A Tia Bé tinha uma casa nas Azenhas do Mar. Era branca e breve. Não tinha telhado, mas terraço e a todo o comprimento uma grande varanda estendia-se sobre o mar. Não havia nada de extraordinário nesta casa. A Tia Bé era uma mulher que tinha dinheiro suficiente para pagar somas exurbitantes para viver numa pequena casa branca numa colina frente ao mar. Não havia nada de romântico nisto, só de económico. O dinheiro da Tia Bé era a fonte que alimentava a beleza da sua casa.
Gustavo nunca pensou isto da casa da Tia Bé. Era para ele um espaço ideal onde cada coisa era guardada num sítio exacto de ser. As ânforas milimetricamente colocadas por uma questão de estilo eram para ele uma essência dum mundo onde ele ansiava por chegar, duma forma una e real de existir.
Mal chegou Gustavo enfiou-se na varanda. Podia ter ficado a contemplar o mar, mas sentou-se, dobrou os joelhos e meteu a cabeça no meio deles. O barulho do mar era forte e o seu cheiro era intenso. Deve ter ficado assim muito tempo porque de súbito sentiu escuro à sua volta e é sabido que no Verão o escuro demora muito a chegar e quase nunca existe verdadeiramente. Além do cheiro do mar havia um cheiro intenso a orégãos. A casa da Tia Bé cheirava sempre a orégãos porque era feita para cheirar sempre a orégão. Era um cheiro mágico de acalmar as mágoas e de despertar a fome.
O mar batia mais forte sobre a areia lá fora, agora que era noite. Como nascendo dum estado fetal Gustavo foi-se levantando. Erguido, aproximou-se da varanda, olhou o mar de frente, fechou os olhos e encheu os pulmões de maresia. Há um tempo breve a porta tinha-se aberto e a Tia Bé tinha-se esgueirado por ela. Pôs-se de pé, sempre muito direita e deixando os olhos no horizonte perguntou-lhe:
- Até onde é que consegues ver?
- Até dentro de mim. Ou é assim que pelo menos tudo isto me parece.
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quinta-feira, janeiro 15, 2009
domingo, julho 20, 2008
Esboço de Laura ou Escrita breve em "andante furioso"
Para Ana Garcia com carinho, paixão, orgulho e fúria.
A sala era escura. A sala era escura e isso irritava-o. Guardava um medo infantil do escuro, com lugar para monstros e papões, e isso deixava-o mal-disposto. Batia furiosamente com a caneta no apoio de madeira onde tinhas os papéis em branco. Era bom que tudo aquilo acabasse depressa.
Letícia, não era excessivamente alta e decididamente não era excessivamente bela. Era mesmo difícil confessar que tivesse alguma beleza além da vulgaridade daqueles que por um acaso não nasceram feios. Tinha um aspecto vulgar, uma estatura vulgar e um nome vulgar. Escolhera uma música vulgar.
Entrou no palco decidida como quem retoma uma velha posição deixada há muitos anos, ou na verdade uma antecipação disso: reclamava um velho lugar que era seu há muitos anos, mas que por algum acaso nunca tomara. Letícia começou a dançar quando se ouviu a música. Envolvia o corpo em gestos compassados e rítmicos num estudo acertado de expressão e técnica. Gabriel restava para ali, meio alheio a tudo, olhando uma rapariga vulgar, com um corpo vulgar, dançando uma música vulgar. Quando terá ele reparado que ela não dançava de maneira vulgar?
O corpo de Letícia subia de ritmo, como um termómetro em que o mercúrio ameaça explodir. Vinha-lhe de dentro para fora, como se de repente mãos e pés e pernas e braços e ancas e coxas fossem as formas naturais de revelar palavras ocultas, palavras de dizer senão com o corpo. Gabriel deu por si dentro daquele emaranhado de coisas em que o corpo de Letícia se transformava numa rapidez extra-temporal. Letícia era em si uma revelação de algo.
E tomou a caneta e começou a escrever com fúria sobre o papel branco. Acertava cada compasso pelo corpo dela e cada palavra correspondia assim a um gesto.
Laura era branca, como um nevão irremediável que submerge tudo. (risco) afoga tudo. Laura passeando entre as gentes como se fosse (risco) fora invisível.
Letícia agitava-se no palco ao som duma música que já não existia. Como poderia haver música, onde não havia qualquer som? Letícia já nem era a própria Letícia. Era algo exterior a si mesma. Era um corpo que se estende e contrái em gestos que eram como imensos significantes vazios de significados. E esse vazio transbordava da caneta para a folha de papel com a vontade furiosa de escrever, sem que também isso se concebesse em significado algum. Letícia agitava-se em literatura. Era como se urgisse comê-la de um trago e tirar-lhe tudo o que ela oferecia dar.
Laura e Tristão sobre o barco. Laura preparando as amarguras de outras vidas. Laura alheia a si mesma, como se fora duas Lauras.
E a sala já não era escura agora, e ele não queria que isto acabasse. Oh, que não acabasse nunca! Como se Letícia, sem ser já Letícia, fosse a fonte última de inspiração. Como se o corpo de Letícia fosse despersonalizado de toda a personalidade para poder construir esse outro corpo e essa outra pessoa, tão irreais como tudo aquilo, que era essa atormentante Laura, ansiosa e ociosa por nascer. Paria em frases soltas, sem tempo nem espaço, num espaço onde ele era alheio a tudo.
Ouviu num assombro que não se ouvia mais música. Letícia estava parada no palco, de novo Letícia, olhando-o de frente. Ainda assim, não mais poderia ser essa outra Letícia, ainda tão vulgar, ainda tão comum. Laura ali estava, escrita em frases dispersas, tão real em carne e osso como esse corpo dançante a que chamava Letícia.
Olhou o papel nas mãos e a rapariga no palco. Suspirou como quem se entrega à fraqueza.
- Mais uma vez, só mais uma vez, pediu.
Letícia agitou-se no palco. Instantes depois já ele não ouvia a música que tocava.
A sala era escura. A sala era escura e isso irritava-o. Guardava um medo infantil do escuro, com lugar para monstros e papões, e isso deixava-o mal-disposto. Batia furiosamente com a caneta no apoio de madeira onde tinhas os papéis em branco. Era bom que tudo aquilo acabasse depressa.
Letícia, não era excessivamente alta e decididamente não era excessivamente bela. Era mesmo difícil confessar que tivesse alguma beleza além da vulgaridade daqueles que por um acaso não nasceram feios. Tinha um aspecto vulgar, uma estatura vulgar e um nome vulgar. Escolhera uma música vulgar.
Entrou no palco decidida como quem retoma uma velha posição deixada há muitos anos, ou na verdade uma antecipação disso: reclamava um velho lugar que era seu há muitos anos, mas que por algum acaso nunca tomara. Letícia começou a dançar quando se ouviu a música. Envolvia o corpo em gestos compassados e rítmicos num estudo acertado de expressão e técnica. Gabriel restava para ali, meio alheio a tudo, olhando uma rapariga vulgar, com um corpo vulgar, dançando uma música vulgar. Quando terá ele reparado que ela não dançava de maneira vulgar?
O corpo de Letícia subia de ritmo, como um termómetro em que o mercúrio ameaça explodir. Vinha-lhe de dentro para fora, como se de repente mãos e pés e pernas e braços e ancas e coxas fossem as formas naturais de revelar palavras ocultas, palavras de dizer senão com o corpo. Gabriel deu por si dentro daquele emaranhado de coisas em que o corpo de Letícia se transformava numa rapidez extra-temporal. Letícia era em si uma revelação de algo.
E tomou a caneta e começou a escrever com fúria sobre o papel branco. Acertava cada compasso pelo corpo dela e cada palavra correspondia assim a um gesto.
Laura era branca, como um nevão irremediável que submerge tudo. (risco) afoga tudo. Laura passeando entre as gentes como se fosse (risco) fora invisível.
Letícia agitava-se no palco ao som duma música que já não existia. Como poderia haver música, onde não havia qualquer som? Letícia já nem era a própria Letícia. Era algo exterior a si mesma. Era um corpo que se estende e contrái em gestos que eram como imensos significantes vazios de significados. E esse vazio transbordava da caneta para a folha de papel com a vontade furiosa de escrever, sem que também isso se concebesse em significado algum. Letícia agitava-se em literatura. Era como se urgisse comê-la de um trago e tirar-lhe tudo o que ela oferecia dar.
Laura e Tristão sobre o barco. Laura preparando as amarguras de outras vidas. Laura alheia a si mesma, como se fora duas Lauras.
E a sala já não era escura agora, e ele não queria que isto acabasse. Oh, que não acabasse nunca! Como se Letícia, sem ser já Letícia, fosse a fonte última de inspiração. Como se o corpo de Letícia fosse despersonalizado de toda a personalidade para poder construir esse outro corpo e essa outra pessoa, tão irreais como tudo aquilo, que era essa atormentante Laura, ansiosa e ociosa por nascer. Paria em frases soltas, sem tempo nem espaço, num espaço onde ele era alheio a tudo.
Ouviu num assombro que não se ouvia mais música. Letícia estava parada no palco, de novo Letícia, olhando-o de frente. Ainda assim, não mais poderia ser essa outra Letícia, ainda tão vulgar, ainda tão comum. Laura ali estava, escrita em frases dispersas, tão real em carne e osso como esse corpo dançante a que chamava Letícia.
Olhou o papel nas mãos e a rapariga no palco. Suspirou como quem se entrega à fraqueza.
- Mais uma vez, só mais uma vez, pediu.
Letícia agitou-se no palco. Instantes depois já ele não ouvia a música que tocava.
terça-feira, junho 10, 2008
Estória breve do gato que queria um colo
Ao Pipoca.
O gato, demasiado gordo e decididamente anafado, espia pelos olhos bem abertos cada colo. Tem as patas retraídas e cada pessoa tem as pernas traçadas (são três pessoas) o que fecha para o gato cada colo. Mas o gato, gordo e anafado, é demasiado esperto para se deixar estar. Pelos olhos bem abertos seduz, uma a uma, cada uma das três pessoas. Namora um colo fofinho onde possa enroscar o seu casaco de peles XXL.
Perante um par de pernas descruzadas ele não vem directo, mas direito e manso, ainda dengoso, ainda gingão, e como se cada colo fosse um canto natural de se estar, lá ele se enrosca, demasiado gordo, decididamente anafado e demasiado esperto.
A barriga faz ron-ron em cima das nossas pernas e as almofadas de Arraiolos estão cheias do seu pêlo. É porque afinal a casa pertence-lhe!
O gato, demasiado gordo e decididamente anafado, espia pelos olhos bem abertos cada colo. Tem as patas retraídas e cada pessoa tem as pernas traçadas (são três pessoas) o que fecha para o gato cada colo. Mas o gato, gordo e anafado, é demasiado esperto para se deixar estar. Pelos olhos bem abertos seduz, uma a uma, cada uma das três pessoas. Namora um colo fofinho onde possa enroscar o seu casaco de peles XXL.
Perante um par de pernas descruzadas ele não vem directo, mas direito e manso, ainda dengoso, ainda gingão, e como se cada colo fosse um canto natural de se estar, lá ele se enrosca, demasiado gordo, decididamente anafado e demasiado esperto.
A barriga faz ron-ron em cima das nossas pernas e as almofadas de Arraiolos estão cheias do seu pêlo. É porque afinal a casa pertence-lhe!
terça-feira, abril 01, 2008
Experimentação para "Conto de Gustavo-IV"
Revirou os olhos. Que havia de dizer? Era a quarta vez que a Ana perguntava se ele não o achava maravilhoso. Não que se referisse ao aspecto, pelo menos em princípio, mas à eloquência do homem. Porque para Gustavo era isso que ele era: um eloquente.
Lá estava, gordo e transpirado, com uma grande linha quase nas fraldas da camisa a marcar o suor. Tinha um lencinho de bolso que tirava mais vezes do que se desejava e limpava a testa molhada arrastando as mãos pequenas e sapudas de um lado para o outro como se estivesse a puxar lustro. Estava a falar há quase quinze minutos e ainda não dissera nada que valesse a pena ouvir. Vagamente percebia-se que falava de Tácito. Ia alternando o seu discurso barroco e bacoco ora com evidências óbvias ("A noite em Tácito é fundamental"), ora em emaranhados vazios ("Há que entender a questão não só do ponto de vista histórico e filosófico, como igualmente perante a necessidade de ser literário"). Era, enfim, um eloquente. Um homem de muita sabedura, mas muito pouco saber. Lá que lera Tácito e o seu latinório nem Gustavo punha em causa. Lá que ele não dizia nada que na Sorbonne ou em Oxford ou Princeton já antes não se tivesse dito era bem verdade.
Ainda assim, a Ana continuava a espetar-lhe o dedo no ombro de forma cada vez mais furiosa conforme a sua excitação aumentava. E eram gritinhos de "Fabuloso!" ou "Muito bom!" a cada nova balela que o gordo empapado em suor soltava.
O Artur gostava de dizer que a Ana era uma freira com falta de homem. As coisas eram, contudo, mais complexas. A Ana era, nas palavras de Gustavo, uma vítima do sistema. Licenciada em Estudos Clássicos com média de 18,7 valores passara o curso agarrada às saias das professoras que a passeavam e elogiavam como uma mãe vitoriana quando o filho diz a primeira palavra ou aprende a primeira habilidade. A Ana era esperta, tinha boa cabeça e boas ideias. Tinha era a cabeça muito enfiada nos livros e era pouco livre em relação a eles. E das poucas vezes que voava, lá iam as boas professoras, quais fadas madrinhas, impedi-la de voos tão altos que ferissem a menina. E assim a Ana foi-se adaptando àquela maneira académica de estar, comezinha e banal, do pequeno palanque e do pequeno poder. Mestrou-se com uma tese sobre Catulo, tão gémea da tese da sua orientadora, que não trazia nada de novo. Depois, com os trabalhos de doutoramento e a docência universitária trazida pelo mestrado a Ana instalara-se. Agora, às portas de defender a tese, era um produto acabado do sistema: servil e pouco ambiciosa, bastando-se nos seus conhecimentos escolásticos que ia buscar ao saber sacrossanto dos livros que a Sorbonne regorgitara nos anos setenta. Mas não era má miúda. Os alunos adoravam-na e ela adorava-os e a verdade era que os protegidos da Ana eram por norma mesmo muito bons, como as grandes professoras de ballet que, incapazes de terem elas mesmas uma grande carreira, têm, ainda assim, olho para aqueles a possam vir a ter. E depois era divertida e no meio daqueles salamaleques todos da faculdade era bem desempoeirada. Claro que tantas vezes era demasiao infantil, dessas crianças que as bibliotecas conservam para sempre crianças por falta de ver o mundo. O Artur bufava cada vez que a sabia lá em casa para jantar. Era certo que ia ter uma noite repleta de todos os pormenores mais íntimos da faculdade e dos meandros dos seus departamentos, desde a última tese ao último escândalo. Mas Gustavo gostava dela e o sentimento era bastante mútuo.
