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terça-feira, abril 23, 2013
Receita para sítios que magoam
Do sítio magoado não temas. Volta ao mesmo lugar onde sofreste. Olhando-o imaginarás como conquistá-lo. Trarás amigos quando houver sol. Com eles ali passearás como descendo uma alameda de tílias no jardim. Hás-de escolher um banco onde sentar ou na falta deste um degrau ou um relvado. Apenas das melhores coisas falarão. Repetirás os dias, mesmo que por vezes haja nuvens. Fa-lo-ás a pouco para que assim lentamente mudes. Repetirás mesmo as estações se tanto for preciso. Saberás agora novas memórias no sítio onde antes sofreste. Lembrarás as flores, quando houver flores, e o riso, porque haverá riso. Do sítio magoado não temas, mas conquista.
quarta-feira, fevereiro 22, 2012
Lisboa
para Sara Guia d'Abreu, como todas as nossas lisboas
Este jogo inconsequente de quebra-cabeças; uma cidade sempre nova em cada esquina. Há o mistério do azulejo, do varandim com sol, da pessoa que desce as mil escadinhas da cidade que desaguam em bairros e jardins de segredo escondidos atrás de fachadas velhas e também cansadas. Não há domingo, nem dia de estar só- em lisboa há os dias do Sol várias vezes por semana, várias vezes por estação. É esta coisa que não contamos a ninguém- este anseio sempre presente de ser cidade, de estar uno com o espaço da cidade. A cidade tem muitas torres de igreja, muitas praças, muitos cantos guardados. Uma cidade secreta, como um presente que se oferece, prenhe de estórias porque ansiamos.
Este jogo inconsequente de quebra-cabeças; uma cidade sempre nova em cada esquina. Há o mistério do azulejo, do varandim com sol, da pessoa que desce as mil escadinhas da cidade que desaguam em bairros e jardins de segredo escondidos atrás de fachadas velhas e também cansadas. Não há domingo, nem dia de estar só- em lisboa há os dias do Sol várias vezes por semana, várias vezes por estação. É esta coisa que não contamos a ninguém- este anseio sempre presente de ser cidade, de estar uno com o espaço da cidade. A cidade tem muitas torres de igreja, muitas praças, muitos cantos guardados. Uma cidade secreta, como um presente que se oferece, prenhe de estórias porque ansiamos.
terça-feira, fevereiro 22, 2011
Lamentação
Era um dia cheio de erros, como um sol nascido prematuro e que fora apenas demasiado pálido.
Era uma sala pequena e escura onde podia conversar-se baixinho como as aranhas.
Tudo era triste e bom, e ambas as coisas coexistiam com paciência.
O mar era demasiado leve nessa tarde e por uma vez não me quis suicidar nas suas ondas.
Desejei tanto não amá-lo que a cada ânsia pensava nele e amava-o mais.
Foi a casa mais escura de todas as que nunca habitei e nunca vi que nenhuma luz ardesse lá dentro.
Eu ardi todo na manhã de verão quando o meu corpo não aguentou mais nunca ter o dele.
Era uma sala pequena e escura onde podia conversar-se baixinho como as aranhas.
Tudo era triste e bom, e ambas as coisas coexistiam com paciência.
O mar era demasiado leve nessa tarde e por uma vez não me quis suicidar nas suas ondas.
Desejei tanto não amá-lo que a cada ânsia pensava nele e amava-o mais.
Foi a casa mais escura de todas as que nunca habitei e nunca vi que nenhuma luz ardesse lá dentro.
Eu ardi todo na manhã de verão quando o meu corpo não aguentou mais nunca ter o dele.
terça-feira, novembro 02, 2010
A sala em medida exacta ou Do Branco
Procuro a sala exacta em sua medida. De linhas absolutamente rectas e janelas vertidas sobre o pateo. Sei hoje as suas cores, a luz como incide quando mexo em cada centímetro das cortinas. Procuro a sala exacta em sua medida e vazia em seu silêncio, sem móveis que contem estórias de seus espaços. Apenas espaço. A mansidão das horas ineterruptas. Languidez. Lansidão. Exacto, como o branco do mar como o pateo onde Antígona se viu sacrificada.
segunda-feira, junho 28, 2010
Tamina
A princesa da Cidade Santa mora por detrás dos seus véus. Sua pele palmada do Verão quente não sua ou transpira. Cada tatuagem do corpo é como um pomo de Deus. Respira o dia anseado do príncipe da Pérsia por buscá-la.
