?
De nada havia que pudesse dizer-
Eis esta a razão de chorar.
Mas chorava, chorei
Chorara já.
Não muito... pouco assim,
lágrimas escorregando lentas, quentes
Com a noite de verão insuportável.
O corpo como um vestido pegajoso
Pegando todos pedaços da pele
E elas escorrendo-
Lágrimas de contra-gosto sem nelas compreender
Razão.
Assim, de lágrimas
Vontade e escrita
Do choro virou poema
Virado nesta queda das palavras que aqui deixo
Como se nesta noite dissera-
Chorava com gosto de as escrever.
quinta-feira, abril 29, 2010
A Ponta-do-Sol
Há coisas que me povoam
Como se fora a sua casa.
As ruas da infância encontram por mim
Os seus caminhos.
Nunca um nostos
Nem saudade.
Gozo, prazer, riso
E essa memória perene de ser-se feliz à beira-mar.
Como o cheiro da sala
E dos retratos oblíquamente pendurados
Na parede
(outrora rosa e hoje amarela).
As crianças multiplicam-se até à infinidade dos dias,
Um infância continuada por cada criança
Do meu sangue.
A ilha, no fim do Caminho Novo.
Como mar e praia feita de ondas pedras amigos e memórias
Há hoje também a música d'ontem
Coisas mais antigas que velhas
("a avó tem as mãos pintalgadas como as bananas doces")
As suas unhas longas polidas
Enterradas no meu cabelo em anteriores caracóis
E uma rosa formosa
Ao embalar-me
Disto direi agora um caminho para casa-
Sem regresso ou retornamento.
Deixamos a nossa casa para irmos para a nossa casa.
A ilha é como se fora em mim uma casa de todas quantas coisas
Ela me traz
Recordando continuamente
A infância que se alarga pelos dias
Banhada no mar de pedras e ondas
Ao som da música antiga
Que cantam para mim as avós.
Como se fora a sua casa.
As ruas da infância encontram por mim
Os seus caminhos.
Nunca um nostos
Nem saudade.
Gozo, prazer, riso
E essa memória perene de ser-se feliz à beira-mar.
Como o cheiro da sala
E dos retratos oblíquamente pendurados
Na parede
(outrora rosa e hoje amarela).
As crianças multiplicam-se até à infinidade dos dias,
Um infância continuada por cada criança
Do meu sangue.
A ilha, no fim do Caminho Novo.
Como mar e praia feita de ondas pedras amigos e memórias
Há hoje também a música d'ontem
Coisas mais antigas que velhas
("a avó tem as mãos pintalgadas como as bananas doces")
As suas unhas longas polidas
Enterradas no meu cabelo em anteriores caracóis
E uma rosa formosa
Ao embalar-me
Disto direi agora um caminho para casa-
Sem regresso ou retornamento.
Deixamos a nossa casa para irmos para a nossa casa.
A ilha é como se fora em mim uma casa de todas quantas coisas
Ela me traz
Recordando continuamente
A infância que se alarga pelos dias
Banhada no mar de pedras e ondas
Ao som da música antiga
Que cantam para mim as avós.
quinta-feira, abril 15, 2010
Poema de Merlim, Morgana, Artur, Ginevra, Lancelot e da Senhora Igraine, sendo que do primeiro e última aqui não se consta
(ou mais simplesmente Poema dum dia sobre um pensamento hoje miticamente céltico)
Para I., de ascéticos passos druídicos, como prova de que também nasci do mesmo rio Oceano e mesmo entre a coluna dórica, sobre o pateo branco, conheço sua alma irascível de carvalho e onda.
Celebra-me a alma
Nos fogos de Beltane,
Um novo rei Artur
De mito e espada
Uma Camelot inteira
Feita de cartas
Construída de coisas
Paradoxalmente
Irremediavelmente
Sólidas porque assim efémeras.
De Morgana,
Por sobre o lago,
Aguarda o barco
O dia a hora
Da bruma certa
Descerrada
Como de nova Ginevra
Lancelot,
Beijos adúlteros
Novamente adúlteros
Uma outra vez adúlteros
Como um círculo perpétuo
Nas muralhas do castelo
Como um amor
Inefugível
Que nenhuma Excalibur
Poderá, por ora, cortar.
A magia dos elementos
Essenciais
Palavra e Terra
Seiva rasgada dos
Veios carnudos dos carvalhos
Druídicos
Também aqui
Espaço Casa Verbo
Novo sonho, mesmo mito
Como se continuamente
Continuadissimamente
Alguém conjugue em deleite
e como seu
o declinável
Refurjar.
Para I., de ascéticos passos druídicos, como prova de que também nasci do mesmo rio Oceano e mesmo entre a coluna dórica, sobre o pateo branco, conheço sua alma irascível de carvalho e onda.
Celebra-me a alma
Nos fogos de Beltane,
Um novo rei Artur
De mito e espada
Uma Camelot inteira
Feita de cartas
Construída de coisas
Paradoxalmente
Irremediavelmente
Sólidas porque assim efémeras.
De Morgana,
Por sobre o lago,
Aguarda o barco
O dia a hora
Da bruma certa
Descerrada
Como de nova Ginevra
Lancelot,
Beijos adúlteros
Novamente adúlteros
Uma outra vez adúlteros
Como um círculo perpétuo
Nas muralhas do castelo
Como um amor
Inefugível
Que nenhuma Excalibur
Poderá, por ora, cortar.
A magia dos elementos
Essenciais
Palavra e Terra
Seiva rasgada dos
Veios carnudos dos carvalhos
Druídicos
Também aqui
Espaço Casa Verbo
Novo sonho, mesmo mito
Como se continuamente
Continuadissimamente
Alguém conjugue em deleite
e como seu
o declinável
Refurjar.
quarta-feira, março 24, 2010
Das coisas ditas, palavras, da Terra
Da terra, pergunta o menino, "que há-de aqui ser?"
Tenha noite quando for noite
E riso em toda a hora boa de rir.
E crianças
Que criança é bom de ver crescer.
Mais água fresca e sombra d'árvore. E canto de alegrar as almas.
Quando o menino perguntar "e aqui que há-de ser?"
Então diz-lhe
"Aqui, como um nome, seja casa."
Tenha noite quando for noite
E riso em toda a hora boa de rir.
E crianças
Que criança é bom de ver crescer.
Mais água fresca e sombra d'árvore. E canto de alegrar as almas.
Quando o menino perguntar "e aqui que há-de ser?"
Então diz-lhe
"Aqui, como um nome, seja casa."
Do langor
Assim o corpo, assim a calma,
Assim o espanto das coisas.
E casa e pateo branco ondas mar e além.
Assim o dia, assim o sol,
Assim a luz.
Todas as coisas existem na claridade de si mesmas.
Assim o espanto das coisas.
E casa e pateo branco ondas mar e além.
Assim o dia, assim o sol,
Assim a luz.
Todas as coisas existem na claridade de si mesmas.
Espelho
O poema existe na meta do indizível.
Isto que agora lês
Não é tanto um poema como o reflexo de um poema.
Não sobre ti, mas sobre mim.
Fosse de facto um poema, como nunca poderá ser,
E seria um reflexo sobre as
Coisas.
Isto que agora lês
Não é tanto um poema como o reflexo de um poema.
Não sobre ti, mas sobre mim.
Fosse de facto um poema, como nunca poderá ser,
E seria um reflexo sobre as
Coisas.
Do espaço e centro das coisas nomeadas
Aqui o espaço do nome.
De cada coisa s'inventa de dentro
Para fora
Como chamada por
Palavra.
De todas as coisas- omnia nomina.
Círculo certo e arguto, de espaço preciso,
Que busca a criar
Coisas
Espantadas.
De cada coisa s'inventa de dentro
Para fora
Como chamada por
Palavra.
De todas as coisas- omnia nomina.
Círculo certo e arguto, de espaço preciso,
Que busca a criar
Coisas
Espantadas.
domingo, março 14, 2010
Verão
Quando era novo e havia dias de sol, descia sozinho até ao calhau. A vila era o espaço da primeira liberdade. Conhecia as escadas, os caminhos e entrava nas casas que deixavam as portas abertas. Quando chegava ao calhau estendia a toalha. Havia sempre alguém no calhau. Na vila todos se conhecem. O corpo ficava levemente estendido ao sol, salgado de banhos longos e ondas perfuradas. Tudo era tranquilo.
Ainda hoje procuro um estrado onde deitar a toalha e esticar o corpo ao sol no calhau. Olhar o mar que chega até às cidades e deixar-me ser feliz por ainda não lá estar. Hoje já não tenho a minha namoradinha dos sete anos e em muitas das casas as portas fecharam-se porque as pessoas morreram. Mas ainda há portas abertas por onde se pode entrar.
A ilha da Memória jaz eterna na Infância.
Ainda hoje procuro um estrado onde deitar a toalha e esticar o corpo ao sol no calhau. Olhar o mar que chega até às cidades e deixar-me ser feliz por ainda não lá estar. Hoje já não tenho a minha namoradinha dos sete anos e em muitas das casas as portas fecharam-se porque as pessoas morreram. Mas ainda há portas abertas por onde se pode entrar.
A ilha da Memória jaz eterna na Infância.
segunda-feira, fevereiro 22, 2010
(Sem título)
À mesa o pouco pão é terra podre
Das terras que choraram a noite inteira.
Hoje o mar corre para as ribeiras
E espalha em todo o canto
O perfume enjoativo dos mortos
Em espanto.
Tudo é interior e fechado.
Negritude.
Eis que as ruas da cidade voltam a ser em pedra bruta.
Algures no oceano a ilha da Memória jaz desfeita.
Das terras que choraram a noite inteira.
Hoje o mar corre para as ribeiras
E espalha em todo o canto
O perfume enjoativo dos mortos
Em espanto.
Tudo é interior e fechado.
Negritude.
Eis que as ruas da cidade voltam a ser em pedra bruta.
Algures no oceano a ilha da Memória jaz desfeita.
sexta-feira, fevereiro 05, 2010
Caleidoscópio
Fujo a cada impulso criador. Às vezes, por exemplo, estou parado em algum sítio... imagina a esplanada dum shopping dum subúrbio de Lisboa. Estou sentado, é Inverno, e apesar do frio o sol é quente que chegue para me espreguiçar na cadeira e lamentar não haver espreguiçadeiras. À minha frente há o barulho forte da auto-estrada que é o barulho mais lindo deste tempo. Tudo devia ser como a auto-estrada: veloz, moderno, eficiente e sem possibilidade de voltar atrás. Depois é assim, vês? Começo logo a divagar. A pensar muitas coisas. Quando estou sozinho penso porque acho que é o que as pessoas fazem quando estão sozinhas.
Mas voltemos ao assunto! Não, não vou fazer literatura agora se não a fiz antes.
Eu estou sentado. O mundo moderno está aberto à minha frente. Já falei da auto-estrada. Mas há betão por todo o lado. Muitos prédios onde vivem muitas pessoas em muitas casas. Foram todas equipadas no Ikea ou na Moviflor. É só uma questão de datas. Tudo é novo. O mundo moderno só existe a sério nos subúrbios onde não existem centros históricos. Foram deitados abaixo para construir eficientes repartições de finanças. Aquilo que o sociólogo da Câmara não deixou enfiar no entulho está no museu municipal ou à porta duma biblioteca da zona (quando há alguma).
Mas vês como me perco? Divagação outra vez!
Vou resumir os factos: é Inverno, mas o sol é quente e eu estou sentado na esplanada dum shopping suburbano com o mundo moderno à minha frente. Tudo o que eu disse antes cabe aqui: sem fazer literatura!
Conquanto esteja atento a tudo isto (repara como é elegante a palavra conquanto) há uns miúdos do liceu a conversar. Há aqui muitos miúdos do liceu porque são apenas 3h da tarde. Ali, naquela mesa, são dez: contei-os. Agora levantaram-se. Agora não há quase ninguém. Eu e uma senhora ali ao fundo sentada noutra mesa a falar ao telemóvel. Ela não tem o mundo moderno à sua frente, mas compõe a visão que eu tenho do mundo moderno.
É no meio disto tudo que tenho vontade de escrever. Nada disto cabia nas páginas dum romance. Um subúrbio, miúdos do liceu no shopping, a senhora a falar ao telemóvel. Depois penso que podia ter lugar num blogue. Num desses blogues que os tipos como eu têm, os tipos que querem escrever. Esses que os tipos como tu, os que escrevem mesmo, acham risível. Só acham risível porque é uma maneira literariamente polida de dizer digno de dó. É que "digno de dó", apesar da aliteração, não é nada polido. Não é nada digno de ser literário.
É isto mesmo, vês? É sempre assim! Penso em escrever. Mas depois penso no que é escrever: em tudo o que isso quer dizer, entendes? As implicações que tem. Escrever não é para um tipo numa esplanada dum shopping suburbano a falar de auto-estradas. Deve falar da vida. De pessoas. De complexidades. Deve ser uma coisa feita, construída. Olha, maquinada, que é mesmo a palavra ideal. Então não escrevo. Não escrevo mesmo. Recuso-me! A sério. Digo para mim "Não tires daí o caderno. Não escrevas. Não consegues. Escrever não é para tipos como tu. É para tipos mesmo bons que sabem o que fazem."
Nunca falei disto a ninguém. É paralisante, sabes? Tenho estórias na minha cabeça. É tão absurdo que narro para mim certos episódios porque passo. Narro-os como se estivessem escritos num livro escrito por mim. Mas eu posso lá escrever livros. Ou blogues. Ou coisas num caderno preto que se leva na mala.
Não escrevo, é como te disse. Fico muito tempo parado ao sol. A vontade passa. Com o tempo fica mais fácil. Eduquei-me bem. Agora já nem sinto vontade de escrever.
Fico sentado a pensar em muitas coisas como fazem todas as pessoas quando estão sozinhas.
Mas voltemos ao assunto! Não, não vou fazer literatura agora se não a fiz antes.
Eu estou sentado. O mundo moderno está aberto à minha frente. Já falei da auto-estrada. Mas há betão por todo o lado. Muitos prédios onde vivem muitas pessoas em muitas casas. Foram todas equipadas no Ikea ou na Moviflor. É só uma questão de datas. Tudo é novo. O mundo moderno só existe a sério nos subúrbios onde não existem centros históricos. Foram deitados abaixo para construir eficientes repartições de finanças. Aquilo que o sociólogo da Câmara não deixou enfiar no entulho está no museu municipal ou à porta duma biblioteca da zona (quando há alguma).
Mas vês como me perco? Divagação outra vez!
Vou resumir os factos: é Inverno, mas o sol é quente e eu estou sentado na esplanada dum shopping suburbano com o mundo moderno à minha frente. Tudo o que eu disse antes cabe aqui: sem fazer literatura!
Conquanto esteja atento a tudo isto (repara como é elegante a palavra conquanto) há uns miúdos do liceu a conversar. Há aqui muitos miúdos do liceu porque são apenas 3h da tarde. Ali, naquela mesa, são dez: contei-os. Agora levantaram-se. Agora não há quase ninguém. Eu e uma senhora ali ao fundo sentada noutra mesa a falar ao telemóvel. Ela não tem o mundo moderno à sua frente, mas compõe a visão que eu tenho do mundo moderno.
É no meio disto tudo que tenho vontade de escrever. Nada disto cabia nas páginas dum romance. Um subúrbio, miúdos do liceu no shopping, a senhora a falar ao telemóvel. Depois penso que podia ter lugar num blogue. Num desses blogues que os tipos como eu têm, os tipos que querem escrever. Esses que os tipos como tu, os que escrevem mesmo, acham risível. Só acham risível porque é uma maneira literariamente polida de dizer digno de dó. É que "digno de dó", apesar da aliteração, não é nada polido. Não é nada digno de ser literário.
É isto mesmo, vês? É sempre assim! Penso em escrever. Mas depois penso no que é escrever: em tudo o que isso quer dizer, entendes? As implicações que tem. Escrever não é para um tipo numa esplanada dum shopping suburbano a falar de auto-estradas. Deve falar da vida. De pessoas. De complexidades. Deve ser uma coisa feita, construída. Olha, maquinada, que é mesmo a palavra ideal. Então não escrevo. Não escrevo mesmo. Recuso-me! A sério. Digo para mim "Não tires daí o caderno. Não escrevas. Não consegues. Escrever não é para tipos como tu. É para tipos mesmo bons que sabem o que fazem."
Nunca falei disto a ninguém. É paralisante, sabes? Tenho estórias na minha cabeça. É tão absurdo que narro para mim certos episódios porque passo. Narro-os como se estivessem escritos num livro escrito por mim. Mas eu posso lá escrever livros. Ou blogues. Ou coisas num caderno preto que se leva na mala.
Não escrevo, é como te disse. Fico muito tempo parado ao sol. A vontade passa. Com o tempo fica mais fácil. Eduquei-me bem. Agora já nem sinto vontade de escrever.
Fico sentado a pensar em muitas coisas como fazem todas as pessoas quando estão sozinhas.
terça-feira, janeiro 19, 2010
O estado da Arte
A arte não pode ser limitada por algo tão reles como as pessoas. As pessoas são apenas cobaias da arte. A grandeza de tudo o que sentem não é senão acessório para a grandeza de tudo o que escrevo.
Outros diriam que sou desprezível. Mas o que dizem tem a importância limitada da matéria bruta para que depois eu a escreva. Se tivesse moral era um cínico. A moral serve para pôr em bons livros e dá boas tramas. Eu não tenho moral e assim tenho todas e consigo escrevê-las. Sou vazio de tudo para que tudo de desprezível que acontece às pequenas pessoas à minha volta me encha e preencha as páginas quintessências que escrevo.
Outros diriam que sou desprezível. Mas o que dizem tem a importância limitada da matéria bruta para que depois eu a escreva. Se tivesse moral era um cínico. A moral serve para pôr em bons livros e dá boas tramas. Eu não tenho moral e assim tenho todas e consigo escrevê-las. Sou vazio de tudo para que tudo de desprezível que acontece às pequenas pessoas à minha volta me encha e preencha as páginas quintessências que escrevo.
terça-feira, dezembro 29, 2009
Os odores de Samarcanda ou Viagem Oriental através dum livro
De Samarcanda guarda o cheiro do bazar. A luz reflecte levemente nas pedras de âmbar dispostas nos tabuleiros de quase todas as bancas. A cidade confude-se com ruídos que te confundem. Confia apenas no teu cheiro e nada mais. O Verde é apenas uma miragem dos ricos jardins além-muros, nos palácios inacessíveis do Oriente. Não percas tempo com eles. As casas são de tijolo cru e batido e ainda cheiram a terra e a poeira. Era assim há mil anos como é hoje. Se buscas cor, confia de novo no cheiro e vai até à mesquita. Admira agora os ricos azulejos da sua porta e do alto do seu minarete. Encosta o nariz a um deles e sente. Sente agora o cheiro dos anos, do tempo, o cheiro do corpo de centenas de homens em oração em mistura com o barro cozido num fogo demasiado alto. É o fogo que queima o barro e os homens de fé que rezam. Escolhe agora uma rua tortuosa. Atravessa as casas e ligeiramente olha para o seu interior. Uma casa cheira sempre a comida e a lume. A lume brando e calmo. Que ouvirás dentro das casas? Risos, queixas, gritos, carícias, prazeres. As casas de Samarcanda são como todas as casas do mundo onde moram pessoas. Que há de diferente nas pessoas de Samarcanda em relação com as pessoas do mundo? Descobre nelas o cheiro da Pérsia. Não desta Pérsia de agora. Dessa que dorme um sono no coração dessas pessoas. Aproxima-te do coração dum habitante de Samarcanda e cheira-o. Encontrarás aí tapetes voadores, abóbadas douradas, turbantes e espadas curvas. Ali dorme o país encantado, no coração batente de cada cidadão de Samarcanda.