"Brilhante, brilhante. Muito, muito bom!", gritava a Ana enquanto batia as mãos uma contra a outra. O presidente da mesa começou nos agradecimentos e acabou nas perguntas. Gustavo não ia aguentar mais nada daquele homem. Enquanto arrumava as coisas na pasta largou um beijinho no ar à Ana e, o mais silenciosamente possível, esgueirou-se pela porta direita do Anfiteatro III. Desceu as escadas num repente e atravessou o longo corredor em passo largo. Pegou no telemóvel. 13h28. Aquele papalvo do coimbrão eloquente tinha-lhes comido vinte minutos a mais e ainda estava lá para cima a despejar idiotices. Virou no corredor do Departamento de História ainda indeciso entre ser apanhado no corredor da secretaria pela Dona Ifigénia ou no átrio central por um aluno ou colega qualquer. Decidiu-se pelo átrio e atravessou-o a toda a pressa oferencendo aos alunos que o cumprimentavam sorrisos distantes e pouco convidativos. Desceu os degraus da porta principal da faculdade e olhou para trás. Lá estava Letras, igual há dez anos atrás, senão um pouco mais podre e mais suja pelos cantos.
No telemóvel tocou uma mensagem. Era o Artur "Demoras?" O Artur não tinha um doutoramento, nunca lera Tácito e de Latim sabia dizer E pluribus unum e Pisces conam furant. Mas dava-lhe a certeza de uma vida além de todas estas coisas de que ele gostava. O Artur era, em grande medida, o que o impedia de ser como a Ana. E ao menos o Artur suava por razões melhores que o jagunço de Coimbra.
Lá estava, gordo e transpirado, com uma grande linha quase nas fraldas da camisa a marcar o suor. Tinha um lencinho de bolso que tirava mais vezes do que se desejava e limpava a testa molhada arrastando as mãos pequenas e sapudas de um lado para o outro como se estivesse a puxar lustro. Estava a falar há quase quinze minutos e ainda não dissera nada que valesse a pena ouvir. Vagamente percebia-se que falava de Tácito. Ia alternando o seu discurso barroco e bacoco ora com evidências óbvias ("A noite em Tácito é fundamental"), ora em emaranhados vazios ("Há que entender a questão não só do ponto de vista histórico e filosófico, como igualmente perante a necessidade de ser literário"). Era, enfim, um eloquente. Um homem de muita sabedura, mas muito pouco saber. Lá que lera Tácito e o seu latinório nem Gustavo punha em causa. Lá que ele não dizia nada que na Sorbonne ou em Oxford ou Princeton já antes não se tivesse dito era bem verdade.
Ainda assim, a Ana continuava a espetar-lhe o dedo no ombro de forma cada vez mais furiosa conforme a sua excitação aumentava. E eram gritinhos de "Fabuloso!" ou "Muito bom!" a cada nova balela que o gordo empapado em suor soltava.
O Artur gostava de dizer que a Ana era uma freira com falta de homem. As coisas eram, contudo, mais complexas. A Ana era, nas palavras de Gustavo, uma vítima do sistema. Licenciada em Estudos Clássicos com média de 18,7 valores passara o curso agarrada às saias das professoras que a passeavam e elogiavam como uma mãe vitoriana quando o filho diz a primeira palavra ou aprende a primeira habilidade. A Ana era esperta, tinha boa cabeça e boas ideias. Tinha era a cabeça muito enfiada nos livros e era pouco livre em relação a eles. E das poucas vezes que voava, lá iam as boas professoras, quais fadas madrinhas, impedi-la de voos tão altos que ferissem a menina. E assim a Ana foi-se adaptando àquela maneira académica de estar, comezinha e banal, do pequeno palanque e do pequeno poder. Mestrou-se com uma tese sobre Catulo, tão gémea da tese da sua orientadora, que não trazia nada de novo. Depois, com os trabalhos de doutoramento e a docência universitária trazida pelo mestrado a Ana instalara-se. Agora, às portas de defender a tese, era um produto acabado do sistema: servil e pouco ambiciosa, bastando-se nos seus conhecimentos escolásticos que ia buscar ao saber sacrossanto dos livros que a Sorbonne regorgitara nos anos setenta. Mas não era má miúda. Os alunos adoravam-na e ela adorava-os e a verdade era que os protegidos da Ana eram por norma mesmo muito bons, como as grandes professoras de ballet que, incapazes de terem elas mesmas uma grande carreira, têm, ainda assim, olho para aqueles a possam vir a ter. E depois era divertida e no meio daqueles salamaleques todos da faculdade era bem desempoeirada. Claro que tantas vezes era demasiao infantil, dessas crianças que as bibliotecas conservam para sempre crianças por falta de ver o mundo. O Artur bufava cada vez que a sabia lá em casa para jantar. Era certo que ia ter uma noite repleta de todos os pormenores mais íntimos da faculdade e dos meandros dos seus departamentos, desde a última tese ao último escândalo. Mas Gustavo gostava dela e o sentimento era bastante mútuo.
"Brilhante, brilhante. Muito, muito bom!", gritava a Ana enquanto batia as mãos uma contra a outra. O presidente da mesa começou nos agradecimentos e acabou nas perguntas. Gustavo não ia aguentar mais nada daquele homem. Enquanto arrumava as coisas na pasta largou um beijinho no ar à Ana e, o mais silenciosamente possível, esgueirou-se pela porta direita do Anfiteatro III. Desceu as escadas num repente e atravessou o longo corredor em passo largo. Pegou no telemóvel. 13h28. Aquele papalvo do coimbrão eloquente tinha-lhes comido vinte minutos a mais e ainda estava lá para cima a despejar idiotices. Virou no corredor do Departamento de História ainda indeciso entre ser apanhado no corredor da secretaria pela Dona Ifigénia ou no átrio central por um aluno ou colega qualquer. Decidiu-se pelo átrio e atravessou-o a toda a pressa oferencendo aos alunos que o cumprimentavam sorrisos distantes e pouco convidativos. Desceu os degraus da porta principal da faculdade e olhou para trás. Lá estava Letras, igual há dez anos atrás, senão um pouco mais podre e mais suja pelos cantos.
No telemóvel tocou uma mensagem. Era o Artur "Demoras?" O Artur não tinha um doutoramento, nunca lera Tácito e de Latim sabia dizer E pluribus unum e Pisces conam furant. Mas dava-lhe a certeza de uma vida além de todas estas coisas de que ele gostava. O Artur era, em grande medida, o que o impedia de ser como a Ana. E ao menos o Artur suava por razões melhores que o jagunço de Coimbra.
quinta-feira, março 27, 2008
Carta de Servília a Décimo
Não esperes que responda ao que me pedes. E não me leves a mal que o não faça. Aos oitenta e quatro anos aprendi a dizer não. Este não que descobri tão tarde não é, no entanto, igual a esse outro desses jogos perigosos de tirar e dar e que raramente quer dizer o que quer dizer. Assim, não esperes por mim. Não. Definitivamente.
Encontrei, nos campos de Lutércia, uma paz que nunca esperei e talvez por isso ela me saiba tanto melhor. Sei que os romanos urbanizados da grande Urbe acham estas terras selvagens e ermas. Não selvagens, mas virgens. Há qualquer coisa aqui que pode nascer. Perco alguns dias a pensar no que será e não chego a nenhuma conclusão. Mas sinto nesta terra uma vontade. É algo diferente desse infernal acampamento de Godorico onde conheci a verdadeira selvajaria dos bárbaros. Lutércia tem árvores altas e chãos fecundos e o mar é tão forte que o seu cheiro chega até aqui nas brisas das manhãs de Primavera.
Xenofonte levou-me a ver o mar. Esse grego velho que eu vi nascer e que é mais velho do que eu é o meu bordão de todas as horas. Na sua paciência infinita preparou tudo e num dia de Junho do ano passado meteu a sua senhora num carro e levou-me. Não te digo quantos dias levei porque prefiro acreditar que não sei esse número e que não os contei. Deixa-me que te fale do mar. Tu andaste nos barcos, mas alguma vez viste a fúria do mar? Quem pode, no resguardo do comandante, onde nos enfiam, ver a verdadeira fúria do mar? Pois eu te digo que o mar dos gauleses é solto e livre, como no fundo também eles, e que a vida de cem imperadores não bastaria para domá-lo. E prefiro que seja assim, que haja algo que fugiu à Ordem e à Norma. Não penses que me perdi nos excessos do orientalismo. Confesso-te, contudo, que gosto de ouvir os magos dos gauleses, a quem eles chamam druídas, e que tenho aprendido muito com eles. Falam-me de coisas distantes de nós e os seus deuses não são senão alma e alheios aos caprichos. Não seria melhor acreditar em deuses assim? Não penses também que aderi ao seu culto, no entanto, ou pior que virei cristã. Não. Cultivei um único ódio na vida e esse foi o ódio pelos cristãos. Não desejo nada de bom a esses semitas sujos e ao seu deus crucificado. Os cristãos trariam mais Norma do que Ordem. Se morro feliz com a idade a que cheguei uma das razões é saber que não serão precisos mais que dez imperadores, ou menos ainda, para que os nomes dessa gente nunca mais sejam escritos.
Mas fecha os olhos agora e não ouças mais os delírios desta velha. Não estou cansada da vida, mas estou já um pouco cansada de ir morrendo. Não sei se verei as folhas caírem e nascerem de novo nas grandes árvores de Lutércia e por certo Xenofonte é agora tão velho que, ainda que quisesse, não me poderia mais levar a ver o mar. E não, não voltarei a Roma. Queres que morra como uma grande matrona num leito de seda do grande palácio que construíste na Urbe? Perdoa o orgulho de uma velha que lhe toma a melhor, mas digo-te não. Uma coisa gostava no entanto, de ver-te outra vez e poisar a minha mão sobre o teu rosto. Também estás velho agora? Quantos anos passaram por ti desde que o meu rapaz se tornou um grande general do Império? Não me digas quantos pois prefiro fingir que os não contei.
Anseio apenas que na tua idade ainda não tenhas aprendido a dizer não como eu aprendi e que sejas tu a aceder ao meu pedido. Vem pelo caminho mais seguro, mas vem depressa, meu filho. Não que morra já, mas porque desejo mais que tudo ter-te a meu lado novamente.
Encontrei, nos campos de Lutércia, uma paz que nunca esperei e talvez por isso ela me saiba tanto melhor. Sei que os romanos urbanizados da grande Urbe acham estas terras selvagens e ermas. Não selvagens, mas virgens. Há qualquer coisa aqui que pode nascer. Perco alguns dias a pensar no que será e não chego a nenhuma conclusão. Mas sinto nesta terra uma vontade. É algo diferente desse infernal acampamento de Godorico onde conheci a verdadeira selvajaria dos bárbaros. Lutércia tem árvores altas e chãos fecundos e o mar é tão forte que o seu cheiro chega até aqui nas brisas das manhãs de Primavera.
Xenofonte levou-me a ver o mar. Esse grego velho que eu vi nascer e que é mais velho do que eu é o meu bordão de todas as horas. Na sua paciência infinita preparou tudo e num dia de Junho do ano passado meteu a sua senhora num carro e levou-me. Não te digo quantos dias levei porque prefiro acreditar que não sei esse número e que não os contei. Deixa-me que te fale do mar. Tu andaste nos barcos, mas alguma vez viste a fúria do mar? Quem pode, no resguardo do comandante, onde nos enfiam, ver a verdadeira fúria do mar? Pois eu te digo que o mar dos gauleses é solto e livre, como no fundo também eles, e que a vida de cem imperadores não bastaria para domá-lo. E prefiro que seja assim, que haja algo que fugiu à Ordem e à Norma. Não penses que me perdi nos excessos do orientalismo. Confesso-te, contudo, que gosto de ouvir os magos dos gauleses, a quem eles chamam druídas, e que tenho aprendido muito com eles. Falam-me de coisas distantes de nós e os seus deuses não são senão alma e alheios aos caprichos. Não seria melhor acreditar em deuses assim? Não penses também que aderi ao seu culto, no entanto, ou pior que virei cristã. Não. Cultivei um único ódio na vida e esse foi o ódio pelos cristãos. Não desejo nada de bom a esses semitas sujos e ao seu deus crucificado. Os cristãos trariam mais Norma do que Ordem. Se morro feliz com a idade a que cheguei uma das razões é saber que não serão precisos mais que dez imperadores, ou menos ainda, para que os nomes dessa gente nunca mais sejam escritos.
Mas fecha os olhos agora e não ouças mais os delírios desta velha. Não estou cansada da vida, mas estou já um pouco cansada de ir morrendo. Não sei se verei as folhas caírem e nascerem de novo nas grandes árvores de Lutércia e por certo Xenofonte é agora tão velho que, ainda que quisesse, não me poderia mais levar a ver o mar. E não, não voltarei a Roma. Queres que morra como uma grande matrona num leito de seda do grande palácio que construíste na Urbe? Perdoa o orgulho de uma velha que lhe toma a melhor, mas digo-te não. Uma coisa gostava no entanto, de ver-te outra vez e poisar a minha mão sobre o teu rosto. Também estás velho agora? Quantos anos passaram por ti desde que o meu rapaz se tornou um grande general do Império? Não me digas quantos pois prefiro fingir que os não contei.
