Na sala dos grandes retratos fico esparramado na senhorinha. Isso, essa que está mais junto ao piano. Quem o toca? Já quase ninguém.
As paredes hoje são amarelas, mas já foram cor-de-rosa. Um tom mais claro, conveniente.
São três horas da tarde (bateu há pouco o relógio do escritório): a luz entra pelas cortinas demasiado finas e deixa-nos a todos uma moleza imemorável.
Quase que adormeço.
Quando digo todos falo de mim e de todas as pessoas que estão nos retratos na sala dos grandes retratos. Falo até mesmo daquelas que estão em pequenos retratos.
Mastigo uma broa de mel demasiado dura para ser mastigada. Quando estou quase a rasgar os dentes empurro com um cálice de vinho. Beberrico.
Ao longe, embora cada vez mais perto, há vozes de crianças como em tempos houve a minha ao tempo em que era criança.
Descem o Caminho Novo. Foram ver as folhas caídas no pateo de entrada do Clube. Lá não há estações: é sempre Outono!
Alguém marca uma soma com o sete de copas e o três de paus. É arriscado. Alguém, outro alguém, avança o dez de ouros. Oh, gritos! "Era meu", dizem a rir no quarto ao lado. Ninguém tem menos de oitenta anos.
Já são perto das cinco horas. Os retratos estão quase iguais salvo possíveis variações de humor que me são "presque" indetectáveis. É seguro afirmar que só eu darei por algo.
Levanto-me. Possivelmente adormeci em determinado tempo indeterminado.
Vamos agora embora. Não sem antes dizer os adeuses costumeiros a quem de direito.
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quarta-feira, julho 08, 2009
terça-feira, abril 21, 2009
Gonçala sentada no muro
Não me lembro de estar parada há tanto tempo. Aqui é como se houvesse ausência de tempo. O tempo afogou-se no verde. Mas continua uma palavra constante.
Estou sentada em cima do muro e não falo há quatro dias. Penso muito. Observo sobretudo. A casa é grande e de pedra. Os nosso quartos são frios e pela parede escorre a humidade. O jardim em redor da casa é tão grande como o silêncio. Aqui tudo se funde misturado em círculos que se inter-cruzam continuamente sem entender o que é um ou outro. Silêncio, paz, pensamento, Verde.
Ainda há pouco passou por aqui um grupo de miúdos. Vi-os apenas ao longe. Pareciam figurinhas de desenho animado. Via-lhes os gestos desfocados e ouvia as suas vozes esganiçadas pela distância. Estavam alegres e riam. Talvez partilhassem estórias engraçadas uns com os outros.
Que pode achar um grupo de miúdos duma rapariga sentada em cima dum muro olhando o vale? E que me interessa isso? Eles não vão tocar a minha vida. Tão pouco eu a deles. Mas ainda assim, aqui onde nada é, parecemos ligados pelo Verde.
Agora fecho os olhos. Sou eu que estou também ali, do outro lado do muro, cheia de gente, contando estórias engraçadas duma outra vida que vivi.
Estou sentada em cima do muro e não falo há quatro dias. Penso muito. Observo sobretudo. A casa é grande e de pedra. Os nosso quartos são frios e pela parede escorre a humidade. O jardim em redor da casa é tão grande como o silêncio. Aqui tudo se funde misturado em círculos que se inter-cruzam continuamente sem entender o que é um ou outro. Silêncio, paz, pensamento, Verde.
Ainda há pouco passou por aqui um grupo de miúdos. Vi-os apenas ao longe. Pareciam figurinhas de desenho animado. Via-lhes os gestos desfocados e ouvia as suas vozes esganiçadas pela distância. Estavam alegres e riam. Talvez partilhassem estórias engraçadas uns com os outros.
Que pode achar um grupo de miúdos duma rapariga sentada em cima dum muro olhando o vale? E que me interessa isso? Eles não vão tocar a minha vida. Tão pouco eu a deles. Mas ainda assim, aqui onde nada é, parecemos ligados pelo Verde.
