sábado, setembro 17, 2011
Da perda
Perder vem de manso e instala-se nesta cadeira ao meu lado. Depois jogo este quebra-cabeças sem número em que cada dia é mais uma peça falando-me do que perdi.
sábado, setembro 10, 2011
Ritual
Como se das ondas um campo trigado.
Tuas mãos côncavas em alegre seara.
Um jeito de correr, corpo molhado,
Coleccionando as espigas da estrada.
De tarde nunca falavas.
Tisnado do sol, aquele banho
Era o ritual de outras coisas.
Tuas mãos côncavas em alegre seara.
Um jeito de correr, corpo molhado,
Coleccionando as espigas da estrada.
De tarde nunca falavas.
Tisnado do sol, aquele banho
Era o ritual de outras coisas.
No meu regresso
Quantas vezes isto houve no meu regresso?
Deixa que aconteça- o poema
Dir-se-á até ao final.
Era assim que lhes falavam
Os antigos chefes das tribos.
Os homens dançavam uma
Dança de barro.
Chamavam-lhe início.
Depois foi de dia...
Deixa que aconteça- o poema
Dir-se-á até ao final.
Era assim que lhes falavam
Os antigos chefes das tribos.
Os homens dançavam uma
Dança de barro.
Chamavam-lhe início.
Depois foi de dia...
quinta-feira, setembro 01, 2011
Praia
à avó Nicha, essência da minha infância
Naqueles dias-
O vento soprava sempre
Porque éramos velozes a abrir as janelas
E a fazer a cabeça espreitar de fora
Contra as vozes irritadiças das mães
"Ponha já a cabeça para dentro".
Quase não abríamos os olhos, rasgados como um chinês,
Mas tudo era sentir e saber,
A mão inclinada daquela maneira que o tio ensinou
E que não causa atrito.
O vento forte.
Toalhas estendidas longas na praia, banhos de mar e seixos rolantes.
"Cuidado que o mar hoje puxa"
Aquela onda que vinha debaixo da outra e depois eu não vi
Deve ser assim um pateo branco e quadrado
Era a voz da mãe aflita e a mão forte de todas as mãe aflitas
Já não estava dentro de água tinha só o corpo molhado
E um raspanete valente a zumbir nos ouvidos.
Brincadeiras e rochas, pernas esfoladas
"Viu que saltei da pedra grande, mãe?
Foi tão bom- agora não há mais medo, hei-de sempre lá ir"
Queria sentir outra vez o corpo a entrar
A água gelada e depois sabia onde ficava cada osso
Certinhos todos os duzentos e seis.
Hoje ninguém quer comer "faça sandes para levar"
Come-se ali no bar da praia.
Mas não que demora muito tempo,
Esperamos três horas e isso não podemos
Que não queremos deixar de ir ao mar
Mostrar aos grandes que sabemos dar mergulhos, furar ondas
E que não temos medo porque ontem a mamã viu-nos
Pular da pedra grande.
Há tarde sabe melhor "protector na cara, já"
Era aquela pasta pelos olhos, os beiços bem para dentro
Para nem provar
"Estou branco, estou branco?"
"Pareces um E.T."
Risada pelo calhau que se ouvia em todo o lado.
Pastas e pastas de protector e depois era aquele saquinho
Champo e gel
Rápido para os duches
"Eu sou o primeiro"
"Ui, que gela, mal posso cá estar"
"Só aguentamos na praia, est'água assim tão gelada"
(anos a seguir vieram os senhores e proibiram aqueles banhos
e nunca mais tomámos duche ao canto da praia e viamos o por-do-dol
e dizíamos "ai que lindo!")
"Siga já para casa d'avó. Lá ficamos à espera"
Toca a subir essa calçada feita de calhau, vila acima,
Aqui é só escadas
"Um beijo a Nossa Senhora da Luz"
"Mas entrar assim na igreja- molhados e de calções?"
"Nosso Senhora não se zanga, quer é beijinhos que Ela ouve mais
A quem é mais pequeno".