Anseio apenas que na tua idade ainda não tenhas aprendido a dizer não como eu aprendi e que sejas tu a aceder ao meu pedido. Vem pelo caminho mais seguro, mas vem depressa, meu filho. Não que morra já, mas porque desejo mais que tudo ter-te a meu lado novamente.
sexta-feira, outubro 12, 2007
Jantar do conde e do general
O criado fechou a porta. Entram minutos que se vão arrastar até determinadas infinitudes antes que o criado a volte a abrir. É um ritual longo, mas sobretudo arrastado pelo tempo que se prepara. Não há música e quem fosse atento diria não haver respiração. Apenas o toque constante e confuso do relógio sobre o mármore da madeira no tic-taquear infinito do tempo que guarda. São oito horas exactas e é de noite. Talvez seja Novembro. Se for, em meses será Primavera e quando os ponteiros chegarem ali será de dia. Mas serão sempre oito horas. Sem estações, sem manhãs ou noites e quase sempre sem tempo.
O general não é um homem velho. Alguma coisa acabou nele há muito tempo, ainda assim. Dir-se-ia dele o resultado dos estragos que os anos trazem, mais do que provocam. Foi um homem duro que se deixou vencer pelas durezas da vida. Vive numa lucidez que só em si é lúcida e o grande espelho por cima da lareira devolve-lhe uma imagem que só ele vê. Outros veriam um homem alto e de meia-idade. Ele verá coisas que não podemos saber. Não vemos com os seus olhos.
O conde já lá está, sentado para as janelas, perdido numa poltrona qualquer da sala. Nunca é a mesma. Há-de se sentar em todas para que o general entenda que não se pode sentar em nenhuma. Existe cada vez mais elegante, cada vez mais artificial na esperança de alguma vez existir para ele. Os olhos do general estarão sempre fixados no espelho sobre a lareira. A cada ruga uma razão, a cada traço um motivo, a cada gesto a certeza de que nada mudou. Ainda que o conde use um magnífico colete em seda selvagem pouco lhe importa. É um esforço que não há-de fazer. Um esforço que também há de ter retorno. Quantas vezes, no prolongar dum ritual vazio de sentido, tentou o conde encontrar o outro reflexo no reflexo do general?
Sentam-se. A mesa em toda a elegância da etiqueta gela o que já de si é menos que morno. Nada para o aproximar. Tudo para o espantar. Cada espaço ocupado no desejo de um olhar que se desprenda do espelho. Mas porque há-de ele olhar para outro lado que não para o espelho? Que há dele nesta sala senão o seu próprio retrato inventado na devolução do reflexo? O conde nunca olha para o espelho. Não para aquele, ou não para aquele como se fosse aquele. São tantos os seus espelhos nos seus corredores da sua casa que repetem a sua imagem cada dia mais magnífica. Um homem que veste um colete bordeaux de seda selvagem há-de ser realmente esplêndido. Que lhe interessa o reflexo? Que interesse pode ter para o general a extravagância palerma dum colete bordeaux?
A sala é ampla e branca em seus contornos. A mesa fica para lá da porta e para cá das duas poltronas que enfrentam a lareira, as janelas, o jardim. Mas as cortinas foram corridas pelo criado quando o conde se levantou. O criado já serve há muito tempo. Frente a frente o conde e o general trocam expressões delicadas. Um há-de mostrar ao outro que aquele é o seu espaço. O outro nem sequer se lembrará de pensar nisso durante todo o jantar. O olhar reprovador do general recai sobre o prato quase cheio do conde, mas mais sobre os talheres cruzados. Será que percebe que o conde lhe devolve um olhar de raiva? (Será que ambos sabem que se destroem no terror das coisas breves que se calam?)
Que criança parva é esta que brinca às bonecas neste palácio de muitas salas que a sorte mais que a morte da mãe lhe deixou? Que homem frio é este que nada sabe dos outros, ou dele ainda que fosse?
Apenas dele, nem que fosse apenas dele. Uma tarde. Que bom seria Abril. O jardim. Uma mesa lá fora. O gosto bucólico das conversas banais. Depois um abraço, um recanto. Algo onde se esconder. Ele que o protegesse.
No vai-e-vem do garfo há-de pensar que criança pequena que não soube crescer.
Não há lugar para coisas idealizadas. Não há lugar para bucolismos. Não há espaço para abraços. Há só o ar pesado e sufocante da sala. O barulho ensurdecedor do relógio. O arrastar mais que lento do tempo. A dor que os dois pagam para estar aqui. Frente a frente- o conde e o general, no braço de ferro das emoções. Que não se chegue ao outro nunca, que não se diga nunca nada. Que nesta sala não haja lugar para fraquezas.
(E se ainda assim ele visse alguma coisa no espelho. E se ainda assim ele reparasse no colete bordeaux.)
O relógio já bateu horas. O tictaquear dos tempos é mais lento, mais calmo, mas constante. Já quase se pode respirar. O conde levanta-se, o general também. Olham-se, estão frente a frente- o conde e o general. É a hora das palavras:
-Então até à próxima quarta.
-Até à próxima quarta, pai.
O general não é um homem velho. Alguma coisa acabou nele há muito tempo, ainda assim. Dir-se-ia dele o resultado dos estragos que os anos trazem, mais do que provocam. Foi um homem duro que se deixou vencer pelas durezas da vida. Vive numa lucidez que só em si é lúcida e o grande espelho por cima da lareira devolve-lhe uma imagem que só ele vê. Outros veriam um homem alto e de meia-idade. Ele verá coisas que não podemos saber. Não vemos com os seus olhos.
O conde já lá está, sentado para as janelas, perdido numa poltrona qualquer da sala. Nunca é a mesma. Há-de se sentar em todas para que o general entenda que não se pode sentar em nenhuma. Existe cada vez mais elegante, cada vez mais artificial na esperança de alguma vez existir para ele. Os olhos do general estarão sempre fixados no espelho sobre a lareira. A cada ruga uma razão, a cada traço um motivo, a cada gesto a certeza de que nada mudou. Ainda que o conde use um magnífico colete em seda selvagem pouco lhe importa. É um esforço que não há-de fazer. Um esforço que também há de ter retorno. Quantas vezes, no prolongar dum ritual vazio de sentido, tentou o conde encontrar o outro reflexo no reflexo do general?
Sentam-se. A mesa em toda a elegância da etiqueta gela o que já de si é menos que morno. Nada para o aproximar. Tudo para o espantar. Cada espaço ocupado no desejo de um olhar que se desprenda do espelho. Mas porque há-de ele olhar para outro lado que não para o espelho? Que há dele nesta sala senão o seu próprio retrato inventado na devolução do reflexo? O conde nunca olha para o espelho. Não para aquele, ou não para aquele como se fosse aquele. São tantos os seus espelhos nos seus corredores da sua casa que repetem a sua imagem cada dia mais magnífica. Um homem que veste um colete bordeaux de seda selvagem há-de ser realmente esplêndido. Que lhe interessa o reflexo? Que interesse pode ter para o general a extravagância palerma dum colete bordeaux?
A sala é ampla e branca em seus contornos. A mesa fica para lá da porta e para cá das duas poltronas que enfrentam a lareira, as janelas, o jardim. Mas as cortinas foram corridas pelo criado quando o conde se levantou. O criado já serve há muito tempo. Frente a frente o conde e o general trocam expressões delicadas. Um há-de mostrar ao outro que aquele é o seu espaço. O outro nem sequer se lembrará de pensar nisso durante todo o jantar. O olhar reprovador do general recai sobre o prato quase cheio do conde, mas mais sobre os talheres cruzados. Será que percebe que o conde lhe devolve um olhar de raiva? (Será que ambos sabem que se destroem no terror das coisas breves que se calam?)
Que criança parva é esta que brinca às bonecas neste palácio de muitas salas que a sorte mais que a morte da mãe lhe deixou? Que homem frio é este que nada sabe dos outros, ou dele ainda que fosse?
Apenas dele, nem que fosse apenas dele. Uma tarde. Que bom seria Abril. O jardim. Uma mesa lá fora. O gosto bucólico das conversas banais. Depois um abraço, um recanto. Algo onde se esconder. Ele que o protegesse.
No vai-e-vem do garfo há-de pensar que criança pequena que não soube crescer.
Não há lugar para coisas idealizadas. Não há lugar para bucolismos. Não há espaço para abraços. Há só o ar pesado e sufocante da sala. O barulho ensurdecedor do relógio. O arrastar mais que lento do tempo. A dor que os dois pagam para estar aqui. Frente a frente- o conde e o general, no braço de ferro das emoções. Que não se chegue ao outro nunca, que não se diga nunca nada. Que nesta sala não haja lugar para fraquezas.
(E se ainda assim ele visse alguma coisa no espelho. E se ainda assim ele reparasse no colete bordeaux.)
O relógio já bateu horas. O tictaquear dos tempos é mais lento, mais calmo, mas constante. Já quase se pode respirar. O conde levanta-se, o general também. Olham-se, estão frente a frente- o conde e o general. É a hora das palavras:
-Então até à próxima quarta.
-Até à próxima quarta, pai.
sábado, agosto 25, 2007
Tarde de Primavera numa sala de retratos
Para o Ricardo Proença que me pediu uma coisa assim.
Há uma sala velha. As paredes estão pintadas de novo. Creme. Em tempos foram cor-de-rosa. No pequeno sofá semi-curvo e de canto, que também é rosa, as molas saem por debaixo do acento. Um número pouco certo e certamente alternado de almofadas esconde o que falta. Guardam em si desenhos a ponto cruz da vida oriental. Buscam conforto em coisas que não existem. Há duas senhorinhas: uma ao lado do sofá, a outro no outro canto da sala. Há também cadeiras. Tudo é rosa e tudo tem as molas a sair.
Na senhorinha do canto da sala está sentada uma mulher mais ou menos velha. Tem os cabelos longos como as suas pernas e um vestido de veludo púrpura cobre-lhe os pés como um mar. Os cabelos debatem-se entre o louro e o branco evidente. Tem de volta do pescoço um fio de lã. Faz crochet. No sofá há uma velha realmente velha. Magra, cadavérica. Os braços, que são ossos, estão destendidos sobre o sofá. Usa um vestido leve de flores. Ao piano, que fica na outra parede da sala, uma criança de dez anos toca uma sonatina furiosa. Tem os cabelos em ouro, molhados e ondulados e veste um fato de banho. Toca com uma calma complacente, mas a música que sae do piano é imensa.
A sala é pejada de retratos antigos a preto e branco. Nos dois maiores uma senhora e um senhor olham-se e cumprimentam-se. Não têm braços com que se tocar. Lamentam-se. Noutro decorre um piquenique. Uma rajada de vento ameaça fazer voar os chapéus de pluma das elegantes senhoras que seguram os chapéus com uma mão e as saias com a outra. Um rapaz de fato à maruja olha curioso para as saias das primas. O bebé que está no outro retrato cai e chora por uma mãe que não lhe pode valer, por não existir naquele mesmo espaço. A noiva do retrato pequeno rasga o vestido contra a mão imperiante do marido complacente e espectante. O comendador assusta-se com o bolor que já lhe come as pernas no seu retrato.
De súbito, a mulher mais ou menos velha suspira:
- A Primavera outra vez.
A velha do sofá parece despertar por um segundo para voltar a ficar absorta outra vez. As figuras dos retratos descobrem-se. Cumprimentam-se, parentes que não se veem há muito tempo. Talvez há tempo demais. O bebé pára de chorar vendo a mãe e o pai que lhe vão fazendo caretas que divertem todos. Todos riem. As três mulheres na sala não estão ausentes, mas distantes da cena. Permanecem. Trocam-se estórias, anedotas de salão e novidades de coisas que podem ter-se passado há um século.
A Primavera entra pela sala. As cortinas brancas tornam-se imensas até cobrirem tudo. Há o silêncio. Um silêncio feliz de quem viveu muito.
As cortinas retornam. A sala continua velha e pintada de novo. A criança terminou a sonatina. Já nenhuma das três tem um ar fantasmagórico e já não existem cabelos estendidos até ao joelho. Uma mulher de sessenta anos bem passados põem a mão sobre o ombro da criança:
- Vamos lanchar? Há refresco de maracujá, sussurra como um segredo.
-E a Titi, perguntam os olhos da criança num tom naturalmente subido.
-Adormeceu.
As duas contemplam a mulher nonagenária que dorme ausente no sofá. Saem por uma porta. A velha fica a dormir com a cortina esvoaçando.
Há uma sala velha. As paredes estão pintadas de novo. Creme. Em tempos foram cor-de-rosa. No pequeno sofá semi-curvo e de canto, que também é rosa, as molas saem por debaixo do acento. Um número pouco certo e certamente alternado de almofadas esconde o que falta. Guardam em si desenhos a ponto cruz da vida oriental. Buscam conforto em coisas que não existem. Há duas senhorinhas: uma ao lado do sofá, a outro no outro canto da sala. Há também cadeiras. Tudo é rosa e tudo tem as molas a sair.
Na senhorinha do canto da sala está sentada uma mulher mais ou menos velha. Tem os cabelos longos como as suas pernas e um vestido de veludo púrpura cobre-lhe os pés como um mar. Os cabelos debatem-se entre o louro e o branco evidente. Tem de volta do pescoço um fio de lã. Faz crochet. No sofá há uma velha realmente velha. Magra, cadavérica. Os braços, que são ossos, estão destendidos sobre o sofá. Usa um vestido leve de flores. Ao piano, que fica na outra parede da sala, uma criança de dez anos toca uma sonatina furiosa. Tem os cabelos em ouro, molhados e ondulados e veste um fato de banho. Toca com uma calma complacente, mas a música que sae do piano é imensa.
