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sexta-feira, março 09, 2012

Gustavo (talvez IV)

Chegou, abeirou-se da estante da sala, escolheu um livro e seguiu para o quarto. Lembrou-se que a incoerência faz de nós seres fantásticos. Levantou o casaco caído no chão e, junto com o seu, pendurou-os em dois cabides junto à porta. Entrou no escritório, abeirou-se da estante, escolheu um livro. Sentou-se na cadeira de palhinha da Tia Bé.

O sorriso. Depois lembrarem-se de tantas coisas passadas juntos. Felizes, como se tivesse sido sempre assim. Esticou os pés em pontos de maneira a afundá-los completamente debaixo das cobertas. Tudo era diferente e estava tudo bem. Como é que podia ser? Ele que tinha ouvido horas e horas de lamúrias. "Um palerma, um frouxo, um incapaz." Estava bem capacitado o incapaz- boa conversa, grandes sorrisos. O sorriso. E como eles sorriam...

Fechou o livro. Levantou-se, correu as cortinas, baixou os estores, passou à sala, ajeitou as almofadas do sofá, tirou os discos que estavam na aparelhagem e no leitor de DVD's, esticou as pontas do tapete, ajeitou as revistas na mesa de centro. Ia passar à casa de jantar. Ele era sempre tão confiante. Entre os dois não havia dúvidas. Os amigos notavam, as irmãs dele notavam. Um dia até a mãe lho tinha dito. Ele era a parte cheia de segurança deles os dois. Já ele, mais sumido em quase tudo, pouco se dava pela confiança que tinha em si mesmo.

Irritavam-no os sapatos ridículos de berloque e que alguém com menos de trinta anos pudesse jantar com abotoaduras de punho. A camisa engomadíssima, o fato de corte italiano. O exagero, o barroquismo. Um lenço de pescoço- de facto só um palerma se lembra de usar com vinte e oito anos o mesmo acessório que o seu avô. Mas era mais que isso. A mão dada ao namorado. "Nunca me deu sequer a mão em público. Uma vez fui jogado escadas abaixo n'"A Brasileira" só para não nos verem juntos." Ali todos os viam juntos. Ele até queria que os vissem juntos.

As gaiolas. Na marquise azul da cozinha. Chá. Um bocado de leite. Duas colheres de açúcar. Três. Era normal, afinal. Eles nunca se tinham visto. Ele mesmo não o havia há eternidades. E depois de tudo o que ele tinha dito dele. Mas ainda assim. Era de mais. Um exagero. Um amuo por encontrar o ex-namorado feliz e contente com o namorado de agora. E ele estava tão bem. Tinha gostado tanto de o ver. Geoffroy também parecia ser bem simpático. Estava a adorar Lisboa.

Entrou no quarto. Vestiu o pijama. Deitou-se esticando os pés para os afundar debaixo dos cobertores.
- É perfeitamente normal. Não sei porque é que ficaste assim.
- Não gostei. Também posso não gostar.
- Sabes que não sou eu deitado na cama dele hoje à noite, não sabes?
(não podia deixar de sorrir)
- Sim, sei. Agora que dizes isso. Sim sei, sei mesmo. Não estás pois, não? (enquanto fazia um ar agradado de espanto). Chega-te aqui. (o braço por cima do ombro.
- Vais ler-me uma estória de embalar?
- Queres?
- Porque não?