Agora fecho os olhos. Sou eu que estou também ali, do outro lado do muro, cheia de gente, contando estórias engraçadas duma outra vida que vivi.
quarta-feira, março 11, 2009
Três elementos em variações, ainda que aproximadas, de escrita ou Retratos inseguros duma cena que vi numa telenovela e suas alterações
Atentemos: o corpo em rotação. Os fones pendurados nas orelhas como algo entre uns brincos e um colar. Alma esguia, corpo sadio. Há música! O vestido é azul e escorrega pela cintura até aos joelhos. (não há grande poesia em dizer-se joelhos). Tentemos de novo: o vestido é branco e escorrega pelas ancas. O movimento é langoroso. Dir-se-ia exacto. Sobretudo, sensual. É uma música que ela sabe, só ela sabe.
Um outro plano. Uma mulher, vulgar de trinta anos, digamos, tem um vestido azul. Agora está numa sala muito grande e dança frente ao espelho. Frente ao espelho está vidrada frente ao vidro. Vício da própria imagem. Quem será? Ela ou outra? O corpo dança. Não podemos repetir que é langoroso ou sensual. O corpo mexe-se num movimento envolvente. (sim, digamos envolvente). A música é da Ella Fitzgerald. Todos sabem como gosta d'Ella.
Como as ondas do mar assim o corpo se agitasse num vestido azul. A sua dança talvez em palavras de pouca poesia, poesia barata.
Tentemos de novo ainda uma outra vez. Na Fábrica do Braço de Prata. A cantora, ao fundo da sala, de uma das salas, canta um jazz sobre a Primavera. Ela já não tem fones entre uns brincos e um colar, mas tem brincos e colar. Está acopanhada. Por quem ainda não interessa bem. Ri muito alto, é estridente. O vestido é branco, mas tem uma barra azul. Poisou o martini na bancada. Segura a mão dele e puxa-o com muita força. Não mede os gestos. Nada é exacto senão a voz segura da cantora que está no fundo da sala. Abana-se e agita-se e estrangula-se em movimentos irregulares duma dança desorganizada.
(que diria esta mulher, a outra, a das primeiras vezes, se olhasse para esta mulher, esta a da última vez? o que há de comum em tudo)
A imagem é certa e forte. Talvez tente escrever sobre isso: uma mulher, um vestido e uma dança frenética ou talvez segura sobre tudo isto.
Um outro plano. Uma mulher, vulgar de trinta anos, digamos, tem um vestido azul. Agora está numa sala muito grande e dança frente ao espelho. Frente ao espelho está vidrada frente ao vidro. Vício da própria imagem. Quem será? Ela ou outra? O corpo dança. Não podemos repetir que é langoroso ou sensual. O corpo mexe-se num movimento envolvente. (sim, digamos envolvente). A música é da Ella Fitzgerald. Todos sabem como gosta d'Ella.
Como as ondas do mar assim o corpo se agitasse num vestido azul. A sua dança talvez em palavras de pouca poesia, poesia barata.
Tentemos de novo ainda uma outra vez. Na Fábrica do Braço de Prata. A cantora, ao fundo da sala, de uma das salas, canta um jazz sobre a Primavera. Ela já não tem fones entre uns brincos e um colar, mas tem brincos e colar. Está acopanhada. Por quem ainda não interessa bem. Ri muito alto, é estridente. O vestido é branco, mas tem uma barra azul. Poisou o martini na bancada. Segura a mão dele e puxa-o com muita força. Não mede os gestos. Nada é exacto senão a voz segura da cantora que está no fundo da sala. Abana-se e agita-se e estrangula-se em movimentos irregulares duma dança desorganizada.