A sala é pejada de retratos antigos a preto e branco. Nos dois maiores uma senhora e um senhor olham-se e cumprimentam-se. Não têm braços com que se tocar. Lamentam-se. Noutro decorre um piquenique. Uma rajada de vento ameaça fazer voar os chapéus de pluma das elegantes senhoras que seguram os chapéus com uma mão e as saias com a outra. Um rapaz de fato à maruja olha curioso para as saias das primas. O bebé que está no outro retrato cai e chora por uma mãe que não lhe pode valer, por não existir naquele mesmo espaço. A noiva do retrato pequeno rasga o vestido contra a mão imperiante do marido complacente e espectante. O comendador assusta-se com o bolor que já lhe come as pernas no seu retrato.
De súbito, a mulher mais ou menos velha suspira:
- A Primavera outra vez.
A velha do sofá parece despertar por um segundo para voltar a ficar absorta outra vez. As figuras dos retratos descobrem-se. Cumprimentam-se, parentes que não se veem há muito tempo. Talvez há tempo demais. O bebé pára de chorar vendo a mãe e o pai que lhe vão fazendo caretas que divertem todos. Todos riem. As três mulheres na sala não estão ausentes, mas distantes da cena. Permanecem. Trocam-se estórias, anedotas de salão e novidades de coisas que podem ter-se passado há um século.
A Primavera entra pela sala. As cortinas brancas tornam-se imensas até cobrirem tudo. Há o silêncio. Um silêncio feliz de quem viveu muito.
As cortinas retornam. A sala continua velha e pintada de novo. A criança terminou a sonatina. Já nenhuma das três tem um ar fantasmagórico e já não existem cabelos estendidos até ao joelho. Uma mulher de sessenta anos bem passados põem a mão sobre o ombro da criança:
- Vamos lanchar? Há refresco de maracujá, sussurra como um segredo.
-E a Titi, perguntam os olhos da criança num tom naturalmente subido.
-Adormeceu.
As duas contemplam a mulher nonagenária que dorme ausente no sofá. Saem por uma porta. A velha fica a dormir com a cortina esvoaçando.
quarta-feira, agosto 08, 2007
Conto de Servília (1ª parte)- Corpus et Verbum
O conto de Servília baseia-se na minha leitura de As memórias de Adriano de Marguerite Yourcenar. Não tem assim nada de original na sua essência. Contudo, também não foi minha intenção plagiar a autora. O que aqui se apresenta é o resultado do acto fenomenológico da escrita.
Maruliano meu avô acreditava nos astros. Gastou os últimos dias de uma vida calma perdido no seu observatório achando pela primeira vez para si astros que outros haviam encontrado. Foi nesses anos de criança e com Maruliano que me apercebi da importância de descobrirmos em nós mesmos aquilo que já outros descobriram. Só aí é que as coisas passam a ser verdadeiramente nossas. Foi debaixo da sua capa que encontrei o mundo que ficava do outro lado do portão da nossa villa. O mercado era o centro buliçoso da cidade e como todos os lugares de negócio era interdito às mulheres. Só àquelas que não podiam traçar os seus antepassados até épocas longínquas é que se permitia perderem os dias atrás de uma banca qualquer. Mais tarde apercebi-me da diferença entre quem compra e quem vende: o vendedor pode até exercer uma certa pressão sobre o comprador, mas quem vende precisa desesperadamente mais de quem compra do que o contrário. Esta verdade revelou-se-me ao longo dos anos nas caras dos muitos mercadores que encontrei pelos mercados onde estive.
Não sei se alguma vez acreditei nos astros. De resto, isso foi de pouca importância no correr da minha vida. Era mulher demais para me dedicar à astronomia, era patrícia demais para me perder na astrologia. Encontrei-me em outros campos. O meu corpo foi o primeiro e o mais importante. Nunca fui capaz de amá-lo porque nunca fui capaz de entender essa filosofia que encontra no corpo um ser ao mesmo tempo estranho e íntimo, companheiro de jornada, exterior a nós mesmos. Só os homens podem amar os seus corpos porque só eles podem procurar a sua ascese. As mulheres não têm tempo para isso. A sua sobrevivência insiste num jogo diário que decide quem ganha e quem perde, quem continua e quem cessa de existir. Ao meu corpo domei-o sempre sob jugo forte.
Adriano, meu primo, amou os corpos nessa profundidade filosófica. Encontrei sempre beleza nas suas palavras, mas já não fui capaz de a reconhecer nos corpos que teimava em divinizar. Adriano, meu imperador, gabou-se de ter melhorado a vida das mulheres. Nunca lhe censurei esta vã-glória. Era a sua condição natural de homem e não algo que ele pudesse contornar que o impedia de ver o breve alcance das suas leis. Também não tentei explicar-lho nas muitas cartas que trocámos. Não é para o mundo dos homens perceber o mundo das mulheres. Os homens andam por estradas longas e abertas, as estradas com que construíram o mundo. As mulheres movem-se por becos tortuosos, quase sempre sem saída. Tão tortuosos que atrevo-me a dizer que é mais difícil morrer velha e patrícia em Roma que velho e imperador. O casamento e a minha partida para o Lácio trouxeram-me a certeza de que não há lugar para as mulheres no mundo que é Roma. Mesmo as grandes patrícias devem nascer sob a sombra paterna, viver sob a sombra matrimonial e morrer sob a sombra dos filhos. A glória que foi reservada a algumas não foi senão o resto da glória dos homens a quem se ligaram e que tantas vezes ajudaram a construir.
Foi esta certeza da minha dificuldade de mulher que me fez olhar para o meu corpo. Tirei dele tudo o que ele me pôde dar. Tive a sorte, mais que a inteligência, de ter tido olhos sempre tão claros como os espelhos que me reflectiam e vontade de me ver neles. Soube pesar o tempo em medidas tão exactas que pude usar o meu corpo consoante cada época que a vida me trouxe. Na minha juventude levei-o em jogos perigosos de sedução em que se promete nada, perde-se muito e compromete-se tudo. Mas soube orientá-lo bem nos sentidos que me interessavam e não houve homem, enquanto a minha pele foi fresca, que me tenha resistido. Cedi poucas vezes às tentações do corpo. Talvez tenha sido o bocado de estoicismo que me sobrou da minha educação: não aceitei nenhum senhor, nem mesmo esse. Lamento-me, no entanto, dessas fraquezas que me seriam breves de esquecer não fosse a imensa vergonha que me trazem. Essas são as cicatrizes do meu corpo.
Hoje tenho a certeza, que também já esboçava na altura, de que o meu corpo foi o meu melhor aliado político nas poucas ambições que tive com o meu marido. Achei sempre extraordinário que duas criaturas que nutriam uma profunda indiferença uma pela outra se entendessem tão bem na política. Talvez porque ele tivesse a masculinidade necessária e eu o conhecimento induzido dum mundo tão parecido com o das mulheres. Não acho que seja por acaso que a palavra política é feminina. Tivémos os dois uma ambição medida e sem grandezas e sobretudo uma consciência clara da nossa posição enquanto primos do imperador. De quase nada valia em Roma o nosso parentesco com Adriano a não ser para nos granjear inimigos que quase nunca conhecemos em aberto, mas contra os quais tivemos que lutar até ao fim da vida. De resto, em Roma nunca conheci diferença entre ter-se a cabeça a prémio ou ostentar-se o título imperial.
Maruliano meu avô acreditava nos astros. Gastou os últimos dias de uma vida calma perdido no seu observatório achando pela primeira vez para si astros que outros haviam encontrado. Foi nesses anos de criança e com Maruliano que me apercebi da importância de descobrirmos em nós mesmos aquilo que já outros descobriram. Só aí é que as coisas passam a ser verdadeiramente nossas. Foi debaixo da sua capa que encontrei o mundo que ficava do outro lado do portão da nossa villa. O mercado era o centro buliçoso da cidade e como todos os lugares de negócio era interdito às mulheres. Só àquelas que não podiam traçar os seus antepassados até épocas longínquas é que se permitia perderem os dias atrás de uma banca qualquer. Mais tarde apercebi-me da diferença entre quem compra e quem vende: o vendedor pode até exercer uma certa pressão sobre o comprador, mas quem vende precisa desesperadamente mais de quem compra do que o contrário. Esta verdade revelou-se-me ao longo dos anos nas caras dos muitos mercadores que encontrei pelos mercados onde estive.
Não sei se alguma vez acreditei nos astros. De resto, isso foi de pouca importância no correr da minha vida. Era mulher demais para me dedicar à astronomia, era patrícia demais para me perder na astrologia. Encontrei-me em outros campos. O meu corpo foi o primeiro e o mais importante. Nunca fui capaz de amá-lo porque nunca fui capaz de entender essa filosofia que encontra no corpo um ser ao mesmo tempo estranho e íntimo, companheiro de jornada, exterior a nós mesmos. Só os homens podem amar os seus corpos porque só eles podem procurar a sua ascese. As mulheres não têm tempo para isso. A sua sobrevivência insiste num jogo diário que decide quem ganha e quem perde, quem continua e quem cessa de existir. Ao meu corpo domei-o sempre sob jugo forte.
Adriano, meu primo, amou os corpos nessa profundidade filosófica. Encontrei sempre beleza nas suas palavras, mas já não fui capaz de a reconhecer nos corpos que teimava em divinizar. Adriano, meu imperador, gabou-se de ter melhorado a vida das mulheres. Nunca lhe censurei esta vã-glória. Era a sua condição natural de homem e não algo que ele pudesse contornar que o impedia de ver o breve alcance das suas leis. Também não tentei explicar-lho nas muitas cartas que trocámos. Não é para o mundo dos homens perceber o mundo das mulheres. Os homens andam por estradas longas e abertas, as estradas com que construíram o mundo. As mulheres movem-se por becos tortuosos, quase sempre sem saída. Tão tortuosos que atrevo-me a dizer que é mais difícil morrer velha e patrícia em Roma que velho e imperador. O casamento e a minha partida para o Lácio trouxeram-me a certeza de que não há lugar para as mulheres no mundo que é Roma. Mesmo as grandes patrícias devem nascer sob a sombra paterna, viver sob a sombra matrimonial e morrer sob a sombra dos filhos. A glória que foi reservada a algumas não foi senão o resto da glória dos homens a quem se ligaram e que tantas vezes ajudaram a construir.
Foi esta certeza da minha dificuldade de mulher que me fez olhar para o meu corpo. Tirei dele tudo o que ele me pôde dar. Tive a sorte, mais que a inteligência, de ter tido olhos sempre tão claros como os espelhos que me reflectiam e vontade de me ver neles. Soube pesar o tempo em medidas tão exactas que pude usar o meu corpo consoante cada época que a vida me trouxe. Na minha juventude levei-o em jogos perigosos de sedução em que se promete nada, perde-se muito e compromete-se tudo. Mas soube orientá-lo bem nos sentidos que me interessavam e não houve homem, enquanto a minha pele foi fresca, que me tenha resistido. Cedi poucas vezes às tentações do corpo. Talvez tenha sido o bocado de estoicismo que me sobrou da minha educação: não aceitei nenhum senhor, nem mesmo esse. Lamento-me, no entanto, dessas fraquezas que me seriam breves de esquecer não fosse a imensa vergonha que me trazem. Essas são as cicatrizes do meu corpo.
Hoje tenho a certeza, que também já esboçava na altura, de que o meu corpo foi o meu melhor aliado político nas poucas ambições que tive com o meu marido. Achei sempre extraordinário que duas criaturas que nutriam uma profunda indiferença uma pela outra se entendessem tão bem na política. Talvez porque ele tivesse a masculinidade necessária e eu o conhecimento induzido dum mundo tão parecido com o das mulheres. Não acho que seja por acaso que a palavra política é feminina. Tivémos os dois uma ambição medida e sem grandezas e sobretudo uma consciência clara da nossa posição enquanto primos do imperador. De quase nada valia em Roma o nosso parentesco com Adriano a não ser para nos granjear inimigos que quase nunca conhecemos em aberto, mas contra os quais tivemos que lutar até ao fim da vida. De resto, em Roma nunca conheci diferença entre ter-se a cabeça a prémio ou ostentar-se o título imperial.
Talvez esta fosse uma razão secreta para Adriano ter estado tão pouco tempo em Roma, perdido nos seus ímpetos criadores. Ou talvez porque foi o primeiro homem a aperceber-se que Roma era já todo o mundo aonde chegavam as estradas e o latim e não mais essa capital, em tanto já decadente, que agonizava longe dos seus adorados Júlios e Antónios, esses patrícios que traçavam as suas ascendências além da realeza até aos casamentos celestes. Não havia lugar na Urbe para os imperadores nascidos de homens. Esses tinham o seu lugar nas estradas que saem das sete colinas a construir o mundo novo. Adriano soube-o melhor que outros.
Os meus receios políticos ligaram-me desde o início a Plotina, a imperatriz de Trajano, e a quem Adriano me recomendara. Quando a conheci Plotina vivia já nessa casa pequena onde morreu à margem da cidade e à margem da vida. Trajava nos seus véus de luto a única soberba que lhe conheci: a de ser uma matrona romana dos tempos da Respublica. A sua vida marginal não fez dela na sua viuvez, no entanto, uma mulher desatenta do mundo. O espaço da sua casa tinha o tamanho dos seus aposentos no palácio imperial. Confessou-me mais tarde que isto não se devia ao acaso e menos ainda à humildade: este era o espaço preciso em que se habituara a governar. Com Plotina entrei realmente no mundo das mulheres. No mundo das mulheres encontrei os limites do meu corpo e aprendi com dura facilidade que o que nos ganha o mundo dos homens perde-nos quando o mundo passa a ser no feminino. O nosso não é um mundo de corpos, mas da palavra. O mundo das mulheres é o mundo da palavra. O dos homens o mundo das palavras. Os homens, que são senhores do tempo, podem perder-se na busca ascética que cada palavra encerra num significado único que a singulariza e a torna ao mesmo tempo distante e próxima das outras palavras igualmente únicas. Para nós, que vivemos de bocados de tempo, cada palavra encerra o significado do universo. É preciso ter a atenção das mãos que vagueiam pelo tear na escuta das palavras das mulheres. As suas palavras são um código antigo de múltiplos significados em poucos significantes. O instante da palavra mal entendida pode deitar a perder o mundo de uma mulher.
