Nas ruas da cidade falha o tempo.
Amar-te é hoje a hora mais difícil.
Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens
quinta-feira, janeiro 23, 2014
Pateo II
De ti, um gesto breve no pateo branco. Não esperes
Mais que te espere sob a lua.
Rua direita da cidade. Espaço conciso.
Amei em ti todas as coisas que me deste.
Mais que te espere sob a lua.
Rua direita da cidade. Espaço conciso.
Amei em ti todas as coisas que me deste.
Pateo I
De ti, um breve gesto sobre o pateo, numa noite
Em que os deuses souberam dizer o teu nome sob a lua.
Rua direita da cidade branca. Janela do quarto.
Palavra.
Amei em ti todas as coisas possíveis.
Em que os deuses souberam dizer o teu nome sob a lua.
Rua direita da cidade branca. Janela do quarto.
Palavra.
Amei em ti todas as coisas possíveis.
sexta-feira, dezembro 20, 2013
Porque não podia ser para ele
pour lui
Isto que é maior que tudo: sem dias de chuva, sem livros nos bancos de jardim.
Demorarás muito tempo a voltar a casa e em verdade não mais poderás
Dizer que ali é a tua casa.
Há estas palavras que te guardo para os dias de ausência, para o não saber das coisas.
Mas aos domingos ainda haverá missa, mesmo que não estejas em nenhum banco.
Há um não-lugar onde te busco no seguimento das horas,
Aquele álbum antigo de fotografias, como uma manhã
Em que chegaste atrasado pelo sono e eu ralhei, mas depois achei graça.
A cidade é esta tua ausência porque estás
Longe das longas viagens suburbanas dos autocarros. Os jardins não te vêem
E não hei-de esperar num deles para te entregar um filme de Visconti.
Pudéramos ser personagens numa estória que termine com as palavras de sempre.
A vida não é feita de estórias, mas de ausências. É um não-estar
Mais do que um não-haver.
Porque existes nas estações, na música, sempre nas palavras. Por isso eu sei.
Por isso estou aqui.
Isto que é maior que tudo: sem dias de chuva, sem livros nos bancos de jardim.
Demorarás muito tempo a voltar a casa e em verdade não mais poderás
Dizer que ali é a tua casa.
Há estas palavras que te guardo para os dias de ausência, para o não saber das coisas.
Mas aos domingos ainda haverá missa, mesmo que não estejas em nenhum banco.
Há um não-lugar onde te busco no seguimento das horas,
Aquele álbum antigo de fotografias, como uma manhã
Em que chegaste atrasado pelo sono e eu ralhei, mas depois achei graça.
A cidade é esta tua ausência porque estás
Longe das longas viagens suburbanas dos autocarros. Os jardins não te vêem
E não hei-de esperar num deles para te entregar um filme de Visconti.
Pudéramos ser personagens numa estória que termine com as palavras de sempre.
A vida não é feita de estórias, mas de ausências. É um não-estar
Mais do que um não-haver.
Porque existes nas estações, na música, sempre nas palavras. Por isso eu sei.
Por isso estou aqui.
domingo, dezembro 01, 2013
Ana
para A.G.
Como podendo estar parados num teatro dirias
uma coisa, depois outra.
Uma manhã em Lisboa em que Ana
Tivesse camélias na janela, como antes o fizera Dumas,
enquanro admitia um choro ou uma hipótese de ser
Mais do que uma personagem dizendo uma coisa,
depois outra coisa.
Pequeno-almoço na Confeitaria Nacional, pequena degustação dos jesuítas.
Abordas uma nota do trágico. Expulsões.
Lisboa interdita para sempre, isso sim era dramático.
Escondes-te por esta rua donde se
não veem camélias à janela. Um livro que diga a
cidade, que a explique como um pai explicando a um filho, que
não pudera ver, mas sente
no chão o tremor quando eles passam.
Chegas agora ao Tejo, paras como num teatro.
o palácio do rei de Portugal cheira a cravinho
E canela. Mas aqui
Nada cheira assim, foi acolá que mataram el-rey.
Deixei que crescessem camélias à minha
Janela não porque lesse um livro, mas porque era
Um tempo em que Ana amava um
Homem chamado Lisboa.
Como podendo estar parados num teatro dirias
uma coisa, depois outra.
