Debruçado sobre o varandim esvoaçou a mão para afastar o fumo do cigarro.
- Que mariquices! Agora nem na minha varanda posso fumar, perguntou Sara brincando enquanto apagava o cigarro.
- Vês ao fundo? É preciso que nos curvemos um pouco e que empoleiremos aqui a barriga para ver o Tejo. Dói e custa manter este equilíbrio, mas quem pensa nisso assim que vê o rio? O Tejo é tão azul. Hoje como em Agosto. Tem princípio mas é tolo dizer que tem fim. Onde acabará o Tejo?
- Já me fazia falta essa tua maneira de falar. Diz-me um poema, dizes?
- Ao longe é rio e ele vai até ao país das fadas. Porque não podemos lá ir nós também? Vês quantas perguntas faço hoje? Hoje é noite de construir poemas e dir-te-ei quantos quiseres. Porque moras em Alfama e debruçado da tua janela vejo o rio. Isso deixa-me feliz. E deixa-me feliz partilhá-lo contigo porque sabes o que é ter uma janela para o Tejo. Nós temos olhos de ver o país das fadas, não temos Sara?
Sara passou a mão levemente pelo cabelo de Gustavo enquanto lhe dava um beijo no rosto.
- Temos, porque tu e eu sabemos construir palavras de ver coisas d'alma.
A rapariga tinha o braço esticado, o corpo flectido e apoiado no varandim.
- Vês lá longe, aquela luz? Porque não dizer que aí resta o país da fadas?
sexta-feira, dezembro 26, 2008
quarta-feira, dezembro 24, 2008
Joyeux Nöel (qu'é p'ra ser em francês qu'é mai' chique)
O "Enquanto Lisboa namora o Tejo..." deseja um feliz Natal a todos os seus leitores!
domingo, dezembro 14, 2008
Estórias de Anícios e Petrónios do antigamente ou Um dia de mudar a vida das coisas antigas
A mulher fala-me. Não é muito bonita, mas é de certa forma elegante. Sorri e acena muito em concordância. Gosta de mim e eu gosto dela como estas coisas se dão entre académicos: gostamos das ideias um do outro.
Ao fundo Anícia Demétrias, ainda com catorze anos, empuleira-se no vão da escada e deixa cair pelo grande fosso a carta de São Jerónimo. A avó, matrona grave, olha-a em repreensão. A criança quase freira sorri mostrando por trás do véu da castidade uma beleza louvável no mundo dos vivos. Sexto Cláudio, espreita-me do alto, soberano, enquanto Hermoginiano acompanha o homem que vem confirmar que é real tudo aquilo que se passa.
A mulher e o homem falam e combinam coisas e acertam pormenores, meio alheios à minha existência, enquanto a decidem. Não podem ver a agradável corte que os cerca. Anícios e Petrónios do antigamente, ainda meio apagados, ainda meio etéreos. Hermoginiano já está de novo ao lado dos pais, espreitando-me do cimo das escadas. Vieram todos e espreitam com o seu ar desconfiado de romanos o rapaz que lhes faz promessas. Só Demétrias não está com eles, ainda empoleirada no vão da escada. Escorrega por ele e desce com graça os últimos degraus. De súbito, a sua mão no meu ombro. Pouco antes de acordar olho-os a todos e ouço dizê-la ao meu ouvido "Agora, dá-nos voz!"
Ao fundo Anícia Demétrias, ainda com catorze anos, empuleira-se no vão da escada e deixa cair pelo grande fosso a carta de São Jerónimo. A avó, matrona grave, olha-a em repreensão. A criança quase freira sorri mostrando por trás do véu da castidade uma beleza louvável no mundo dos vivos. Sexto Cláudio, espreita-me do alto, soberano, enquanto Hermoginiano acompanha o homem que vem confirmar que é real tudo aquilo que se passa.
A mulher e o homem falam e combinam coisas e acertam pormenores, meio alheios à minha existência, enquanto a decidem. Não podem ver a agradável corte que os cerca. Anícios e Petrónios do antigamente, ainda meio apagados, ainda meio etéreos. Hermoginiano já está de novo ao lado dos pais, espreitando-me do cimo das escadas. Vieram todos e espreitam com o seu ar desconfiado de romanos o rapaz que lhes faz promessas. Só Demétrias não está com eles, ainda empoleirada no vão da escada. Escorrega por ele e desce com graça os últimos degraus. De súbito, a sua mão no meu ombro. Pouco antes de acordar olho-os a todos e ouço dizê-la ao meu ouvido "Agora, dá-nos voz!"
terça-feira, dezembro 09, 2008
Estória em tom menor
Tem o beiço caído e o corpo jogado no cadeirão frente à janela. Da cidade e do Tejo algum enjoo.