(que diria esta mulher, a outra, a das primeiras vezes, se olhasse para esta mulher, esta a da última vez? o que há de comum em tudo)
A imagem é certa e forte. Talvez tente escrever sobre isso: uma mulher, um vestido e uma dança frenética ou talvez segura sobre tudo isto.
quinta-feira, janeiro 15, 2009
Gustavo- Corte (I)
A Tia Bé tinha uma casa nas Azenhas do Mar. Era branca e breve. Não tinha telhado, mas terraço e a todo o comprimento uma grande varanda estendia-se sobre o mar. Não havia nada de extraordinário nesta casa. A Tia Bé era uma mulher que tinha dinheiro suficiente para pagar somas exurbitantes para viver numa pequena casa branca numa colina frente ao mar. Não havia nada de romântico nisto, só de económico. O dinheiro da Tia Bé era a fonte que alimentava a beleza da sua casa.
Gustavo nunca pensou isto da casa da Tia Bé. Era para ele um espaço ideal onde cada coisa era guardada num sítio exacto de ser. As ânforas milimetricamente colocadas por uma questão de estilo eram para ele uma essência dum mundo onde ele ansiava por chegar, duma forma una e real de existir.
Mal chegou Gustavo enfiou-se na varanda. Podia ter ficado a contemplar o mar, mas sentou-se, dobrou os joelhos e meteu a cabeça no meio deles. O barulho do mar era forte e o seu cheiro era intenso. Deve ter ficado assim muito tempo porque de súbito sentiu escuro à sua volta e é sabido que no Verão o escuro demora muito a chegar e quase nunca existe verdadeiramente. Além do cheiro do mar havia um cheiro intenso a orégãos. A casa da Tia Bé cheirava sempre a orégãos porque era feita para cheirar sempre a orégão. Era um cheiro mágico de acalmar as mágoas e de despertar a fome.
O mar batia mais forte sobre a areia lá fora, agora que era noite. Como nascendo dum estado fetal Gustavo foi-se levantando. Erguido, aproximou-se da varanda, olhou o mar de frente, fechou os olhos e encheu os pulmões de maresia. Há um tempo breve a porta tinha-se aberto e a Tia Bé tinha-se esgueirado por ela. Pôs-se de pé, sempre muito direita e deixando os olhos no horizonte perguntou-lhe:
- Até onde é que consegues ver?
- Até dentro de mim. Ou é assim que pelo menos tudo isto me parece.
Gustavo nunca pensou isto da casa da Tia Bé. Era para ele um espaço ideal onde cada coisa era guardada num sítio exacto de ser. As ânforas milimetricamente colocadas por uma questão de estilo eram para ele uma essência dum mundo onde ele ansiava por chegar, duma forma una e real de existir.
Mal chegou Gustavo enfiou-se na varanda. Podia ter ficado a contemplar o mar, mas sentou-se, dobrou os joelhos e meteu a cabeça no meio deles. O barulho do mar era forte e o seu cheiro era intenso. Deve ter ficado assim muito tempo porque de súbito sentiu escuro à sua volta e é sabido que no Verão o escuro demora muito a chegar e quase nunca existe verdadeiramente. Além do cheiro do mar havia um cheiro intenso a orégãos. A casa da Tia Bé cheirava sempre a orégãos porque era feita para cheirar sempre a orégão. Era um cheiro mágico de acalmar as mágoas e de despertar a fome.
O mar batia mais forte sobre a areia lá fora, agora que era noite. Como nascendo dum estado fetal Gustavo foi-se levantando. Erguido, aproximou-se da varanda, olhou o mar de frente, fechou os olhos e encheu os pulmões de maresia. Há um tempo breve a porta tinha-se aberto e a Tia Bé tinha-se esgueirado por ela. Pôs-se de pé, sempre muito direita e deixando os olhos no horizonte perguntou-lhe:
- Até onde é que consegues ver?
- Até dentro de mim. Ou é assim que pelo menos tudo isto me parece.
sexta-feira, dezembro 26, 2008
Experimentação para Conto de Gustavo-IV ou Conversa sobre Tejo e Tágides
Debruçado sobre o varandim esvoaçou a mão para afastar o fumo do cigarro.