Uma manhã em Lisboa em que Ana
Tivesse camélias na janela, como antes o fizera Dumas,
enquanro admitia um choro ou uma hipótese de ser
Mais do que uma personagem dizendo uma coisa,
depois outra coisa.
Pequeno-almoço na Confeitaria Nacional, pequena degustação dos jesuítas.
Abordas uma nota do trágico. Expulsões.
Lisboa interdita para sempre, isso sim era dramático.
Escondes-te por esta rua donde se
não veem camélias à janela. Um livro que diga a
cidade, que a explique como um pai explicando a um filho, que
não pudera ver, mas sente
no chão o tremor quando eles passam.
Chegas agora ao Tejo, paras como num teatro.
o palácio do rei de Portugal cheira a cravinho
E canela. Mas aqui
Nada cheira assim, foi acolá que mataram el-rey.
Deixei que crescessem camélias à minha
Janela não porque lesse um livro, mas porque era
Um tempo em que Ana amava um
Homem chamado Lisboa.
sexta-feira, abril 05, 2013
Dos dias e desta noite
Que dirás das coisas? Abeira-te das flores para saberes o que
Em secretos cantos sussuram umas às outras.
Ficavas assim parado, como algo não descrito nas páginas dos livros
Que lias nos cafés itenerantes da cidade.
A estonteante velocidade do metro, como as coisas aconteciam pelas ruas
De súbito invadidas pelos gatos vadios das esquinas.
Havia uma cor indízivel, uma coisa que todos conheciam
No coração da cidade.
Durante os tempos da tarde as horas do teu relógio rodopiavam
E tu ficavas apenas sentado à varanda na velha cadeira de verga.
Depois esta marquise de ferro forjado, as coisas das avenidas novas.
Casas de amigas que nos fazem chá às 8h da noite.
Os cães também passeiam ao redor da praça, sendo que é
Impossível falar se é dia ou depois.
Estamos em certo todos presos por uma trela assustadoramente laça
A que não queremos jamais largar.
Os jornais ondeiam enquanto viras as páginas consumindo a informação
Diária como uma obrigação urbana dos dias.
A cidade existe afinal na medida das pessoas, das janelas e das
Várias pedras da calçada.
Enquanto as coisas passam, de ligeiro te apercebes de que
Os poemas inevitavelmente acabam como uma fatalidade.
segunda-feira, dezembro 31, 2012
As visitas do almoço
Esperamos pacientemente as visitas do almoço.
Desde as onze horas da manhã que povoamos a cozinha de
Cheiros, sabores e manchas nas bancadas de pedra branca.
A habilidade com que a mão segura a faca que habilmente corta
Legumes, despedaça frangos e esmaga alhos
Convenientemente odoríferos para nos fazer ansiar a passagem das horas.
Procuramos com cuidado os melhores cristais, porcelanas, linhos.
Repetimos um ritual de mesa na segurança que nos liga ao passado
Às coisas certas, às certezas indubitáveis daquilo que somos
E do que nos define.
Cumprimentamo-nos lentamente, beijos com economia planeada
Com sorrisos aprendidos na infância e reservados aos íntimos,
Os que ocupam o topo da hierarquia dos afectos.
Aprendemos cedo os lugares do mundo, das coisas, das pessoas,
Os teatros medidos dos gestos.
A casa resta no seu conforto urbano de classe média,
A elegância de varandas viradas para o Tejo
E de grandes salas luminosas e bem iluminadas
Onde pacientemente esperamos as visitas do almoço.
Desde as onze horas da manhã que povoamos a cozinha de
Cheiros, sabores e manchas nas bancadas de pedra branca.
A habilidade com que a mão segura a faca que habilmente corta
Legumes, despedaça frangos e esmaga alhos
Convenientemente odoríferos para nos fazer ansiar a passagem das horas.
Procuramos com cuidado os melhores cristais, porcelanas, linhos.
Repetimos um ritual de mesa na segurança que nos liga ao passado
Às coisas certas, às certezas indubitáveis daquilo que somos
E do que nos define.
Cumprimentamo-nos lentamente, beijos com economia planeada
Com sorrisos aprendidos na infância e reservados aos íntimos,
Os que ocupam o topo da hierarquia dos afectos.
Aprendemos cedo os lugares do mundo, das coisas, das pessoas,
Os teatros medidos dos gestos.