Depois, lembra-te apenas do cheiro, nada além do cheiro, e que ele te guie sem destino pelo labirinto das ruas de casas sempre iguais, pelo labirinto de rostos sempre iguais até chegares a um sítio que só o cheiro sabe onde é.
Depois, lembra-te apenas do cheiro, nada além do cheiro, e que ele te guie sem destino pelo labirinto das ruas de casas sempre iguais, pelo labirinto de rostos sempre iguais até chegares a um sítio que só o cheiro sabe onde é.
Experimentação em trilhadas trincheiras
Sigo o trilho desta trilha
Com minh'alma trilhada em coisas d'alma
Entrincheirada em trincheiras tão trincadas
Que até trincar o pão duro é difícil
Enquanto sigo o trilho desta trilha
Que me leva ao nada.
Com minh'alma trilhada em coisas d'alma
Entrincheirada em trincheiras tão trincadas
Que até trincar o pão duro é difícil
Enquanto sigo o trilho desta trilha
Que me leva ao nada.
Poema dum dia de chuva ou Evocação bucólica
Digamos um poema de sala e de luz.
As palavras constroem-se como se chamadas a isso.
Tudo é natural e bom como um dia de Inverno com muita chuva.
Ao redor da minha janela deito-me a imaginar prados verdes.
Que há de bom em imaginar prados verdes num dia de chuva
E céu cinzento?
Absolutamente nada a não ser o prazer de imaginar prados verdes em que a chuva
Molha e acorda o cheiro a terra.
Imagino depois que dou uma grande golfada e o cheiro da terra molhada
Invade-me as narinas brutalmente.
Enquanto, estou na sala
E o poema conta estórias de luz e de outras coisas que não se podem ver
A não ser que as imaginemos.
A sala é todo um mundo-
Do poema, de nós mesmos e das coisas infinitas que temos dentro de nós mesmos.
Agora, entre a luz e a sala fecho os olhos,
Fecho os olhos muito devagar, devagarinho, para guardar dentro de mim
Luzes, salas e tantas, tantas coisas.
E adormeço. E sonhando vou até aos prados verdes que imagino e agora sonho
Onde um dia de chuva faz com que cheire muito a terra molhada.
As palavras constroem-se como se chamadas a isso.
Tudo é natural e bom como um dia de Inverno com muita chuva.
Ao redor da minha janela deito-me a imaginar prados verdes.
Que há de bom em imaginar prados verdes num dia de chuva
E céu cinzento?
Absolutamente nada a não ser o prazer de imaginar prados verdes em que a chuva
Molha e acorda o cheiro a terra.
Imagino depois que dou uma grande golfada e o cheiro da terra molhada
Invade-me as narinas brutalmente.
Enquanto, estou na sala
E o poema conta estórias de luz e de outras coisas que não se podem ver
A não ser que as imaginemos.
A sala é todo um mundo-
Do poema, de nós mesmos e das coisas infinitas que temos dentro de nós mesmos.
Agora, entre a luz e a sala fecho os olhos,
Fecho os olhos muito devagar, devagarinho, para guardar dentro de mim
Luzes, salas e tantas, tantas coisas.
E adormeço. E sonhando vou até aos prados verdes que imagino e agora sonho
Onde um dia de chuva faz com que cheire muito a terra molhada.
quarta-feira, dezembro 09, 2009
Tarde alexandrina ou O Velho Criador da(s) Palavra(s)
Em Alexandria certa tarde encontrei um homem numa esquina. Não representa qualquer dificuldade encontrar um homem numa esquina numa tarde de calor em Alexandria. Descrevê-lo é desnecessário: era um homem velho igual a todos os homens velhos de Alexandria que em si são todos iguais. Não me tivesse falado teria passado por ele na busca duma sombra melhor. Mas falou-me. Adoptava um ar grave quando falava. Tinha uma voz encantadoramente pausada e cada sílaba era dita como um acto religioso. Ainda que não entendesse o que dizia (tinha um árabe demasiado dialético para mim) ouvi-lo era mágico. Cada palavra era todo a possibilidade de ser todas as palavras ao mesmo tempo. A partir de certo momento deixei de tentar descortinar sentidos ou sequer de os imaginar. As palavras diziam-se na sua boca e isso era o bastante para mim. E nos minutos em que o ouvi aquele velho foi Deus para mim, Javé num tempo ancestral criando o Mundo em que a Palavra era em si a Essência.
segunda-feira, dezembro 07, 2009
Vista do mar sobre a janela da casa branca
Não esqueças as palavras da casa branca-
Seus sentidos amargos e doces
Como as frutas da árvore que grande
Cresce no quintal.
Não esqueças os segredos espalhados
Em cada esquina, em cada canto
Palavras encantadas de dizer dia, manhã e sol.
Não esqueças os cheiros prenhes de palavras
Ainda por nascer,
De sensações indescritíveis.
Não esqueças o não dizer do silêncio,
A vista certa do mar numa tarde debruçado
Na janela
E todas as coisas possíveis de construir
No instante exacto em que cada palavra te sai da boca.
Seus sentidos amargos e doces
Como as frutas da árvore que grande
Cresce no quintal.
Não esqueças os segredos espalhados
Em cada esquina, em cada canto
Palavras encantadas de dizer dia, manhã e sol.
Não esqueças os cheiros prenhes de palavras
Ainda por nascer,
De sensações indescritíveis.
Não esqueças o não dizer do silêncio,
A vista certa do mar numa tarde debruçado
Na janela
E todas as coisas possíveis de construir
No instante exacto em que cada palavra te sai da boca.
sexta-feira, dezembro 04, 2009
A casa antiga
Na esquina das escadas com a porta envidraçada da livraria- aí é onde o cheiro da casa é mais forte.
Pequenas aranhas tecem um labor ao longo das paredes. Tudo é interior e bom.
A casa está carregada das recordações de todas as infâncias.
Pequenas aranhas tecem um labor ao longo das paredes. Tudo é interior e bom.
A casa está carregada das recordações de todas as infâncias.
terça-feira, novembro 17, 2009
Jogo parco
Deus do mar,
construo hoje a casa onde hei-de nascer nesse dia que tu sabes.
Servirá de Babilónia ou Atenas e serão apenas alguns livros como mobília.
Tempo da memória para construir um corpo novo.
As Parcas jogam os dados no pateo exactamente quadrado.
construo hoje a casa onde hei-de nascer nesse dia que tu sabes.
Servirá de Babilónia ou Atenas e serão apenas alguns livros como mobília.
Tempo da memória para construir um corpo novo.
As Parcas jogam os dados no pateo exactamente quadrado.
Parole
Não digas nenhuma palavra. Não é tempo delas.
Não há tempo delas.
As palavras vivem melhor se não existerem nas nossas bocas,
Mas apenas onde as fabricamos.
Não há tempo delas.
As palavras vivem melhor se não existerem nas nossas bocas,
Mas apenas onde as fabricamos.
domingo, outubro 18, 2009
Crónica de grande revolta ou Último apelo àquele que se esqueceu
Lento reajustar das placas tectónicas, novo decifrar de novas línguas. Criar um mundo agora de barro fundido, esperado mais forte, deixando outros ventos para trás.
Que nada se faça, contudo, assim- como eu me quedo agora: em fúria, em raiva e tanta mágoa. Porque de tudo o que dissemos já não te sinto, e em tudo o que fizemos já não te encontro. Esqueceste-me numa das curvas. E deixaste que o tempo arrastado rompesse o que antes havia.
Que nada se crie assim. Os deuses, por fim, far-me-ão dormir. E do sono virá nova manhã. Nessa manhã possa ser mais do que sou agora. E mesmo que lá não estejas possa haver um sentido de real em cada coisa que será criada.
segunda-feira, outubro 12, 2009
Ânsia
E se numa palavra te pudesse dizer diria mais que saudade, embora por vezes ausência. Mas se ainda assim fosse só uma, diria: Anseio!
sábado, outubro 10, 2009
De uma videira outonal
De quantos frutos nascem nas árvores, do número de todos não bastaria para esboçar de quanto te sinto a falta.
quinta-feira, outubro 08, 2009
Carta a um dia fascinado de Verão ou Langor d'Infância
Quero outra vez um dia de Verão. Entenda-se que não peço um dia de sol, mas sim que quero um dia de Verão.
Nos dias de Verão é mais fácil escrever: tudo é mais luminoso e tem mais vida. Podemos falar de uma cadeira de vime no alpendre e de uma almofada fofa no assento. Verde com riscas laranjas e contornos azuis. Assim, exagerada de cor. São três da tarde e o sol bate levemente por sobre o caramanchão que me dá sombra. Uma estrutura simples coberta pelo maracujaleiro em flor. Cheira! E como cheira. Três da tarde é a hora dos gatos e dos segredos. Já é insuportavelmente tarde para o almoço dum dia comum e infinitamente longe de uma hora boa para o chá. É uma hora que não existe. Na casa alguém dorme a sesta num dos quartos com as quatro paredes altas. Os tectos finamente decorados a estuque são como antigos mobiles ou clepsidras que nos fazem adormecer. Contando que nos viremos algumas vezes na cama. Podia estar a escrever, agora que estou no jardim, sentado numa cadeira de vime com uma almofada colorida por assento. Enquanto, prefiro pensar numa sesta não demasiado tranquila no quarto do fundo. O quarto do fundo é grande e branco e tem um tecto como um clepsidra como os outros quartos da casa. Mas não é isso que me atrai. Numa proporção certa a cama enfrenta a janela cuja vista se joga sobre a cidade. Continua depois no mar. Bastaria agora que me levantasse, que pisasse com os pés nús o chão morno de cantaria. Em jeito manso subiria as escadas para encontrar num instante a porta envidraçada da biblioteca. Agora caminhar no longo corredor dum silêncio impossível, feito de velha madeira rangente. A mão poisada sobre a maçaneta, rodando-a num gesto de pulso. De seguida fecho a porta e corro também as cortinas. Às três da tarde todas as luzes devem ser a meia luz. O corpo descansado sobre a cama. O tecto em clepsidra e as paredes altas e brancas e o sol por entre as cortinas leves. Meia-luz com a alma a meio-gás como se meio adormecida. E agora estou sentado na cadeira do jardim a pensar que poderia estar deitado na cama do quarto do fundo. Aí imaginaria o turpor das quatro da tarde, quando nem por um instante houvesse silêncios. As crianças a descer velozmente as escadas, aos tropeções ligeiros; o jardim muito cheio; alguém a por a mesa do lanche. E tudo isto como um preparar lento do funeral duma tarde de verão que se fecha com o ritual do chá servido quente pelas cinco.
Hoje Outubro quase vira Outono. Há ainda resistências do sol e sobretudo da luz. Agora na janela frente à estação de comboios felizes e também velozes penso- no corpo sentado na cadeira no jardim, pensando no corpo deitado na cama do quarto, imaginando a agitação que virá para preparar o final de mais uma coisa que começa. Onde estarei eu pelo mês de Agosto?
Nos dias de Verão é mais fácil escrever: tudo é mais luminoso e tem mais vida. Podemos falar de uma cadeira de vime no alpendre e de uma almofada fofa no assento. Verde com riscas laranjas e contornos azuis. Assim, exagerada de cor. São três da tarde e o sol bate levemente por sobre o caramanchão que me dá sombra. Uma estrutura simples coberta pelo maracujaleiro em flor. Cheira! E como cheira. Três da tarde é a hora dos gatos e dos segredos. Já é insuportavelmente tarde para o almoço dum dia comum e infinitamente longe de uma hora boa para o chá. É uma hora que não existe. Na casa alguém dorme a sesta num dos quartos com as quatro paredes altas. Os tectos finamente decorados a estuque são como antigos mobiles ou clepsidras que nos fazem adormecer. Contando que nos viremos algumas vezes na cama. Podia estar a escrever, agora que estou no jardim, sentado numa cadeira de vime com uma almofada colorida por assento. Enquanto, prefiro pensar numa sesta não demasiado tranquila no quarto do fundo. O quarto do fundo é grande e branco e tem um tecto como um clepsidra como os outros quartos da casa. Mas não é isso que me atrai. Numa proporção certa a cama enfrenta a janela cuja vista se joga sobre a cidade. Continua depois no mar. Bastaria agora que me levantasse, que pisasse com os pés nús o chão morno de cantaria. Em jeito manso subiria as escadas para encontrar num instante a porta envidraçada da biblioteca. Agora caminhar no longo corredor dum silêncio impossível, feito de velha madeira rangente. A mão poisada sobre a maçaneta, rodando-a num gesto de pulso. De seguida fecho a porta e corro também as cortinas. Às três da tarde todas as luzes devem ser a meia luz. O corpo descansado sobre a cama. O tecto em clepsidra e as paredes altas e brancas e o sol por entre as cortinas leves. Meia-luz com a alma a meio-gás como se meio adormecida. E agora estou sentado na cadeira do jardim a pensar que poderia estar deitado na cama do quarto do fundo. Aí imaginaria o turpor das quatro da tarde, quando nem por um instante houvesse silêncios. As crianças a descer velozmente as escadas, aos tropeções ligeiros; o jardim muito cheio; alguém a por a mesa do lanche. E tudo isto como um preparar lento do funeral duma tarde de verão que se fecha com o ritual do chá servido quente pelas cinco.
Hoje Outubro quase vira Outono. Há ainda resistências do sol e sobretudo da luz. Agora na janela frente à estação de comboios felizes e também velozes penso- no corpo sentado na cadeira no jardim, pensando no corpo deitado na cama do quarto, imaginando a agitação que virá para preparar o final de mais uma coisa que começa. Onde estarei eu pelo mês de Agosto?
quarta-feira, outubro 07, 2009
Palas Ateneia de Rembrandt
I
Quero olhar sem nunca pestanejar até que me sequem os olhos.
(Há que começar com uma frase forte, que marque o leitor e o arrepie. O afastamento da estética pela estética produz o pensamento do leitor).
A intensidade do quadro, nas suas manchas de vermelho sangue vivo, contrastavam fortemente com o ar plácido do rapaz hermafrodito. Como se a inocência fosse arrancada num traje militar.
(Ainda o choque. Tentar ouvir o sofrimento do leitor. Jogar-lhe com manchas de tinta para cima e vê-lo sacudir-se como se salpicado de sangue).
A lança decorativa resta-lhe na mão. Na cabeça a coruja ilumina a sua sabedoria. Estranho jogo o da guerra e o do saber. Onde há um não devia haver o outro.
(Agora apela-se ao sentimento de justiça. Que o leitor sinta, e mais que isso saiba, que o que lê é boa literatura do seu tempo: cheia de ideias e valores, pronta a corrigir e carregar nos erros do passado).
II
Teria sido, certamente, capaz de restar ali por horas até que me secassem os olhos. Não, tanto não! estou ali para ver, ver sempre. Não para deixar de ver.
Queria saber se as manchas de tecido encarnado sobre a armadura dourada têm especial significado. A verdade é que não sei nada de arte. Estou aqui porque gosto de estar aqui. A estética leiga do olhar distante deste rapaz efeminado bastou para que me sentasse a vê-lo. Há outras coisas, mas são para a hora dos segredos. Em geral, a minha opinião é completamente leiga: gosto porque gosto, é há bastante que me chegue nesse gostar.
Sentado, de pé, de lado e por vezes mesmo com coragem para ser de frente olho o quadro. Depois do tempo desço as escadas depressa. Corro os placares um a um com uma calma rápida e mais que isso sedenta. Lá está! Por €3 trago-o para casa. Agora é só meu, como é de todos os outros que o pagam, compram e visitam. Olho-o com um enamoramento recém descoberto. Começo um namoro secreto com o quadro.
Quero olhar sem nunca pestanejar até que me sequem os olhos.
(Há que começar com uma frase forte, que marque o leitor e o arrepie. O afastamento da estética pela estética produz o pensamento do leitor).
A intensidade do quadro, nas suas manchas de vermelho sangue vivo, contrastavam fortemente com o ar plácido do rapaz hermafrodito. Como se a inocência fosse arrancada num traje militar.
(Ainda o choque. Tentar ouvir o sofrimento do leitor. Jogar-lhe com manchas de tinta para cima e vê-lo sacudir-se como se salpicado de sangue).
A lança decorativa resta-lhe na mão. Na cabeça a coruja ilumina a sua sabedoria. Estranho jogo o da guerra e o do saber. Onde há um não devia haver o outro.
(Agora apela-se ao sentimento de justiça. Que o leitor sinta, e mais que isso saiba, que o que lê é boa literatura do seu tempo: cheia de ideias e valores, pronta a corrigir e carregar nos erros do passado).
II
Teria sido, certamente, capaz de restar ali por horas até que me secassem os olhos. Não, tanto não! estou ali para ver, ver sempre. Não para deixar de ver.
Queria saber se as manchas de tecido encarnado sobre a armadura dourada têm especial significado. A verdade é que não sei nada de arte. Estou aqui porque gosto de estar aqui. A estética leiga do olhar distante deste rapaz efeminado bastou para que me sentasse a vê-lo. Há outras coisas, mas são para a hora dos segredos. Em geral, a minha opinião é completamente leiga: gosto porque gosto, é há bastante que me chegue nesse gostar.
Sentado, de pé, de lado e por vezes mesmo com coragem para ser de frente olho o quadro. Depois do tempo desço as escadas depressa. Corro os placares um a um com uma calma rápida e mais que isso sedenta. Lá está! Por €3 trago-o para casa. Agora é só meu, como é de todos os outros que o pagam, compram e visitam. Olho-o com um enamoramento recém descoberto. Começo um namoro secreto com o quadro.
sábado, outubro 03, 2009
Cliché de uma folha em branco
De dizer clichés
Como a folha branca dum papel
E a angústia que provoca:
Tentemos então metáforas sobre os rios
E a espuma branca
Das ondas fortes que rebentam contra as rochas
Como línguas lambonas.