segunda-feira, novembro 21, 2011

O meu amigo Q

Para Q, de quem já tinha saudades


O meu amigo Q voltou. Andou lá por fora e voltou. Foi "viajar, perder países", porque o Q é um homem mais que moderno- urbano. Q tem um apartamento novo num edifício antigo que decorou com cuidado e gosto. Nada é por acaso nos metros quadrados da casa do Q à excepção dos cocós do cão, que de resto já nunca se vêem. Como homem urbano Q veste bem. Tem uma colecção imensa de camisas penduradas em cabides apoiados nos puxadores das quatro portas da casa. Na verdade, Q tem tanto gosto e tanta roupa que não dorme num quarto, mas num walk-in closet. A acompanhar a roupa Q tem uma colecção admirável de acessórios: um cão lindo e eléctrico; um namorado super divertido; uma irmã fabulosamente elegante e que anda sempre tão bem vestida como ele; amigas engraçadas, giras e bem-dispostas que compõem imenso o quadro. Q tem uma família que adora, cresceu na verdadeira Alta de Lisboa (o triângulo Campo de Ourique-Amoreiras-Campolide) e é um homem educado. Tem um belo emprego e vai para o escritório num óptimo carro que é da empresa. Q gosta de moda, não vê programas parvos na tv, papa séries pela net, tem uma estante com livros do Pedro Paixão por baixo dos livros do Harry Potter e organiza jantares de aniversário no Bar do Peixe em Novembro porque toda a gente com gosto sabe que estar na praia (nunca ir à praia) no Inverno enrolado em camisolões é imenso chique. De Q pode dizer-se que tem alma de pássaro e por isso podia bem ser uma personagem dum romance de Margarida Rebelo Pinto.



De Q pode dizer-se isto, mas dirá quem não o conhece. Q é um amigo. Q andou por fora e nós não andámos mais tristes, mas por certo andámos menos alegres. E percebemos isso quando ele voltou. Q deixa-nos alegres e sempre com muitas gargalhadas na boca. Porque o meu amigo Q tem isso com ele- ele faz bem aos outros, faz genuinamente bem aos outros. Como é que ele faz isso não sei. Tão pouco acho que ele mesmo o saiba. Mas fá-lo melhor que toda a gente que conheço. Mesmo quando Q está sério, está alegre, mesmo quando está triste está ainda assim alegre. Isto não quer dizer que Q seja um tolo. Quer dizer que eu acho que Q é uma pessoa genuinamente alegre a quem o sorriso sai sem esforço porque a vida lhe dá razões para isso. Na vida de Q também deve haver chuva, dias em que o café se entorna nas calças, conversas desagradáveis e decisões difíceis, mas a sua alegria sobrepõe-se a isso. Eu e Q não somos os amigos mais íntimos, não partilhamos segredos, não trocamos confidencias. Eu e Q somos amigos e Q faz-me bem. E eu e já tinha mesmo saudades e ele voltou e faz-me mesmo bem!

segunda-feira, maio 23, 2011

Fragmentum Gustaui

Aquela cadeira tinha sido restaurada pela tia Bé. Era uma cadeira velha e de vime onde Gustavo gostava de sentar-se quando, era ainda miúdo, passava tardes no terraço da casa das Azinhagas do Mar a ver as ondas lamberem a encosta. Na altura da mudança do Artur a tia Bé tinha-a restaurado e oferecido ao casal. Gustavo soubera logo que ia ficar na marquise de ferro azul. Era uma pequena marquise de muitos vidros pequenos e quadrados e de ferro forjado azul que ligava por fora o escritório e a sala. Era ali, que nos crepúsculos já quentes de Maio Gustavo se sentava a ler. Tinha sempre ânsias de coisas bucólicas, como as saudades de um campo onde nunca tivesse tido uma infância. Como se o pateo ajardinado em baixo o fizesse pensar em montanhas e cozinhas impregnadas do cheiro axaropado das compotas em líquido ainda quente. Isto dava-lhe paz e deixava-o calmo. Pousava na mesa ao lado uma grande caneca com uma infusão de menta e hortelã. Esperava que arrefecesse e depois tragava em grandes goles até ao fundo. Lia à espera do efeito que chegava sempre: uma camada gentil e ligeira de suor refrescava todo o corpo. Depois, gostava ainda de abrir a palma da mão e espalmá-la contra as paredes curtas e férreas da marquise- o ferro eternamente frio em todos os seus cinco dedos. Eram tardes sem Lisboa e sem pessoas como se o mundo acontecesse num dos seus livros bucólicos de belas capas velhas de alfarrabista.