A casa resta no seu conforto urbano de classe média,
A elegância de varandas viradas para o Tejo
E de grandes salas luminosas e bem iluminadas
Onde pacientemente esperamos as visitas do almoço.
sexta-feira, maio 11, 2012
Lisboa Triste
Às vezes esta cidade sem gente, sem coisas.
Esta rua que desce com varandas velhas e telhados abatendo.
Esta gente triste que aqui mora e o seu gesto ritual
Pendurando peças de roupa na corda.
Uma vida de dedos cruzados, este pateo traseiro
Por onde rebentam as ervas daninhas.
Depois esta cidade d'ausência que nos faz crescer
O vazio enquanto nos afaga e diz boa-noite.
A Lisboa dura das pedras. emprestada por horas
Ao cansaço suburbano,
Mas que nos cai sempre na alma
E nos engana de mansinho.
Esta rua que desce com varandas velhas e telhados abatendo.
Esta gente triste que aqui mora e o seu gesto ritual
Pendurando peças de roupa na corda.
Uma vida de dedos cruzados, este pateo traseiro
Por onde rebentam as ervas daninhas.
Depois esta cidade d'ausência que nos faz crescer
O vazio enquanto nos afaga e diz boa-noite.
A Lisboa dura das pedras. emprestada por horas
Ao cansaço suburbano,
Mas que nos cai sempre na alma
E nos engana de mansinho.
sexta-feira, janeiro 27, 2012
O Quarto
para a avó
Depois que morreu, desfizeram-lhe o quarto.
Mudaram a colcha (agora guardada num baú do quarto de arrumos) e
Fizeram a cama de lavado.
Um a um, despregaram da parede os quadros dos santos à cabeceira.
Levaram para outras prateleiras, umas longe da casa,
As hagiografias da pequena estante de vimes ao canto.
Abriram os armários.
Primeiro chamaram as filhas, depois as noras, depois as netas, por fim as criadas.
Dividiram a sua roupa e deram o que cresceu aos pobres.
Empilharam as caixas que estavam no toucador, agora esvaziadas,
E como tinha dito, cada mulher do seu sangue recebeu uma jóia.
Com gravidade mandaram a escrivaninha para a casa de restauro
Prometendo mantê-la como peça de família,
Herança de disputa entre aqueles que a quisessem.
Até a velha cadeira de vimes junto à janela, onde antes fazia costura,
Está agora no jardim para que, sentados, a possamos lembrar em dias de sol.
Os homens da casa instalaram depois o escadote de ferro
E fizeram descer as cortinas azuis de folhos brancos.
Limparam-se as gavetas, distribuíram-se os terços, mudou-se a cómoda alta
E eu fiquei com o crucifixo do antigo oratório que tinha vindo em panos de linho
Pelas mãos da avó Maria Augusta.
Abrimos as cartas que eram para ler. E lemos. Ficámos muitas horas deitados
Na cama velha lendo uns aos outros pequenos bocados que nos
Apanhavam a atenção.
Houve silêncio.
A casa era este retrato físico de ausência.
Era uma coisa indizível em todas as gargantas.
Chorámos e mandámos dizer missa em igrejas da cidade.
Continuámos a amar.
Depois fomos felizes.
Depois que morreu, desfizeram-lhe o quarto.
Mudaram a colcha (agora guardada num baú do quarto de arrumos) e
Fizeram a cama de lavado.
Um a um, despregaram da parede os quadros dos santos à cabeceira.
Levaram para outras prateleiras, umas longe da casa,
As hagiografias da pequena estante de vimes ao canto.
Abriram os armários.
Primeiro chamaram as filhas, depois as noras, depois as netas, por fim as criadas.
Dividiram a sua roupa e deram o que cresceu aos pobres.
Empilharam as caixas que estavam no toucador, agora esvaziadas,
E como tinha dito, cada mulher do seu sangue recebeu uma jóia.
Com gravidade mandaram a escrivaninha para a casa de restauro
Prometendo mantê-la como peça de família,
Herança de disputa entre aqueles que a quisessem.
Até a velha cadeira de vimes junto à janela, onde antes fazia costura,
Está agora no jardim para que, sentados, a possamos lembrar em dias de sol.
Os homens da casa instalaram depois o escadote de ferro
E fizeram descer as cortinas azuis de folhos brancos.