Ou então pensar numa família
E fazer uma poesia vulgar- quotidiana mas modernaça
Falar de cervejas e futebol
E de pais gordos com correntes de ouro
E de mães meio tristes de bata gordurenta.
É bom em cliché
Falar-se do sorriso duma criança
Encontros e relações de luz e riso
E encanto
Que uma criança é fácil de encantar
Seja quem for, ainda mais num poema assim cliché
Como este aqui.
E tantas coisas, que num cliché cabe tudo
Nem falo em falar-se de amor.
Não acabava hoje este poema.
Mas há ainda a folha em branco
E por mais cliché que isso seja
O terror de estar por dentro em branco assombra-me mais
Que todas as outras coisas.
Como a folha branca dum papel
E a angústia que provoca:
Tentemos então metáforas sobre os rios
E a espuma branca
Das ondas fortes que rebentam contra as rochas
Como línguas lambonas.
Ou então pensar numa família
E fazer uma poesia vulgar- quotidiana mas modernaça
Falar de cervejas e futebol
E de pais gordos com correntes de ouro
E de mães meio tristes de bata gordurenta.
É bom em cliché
Falar-se do sorriso duma criança
Encontros e relações de luz e riso
E encanto
Que uma criança é fácil de encantar
Seja quem for, ainda mais num poema assim cliché
Como este aqui.
E tantas coisas, que num cliché cabe tudo
Nem falo em falar-se de amor.
Não acabava hoje este poema.
Mas há ainda a folha em branco
E por mais cliché que isso seja
O terror de estar por dentro em branco assombra-me mais
Que todas as outras coisas.
domingo, setembro 20, 2009
Mel
O espaço de cada letra invade-me violentamente e cada poro do corpo é agora conspurcado como por um mel doce que chegue.
domingo, agosto 30, 2009
Quando uma revolução tem dois lados
Lembro Cecília com certa exactidão. O queixo caído, os olhos também, o cotovelo agudamente apoiado à mesa, a mão aberta segurando a cara toda. Parecia esperar algo de indecifrável. Nunca olhava para mim, mas às vezes olhava Ângela pelo canto do olho. Ângela Carneiro de Albuquerque era uma brasileira cinquentona divertida que tinha sempre ar de quem tinha tomado sol a mais. Lembro-me de Cecília dizer :" Não a achas tão divertida, tão solta. É uma água de côco!"
Cecília gostava de água de côco quando passeávamos pelo Leblon perto das três da tarde quando o calor era ligeiramente insuportável. A sua blusa, sempre de cor clara, virava transparente e colava às costas. Ainda que a mim me impressionasse a Cecília parecia não mexer com ela. Era bom assim, era legal! Cecília era mais tranquila nesses anos. Vestia-se como as actrizes de "Dancin´Days" e gostava de drinks e boites. Tínhamos amigos na Barra que visitávamos aos Domingos e às vezes recebíamos na nossa cobertura. Cecília já dizia a palavra arrastada e com todas as vogais fortemente pronunciadas ao gosto brasileiro. Se foi feliz é raro eu saber, mas gostava daquela vida, eu acho.
Lembro Cecília naquela tarde. O avião tardava por demais. Três horas de atraso! E Cecília esperando algo mais que o avião. Nunca soube o que esperava. Ângela ria, contando estórias alegres da nossa última estadia em Búzios. (Ângela tinha uma casa lá que às vezes emprestava para a gente). O mar de Búzios é inesquecível, mas não era por isso que Cecília aguardava tão abstraídamente. Não era, tenho a certeza. Seu corpo colado ao vestido de linho branco, o grande casaco de peles apoiado no carrinho do aeroporto.
Sei lá quanto tempo passou desde que me perdi olhando Cecília até que ela despertou com a voz da aero-moça chamando para o nosso voo. Lembro com certa exactidão: era o dia três de Dezembro de 1982. Nosso voo foi longo mas passou por nós voando. Cecília estava cansada de ter esperado tanto. Como tinha ficado à espera por mais do que o avião estava visivelmente mais cansada que todos nós. O avião aterrou em Lisboa. Fazia pouco menos de sete anos que não estávamos na nossa terra, terra que o pai de Cecília lembrava saudoso chamando "Nossa Pátria". Chegados à nossa pátria lembro Cecília levantando sonolenta da cadeira do avião, eu colocando o casaco em seus ombros magros. Enquanto descíamos a escada nossos corpos foram os primeiros a saber que tínhamos verdadeiramente chegado: estavam 6 graus! Cecília, que não falava desde o Rio, apertou minha mão cravando as unhas ligeiramente na palma e falou quase como quem berra "Acordei António, não queria, mas acordei!"
Cecília gostava de água de côco quando passeávamos pelo Leblon perto das três da tarde quando o calor era ligeiramente insuportável. A sua blusa, sempre de cor clara, virava transparente e colava às costas. Ainda que a mim me impressionasse a Cecília parecia não mexer com ela. Era bom assim, era legal! Cecília era mais tranquila nesses anos. Vestia-se como as actrizes de "Dancin´Days" e gostava de drinks e boites. Tínhamos amigos na Barra que visitávamos aos Domingos e às vezes recebíamos na nossa cobertura. Cecília já dizia a palavra arrastada e com todas as vogais fortemente pronunciadas ao gosto brasileiro. Se foi feliz é raro eu saber, mas gostava daquela vida, eu acho.
Lembro Cecília naquela tarde. O avião tardava por demais. Três horas de atraso! E Cecília esperando algo mais que o avião. Nunca soube o que esperava. Ângela ria, contando estórias alegres da nossa última estadia em Búzios. (Ângela tinha uma casa lá que às vezes emprestava para a gente). O mar de Búzios é inesquecível, mas não era por isso que Cecília aguardava tão abstraídamente. Não era, tenho a certeza. Seu corpo colado ao vestido de linho branco, o grande casaco de peles apoiado no carrinho do aeroporto.
Sei lá quanto tempo passou desde que me perdi olhando Cecília até que ela despertou com a voz da aero-moça chamando para o nosso voo. Lembro com certa exactidão: era o dia três de Dezembro de 1982. Nosso voo foi longo mas passou por nós voando. Cecília estava cansada de ter esperado tanto. Como tinha ficado à espera por mais do que o avião estava visivelmente mais cansada que todos nós. O avião aterrou em Lisboa. Fazia pouco menos de sete anos que não estávamos na nossa terra, terra que o pai de Cecília lembrava saudoso chamando "Nossa Pátria". Chegados à nossa pátria lembro Cecília levantando sonolenta da cadeira do avião, eu colocando o casaco em seus ombros magros. Enquanto descíamos a escada nossos corpos foram os primeiros a saber que tínhamos verdadeiramente chegado: estavam 6 graus! Cecília, que não falava desde o Rio, apertou minha mão cravando as unhas ligeiramente na palma e falou quase como quem berra "Acordei António, não queria, mas acordei!"
domingo, agosto 16, 2009
Tarde de Domingo
Suspirar de prazer numa tarde de Domingo. Vivo das pequenas coisas.
Carícias.
Queijos.
Vinho Verde.
Deixo-me e vagueio com alguma constância. Agora pelo corpo, depois pela mente, quase sempre pelos dois ao mesmo tempo.
Carícias.
Queijos.
Vinho Verde.
Deixo-me e vagueio com alguma constância. Agora pelo corpo, depois pela mente, quase sempre pelos dois ao mesmo tempo.
quarta-feira, julho 29, 2009
Engano amantíssimo
Se o que fora não sou
Era de esperar que pudesse ser
O que não fui.
Em amar-te fingi amar
Quando amava de verdade.
De amor nome não dava,
Em meu peito consumido,
O que amor fora sem ser,
Sentindo eu,
Pudesse em outro ter sido.
Era de esperar que pudesse ser
O que não fui.
Em amar-te fingi amar
Quando amava de verdade.
De amor nome não dava,
Em meu peito consumido,
O que amor fora sem ser,
Sentindo eu,
Pudesse em outro ter sido.
Por um dia em que as coisas acabaram em talvez
Estranho,
É como te carrego.
Belos,
Os teus olhos indefinidos.
Exacto
É tudo o que nos resta além do que nós temos.
É como te carrego.
Belos,
Os teus olhos indefinidos.
Exacto
É tudo o que nos resta além do que nós temos.
Coisas ditas
Diz-me como quem diga
Que o dizer não está no dito,
Mas em tudo o que se guarda
Nos silêncios repetidos.
Que o dizer não está no dito,
Mas em tudo o que se guarda
Nos silêncios repetidos.
Tarde em escala
Se em tardando tardasse
Em demorada demora
Podera que encontrasse
Em demoradíssima
Tarde
Novo dia
Em nova hora.
Em demorada demora
Podera que encontrasse
Em demoradíssima
Tarde
Novo dia
Em nova hora.
segunda-feira, julho 20, 2009
Carta-I
Um amigo fez chegar-me às mãos um espólio de cartas que diz serem de um antepassado seu e seus amigos. Tratam de um caso curioso entre o dito antepassado e uma paixão que ele teve durante o casamento. As cartas estão em inglês, mas achei curioso traduzi-las e postá-las nem que só por exercício. Segue uma das primeiras:
[Carta de Lorde Dashville a seu amigo o Dr. Ivorious MacCallister]
Dashville House, aos 13 de Junho de 1872
Caro Iv,
Estive ontem nos Blicwill. O mármore da entrada reluz e nas janelas de quase todas as salas caem cortinas novas. Lady Blicwill histerisa-se! Advinhar o porquê não é difícil, basta olhá-los. O marido mal se chega perto. Há rumores, mas Londres vive de sujidade e de rumores. Averiguar a sua exactidão é uma impossibilidade, quase. Tentarei falar com autoridades neste assunto. Logo segue outra carta com mais notícias. Pobres de nós que não temos mais que fazer que viver da vida dos outros.
Teu,
D
P.S.- Estou em casa da irmã dele em dois dias. Lady Elizabeth tem sido amorosa.
[Carta de Lorde Dashville a seu amigo o Dr. Ivorious MacCallister]
Dashville House, aos 13 de Junho de 1872
Caro Iv,
Estive ontem nos Blicwill. O mármore da entrada reluz e nas janelas de quase todas as salas caem cortinas novas. Lady Blicwill histerisa-se! Advinhar o porquê não é difícil, basta olhá-los. O marido mal se chega perto. Há rumores, mas Londres vive de sujidade e de rumores. Averiguar a sua exactidão é uma impossibilidade, quase. Tentarei falar com autoridades neste assunto. Logo segue outra carta com mais notícias. Pobres de nós que não temos mais que fazer que viver da vida dos outros.
Teu,
D
P.S.- Estou em casa da irmã dele em dois dias. Lady Elizabeth tem sido amorosa.
quarta-feira, julho 08, 2009
Relato de tarde em Mi(m) maior
Na sala dos grandes retratos fico esparramado na senhorinha. Isso, essa que está mais junto ao piano. Quem o toca? Já quase ninguém.
As paredes hoje são amarelas, mas já foram cor-de-rosa. Um tom mais claro, conveniente.
São três horas da tarde (bateu há pouco o relógio do escritório): a luz entra pelas cortinas demasiado finas e deixa-nos a todos uma moleza imemorável.
Quase que adormeço.
Quando digo todos falo de mim e de todas as pessoas que estão nos retratos na sala dos grandes retratos. Falo até mesmo daquelas que estão em pequenos retratos.
Mastigo uma broa de mel demasiado dura para ser mastigada. Quando estou quase a rasgar os dentes empurro com um cálice de vinho. Beberrico.
Ao longe, embora cada vez mais perto, há vozes de crianças como em tempos houve a minha ao tempo em que era criança.
Descem o Caminho Novo. Foram ver as folhas caídas no pateo de entrada do Clube. Lá não há estações: é sempre Outono!
Alguém marca uma soma com o sete de copas e o três de paus. É arriscado. Alguém, outro alguém, avança o dez de ouros. Oh, gritos! "Era meu", dizem a rir no quarto ao lado. Ninguém tem menos de oitenta anos.
Já são perto das cinco horas. Os retratos estão quase iguais salvo possíveis variações de humor que me são "presque" indetectáveis. É seguro afirmar que só eu darei por algo.
Levanto-me. Possivelmente adormeci em determinado tempo indeterminado.
Vamos agora embora. Não sem antes dizer os adeuses costumeiros a quem de direito.
As paredes hoje são amarelas, mas já foram cor-de-rosa. Um tom mais claro, conveniente.
São três horas da tarde (bateu há pouco o relógio do escritório): a luz entra pelas cortinas demasiado finas e deixa-nos a todos uma moleza imemorável.
Quase que adormeço.
Quando digo todos falo de mim e de todas as pessoas que estão nos retratos na sala dos grandes retratos. Falo até mesmo daquelas que estão em pequenos retratos.
Mastigo uma broa de mel demasiado dura para ser mastigada. Quando estou quase a rasgar os dentes empurro com um cálice de vinho. Beberrico.
Ao longe, embora cada vez mais perto, há vozes de crianças como em tempos houve a minha ao tempo em que era criança.
Descem o Caminho Novo. Foram ver as folhas caídas no pateo de entrada do Clube. Lá não há estações: é sempre Outono!
Alguém marca uma soma com o sete de copas e o três de paus. É arriscado. Alguém, outro alguém, avança o dez de ouros. Oh, gritos! "Era meu", dizem a rir no quarto ao lado. Ninguém tem menos de oitenta anos.
Já são perto das cinco horas. Os retratos estão quase iguais salvo possíveis variações de humor que me são "presque" indetectáveis. É seguro afirmar que só eu darei por algo.
Levanto-me. Possivelmente adormeci em determinado tempo indeterminado.
Vamos agora embora. Não sem antes dizer os adeuses costumeiros a quem de direito.
sexta-feira, julho 03, 2009
Numa noite de poesia
De palavras em mentiras que tas conto
Das contas de fiar cada porfía
Amizade em amor verte o que conto
Sem verdade que já haja ou eu distinga.
Que te quero sei dizê-lo,
o corpo o sente,
Mas fazê-lo é esperança vã que me nasce e me tormenta cada dia.
Das contas de fiar cada porfía
Amizade em amor verte o que conto
Sem verdade que já haja ou eu distinga.
Que te quero sei dizê-lo,
o corpo o sente,
Mas fazê-lo é esperança vã que me nasce e me tormenta cada dia.
Do que me surge quando leio poemas
Pela chegada da noite reservo-me direitos lânguidos.
Levemente esticado no grande cadeirão azul
O corpo de hoje dá à luz meu corpo para amanhã.
Rolam nos dedos folhas que dizem poesias.
Nos olhos agora o sono.
O sono é um banho tépido
Que a alma toma.
Adormeço como quem dorme descansado
Um sonho onde soubera o que começa,
Mas nunca acaba.
Levemente esticado no grande cadeirão azul
O corpo de hoje dá à luz meu corpo para amanhã.
Rolam nos dedos folhas que dizem poesias.
Nos olhos agora o sono.
O sono é um banho tépido
Que a alma toma.
Adormeço como quem dorme descansado
Um sonho onde soubera o que começa,
Mas nunca acaba.
terça-feira, junho 30, 2009
Gaivota
Nas mãos abertas encontro agora pequenos silêncios.
Como em aves voando o gesto é gerador de intensas palavras.
Como em aves voando o gesto é gerador de intensas palavras.
sábado, junho 20, 2009
Dança entre a mulher mais bela do mundo e o rapaz de olhos de azul
Numa sala que não existe, onde a luz não há, a mulher mais bela do mundo aplica delicadamente o pó de arroz. Estrondosamente feliz ela agora invade cada salão.
O rapaz de olhos de azul é luz em si mesmo no pateo escuro. Agita os braços magros em gestos lentos. A face coberta de pó de arroz.
A música é um exaltação dos sentidos. Ambos vêem com os olhos demasiado abertos. Tudo neles é agora desperto e natural.
O rapaz de olhos de azul e a mulher mais bela do mundo são como duas crianças irmãs que se amam pela inocência dos olhos. São demasiado belos para perceber como de facto são exultantemente belos.
Os dois vivem agora uma felicidade isolada e compreendida a dois. São alheios ao impacto visual que causam em todos quantos os vêem sem por isso se deixarem de sentir de certa forma olhados.
Deixado só a um canto observo-os e imagino quanto de prazer me daria escrevê-los.
O rapaz de olhos de azul é luz em si mesmo no pateo escuro. Agita os braços magros em gestos lentos. A face coberta de pó de arroz.
A música é um exaltação dos sentidos. Ambos vêem com os olhos demasiado abertos. Tudo neles é agora desperto e natural.
O rapaz de olhos de azul e a mulher mais bela do mundo são como duas crianças irmãs que se amam pela inocência dos olhos. São demasiado belos para perceber como de facto são exultantemente belos.
Os dois vivem agora uma felicidade isolada e compreendida a dois. São alheios ao impacto visual que causam em todos quantos os vêem sem por isso se deixarem de sentir de certa forma olhados.
Deixado só a um canto observo-os e imagino quanto de prazer me daria escrevê-los.
segunda-feira, junho 08, 2009
Das folhas
Há folhas mortas no meu jardim. Com que cuidado as limpo, lavo e penteio! Ansiosamente junto-as. Observo-as como quem mastiga algo superiormente bom. Enrugadas, por vezes estalam e partem apenas com ligeiros toques. Mesmo a essas guardo-as. Guardo-as todas em grandes jarros de vidro cuidadosamente transparente. Observo-as como um cientista disseca. Longas horas de Outono. Não falo delas nunca. Não são para se falar. São para eu observá-las Conheco-as por cada linha e dar-lhes-ia mesmo nome não fosse isso bizarro. Agora que é verão deixo-me quieto, calado e mudo até ao instante em que haja no meu jardim a primeira folha morta.
domingo, maio 24, 2009
Duma tarde de Domingo
Da vida dir-se-ia uma tarde de domingo. Ao fundo da sala resta a mesa cheia de coisas d'ontem: os pratos ainda sujos da sobremesa, os copos ligeiramente entornados deixando uma e outra mancha de tinto sobre a toalha. O corpo afundado no sofá, afogado em almofadas e mantas. Emoções em pequenas cenas passam no ecrã. Ocasionalmente, alguém ri e isso lembra-nos o prazer de ter amigos. Felizes, os olhares encontram-se na sala. Enquanto o sol morre na varanda sabemos, descansados, que está tudo bem.
sexta-feira, maio 15, 2009
Retrato de elegante saboreando um sorvete
Vejo-a enquanto morde e masca a fruta de gosto forte e ácido. Por vezes dá gritinhos e outras tantas faz caretas de desagrado. Mas continua a levar a fruta de gosto forte e ácido à boca. Estica os beiços e dá breves dentadas. Enquanto o suco lhe ultrapassa as papilas gustativas e lhe chega ao esófago, percebo um ritual humano e de segredos. Em cada gesto resta um espelho que revela o contrário do que esconde. Como ver agora cada reflexo em cada espelho e ainda assim sentir o seu sabor?
terça-feira, maio 12, 2009
Para uma tarde em que talvez amasse uma rapariga sobre uma janela
Dizem assim que é tão bela
E bela coisa de ver.