quinta-feira, março 31, 2011

A casa dos ricos

Era uma coisa estranha- a casa dos ricos. Os móveis eram bonitos e caros; as paredes mostravam quadros que nos faziam acreditar um gosto soberbo; e nas casas de banho havia pequenas toalhas individuais que depois de usadas deitavam-se num cesto estratègicamente colocado debaixo do lava-mãos. Mas o mais impressionante era que os ricos tinham no terraço grandes sofás de pano e tapetes por debaixo deles. Certo dia, contudo, descobriu que aos ricos as casas também custam a manter: durante o Inverno os móveis do terraço cobriam-se com grandes protecções de plástico, porque afinal os móveis dos ricos também se sujam e apanham chuva. Mas o mais engraçado de tudo é que em dias de sol punha-se no terraço, como em qualquer varanda suburbana, um estendal articulado onde, entre outras peças, coravam as cuecas brancas.

quarta-feira, março 16, 2011

A marquise e as gaiolas

à Tia Lil

Eram seis da manhã quando atravessava o Príncipe Real. Lisboa ainda sem gente, mas já com sol. Maio. É como dizer que nasciam flores no jardim e mais à frente nas roseiras que plantaram no miradouro.

O Tio Raoul tinha aqui uma casa quando eu era pequeno. Era um apartamento antigo da rua da Escola Politécnica. Tinha um quarto interior, com uma janela interior. Ai era a casa de jantar. Isto era um fascínio.

Havia também uma marquise de ferro azul que dava para o pateo traseiro do prédio. Há um único pateo para os prédios da rua da Escola Politécnica que se estende do Museu de Ciência ao palacete Ribeiro da Cunha. Por isso é demasiado grande para ser um pateo e demasiado seco para ser um jardim. É um quintal?


O Tio Raoul tinha gaiolas na marquise e dentro delas tinha piriquitos coloridos. Todos tinham nome e eu não lembro do nome de nenhum. Os piriquitos nunca me fascinaram. Mas as gaiolas.

Eram 6h45 quando cheguei ao meu apartamento em Campo de Ourique. Tenho uma casa pequena pela qual pago muito dinheiro. Pelo menos é muito face ao seu tamanho que é apenas razoável. O meu quarto é quase do tamanho da sala e as janelas fazem um marquise. Não tenho mais nada no quarto: uma cama de casal, duas mesas de cabeceira e vinte e sete gaiolas de todos os tamanhos e formas dispostas ao longo da marquise do quarto.

Lembram-me o Tio Raoul que era um tio de que não gostava particularmente. Gostava da sua casa, fascinavam-me as suas gaiolas. Das vinte e sete que tenho, catorze são dele. Todas as que guardavam piriquitos coloridos na marquise de ferro azul.

Amanhã vou ao banco, depois à imobiliária e vou mandar tirar o cartaz que diz "Vende-se" e por outro que diga "Vendido" no apartamento da rua da Escola Politécnica. Já não aguento mais não guardar as minhas gaiolas naquela marquise de ferro azul.

terça-feira, dezembro 21, 2010

Tríptico

Renata ficou espantada. Não se tratava dum questão de gestos, até porque restava quase imóvel. A imagem que o espelho lhe devolvia era uma incógnita aliciante. No quarto pequeno da Calçada de Santana continuava nua frente ao reflexo espremida entre a cama e o espelho. O que era, não sabia.
*
Aquilo provava-lhe que, apesar de tudo, era um homem e mais que isso um homem da sua família. No quarto da avó Laura, decorado com cortinas azul-claro e com folhos brancos, a telefonia, parada na Rádio Renascença, deitava as orações de Avé-Marias e Padre-Nossos que eles depois repetiam. Primeiro ele, em voz clara e grossa, depois as duas velhas num discurso mais sumido e disconexo. Aquelas mulheres já tão velhas, naquele quarto que era quase um oratório, e era ele que liderava as orações, porque ele era um homem da família.
*
Teresa adorava a sala cor de rosa. A primeira coisa que fazia era esfregar-se no tecido fino da senhorinha mais encostada à porta. Ficava ali sentada muito tempo admirando os retratos da avó Filomena e do avô Vasco. Os retratos caiam da parede, ligeiramente inclinados como antes se usou. Sem nunca ter aprendido, levantava depois a tampa pesada e preta do piano e passava os dedos pelas teclas cada vez mais desafinadas. Depois seguia as filas decoradas de parentes mortos nas fotografias a preto e branco. Fechava os olhos e sonhava com vidas que nunca viria a ter.