Limparam-se as gavetas, distribuíram-se os terços, mudou-se a cómoda alta
E eu fiquei com o crucifixo do antigo oratório que tinha vindo em panos de linho
Pelas mãos da avó Maria Augusta.
Abrimos as cartas que eram para ler. E lemos. Ficámos muitas horas deitados
Na cama velha lendo uns aos outros pequenos bocados que nos
Apanhavam a atenção.
Houve silêncio.
A casa era este retrato físico de ausência.
Era uma coisa indizível em todas as gargantas.
Chorámos e mandámos dizer missa em igrejas da cidade.
Continuámos a amar.
Depois fomos felizes.
sexta-feira, dezembro 23, 2011
sábado, dezembro 10, 2011
Natal
Pequena medida certa para todas as coisas.
Sítio da casa. Um jardim de
Pequenos seixos. As mãos enrolando
Arduamente
Os dedos,
as peças,
o jogo,
as palavras.
Era aquela morte lenta e súbita
Do espanto com que entendíamos
Os dias.
Foi Outono,
depois houve tarde.
Tu sentavas-te no balcão
E bebias chá de jasmim com pó de canela.
Lá dentro era um segredo.
A casa ordenava uma a uma
As coisas ordinárias e quotidianas.
Houve esta tarde de comboios
Rápidos e ultra-sons.
Houve esta tarde de risos,
licor,
amigos,
compotas.
As panelas eram mexidas
Em intervalos exactos
De 2 horas,
Uma calda doce escorrendo
Com a eternidade do mundo
Pela colher de pau.
Às vezes abríamos a janela
E o frio entrava.
Gostavas de deixar as bochechas congelarem
Equilibrando-te com os pés em bico no
Degrau da varanda.
Vivíamos na cozinha.
Debaixo da pedra preta da chaminé
Tinhamos feito instalar o fogão
Como numa sala de trono.
Vivíamos para aquele espaço,
naquele espaço,
durante este espaço.
Os amigos chegavam.
Com que habilidade pares de mãos
Se juntavam para colocar os talheres
Numa ordem premeditada
Muito tempo antes nos palácios
D'el-rey de França.
Bebíamos por copos de cristal
E por isso éramos inevitavelmente chiques,
elegantes,
alegres,
sofisticados.
Dizias: - Somos nós que temos
O monopólio do bom gosto.
Mexíamos pequenas peças nos tabuleiros
Preparados de ante-mão.
Passávamos o tempo,
além do tempo,
sem contar o tempo.
Uma jogada calculada na exactidão
Das suas consequências.
Também fizeram a árvore de Natal,
Decorada das coisas que havíamos comprado
Em Paris, no outro inverno.
Foi naquele dia em que corremos as ruas
De Vaugirard
Entre os mercados de peixe com ostras sobre o gelo
Buscando perfeitos enfeites de vidro.
A cidade profundamente fria.
E os centros comerciais cantando
Músicas americanas do Natal.
O Natal nasceu afinal nos Estados Unidos
Nas fábricas da Coca-cola.
Nós bebemos chocolate quente
Nos cafés de Lisboa
Que servem brunch ao fim de semana.
Porque somos urbanos, internacionais
E porque fingimos ver nas Amoreiras
O Empire State Building.
Voltamos a casa
E despejamos no cabide da entrada
Um exército de casacos,
lãs,
cachecóis.
pull-overs.
Enquanto,
Amontoas pedaços de lenha
Com que enches a lareira
Agora crepitante,
Os pés enrolados nos meus,
Os pratos na mesa com restos de bacalhau
E agora adormecemos juntos
Antes que o Menino Jesus traga
Os nossos presentes.
sexta-feira, outubro 28, 2011
sábado, setembro 10, 2011
Ritual
Como se das ondas um campo trigado.
Tuas mãos côncavas em alegre seara.
Um jeito de correr, corpo molhado,
Coleccionando as espigas da estrada.
De tarde nunca falavas.
Tisnado do sol, aquele banho
Era o ritual de outras coisas.
Tuas mãos côncavas em alegre seara.
Um jeito de correr, corpo molhado,
Coleccionando as espigas da estrada.
De tarde nunca falavas.
Tisnado do sol, aquele banho
Era o ritual de outras coisas.
No meu regresso
Quantas vezes isto houve no meu regresso?
Deixa que aconteça- o poema
Dir-se-á até ao final.