Os meus receios políticos ligaram-me desde o início a Plotina, a imperatriz de Trajano, e a quem Adriano me recomendara. Quando a conheci Plotina vivia já nessa casa pequena onde morreu à margem da cidade e à margem da vida. Trajava nos seus véus de luto a única soberba que lhe conheci: a de ser uma matrona romana dos tempos da Respublica. A sua vida marginal não fez dela na sua viuvez, no entanto, uma mulher desatenta do mundo. O espaço da sua casa tinha o tamanho dos seus aposentos no palácio imperial. Confessou-me mais tarde que isto não se devia ao acaso e menos ainda à humildade: este era o espaço preciso em que se habituara a governar. Com Plotina entrei realmente no mundo das mulheres. No mundo das mulheres encontrei os limites do meu corpo e aprendi com dura facilidade que o que nos ganha o mundo dos homens perde-nos quando o mundo passa a ser no feminino. O nosso não é um mundo de corpos, mas da palavra. O mundo das mulheres é o mundo da palavra. O dos homens o mundo das palavras. Os homens, que são senhores do tempo, podem perder-se na busca ascética que cada palavra encerra num significado único que a singulariza e a torna ao mesmo tempo distante e próxima das outras palavras igualmente únicas. Para nós, que vivemos de bocados de tempo, cada palavra encerra o significado do universo. É preciso ter a atenção das mãos que vagueiam pelo tear na escuta das palavras das mulheres. As suas palavras são um código antigo de múltiplos significados em poucos significantes. O instante da palavra mal entendida pode deitar a perder o mundo de uma mulher.
quinta-feira, março 08, 2007
Conto de Gustavo-II
Para Daniela Brigue Varela, que sente como eu. Para Filipa Tereno Nunes, que me lê como uma transparência. Para Maria Ribeiro Braga, cuja extraordinária beleza e tocante delicadeza me inspiraram.
O trânsito não avança. O relógio do carro mostra 14:11. No visor do telemóvel que começou agora a tocar pisca o nome de Artur.
-Sim?
-Olha, falei agora com a tua irmã Teresa, por causa de vir cá deixar os miúdos. Ela disse que não tinhas passado por lá.
-Sim, é verdade. Acabei por não ir lá a casa. Se eu te disser onde fui zangas-te?
-Foste aos Penedos outra vez ver os teus fantasmas!
-Sabes que não gosto nada quando falas assim. Precisava de lá ir. Precisava de ver as coisas para sentir a ausênsia das coisas.
-Eu só não sei se com essa poesia toda tu precisas de te despedir das pessoas ou da segurança que essas pessoas te transmitiam.
-Olha, quando um GNR me mandar parar o carro queres que lhe peça um tempo para te responder, ou passo-lhe o telefone para ser ele a resolver essa tua dúvida filosófica?
-Espirituoso! Ainda estás nos Penedos?
-Não. Estou parado no IC 19. Acreditas que esta porra tem trânsito a esta hora?
-Eu não acreditava era se não tivesse trânsito!
-É verdade, Artur, tu não te importas mesmo de ficar com os miúdos?
-Não me importo nada Gustavo. Tu sabes que eu adoro ficar com os teus sobrinhos.
-Então está bem. Aquilo deve acabar lá para as cinco, cinco e meia. Passamos aí por casa depois para tomar qualquer coisa: eu, a Teresa, o Inácio e o Miguel.
-Vá então, beijo.
-Outro.
Havia sempre este conflito entre os dois: os Penedos. Desde que a avó morrera há menos de dois anos que Gustavo ia pelo menos duas vezes por mês aos Penedos, a quinta dos avós em Colares.
A quinta tinha sido mandada construir por um dos vários ilustres antepassados de Gustavo lá para meados dos século XIX quando Sintra, e por acréscimo Colares, se tornaram local de férias da Família Real e logo a zona chique de veraneio a par de Cascais. Agora, com os avós mortos, a quinta restava fechada e de certa forma abandonada, não por desmazelo da família, mas por dor, uma dor imensa que atravessava todos uma vez que para eles aquele lugar não existia separado da presença dos seus patriarcais donos. Era agora uma coisa quase romântica, uma ruína deixada ao acaso, mas carregada de memórias e de imagens. Gustavo era o único que se aventurava com tanta frequência para além do grande portão de ferro dos Penedos. O que ia lá buscar nem ele mesmo sabia. Dizia a si próprio que ia despedir-se dos avós e sentir nos móveis e nos objectos que ficaram a ausência daqueles que haviam partido. Mas ao fim deste tempo, e ainda que não o chegasse a confessar, tinha que admitir que Artur estava de certa forma certo. Mas não inteiramente. É verdade que não se conseguia desligar do conforto e da segurança que aquele lugar lhe oferecia, da maneira como o transportava para o tempo idílico da infância. Mas também, por outro lado havia tanta coisa para lembrar ali. Era tudo tão mais complexo e difícil do que aquilo que Artur punha em palavras. Estava tudo tão emaranhado dentro dele. Era quase como decidir por ficar com a melhor metade de um quadro e deixar a outra para trás- simplesmente não é possível, temos que levar tudo.
Abrir o portão era sempre um rito que o gosto teatral de Gustavo por estas situações tornava ainda mais magnânimo. Era um amor pelo exagero de certa forma escondido que Gustavo só revelava a si próprio nestas coisas e que só os mais íntimos, como Artur, eram capazes de ler nele. Seguia pelas escadas que davam à entrada principal. Entrar era mais do que voltar a casa, era voltar atrás no tempo. O seu amor pelo exagero e pela grandeza atraía-o para os grandes salões da casa. Abria logo as janelas, mas deixava as cortinas corridas para que fosse tudo a média-luz, na criação de um espaço que ele queria e sabia onírico. Na sala principal da casa parava muito tempo sentado numa das poltronas frente à lareira que tinha, um de cada lado, os retratos da avó e do avô, ela de vestido comprido, ele com o seu traje de cavaleiro da Jarrateira. Antes havia sempre um ramo de flores frescas que Jacinto, o filho do jardineiro, colhia no jardim de três em três dias e punha no grande jarrão setecentista que ficava em cima da lareira. A avó adorava flores. Gustavo adorava flores. E lá restavam nesse mesmo jarrão os cadáveres das últimas flores que Jacinto lá colocara antes da avó morrer. Para Gustavo representavam mais uma fantasia romântica daquela casa. Depois levantava-se e seguia para o grande quarto de jantar. Lá estava a grande mesa com os dois candelabros de prata escola da Flandres do século XVII. E Gustavo lembrava as estórias que o avô contava sobre as muitas viagens daqueles candelabros que tinham vindo lá da Bélgica, mas que acompanharam D. Jerónimo na sua estadia na Índia portuguesa e D. Teodoro durante o seu vice-reinado brasileiro, dois ilustres antepassados da família de Gustavo. As muitas cadeiras com os lugares sempre certos para os filhos e os netos e sobre a lareira o belíssimo espelho veneziano que a avó trouxera duma das suas viagens a Turim, onde o comprara num leilão. Mas apesar do seu amor pelas grandes salas era sempre nas mais pequenas que se sentia melhor, um gosto quase vitoriano pelo recanto. A sala de xadrez, toda em madeira num pesado estilo neo-gótico com os contornos da sua imensa janela retorcidos em figuras que tinham atormentado a infância de Gustavo, dos manos e dos primos. Ao fundo o grande sofá Luís XVI, uma mistura arriscada que só o extremo bom-gosto da avó fizera funcionar. Mas era para lá da sala de xadrez que estava a sala preferida de Gustavo: a sala de música. Pequena e rectangular reservava quase metade do seu espaço para o grande Erard de cauda de 1840. No resto os confortáveis sofás de aspecto chinês para os quais a avó mandara bordar inúmeras almofadas com representações do quotidiano oriental. Ao longo da das paredes de imenso pé direito repetiam-se fotografias a preto e branco dos mais variados elementos da família. Avôs de bigodes retorcidos a fumar cachimbo, tias com grandes chapéus de plumas, avós com pentados elaboradíssimos, meninos ainda bebés usando longos vestidos no dia do seu baptizado. Eram figuras fantásticas que tinham habitado a infância de Gustavo e de quem Gustavo sabia os nomes e os hábitos como se com elas tivesse vivido. Tinham-lhe nascido nessas horas mágicas do verão, entre as duas e as quatro, quando o grande relógio da sala de bilhar, ao lado, batia as três e o mundo semi-cerrava os olhos numa média-luz que nunca demorava muito. Tinha sido a hora dos afectos em que ele se sentava aos pés da avó, que se sentava num dos cadeirões e a ouvia contar estórias daquela gente que havia vivido no seu passado. Foi o tempo dos segredos e das intimidades onde se ataram laços de seda que Gustavo sabia ninguém ser capaz de cortar. Felizmente a avó restava ainda nesta sala presente no grande retrato que ocupava sozinho uma das paredes. Era a avó, a cavalo, com quinze anos na quinta dos seus pais na Chamusca. Tinha os cabelos loiros escorridos sobre o ombro direito e nos seus olhos claros brilhava um brilho de pedra preciosa que manteve ao longo da vida. A pele apenas ligeiramente queimada, como se nela a pele teimasse em permanecer para sempre naquela alvura delicada que tinha. Encantava-o a visão da avó, no seu ar de menina, vestida naquele fato de linhas tão direitas e masculinas, em que a sua beleza, que se advinhava já estonteante, quase que explodia dentro do fato. Afinal, Maria das Dores fora sempre, em todas as idades, uma mulher de uma beleza invulgar. Gustavo gostava de acreditar que havia algo de mágico no seu nome, nome que carregava num misto de orgulho e fardo e que se repetia na sua família há gerações quase incontáveis. Eram na verdade, gerações de Marias das Dores, sempre casadas com diplomatas que haviam passado o seu nome como se ele pudesse sustentar uma família. Nome que coubera à avó fazer repetir no futuro dando à luz uma outra Maria das Dores, mãe de Gustavo, que tivera também uma Maria das Dores, que por sua vez, há quatro anos tivera a mais nova Maria das Dores da família.
Depois, lá fora, estendia-se o grande jardim da quinta e mais além os terrenos continuavam, florestas por onde Gustavo e os primos aprenderam a andar a cavalo. Ficava sempre sentado no terraço a olhar a pisicina. A visão da água fascinara-o sempre e tinha o poder de o levar a um estado de meia-sonolência. Então era como se sonhasse com as primeiras tardes de Maio, com o abrir das rosas no jardim, e os primos todos de volta da mesa do terraço, de corpos molhados, a comer sandes e a beber sumo de laranja. Mais tarde com os outros verões chegaram esses tempos confusos, que Gustavo organizava na sua cabeça como o tempo de Martinho, em que a visão do corpo molhado e semi-nu do primo, na sua beleza e musculatura perfeitas de estátua grega o fazia descobrir os primeiros prazeres do corpo no quarto de banho do pavilhão da piscina. Era tudo ao mesmo tempo tão próximo e tão distante. Como se enquanto memórias tivessem acabado de ser vividas, mas enquanto vida pertencessem já a um tempo muito distante e muito antigo de que Gustavo tinha apenas uma ideia leve.
Quando deu por si tinha já chegado a Lisboa e levava agora o carro para o Príncipe Real onde a sua irmã Teresa lhe dissera que ia haver o leilão. Andava à meses aflitíssimo por causa deste leilão sem ter bem certeza do que fazer. Só sabia que tinha que vir. Parou a custo num lugar perto do jardim e ainda perdeu dez minutos à procura da galeria. Era uma zona de Lisboa que o encantara sempre, a praça do Príncipe Real. Morando no Rato preferira sempre aquele jardim ao mais elegante jardim da Estrela. Era como se ali, numa qualquer hora mágica à qual era preciso estar atento, ainda se conseguisse viver na Lisboa oitocentista. Mas agora não havia tempo para estes devaneios. Eram já três e dez e Gustavo tinha que lá estar um pouco antes para o sempi-eterno social.
A galeria ficava num desses edifícios antigos da rua D. Pedro V por debaixo do prédio onde Teresa e Inácio moravam. Aliás, tinha sido assim que os pais tinham descoberto aquela galeria. Desde a morte da sua mãe que Maria das Dores, a mãe de Gustavo, se fora aos poucos desfazendo de algumas peças que a lembravam dela. Eram sobretudo peças que tinham estado nos Penedos ou na casa dos avós em Campo de Ourique e que tinham passado para o casarão do Rato onde Gustavo crescera e onde moravam os seus pais. Mas quando a mãe decidira vender a Pietá quase que tinha ensandecido. Perder aquela Virgem era quase como perder a avó de novo. A Pietá fora sempre a grande confidente de Gustavo, aquela que guardava os seus segredos mais íntimos desde a primeira noite, quando, cheio de coragem, se esgueirou para espreitar Martinho e ela fora o seu único consolo. De certa forma, era um outro lado da avó a quem fazia as confidências que estavam para sempre proibídas à sua maior confidente que fora sempre a avó Maria das Dores. Discutira várias vezes com Artur se devia comprar a imagem da Virgem. Artur achava-a belíssima, mas de certa forma temia aquilo que ela representava para Gustavo e tinha mesmo ciúmes dela por saber que aquela Virgem guardava mais segredos de Gustavo do que ele algum dia iria saber. Em suma, tinha-se decidido que não seria Gustavo a comprar a Pietá.
Lá dentro a sala da galeria estava convenientemente aquecida com os ares condicionados, nada daqueles calores exagerados quase a roçar os trópicos que se fazia sentir na biblioteca da faculdade. Os frios rigorosos de Novembro chegavam agora apesar das tardes esplêndidas com que o sol decidira honrar Lisboa nas últimas duas semanas. Enquanto descalçava as luvas encontrou Teresa e Inácio.
-Então e o Miguel?
-Ainda não chegou.
-A Maria não vem mesmo, pois não?