terça-feira, dezembro 29, 2009
Os odores de Samarcanda ou Viagem Oriental através dum livro
De Samarcanda guarda o cheiro do bazar. A luz reflecte levemente nas pedras de âmbar dispostas nos tabuleiros de quase todas as bancas. A cidade confude-se com ruídos que te confundem. Confia apenas no teu cheiro e nada mais. O Verde é apenas uma miragem dos ricos jardins além-muros, nos palácios inacessíveis do Oriente. Não percas tempo com eles. As casas são de tijolo cru e batido e ainda cheiram a terra e a poeira. Era assim há mil anos como é hoje. Se buscas cor, confia de novo no cheiro e vai até à mesquita. Admira agora os ricos azulejos da sua porta e do alto do seu minarete. Encosta o nariz a um deles e sente. Sente agora o cheiro dos anos, do tempo, o cheiro do corpo de centenas de homens em oração em mistura com o barro cozido num fogo demasiado alto. É o fogo que queima o barro e os homens de fé que rezam. Escolhe agora uma rua tortuosa. Atravessa as casas e ligeiramente olha para o seu interior. Uma casa cheira sempre a comida e a lume. A lume brando e calmo. Que ouvirás dentro das casas? Risos, queixas, gritos, carícias, prazeres. As casas de Samarcanda são como todas as casas do mundo onde moram pessoas. Que há de diferente nas pessoas de Samarcanda em relação com as pessoas do mundo? Descobre nelas o cheiro da Pérsia. Não desta Pérsia de agora. Dessa que dorme um sono no coração dessas pessoas. Aproxima-te do coração dum habitante de Samarcanda e cheira-o. Encontrarás aí tapetes voadores, abóbadas douradas, turbantes e espadas curvas. Ali dorme o país encantado, no coração batente de cada cidadão de Samarcanda.
Depois, lembra-te apenas do cheiro, nada além do cheiro, e que ele te guie sem destino pelo labirinto das ruas de casas sempre iguais, pelo labirinto de rostos sempre iguais até chegares a um sítio que só o cheiro sabe onde é.
Depois, lembra-te apenas do cheiro, nada além do cheiro, e que ele te guie sem destino pelo labirinto das ruas de casas sempre iguais, pelo labirinto de rostos sempre iguais até chegares a um sítio que só o cheiro sabe onde é.
sexta-feira, dezembro 04, 2009
A casa antiga
Na esquina das escadas com a porta envidraçada da livraria- aí é onde o cheiro da casa é mais forte.
Pequenas aranhas tecem um labor ao longo das paredes. Tudo é interior e bom.
A casa está carregada das recordações de todas as infâncias.
Pequenas aranhas tecem um labor ao longo das paredes. Tudo é interior e bom.
A casa está carregada das recordações de todas as infâncias.
domingo, outubro 18, 2009
Crónica de grande revolta ou Último apelo àquele que se esqueceu
Lento reajustar das placas tectónicas, novo decifrar de novas línguas. Criar um mundo agora de barro fundido, esperado mais forte, deixando outros ventos para trás.
Que nada se faça, contudo, assim- como eu me quedo agora: em fúria, em raiva e tanta mágoa. Porque de tudo o que dissemos já não te sinto, e em tudo o que fizemos já não te encontro. Esqueceste-me numa das curvas. E deixaste que o tempo arrastado rompesse o que antes havia.
Que nada se crie assim. Os deuses, por fim, far-me-ão dormir. E do sono virá nova manhã. Nessa manhã possa ser mais do que sou agora. E mesmo que lá não estejas possa haver um sentido de real em cada coisa que será criada.
segunda-feira, outubro 12, 2009
Ânsia
E se numa palavra te pudesse dizer diria mais que saudade, embora por vezes ausência. Mas se ainda assim fosse só uma, diria: Anseio!
sábado, outubro 10, 2009
De uma videira outonal
De quantos frutos nascem nas árvores, do número de todos não bastaria para esboçar de quanto te sinto a falta.
sábado, junho 20, 2009
Dança entre a mulher mais bela do mundo e o rapaz de olhos de azul
Numa sala que não existe, onde a luz não há, a mulher mais bela do mundo aplica delicadamente o pó de arroz. Estrondosamente feliz ela agora invade cada salão.
O rapaz de olhos de azul é luz em si mesmo no pateo escuro. Agita os braços magros em gestos lentos. A face coberta de pó de arroz.