Corre, corre a ver quem chega primeiro
"Deixe os patos da ribeira, vamos indo"
Hoje os patos têm todos penas
Não era como naquele dia das estórias
Que as penas estavam na casa das tias velhas e não nos patos
Coitadinhos, que os patos também sofrem para nós termos nossos milagres.
A bexiga aperta tanto e só há uma retrete.
"Vamos contar piadas, a ver se passa o tempo"
"Um de cada vez para irmos todos"
"Eu primeiro e tu depois"
Esparramados no caramanchão da sala
Tão cansados do banho e dos mergulhos e do mar que não tem fim
E aquele que se'nrolou e aquele que saltou da pedra
Agora os grandes já sabem como eles mergulham
"P'ró ano ainda está mais crescido"
Vamos com estórias para contar, tantas quando chegarmos a casa
Tudo a rir enquanto janta.
Era assim ser feliz sem saber, mas lá no fundo sabendo
Quando o verão era verão
A praia era calhau
E todos que deviam por lá estavam.
Naqueles dias-
O vento soprava sempre
Porque éramos velozes a abrir as janelas
E a fazer a cabeça espreitar de fora
Contra as vozes irritadiças das mães
"Ponha já a cabeça para dentro".
Quase não abríamos os olhos, rasgados como um chinês,
Mas tudo era sentir e saber,
A mão inclinada daquela maneira que o tio ensinou
E que não causa atrito.
O vento forte.
Toalhas estendidas longas na praia, banhos de mar e seixos rolantes.
"Cuidado que o mar hoje puxa"
Aquela onda que vinha debaixo da outra e depois eu não vi
Deve ser assim um pateo branco e quadrado
Era a voz da mãe aflita e a mão forte de todas as mãe aflitas
Já não estava dentro de água tinha só o corpo molhado
E um raspanete valente a zumbir nos ouvidos.
Brincadeiras e rochas, pernas esfoladas
"Viu que saltei da pedra grande, mãe?
Foi tão bom- agora não há mais medo, hei-de sempre lá ir"
Queria sentir outra vez o corpo a entrar
A água gelada e depois sabia onde ficava cada osso
Certinhos todos os duzentos e seis.
Hoje ninguém quer comer "faça sandes para levar"
Come-se ali no bar da praia.
Mas não que demora muito tempo,
Esperamos três horas e isso não podemos
Que não queremos deixar de ir ao mar
Mostrar aos grandes que sabemos dar mergulhos, furar ondas
E que não temos medo porque ontem a mamã viu-nos
Pular da pedra grande.
Há tarde sabe melhor "protector na cara, já"
Era aquela pasta pelos olhos, os beiços bem para dentro
Para nem provar
"Estou branco, estou branco?"
"Pareces um E.T."
Risada pelo calhau que se ouvia em todo o lado.
Pastas e pastas de protector e depois era aquele saquinho
Champo e gel
Rápido para os duches
"Eu sou o primeiro"
"Ui, que gela, mal posso cá estar"
"Só aguentamos na praia, est'água assim tão gelada"
(anos a seguir vieram os senhores e proibiram aqueles banhos
e nunca mais tomámos duche ao canto da praia e viamos o por-do-dol
e dizíamos "ai que lindo!")
"Siga já para casa d'avó. Lá ficamos à espera"
Toca a subir essa calçada feita de calhau, vila acima,
Aqui é só escadas
"Um beijo a Nossa Senhora da Luz"
"Mas entrar assim na igreja- molhados e de calções?"
"Nosso Senhora não se zanga, quer é beijinhos que Ela ouve mais
A quem é mais pequeno".
Corre, corre a ver quem chega primeiro
"Deixe os patos da ribeira, vamos indo"
Hoje os patos têm todos penas
Não era como naquele dia das estórias
Que as penas estavam na casa das tias velhas e não nos patos
Coitadinhos, que os patos também sofrem para nós termos nossos milagres.
A bexiga aperta tanto e só há uma retrete.