terça-feira, outubro 26, 2010

Ensaio em Gustavo

Como Gustavo conheceu Artur perto da perda de (um) Salvador mesquinho e de esquinas. De todas e tantas ruas- traçado geométrico do Bairro Alto. Fadista de encantos fanados. Como esta porta por onde entraram como se ainda agora mesmo os tivesse visto. E a correr- sobe e desce as ruas cheias de gente onde só estão eles- Artur e Gustavo. Dançando, dançando, dançando. Dancin' Days. Como mais uma novela barata- é assim que justamente os imagino, comos os entendo, como em verdade os escrevo e crio. Depois um beijo, dois três quatro cinco. Muitas línguas. Em palavras cifradas que na minha cabeça dizem um ao outro como se os visse, os ouvisse dizerem piropos banais um ao outro, piropos que numa outra realidade (como fora a deles criada por mim) funcionariam de facto. Aumento o já previsto, o visto de antes mais pela frente que dor detrás. De todas as coisas que vivem- agora manhã, um jipe- rumo à Peninha. O nascer do sol, um rumo de associações fáceis. O mistério, absolutamente inalcansável nestas palavras, em quase tudo o que escrevo. E ele, Artur, todo debruçado, todo misterioso sobre o inexistente Gustavo confessando o amor duma noite no cenário idílico onde só falta que a minha escrita tivesse qualquer qualidade.

quinta-feira, julho 22, 2010

A Cidade

Esta cidade de prédios altos.

Como as praças, espectacularmente grandes, onde leio os outdoors distribuídos. Casa fica em todo o lado- desde as avenidas vivas aos becos de má morte logo ali ao canto.

Aquela mulher mora aqui. É fantasticamente bela. Usa um vestido elegante de griffe e um perfume assinado por um couturier de Paris. Para falar sobre ela escreveria muitas palavras em itálico onde estariam todos os galicismos que ela usa. É chique, como se diz.

Aquela mulher nunca apanha o metro. As estações meio sujas e defectas. As pessoas suburbanas e pendulares. E é tão complicado usar uma máquina de bilhetes. É que estragam as unhas de gel.

Às vezes a cidade tem casas antigas. Lá dentro fazem-se fotografias de moda. Os salões rocaille ficaram subitamente todos brancos e vazios. É assim que hoje se fotografa a moda. A moda da cidade é branca e preta, mas sempre clean.

Os autocarros não são nada cleans. Nunca vão estar na moda. No Inverno são particularmente molhados e de Verão são abrasivamente quentes. Os autocarros nunca param mais que três segundos e vinte décimas nos bairros elegantes da cidade. Tanto nos que têm casas antigas, como os que têm penthouses modernaças.

Os cafés do Uptown são elegantes. Servem macarons franceses de diversas cores e scones com manteiga derretida. As bocas dão trincas muito leves e muito curtas. Aqui debica-se.

Nos bairros da classe média a crise abica-se. Come-se à fartazana nos fast-food logo assim que se sai dos ginásios imitados dum Holmes Place. Há sundaes entupidos de chocolate para os mais gulosos e chantilly que chegue para todos. Têm a cara enfiada na comida e a bocarra sempre aberta.

Os prédios distinguem-se entre agradáveis apartamentos ou atarefados escritórios. Ali vive-se, aqui trabalha-se. Desfruta-se mais daqui, do que dali, no entanto. Os arquitectos fizeram prédios todos de vidro e escreveram sobre teorias novas. Agora as pessoas podem viver em casa e no escritório. Os prédios já são todos iguais.