Não sei se bela é ela
Ou qualquer coisa além dela
Que se parece perder.
Tem recato e é bela,
Ela sobre a janela,
Isso todos dirão.
É ela mais bela que a janela,
Janela por ela aberta
Directa ao meu coração.
E bela coisa de ver.
Não sei se bela é ela
Ou qualquer coisa além dela
Que se parece perder.
Tem recato e é bela,
Ela sobre a janela,
Isso todos dirão.
É ela mais bela que a janela,
Janela por ela aberta
Directa ao meu coração.
Das coisas que o corpo nu de um homem nos faz pensar
De um dia como hoje
Diga-se
Sol, mas também vento.
Sobre a mesa
A ideia
Da imagem do teu corpo estendido.
A pele escura e um cheiro
Intrincado
Difícil de destrincar.
Jogamos o jogo dos signos
E outro
Das palavras fáceis.
Há coisas ainda para dizer:
Agora as tuas mãos, como cavalos,
Pelos meus cabelos,
Como mar.
O teu beiço de carne
É agora
Silêncio.
Um gemido breve
Mas, lânguido.
Nele sei que há também outros dias,
De outras
Palavras,
Mas nunca mais como este.
Diga-se
Sol, mas também vento.
Sobre a mesa
A ideia
Da imagem do teu corpo estendido.
A pele escura e um cheiro
Intrincado
Difícil de destrincar.
Jogamos o jogo dos signos
E outro
Das palavras fáceis.
Há coisas ainda para dizer:
Agora as tuas mãos, como cavalos,
Pelos meus cabelos,
Como mar.
O teu beiço de carne
É agora
Silêncio.
Um gemido breve
Mas, lânguido.
Nele sei que há também outros dias,
De outras
Palavras,
Mas nunca mais como este.
quinta-feira, maio 07, 2009
Um corpo que não o toque
Teu corpo que não toque
E teus cabelos que não os sinta
Em força és ausência em mim
E quase abstracção
Não sei, mas sinto
E nem sei o que sinto
Nem nada do que é de saber
Teu corpo escapa-me
Foge-me
Ausentas-te de mim
Como se nunca mais viesses
Como se nunca estivesses
Perto do meu corpo
A respiração lenta
A viagem das tuas mãos
Novas terras que reclames
Lembra-me de chorar-te
No dia que chegar Outubro
Quando os dias perderem sentido
E teus cabelos que não os sinta
Em força és ausência em mim
E quase abstracção
Não sei, mas sinto
E nem sei o que sinto
Nem nada do que é de saber
Teu corpo escapa-me
Foge-me
Ausentas-te de mim
Como se nunca mais viesses
Como se nunca estivesses
Perto do meu corpo
A respiração lenta
A viagem das tuas mãos
Novas terras que reclames
Lembra-me de chorar-te
No dia que chegar Outubro
Quando os dias perderem sentido
Ideia de mulher que dorme sobre uma rede
Simples como a água é o canto
De redores, de estradas, de espanto
De cavalos em fúria em teus cabelos.
E dizê-lo é chegar-te
Como o sol das três da tarde
Enquanto tua alma transpirada resta
Sob o sol de todos os dias.
De redores, de estradas, de espanto
De cavalos em fúria em teus cabelos.
E dizê-lo é chegar-te
Como o sol das três da tarde
Enquanto tua alma transpirada resta
Sob o sol de todos os dias.
domingo, maio 03, 2009
Evocando a última cena do bailado "Inês de Castro"
Dona Inês está morta, mas sussurra no ouvido de Dom Pedro:
"Leva-me a dançar sobre a água"
No corpo jacente e bailante de Inês, Pedro planta um jardim de coisas indizíveis. Tudo nasce sobre a água que submergiu o convento de Santa Clara. Essa água emerge em nós, sempre que uma Inês sussura ao ouvido de um seu Pedro.
"Leva-me a dançar sobre a água"
No corpo jacente e bailante de Inês, Pedro planta um jardim de coisas indizíveis. Tudo nasce sobre a água que submergiu o convento de Santa Clara. Essa água emerge em nós, sempre que uma Inês sussura ao ouvido de um seu Pedro.
Em noite frente ao Tejo ou Ensaios de literatura vindoira
Nas horas inumeráveis e inexistíveis encontro um espaço
Por onde abrir uma porta.
Coisas que se digam.
Guardo amenos silêncios romanos.
É de tarde no forum da minha vida
E estendo uma rede da coluna de Trajano à coluna de Adriano.
Uma cesta leve
Leva coisas que me fazem feliz
Como o rio.
Hoje é um dia em que estou frente
Ao rio assim que cai a noite.
Ao longe os cafés, os restaurantes,
Todas as coisas de frenesim
E na estação os combois vão para longe
Com coisas de livros que quero escrever.
Por onde abrir uma porta.
Coisas que se digam.
Guardo amenos silêncios romanos.
É de tarde no forum da minha vida
E estendo uma rede da coluna de Trajano à coluna de Adriano.
Uma cesta leve
Leva coisas que me fazem feliz
Como o rio.
Hoje é um dia em que estou frente
Ao rio assim que cai a noite.
Ao longe os cafés, os restaurantes,
Todas as coisas de frenesim
E na estação os combois vão para longe
Com coisas de livros que quero escrever.
terça-feira, abril 21, 2009
Gonçala sentada no muro
Não me lembro de estar parada há tanto tempo. Aqui é como se houvesse ausência de tempo. O tempo afogou-se no verde. Mas continua uma palavra constante.
Estou sentada em cima do muro e não falo há quatro dias. Penso muito. Observo sobretudo. A casa é grande e de pedra. Os nosso quartos são frios e pela parede escorre a humidade. O jardim em redor da casa é tão grande como o silêncio. Aqui tudo se funde misturado em círculos que se inter-cruzam continuamente sem entender o que é um ou outro. Silêncio, paz, pensamento, Verde.
Ainda há pouco passou por aqui um grupo de miúdos. Vi-os apenas ao longe. Pareciam figurinhas de desenho animado. Via-lhes os gestos desfocados e ouvia as suas vozes esganiçadas pela distância. Estavam alegres e riam. Talvez partilhassem estórias engraçadas uns com os outros.
Que pode achar um grupo de miúdos duma rapariga sentada em cima dum muro olhando o vale? E que me interessa isso? Eles não vão tocar a minha vida. Tão pouco eu a deles. Mas ainda assim, aqui onde nada é, parecemos ligados pelo Verde.
Agora fecho os olhos. Sou eu que estou também ali, do outro lado do muro, cheia de gente, contando estórias engraçadas duma outra vida que vivi.
Estou sentada em cima do muro e não falo há quatro dias. Penso muito. Observo sobretudo. A casa é grande e de pedra. Os nosso quartos são frios e pela parede escorre a humidade. O jardim em redor da casa é tão grande como o silêncio. Aqui tudo se funde misturado em círculos que se inter-cruzam continuamente sem entender o que é um ou outro. Silêncio, paz, pensamento, Verde.
Ainda há pouco passou por aqui um grupo de miúdos. Vi-os apenas ao longe. Pareciam figurinhas de desenho animado. Via-lhes os gestos desfocados e ouvia as suas vozes esganiçadas pela distância. Estavam alegres e riam. Talvez partilhassem estórias engraçadas uns com os outros.
Que pode achar um grupo de miúdos duma rapariga sentada em cima dum muro olhando o vale? E que me interessa isso? Eles não vão tocar a minha vida. Tão pouco eu a deles. Mas ainda assim, aqui onde nada é, parecemos ligados pelo Verde.
Agora fecho os olhos. Sou eu que estou também ali, do outro lado do muro, cheia de gente, contando estórias engraçadas duma outra vida que vivi.
quinta-feira, abril 16, 2009
Numa noite de dor d'alma
Perguntei no velho da tribo dos significados das coisas. Falou-me nas voltas do mundo e no voo do grande pássaro umbi-umbi. E disse de dias de tristeza e dor e falou dum sol, esse tal que nasce depois das coisas.
quinta-feira, março 12, 2009
quarta-feira, março 11, 2009
Três elementos em variações, ainda que aproximadas, de escrita ou Retratos inseguros duma cena que vi numa telenovela e suas alterações
Atentemos: o corpo em rotação. Os fones pendurados nas orelhas como algo entre uns brincos e um colar. Alma esguia, corpo sadio. Há música! O vestido é azul e escorrega pela cintura até aos joelhos. (não há grande poesia em dizer-se joelhos). Tentemos de novo: o vestido é branco e escorrega pelas ancas. O movimento é langoroso. Dir-se-ia exacto. Sobretudo, sensual. É uma música que ela sabe, só ela sabe.
Um outro plano. Uma mulher, vulgar de trinta anos, digamos, tem um vestido azul. Agora está numa sala muito grande e dança frente ao espelho. Frente ao espelho está vidrada frente ao vidro. Vício da própria imagem. Quem será? Ela ou outra? O corpo dança. Não podemos repetir que é langoroso ou sensual. O corpo mexe-se num movimento envolvente. (sim, digamos envolvente). A música é da Ella Fitzgerald. Todos sabem como gosta d'Ella.
Como as ondas do mar assim o corpo se agitasse num vestido azul. A sua dança talvez em palavras de pouca poesia, poesia barata.
Tentemos de novo ainda uma outra vez. Na Fábrica do Braço de Prata. A cantora, ao fundo da sala, de uma das salas, canta um jazz sobre a Primavera. Ela já não tem fones entre uns brincos e um colar, mas tem brincos e colar. Está acopanhada. Por quem ainda não interessa bem. Ri muito alto, é estridente. O vestido é branco, mas tem uma barra azul. Poisou o martini na bancada. Segura a mão dele e puxa-o com muita força. Não mede os gestos. Nada é exacto senão a voz segura da cantora que está no fundo da sala. Abana-se e agita-se e estrangula-se em movimentos irregulares duma dança desorganizada.
(que diria esta mulher, a outra, a das primeiras vezes, se olhasse para esta mulher, esta a da última vez? o que há de comum em tudo)
A imagem é certa e forte. Talvez tente escrever sobre isso: uma mulher, um vestido e uma dança frenética ou talvez segura sobre tudo isto.
Um outro plano. Uma mulher, vulgar de trinta anos, digamos, tem um vestido azul. Agora está numa sala muito grande e dança frente ao espelho. Frente ao espelho está vidrada frente ao vidro. Vício da própria imagem. Quem será? Ela ou outra? O corpo dança. Não podemos repetir que é langoroso ou sensual. O corpo mexe-se num movimento envolvente. (sim, digamos envolvente). A música é da Ella Fitzgerald. Todos sabem como gosta d'Ella.
Como as ondas do mar assim o corpo se agitasse num vestido azul. A sua dança talvez em palavras de pouca poesia, poesia barata.
Tentemos de novo ainda uma outra vez. Na Fábrica do Braço de Prata. A cantora, ao fundo da sala, de uma das salas, canta um jazz sobre a Primavera. Ela já não tem fones entre uns brincos e um colar, mas tem brincos e colar. Está acopanhada. Por quem ainda não interessa bem. Ri muito alto, é estridente. O vestido é branco, mas tem uma barra azul. Poisou o martini na bancada. Segura a mão dele e puxa-o com muita força. Não mede os gestos. Nada é exacto senão a voz segura da cantora que está no fundo da sala. Abana-se e agita-se e estrangula-se em movimentos irregulares duma dança desorganizada.
(que diria esta mulher, a outra, a das primeiras vezes, se olhasse para esta mulher, esta a da última vez? o que há de comum em tudo)
A imagem é certa e forte. Talvez tente escrever sobre isso: uma mulher, um vestido e uma dança frenética ou talvez segura sobre tudo isto.
Enfim, alguma coisa... ou Temperança sobre a Viagem
De coisas frescas se faz uma manhã
De coisas simples o resto do dia.
Hoje há sol
Como quando a luz bate sobre a casa branca.
Medida exacta
Razão de ouro.
Sob o pateo quadrado algo ancestral.
Dias anteriores ao tempo.
E fronteiras além-mar até onde eu chegue.
De coisas simples o resto do dia.
Hoje há sol
Como quando a luz bate sobre a casa branca.
Medida exacta
Razão de ouro.
Sob o pateo quadrado algo ancestral.
Dias anteriores ao tempo.
E fronteiras além-mar até onde eu chegue.
sexta-feira, fevereiro 20, 2009
Carni Vale
Mas o que imprime a sua marca ao Carnaval, o seu espírito enganador, é o dominó de veludo, conferindo aos que o usam o anonimato a que todo o homem aspira no fundo do coração. Tornar-se anónimo, no meio de uma multidão anónima, sem revelar nem sexo, nem origem, nem mesmo a expressão do rosto, porque a máscara desse hábito de frade louco só descobre dois olhos, brilhando como os olhos de uma muçulmana ou de um urso. Nenhum traço identificador; nem mesmo o contorno do corpo se desvenda. seios, coxas, faces, tudo desaparece. E escondido sob o hábito carnavalesco (como um desejo criminoso no coração, uma tentação irresistível, um impulso que aprece predeterminado) jaz o germe de qualquer coisa: de uma liberdade que o homem nem sequer se atreve a sonhar. O mascarado sente-se livre de fazer o que lhe aprouver. Todos os crimes impunes da cidade, todos os casos trágicos de confusão de identidade, são o fruto do Carnaval; e por outro lado muitas aventuras de amor se atam e desatam nesses dias em que nos libertamos do selo da personalidade, da servidão das nossas pessoas. Uma vez dentro da opa de veludo, a mulher perde o marido, o marido perde a mulher, o amante a bem amada. O ar crepita com o sal das contendas e loucuras, com a fúria das batalhas, com a agonia de uma noite de buscas infrutíferas, de desesperos. Nunca se sabe se dançamos com uma mulher ou com um homem. As márés sombrias de Eros, que exigem uma identidade total para inundarem a alma humana, explodem durante o Carnaval com uma força longamente represada e libertam estranhas criaturas primitivas- as perversões que são, suponho eu, o alimento da psique-, seres que se podem crer fugidos do monte Brocken ou das garras de Eblis. Sim, quem pode deixar de amar o Carnaval quando nele todas as dívidas se pagam, todos os crimes se expiam ou cometem, todos os desejos ilícitos se satisfazem, sem culpa ou premeditação, sem as penas que a consciência ou a sociedade humana combinam?
In "Quarteto de Alexandria. Baltasar"
In "Quarteto de Alexandria. Baltasar"
Excertos- I
Foram os melhores dias da vida de Tancredi e de Angelica, vidas que viriam depois a ser tão diversas, tão pecaminosas sobre o inevitável fundo de dor. Nessa altura porém não o sabiam e ambicionavam um futuro que julgavam mais concreto, embora depois se revelasse feito apenas de fumo e vento. Quando já eram velhos e inultilmente sábios, os seus pensamentos regressavam a esses dias do desejo sempre presente porque sempre vencido, dos inúmeros leitos que se tinham oferecido e que tinham sido recusados, do frenesim sensual que, refreado, se sublimara, por um instante, em renúncia, ou seja, em verdadeiro amor. Esses dias foram a preparação para o casamento que, mesmo no plano erótico, foi um fracasso; uma preparação, porém, que assumiu o aspecto de algo independente, delicado e breve: como aquelas aberturas que sobrevivem às óperas esquecidas e que contêm em esboço e cheias de uma vitalidade velada de pudor, todas as árias que sem qualquer destreza eram depois desenvolvidas na ópera, e fracassavam.
In "O Leopardo"
Quanto a mim, foi como se não tivesse lá estado, ou muito pouco... Na obscuridade da capela, iluminada apenas pelos dois cilícios do altar, naão vi a quem dava a mão. O bom Henri de Montchevreuil, que me servia de testemunha, disse-me qualquer coisa, mas não percebi o quê. Não ouvi o rei responder às perguntas do arcebispo, não me ouvi a mim própria consentir na minha elevação. Só recuperei a consciência de mim mesma por volta do Agnus Dei para reflectir que estava a ser tão glorificada neste mundo que tinha motivos para recear ser humilhada e confundida no outro; e recaí no meu estupor até ao último evangelho, quando subitamente disse a mim mesma que não poderia subir mais alto.
Comecei, então, a temer o tédio.
In "A Alameda do Rei"
In "O Leopardo"
Quanto a mim, foi como se não tivesse lá estado, ou muito pouco... Na obscuridade da capela, iluminada apenas pelos dois cilícios do altar, naão vi a quem dava a mão. O bom Henri de Montchevreuil, que me servia de testemunha, disse-me qualquer coisa, mas não percebi o quê. Não ouvi o rei responder às perguntas do arcebispo, não me ouvi a mim própria consentir na minha elevação. Só recuperei a consciência de mim mesma por volta do Agnus Dei para reflectir que estava a ser tão glorificada neste mundo que tinha motivos para recear ser humilhada e confundida no outro; e recaí no meu estupor até ao último evangelho, quando subitamente disse a mim mesma que não poderia subir mais alto.
Comecei, então, a temer o tédio.
In "A Alameda do Rei"
terça-feira, fevereiro 17, 2009
Tela Roubada de A. (Revisited)
Entenda-se umas águas furtadas na Baixa de Lisboa. É Maio e por isso há sol. Frente a uma das janelas da casa há uma cadeira e uma mesa próxima da cadeira. A. está sentada e tem uma revista sobre o colo. As mãos, por vezes, passam as folhas, mas ela está sobretudo distraída com a luz da manhã lá fora. Olha para o lado. Sobre o sofá está o vestido que usou ontem à noite. Caído ao acaso A. descobre-lhe uma posição estética como se tivesse caído assim com alguma razão. Depois volta a concentrar-se na luz que vem da janela. Ainda tem a revista no colo, mas já não a folheia. Em cima da mesa há um copo com sumo de laranja. A. pegue nele e leva-o aos beiços. Bebe uns goles. Pousa o copo e levanta-se. Debruçada sobre o varandim A. corta algumas camélias. A. tem três varandins e ao longo deles plantou camélias. Antes havia rosas, encarnadas e brancas, mas o seu cheiro intenso e doce empastava a casa nos dias quentes de Agosto. Era apenas insuportável. Então A. desceu à Parça da Figueira e numa loja de esquina comprou sementes de camélia. Delicadamente, como quem estuda um gesto sem saber A. pega numa jarra. As camélias estão agora na jarra e A. dá-lhes um último toque. Pára uns momentos entre o distraída e o absorta e pensa no que irá fazer. Há mais um corpo deitado na sua cama e há que equacioná-lo. Entra no quarto. O homem está só ligeiramente tapado pelo lençol. A. repara nas costas fortes, nos ombros largos e na pele profundamente morena. E na luz que entra pela janela e banha o corpo do homem que dorme. A. entra na banheira. Com um gesto rápido roda a torneira e sente a água fria. O corpo contrai e a respiração torna-se mais rápida. Sente cada parte. Enquanto passa o sabão pelo corpo lembra-se da noite d'ontem. A música, a dança frenética, a casa, a cama, o seu corpo demasiado branco contra o corpo dele demasiado moreno. A. envolve-se agora na toalha. No quarto ele acordou com o som da água e levantou-se. Veste-se rapidamente e diz que prefere tomar banho em casa. A. olha-o talvez esperando que ele saia do quarto. Ele senta-se numa ponta da cama ainda por fazer. A. arranja os cabelos, livra-se da toalha e veste o vestido amarelo. Ele olha-a sempre em tudo. Ela está de costas, ams ve-o e isso deixa-a feliz.