Era assim que lhes falavam
Os antigos chefes das tribos.
Os homens dançavam uma
Dança de barro.
Chamavam-lhe início.
Depois foi de dia...
Deixa que aconteça- o poema
Dir-se-á até ao final.
Era assim que lhes falavam
Os antigos chefes das tribos.
Os homens dançavam uma
Dança de barro.
Chamavam-lhe início.
Depois foi de dia...
quinta-feira, setembro 01, 2011
Praia
à avó Nicha, essência da minha infância
Naqueles dias-
O vento soprava sempre
Porque éramos velozes a abrir as janelas
E a fazer a cabeça espreitar de fora
Contra as vozes irritadiças das mães
"Ponha já a cabeça para dentro".
Quase não abríamos os olhos, rasgados como um chinês,
Mas tudo era sentir e saber,
A mão inclinada daquela maneira que o tio ensinou
E que não causa atrito.
O vento forte.
Toalhas estendidas longas na praia, banhos de mar e seixos rolantes.
"Cuidado que o mar hoje puxa"
Aquela onda que vinha debaixo da outra e depois eu não vi
Deve ser assim um pateo branco e quadrado
Era a voz da mãe aflita e a mão forte de todas as mãe aflitas
Já não estava dentro de água tinha só o corpo molhado
E um raspanete valente a zumbir nos ouvidos.
Brincadeiras e rochas, pernas esfoladas
"Viu que saltei da pedra grande, mãe?
Foi tão bom- agora não há mais medo, hei-de sempre lá ir"
Queria sentir outra vez o corpo a entrar
A água gelada e depois sabia onde ficava cada osso
Certinhos todos os duzentos e seis.
Hoje ninguém quer comer "faça sandes para levar"
Come-se ali no bar da praia.
Mas não que demora muito tempo,
Esperamos três horas e isso não podemos
Que não queremos deixar de ir ao mar
Mostrar aos grandes que sabemos dar mergulhos, furar ondas
E que não temos medo porque ontem a mamã viu-nos
Pular da pedra grande.
Há tarde sabe melhor "protector na cara, já"
Era aquela pasta pelos olhos, os beiços bem para dentro
Para nem provar
"Estou branco, estou branco?"
"Pareces um E.T."
Risada pelo calhau que se ouvia em todo o lado.
Pastas e pastas de protector e depois era aquele saquinho
Champo e gel
Rápido para os duches
"Eu sou o primeiro"
"Ui, que gela, mal posso cá estar"
"Só aguentamos na praia, est'água assim tão gelada"
(anos a seguir vieram os senhores e proibiram aqueles banhos
e nunca mais tomámos duche ao canto da praia e viamos o por-do-dol
e dizíamos "ai que lindo!")
"Siga já para casa d'avó. Lá ficamos à espera"
Toca a subir essa calçada feita de calhau, vila acima,
Aqui é só escadas
"Um beijo a Nossa Senhora da Luz"
"Mas entrar assim na igreja- molhados e de calções?"
"Nosso Senhora não se zanga, quer é beijinhos que Ela ouve mais
A quem é mais pequeno".
Corre, corre a ver quem chega primeiro
"Deixe os patos da ribeira, vamos indo"
Hoje os patos têm todos penas
Não era como naquele dia das estórias
Que as penas estavam na casa das tias velhas e não nos patos
Coitadinhos, que os patos também sofrem para nós termos nossos milagres.
A bexiga aperta tanto e só há uma retrete.
"Vamos contar piadas, a ver se passa o tempo"
"Um de cada vez para irmos todos"
"Eu primeiro e tu depois"
Esparramados no caramanchão da sala
Tão cansados do banho e dos mergulhos e do mar que não tem fim
E aquele que se'nrolou e aquele que saltou da pedra
Agora os grandes já sabem como eles mergulham
"P'ró ano ainda está mais crescido"
Vamos com estórias para contar, tantas quando chegarmos a casa
Tudo a rir enquanto janta.
Era assim ser feliz sem saber, mas lá no fundo sabendo
Quando o verão era verão
A praia era calhau
E todos que deviam por lá estavam.
Naqueles dias-
O vento soprava sempre
Porque éramos velozes a abrir as janelas
E a fazer a cabeça espreitar de fora
Contra as vozes irritadiças das mães
"Ponha já a cabeça para dentro".