A mulher abeira-se dele.
"Dói-me a cabeça como a noite."
Lá fora há noite e escura e densa.
Rosário, pensa: como pode doer a cabeça como a noite? Onde estão as palavras que faltam?
A mulher abeira-se dele.
"Dói-me a cabeça como a noite."
Lá fora há noite e escura e densa.
Rosário, pensa: como pode doer a cabeça como a noite? Onde estão as palavras que faltam?
sexta-feira, novembro 21, 2008
Poema do fim da tarde
Para Stijn Luyten.
Pois tu dirás pedra
Para que eu diga mar.
A vida é um dia de sol
Quando jogamos no degrau da
Entrada
Este secreto jogo
De silêncios.
Tua advinha de palavras d'alma
É cidade
Onde diga
Luz, casa e amigo.
Pois tu dirás pedra
Para que eu diga mar.
A vida é um dia de sol
Quando jogamos no degrau da
Entrada
Este secreto jogo
De silêncios.
Tua advinha de palavras d'alma
É cidade
Onde diga
Luz, casa e amigo.
sexta-feira, novembro 14, 2008
Uma noite numa livraria de Lisboa
Um dia mais ingénuo, como em ramos de árvore.
É de noite e alguém fala numa livraria de Lisboa.
Naufrago agora nas letras e de súbito sou derrotado pelo livro.
Vivo em extâse!
É de noite e alguém fala numa livraria de Lisboa.
Naufrago agora nas letras e de súbito sou derrotado pelo livro.
Vivo em extâse!
Coisas de dizer
Mais uma vez repito:
Entre nós os dois há o silêncio!
(Os teus olhos rodopiam ferverosamente irritados)
Há o teu sorriso quando me vês
E o teu abraço frente ao rio
E um sim constante em todas as horas
E uma coisa rebrilhante de teatro de ser coisa quotidiana.
Nem pedra, nem fruto, nem arca,
Ou estória ou dia ou parábola.
Ouves agora as palavras no nosso silêncio?
Entre nós os dois há o silêncio!
(Os teus olhos rodopiam ferverosamente irritados)
Há o teu sorriso quando me vês
E o teu abraço frente ao rio
E um sim constante em todas as horas
E uma coisa rebrilhante de teatro de ser coisa quotidiana.
Nem pedra, nem fruto, nem arca,
Ou estória ou dia ou parábola.
Ouves agora as palavras no nosso silêncio?
Rua da cidade ou Evocação de Sara
Dizias alma
Como se cada palavra fosse tua para dar.
Tu eras uma rua estreita e sem sentido certo.
Eras Lisboa sem Tejo, prédio arruinado.
E eras homem e mulher de pedir esmola e coisas do cair da tarde na cidade.
E amei-te tanto que em cada palavra
Calcetei nova pedra
E foste rua nova frente ao rio.
Como se cada palavra fosse tua para dar.
Tu eras uma rua estreita e sem sentido certo.
Eras Lisboa sem Tejo, prédio arruinado.
E eras homem e mulher de pedir esmola e coisas do cair da tarde na cidade.
E amei-te tanto que em cada palavra
Calcetei nova pedra
E foste rua nova frente ao rio.
sexta-feira, novembro 07, 2008
Tarde erotisante na sala do piano ou Viagem dos antigos
Na sala do piano meu corpo aguarda por ser tocado em teclas frias.
Teclas brancas ou negras, mas frias.
De corpo roçagante no rosa do sofá, de alma perdida na viagem continua de cada moldura.
Teclas brancas ou negras, mas frias.
De corpo roçagante no rosa do sofá, de alma perdida na viagem continua de cada moldura.
quinta-feira, novembro 06, 2008
Um brinde ao Presidente B.H. Obama
Ontem fez sol de manhã. E eu sentei-me na minha sala. E ouvi todas as músicas, os baladeiros de Abril. E li todos os poetas. E abri uma garrafa de Madeira. E o Ary, o Gedeão e tantos outros vieram beber comigo. E deixei-me mergulhar em tudo isto. Sentado na minha sala embebedei-me de música e poesia e livros e filmes.