- Que mariquices! Agora nem na minha varanda posso fumar, perguntou Sara brincando enquanto apagava o cigarro.
- Vês ao fundo? É preciso que nos curvemos um pouco e que empoleiremos aqui a barriga para ver o Tejo. Dói e custa manter este equilíbrio, mas quem pensa nisso assim que vê o rio? O Tejo é tão azul. Hoje como em Agosto. Tem princípio mas é tolo dizer que tem fim. Onde acabará o Tejo?
- Já me fazia falta essa tua maneira de falar. Diz-me um poema, dizes?
- Ao longe é rio e ele vai até ao país das fadas. Porque não podemos lá ir nós também? Vês quantas perguntas faço hoje? Hoje é noite de construir poemas e dir-te-ei quantos quiseres. Porque moras em Alfama e debruçado da tua janela vejo o rio. Isso deixa-me feliz. E deixa-me feliz partilhá-lo contigo porque sabes o que é ter uma janela para o Tejo. Nós temos olhos de ver o país das fadas, não temos Sara?
Sara passou a mão levemente pelo cabelo de Gustavo enquanto lhe dava um beijo no rosto.
- Temos, porque tu e eu sabemos construir palavras de ver coisas d'alma.
A rapariga tinha o braço esticado, o corpo flectido e apoiado no varandim.
- Vês lá longe, aquela luz? Porque não dizer que aí resta o país da fadas?
- Que mariquices! Agora nem na minha varanda posso fumar, perguntou Sara brincando enquanto apagava o cigarro.
- Vês ao fundo? É preciso que nos curvemos um pouco e que empoleiremos aqui a barriga para ver o Tejo. Dói e custa manter este equilíbrio, mas quem pensa nisso assim que vê o rio? O Tejo é tão azul. Hoje como em Agosto. Tem princípio mas é tolo dizer que tem fim. Onde acabará o Tejo?
- Já me fazia falta essa tua maneira de falar. Diz-me um poema, dizes?
- Ao longe é rio e ele vai até ao país das fadas. Porque não podemos lá ir nós também? Vês quantas perguntas faço hoje? Hoje é noite de construir poemas e dir-te-ei quantos quiseres. Porque moras em Alfama e debruçado da tua janela vejo o rio. Isso deixa-me feliz. E deixa-me feliz partilhá-lo contigo porque sabes o que é ter uma janela para o Tejo. Nós temos olhos de ver o país das fadas, não temos Sara?
Sara passou a mão levemente pelo cabelo de Gustavo enquanto lhe dava um beijo no rosto.
- Temos, porque tu e eu sabemos construir palavras de ver coisas d'alma.
A rapariga tinha o braço esticado, o corpo flectido e apoiado no varandim.
- Vês lá longe, aquela luz? Porque não dizer que aí resta o país da fadas?
segunda-feira, setembro 29, 2008
Contorno algo incerto ou Cisne barroco esvoaçando as asas
"Maruliano, meu avô, acreditava nos astros."
E repito tantas vezes, palavras mágicas.
Encontro o impensável, para dizer o indizível.
É que agora talvez já não te ame.
E repito tantas vezes, palavras mágicas.
Encontro o impensável, para dizer o indizível.
É que agora talvez já não te ame.