A música é um exaltação dos sentidos. Ambos vêem com os olhos demasiado abertos. Tudo neles é agora desperto e natural.
O rapaz de olhos de azul e a mulher mais bela do mundo são como duas crianças irmãs que se amam pela inocência dos olhos. São demasiado belos para perceber como de facto são exultantemente belos.
Os dois vivem agora uma felicidade isolada e compreendida a dois. São alheios ao impacto visual que causam em todos quantos os vêem sem por isso se deixarem de sentir de certa forma olhados.
Deixado só a um canto observo-os e imagino quanto de prazer me daria escrevê-los.
O rapaz de olhos de azul é luz em si mesmo no pateo escuro. Agita os braços magros em gestos lentos. A face coberta de pó de arroz.
A música é um exaltação dos sentidos. Ambos vêem com os olhos demasiado abertos. Tudo neles é agora desperto e natural.
O rapaz de olhos de azul e a mulher mais bela do mundo são como duas crianças irmãs que se amam pela inocência dos olhos. São demasiado belos para perceber como de facto são exultantemente belos.
Os dois vivem agora uma felicidade isolada e compreendida a dois. São alheios ao impacto visual que causam em todos quantos os vêem sem por isso se deixarem de sentir de certa forma olhados.
Deixado só a um canto observo-os e imagino quanto de prazer me daria escrevê-los.
segunda-feira, junho 08, 2009
Das folhas
Há folhas mortas no meu jardim. Com que cuidado as limpo, lavo e penteio! Ansiosamente junto-as. Observo-as como quem mastiga algo superiormente bom. Enrugadas, por vezes estalam e partem apenas com ligeiros toques. Mesmo a essas guardo-as. Guardo-as todas em grandes jarros de vidro cuidadosamente transparente. Observo-as como um cientista disseca. Longas horas de Outono. Não falo delas nunca. Não são para se falar. São para eu observá-las Conheco-as por cada linha e dar-lhes-ia mesmo nome não fosse isso bizarro. Agora que é verão deixo-me quieto, calado e mudo até ao instante em que haja no meu jardim a primeira folha morta.
sexta-feira, maio 15, 2009
Retrato de elegante saboreando um sorvete
Vejo-a enquanto morde e masca a fruta de gosto forte e ácido. Por vezes dá gritinhos e outras tantas faz caretas de desagrado. Mas continua a levar a fruta de gosto forte e ácido à boca. Estica os beiços e dá breves dentadas. Enquanto o suco lhe ultrapassa as papilas gustativas e lhe chega ao esófago, percebo um ritual humano e de segredos. Em cada gesto resta um espelho que revela o contrário do que esconde. Como ver agora cada reflexo em cada espelho e ainda assim sentir o seu sabor?
quinta-feira, outubro 23, 2008
Cliché ou Noite em desabafo
Dói como uma dor estranha. Agora sei tudo o que tinha medo de saber e ainda tenho. E não estou livre, mas ainda preso. Porque ele está dentro de mim. Porqe ele é ao mesmo tempo a maior das alegrias e a mais profunda das dores. E não há como arrancá-lo porque ele e o que sinto por ele são hoje um só!
E dói e dói e dói sem nunca parar de doer, mesmo quando é bom. E não há mais nada lá fora, só ele e as suas palavras cheias de vento e de coisa nenhuma. Agora restam-me promessas que só eu entendo e esperanças que só eu tenho. E agora há dias no meu futuro que não vão nunca existir.
São dias de dizer a pele dele sobre a minha e o peito dele encostado ao meu. Mas sempre sendo dois e nunca um. Sempre perto mas vivendo a maior das distâncias, sempre desejando sem nunca saciar o desejo. E ele morre aos poucos, comido pela dúvida. E eu morro aos poucos vencido pelo cansaço de tudo isto.
E já nem escrevo e já nada do que digo presta. E já nem penso porque nada do que penso chega. E já não olho porque ando de olhos fechados para o ver só a ele. E sofro, sofro, todos os dias sofro. E eles repetem-se infindavelmente, sempre iguais e escuros, como uma lembrança de que o tempo passa, mas não cura.
E dói e dói e dói sem nunca parar de doer, mesmo quando é bom. E não há mais nada lá fora, só ele e as suas palavras cheias de vento e de coisa nenhuma. Agora restam-me promessas que só eu entendo e esperanças que só eu tenho. E agora há dias no meu futuro que não vão nunca existir.