-Não. Disse que achava que já era masoquismo a mais e que não aguentava mais nenhum leilão com peças da família. Eu vou-lhe ser honesta Gustavo, eu também não sei quanto mais é que aguento. A mãe teima em fazer isto aos bocados sei lá porquê. Parece que se anda a purgar duma culpa qualquer. Eu já estou como dizem os ingleses "a person can only suffer so much"!
-Sim, sim, é claro que tem razão, mas adianta falar com a mãe? E depois o pai com aquela filosofia de "nas coisas da sua mãe eu não me meto". Enfim... Por falar nisto tenho que ir dar um beijinho aos pais.
Num dos cantos Sebastião e Maria das Dores Lemos da Cunha restavam discretamente trocando algumas palavras. Maria das Dores agora sempre com um tailleur preto deixando escapar no pescoço um colar de pérolas brancas. No seu porte altivo habitual não era senão uma sombra daquilo que fora a beleza e a presença da mãe. Sebastião Lemos da Cunha estava muito direito, aliás como sempre, no seu ar de militar, esplêndido no seu fato italiano. Gustavo aproximou-se dos pais para os cumprimentar.
- Gustavo, a mãe pede-lhe mais uma vez, não vá fazer nenhum disparate! Não se atreva sequer a licitar a peça.
-Sim, mãe, já tínhamos resolvido esse assunto, não já?
-Espero que mantenha o combinado. Está ali a Amélia Brandão de Lacerda. Desculpem, mas tenho que lá ir cumprimentá-la.
Com a saída da mulher Sebastião afrouxou um pouco a sua pose sempre rígida para dizer a Gustavo:
-Agradeço-lhe tanto que venha, filho. Eu sei como estas coisas são difíceis para si, aliás para a família toda. Mas apesar da mãe não dizer a vossa presença dá-lhe uma grande segurança.
Gustavo sorriu. Era impresionante como o pai o continuava a espantar. Ninguém que não pertencesse ao núcleo mais íntimo da família seria capaz de perceber o marido dócil e atento e o pai extraordinário que Sebastião era por detrás da figura do rigoroso Coronel Lemos da Cunha.
Os pais sentaram-se à frente. Gustavo, Teresa, Inácio e Miguel, o marido de Maria das Dores que entretanto chegara, sentaram-se um pouco mais atrás. Gustavo começou a suar das mãos, sinal claro de nervosismo. Mal ouviu o homenzinho da galeria dizer que se ia licitar uma belíssima Pietá de artista desconhecido, mas certamente português, do século XVIII. A base de licitação era de €5.000. As licitações subiam, €6.100. As mãos a tremer. A voz do homem parecia cada vez mais irritante. A Pietá à sua frente como naquela noite. €7.650. De súbito, a voz calma de Teresa, a sua mão sobre a de Gustavo:
-Sabe que mais, borre-se na mãe.
Levantou-se de repente:
-Trinta e cinco mil euros!
E um alívio enorme percorreu-lhe todo o corpo enquanto se sentava. Estava feito, não se voltava atrás. Agora era só aguentar os sermões que se iam seguir ao olhar reprovador que a mãe já lhe lançara. Mas comparado com a alegria de ter comprado a sua Virgem isso era coisa de pouca monta. Resolveu o que tinha a resolver, levantou a imagem, despediu-se do pai e entrou no carro.
-Sempre vamos para sua casa, perguntou Teresa.
-Claro, então agora ainda mais. Ligue à Maria e diga que está intimada a ir lá jantar.
Gustavo mal viu o caminho que o levou do Príncipe Real ao seu apartamento na Andrade Corvo. Chegou eufórico, mal conseguindo esperar pela irmã e os cunhados. Teresa estacionou o carro.
-Agora é passar pelo Artur.
-Não, eu até acho que, de certa maneira, ele já sabe.
Entraram no belíssimo edifício dos anos quarenta. Foi Teresa quem abriu a porta.
- Chegámos, disse Teresa.
-Mãe, gritaram as crianças enquanto corriam para a abraçar.
-Entrem, entrem, respondeu Artur. Estava com os miúdos na cozinha a fazer umas tapas para agora. O Gustavo disse-te que estamos sem escrava?
-Oh, Artur, coitada da senhora.
-Olha, que é do Gustavo?
-Temos uma surpresa, espreitou Gustavo pela porta.
-Então quanto é que o teu irmão deu pela Pietá, perguntou Artur a Teresa.
-Meus Deus, mas tu sabes sempre tudo?
-No que toca a ti Gustavo, sim!
-Hum, então se calhar isto é amor, disse Gustavo com um sorriso irónico e de gozo enquanto ele e Artur se beijavam e Teresa ia já a caminho da cozinha para acabar de fazer as tapas com os filhos.
-Tinha pensado em pô-la no escritório.
-Acho bem, passas lá mais tempo do que em qualquer lado da casa.
O escritório era pequeno e estreito mas com uma janela imensa que o inundava de luz. Verde, a cor preferida de Gustavo, com uma grande cadeira de braços em vime para a secretária e duas iguais noutra ponta com uma mesa de canto. Uma estante apinhada de livros correndo uma das paredes. Gustavo colocou a Virgem em cima da secretária. Sentou-se. Artur enroscou os braços em torno do pescoço de Gustavo enquanto olhavam a Virgem.
-Vieste guardar os teus fantasmas?
-Não Artur, vim soltá-los dentro de mim e aprender a viver com eles.
O trânsito não avança. O relógio do carro mostra 14:11. No visor do telemóvel que começou agora a tocar pisca o nome de Artur.
-Sim?
-Olha, falei agora com a tua irmã Teresa, por causa de vir cá deixar os miúdos. Ela disse que não tinhas passado por lá.
-Sim, é verdade. Acabei por não ir lá a casa. Se eu te disser onde fui zangas-te?
-Foste aos Penedos outra vez ver os teus fantasmas!
-Sabes que não gosto nada quando falas assim. Precisava de lá ir. Precisava de ver as coisas para sentir a ausênsia das coisas.
-Eu só não sei se com essa poesia toda tu precisas de te despedir das pessoas ou da segurança que essas pessoas te transmitiam.
-Olha, quando um GNR me mandar parar o carro queres que lhe peça um tempo para te responder, ou passo-lhe o telefone para ser ele a resolver essa tua dúvida filosófica?
-Espirituoso! Ainda estás nos Penedos?
-Não. Estou parado no IC 19. Acreditas que esta porra tem trânsito a esta hora?
-Eu não acreditava era se não tivesse trânsito!
-É verdade, Artur, tu não te importas mesmo de ficar com os miúdos?
-Não me importo nada Gustavo. Tu sabes que eu adoro ficar com os teus sobrinhos.
-Então está bem. Aquilo deve acabar lá para as cinco, cinco e meia. Passamos aí por casa depois para tomar qualquer coisa: eu, a Teresa, o Inácio e o Miguel.
-Vá então, beijo.
-Outro.
Havia sempre este conflito entre os dois: os Penedos. Desde que a avó morrera há menos de dois anos que Gustavo ia pelo menos duas vezes por mês aos Penedos, a quinta dos avós em Colares.
A quinta tinha sido mandada construir por um dos vários ilustres antepassados de Gustavo lá para meados dos século XIX quando Sintra, e por acréscimo Colares, se tornaram local de férias da Família Real e logo a zona chique de veraneio a par de Cascais. Agora, com os avós mortos, a quinta restava fechada e de certa forma abandonada, não por desmazelo da família, mas por dor, uma dor imensa que atravessava todos uma vez que para eles aquele lugar não existia separado da presença dos seus patriarcais donos. Era agora uma coisa quase romântica, uma ruína deixada ao acaso, mas carregada de memórias e de imagens. Gustavo era o único que se aventurava com tanta frequência para além do grande portão de ferro dos Penedos. O que ia lá buscar nem ele mesmo sabia. Dizia a si próprio que ia despedir-se dos avós e sentir nos móveis e nos objectos que ficaram a ausência daqueles que haviam partido. Mas ao fim deste tempo, e ainda que não o chegasse a confessar, tinha que admitir que Artur estava de certa forma certo. Mas não inteiramente. É verdade que não se conseguia desligar do conforto e da segurança que aquele lugar lhe oferecia, da maneira como o transportava para o tempo idílico da infância. Mas também, por outro lado havia tanta coisa para lembrar ali. Era tudo tão mais complexo e difícil do que aquilo que Artur punha em palavras. Estava tudo tão emaranhado dentro dele. Era quase como decidir por ficar com a melhor metade de um quadro e deixar a outra para trás- simplesmente não é possível, temos que levar tudo.
Abrir o portão era sempre um rito que o gosto teatral de Gustavo por estas situações tornava ainda mais magnânimo. Era um amor pelo exagero de certa forma escondido que Gustavo só revelava a si próprio nestas coisas e que só os mais íntimos, como Artur, eram capazes de ler nele. Seguia pelas escadas que davam à entrada principal. Entrar era mais do que voltar a casa, era voltar atrás no tempo. O seu amor pelo exagero e pela grandeza atraía-o para os grandes salões da casa. Abria logo as janelas, mas deixava as cortinas corridas para que fosse tudo a média-luz, na criação de um espaço que ele queria e sabia onírico. Na sala principal da casa parava muito tempo sentado numa das poltronas frente à lareira que tinha, um de cada lado, os retratos da avó e do avô, ela de vestido comprido, ele com o seu traje de cavaleiro da Jarrateira. Antes havia sempre um ramo de flores frescas que Jacinto, o filho do jardineiro, colhia no jardim de três em três dias e punha no grande jarrão setecentista que ficava em cima da lareira. A avó adorava flores. Gustavo adorava flores. E lá restavam nesse mesmo jarrão os cadáveres das últimas flores que Jacinto lá colocara antes da avó morrer. Para Gustavo representavam mais uma fantasia romântica daquela casa. Depois levantava-se e seguia para o grande quarto de jantar. Lá estava a grande mesa com os dois candelabros de prata escola da Flandres do século XVII. E Gustavo lembrava as estórias que o avô contava sobre as muitas viagens daqueles candelabros que tinham vindo lá da Bélgica, mas que acompanharam D. Jerónimo na sua estadia na Índia portuguesa e D. Teodoro durante o seu vice-reinado brasileiro, dois ilustres antepassados da família de Gustavo. As muitas cadeiras com os lugares sempre certos para os filhos e os netos e sobre a lareira o belíssimo espelho veneziano que a avó trouxera duma das suas viagens a Turim, onde o comprara num leilão. Mas apesar do seu amor pelas grandes salas era sempre nas mais pequenas que se sentia melhor, um gosto quase vitoriano pelo recanto. A sala de xadrez, toda em madeira num pesado estilo neo-gótico com os contornos da sua imensa janela retorcidos em figuras que tinham atormentado a infância de Gustavo, dos manos e dos primos. Ao fundo o grande sofá Luís XVI, uma mistura arriscada que só o extremo bom-gosto da avó fizera funcionar. Mas era para lá da sala de xadrez que estava a sala preferida de Gustavo: a sala de música. Pequena e rectangular reservava quase metade do seu espaço para o grande Erard de cauda de 1840. No resto os confortáveis sofás de aspecto chinês para os quais a avó mandara bordar inúmeras almofadas com representações do quotidiano oriental. Ao longo da das paredes de imenso pé direito repetiam-se fotografias a preto e branco dos mais variados elementos da família. Avôs de bigodes retorcidos a fumar cachimbo, tias com grandes chapéus de plumas, avós com pentados elaboradíssimos, meninos ainda bebés usando longos vestidos no dia do seu baptizado. Eram figuras fantásticas que tinham habitado a infância de Gustavo e de quem Gustavo sabia os nomes e os hábitos como se com elas tivesse vivido. Tinham-lhe nascido nessas horas mágicas do verão, entre as duas e as quatro, quando o grande relógio da sala de bilhar, ao lado, batia as três e o mundo semi-cerrava os olhos numa média-luz que nunca demorava muito. Tinha sido a hora dos afectos em que ele se sentava aos pés da avó, que se sentava num dos cadeirões e a ouvia contar estórias daquela gente que havia vivido no seu passado. Foi o tempo dos segredos e das intimidades onde se ataram laços de seda que Gustavo sabia ninguém ser capaz de cortar. Felizmente a avó restava ainda nesta sala presente no grande retrato que ocupava sozinho uma das paredes. Era a avó, a cavalo, com quinze anos na quinta dos seus pais na Chamusca. Tinha os cabelos loiros escorridos sobre o ombro direito e nos seus olhos claros brilhava um brilho de pedra preciosa que manteve ao longo da vida. A pele apenas ligeiramente queimada, como se nela a pele teimasse em permanecer para sempre naquela alvura delicada que tinha. Encantava-o a visão da avó, no seu ar de menina, vestida naquele fato de linhas tão direitas e masculinas, em que a sua beleza, que se advinhava já estonteante, quase que explodia dentro do fato. Afinal, Maria das Dores fora sempre, em todas as idades, uma mulher de uma beleza invulgar. Gustavo gostava de acreditar que havia algo de mágico no seu nome, nome que carregava num misto de orgulho e fardo e que se repetia na sua família há gerações quase incontáveis. Eram na verdade, gerações de Marias das Dores, sempre casadas com diplomatas que haviam passado o seu nome como se ele pudesse sustentar uma família. Nome que coubera à avó fazer repetir no futuro dando à luz uma outra Maria das Dores, mãe de Gustavo, que tivera também uma Maria das Dores, que por sua vez, há quatro anos tivera a mais nova Maria das Dores da família.
Depois, lá fora, estendia-se o grande jardim da quinta e mais além os terrenos continuavam, florestas por onde Gustavo e os primos aprenderam a andar a cavalo. Ficava sempre sentado no terraço a olhar a pisicina. A visão da água fascinara-o sempre e tinha o poder de o levar a um estado de meia-sonolência. Então era como se sonhasse com as primeiras tardes de Maio, com o abrir das rosas no jardim, e os primos todos de volta da mesa do terraço, de corpos molhados, a comer sandes e a beber sumo de laranja. Mais tarde com os outros verões chegaram esses tempos confusos, que Gustavo organizava na sua cabeça como o tempo de Martinho, em que a visão do corpo molhado e semi-nu do primo, na sua beleza e musculatura perfeitas de estátua grega o fazia descobrir os primeiros prazeres do corpo no quarto de banho do pavilhão da piscina. Era tudo ao mesmo tempo tão próximo e tão distante. Como se enquanto memórias tivessem acabado de ser vividas, mas enquanto vida pertencessem já a um tempo muito distante e muito antigo de que Gustavo tinha apenas uma ideia leve.