Ontem foi um dia de acreditar. Hoje talvez já não, mas ontem sim. O dia de ontem é nosso para sempre. O dia em que o mundou soube voltar a acreditar e em que a democracia falou alto até às fronteiras de tudo. Ontem sonhei, bêbedo do mundo, e acreditei em tudo o que é bom acreditar.
Não sei o que será hoje. Mas sei o que foi ontem. E ontem soubémos e sonhámos que o sonho comanda a vida. E que este homem sonhou para que o mundo pulasse e avançasse como bola colorida por entre as mãos duma criança.
Ontem foi um dia de acreditar. Hoje talvez já não, mas ontem sim. O dia de ontem é nosso para sempre. O dia em que o mundou soube voltar a acreditar e em que a democracia falou alto até às fronteiras de tudo. Ontem sonhei, bêbedo do mundo, e acreditei em tudo o que é bom acreditar.
Não sei o que será hoje. Mas sei o que foi ontem. E ontem soubémos e sonhámos que o sonho comanda a vida. E que este homem sonhou para que o mundo pulasse e avançasse como bola colorida por entre as mãos duma criança.
Soul Mates
Para Daniela Varela, ela há-de saber porquê.
Fico aqui, à beira de ti. Namoro docemente a tua voz. Por onde vou ou por onde ando, tu sabes. Já olhaste para dentro de mim.
A tua música é gémea da minha alma. Às vezes ouço-te e gostava que o mundo se vestisse de nós.
Não desisti. Lentamente murmuro às águas "Oh, quero ver, quero mais e sonho, depois do rio o que é que vem?"
Tenho uma infância como tu e não a esqueço. Moldo-me e olhamo-nos dentro um do outro.
A tua alma é gémea da minha!
http://www.myspace.com/flordelisbanda
Fico aqui, à beira de ti. Namoro docemente a tua voz. Por onde vou ou por onde ando, tu sabes. Já olhaste para dentro de mim.
A tua música é gémea da minha alma. Às vezes ouço-te e gostava que o mundo se vestisse de nós.
Não desisti. Lentamente murmuro às águas "Oh, quero ver, quero mais e sonho, depois do rio o que é que vem?"
Tenho uma infância como tu e não a esqueço. Moldo-me e olhamo-nos dentro um do outro.
A tua alma é gémea da minha!
http://www.myspace.com/flordelisbanda
sexta-feira, outubro 31, 2008
Anseios nocturnos por algo semelhante à escuridão ou Palavras necessárias para saber que já não me existo
Espelho baço,
Agora sombra de mim mesmo.
Fugi-me num dia assim
E não voltei.
Mudo quedo quieto,
Resto sem eu que me seja.
Agora sombra de mim mesmo.
Fugi-me num dia assim
E não voltei.
Mudo quedo quieto,
Resto sem eu que me seja.
quarta-feira, outubro 29, 2008
Desabafo ou Palavras diárias sem linha mas com fio
A música em flor-de-lis. A falta do Tejo. O teu corpo que não me pertence. Petrónios e Anícios de há tantos tempos. Escrever incessantemente. Voltar a escrever depois.
Não me ligues sempre se faz favor. A mim também me dói e perco tempo para te consolar. Tomar conta de crianças adultas, tormento. Ser genial, ser mais genial, ainda ser genial. A falta do Tejo. Eu sem Lisboa.
Montras, lojas, roupas. Desejos. Pessoas, jantares, almoços, palavras. Ocupem-me que bem preciso!
E tardes e computadores e coisas para escrever. Fadiga. E tu ligas. E ele também liga. E falam um do outro. E eu que penso em mim e no outro que não é o mesmo outro.
Eu arvorado em Prima-Donna. Sim, é mesmo tudo sobre mim. O blogue é meu!
Eu arvorado em Prima-Donna. Milhares de episódios de Anatomia de Grey. Milhares de sexo platónico. Alguma masturbação. Pornografia.
Cansaço. Grande cansaço.
E as noites, noites sempre de noite, sempre escuras enquanto é noite e de noite. Amanhã. Palavra e desejo constante. Vou esquecer tudo e construir amanhãs como num filme qualquer.