São dias de dizer a pele dele sobre a minha e o peito dele encostado ao meu. Mas sempre sendo dois e nunca um. Sempre perto mas vivendo a maior das distâncias, sempre desejando sem nunca saciar o desejo. E ele morre aos poucos, comido pela dúvida. E eu morro aos poucos vencido pelo cansaço de tudo isto.
E já nem escrevo e já nada do que digo presta. E já nem penso porque nada do que penso chega. E já não olho porque ando de olhos fechados para o ver só a ele. E sofro, sofro, todos os dias sofro. E eles repetem-se infindavelmente, sempre iguais e escuros, como uma lembrança de que o tempo passa, mas não cura.
quarta-feira, setembro 03, 2008
Digo-te: anseio!
Para Sara Guia d'Abreu
(Procuro uma posição na cadeira para escrever. Vou escrever rápido para que as palavras não se percam. A tua música corre no computador: "Un jour triste". Eu começo)
Amanhã será dia, como hoje foi. E não será como o hoje, nem como o amanhã do amanhã. Será dia como terá de ser. Cada dia com suas palavras novas de dizer e de calar.
Digo-te: da minha janela vê-se o mar e na ilha a noite chegará em duas horas. Há nuvens e não há sol. Amanhã haverá sol? Quem sabe se na minha janela amanhã haverá palavras para que eu me debruce no parapeito e diga "Hoje é um dia de sol!"
Tenho o corpo deitado sobre a cama. Tapei a janela com os taipais da janela. É de tarde porque em mim, enquanto escrevo, já é amanhã. É amanhã como digo e estou deitado, de tapais tapados, tapando a janela. Entra uma luz fina porque as cortinas são finas como a luz. Eu estou parado na cama, de corpo para cima e a luz enche-me. Estou a criar palavras.
De onde as palavras nascem é algo que não posso dizer: se da luz que amanhã me virá ao quarto se da música que corre agora, hoje, pelo computador e por mim. Não estou ligado à máquina, mas à música e talvez da música às palavras.
Digo-te hoje, julgando que é a tarde de amanhã: palavras de ser adolescente e estender o corpo no relvado do liceu; e medo do teste que vem; e o primeiro copo e a primeira noite; e confissões e risos; e tantas coisas de ser feliz e triste ao mesmo tempo; e digo tempo de conhecer e saber; tempo de amar e de criar. E lembro com saudade e sem mágoa palavras de ontem que não voltarão a ser hoje nem amanhã, nem mesmo no amanhã do amanhã.
Lembro-as hoje, sentado ao computador com medo que fujam, ou deitado amanhã à tarde sobre a cama. E seja onde for estico o braço e tu estás lá, porque são palavras de dizer que te amo e que me lembro.
(Procuro uma posição na cadeira para escrever. Vou escrever rápido para que as palavras não se percam. A tua música corre no computador: "Un jour triste". Eu começo)
Amanhã será dia, como hoje foi. E não será como o hoje, nem como o amanhã do amanhã. Será dia como terá de ser. Cada dia com suas palavras novas de dizer e de calar.
Digo-te: da minha janela vê-se o mar e na ilha a noite chegará em duas horas. Há nuvens e não há sol. Amanhã haverá sol? Quem sabe se na minha janela amanhã haverá palavras para que eu me debruce no parapeito e diga "Hoje é um dia de sol!"
Tenho o corpo deitado sobre a cama. Tapei a janela com os taipais da janela. É de tarde porque em mim, enquanto escrevo, já é amanhã. É amanhã como digo e estou deitado, de tapais tapados, tapando a janela. Entra uma luz fina porque as cortinas são finas como a luz. Eu estou parado na cama, de corpo para cima e a luz enche-me. Estou a criar palavras.
De onde as palavras nascem é algo que não posso dizer: se da luz que amanhã me virá ao quarto se da música que corre agora, hoje, pelo computador e por mim. Não estou ligado à máquina, mas à música e talvez da música às palavras.
Digo-te hoje, julgando que é a tarde de amanhã: palavras de ser adolescente e estender o corpo no relvado do liceu; e medo do teste que vem; e o primeiro copo e a primeira noite; e confissões e risos; e tantas coisas de ser feliz e triste ao mesmo tempo; e digo tempo de conhecer e saber; tempo de amar e de criar. E lembro com saudade e sem mágoa palavras de ontem que não voltarão a ser hoje nem amanhã, nem mesmo no amanhã do amanhã.