Passam os carros de luxo, os autocarros, os táxis, os eléctricos, as carrinhas, as vans, os cabriolés, os comerciais, os modelos mais baratos e os caros e os assim-assim, todos com rodas e motores e buzinas. Todos a produzirem som, muito som, enfurecedoramente som. O som de cada rua e prédio da cidade desde as avenidas vivas até cada beco de má morte.

domingo, março 14, 2010

Verão

Quando era novo e havia dias de sol, descia sozinho até ao calhau. A vila era o espaço da primeira liberdade. Conhecia as escadas, os caminhos e entrava nas casas que deixavam as portas abertas. Quando chegava ao calhau estendia a toalha. Havia sempre alguém no calhau. Na vila todos se conhecem. O corpo ficava levemente estendido ao sol, salgado de banhos longos e ondas perfuradas. Tudo era tranquilo.

Ainda hoje procuro um estrado onde deitar a toalha e esticar o corpo ao sol no calhau. Olhar o mar que chega até às cidades e deixar-me ser feliz por ainda não lá estar. Hoje já não tenho a minha namoradinha dos sete anos e em muitas das casas as portas fecharam-se porque as pessoas morreram. Mas ainda há portas abertas por onde se pode entrar.

A ilha da Memória jaz eterna na Infância.

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Caleidoscópio

Fujo a cada impulso criador. Às vezes, por exemplo, estou parado em algum sítio... imagina a esplanada dum shopping dum subúrbio de Lisboa. Estou sentado, é Inverno, e apesar do frio o sol é quente que chegue para me espreguiçar na cadeira e lamentar não haver espreguiçadeiras. À minha frente há o barulho forte da auto-estrada que é o barulho mais lindo deste tempo. Tudo devia ser como a auto-estrada: veloz, moderno, eficiente e sem possibilidade de voltar atrás. Depois é assim, vês? Começo logo a divagar. A pensar muitas coisas. Quando estou sozinho penso porque acho que é o que as pessoas fazem quando estão sozinhas.

Mas voltemos ao assunto! Não, não vou fazer literatura agora se não a fiz antes.

Eu estou sentado. O mundo moderno está aberto à minha frente. Já falei da auto-estrada. Mas há betão por todo o lado. Muitos prédios onde vivem muitas pessoas em muitas casas. Foram todas equipadas no Ikea ou na Moviflor. É só uma questão de datas. Tudo é novo. O mundo moderno só existe a sério nos subúrbios onde não existem centros históricos. Foram deitados abaixo para construir eficientes repartições de finanças. Aquilo que o sociólogo da Câmara não deixou enfiar no entulho está no museu municipal ou à porta duma biblioteca da zona (quando há alguma).

Mas vês como me perco? Divagação outra vez!

Vou resumir os factos: é Inverno, mas o sol é quente e eu estou sentado na esplanada dum shopping suburbano com o mundo moderno à minha frente. Tudo o que eu disse antes cabe aqui: sem fazer literatura!

Conquanto esteja atento a tudo isto (repara como é elegante a palavra conquanto) há uns miúdos do liceu a conversar. Há aqui muitos miúdos do liceu porque são apenas 3h da tarde. Ali, naquela mesa, são dez: contei-os. Agora levantaram-se. Agora não há quase ninguém. Eu e uma senhora ali ao fundo sentada noutra mesa a falar ao telemóvel. Ela não tem o mundo moderno à sua frente, mas compõe a visão que eu tenho do mundo moderno.

É no meio disto tudo que tenho vontade de escrever. Nada disto cabia nas páginas dum romance. Um subúrbio, miúdos do liceu no shopping, a senhora a falar ao telemóvel. Depois penso que podia ter lugar num blogue. Num desses blogues que os tipos como eu têm, os tipos que querem escrever. Esses que os tipos como tu, os que escrevem mesmo, acham risível. Só acham risível porque é uma maneira literariamente polida de dizer digno de dó. É que "digno de dó", apesar da aliteração, não é nada polido. Não é nada digno de ser literário.