Quase não abríamos os olhos, rasgados como um chinês,
Mas tudo era sentir e saber,
A mão inclinada daquela maneira que o tio ensinou
E que não causa atrito.
O vento forte.
Toalhas estendidas longas na praia, banhos de mar e seixos rolantes.
"Cuidado que o mar hoje puxa"
Aquela onda que vinha debaixo da outra e depois eu não vi
Deve ser assim um pateo branco e quadrado
Era a voz da mãe aflita e a mão forte de todas as mãe aflitas
Já não estava dentro de água tinha só o corpo molhado
E um raspanete valente a zumbir nos ouvidos.
Brincadeiras e rochas, pernas esfoladas
"Viu que saltei da pedra grande, mãe?
Foi tão bom- agora não há mais medo, hei-de sempre lá ir"
Queria sentir outra vez o corpo a entrar
A água gelada e depois sabia onde ficava cada osso
Certinhos todos os duzentos e seis.
Hoje ninguém quer comer "faça sandes para levar"
Come-se ali no bar da praia.
Mas não que demora muito tempo,
Esperamos três horas e isso não podemos
Que não queremos deixar de ir ao mar
Mostrar aos grandes que sabemos dar mergulhos, furar ondas
E que não temos medo porque ontem a mamã viu-nos
Pular da pedra grande.
Há tarde sabe melhor "protector na cara, já"
Era aquela pasta pelos olhos, os beiços bem para dentro
Para nem provar
"Estou branco, estou branco?"
"Pareces um E.T."
Risada pelo calhau que se ouvia em todo o lado.
Pastas e pastas de protector e depois era aquele saquinho
Champo e gel
Rápido para os duches
"Eu sou o primeiro"
"Ui, que gela, mal posso cá estar"
"Só aguentamos na praia, est'água assim tão gelada"
(anos a seguir vieram os senhores e proibiram aqueles banhos
e nunca mais tomámos duche ao canto da praia e viamos o por-do-dol
e dizíamos "ai que lindo!")
"Siga já para casa d'avó. Lá ficamos à espera"
Toca a subir essa calçada feita de calhau, vila acima,
Aqui é só escadas
"Um beijo a Nossa Senhora da Luz"
"Mas entrar assim na igreja- molhados e de calções?"
"Nosso Senhora não se zanga, quer é beijinhos que Ela ouve mais
A quem é mais pequeno".
Corre, corre a ver quem chega primeiro
"Deixe os patos da ribeira, vamos indo"
Hoje os patos têm todos penas
Não era como naquele dia das estórias
Que as penas estavam na casa das tias velhas e não nos patos
Coitadinhos, que os patos também sofrem para nós termos nossos milagres.
A bexiga aperta tanto e só há uma retrete.
"Vamos contar piadas, a ver se passa o tempo"
"Um de cada vez para irmos todos"
"Eu primeiro e tu depois"
Esparramados no caramanchão da sala
Tão cansados do banho e dos mergulhos e do mar que não tem fim
E aquele que se'nrolou e aquele que saltou da pedra
Agora os grandes já sabem como eles mergulham
"P'ró ano ainda está mais crescido"
Vamos com estórias para contar, tantas quando chegarmos a casa
Tudo a rir enquanto janta.
Era assim ser feliz sem saber, mas lá no fundo sabendo
Quando o verão era verão
A praia era calhau
E todos que deviam por lá estavam.
terça-feira, maio 03, 2011
D
Pour lui
Como o deus dos toiros naquela manhã
Assim as coisas aconteciam surpreendentemente.
Amar era fácil como o sumo das nespras
Escorrendo-nos pelos beiços.
Tu dizias Verde e era uma primavera feita de andorinhas,
Rios, flores silvestres e pequenas casas caiadas dispersas nos montes.
Era de manhã muito cedo.
Nos lençóis de ontem os meus dedos encontravam caminhos
Pelos teus cabelos
Cavalos que de súbito surgissem em geografia desconhecida.
O mar muitas vezes, quase todas.
Depois as tardes de passeio e os gelados lambidos sofregamente
À beira-Tejo ou beira-cidade.
A nossa casa na Rua do Alecrim tinha um pateo traseiro de azulejos
Onde Lisboa era uma nova cidade,
Secreta e segura,
Só nossa como os macarrons coloridos que comíamos às cinco da tarde.