Lembro-as hoje, sentado ao computador com medo que fujam, ou deitado amanhã à tarde sobre a cama. E seja onde for estico o braço e tu estás lá, porque são palavras de dizer que te amo e que me lembro.
segunda-feira, agosto 11, 2008
Deambulante na cidade ou Verbos que me vêm só por pensar em Lisboa enquanto é tarde
Diz-me um fado, um canto lento. Uma história do quotidiano. Quantas janelas tem Alfama enquanto o sol se põe? Umas abrem-se, outras fecham-se.
Ruas de Lisboa onde as perdesse, por elas ande perdidamente em busca de algo que chega até ao Tejo.
Cidade, mulher, como se fosse vida, como se fosse coisa com alma. Breve jóia, breve espanto de passar momentos duma tarde olhando-te do jardim do Príncipe Real.
Chãos de Belém, além o rio. Mar de casório com cheiro próximo de sardinhas a assar na brasa.
Escadarias de Lisboa onde diga Santos, Graça, Alcântara, Chiado. Para onde nos levam quando já nem os passos nos guiam? Eis janelas que se abrem enquanto passo pelos passeios estreitos da cidade. Cada janela é uma pequena vida. Quantas hão de passar ainda pelo caminho?
Lisboa sem noite, só em luz, possa eu dormir enquanto me velas. Quieto e manso, de mansinho conta-me histórias de vidas que há dentro de cada varanda da Mouraria.
E diz-me um fado, calmo e não calado, essa coisa lusa que vem de dentro e que aperta mais nos terraços da cidade quando a noite caí e traz essa outra luz.
Ruas de Lisboa onde as perdesse, por elas ande perdidamente em busca de algo que chega até ao Tejo.
Cidade, mulher, como se fosse vida, como se fosse coisa com alma. Breve jóia, breve espanto de passar momentos duma tarde olhando-te do jardim do Príncipe Real.
Chãos de Belém, além o rio. Mar de casório com cheiro próximo de sardinhas a assar na brasa.
Escadarias de Lisboa onde diga Santos, Graça, Alcântara, Chiado. Para onde nos levam quando já nem os passos nos guiam? Eis janelas que se abrem enquanto passo pelos passeios estreitos da cidade. Cada janela é uma pequena vida. Quantas hão de passar ainda pelo caminho?
Lisboa sem noite, só em luz, possa eu dormir enquanto me velas. Quieto e manso, de mansinho conta-me histórias de vidas que há dentro de cada varanda da Mouraria.
E diz-me um fado, calmo e não calado, essa coisa lusa que vem de dentro e que aperta mais nos terraços da cidade quando a noite caí e traz essa outra luz.
segunda-feira, fevereiro 11, 2008
Tejo Brasileiro
Quem dera Tom Jobim. Por um pouco numa escada de Lisboa. Um porto. O crepúsculo outra vez. Passando em minha frente breve garota de Ipanema. De pé descalço pela calçada do Chiado. Lá vai ela. Me enche de graça.
Entretanto olhos de oliva espreitam do canto. Vinícius, Deus meu, que saudade. E tudo na esquina entre o Carmo e a Trindade.
E Chico que passa com a Banda, Caetano tão ao de leve segurando a mão de sua irmã Bethânia.
Lisboa, suave, namora o Tejo, lá até onde ele chega na Baía de Salvador.
Entretanto olhos de oliva espreitam do canto. Vinícius, Deus meu, que saudade. E tudo na esquina entre o Carmo e a Trindade.
E Chico que passa com a Banda, Caetano tão ao de leve segurando a mão de sua irmã Bethânia.
Lisboa, suave, namora o Tejo, lá até onde ele chega na Baía de Salvador.
quarta-feira, novembro 14, 2007
Passeio pelas salas de uma casa que mal existe
O silêncio da casa violenta-me os sentidos. De lento, exploro. Em cada quarto explode uma confissão.
Em baixo nas salas há o cheiro novo da tinta. Inspiro. Alguém apaga passados.
Cansado, busca as camas em cada quarto. Quem dera pudesse o meu corpo dormir em todas elas numa mesma noite.
Um retrato na mesa ligeira sorri. Quem poderá dizer que estórias ele guarda? Somos todos felizes nos retratos. Quem não sorri para um retrato?
A casa dança uma dança interminável de escadas. Vão dar a todos os sítios possíveis, mas quase sempre onde não queremos ir. Não há portas a não ser as que levam para outros quartos.