É isto mesmo, vês? É sempre assim! Penso em escrever. Mas depois penso no que é escrever: em tudo o que isso quer dizer, entendes? As implicações que tem. Escrever não é para um tipo numa esplanada dum shopping suburbano a falar de auto-estradas. Deve falar da vida. De pessoas. De complexidades. Deve ser uma coisa feita, construída. Olha, maquinada, que é mesmo a palavra ideal. Então não escrevo. Não escrevo mesmo. Recuso-me! A sério. Digo para mim "Não tires daí o caderno. Não escrevas. Não consegues. Escrever não é para tipos como tu. É para tipos mesmo bons que sabem o que fazem."

Nunca falei disto a ninguém. É paralisante, sabes? Tenho estórias na minha cabeça. É tão absurdo que narro para mim certos episódios porque passo. Narro-os como se estivessem escritos num livro escrito por mim. Mas eu posso lá escrever livros. Ou blogues. Ou coisas num caderno preto que se leva na mala.

Não escrevo, é como te disse. Fico muito tempo parado ao sol. A vontade passa. Com o tempo fica mais fácil. Eduquei-me bem. Agora já nem sinto vontade de escrever.

Fico sentado a pensar em muitas coisas como fazem todas as pessoas quando estão sozinhas.

terça-feira, janeiro 19, 2010

O estado da Arte

A arte não pode ser limitada por algo tão reles como as pessoas. As pessoas são apenas cobaias da arte. A grandeza de tudo o que sentem não é senão acessório para a grandeza de tudo o que escrevo.

Outros diriam que sou desprezível. Mas o que dizem tem a importância limitada da matéria bruta para que depois eu a escreva. Se tivesse moral era um cínico. A moral serve para pôr em bons livros e dá boas tramas. Eu não tenho moral e assim tenho todas e consigo escrevê-las. Sou vazio de tudo para que tudo de desprezível que acontece às pequenas pessoas à minha volta me encha e preencha as páginas quintessências que escrevo.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Tarde alexandrina ou O Velho Criador da(s) Palavra(s)

Em Alexandria certa tarde encontrei um homem numa esquina. Não representa qualquer dificuldade encontrar um homem numa esquina numa tarde de calor em Alexandria. Descrevê-lo é desnecessário: era um homem velho igual a todos os homens velhos de Alexandria que em si são todos iguais. Não me tivesse falado teria passado por ele na busca duma sombra melhor. Mas falou-me. Adoptava um ar grave quando falava. Tinha uma voz encantadoramente pausada e cada sílaba era dita como um acto religioso. Ainda que não entendesse o que dizia (tinha um árabe demasiado dialético para mim) ouvi-lo era mágico. Cada palavra era todo a possibilidade de ser todas as palavras ao mesmo tempo. A partir de certo momento deixei de tentar descortinar sentidos ou sequer de os imaginar. As palavras diziam-se na sua boca e isso era o bastante para mim. E nos minutos em que o ouvi aquele velho foi Deus para mim, Javé num tempo ancestral criando o Mundo em que a Palavra era em si a Essência.

quinta-feira, outubro 08, 2009

Carta a um dia fascinado de Verão ou Langor d'Infância

Quero outra vez um dia de Verão. Entenda-se que não peço um dia de sol, mas sim que quero um dia de Verão.