Mas por onde é que eu ando!?
Não me ligues sempre se faz favor. A mim também me dói e perco tempo para te consolar. Tomar conta de crianças adultas, tormento. Ser genial, ser mais genial, ainda ser genial. A falta do Tejo. Eu sem Lisboa.
Montras, lojas, roupas. Desejos. Pessoas, jantares, almoços, palavras. Ocupem-me que bem preciso!
E tardes e computadores e coisas para escrever. Fadiga. E tu ligas. E ele também liga. E falam um do outro. E eu que penso em mim e no outro que não é o mesmo outro.
Eu arvorado em Prima-Donna. Sim, é mesmo tudo sobre mim. O blogue é meu!
Eu arvorado em Prima-Donna. Milhares de episódios de Anatomia de Grey. Milhares de sexo platónico. Alguma masturbação. Pornografia.
Cansaço. Grande cansaço.
E as noites, noites sempre de noite, sempre escuras enquanto é noite e de noite. Amanhã. Palavra e desejo constante. Vou esquecer tudo e construir amanhãs como num filme qualquer.
Mas por onde é que eu ando!?
terça-feira, outubro 28, 2008
Estória das duas cidades com rio ou Conversa entre coisas que nos rodeiam
Para Ana Garcia e Sara Borga, porque me inspiram .
A. senta-se numa cadeira perto do lago. A. descobriu agora a vida em Lisboa e isso entusiasma-a. Este é um prazer conquistado: A. senta-se numa cadeira do Relógio d'Água com uma fatia de bolo. O jardim Amália Rodrigues é agora um dos seus sítios preferidos. Há gente e vida assim como ela queria que houvesse. As pessoas têm em geral um ar feliz e o jardim é quase sempre verde. Outubro é agora escaldante nas suas tardes. E isso agrada-a. Ver as coisas acontecerem fá-la sentir que faz parte delas. A. está sentada na sua cadeira mas viaja em torno de si e dos outros.
Enquanto, S. lembra-se de Lisboa e do jardim Amália Rodrigues dos tempos em que morava no Bairro Azul. Era mais nova, mas já tinha os olhos abertos. A mãe levava-a a passear pelo corredor verde. Uma bicicleta ocasional parece-lhe agora ridículo, como antes lhe parecia fantástico. Em Gent, frente ao rio, são várias as bicicletas, todas ocasionais, porque para todas as ocasiões. Outubro tem agora tardes enregelantes enquanto S. se habitua aos rigores do Norte. Os gestos são uma chamada de atenção constante e S. deixa-se levar. Desenha incessantemente para captar a vida da pequena cidade à sua volta. Porque nas tardes de Outubro S. tenta entender a vida da cidade enquanto se senta numa café junto ao rio.
A. e S. têm normalmente vidas distantes. Partilharam uma vez algumas palavras e uma peça de teatro, uma tarde no São Luiz. A. e S. amam a vida da cidade e têm sede. A sede fá-las procurar novas nascentes. No metro, ou a caminho da faculdade numa bicicleta. Na aula de economia financeira ou frente a uma tela. Ao som dum cavaquinho ou ao som de qualquer que seja o instrumento típico dos belgas. A. e S. dão saudades porque vão fazendo a vida loge de mim, mas sobretudo guardam em mim esperanças de outras sedes.
A. senta-se numa cadeira perto do lago. A. descobriu agora a vida em Lisboa e isso entusiasma-a. Este é um prazer conquistado: A. senta-se numa cadeira do Relógio d'Água com uma fatia de bolo. O jardim Amália Rodrigues é agora um dos seus sítios preferidos. Há gente e vida assim como ela queria que houvesse. As pessoas têm em geral um ar feliz e o jardim é quase sempre verde. Outubro é agora escaldante nas suas tardes. E isso agrada-a. Ver as coisas acontecerem fá-la sentir que faz parte delas. A. está sentada na sua cadeira mas viaja em torno de si e dos outros.