Enfado. Um tédio brutal e de morte invade-me. Acomoda-se. Jogado sobre uma poltrona velha. Que há para entender nesta casa?
Não há cor, não há brisa, não há linhas. Desespero, angústia e tanto cheiro a coisas perdidas.
É um banho de suor que me acorda.
Em baixo nas salas há o cheiro novo da tinta. Inspiro. Alguém apaga passados.
Cansado, busca as camas em cada quarto. Quem dera pudesse o meu corpo dormir em todas elas numa mesma noite.
Um retrato na mesa ligeira sorri. Quem poderá dizer que estórias ele guarda? Somos todos felizes nos retratos. Quem não sorri para um retrato?
A casa dança uma dança interminável de escadas. Vão dar a todos os sítios possíveis, mas quase sempre onde não queremos ir. Não há portas a não ser as que levam para outros quartos.
Enfado. Um tédio brutal e de morte invade-me. Acomoda-se. Jogado sobre uma poltrona velha. Que há para entender nesta casa?
Não há cor, não há brisa, não há linhas. Desespero, angústia e tanto cheiro a coisas perdidas.
É um banho de suor que me acorda.
Divagações sobre um Inverno próximo
Pudera eu ser como tu. Atenta como antena escutas o poema indizível até que se diga por completo ao teu ouvido.
O pateo é branco como uma manhã de Inverno e certo como a névoa e o frio. Perdidas no suor da tarde as aranhas desenham calmamente o seu labor.
Há uma delicadeza de orégãos pelo ar. Cheira a tempo novo.
A tua mão poisa de súbito sobre o espanto das coisas. Eis que acordam!
Há muito tempo foi o tempo do mito.
O pateo é branco como uma manhã de Inverno e certo como a névoa e o frio. Perdidas no suor da tarde as aranhas desenham calmamente o seu labor.
Há uma delicadeza de orégãos pelo ar. Cheira a tempo novo.
A tua mão poisa de súbito sobre o espanto das coisas. Eis que acordam!
Há muito tempo foi o tempo do mito.
quinta-feira, novembro 01, 2007
Carta ao rapaz atlante
Ao Ivan, em fraternas insularidades.
Rapaz atlante, era preciso que tivesse palavras para te dar. Que podes ter tu de mim que eu te dê?
Tu sabes da bruma e do cheiro que ela encerra, conheces as palavras guardadas no vento do oceano e vês para onde o açor vira as suas asas.
Eu não tenho mais tempo senão em que te diga aranha, orégão, odor. Tempo em que te fale da tarde e em que descreva as medidas exactas de um pateo grego.
Que há das máscaras, dos ditos, dos coros, que te diga em cima do palco de Dioniso essencialmente nu? Estou como quem não pode estar, na frieza de uma estátua grega de Praxíteles, certo como coluna no frontão do Templo.
Eu que sou do Branco e dórico no corpo, que há em mim que se assemelhe a teu passo invulgar de divindade celta? Não penso que haja palavras que nos possamos dizer.
A vida não é uma delicadeza que se lê numa elegância de fim de tarde.
Que posso eu que sou mar dar-te a ti que és também oceano? Atento como a onda quando quebra, escuta.
Et pourtant, est-ce que je peux aussi pleurer l'Atlantique? Je veux tellement rever l'infini.
Rapaz atlante, era preciso que tivesse palavras para te dar. Que podes ter tu de mim que eu te dê?
Tu sabes da bruma e do cheiro que ela encerra, conheces as palavras guardadas no vento do oceano e vês para onde o açor vira as suas asas.
Eu não tenho mais tempo senão em que te diga aranha, orégão, odor. Tempo em que te fale da tarde e em que descreva as medidas exactas de um pateo grego.
Que há das máscaras, dos ditos, dos coros, que te diga em cima do palco de Dioniso essencialmente nu? Estou como quem não pode estar, na frieza de uma estátua grega de Praxíteles, certo como coluna no frontão do Templo.
Eu que sou do Branco e dórico no corpo, que há em mim que se assemelhe a teu passo invulgar de divindade celta? Não penso que haja palavras que nos possamos dizer.
A vida não é uma delicadeza que se lê numa elegância de fim de tarde.
Que posso eu que sou mar dar-te a ti que és também oceano? Atento como a onda quando quebra, escuta.
Et pourtant, est-ce que je peux aussi pleurer l'Atlantique? Je veux tellement rever l'infini.
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