quinta-feira, julho 03, 2008
Só para não dizerem que não falei de flores
Se partirmos da premissa base que fazer ciência começa pelo acto quase reflexo do ser humano em questionar-se, então teremos que admitir que o paradigma pós-processualista que a História experimenta transforma o árduo trabalho do historiador numa tarefa, à primeira vista, mais que hercúlea. Acrescido esforço quando falamos de historiadores da Antiguidade Clássica que trabalham com documentação de origem constantemente duvidosa e que lançam as suas propostas sobre mais de dois milénios de preconceitos que chegam e afectam os mesmos historiadores. Qual a possibilidade então de se fazer ciência e logo conhecimento? Essa de acreditar que os dados de que o historiador dispõe não são apenas peças dum quebra-cabeças lúdico, mas de pouca utilidade, e sim instrumento da construção dum vocabulário de entendimento. Se nos servirmos dos conceitos que a Linguística adapta do já citado paradigma nos oferece então podemos afirmar que as fontes de que o historiador se serve para fazer História são palavras, uma vez que dotadas tanto dum significado como dum significante, ainda que extrapolando o campo da palavra escrita. O historiador é então e ao mesmo tempo decifrador e criador dos significantes daqueles significados que encontra ao longo da sua investigação. É a análise destas mesmas palavras e o estabelecer de relações entre elas que permite a criação dum vocabulário, isto é, a criação de um sistema complexo que nos permita a compreensão de determinado facto através da interrelação das múltiplas realidades que as fontes provam ser e das hipóteses que o historiador levanta faça à sua questão principal quando as lê em conjunto. Na sequência do que se disse esta compreensão não se apresenta como verdade última ou sequer como verdade em si, mas mais como hipótese de uma situação senão possível, ao menos verificável. A História não se constrói assim por verificação e comprovação, mas por aproximação e sugestão, isto é, perante a impossibilidade dum conhecimento pleno e absoluto daquilo que foi é função do historiador criar quadros de uma realidade, como se disse atrás, se não possível ao menos verosímil que permitam tanto à comunidade académica e científica como ao público em geral perceber não exactamente o que foi, mas o que poderá ter sido.
segunda-feira, junho 30, 2008
Há um canto na quinta
Na quinta há um canto onde gosto de jogar à bola. Só gosto de jogar à bola hoje! É que tu odeias jogar à bola e por inclinação eu amo tudo o que tu odeias (como mais posso fugir de ti?).
Sempre sozinho, porque quero estar sozinho, embora haja as estátuas do jardim nesse canto da quinta (já quase todas sem cabeça).
Chuto a bola com força e a terra salta aos meus olhos enquanto cavo com o pé um buraco involuntário no chão. Há folhas de relva que dançam com o sol aos meus olhos. Esperei sempre por isto. Agora posso lembrar-me dos teus olhos.
Sempre sozinho, porque quero estar sozinho, embora haja as estátuas do jardim nesse canto da quinta (já quase todas sem cabeça).
Chuto a bola com força e a terra salta aos meus olhos enquanto cavo com o pé um buraco involuntário no chão. Há folhas de relva que dançam com o sol aos meus olhos. Esperei sempre por isto. Agora posso lembrar-me dos teus olhos.
quarta-feira, março 12, 2008
Três salas em três mulheres ou Caminho da inspiração
Uma sala com uma mesa com um livro em cima da mesa.
Uma sala com uma cadeira e uma janela aberta a poente (ponto de luz).
Uma sala com grandes cadeiras encarnadas.
[Silêncio]
Uma mulher lê o livro.
Uma mulher levanta-se da cadeira e corre as cortinas (ainda um ponto de luz).
Uma mulher está estirada numa das grandes cadeiras encarnadas.
[Silêncio]
Saem as três.
(Procuro os gestos, as formas, os estares. Há ainda uma mulher em cada sala.
[Silêncio]
Sento-me eu frente à janela com um livro branco na mão esquerda.
[Silêncio]
Primeiro sonho, ou depois crio, ou antes escrevo?)
Uma sala com uma cadeira e uma janela aberta a poente (ponto de luz).
Uma sala com grandes cadeiras encarnadas.
[Silêncio]
Uma mulher lê o livro.
Uma mulher levanta-se da cadeira e corre as cortinas (ainda um ponto de luz).
Uma mulher está estirada numa das grandes cadeiras encarnadas.
[Silêncio]
Saem as três.
(Procuro os gestos, as formas, os estares. Há ainda uma mulher em cada sala.
[Silêncio]
Sento-me eu frente à janela com um livro branco na mão esquerda.
[Silêncio]
Primeiro sonho, ou depois crio, ou antes escrevo?)
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