Nos dias de Verão é mais fácil escrever: tudo é mais luminoso e tem mais vida. Podemos falar de uma cadeira de vime no alpendre e de uma almofada fofa no assento. Verde com riscas laranjas e contornos azuis. Assim, exagerada de cor. São três da tarde e o sol bate levemente por sobre o caramanchão que me dá sombra. Uma estrutura simples coberta pelo maracujaleiro em flor. Cheira! E como cheira. Três da tarde é a hora dos gatos e dos segredos. Já é insuportavelmente tarde para o almoço dum dia comum e infinitamente longe de uma hora boa para o chá. É uma hora que não existe. Na casa alguém dorme a sesta num dos quartos com as quatro paredes altas. Os tectos finamente decorados a estuque são como antigos mobiles ou clepsidras que nos fazem adormecer. Contando que nos viremos algumas vezes na cama. Podia estar a escrever, agora que estou no jardim, sentado numa cadeira de vime com uma almofada colorida por assento. Enquanto, prefiro pensar numa sesta não demasiado tranquila no quarto do fundo. O quarto do fundo é grande e branco e tem um tecto como um clepsidra como os outros quartos da casa. Mas não é isso que me atrai. Numa proporção certa a cama enfrenta a janela cuja vista se joga sobre a cidade. Continua depois no mar. Bastaria agora que me levantasse, que pisasse com os pés nús o chão morno de cantaria. Em jeito manso subiria as escadas para encontrar num instante a porta envidraçada da biblioteca. Agora caminhar no longo corredor dum silêncio impossível, feito de velha madeira rangente. A mão poisada sobre a maçaneta, rodando-a num gesto de pulso. De seguida fecho a porta e corro também as cortinas. Às três da tarde todas as luzes devem ser a meia luz. O corpo descansado sobre a cama. O tecto em clepsidra e as paredes altas e brancas e o sol por entre as cortinas leves. Meia-luz com a alma a meio-gás como se meio adormecida. E agora estou sentado na cadeira do jardim a pensar que poderia estar deitado na cama do quarto do fundo. Aí imaginaria o turpor das quatro da tarde, quando nem por um instante houvesse silêncios. As crianças a descer velozmente as escadas, aos tropeções ligeiros; o jardim muito cheio; alguém a por a mesa do lanche. E tudo isto como um preparar lento do funeral duma tarde de verão que se fecha com o ritual do chá servido quente pelas cinco.

Hoje Outubro quase vira Outono. Há ainda resistências do sol e sobretudo da luz. Agora na janela frente à estação de comboios felizes e também velozes penso- no corpo sentado na cadeira no jardim, pensando no corpo deitado na cama do quarto, imaginando a agitação que virá para preparar o final de mais uma coisa que começa. Onde estarei eu pelo mês de Agosto?

quarta-feira, outubro 07, 2009

Palas Ateneia de Rembrandt

I

Quero olhar sem nunca pestanejar até que me sequem os olhos.

(Há que começar com uma frase forte, que marque o leitor e o arrepie. O afastamento da estética pela estética produz o pensamento do leitor).

A intensidade do quadro, nas suas manchas de vermelho sangue vivo, contrastavam fortemente com o ar plácido do rapaz hermafrodito. Como se a inocência fosse arrancada num traje militar.

(Ainda o choque. Tentar ouvir o sofrimento do leitor. Jogar-lhe com manchas de tinta para cima e vê-lo sacudir-se como se salpicado de sangue).

A lança decorativa resta-lhe na mão. Na cabeça a coruja ilumina a sua sabedoria. Estranho jogo o da guerra e o do saber. Onde há um não devia haver o outro.

(Agora apela-se ao sentimento de justiça. Que o leitor sinta, e mais que isso saiba, que o que lê é boa literatura do seu tempo: cheia de ideias e valores, pronta a corrigir e carregar nos erros do passado).


II

Teria sido, certamente, capaz de restar ali por horas até que me secassem os olhos. Não, tanto não! estou ali para ver, ver sempre. Não para deixar de ver.
Queria saber se as manchas de tecido encarnado sobre a armadura dourada têm especial significado. A verdade é que não sei nada de arte. Estou aqui porque gosto de estar aqui. A estética leiga do olhar distante deste rapaz efeminado bastou para que me sentasse a vê-lo. Há outras coisas, mas são para a hora dos segredos. Em geral, a minha opinião é completamente leiga: gosto porque gosto, é há bastante que me chegue nesse gostar.

Sentado, de pé, de lado e por vezes mesmo com coragem para ser de frente olho o quadro. Depois do tempo desço as escadas depressa. Corro os placares um a um com uma calma rápida e mais que isso sedenta. Lá está! Por €3 trago-o para casa. Agora é só meu, como é de todos os outros que o pagam, compram e visitam. Olho-o com um enamoramento recém descoberto. Começo um namoro secreto com o quadro.