Enquanto, S. lembra-se de Lisboa e do jardim Amália Rodrigues dos tempos em que morava no Bairro Azul. Era mais nova, mas já tinha os olhos abertos. A mãe levava-a a passear pelo corredor verde. Uma bicicleta ocasional parece-lhe agora ridículo, como antes lhe parecia fantástico. Em Gent, frente ao rio, são várias as bicicletas, todas ocasionais, porque para todas as ocasiões. Outubro tem agora tardes enregelantes enquanto S. se habitua aos rigores do Norte. Os gestos são uma chamada de atenção constante e S. deixa-se levar. Desenha incessantemente para captar a vida da pequena cidade à sua volta. Porque nas tardes de Outubro S. tenta entender a vida da cidade enquanto se senta numa café junto ao rio.
A. e S. têm normalmente vidas distantes. Partilharam uma vez algumas palavras e uma peça de teatro, uma tarde no São Luiz. A. e S. amam a vida da cidade e têm sede. A sede fá-las procurar novas nascentes. No metro, ou a caminho da faculdade numa bicicleta. Na aula de economia financeira ou frente a uma tela. Ao som dum cavaquinho ou ao som de qualquer que seja o instrumento típico dos belgas. A. e S. dão saudades porque vão fazendo a vida loge de mim, mas sobretudo guardam em mim esperanças de outras sedes.
sexta-feira, outubro 24, 2008
Passeio do pequeno conde ou Viagem em redor de outros
Esta gente aqui sentada é sempre algo estranha. O mundo passa veloz lá fora, tão mais veloz quanto tudo anda mais rápido. E passam as luzes e vagueamos no escuro a 200km/h até que se ouve uma claro som, quase sempre sobreposto aos outros, que anuncia: "próxima paragem...".
Esta gente aqui sentada não tem pressa, mesmo quando tem. Há quem bata um pé nervoso e vá dando estalidos com a língua. Outros bufam constantemente. Alguém há-de ter a culpa por chegarem atrasados onde hão-de chegar. Alguém que não eles. Todos nós os outros. Mas o tempo não passa, só o nervosismo deles aumenta. O comboio continua estagnado enquanto viaja à velocidade da escuridão.
O pequeno conde senta-se alheado e distante numa cadeira a um canto. Um homem, à sua frente, tira da mala uma sanduíche. Trinca-a em grandes nacos que mastiga com vontade. Ver alguém abrir uma mala é sempre uma surpresa, uma interrogação e um verdadeiro acto de coscuvilhice, porque é simplesmente impossível resistir à curiosidade. É assim como um Kinder Surpresa, três desejos num só, mas numa versão adulta, melhorada e que não faz mal aos dentes embora não comporte tanto leite para beneficiar os ossos. É como dizia, resistir a olhar é quase impossível. E o momento melhor é aquele antes, em que estabelecemos um jogo de adivinhas connsoco mesmos. O que será? Ah, uma sanduíche, nota com ar aborrecido. O pequeno conde ouve muitas vezes a voz da mãe na cabeça. Que não se deve olhar, nem espreitar, nem coscuvilhar. Mas a mãe não anda por aqui todos os dias e sabe pouco desta tentação.
Mas há mais pessoas neste micro-universo que se reorganiza a cada nova paragem. São mulheres de encantos fanados e roupas justas. São crianças aspersoras que balançam o guarda-chuva molhado dum lado para o outro. São pais que berram e pais que se deixam estar enquanto a filha mama furiosamente a ponta do casaco. São novos executivos que berram muito alto ao telémovel. "Sim, estou no metro. Não, não, claro que posso falar! Diga, diga..." e aumentam a frequência em decibéis impossíveis para se fazerem ouvir. São jovens suburbanos que chegam do colégio e entrando no Rato só querem ouvir a senhora do anúncio anunciar que a próxima paragem é Odivelas.
Onde quer que pare a vida desta gente, ou Olaias ou Areeiro, ela passa e pára no Metro. E há quem não perceba e quem não pense nisso. Até o pequeno conde lhe dedica pouco tempo. Mas há perguntas que ficam. Quantas vezes ao longo da vida teremos visto a mesma pessoa no comboio sem nos darmos conta?
E há vezes, embora houvesse mais antigamente, em que o Metro pára no túnel escuro. É como se a escuridão forçada acordasse as gentes. De súbito, e por não mais tempo que isso, todos sabem do momento comum que vivem e do micro-kosmos onde se encontram. Agora há amigos dum minuto a quem dizer "E eu que estava cheia de pressa!", ou "Isto é sempre o mesmo!". Até o pequeno conde, entusiasmado, se vira para a senhora velha e gorda ao seu lado e diz "Que aborrecido, não é? Isto do Metro parar...". E a senhora torce o nariz, mas consciente de que não terá mais amigos senão o pequeno conde durante o tempo de paragem do Metro, ri, concorda acenando com a cabeça e continua a conversa.