Quando deu por si tinha já chegado a Lisboa e levava agora o carro para o Príncipe Real onde a sua irmã Teresa lhe dissera que ia haver o leilão. Andava à meses aflitíssimo por causa deste leilão sem ter bem certeza do que fazer. Só sabia que tinha que vir. Parou a custo num lugar perto do jardim e ainda perdeu dez minutos à procura da galeria. Era uma zona de Lisboa que o encantara sempre, a praça do Príncipe Real. Morando no Rato preferira sempre aquele jardim ao mais elegante jardim da Estrela. Era como se ali, numa qualquer hora mágica à qual era preciso estar atento, ainda se conseguisse viver na Lisboa oitocentista. Mas agora não havia tempo para estes devaneios. Eram já três e dez e Gustavo tinha que lá estar um pouco antes para o sempi-eterno social.
A galeria ficava num desses edifícios antigos da rua D. Pedro V por debaixo do prédio onde Teresa e Inácio moravam. Aliás, tinha sido assim que os pais tinham descoberto aquela galeria. Desde a morte da sua mãe que Maria das Dores, a mãe de Gustavo, se fora aos poucos desfazendo de algumas peças que a lembravam dela. Eram sobretudo peças que tinham estado nos Penedos ou na casa dos avós em Campo de Ourique e que tinham passado para o casarão do Rato onde Gustavo crescera e onde moravam os seus pais. Mas quando a mãe decidira vender a Pietá quase que tinha ensandecido. Perder aquela Virgem era quase como perder a avó de novo. A Pietá fora sempre a grande confidente de Gustavo, aquela que guardava os seus segredos mais íntimos desde a primeira noite, quando, cheio de coragem, se esgueirou para espreitar Martinho e ela fora o seu único consolo. De certa forma, era um outro lado da avó a quem fazia as confidências que estavam para sempre proibídas à sua maior confidente que fora sempre a avó Maria das Dores. Discutira várias vezes com Artur se devia comprar a imagem da Virgem. Artur achava-a belíssima, mas de certa forma temia aquilo que ela representava para Gustavo e tinha mesmo ciúmes dela por saber que aquela Virgem guardava mais segredos de Gustavo do que ele algum dia iria saber. Em suma, tinha-se decidido que não seria Gustavo a comprar a Pietá.
Lá dentro a sala da galeria estava convenientemente aquecida com os ares condicionados, nada daqueles calores exagerados quase a roçar os trópicos que se fazia sentir na biblioteca da faculdade. Os frios rigorosos de Novembro chegavam agora apesar das tardes esplêndidas com que o sol decidira honrar Lisboa nas últimas duas semanas. Enquanto descalçava as luvas encontrou Teresa e Inácio.
-Então e o Miguel?
-Ainda não chegou.
-A Maria não vem mesmo, pois não?
-Não. Disse que achava que já era masoquismo a mais e que não aguentava mais nenhum leilão com peças da família. Eu vou-lhe ser honesta Gustavo, eu também não sei quanto mais é que aguento. A mãe teima em fazer isto aos bocados sei lá porquê. Parece que se anda a purgar duma culpa qualquer. Eu já estou como dizem os ingleses "a person can only suffer so much"!
-Sim, sim, é claro que tem razão, mas adianta falar com a mãe? E depois o pai com aquela filosofia de "nas coisas da sua mãe eu não me meto". Enfim... Por falar nisto tenho que ir dar um beijinho aos pais.
Num dos cantos Sebastião e Maria das Dores Lemos da Cunha restavam discretamente trocando algumas palavras. Maria das Dores agora sempre com um tailleur preto deixando escapar no pescoço um colar de pérolas brancas. No seu porte altivo habitual não era senão uma sombra daquilo que fora a beleza e a presença da mãe. Sebastião Lemos da Cunha estava muito direito, aliás como sempre, no seu ar de militar, esplêndido no seu fato italiano. Gustavo aproximou-se dos pais para os cumprimentar.
- Gustavo, a mãe pede-lhe mais uma vez, não vá fazer nenhum disparate! Não se atreva sequer a licitar a peça.
-Sim, mãe, já tínhamos resolvido esse assunto, não já?
-Espero que mantenha o combinado. Está ali a Amélia Brandão de Lacerda. Desculpem, mas tenho que lá ir cumprimentá-la.
Com a saída da mulher Sebastião afrouxou um pouco a sua pose sempre rígida para dizer a Gustavo:
-Agradeço-lhe tanto que venha, filho. Eu sei como estas coisas são difíceis para si, aliás para a família toda. Mas apesar da mãe não dizer a vossa presença dá-lhe uma grande segurança.
Gustavo sorriu. Era impresionante como o pai o continuava a espantar. Ninguém que não pertencesse ao núcleo mais íntimo da família seria capaz de perceber o marido dócil e atento e o pai extraordinário que Sebastião era por detrás da figura do rigoroso Coronel Lemos da Cunha.
Os pais sentaram-se à frente. Gustavo, Teresa, Inácio e Miguel, o marido de Maria das Dores que entretanto chegara, sentaram-se um pouco mais atrás. Gustavo começou a suar das mãos, sinal claro de nervosismo. Mal ouviu o homenzinho da galeria dizer que se ia licitar uma belíssima Pietá de artista desconhecido, mas certamente português, do século XVIII. A base de licitação era de €5.000. As licitações subiam, €6.100. As mãos a tremer. A voz do homem parecia cada vez mais irritante. A Pietá à sua frente como naquela noite. €7.650. De súbito, a voz calma de Teresa, a sua mão sobre a de Gustavo:
-Sabe que mais, borre-se na mãe.
Levantou-se de repente:
-Trinta e cinco mil euros!
E um alívio enorme percorreu-lhe todo o corpo enquanto se sentava. Estava feito, não se voltava atrás. Agora era só aguentar os sermões que se iam seguir ao olhar reprovador que a mãe já lhe lançara. Mas comparado com a alegria de ter comprado a sua Virgem isso era coisa de pouca monta. Resolveu o que tinha a resolver, levantou a imagem, despediu-se do pai e entrou no carro.
-Sempre vamos para sua casa, perguntou Teresa.
-Claro, então agora ainda mais. Ligue à Maria e diga que está intimada a ir lá jantar.
Gustavo mal viu o caminho que o levou do Príncipe Real ao seu apartamento na Andrade Corvo. Chegou eufórico, mal conseguindo esperar pela irmã e os cunhados. Teresa estacionou o carro.
-Agora é passar pelo Artur.
-Não, eu até acho que, de certa maneira, ele já sabe.
Entraram no belíssimo edifício dos anos quarenta. Foi Teresa quem abriu a porta.
- Chegámos, disse Teresa.
-Mãe, gritaram as crianças enquanto corriam para a abraçar.
-Entrem, entrem, respondeu Artur. Estava com os miúdos na cozinha a fazer umas tapas para agora. O Gustavo disse-te que estamos sem escrava?
-Oh, Artur, coitada da senhora.
-Olha, que é do Gustavo?
-Temos uma surpresa, espreitou Gustavo pela porta.
-Então quanto é que o teu irmão deu pela Pietá, perguntou Artur a Teresa.
-Meus Deus, mas tu sabes sempre tudo?
-No que toca a ti Gustavo, sim!
-Hum, então se calhar isto é amor, disse Gustavo com um sorriso irónico e de gozo enquanto ele e Artur se beijavam e Teresa ia já a caminho da cozinha para acabar de fazer as tapas com os filhos.
-Tinha pensado em pô-la no escritório.
-Acho bem, passas lá mais tempo do que em qualquer lado da casa.
O escritório era pequeno e estreito mas com uma janela imensa que o inundava de luz. Verde, a cor preferida de Gustavo, com uma grande cadeira de braços em vime para a secretária e duas iguais noutra ponta com uma mesa de canto. Uma estante apinhada de livros correndo uma das paredes. Gustavo colocou a Virgem em cima da secretária. Sentou-se. Artur enroscou os braços em torno do pescoço de Gustavo enquanto olhavam a Virgem.
-Vieste guardar os teus fantasmas?
-Não Artur, vim soltá-los dentro de mim e aprender a viver com eles.
quarta-feira, fevereiro 28, 2007
Conto de Gustavo
A medo abre a porta do quarto devagar. Esperou meticulosamente de olhos abertos a chegada desta hora que o relógio do quarto parecia fazer demorar. Os pés descalços, para não fazer barulho, entram no corredor. Nas paredes altas repetem-se os quadros de avoengos antigos, presenças assustadoras de uma infância ainda há pouco vivida, que de novo parecem semi-cerrar os olhos para lhe lembrar que o que faz é mal feito. Felizmente que ao fundo resta a grande imagem da Pietá, consolo eterno da avó, e em segredo também seu. Para si foi sempre ele nos braços da Virgem em vez do Cristo morto. Ele nos braços da mãe, não no fim da vida, mas numa espécie de vida fetal ainda por nascer.
Uma porta, outra porta, mais duas. Por fim, o grande quarto de hóspedes. Ele resta breves minutos indefinidos numa infinita espera. As mãos arriscam a maçaneta por várias vezes sem nunca a agarrar, até que se sente invadido por um surto de coragem e abre a porta. Todo aquele momento gira na sua cabeça fazendo dançar um turbilhão de ideias. Como se vem tornando habitual vive e pensa os instantes tudo ao mesmo tempo o que torna tudo mais confuso. Em si resta um misto de terror e de auto-reprovação apimentado por uma curiosidade de descoberta, descoberta que é mais sua do que de qualquer outro. Mas ainda que pense este momento serão ainda precisos alguns anos para que uma maturidade crescente lhe permita arrancar estas conclusões à memória. Será preciso passar a calma acastanhada dos outonos cadentes e os rigores frios de um Inverno que se anuncia cada vez mais próximo até chegar a uma Primavera (que por ora ele nem imagina que possa existir) libertadora e fulgurante culminando com o seu corpo nú nas águas de uma praia nesse Verão catárquico que há-de chegar. Mas isto são tudo coisas que se avizinham nas estações e que moram no seu futuro.
De mansinho, Gustavo abre a porta do quarto de hóspedes. Como uma terra prometida a imagem tão ansiada: o corpo nú de Martinho estendido sobre a cama sem qualquer coberta. Revela-se numa beleza fria de estátua ao mesmo tempo desejável e distante, provocatória sem que em si Martinho faça nada para o ser. Afinal, o primo dorme na tranquilidade do seu sono nú e talvez seja isso mesmo que faz dele ainda mais belo e ao mesmo tempo (felizmente) intocável. O corpo de Gustavo cede naturalmente e o sangue começa a correr com mais força. Mas não há em si nenhuma vontade de se tocar. De certa forma isso estragaria a intensidade deste momento. Este é afinal um instante de descoberta e de alguma maneira, ainda que vaga, Gustavo tem já noção disso. Não é como aquelas tardes quentes de verão em que a visão do corpo semi-nú e molhado de Martinho o faz correr para o toillette do pavilhão da piscina na quinta dos avós. Gustavo descobre com algum prazer que este não é um momento físico. Enquanto a penumbra o vai permitindo ver o corpo nú do primo e os olhos se habituam à escuridão Gustavo estuda cuidadosamente cada bocado de Martinho. É como um exercício analítico em que o estudo do corpo nú de Martinho lhe vai permitindo conhecer o que lhe agrada ou não. Martinho serve de primeira base para uma definição do seu gosto. Este gosto que agora se torna claro e vai adquirindo os seus moldes e que faz Gustavo entender que embarcou numa viagem sem regresso possível. Não que alguma vez a caravela tivesse prometido algum regresso, mas só agora, perante o corpo nú de Martinho, símbolo de tudo aquilo que ao mesmo tempo esconde e anseia, é que se apercebe disso.
Demora-se no quarto um tempo que ele próprio preferiu não contar. Sempre junto à porta, tentando o mais possível manter-se imóvel e sem fazer barulho. Felizmente Martinho não acorda. Nunca saberá desta noite nem da importância desta noite na vida do seu primo Gustavo. Gustavo por seu lado percebe muitas coisas. Fecha a porta. Em volta, no comprido corredor, já não há nada de acusativo nos olhos pintados nas telas dos avoengos, reflexo das acusações que se fazia a si próprio. Mas ao fundo a Pietá ainda resta como imagem de consolo, mãe para sempre carinhosa e protectora que o amparará num mundo que acaba agora e num outro que começa. O mesmo silêncio de volta ao seu quarto, os pés deslizando de mansinho sobre o tapete. A porta fecha-se. Gustavo volta para os seus lençóis. Como sempre a janela resta aberta (marca do seu medo infantil do escuro). Nunca Gustavo ansiou tanto pela chegada da manhã. Saberá mais tarde que a nova manhã trará o seu Outono e por vezes desejará um outro tempo até que as manhãs repetidas lhe tragam um novo Verão.
Uma porta, outra porta, mais duas. Por fim, o grande quarto de hóspedes. Ele resta breves minutos indefinidos numa infinita espera. As mãos arriscam a maçaneta por várias vezes sem nunca a agarrar, até que se sente invadido por um surto de coragem e abre a porta. Todo aquele momento gira na sua cabeça fazendo dançar um turbilhão de ideias. Como se vem tornando habitual vive e pensa os instantes tudo ao mesmo tempo o que torna tudo mais confuso. Em si resta um misto de terror e de auto-reprovação apimentado por uma curiosidade de descoberta, descoberta que é mais sua do que de qualquer outro. Mas ainda que pense este momento serão ainda precisos alguns anos para que uma maturidade crescente lhe permita arrancar estas conclusões à memória. Será preciso passar a calma acastanhada dos outonos cadentes e os rigores frios de um Inverno que se anuncia cada vez mais próximo até chegar a uma Primavera (que por ora ele nem imagina que possa existir) libertadora e fulgurante culminando com o seu corpo nú nas águas de uma praia nesse Verão catárquico que há-de chegar. Mas isto são tudo coisas que se avizinham nas estações e que moram no seu futuro.