Agora sairam. Passaram o Rossio e começam a entrar na Praça da Figueira. Daqui a pouco não será mais manhã. Gentilmente ele abre-lhe a porta da Confeitaria Nacional. Ouve-se uma música alegre. Dessas que os cantores americanos lançam na Primavera. Ela sobe a escada à frente e lá em cima escolhe a mesa. Senta-se numa cadeira junto à janela. O empregado vem e eles pedem. Enquanto esperam e depois enquanto comem falam de coisas supinamente triviais. C. tinha uma exposição perto da Graça que eles tinham que ir ver. I. lançava um novo romance nessa tarde, mas ele não podia ir. E depois a política, e a sociedade e o estado da arte. Mas a vida acontecia lá fora. A. equilibrava-se agora entre a conversa com ele e a vista sobre a Praça da Figueira. E os skaters perto da estátua, e os homens encostados à paragem do metro de olhares vagos, e as prostitutas que abriam as janelas das suas pensões de ratos e baratas. Os autocarros amarelos da Carris e os eléctricos estridentes. As pessoas apressadas e mais aquela que quase ia sendo atropelada por não respeitar o sinal. Os miúdos que chupavam em grandes doces ou trincavam bons bolos e as mães desesperadas com o melaço que escorre e mancha e suja tudo. E a possibilidade de tantas outras coisas entre a janela de casa e o varandim da Confeitaria Nacional. Ele está a pagar. Ela lança a mão à bolsa, mas ele cobre o gesto com a sua mão. Eles descem a escada e ela vai à frente. Já na rua despedem-se com um beijo. E têm mesmo que ir ver a exposição de C. e ele não vai mesmo poder ir hoje ao lançamento do livro de I., mais por embirração do que por indisponibilidade. A. tem que passar por casa antes de ir almoçar com L. como prometeu. Levanta o pulso e olha o relógio. Ainda tem tempo. A. desce a Rua Augusta. Quantas vezes podem oferecer drogas a uma pessoa? Os turistas debruçados nas montras das lojas típicas e os portugueses a encherem a Zara. E som e luz e cor. E vida! E A. chega a uma Praça do Comércio agora restaurada, agora longe dos tempos da crise. O coração da cidade bate ao mesmo tempo que o seu. Cedo A. vai partir para Berlim e ainda não sabe quando volta. Voltar isso há-de voltar. Tem voltado sempre à cidade. E no cais das colunas, o rio em frente e a cidade nas costas, A. fecha os olhos e inspira com força. Tem os pulmões cheios do ar do rio. Agora A. constrói o amanhã.
Agora sairam. Passaram o Rossio e começam a entrar na Praça da Figueira. Daqui a pouco não será mais manhã. Gentilmente ele abre-lhe a porta da Confeitaria Nacional. Ouve-se uma música alegre. Dessas que os cantores americanos lançam na Primavera. Ela sobe a escada à frente e lá em cima escolhe a mesa. Senta-se numa cadeira junto à janela. O empregado vem e eles pedem. Enquanto esperam e depois enquanto comem falam de coisas supinamente triviais. C. tinha uma exposição perto da Graça que eles tinham que ir ver. I. lançava um novo romance nessa tarde, mas ele não podia ir. E depois a política, e a sociedade e o estado da arte. Mas a vida acontecia lá fora. A. equilibrava-se agora entre a conversa com ele e a vista sobre a Praça da Figueira. E os skaters perto da estátua, e os homens encostados à paragem do metro de olhares vagos, e as prostitutas que abriam as janelas das suas pensões de ratos e baratas. Os autocarros amarelos da Carris e os eléctricos estridentes. As pessoas apressadas e mais aquela que quase ia sendo atropelada por não respeitar o sinal. Os miúdos que chupavam em grandes doces ou trincavam bons bolos e as mães desesperadas com o melaço que escorre e mancha e suja tudo. E a possibilidade de tantas outras coisas entre a janela de casa e o varandim da Confeitaria Nacional. Ele está a pagar. Ela lança a mão à bolsa, mas ele cobre o gesto com a sua mão. Eles descem a escada e ela vai à frente. Já na rua despedem-se com um beijo. E têm mesmo que ir ver a exposição de C. e ele não vai mesmo poder ir hoje ao lançamento do livro de I., mais por embirração do que por indisponibilidade. A. tem que passar por casa antes de ir almoçar com L. como prometeu. Levanta o pulso e olha o relógio. Ainda tem tempo. A. desce a Rua Augusta. Quantas vezes podem oferecer drogas a uma pessoa? Os turistas debruçados nas montras das lojas típicas e os portugueses a encherem a Zara. E som e luz e cor. E vida! E A. chega a uma Praça do Comércio agora restaurada, agora longe dos tempos da crise. O coração da cidade bate ao mesmo tempo que o seu. Cedo A. vai partir para Berlim e ainda não sabe quando volta. Voltar isso há-de voltar. Tem voltado sempre à cidade. E no cais das colunas, o rio em frente e a cidade nas costas, A. fecha os olhos e inspira com força. Tem os pulmões cheios do ar do rio. Agora A. constrói o amanhã.
terça-feira, fevereiro 10, 2009
Em Alexandarplatz ou Um dia na toirada ou ainda Viagem entre a Alemanha e a arena dentro de mim mesmo
Para G., sem autorização de ser miserabilista.
Algures no vazio de Alexanderplatz passeia uma multidão de gente. Os sons estridentes da cidade, entre os comboios velozes e os infindáveis autocarros. A Galeria e as salsichas e os donuts e todas as coisa que fazem uma praça da cidade.
Depois olhei para dentro de mim mesmo.
Era um dia de arena e toirada. E a vida feito toiro marrava num recanto até correr na minha direcção. E fiquei sem ar e quase sem pulmões e não respirei durante segundos demasiado longos. E tive os olhos sempre fechados. Mas quando os abri tinha agarrado o toiro pelos cornos.
Algures no vazio de Alexanderplatz passeia uma multidão de gente. Os sons estridentes da cidade, entre os comboios velozes e os infindáveis autocarros. A Galeria e as salsichas e os donuts e todas as coisa que fazem uma praça da cidade.
Depois olhei para dentro de mim mesmo.
Era um dia de arena e toirada. E a vida feito toiro marrava num recanto até correr na minha direcção. E fiquei sem ar e quase sem pulmões e não respirei durante segundos demasiado longos. E tive os olhos sempre fechados. Mas quando os abri tinha agarrado o toiro pelos cornos.
sexta-feira, janeiro 30, 2009
Berlim- Impressões II
Entre as avenidas largas gosto de olhar as pessoas. Berlim entre os anos noventa e o estilo alternativo. As bicicletas passam por estradas de pedra vermelha em cima dos passeios. Ninguém sorri, mas três portugueses falam sempre muito alto onde quer que estejam. Nas lojas o hábito latino faz-nos mexer em tudo. "Olha, não achas giro?" e os olhares da caixa registadora meio desconfiados. O preto é quase imperante na rua, seja nas roupas, seja nos grandes outdoors que aqui e ali vestem os prédios altos da cidade. É uma cidade de contrastes entre a riqueza dos edifícios capitalistas e a dureza magnânima dos edifícios da RDA. Na parte boémia onde vivemos, os jovens andam em grupo e abraçam-se muito. A vitória do capital sente-se muito aqui. Entre pequenas lojas de colares e bugigangas e mercearias de cantinho há por todo o lado aliciantes fast-food's. Chineses, japoneses, vietnamitas, tantos turcos e claro os normais americanos. Oásis são as pastelarias alemãs e os seus muitos bolos de aspecto e sabor maravilhoso. Custa não comer quase tanto como custa fazê-lo. No país mais caro da Europa os preços sobem. Mas é irressistível com tantos belos convites. Nos nossos sacos comprados a vinte cêntimos descemos a rua até uma mercearia aqui perto. Os olhos bem fechados para não cair em tentação. Na casa branca, breve e quente o pão com gouda lembra de alguma maneira o pequeno-almoço em Portugal. Lá fora Berlim em stand-by só durante um momento.
Berlim- Impressões I
Numa praça de Berlim, com frio pelas pernas, o rio ao fundo sob pequenas pontes. O mundo cosmopolita atravessado por uma linha velha e ténue onde o comunismo existe em pequenos homens nos semáforos. Alguém passa com um chocolate quente na mão. A vida pelas montras das lojas. A vida das avenidas largas e das gentes apressadas em bicicletas e metros de rua. Berlim dos homens vestidos de preto e dos grandes outdoors. A cidade cosmopolita e intensa sob o frio imenso quase que gela.
segunda-feira, janeiro 26, 2009
Noite
Nada sei de estórias de reis que te conte
E de embalar sei a vida que me passa
E não me deixa nunca, nunca...
E de embalar sei a vida que me passa
E não me deixa nunca, nunca...
Os mares além da Grécia
Diz-me de sonhos breves
Assim, na minha mão
Casa e corpo e pão
E canto leve
Onde te cante dias de encanto e espanto
Sonho ainda breve
E trémulo e meu
Ondas de um mar Egeu
Sem fim, mas com pranto.
Assim, na minha mão
Casa e corpo e pão
E canto leve
Onde te cante dias de encanto e espanto
Sonho ainda breve
E trémulo e meu
Ondas de um mar Egeu
Sem fim, mas com pranto.
De um mar de azul e ondas
De azul e ondas
Como primeiro
É dia sem riscas
Meu quarto de sala de alma
De forno quente de coisa alguma
Registo marujo e espuma
Como num mar encarniçado
De azul e de ondas.
Como primeiro
É dia sem riscas
Meu quarto de sala de alma
De forno quente de coisa alguma
Registo marujo e espuma
Como num mar encarniçado
De azul e de ondas.
quinta-feira, janeiro 15, 2009
Gustavo- Corte (I)
A Tia Bé tinha uma casa nas Azenhas do Mar. Era branca e breve. Não tinha telhado, mas terraço e a todo o comprimento uma grande varanda estendia-se sobre o mar. Não havia nada de extraordinário nesta casa. A Tia Bé era uma mulher que tinha dinheiro suficiente para pagar somas exurbitantes para viver numa pequena casa branca numa colina frente ao mar. Não havia nada de romântico nisto, só de económico. O dinheiro da Tia Bé era a fonte que alimentava a beleza da sua casa.
Gustavo nunca pensou isto da casa da Tia Bé. Era para ele um espaço ideal onde cada coisa era guardada num sítio exacto de ser. As ânforas milimetricamente colocadas por uma questão de estilo eram para ele uma essência dum mundo onde ele ansiava por chegar, duma forma una e real de existir.
Mal chegou Gustavo enfiou-se na varanda. Podia ter ficado a contemplar o mar, mas sentou-se, dobrou os joelhos e meteu a cabeça no meio deles. O barulho do mar era forte e o seu cheiro era intenso. Deve ter ficado assim muito tempo porque de súbito sentiu escuro à sua volta e é sabido que no Verão o escuro demora muito a chegar e quase nunca existe verdadeiramente. Além do cheiro do mar havia um cheiro intenso a orégãos. A casa da Tia Bé cheirava sempre a orégãos porque era feita para cheirar sempre a orégão. Era um cheiro mágico de acalmar as mágoas e de despertar a fome.
O mar batia mais forte sobre a areia lá fora, agora que era noite. Como nascendo dum estado fetal Gustavo foi-se levantando. Erguido, aproximou-se da varanda, olhou o mar de frente, fechou os olhos e encheu os pulmões de maresia. Há um tempo breve a porta tinha-se aberto e a Tia Bé tinha-se esgueirado por ela. Pôs-se de pé, sempre muito direita e deixando os olhos no horizonte perguntou-lhe:
- Até onde é que consegues ver?
- Até dentro de mim. Ou é assim que pelo menos tudo isto me parece.
Gustavo nunca pensou isto da casa da Tia Bé. Era para ele um espaço ideal onde cada coisa era guardada num sítio exacto de ser. As ânforas milimetricamente colocadas por uma questão de estilo eram para ele uma essência dum mundo onde ele ansiava por chegar, duma forma una e real de existir.
Mal chegou Gustavo enfiou-se na varanda. Podia ter ficado a contemplar o mar, mas sentou-se, dobrou os joelhos e meteu a cabeça no meio deles. O barulho do mar era forte e o seu cheiro era intenso. Deve ter ficado assim muito tempo porque de súbito sentiu escuro à sua volta e é sabido que no Verão o escuro demora muito a chegar e quase nunca existe verdadeiramente. Além do cheiro do mar havia um cheiro intenso a orégãos. A casa da Tia Bé cheirava sempre a orégãos porque era feita para cheirar sempre a orégão. Era um cheiro mágico de acalmar as mágoas e de despertar a fome.
O mar batia mais forte sobre a areia lá fora, agora que era noite. Como nascendo dum estado fetal Gustavo foi-se levantando. Erguido, aproximou-se da varanda, olhou o mar de frente, fechou os olhos e encheu os pulmões de maresia. Há um tempo breve a porta tinha-se aberto e a Tia Bé tinha-se esgueirado por ela. Pôs-se de pé, sempre muito direita e deixando os olhos no horizonte perguntou-lhe:
- Até onde é que consegues ver?
- Até dentro de mim. Ou é assim que pelo menos tudo isto me parece.
quinta-feira, janeiro 08, 2009
Coisas de dizer numa manhã de Inverno e sol
Quero dizer palavras de música e fado.
Cantando encanto-me!
Cantando encanto-me!
sexta-feira, dezembro 26, 2008
Experimentação para Conto de Gustavo-IV ou Conversa sobre Tejo e Tágides
Debruçado sobre o varandim esvoaçou a mão para afastar o fumo do cigarro.
- Que mariquices! Agora nem na minha varanda posso fumar, perguntou Sara brincando enquanto apagava o cigarro.
- Vês ao fundo? É preciso que nos curvemos um pouco e que empoleiremos aqui a barriga para ver o Tejo. Dói e custa manter este equilíbrio, mas quem pensa nisso assim que vê o rio? O Tejo é tão azul. Hoje como em Agosto. Tem princípio mas é tolo dizer que tem fim. Onde acabará o Tejo?
- Já me fazia falta essa tua maneira de falar. Diz-me um poema, dizes?
- Ao longe é rio e ele vai até ao país das fadas. Porque não podemos lá ir nós também? Vês quantas perguntas faço hoje? Hoje é noite de construir poemas e dir-te-ei quantos quiseres. Porque moras em Alfama e debruçado da tua janela vejo o rio. Isso deixa-me feliz. E deixa-me feliz partilhá-lo contigo porque sabes o que é ter uma janela para o Tejo. Nós temos olhos de ver o país das fadas, não temos Sara?
Sara passou a mão levemente pelo cabelo de Gustavo enquanto lhe dava um beijo no rosto.
- Temos, porque tu e eu sabemos construir palavras de ver coisas d'alma.
A rapariga tinha o braço esticado, o corpo flectido e apoiado no varandim.
- Vês lá longe, aquela luz? Porque não dizer que aí resta o país da fadas?
- Que mariquices! Agora nem na minha varanda posso fumar, perguntou Sara brincando enquanto apagava o cigarro.
- Vês ao fundo? É preciso que nos curvemos um pouco e que empoleiremos aqui a barriga para ver o Tejo. Dói e custa manter este equilíbrio, mas quem pensa nisso assim que vê o rio? O Tejo é tão azul. Hoje como em Agosto. Tem princípio mas é tolo dizer que tem fim. Onde acabará o Tejo?
- Já me fazia falta essa tua maneira de falar. Diz-me um poema, dizes?
- Ao longe é rio e ele vai até ao país das fadas. Porque não podemos lá ir nós também? Vês quantas perguntas faço hoje? Hoje é noite de construir poemas e dir-te-ei quantos quiseres. Porque moras em Alfama e debruçado da tua janela vejo o rio. Isso deixa-me feliz. E deixa-me feliz partilhá-lo contigo porque sabes o que é ter uma janela para o Tejo. Nós temos olhos de ver o país das fadas, não temos Sara?
Sara passou a mão levemente pelo cabelo de Gustavo enquanto lhe dava um beijo no rosto.
- Temos, porque tu e eu sabemos construir palavras de ver coisas d'alma.
A rapariga tinha o braço esticado, o corpo flectido e apoiado no varandim.
- Vês lá longe, aquela luz? Porque não dizer que aí resta o país da fadas?
quarta-feira, dezembro 24, 2008
Joyeux Nöel (qu'é p'ra ser em francês qu'é mai' chique)
O "Enquanto Lisboa namora o Tejo..." deseja um feliz Natal a todos os seus leitores!
domingo, dezembro 14, 2008
Estórias de Anícios e Petrónios do antigamente ou Um dia de mudar a vida das coisas antigas
A mulher fala-me. Não é muito bonita, mas é de certa forma elegante. Sorri e acena muito em concordância. Gosta de mim e eu gosto dela como estas coisas se dão entre académicos: gostamos das ideias um do outro.
Ao fundo Anícia Demétrias, ainda com catorze anos, empuleira-se no vão da escada e deixa cair pelo grande fosso a carta de São Jerónimo. A avó, matrona grave, olha-a em repreensão. A criança quase freira sorri mostrando por trás do véu da castidade uma beleza louvável no mundo dos vivos. Sexto Cláudio, espreita-me do alto, soberano, enquanto Hermoginiano acompanha o homem que vem confirmar que é real tudo aquilo que se passa.
A mulher e o homem falam e combinam coisas e acertam pormenores, meio alheios à minha existência, enquanto a decidem. Não podem ver a agradável corte que os cerca. Anícios e Petrónios do antigamente, ainda meio apagados, ainda meio etéreos. Hermoginiano já está de novo ao lado dos pais, espreitando-me do cimo das escadas. Vieram todos e espreitam com o seu ar desconfiado de romanos o rapaz que lhes faz promessas. Só Demétrias não está com eles, ainda empoleirada no vão da escada. Escorrega por ele e desce com graça os últimos degraus. De súbito, a sua mão no meu ombro. Pouco antes de acordar olho-os a todos e ouço dizê-la ao meu ouvido "Agora, dá-nos voz!"