E o metro voltou a andar. A seguir é a vez do pequeno conde sair. Não olha para trás, mal se despediu da senhora velha e gorda, não voltará a pensar nela. O pequeno conde poucas vezes voltará a pensar em todas estas coisas no correr deste e doutros dias. Mas é certo que a vida do pequeno conde há-de voltar a passar pelo metro e lá passando há-de parar nesse tempo infinito entre uma estação e outra em que se formam micro-kosmos.
Esta gente aqui sentada não tem pressa, mesmo quando tem. Há quem bata um pé nervoso e vá dando estalidos com a língua. Outros bufam constantemente. Alguém há-de ter a culpa por chegarem atrasados onde hão-de chegar. Alguém que não eles. Todos nós os outros. Mas o tempo não passa, só o nervosismo deles aumenta. O comboio continua estagnado enquanto viaja à velocidade da escuridão.
O pequeno conde senta-se alheado e distante numa cadeira a um canto. Um homem, à sua frente, tira da mala uma sanduíche. Trinca-a em grandes nacos que mastiga com vontade. Ver alguém abrir uma mala é sempre uma surpresa, uma interrogação e um verdadeiro acto de coscuvilhice, porque é simplesmente impossível resistir à curiosidade. É assim como um Kinder Surpresa, três desejos num só, mas numa versão adulta, melhorada e que não faz mal aos dentes embora não comporte tanto leite para beneficiar os ossos. É como dizia, resistir a olhar é quase impossível. E o momento melhor é aquele antes, em que estabelecemos um jogo de adivinhas connsoco mesmos. O que será? Ah, uma sanduíche, nota com ar aborrecido. O pequeno conde ouve muitas vezes a voz da mãe na cabeça. Que não se deve olhar, nem espreitar, nem coscuvilhar. Mas a mãe não anda por aqui todos os dias e sabe pouco desta tentação.
Mas há mais pessoas neste micro-universo que se reorganiza a cada nova paragem. São mulheres de encantos fanados e roupas justas. São crianças aspersoras que balançam o guarda-chuva molhado dum lado para o outro. São pais que berram e pais que se deixam estar enquanto a filha mama furiosamente a ponta do casaco. São novos executivos que berram muito alto ao telémovel. "Sim, estou no metro. Não, não, claro que posso falar! Diga, diga..." e aumentam a frequência em decibéis impossíveis para se fazerem ouvir. São jovens suburbanos que chegam do colégio e entrando no Rato só querem ouvir a senhora do anúncio anunciar que a próxima paragem é Odivelas.
Onde quer que pare a vida desta gente, ou Olaias ou Areeiro, ela passa e pára no Metro. E há quem não perceba e quem não pense nisso. Até o pequeno conde lhe dedica pouco tempo. Mas há perguntas que ficam. Quantas vezes ao longo da vida teremos visto a mesma pessoa no comboio sem nos darmos conta?
E há vezes, embora houvesse mais antigamente, em que o Metro pára no túnel escuro. É como se a escuridão forçada acordasse as gentes. De súbito, e por não mais tempo que isso, todos sabem do momento comum que vivem e do micro-kosmos onde se encontram. Agora há amigos dum minuto a quem dizer "E eu que estava cheia de pressa!", ou "Isto é sempre o mesmo!". Até o pequeno conde, entusiasmado, se vira para a senhora velha e gorda ao seu lado e diz "Que aborrecido, não é? Isto do Metro parar...". E a senhora torce o nariz, mas consciente de que não terá mais amigos senão o pequeno conde durante o tempo de paragem do Metro, ri, concorda acenando com a cabeça e continua a conversa.
E o metro voltou a andar. A seguir é a vez do pequeno conde sair. Não olha para trás, mal se despediu da senhora velha e gorda, não voltará a pensar nela. O pequeno conde poucas vezes voltará a pensar em todas estas coisas no correr deste e doutros dias. Mas é certo que a vida do pequeno conde há-de voltar a passar pelo metro e lá passando há-de parar nesse tempo infinito entre uma estação e outra em que se formam micro-kosmos.
quinta-feira, outubro 23, 2008
Cliché ou Noite em desabafo
Dói como uma dor estranha. Agora sei tudo o que tinha medo de saber e ainda tenho. E não estou livre, mas ainda preso. Porque ele está dentro de mim. Porqe ele é ao mesmo tempo a maior das alegrias e a mais profunda das dores. E não há como arrancá-lo porque ele e o que sinto por ele são hoje um só!