Tu eras sempre leve e homem
E isso parecia bastar-me na iminência dos dias sucedidos.
Usavas muitas vezes as calças de linho branco do verão passado
Que eu engomava na tábua colocada sobre as pedras do pateo.
Um lugar onde havia sol e mais tarde luz
E também flores e árvores pequeninas.
O teu corpo sentava-se muitas vezes naquela cadeira de vime que tínhamos
Largada na varanda que dava para dentro.
Era comum leres. Eram tardes inteiras de poesia.
Lias sempre alto, como ainda hoje lês,
Porque era primavera e o inverno havia passado
Ao que nos pareciam muitos meses
Como se tivessem acontecido vários anos sem inverno,
Mas apenas de primavera.
Se nos esticássemos nos varandins fronteiros conseguíamos olhar o rio.
O teu corpo enroscava-se muitas vezes no ferro forjado e frio dos varandins
E suportavas o teu peso com os abdominais tesos e duros.
Ríamos muito nessas tardes
Porque tu encontravas sempre particularidades engraçadas nos barcos que
Víamos passar ao fundo.
Hoje ainda somos felizes, mesmo quando o Inverno parece durar há mais de dez estações,
Porque de manhã o nosso pateo tem sol
E quando acordas muito cedo eu escorrego os meus dedos pelos teus cabelos
Cavalos em encontradas geografias.
Como o deus dos toiros naquela manhã
Assim as coisas aconteciam surpreendentemente.
Amar era fácil como o sumo das nespras
Escorrendo-nos pelos beiços.
Tu dizias Verde e era uma primavera feita de andorinhas,
Rios, flores silvestres e pequenas casas caiadas dispersas nos montes.
Era de manhã muito cedo.
Nos lençóis de ontem os meus dedos encontravam caminhos
Pelos teus cabelos
Cavalos que de súbito surgissem em geografia desconhecida.
O mar muitas vezes, quase todas.
Depois as tardes de passeio e os gelados lambidos sofregamente
À beira-Tejo ou beira-cidade.
A nossa casa na Rua do Alecrim tinha um pateo traseiro de azulejos
Onde Lisboa era uma nova cidade,
Secreta e segura,
Só nossa como os macarrons coloridos que comíamos às cinco da tarde.
Tu eras sempre leve e homem
E isso parecia bastar-me na iminência dos dias sucedidos.
Usavas muitas vezes as calças de linho branco do verão passado
Que eu engomava na tábua colocada sobre as pedras do pateo.
Um lugar onde havia sol e mais tarde luz
E também flores e árvores pequeninas.
O teu corpo sentava-se muitas vezes naquela cadeira de vime que tínhamos
Largada na varanda que dava para dentro.
Era comum leres. Eram tardes inteiras de poesia.
Lias sempre alto, como ainda hoje lês,
Porque era primavera e o inverno havia passado
Ao que nos pareciam muitos meses
Como se tivessem acontecido vários anos sem inverno,
Mas apenas de primavera.
Se nos esticássemos nos varandins fronteiros conseguíamos olhar o rio.
O teu corpo enroscava-se muitas vezes no ferro forjado e frio dos varandins
E suportavas o teu peso com os abdominais tesos e duros.
Ríamos muito nessas tardes
Porque tu encontravas sempre particularidades engraçadas nos barcos que
Víamos passar ao fundo.
Hoje ainda somos felizes, mesmo quando o Inverno parece durar há mais de dez estações,
Porque de manhã o nosso pateo tem sol
E quando acordas muito cedo eu escorrego os meus dedos pelos teus cabelos
Cavalos em encontradas geografias.
quarta-feira, março 23, 2011
Lisboa-Azulejo
Lisboa e suas ruas de azulejos,
Lisboa e suas tardes de turistas,
Lisboa centro da vida,
Descendo invariavelmente para o Tejo.
Lisboa e suas tardes de turistas,
Lisboa centro da vida,
Descendo invariavelmente para o Tejo.
Corpo-Tejo
O corpo jamais percorrido,
Depois o Tejo- sem ondas, sem barcos,
Como a rua estreita que caminha para cima
E nada de si mesma guarda.
Depois o Tejo- sem ondas, sem barcos,
Como a rua estreita que caminha para cima
E nada de si mesma guarda.
Subscrever:
Mensagens (Atom)