Ao fundo Anícia Demétrias, ainda com catorze anos, empuleira-se no vão da escada e deixa cair pelo grande fosso a carta de São Jerónimo. A avó, matrona grave, olha-a em repreensão. A criança quase freira sorri mostrando por trás do véu da castidade uma beleza louvável no mundo dos vivos. Sexto Cláudio, espreita-me do alto, soberano, enquanto Hermoginiano acompanha o homem que vem confirmar que é real tudo aquilo que se passa.
A mulher e o homem falam e combinam coisas e acertam pormenores, meio alheios à minha existência, enquanto a decidem. Não podem ver a agradável corte que os cerca. Anícios e Petrónios do antigamente, ainda meio apagados, ainda meio etéreos. Hermoginiano já está de novo ao lado dos pais, espreitando-me do cimo das escadas. Vieram todos e espreitam com o seu ar desconfiado de romanos o rapaz que lhes faz promessas. Só Demétrias não está com eles, ainda empoleirada no vão da escada. Escorrega por ele e desce com graça os últimos degraus. De súbito, a sua mão no meu ombro. Pouco antes de acordar olho-os a todos e ouço dizê-la ao meu ouvido "Agora, dá-nos voz!"
terça-feira, dezembro 09, 2008
Estória em tom menor
Tem o beiço caído e o corpo jogado no cadeirão frente à janela. Da cidade e do Tejo algum enjoo.
A mulher abeira-se dele.
"Dói-me a cabeça como a noite."
Lá fora há noite e escura e densa.
Rosário, pensa: como pode doer a cabeça como a noite? Onde estão as palavras que faltam?
A mulher abeira-se dele.
"Dói-me a cabeça como a noite."
Lá fora há noite e escura e densa.
Rosário, pensa: como pode doer a cabeça como a noite? Onde estão as palavras que faltam?
sexta-feira, novembro 21, 2008
Poema do fim da tarde
Para Stijn Luyten.
Pois tu dirás pedra
Para que eu diga mar.
A vida é um dia de sol
Quando jogamos no degrau da
Entrada
Este secreto jogo
De silêncios.
Tua advinha de palavras d'alma
É cidade
Onde diga
Luz, casa e amigo.
Pois tu dirás pedra
Para que eu diga mar.
A vida é um dia de sol
Quando jogamos no degrau da
Entrada
Este secreto jogo
De silêncios.
Tua advinha de palavras d'alma
É cidade
Onde diga
Luz, casa e amigo.
sexta-feira, novembro 14, 2008
Uma noite numa livraria de Lisboa
Um dia mais ingénuo, como em ramos de árvore.
É de noite e alguém fala numa livraria de Lisboa.
Naufrago agora nas letras e de súbito sou derrotado pelo livro.
Vivo em extâse!
É de noite e alguém fala numa livraria de Lisboa.
Naufrago agora nas letras e de súbito sou derrotado pelo livro.
Vivo em extâse!
Coisas de dizer
Mais uma vez repito:
Entre nós os dois há o silêncio!
(Os teus olhos rodopiam ferverosamente irritados)
Há o teu sorriso quando me vês
E o teu abraço frente ao rio
E um sim constante em todas as horas
E uma coisa rebrilhante de teatro de ser coisa quotidiana.
Nem pedra, nem fruto, nem arca,
Ou estória ou dia ou parábola.
Ouves agora as palavras no nosso silêncio?
Entre nós os dois há o silêncio!
(Os teus olhos rodopiam ferverosamente irritados)
Há o teu sorriso quando me vês
E o teu abraço frente ao rio
E um sim constante em todas as horas
E uma coisa rebrilhante de teatro de ser coisa quotidiana.
Nem pedra, nem fruto, nem arca,
Ou estória ou dia ou parábola.
Ouves agora as palavras no nosso silêncio?
Rua da cidade ou Evocação de Sara
Dizias alma
Como se cada palavra fosse tua para dar.
Tu eras uma rua estreita e sem sentido certo.
Eras Lisboa sem Tejo, prédio arruinado.
E eras homem e mulher de pedir esmola e coisas do cair da tarde na cidade.
E amei-te tanto que em cada palavra
Calcetei nova pedra
E foste rua nova frente ao rio.
Como se cada palavra fosse tua para dar.
Tu eras uma rua estreita e sem sentido certo.
Eras Lisboa sem Tejo, prédio arruinado.
E eras homem e mulher de pedir esmola e coisas do cair da tarde na cidade.
E amei-te tanto que em cada palavra
Calcetei nova pedra
E foste rua nova frente ao rio.
sexta-feira, novembro 07, 2008
Tarde erotisante na sala do piano ou Viagem dos antigos
Na sala do piano meu corpo aguarda por ser tocado em teclas frias.
Teclas brancas ou negras, mas frias.
De corpo roçagante no rosa do sofá, de alma perdida na viagem continua de cada moldura.
Teclas brancas ou negras, mas frias.
De corpo roçagante no rosa do sofá, de alma perdida na viagem continua de cada moldura.
quinta-feira, novembro 06, 2008
Um brinde ao Presidente B.H. Obama
Ontem fez sol de manhã. E eu sentei-me na minha sala. E ouvi todas as músicas, os baladeiros de Abril. E li todos os poetas. E abri uma garrafa de Madeira. E o Ary, o Gedeão e tantos outros vieram beber comigo. E deixei-me mergulhar em tudo isto. Sentado na minha sala embebedei-me de música e poesia e livros e filmes.
Ontem foi um dia de acreditar. Hoje talvez já não, mas ontem sim. O dia de ontem é nosso para sempre. O dia em que o mundou soube voltar a acreditar e em que a democracia falou alto até às fronteiras de tudo. Ontem sonhei, bêbedo do mundo, e acreditei em tudo o que é bom acreditar.
Não sei o que será hoje. Mas sei o que foi ontem. E ontem soubémos e sonhámos que o sonho comanda a vida. E que este homem sonhou para que o mundo pulasse e avançasse como bola colorida por entre as mãos duma criança.
Ontem foi um dia de acreditar. Hoje talvez já não, mas ontem sim. O dia de ontem é nosso para sempre. O dia em que o mundou soube voltar a acreditar e em que a democracia falou alto até às fronteiras de tudo. Ontem sonhei, bêbedo do mundo, e acreditei em tudo o que é bom acreditar.
Não sei o que será hoje. Mas sei o que foi ontem. E ontem soubémos e sonhámos que o sonho comanda a vida. E que este homem sonhou para que o mundo pulasse e avançasse como bola colorida por entre as mãos duma criança.
Soul Mates
Para Daniela Varela, ela há-de saber porquê.
Fico aqui, à beira de ti. Namoro docemente a tua voz. Por onde vou ou por onde ando, tu sabes. Já olhaste para dentro de mim.
A tua música é gémea da minha alma. Às vezes ouço-te e gostava que o mundo se vestisse de nós.
Não desisti. Lentamente murmuro às águas "Oh, quero ver, quero mais e sonho, depois do rio o que é que vem?"
Tenho uma infância como tu e não a esqueço. Moldo-me e olhamo-nos dentro um do outro.
A tua alma é gémea da minha!
http://www.myspace.com/flordelisbanda
Fico aqui, à beira de ti. Namoro docemente a tua voz. Por onde vou ou por onde ando, tu sabes. Já olhaste para dentro de mim.
A tua música é gémea da minha alma. Às vezes ouço-te e gostava que o mundo se vestisse de nós.
Não desisti. Lentamente murmuro às águas "Oh, quero ver, quero mais e sonho, depois do rio o que é que vem?"
Tenho uma infância como tu e não a esqueço. Moldo-me e olhamo-nos dentro um do outro.
A tua alma é gémea da minha!
http://www.myspace.com/flordelisbanda
sexta-feira, outubro 31, 2008
Anseios nocturnos por algo semelhante à escuridão ou Palavras necessárias para saber que já não me existo
Espelho baço,
Agora sombra de mim mesmo.
Fugi-me num dia assim
E não voltei.
Mudo quedo quieto,
Resto sem eu que me seja.
Agora sombra de mim mesmo.
Fugi-me num dia assim
E não voltei.
Mudo quedo quieto,
Resto sem eu que me seja.
quarta-feira, outubro 29, 2008
Desabafo ou Palavras diárias sem linha mas com fio
A música em flor-de-lis. A falta do Tejo. O teu corpo que não me pertence. Petrónios e Anícios de há tantos tempos. Escrever incessantemente. Voltar a escrever depois.
Não me ligues sempre se faz favor. A mim também me dói e perco tempo para te consolar. Tomar conta de crianças adultas, tormento. Ser genial, ser mais genial, ainda ser genial. A falta do Tejo. Eu sem Lisboa.
Montras, lojas, roupas. Desejos. Pessoas, jantares, almoços, palavras. Ocupem-me que bem preciso!
E tardes e computadores e coisas para escrever. Fadiga. E tu ligas. E ele também liga. E falam um do outro. E eu que penso em mim e no outro que não é o mesmo outro.
Eu arvorado em Prima-Donna. Sim, é mesmo tudo sobre mim. O blogue é meu!
Eu arvorado em Prima-Donna. Milhares de episódios de Anatomia de Grey. Milhares de sexo platónico. Alguma masturbação. Pornografia.
Cansaço. Grande cansaço.
E as noites, noites sempre de noite, sempre escuras enquanto é noite e de noite. Amanhã. Palavra e desejo constante. Vou esquecer tudo e construir amanhãs como num filme qualquer.
Mas por onde é que eu ando!?
Não me ligues sempre se faz favor. A mim também me dói e perco tempo para te consolar. Tomar conta de crianças adultas, tormento. Ser genial, ser mais genial, ainda ser genial. A falta do Tejo. Eu sem Lisboa.
Montras, lojas, roupas. Desejos. Pessoas, jantares, almoços, palavras. Ocupem-me que bem preciso!
E tardes e computadores e coisas para escrever. Fadiga. E tu ligas. E ele também liga. E falam um do outro. E eu que penso em mim e no outro que não é o mesmo outro.
Eu arvorado em Prima-Donna. Sim, é mesmo tudo sobre mim. O blogue é meu!
Eu arvorado em Prima-Donna. Milhares de episódios de Anatomia de Grey. Milhares de sexo platónico. Alguma masturbação. Pornografia.
Cansaço. Grande cansaço.
E as noites, noites sempre de noite, sempre escuras enquanto é noite e de noite. Amanhã. Palavra e desejo constante. Vou esquecer tudo e construir amanhãs como num filme qualquer.
Mas por onde é que eu ando!?
terça-feira, outubro 28, 2008
Estória das duas cidades com rio ou Conversa entre coisas que nos rodeiam
Para Ana Garcia e Sara Borga, porque me inspiram .
A. senta-se numa cadeira perto do lago. A. descobriu agora a vida em Lisboa e isso entusiasma-a. Este é um prazer conquistado: A. senta-se numa cadeira do Relógio d'Água com uma fatia de bolo. O jardim Amália Rodrigues é agora um dos seus sítios preferidos. Há gente e vida assim como ela queria que houvesse. As pessoas têm em geral um ar feliz e o jardim é quase sempre verde. Outubro é agora escaldante nas suas tardes. E isso agrada-a. Ver as coisas acontecerem fá-la sentir que faz parte delas. A. está sentada na sua cadeira mas viaja em torno de si e dos outros.
Enquanto, S. lembra-se de Lisboa e do jardim Amália Rodrigues dos tempos em que morava no Bairro Azul. Era mais nova, mas já tinha os olhos abertos. A mãe levava-a a passear pelo corredor verde. Uma bicicleta ocasional parece-lhe agora ridículo, como antes lhe parecia fantástico. Em Gent, frente ao rio, são várias as bicicletas, todas ocasionais, porque para todas as ocasiões. Outubro tem agora tardes enregelantes enquanto S. se habitua aos rigores do Norte. Os gestos são uma chamada de atenção constante e S. deixa-se levar. Desenha incessantemente para captar a vida da pequena cidade à sua volta. Porque nas tardes de Outubro S. tenta entender a vida da cidade enquanto se senta numa café junto ao rio.
A. e S. têm normalmente vidas distantes. Partilharam uma vez algumas palavras e uma peça de teatro, uma tarde no São Luiz. A. e S. amam a vida da cidade e têm sede. A sede fá-las procurar novas nascentes. No metro, ou a caminho da faculdade numa bicicleta. Na aula de economia financeira ou frente a uma tela. Ao som dum cavaquinho ou ao som de qualquer que seja o instrumento típico dos belgas. A. e S. dão saudades porque vão fazendo a vida loge de mim, mas sobretudo guardam em mim esperanças de outras sedes.
A. senta-se numa cadeira perto do lago. A. descobriu agora a vida em Lisboa e isso entusiasma-a. Este é um prazer conquistado: A. senta-se numa cadeira do Relógio d'Água com uma fatia de bolo. O jardim Amália Rodrigues é agora um dos seus sítios preferidos. Há gente e vida assim como ela queria que houvesse. As pessoas têm em geral um ar feliz e o jardim é quase sempre verde. Outubro é agora escaldante nas suas tardes. E isso agrada-a. Ver as coisas acontecerem fá-la sentir que faz parte delas. A. está sentada na sua cadeira mas viaja em torno de si e dos outros.
Enquanto, S. lembra-se de Lisboa e do jardim Amália Rodrigues dos tempos em que morava no Bairro Azul. Era mais nova, mas já tinha os olhos abertos. A mãe levava-a a passear pelo corredor verde. Uma bicicleta ocasional parece-lhe agora ridículo, como antes lhe parecia fantástico. Em Gent, frente ao rio, são várias as bicicletas, todas ocasionais, porque para todas as ocasiões. Outubro tem agora tardes enregelantes enquanto S. se habitua aos rigores do Norte. Os gestos são uma chamada de atenção constante e S. deixa-se levar. Desenha incessantemente para captar a vida da pequena cidade à sua volta. Porque nas tardes de Outubro S. tenta entender a vida da cidade enquanto se senta numa café junto ao rio.
A. e S. têm normalmente vidas distantes. Partilharam uma vez algumas palavras e uma peça de teatro, uma tarde no São Luiz. A. e S. amam a vida da cidade e têm sede. A sede fá-las procurar novas nascentes. No metro, ou a caminho da faculdade numa bicicleta. Na aula de economia financeira ou frente a uma tela. Ao som dum cavaquinho ou ao som de qualquer que seja o instrumento típico dos belgas. A. e S. dão saudades porque vão fazendo a vida loge de mim, mas sobretudo guardam em mim esperanças de outras sedes.
sexta-feira, outubro 24, 2008
Passeio do pequeno conde ou Viagem em redor de outros
Esta gente aqui sentada é sempre algo estranha. O mundo passa veloz lá fora, tão mais veloz quanto tudo anda mais rápido. E passam as luzes e vagueamos no escuro a 200km/h até que se ouve uma claro som, quase sempre sobreposto aos outros, que anuncia: "próxima paragem...".
Esta gente aqui sentada não tem pressa, mesmo quando tem. Há quem bata um pé nervoso e vá dando estalidos com a língua. Outros bufam constantemente. Alguém há-de ter a culpa por chegarem atrasados onde hão-de chegar. Alguém que não eles. Todos nós os outros. Mas o tempo não passa, só o nervosismo deles aumenta. O comboio continua estagnado enquanto viaja à velocidade da escuridão.
O pequeno conde senta-se alheado e distante numa cadeira a um canto. Um homem, à sua frente, tira da mala uma sanduíche. Trinca-a em grandes nacos que mastiga com vontade. Ver alguém abrir uma mala é sempre uma surpresa, uma interrogação e um verdadeiro acto de coscuvilhice, porque é simplesmente impossível resistir à curiosidade. É assim como um Kinder Surpresa, três desejos num só, mas numa versão adulta, melhorada e que não faz mal aos dentes embora não comporte tanto leite para beneficiar os ossos. É como dizia, resistir a olhar é quase impossível. E o momento melhor é aquele antes, em que estabelecemos um jogo de adivinhas connsoco mesmos. O que será? Ah, uma sanduíche, nota com ar aborrecido. O pequeno conde ouve muitas vezes a voz da mãe na cabeça. Que não se deve olhar, nem espreitar, nem coscuvilhar. Mas a mãe não anda por aqui todos os dias e sabe pouco desta tentação.
Mas há mais pessoas neste micro-universo que se reorganiza a cada nova paragem. São mulheres de encantos fanados e roupas justas. São crianças aspersoras que balançam o guarda-chuva molhado dum lado para o outro. São pais que berram e pais que se deixam estar enquanto a filha mama furiosamente a ponta do casaco. São novos executivos que berram muito alto ao telémovel. "Sim, estou no metro. Não, não, claro que posso falar! Diga, diga..." e aumentam a frequência em decibéis impossíveis para se fazerem ouvir. São jovens suburbanos que chegam do colégio e entrando no Rato só querem ouvir a senhora do anúncio anunciar que a próxima paragem é Odivelas.
Onde quer que pare a vida desta gente, ou Olaias ou Areeiro, ela passa e pára no Metro. E há quem não perceba e quem não pense nisso. Até o pequeno conde lhe dedica pouco tempo. Mas há perguntas que ficam. Quantas vezes ao longo da vida teremos visto a mesma pessoa no comboio sem nos darmos conta?
E há vezes, embora houvesse mais antigamente, em que o Metro pára no túnel escuro. É como se a escuridão forçada acordasse as gentes. De súbito, e por não mais tempo que isso, todos sabem do momento comum que vivem e do micro-kosmos onde se encontram. Agora há amigos dum minuto a quem dizer "E eu que estava cheia de pressa!", ou "Isto é sempre o mesmo!". Até o pequeno conde, entusiasmado, se vira para a senhora velha e gorda ao seu lado e diz "Que aborrecido, não é? Isto do Metro parar...". E a senhora torce o nariz, mas consciente de que não terá mais amigos senão o pequeno conde durante o tempo de paragem do Metro, ri, concorda acenando com a cabeça e continua a conversa.
E o metro voltou a andar. A seguir é a vez do pequeno conde sair. Não olha para trás, mal se despediu da senhora velha e gorda, não voltará a pensar nela. O pequeno conde poucas vezes voltará a pensar em todas estas coisas no correr deste e doutros dias. Mas é certo que a vida do pequeno conde há-de voltar a passar pelo metro e lá passando há-de parar nesse tempo infinito entre uma estação e outra em que se formam micro-kosmos.
Esta gente aqui sentada não tem pressa, mesmo quando tem. Há quem bata um pé nervoso e vá dando estalidos com a língua. Outros bufam constantemente. Alguém há-de ter a culpa por chegarem atrasados onde hão-de chegar. Alguém que não eles. Todos nós os outros. Mas o tempo não passa, só o nervosismo deles aumenta. O comboio continua estagnado enquanto viaja à velocidade da escuridão.