De mansinho, Gustavo abre a porta do quarto de hóspedes. Como uma terra prometida a imagem tão ansiada: o corpo nú de Martinho estendido sobre a cama sem qualquer coberta. Revela-se numa beleza fria de estátua ao mesmo tempo desejável e distante, provocatória sem que em si Martinho faça nada para o ser. Afinal, o primo dorme na tranquilidade do seu sono nú e talvez seja isso mesmo que faz dele ainda mais belo e ao mesmo tempo (felizmente) intocável. O corpo de Gustavo cede naturalmente e o sangue começa a correr com mais força. Mas não há em si nenhuma vontade de se tocar. De certa forma isso estragaria a intensidade deste momento. Este é afinal um instante de descoberta e de alguma maneira, ainda que vaga, Gustavo tem já noção disso. Não é como aquelas tardes quentes de verão em que a visão do corpo semi-nú e molhado de Martinho o faz correr para o toillette do pavilhão da piscina na quinta dos avós. Gustavo descobre com algum prazer que este não é um momento físico. Enquanto a penumbra o vai permitindo ver o corpo nú do primo e os olhos se habituam à escuridão Gustavo estuda cuidadosamente cada bocado de Martinho. É como um exercício analítico em que o estudo do corpo nú de Martinho lhe vai permitindo conhecer o que lhe agrada ou não. Martinho serve de primeira base para uma definição do seu gosto. Este gosto que agora se torna claro e vai adquirindo os seus moldes e que faz Gustavo entender que embarcou numa viagem sem regresso possível. Não que alguma vez a caravela tivesse prometido algum regresso, mas só agora, perante o corpo nú de Martinho, símbolo de tudo aquilo que ao mesmo tempo esconde e anseia, é que se apercebe disso.
Demora-se no quarto um tempo que ele próprio preferiu não contar. Sempre junto à porta, tentando o mais possível manter-se imóvel e sem fazer barulho. Felizmente Martinho não acorda. Nunca saberá desta noite nem da importância desta noite na vida do seu primo Gustavo. Gustavo por seu lado percebe muitas coisas. Fecha a porta. Em volta, no comprido corredor, já não há nada de acusativo nos olhos pintados nas telas dos avoengos, reflexo das acusações que se fazia a si próprio. Mas ao fundo a Pietá ainda resta como imagem de consolo, mãe para sempre carinhosa e protectora que o amparará num mundo que acaba agora e num outro que começa. O mesmo silêncio de volta ao seu quarto, os pés deslizando de mansinho sobre o tapete. A porta fecha-se. Gustavo volta para os seus lençóis. Como sempre a janela resta aberta (marca do seu medo infantil do escuro). Nunca Gustavo ansiou tanto pela chegada da manhã. Saberá mais tarde que a nova manhã trará o seu Outono e por vezes desejará um outro tempo até que as manhãs repetidas lhe tragam um novo Verão.
domingo, janeiro 15, 2006
Choro de meus amigos perdidos
Choro meus amigos perdidos. Das lágrimas com que os choro eu me renasço.
O tempo passou a vida depressa enquanto eu, por um bocado, fechei os olhos. Muitas vezes o encarnado rodou a terra, tantas quantas o ocre mudou de cheiro. O grande pássaro umbi-umbi rumou para longe levando nas costas de suas asas a grande serpente da memória estendida. Ela, a serpente, devorou meus amigos perdidos enquanto os instantes me fabricavam sonhos bons de sonhar enquanto por instantes fechei os olhos. Ela, a serpente, precisa sempre de mais gente para botar seus ovos e continuar o ciclo da vida de seus olhos fundos. O nome de meus amigos perdidos foi parido nos cestos de adivinhação e sussurrado nas cabaças de todas as sanzalas. Por isso, ela, a serpente, os devorou.
Agora viro minhas costas ao norte porque o mar me chama para sul. Fugir com as aves. Ouço na sabedoria das letras escritas pelos mais-velhos o chamado do grande muatiânvua e corro a abraçar as Lundas para encher meu nariz de terra.
O muatiânvua pintará meu rosto de ocre e cerrará meu corpo de fogo. Fará meu gosto de sal e minha boca de trigo. Meus ouvidos serão de música para ouvir. Muatiânvua me forjará então de novo.
Dizem que ela, a serpente, não aguenta mais com o peso do seu fardo-memória. Cada ovo que ela bota e cada filho que de lá nasce carrega consigo um pouco dessa dor. Assim, é que na terra de quem tem boca se aprendeu a dizer saudade. Talvez meus amigos renasçam de seus ovos.
Enquanto,
Choro meus amigos perdidos. Das lágrimas com que os choro eu me renasço.
O tempo passou a vida depressa enquanto eu, por um bocado, fechei os olhos. Muitas vezes o encarnado rodou a terra, tantas quantas o ocre mudou de cheiro. O grande pássaro umbi-umbi rumou para longe levando nas costas de suas asas a grande serpente da memória estendida. Ela, a serpente, devorou meus amigos perdidos enquanto os instantes me fabricavam sonhos bons de sonhar enquanto por instantes fechei os olhos. Ela, a serpente, precisa sempre de mais gente para botar seus ovos e continuar o ciclo da vida de seus olhos fundos. O nome de meus amigos perdidos foi parido nos cestos de adivinhação e sussurrado nas cabaças de todas as sanzalas. Por isso, ela, a serpente, os devorou.
Agora viro minhas costas ao norte porque o mar me chama para sul. Fugir com as aves. Ouço na sabedoria das letras escritas pelos mais-velhos o chamado do grande muatiânvua e corro a abraçar as Lundas para encher meu nariz de terra.
O muatiânvua pintará meu rosto de ocre e cerrará meu corpo de fogo. Fará meu gosto de sal e minha boca de trigo. Meus ouvidos serão de música para ouvir. Muatiânvua me forjará então de novo.
Dizem que ela, a serpente, não aguenta mais com o peso do seu fardo-memória. Cada ovo que ela bota e cada filho que de lá nasce carrega consigo um pouco dessa dor. Assim, é que na terra de quem tem boca se aprendeu a dizer saudade. Talvez meus amigos renasçam de seus ovos.
Enquanto,
Choro meus amigos perdidos. Das lágrimas com que os choro eu me renasço.
quinta-feira, janeiro 12, 2006
Aurora ou Sonhos de uma infância mitológica
Quando nasceste para mim já eras velha. Embora eu não me lembre desse momento em que nasceste para mim tenho a certeza de que já eras velha e tenho a certeza de que o facto de não me lembrar quer dizer apenas que exististe desde que eu existo. Assim, será melhor dizer que desde que eu sou tu és velha.
Os teus olhos claros já eram baços por cansaço de ver, já eras alta e grandiosa como uma alemã e só o teu cabelo ainda não era, aliás como não é hoje, completamente branco- como se fosse um último sinal de resistência a uma velhice que mais tarde descobri te custava a suportar.
Mas enquanto fui menino nada disso interessava, porque tu eras a avó e isso era tudo o que bastava para te descrever, o que, de resto, para uma definição de criança é já bastante.
Não sei quando se estreitaram os laços entre nós, sei que demorou muito tempo e que o tempo é muito irregular quando se é criança. Não percebia quando discutias com o pai e depois choravas, nem gostava quando ralhavas comigo. No entanto, dessa infância muito antiga lembro-me de um palco grande e amplo, que era também a minha secretária, onde me vestias e lembro um saco muito grande feito de palha onde cabiam a tua cozinha e as tuas receitas, o ar frio de Novembro e a banca dos legumes, os teus dedos sábios tacteando com uma visão perfeita o que era melhor. Foram, sem eu saber os primeiros laços, os primeiros segredos só nossos que tinhas o cuidado de não encher com demasiadas palavras.
Então eu cresci: cresceram os braços, cresceram as pernas, as mãos e os pés. Cresci e de menino fiz-me rapaz. Chegou a escola. Com ela vieram tardes de televisão que sabiam a sandes de manteiga, queijo e marmelada e a cacau quente. Tardes que se repetiam sempre iguais sem que isso fosse um problema para nenhum dos dois. Eram os ritos, esses momentos tão importantes em que a vida se repete vezes e vezes sem conta, em que o mesmo gesto existe na continuidade de todas as horas. Mas ainda não tinham chegado os momentos mágicos.
Apareceram mais tarde, quando descobri o caminho do liceu e as alegrias da rua, nos dias em que ficava em casa, entre as duas e as quatro, à hora em que as horas morrem. E aí nasceram as histórias. Ouvi-as todas muitas vezes, porque só vale a pena ouvir histórias se as ouvirmos muitas vezes, porque não interessa só saber contar uma história- interessa conhecer-lhe a essência. Só se consegue chegar à essência duma história quando no-la contam muitas vezes, todas as versões, todas as palavras, toda a história.
Nas tuas histórias havia um grande planalto a que deste o nome de Huíla e havia sítios misteriosos com nomes de feitiçio- a Chibia, a serra da Leba… Havia reinos e palácios estranhos que chamavas de sanzalas e quimbos e reis de cara preta sem princesas que salvar. Havia gado e mulheres que esmagavam o milho no pilão, porque as tuas histórias são de um tempo em que a riqueza ainda vinha da terra. Falavas de povos estranhos e davas-lhes nomes fantásticos- cuonhamas, mucobais e quiocos- e envolvias tudo com palavras mágicas duma língua que mais tarde soube chamar-se Umbundo. Nas tuas histórias também havia um mundo muito novo à espera de ser moldado e homens ainda de barro cru e de capacete colonial que o amavam de mãos fechadas. Havia um pai herói que fazia bem de rei justo e que era amado por todos. E por fim uma menina chamada Aurora que soube amar tanto esse pai-herói-rei.
Foi então que eu descobri que antes de eu ser tu já eras há muitas eras e que nem sempre tinhas sido velha. Para grande surpresa de garoto que descobre a infância da avó tu também tinhas sido menina e tinhas sonhado sonhos cor da terra nessa África lá longe. Descobri assim a tua infância dentro desses contornos esbatidos que fazem da infância de quem é velho toda uma nova mitologia.
Agora vem avó, que é tempo de mais histórias, e juntos sonhemos novamente de mãos dadas teus sonhos africanos de menina.
Os teus olhos claros já eram baços por cansaço de ver, já eras alta e grandiosa como uma alemã e só o teu cabelo ainda não era, aliás como não é hoje, completamente branco- como se fosse um último sinal de resistência a uma velhice que mais tarde descobri te custava a suportar.
Mas enquanto fui menino nada disso interessava, porque tu eras a avó e isso era tudo o que bastava para te descrever, o que, de resto, para uma definição de criança é já bastante.
Não sei quando se estreitaram os laços entre nós, sei que demorou muito tempo e que o tempo é muito irregular quando se é criança. Não percebia quando discutias com o pai e depois choravas, nem gostava quando ralhavas comigo. No entanto, dessa infância muito antiga lembro-me de um palco grande e amplo, que era também a minha secretária, onde me vestias e lembro um saco muito grande feito de palha onde cabiam a tua cozinha e as tuas receitas, o ar frio de Novembro e a banca dos legumes, os teus dedos sábios tacteando com uma visão perfeita o que era melhor. Foram, sem eu saber os primeiros laços, os primeiros segredos só nossos que tinhas o cuidado de não encher com demasiadas palavras.
Então eu cresci: cresceram os braços, cresceram as pernas, as mãos e os pés. Cresci e de menino fiz-me rapaz. Chegou a escola. Com ela vieram tardes de televisão que sabiam a sandes de manteiga, queijo e marmelada e a cacau quente. Tardes que se repetiam sempre iguais sem que isso fosse um problema para nenhum dos dois. Eram os ritos, esses momentos tão importantes em que a vida se repete vezes e vezes sem conta, em que o mesmo gesto existe na continuidade de todas as horas. Mas ainda não tinham chegado os momentos mágicos.
Apareceram mais tarde, quando descobri o caminho do liceu e as alegrias da rua, nos dias em que ficava em casa, entre as duas e as quatro, à hora em que as horas morrem. E aí nasceram as histórias. Ouvi-as todas muitas vezes, porque só vale a pena ouvir histórias se as ouvirmos muitas vezes, porque não interessa só saber contar uma história- interessa conhecer-lhe a essência. Só se consegue chegar à essência duma história quando no-la contam muitas vezes, todas as versões, todas as palavras, toda a história.
Nas tuas histórias havia um grande planalto a que deste o nome de Huíla e havia sítios misteriosos com nomes de feitiçio- a Chibia, a serra da Leba… Havia reinos e palácios estranhos que chamavas de sanzalas e quimbos e reis de cara preta sem princesas que salvar. Havia gado e mulheres que esmagavam o milho no pilão, porque as tuas histórias são de um tempo em que a riqueza ainda vinha da terra. Falavas de povos estranhos e davas-lhes nomes fantásticos- cuonhamas, mucobais e quiocos- e envolvias tudo com palavras mágicas duma língua que mais tarde soube chamar-se Umbundo. Nas tuas histórias também havia um mundo muito novo à espera de ser moldado e homens ainda de barro cru e de capacete colonial que o amavam de mãos fechadas. Havia um pai herói que fazia bem de rei justo e que era amado por todos. E por fim uma menina chamada Aurora que soube amar tanto esse pai-herói-rei.
Foi então que eu descobri que antes de eu ser tu já eras há muitas eras e que nem sempre tinhas sido velha. Para grande surpresa de garoto que descobre a infância da avó tu também tinhas sido menina e tinhas sonhado sonhos cor da terra nessa África lá longe. Descobri assim a tua infância dentro desses contornos esbatidos que fazem da infância de quem é velho toda uma nova mitologia.
Agora vem avó, que é tempo de mais histórias, e juntos sonhemos novamente de mãos dadas teus sonhos africanos de menina.
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