E dói e dói e dói sem nunca parar de doer, mesmo quando é bom. E não há mais nada lá fora, só ele e as suas palavras cheias de vento e de coisa nenhuma. Agora restam-me promessas que só eu entendo e esperanças que só eu tenho. E agora há dias no meu futuro que não vão nunca existir.
São dias de dizer a pele dele sobre a minha e o peito dele encostado ao meu. Mas sempre sendo dois e nunca um. Sempre perto mas vivendo a maior das distâncias, sempre desejando sem nunca saciar o desejo. E ele morre aos poucos, comido pela dúvida. E eu morro aos poucos vencido pelo cansaço de tudo isto.
E já nem escrevo e já nada do que digo presta. E já nem penso porque nada do que penso chega. E já não olho porque ando de olhos fechados para o ver só a ele. E sofro, sofro, todos os dias sofro. E eles repetem-se infindavelmente, sempre iguais e escuros, como uma lembrança de que o tempo passa, mas não cura.
E dói e dói e dói sem nunca parar de doer, mesmo quando é bom. E não há mais nada lá fora, só ele e as suas palavras cheias de vento e de coisa nenhuma. Agora restam-me promessas que só eu entendo e esperanças que só eu tenho. E agora há dias no meu futuro que não vão nunca existir.
São dias de dizer a pele dele sobre a minha e o peito dele encostado ao meu. Mas sempre sendo dois e nunca um. Sempre perto mas vivendo a maior das distâncias, sempre desejando sem nunca saciar o desejo. E ele morre aos poucos, comido pela dúvida. E eu morro aos poucos vencido pelo cansaço de tudo isto.
E já nem escrevo e já nada do que digo presta. E já nem penso porque nada do que penso chega. E já não olho porque ando de olhos fechados para o ver só a ele. E sofro, sofro, todos os dias sofro. E eles repetem-se infindavelmente, sempre iguais e escuros, como uma lembrança de que o tempo passa, mas não cura.
sábado, outubro 11, 2008
Desconsolo ou Vitória do dia que há-de nascer amanhã
Em nada nada direi
Que não há nada que em nada se possa dizer.
E de dizer nada nada fica
Nada passa, nada marca.
Mancha imaculada
Em nada que tenha, nada comporta ou conserva
Que é nada que eu sinto agora
Como se nada tivesse sido e em dia nada resolvido
De nós mais não sobresse que algum breve resto de nada!
Que não há nada que em nada se possa dizer.
E de dizer nada nada fica
Nada passa, nada marca.
Mancha imaculada
Em nada que tenha, nada comporta ou conserva
Que é nada que eu sinto agora
Como se nada tivesse sido e em dia nada resolvido
De nós mais não sobresse que algum breve resto de nada!
Renúncia do dia que não existiu ou Busca ansiada do corpo perfeito que eu criei
Aqui em vã fraqueza me quedo
Sem corpo teu ou meu que chame.
Sem corpo teu ou meu que chame.
quinta-feira, outubro 02, 2008
Eça
Estranha gente, para quem é fora de dúvida que ninguém pode ser moral sem ler a Bíblia, ser forte sem jogar o cricket, e ser gentleman sem ser inglês!
In Eça de Queiroz, Cartas de Inglaterra e Crónicas de Londres (publicado pela 1ª vez em 24 de Outubro de 1882 na Gazeta de Notícias)
In Eça de Queiroz, Cartas de Inglaterra e Crónicas de Londres (publicado pela 1ª vez em 24 de Outubro de 1882 na Gazeta de Notícias)
segunda-feira, setembro 29, 2008
Contorno algo incerto ou Cisne barroco esvoaçando as asas
"Maruliano, meu avô, acreditava nos astros."
E repito tantas vezes, palavras mágicas.
Encontro o impensável, para dizer o indizível.
É que agora talvez já não te ame.
E repito tantas vezes, palavras mágicas.
Encontro o impensável, para dizer o indizível.
É que agora talvez já não te ame.
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