O pequeno conde senta-se alheado e distante numa cadeira a um canto. Um homem, à sua frente, tira da mala uma sanduíche. Trinca-a em grandes nacos que mastiga com vontade. Ver alguém abrir uma mala é sempre uma surpresa, uma interrogação e um verdadeiro acto de coscuvilhice, porque é simplesmente impossível resistir à curiosidade. É assim como um Kinder Surpresa, três desejos num só, mas numa versão adulta, melhorada e que não faz mal aos dentes embora não comporte tanto leite para beneficiar os ossos. É como dizia, resistir a olhar é quase impossível. E o momento melhor é aquele antes, em que estabelecemos um jogo de adivinhas connsoco mesmos. O que será? Ah, uma sanduíche, nota com ar aborrecido. O pequeno conde ouve muitas vezes a voz da mãe na cabeça. Que não se deve olhar, nem espreitar, nem coscuvilhar. Mas a mãe não anda por aqui todos os dias e sabe pouco desta tentação.
Mas há mais pessoas neste micro-universo que se reorganiza a cada nova paragem. São mulheres de encantos fanados e roupas justas. São crianças aspersoras que balançam o guarda-chuva molhado dum lado para o outro. São pais que berram e pais que se deixam estar enquanto a filha mama furiosamente a ponta do casaco. São novos executivos que berram muito alto ao telémovel. "Sim, estou no metro. Não, não, claro que posso falar! Diga, diga..." e aumentam a frequência em decibéis impossíveis para se fazerem ouvir. São jovens suburbanos que chegam do colégio e entrando no Rato só querem ouvir a senhora do anúncio anunciar que a próxima paragem é Odivelas.
Onde quer que pare a vida desta gente, ou Olaias ou Areeiro, ela passa e pára no Metro. E há quem não perceba e quem não pense nisso. Até o pequeno conde lhe dedica pouco tempo. Mas há perguntas que ficam. Quantas vezes ao longo da vida teremos visto a mesma pessoa no comboio sem nos darmos conta?
E há vezes, embora houvesse mais antigamente, em que o Metro pára no túnel escuro. É como se a escuridão forçada acordasse as gentes. De súbito, e por não mais tempo que isso, todos sabem do momento comum que vivem e do micro-kosmos onde se encontram. Agora há amigos dum minuto a quem dizer "E eu que estava cheia de pressa!", ou "Isto é sempre o mesmo!". Até o pequeno conde, entusiasmado, se vira para a senhora velha e gorda ao seu lado e diz "Que aborrecido, não é? Isto do Metro parar...". E a senhora torce o nariz, mas consciente de que não terá mais amigos senão o pequeno conde durante o tempo de paragem do Metro, ri, concorda acenando com a cabeça e continua a conversa.
E o metro voltou a andar. A seguir é a vez do pequeno conde sair. Não olha para trás, mal se despediu da senhora velha e gorda, não voltará a pensar nela. O pequeno conde poucas vezes voltará a pensar em todas estas coisas no correr deste e doutros dias. Mas é certo que a vida do pequeno conde há-de voltar a passar pelo metro e lá passando há-de parar nesse tempo infinito entre uma estação e outra em que se formam micro-kosmos.
quinta-feira, outubro 23, 2008
Cliché ou Noite em desabafo
Dói como uma dor estranha. Agora sei tudo o que tinha medo de saber e ainda tenho. E não estou livre, mas ainda preso. Porque ele está dentro de mim. Porqe ele é ao mesmo tempo a maior das alegrias e a mais profunda das dores. E não há como arrancá-lo porque ele e o que sinto por ele são hoje um só!
E dói e dói e dói sem nunca parar de doer, mesmo quando é bom. E não há mais nada lá fora, só ele e as suas palavras cheias de vento e de coisa nenhuma. Agora restam-me promessas que só eu entendo e esperanças que só eu tenho. E agora há dias no meu futuro que não vão nunca existir.
São dias de dizer a pele dele sobre a minha e o peito dele encostado ao meu. Mas sempre sendo dois e nunca um. Sempre perto mas vivendo a maior das distâncias, sempre desejando sem nunca saciar o desejo. E ele morre aos poucos, comido pela dúvida. E eu morro aos poucos vencido pelo cansaço de tudo isto.
E já nem escrevo e já nada do que digo presta. E já nem penso porque nada do que penso chega. E já não olho porque ando de olhos fechados para o ver só a ele. E sofro, sofro, todos os dias sofro. E eles repetem-se infindavelmente, sempre iguais e escuros, como uma lembrança de que o tempo passa, mas não cura.
E dói e dói e dói sem nunca parar de doer, mesmo quando é bom. E não há mais nada lá fora, só ele e as suas palavras cheias de vento e de coisa nenhuma. Agora restam-me promessas que só eu entendo e esperanças que só eu tenho. E agora há dias no meu futuro que não vão nunca existir.
São dias de dizer a pele dele sobre a minha e o peito dele encostado ao meu. Mas sempre sendo dois e nunca um. Sempre perto mas vivendo a maior das distâncias, sempre desejando sem nunca saciar o desejo. E ele morre aos poucos, comido pela dúvida. E eu morro aos poucos vencido pelo cansaço de tudo isto.
E já nem escrevo e já nada do que digo presta. E já nem penso porque nada do que penso chega. E já não olho porque ando de olhos fechados para o ver só a ele. E sofro, sofro, todos os dias sofro. E eles repetem-se infindavelmente, sempre iguais e escuros, como uma lembrança de que o tempo passa, mas não cura.
sábado, outubro 11, 2008
Desconsolo ou Vitória do dia que há-de nascer amanhã
Em nada nada direi
Que não há nada que em nada se possa dizer.
E de dizer nada nada fica
Nada passa, nada marca.
Mancha imaculada
Em nada que tenha, nada comporta ou conserva
Que é nada que eu sinto agora
Como se nada tivesse sido e em dia nada resolvido
De nós mais não sobresse que algum breve resto de nada!
Que não há nada que em nada se possa dizer.
E de dizer nada nada fica
Nada passa, nada marca.
Mancha imaculada
Em nada que tenha, nada comporta ou conserva
Que é nada que eu sinto agora
Como se nada tivesse sido e em dia nada resolvido
De nós mais não sobresse que algum breve resto de nada!
Renúncia do dia que não existiu ou Busca ansiada do corpo perfeito que eu criei
Aqui em vã fraqueza me quedo
Sem corpo teu ou meu que chame.
Sem corpo teu ou meu que chame.
quinta-feira, outubro 02, 2008
Eça
Estranha gente, para quem é fora de dúvida que ninguém pode ser moral sem ler a Bíblia, ser forte sem jogar o cricket, e ser gentleman sem ser inglês!
In Eça de Queiroz, Cartas de Inglaterra e Crónicas de Londres (publicado pela 1ª vez em 24 de Outubro de 1882 na Gazeta de Notícias)
In Eça de Queiroz, Cartas de Inglaterra e Crónicas de Londres (publicado pela 1ª vez em 24 de Outubro de 1882 na Gazeta de Notícias)
segunda-feira, setembro 29, 2008
Contorno algo incerto ou Cisne barroco esvoaçando as asas
"Maruliano, meu avô, acreditava nos astros."
E repito tantas vezes, palavras mágicas.
Encontro o impensável, para dizer o indizível.
É que agora talvez já não te ame.
E repito tantas vezes, palavras mágicas.
Encontro o impensável, para dizer o indizível.
É que agora talvez já não te ame.
Recomeço
Disse-te em palavras mornas
Da mansidão em que levo a alma.
Foi Verão, Primavera e Outono nesta ordem certa.
Teu corpo quente tem um quê de se fazer frio
Quando te toco.
Há estações, mas não estações para nós.
Para nós há dias de Inverno
Em que sol e céu são apenas uma ideia
Para além das nuvens.
Para nós nem nós mesmos havemos.
Não há nada teu que tu me dês
E tudo quanto te queria dar é agora algo
Indizível, indecifrável, até mesmo para mim.
Eis palavras onde não escreverei porém.
Hoje já não há espaço para falar dos teus olhos verdes,
Ou do teu sorriso,
Ou do cheiro do teu cabelo quando enfio o nariz na tua nuca.
Hoje não há sol,
Sem sol não há tempo de nós.
Agora somos dois, eu e tu,
Sem palavras, sem risos, e de lágrimas tão cheias e secas.
E talvez por aqui haja um caminho onde seguir
E no fim
Construa um hoje que seja meu novamente.
Da mansidão em que levo a alma.
Foi Verão, Primavera e Outono nesta ordem certa.
Teu corpo quente tem um quê de se fazer frio
Quando te toco.
Há estações, mas não estações para nós.
Para nós há dias de Inverno
Em que sol e céu são apenas uma ideia
Para além das nuvens.
Para nós nem nós mesmos havemos.
Não há nada teu que tu me dês
E tudo quanto te queria dar é agora algo
Indizível, indecifrável, até mesmo para mim.
Eis palavras onde não escreverei porém.
Hoje já não há espaço para falar dos teus olhos verdes,
Ou do teu sorriso,
Ou do cheiro do teu cabelo quando enfio o nariz na tua nuca.
Hoje não há sol,
Sem sol não há tempo de nós.
Agora somos dois, eu e tu,
Sem palavras, sem risos, e de lágrimas tão cheias e secas.
E talvez por aqui haja um caminho onde seguir
E no fim
Construa um hoje que seja meu novamente.
De l'espoir (Da esperança)
O texto que se segue foi novamente roubado a um querido amigo. O texto em francês é seu enquanto a tradução livre é minha.
- Regarde, mon amour! Il y a le soleil qui se lève et la pluie qui cesse!
- C'est bien drôle, puisque l'été s'achève.
- Oui... ce seront peut-être les feuilles de nos chagrins qui tomberont cet automne.
- Je crois. Je crois en nous.
-Olha, meu amor! Eis o sol que se levanta e a chuva que cessa.
-É estranho, porque o Verão acaba.
-Sim... talvez venham a ser as folhas das nossas dores que irão cair neste Outono.
-Eu creio. Eu creio em nós.
- Regarde, mon amour! Il y a le soleil qui se lève et la pluie qui cesse!
- C'est bien drôle, puisque l'été s'achève.
- Oui... ce seront peut-être les feuilles de nos chagrins qui tomberont cet automne.
- Je crois. Je crois en nous.
-Olha, meu amor! Eis o sol que se levanta e a chuva que cessa.
-É estranho, porque o Verão acaba.
-Sim... talvez venham a ser as folhas das nossas dores que irão cair neste Outono.
-Eu creio. Eu creio em nós.
sexta-feira, setembro 19, 2008
Pois que a eles já ninguém os rouba!
Entre os tantos tipos curiosos de gentes que o nosso país tem produzido entendo que resta falar de um a que se tem prestado pouca atenção. Falo do madeirense, esse tipo tristonho e insular a que vamos dando lugar de baixa monta.
É bem verdade que em quase nada se apresenta como um tipo de excepção: passa a vida bilhardando e resondando; não sendo introspectivo é bem virado para si; cultiva um certo tipo de mesquinhez que talvez valesse a pena estudar. Mas o que importa realmente no madeirense, o que o faz digno de nota e da escrita é a sua arte superior de evitar ladrões. Pois que o amigo mais céptico não se pasme que juro falar verdade. Descobriu o madeirense essa fórmula mágica, que o resto do povo português tanto almeja, de evitar a ladroagem. Não os pequenos entenda-se, que em se agarrar punhados de grãos de areia sempre escapa este ou outro, mas os grandes que são afinal quem importa porque roubam a valer. Senão, vejamos como o fazem.
Como vimos imediatamente há assim dois tipos de ladroagem: essa da arraia-miúda, antes com uns furtos e uns assaltos às bombas de gasolina, hoje já mais evoluída com direito a car-jackings e assaltos a bancos com reféns e tudo; aquela a que tantos chamam política, mas que na verdade não se fica por aí, pois qualquer tacho em Portugal, ainda que indirectamente ligado à política, já é bom para exercer a ladroagem. A primeira para o povo, a segunda para os espertos. E a única maneira de superar estes segundos é ser-se ainda mais esperto que os espertos. E aquilo que tem levado anos e anos aos teóricos políticos a descobrir descobriram-no os madeirenses logo nos primeiros anos da sua democracia. Qual é pois o grande motor da ladroagem dos tachos? Ora, é mais que claro: a rotação dos cargos. Ora se dá quatro anos de comer a este, depois tu esperas mais quatro enquanto eu lá vou, que a seguir já te vens encher outros quatro. E o madeirense há trinta anos que começou a acabar com isso. Primeiro, nunca mudou de Presidente Regional e conferiu-lhe sempre, em voto democrático, livre e secreto maioria absoluta. A maioria absoluta serve dois propósitos: num primeiro tempo de poder permite roubar tudo quanto se quer; num segundo tempo permite afastar esses rufiões que depois de verem os outros com a pança cheia também querem então ir encher a sua. É que se o madeirense descobriu como por fim à ladroagem, não descobriu nem descobrirá como se põe fim aos ladrões. Mas voltemos ao assunto que nos ocupa e que louva o tipo do madeirense. Depois de garantir o mesmo Presidente Regional ocupou-se o madeirense de uniformizar nos seguintes vinte anos todas as autarquias do arquipélago sobre uma mesma bandeira. Se essa é a bandeira regional ou a bandeira do PPD-Madeira é assunto de pouca monta, que afinal do amarelo ao laranja vai uma pinga de vermelho, que até serve para não virem dizer que não à esquerdismo na ilha.
E agora pensa o bom leitor que esse tipo fantástico que é o madeirense, a quem todos deviam estar gratos pela sua descoberta, viva na sua ilha olímpica uma paz dos deuses. Desengane-se então, pois que há coisas que não se mudam, como vimos. O madeirense, apesar de não se lembrar muitas vezes e de não o querer outras tantas, ainda é português. E ao povo português não se pode tirar um fado que se chore. Não, o povo da Madeira cá continua bilhardando e resondando políticios, ganhos e custos. Lá vai, num canto do autocarro queixando-se disto ou daquilo com a frase sempre generosa que ocupa a ponta dos beiços de todo o português: "isto vai mal!" frase que requer ser dita de maneira séria, pensativa e até filosófica como uma verdade assertiva ao jeito de Atlas que leva o mundo sobre os ombros. Mas ai daquele que se insurja contra o Governo Regional. Aí o madeirense não perdoa! Pois que rouba? Ora se vier outro rouba tudo de novo e este ao menos já roubou tudo quanto tinha a roubar. Pois que é mentira? Então um homem que podendo morar no belo palácio da Quinta Vigia abre antes os jardins do paço ao público e para mais de quarenta anos mora na sua pequena casa e não faz férias senão no Porto Santo. Um homem que só melhorou a Madeira e a rasgou de estradas e furados! Pois, que um homem destes mesmo que roube é santo, que os santos também são homens e lá têm tentações e seus pecados. E ao madeirense parece pouco preço a pagar pelo grande homem que em todas as eleições sentam de maneira livre e democrática na cadeira do poder.
Felizes madeirenses, atentados com tantos tormentos, que ao menos perderam esse de serem roubados em grande ladroagem. Que importa a liberdade de expressão, que importam as tramóias na função pública, ou caciquismos e clientelismos? Que importa que a isto outros chamem ditadura se ao madeirense é a democracia que melhor lhe convém? Pois paga-se tal preço para que não lhes roubem os bolsos, que esses que roubam são cubanos do lado de lá do mar, que a Madeira até vai mal e sem dinheiro que a culpa é deles e não do madeirense. Que importa se o País não deve temer ladrões, pois porque há-de temer ladrões um país que já não tem nada que roubar? Ora não senhor! O que importa ao madeirense é que lhe deixem o bolso quieto que a sexta-feira chega sempre e fim-de-semana é tempo de gastar e haja dinheiro para ser gastado sem que ninguém o faça desaparecer. Que depois segue-se a segunda onde enfiado nos bancos de autocarro lá vai o madeirense no canto culpando o cubano e afirmando a verdade máxima e última que tudo vai mal.
Isto o que Portugal precisa, e o madeirense já descobriu, é de António de Oliveira Salazar que esteve lá quarenta e poucos anos e nunca roubou tostão que fosse. Esse sim havia de guiar os destinos da gloriosa democracia lusitana a belo porto!
É bem verdade que em quase nada se apresenta como um tipo de excepção: passa a vida bilhardando e resondando; não sendo introspectivo é bem virado para si; cultiva um certo tipo de mesquinhez que talvez valesse a pena estudar. Mas o que importa realmente no madeirense, o que o faz digno de nota e da escrita é a sua arte superior de evitar ladrões. Pois que o amigo mais céptico não se pasme que juro falar verdade. Descobriu o madeirense essa fórmula mágica, que o resto do povo português tanto almeja, de evitar a ladroagem. Não os pequenos entenda-se, que em se agarrar punhados de grãos de areia sempre escapa este ou outro, mas os grandes que são afinal quem importa porque roubam a valer. Senão, vejamos como o fazem.
Como vimos imediatamente há assim dois tipos de ladroagem: essa da arraia-miúda, antes com uns furtos e uns assaltos às bombas de gasolina, hoje já mais evoluída com direito a car-jackings e assaltos a bancos com reféns e tudo; aquela a que tantos chamam política, mas que na verdade não se fica por aí, pois qualquer tacho em Portugal, ainda que indirectamente ligado à política, já é bom para exercer a ladroagem. A primeira para o povo, a segunda para os espertos. E a única maneira de superar estes segundos é ser-se ainda mais esperto que os espertos. E aquilo que tem levado anos e anos aos teóricos políticos a descobrir descobriram-no os madeirenses logo nos primeiros anos da sua democracia. Qual é pois o grande motor da ladroagem dos tachos? Ora, é mais que claro: a rotação dos cargos. Ora se dá quatro anos de comer a este, depois tu esperas mais quatro enquanto eu lá vou, que a seguir já te vens encher outros quatro. E o madeirense há trinta anos que começou a acabar com isso. Primeiro, nunca mudou de Presidente Regional e conferiu-lhe sempre, em voto democrático, livre e secreto maioria absoluta. A maioria absoluta serve dois propósitos: num primeiro tempo de poder permite roubar tudo quanto se quer; num segundo tempo permite afastar esses rufiões que depois de verem os outros com a pança cheia também querem então ir encher a sua. É que se o madeirense descobriu como por fim à ladroagem, não descobriu nem descobrirá como se põe fim aos ladrões. Mas voltemos ao assunto que nos ocupa e que louva o tipo do madeirense. Depois de garantir o mesmo Presidente Regional ocupou-se o madeirense de uniformizar nos seguintes vinte anos todas as autarquias do arquipélago sobre uma mesma bandeira. Se essa é a bandeira regional ou a bandeira do PPD-Madeira é assunto de pouca monta, que afinal do amarelo ao laranja vai uma pinga de vermelho, que até serve para não virem dizer que não à esquerdismo na ilha.
E agora pensa o bom leitor que esse tipo fantástico que é o madeirense, a quem todos deviam estar gratos pela sua descoberta, viva na sua ilha olímpica uma paz dos deuses. Desengane-se então, pois que há coisas que não se mudam, como vimos. O madeirense, apesar de não se lembrar muitas vezes e de não o querer outras tantas, ainda é português. E ao povo português não se pode tirar um fado que se chore. Não, o povo da Madeira cá continua bilhardando e resondando políticios, ganhos e custos. Lá vai, num canto do autocarro queixando-se disto ou daquilo com a frase sempre generosa que ocupa a ponta dos beiços de todo o português: "isto vai mal!" frase que requer ser dita de maneira séria, pensativa e até filosófica como uma verdade assertiva ao jeito de Atlas que leva o mundo sobre os ombros. Mas ai daquele que se insurja contra o Governo Regional. Aí o madeirense não perdoa! Pois que rouba? Ora se vier outro rouba tudo de novo e este ao menos já roubou tudo quanto tinha a roubar. Pois que é mentira? Então um homem que podendo morar no belo palácio da Quinta Vigia abre antes os jardins do paço ao público e para mais de quarenta anos mora na sua pequena casa e não faz férias senão no Porto Santo. Um homem que só melhorou a Madeira e a rasgou de estradas e furados! Pois, que um homem destes mesmo que roube é santo, que os santos também são homens e lá têm tentações e seus pecados. E ao madeirense parece pouco preço a pagar pelo grande homem que em todas as eleições sentam de maneira livre e democrática na cadeira do poder.
Felizes madeirenses, atentados com tantos tormentos, que ao menos perderam esse de serem roubados em grande ladroagem. Que importa a liberdade de expressão, que importam as tramóias na função pública, ou caciquismos e clientelismos? Que importa que a isto outros chamem ditadura se ao madeirense é a democracia que melhor lhe convém? Pois paga-se tal preço para que não lhes roubem os bolsos, que esses que roubam são cubanos do lado de lá do mar, que a Madeira até vai mal e sem dinheiro que a culpa é deles e não do madeirense. Que importa se o País não deve temer ladrões, pois porque há-de temer ladrões um país que já não tem nada que roubar? Ora não senhor! O que importa ao madeirense é que lhe deixem o bolso quieto que a sexta-feira chega sempre e fim-de-semana é tempo de gastar e haja dinheiro para ser gastado sem que ninguém o faça desaparecer. Que depois segue-se a segunda onde enfiado nos bancos de autocarro lá vai o madeirense no canto culpando o cubano e afirmando a verdade máxima e última que tudo vai mal.
Isto o que Portugal precisa, e o madeirense já descobriu, é de António de Oliveira Salazar que esteve lá quarenta e poucos anos e nunca roubou tostão que fosse. Esse sim havia de guiar os destinos da gloriosa democracia lusitana a belo porto!
quarta-feira, setembro 03, 2008
Digo-te: anseio!
Para Sara Guia d'Abreu
(Procuro uma posição na cadeira para escrever. Vou escrever rápido para que as palavras não se percam. A tua música corre no computador: "Un jour triste". Eu começo)
Amanhã será dia, como hoje foi. E não será como o hoje, nem como o amanhã do amanhã. Será dia como terá de ser. Cada dia com suas palavras novas de dizer e de calar.
Digo-te: da minha janela vê-se o mar e na ilha a noite chegará em duas horas. Há nuvens e não há sol. Amanhã haverá sol? Quem sabe se na minha janela amanhã haverá palavras para que eu me debruce no parapeito e diga "Hoje é um dia de sol!"
Tenho o corpo deitado sobre a cama. Tapei a janela com os taipais da janela. É de tarde porque em mim, enquanto escrevo, já é amanhã. É amanhã como digo e estou deitado, de tapais tapados, tapando a janela. Entra uma luz fina porque as cortinas são finas como a luz. Eu estou parado na cama, de corpo para cima e a luz enche-me. Estou a criar palavras.
De onde as palavras nascem é algo que não posso dizer: se da luz que amanhã me virá ao quarto se da música que corre agora, hoje, pelo computador e por mim. Não estou ligado à máquina, mas à música e talvez da música às palavras.
Digo-te hoje, julgando que é a tarde de amanhã: palavras de ser adolescente e estender o corpo no relvado do liceu; e medo do teste que vem; e o primeiro copo e a primeira noite; e confissões e risos; e tantas coisas de ser feliz e triste ao mesmo tempo; e digo tempo de conhecer e saber; tempo de amar e de criar. E lembro com saudade e sem mágoa palavras de ontem que não voltarão a ser hoje nem amanhã, nem mesmo no amanhã do amanhã.
Lembro-as hoje, sentado ao computador com medo que fujam, ou deitado amanhã à tarde sobre a cama. E seja onde for estico o braço e tu estás lá, porque são palavras de dizer que te amo e que me lembro.
(Procuro uma posição na cadeira para escrever. Vou escrever rápido para que as palavras não se percam. A tua música corre no computador: "Un jour triste". Eu começo)
Amanhã será dia, como hoje foi. E não será como o hoje, nem como o amanhã do amanhã. Será dia como terá de ser. Cada dia com suas palavras novas de dizer e de calar.
Digo-te: da minha janela vê-se o mar e na ilha a noite chegará em duas horas. Há nuvens e não há sol. Amanhã haverá sol? Quem sabe se na minha janela amanhã haverá palavras para que eu me debruce no parapeito e diga "Hoje é um dia de sol!"
Tenho o corpo deitado sobre a cama. Tapei a janela com os taipais da janela. É de tarde porque em mim, enquanto escrevo, já é amanhã. É amanhã como digo e estou deitado, de tapais tapados, tapando a janela. Entra uma luz fina porque as cortinas são finas como a luz. Eu estou parado na cama, de corpo para cima e a luz enche-me. Estou a criar palavras.
De onde as palavras nascem é algo que não posso dizer: se da luz que amanhã me virá ao quarto se da música que corre agora, hoje, pelo computador e por mim. Não estou ligado à máquina, mas à música e talvez da música às palavras.
Digo-te hoje, julgando que é a tarde de amanhã: palavras de ser adolescente e estender o corpo no relvado do liceu; e medo do teste que vem; e o primeiro copo e a primeira noite; e confissões e risos; e tantas coisas de ser feliz e triste ao mesmo tempo; e digo tempo de conhecer e saber; tempo de amar e de criar. E lembro com saudade e sem mágoa palavras de ontem que não voltarão a ser hoje nem amanhã, nem mesmo no amanhã do amanhã.
Lembro-as hoje, sentado ao computador com medo que fujam, ou deitado amanhã à tarde sobre a cama. E seja onde for estico o braço e tu estás lá, porque são palavras de dizer que te amo e que me lembro.
segunda-feira, agosto 11, 2008
Deambulante na cidade ou Verbos que me vêm só por pensar em Lisboa enquanto é tarde
Diz-me um fado, um canto lento. Uma história do quotidiano. Quantas janelas tem Alfama enquanto o sol se põe? Umas abrem-se, outras fecham-se.
Ruas de Lisboa onde as perdesse, por elas ande perdidamente em busca de algo que chega até ao Tejo.
Cidade, mulher, como se fosse vida, como se fosse coisa com alma. Breve jóia, breve espanto de passar momentos duma tarde olhando-te do jardim do Príncipe Real.
Chãos de Belém, além o rio. Mar de casório com cheiro próximo de sardinhas a assar na brasa.
Escadarias de Lisboa onde diga Santos, Graça, Alcântara, Chiado. Para onde nos levam quando já nem os passos nos guiam? Eis janelas que se abrem enquanto passo pelos passeios estreitos da cidade. Cada janela é uma pequena vida. Quantas hão de passar ainda pelo caminho?
Lisboa sem noite, só em luz, possa eu dormir enquanto me velas. Quieto e manso, de mansinho conta-me histórias de vidas que há dentro de cada varanda da Mouraria.
E diz-me um fado, calmo e não calado, essa coisa lusa que vem de dentro e que aperta mais nos terraços da cidade quando a noite caí e traz essa outra luz.
Ruas de Lisboa onde as perdesse, por elas ande perdidamente em busca de algo que chega até ao Tejo.
Cidade, mulher, como se fosse vida, como se fosse coisa com alma. Breve jóia, breve espanto de passar momentos duma tarde olhando-te do jardim do Príncipe Real.
Chãos de Belém, além o rio. Mar de casório com cheiro próximo de sardinhas a assar na brasa.
Escadarias de Lisboa onde diga Santos, Graça, Alcântara, Chiado. Para onde nos levam quando já nem os passos nos guiam? Eis janelas que se abrem enquanto passo pelos passeios estreitos da cidade. Cada janela é uma pequena vida. Quantas hão de passar ainda pelo caminho?
Lisboa sem noite, só em luz, possa eu dormir enquanto me velas. Quieto e manso, de mansinho conta-me histórias de vidas que há dentro de cada varanda da Mouraria.
E diz-me um fado, calmo e não calado, essa coisa lusa que vem de dentro e que aperta mais nos terraços da cidade quando a noite caí e traz essa outra luz.
quarta-feira, agosto 06, 2008
Canção do amor triste ou Versos de quem não soube amar
Rasgar-te-ei teu vestido, Raquel,
Hei-de rasgá-lo com força e fúria.
E agora minhas mãos sobre teus seios
E agora teus gritos que sufoco
E agora tua alma que se rasga
Nas mãos da minha.
Rasgar-te-ei teu vestido, Raquel,
Para que minhas mãos sejam d'homem
Enquanto to devassam
Para que minhas pernas sejam d'homem
Enquanto t'entrelaçam
Para que minha alma seja minha
Assim como perdes dentro de mim a tua.
Rasgar-te-ei teu vestido Raquel,
Sem medos, sem dores, nem culpas.
E sem suavidade, direi suavemente,
Enquanto soluças,
Amo-te!
Hei-de rasgá-lo com força e fúria.
E agora minhas mãos sobre teus seios
E agora teus gritos que sufoco
E agora tua alma que se rasga
Nas mãos da minha.
Rasgar-te-ei teu vestido, Raquel,
Para que minhas mãos sejam d'homem
Enquanto to devassam
Para que minhas pernas sejam d'homem
Enquanto t'entrelaçam
Para que minha alma seja minha
Assim como perdes dentro de mim a tua.
Rasgar-te-ei teu vestido Raquel,
Sem medos, sem dores, nem culpas.
E sem suavidade, direi suavemente,
Enquanto soluças,
Amo-te!
segunda-feira, julho 28, 2008
Segundo Tríptico Barroco
domingo, julho 20, 2008
Esboço de Laura ou Escrita breve em "andante furioso"
Para Ana Garcia com carinho, paixão, orgulho e fúria.
A sala era escura. A sala era escura e isso irritava-o. Guardava um medo infantil do escuro, com lugar para monstros e papões, e isso deixava-o mal-disposto. Batia furiosamente com a caneta no apoio de madeira onde tinhas os papéis em branco. Era bom que tudo aquilo acabasse depressa.
Letícia, não era excessivamente alta e decididamente não era excessivamente bela. Era mesmo difícil confessar que tivesse alguma beleza além da vulgaridade daqueles que por um acaso não nasceram feios. Tinha um aspecto vulgar, uma estatura vulgar e um nome vulgar. Escolhera uma música vulgar.
Entrou no palco decidida como quem retoma uma velha posição deixada há muitos anos, ou na verdade uma antecipação disso: reclamava um velho lugar que era seu há muitos anos, mas que por algum acaso nunca tomara. Letícia começou a dançar quando se ouviu a música. Envolvia o corpo em gestos compassados e rítmicos num estudo acertado de expressão e técnica. Gabriel restava para ali, meio alheio a tudo, olhando uma rapariga vulgar, com um corpo vulgar, dançando uma música vulgar. Quando terá ele reparado que ela não dançava de maneira vulgar?
O corpo de Letícia subia de ritmo, como um termómetro em que o mercúrio ameaça explodir. Vinha-lhe de dentro para fora, como se de repente mãos e pés e pernas e braços e ancas e coxas fossem as formas naturais de revelar palavras ocultas, palavras de dizer senão com o corpo. Gabriel deu por si dentro daquele emaranhado de coisas em que o corpo de Letícia se transformava numa rapidez extra-temporal. Letícia era em si uma revelação de algo.
E tomou a caneta e começou a escrever com fúria sobre o papel branco. Acertava cada compasso pelo corpo dela e cada palavra correspondia assim a um gesto.
Laura era branca, como um nevão irremediável que submerge tudo. (risco) afoga tudo. Laura passeando entre as gentes como se fosse (risco) fora invisível.
Letícia agitava-se no palco ao som duma música que já não existia. Como poderia haver música, onde não havia qualquer som? Letícia já nem era a própria Letícia. Era algo exterior a si mesma. Era um corpo que se estende e contrái em gestos que eram como imensos significantes vazios de significados. E esse vazio transbordava da caneta para a folha de papel com a vontade furiosa de escrever, sem que também isso se concebesse em significado algum. Letícia agitava-se em literatura. Era como se urgisse comê-la de um trago e tirar-lhe tudo o que ela oferecia dar.
Laura e Tristão sobre o barco. Laura preparando as amarguras de outras vidas. Laura alheia a si mesma, como se fora duas Lauras.
E a sala já não era escura agora, e ele não queria que isto acabasse. Oh, que não acabasse nunca! Como se Letícia, sem ser já Letícia, fosse a fonte última de inspiração. Como se o corpo de Letícia fosse despersonalizado de toda a personalidade para poder construir esse outro corpo e essa outra pessoa, tão irreais como tudo aquilo, que era essa atormentante Laura, ansiosa e ociosa por nascer. Paria em frases soltas, sem tempo nem espaço, num espaço onde ele era alheio a tudo.
Ouviu num assombro que não se ouvia mais música. Letícia estava parada no palco, de novo Letícia, olhando-o de frente. Ainda assim, não mais poderia ser essa outra Letícia, ainda tão vulgar, ainda tão comum. Laura ali estava, escrita em frases dispersas, tão real em carne e osso como esse corpo dançante a que chamava Letícia.
Olhou o papel nas mãos e a rapariga no palco. Suspirou como quem se entrega à fraqueza.
- Mais uma vez, só mais uma vez, pediu.
Letícia agitou-se no palco. Instantes depois já ele não ouvia a música que tocava.
A sala era escura. A sala era escura e isso irritava-o. Guardava um medo infantil do escuro, com lugar para monstros e papões, e isso deixava-o mal-disposto. Batia furiosamente com a caneta no apoio de madeira onde tinhas os papéis em branco. Era bom que tudo aquilo acabasse depressa.
Letícia, não era excessivamente alta e decididamente não era excessivamente bela. Era mesmo difícil confessar que tivesse alguma beleza além da vulgaridade daqueles que por um acaso não nasceram feios. Tinha um aspecto vulgar, uma estatura vulgar e um nome vulgar. Escolhera uma música vulgar.
Entrou no palco decidida como quem retoma uma velha posição deixada há muitos anos, ou na verdade uma antecipação disso: reclamava um velho lugar que era seu há muitos anos, mas que por algum acaso nunca tomara. Letícia começou a dançar quando se ouviu a música. Envolvia o corpo em gestos compassados e rítmicos num estudo acertado de expressão e técnica. Gabriel restava para ali, meio alheio a tudo, olhando uma rapariga vulgar, com um corpo vulgar, dançando uma música vulgar. Quando terá ele reparado que ela não dançava de maneira vulgar?
O corpo de Letícia subia de ritmo, como um termómetro em que o mercúrio ameaça explodir. Vinha-lhe de dentro para fora, como se de repente mãos e pés e pernas e braços e ancas e coxas fossem as formas naturais de revelar palavras ocultas, palavras de dizer senão com o corpo. Gabriel deu por si dentro daquele emaranhado de coisas em que o corpo de Letícia se transformava numa rapidez extra-temporal. Letícia era em si uma revelação de algo.
E tomou a caneta e começou a escrever com fúria sobre o papel branco. Acertava cada compasso pelo corpo dela e cada palavra correspondia assim a um gesto.
Laura era branca, como um nevão irremediável que submerge tudo. (risco) afoga tudo. Laura passeando entre as gentes como se fosse (risco) fora invisível.
Letícia agitava-se no palco ao som duma música que já não existia. Como poderia haver música, onde não havia qualquer som? Letícia já nem era a própria Letícia. Era algo exterior a si mesma. Era um corpo que se estende e contrái em gestos que eram como imensos significantes vazios de significados. E esse vazio transbordava da caneta para a folha de papel com a vontade furiosa de escrever, sem que também isso se concebesse em significado algum. Letícia agitava-se em literatura. Era como se urgisse comê-la de um trago e tirar-lhe tudo o que ela oferecia dar.
Laura e Tristão sobre o barco. Laura preparando as amarguras de outras vidas. Laura alheia a si mesma, como se fora duas Lauras.
E a sala já não era escura agora, e ele não queria que isto acabasse. Oh, que não acabasse nunca! Como se Letícia, sem ser já Letícia, fosse a fonte última de inspiração. Como se o corpo de Letícia fosse despersonalizado de toda a personalidade para poder construir esse outro corpo e essa outra pessoa, tão irreais como tudo aquilo, que era essa atormentante Laura, ansiosa e ociosa por nascer. Paria em frases soltas, sem tempo nem espaço, num espaço onde ele era alheio a tudo.
Ouviu num assombro que não se ouvia mais música. Letícia estava parada no palco, de novo Letícia, olhando-o de frente. Ainda assim, não mais poderia ser essa outra Letícia, ainda tão vulgar, ainda tão comum. Laura ali estava, escrita em frases dispersas, tão real em carne e osso como esse corpo dançante a que chamava Letícia.
Olhou o papel nas mãos e a rapariga no palco. Suspirou como quem se entrega à fraqueza.
- Mais uma vez, só mais uma vez, pediu.
Letícia agitou-se no palco. Instantes depois já ele não ouvia a música que tocava.
sábado, julho 12, 2008
Palavras, onde as busque? ou Incursão nocturna na busca contínua das palavras por que anseio
Diz-me onde há palavras que as busque.
Para que por um instante nunca mais seja dia e eu perca todas as minhas noites como se uma única fora em folhas e folhas de papel.
E lentamente, quase como se não me mexesse, a um mesmo tempo morra e renasça soterrado e erguido em palavras que eu tenha escrito em sítios onde as buscasse.
Para que por um instante nunca mais seja dia e eu perca todas as minhas noites como se uma única fora em folhas e folhas de papel.
E lentamente, quase como se não me mexesse, a um mesmo tempo morra e renasça soterrado e erguido em palavras que eu tenha escrito em sítios onde as buscasse.
segunda-feira, julho 07, 2008
Subscrever:
Mensagens (Atom)