"Vamos contar piadas, a ver se passa o tempo"
"Um de cada vez para irmos todos"
"Eu primeiro e tu depois"
Esparramados no caramanchão da sala
Tão cansados do banho e dos mergulhos e do mar que não tem fim
E aquele que se'nrolou e aquele que saltou da pedra
Agora os grandes já sabem como eles mergulham
"P'ró ano ainda está mais crescido"
Vamos com estórias para contar, tantas quando chegarmos a casa
Tudo a rir enquanto janta.
Era assim ser feliz sem saber, mas lá no fundo sabendo
Quando o verão era verão
A praia era calhau
E todos que deviam por lá estavam.
quinta-feira, maio 26, 2011
À Tarde
Para Luísa Vaz Ferreira
Às vezes, quando passo por Lisboa, sinto-te a falta. São algumas intimidades para as quais urge nunca inventar palavras. O tempo é demasiado longo nas eternas viagens suburbanas e no espaço perdido entre a cidade e as coisas pensamos em tudo, mas mais na saudade. Lisboa agora sem fado, sem Tejo, sem cais. Onde andas?
Às vezes, quando passo por Lisboa, sinto-te a falta. São algumas intimidades para as quais urge nunca inventar palavras. O tempo é demasiado longo nas eternas viagens suburbanas e no espaço perdido entre a cidade e as coisas pensamos em tudo, mas mais na saudade. Lisboa agora sem fado, sem Tejo, sem cais. Onde andas?
segunda-feira, maio 23, 2011
Fragmentum Gustaui
Aquela cadeira tinha sido restaurada pela tia Bé. Era uma cadeira velha e de vime onde Gustavo gostava de sentar-se quando, era ainda miúdo, passava tardes no terraço da casa das Azinhagas do Mar a ver as ondas lamberem a encosta. Na altura da mudança do Artur a tia Bé tinha-a restaurado e oferecido ao casal. Gustavo soubera logo que ia ficar na marquise de ferro azul. Era uma pequena marquise de muitos vidros pequenos e quadrados e de ferro forjado azul que ligava por fora o escritório e a sala. Era ali, que nos crepúsculos já quentes de Maio Gustavo se sentava a ler. Tinha sempre ânsias de coisas bucólicas, como as saudades de um campo onde nunca tivesse tido uma infância. Como se o pateo ajardinado em baixo o fizesse pensar em montanhas e cozinhas impregnadas do cheiro axaropado das compotas em líquido ainda quente. Isto dava-lhe paz e deixava-o calmo. Pousava na mesa ao lado uma grande caneca com uma infusão de menta e hortelã. Esperava que arrefecesse e depois tragava em grandes goles até ao fundo. Lia à espera do efeito que chegava sempre: uma camada gentil e ligeira de suor refrescava todo o corpo. Depois, gostava ainda de abrir a palma da mão e espalmá-la contra as paredes curtas e férreas da marquise- o ferro eternamente frio em todos os seus cinco dedos. Eram tardes sem Lisboa e sem pessoas como se o mundo acontecesse num dos seus livros bucólicos de belas capas velhas de alfarrabista.
terça-feira, maio 03, 2011
D
Pour lui
Como o deus dos toiros naquela manhã
Assim as coisas aconteciam surpreendentemente.
Amar era fácil como o sumo das nespras
Escorrendo-nos pelos beiços.
Tu dizias Verde e era uma primavera feita de andorinhas,
Rios, flores silvestres e pequenas casas caiadas dispersas nos montes.
Era de manhã muito cedo.
Nos lençóis de ontem os meus dedos encontravam caminhos
Pelos teus cabelos
Cavalos que de súbito surgissem em geografia desconhecida.
O mar muitas vezes, quase todas.
Depois as tardes de passeio e os gelados lambidos sofregamente
À beira-Tejo ou beira-cidade.
A nossa casa na Rua do Alecrim tinha um pateo traseiro de azulejos
Onde Lisboa era uma nova cidade,
Secreta e segura,
Só nossa como os macarrons coloridos que comíamos às cinco da tarde.
Tu eras sempre leve e homem
E isso parecia bastar-me na iminência dos dias sucedidos.
Usavas muitas vezes as calças de linho branco do verão passado
Que eu engomava na tábua colocada sobre as pedras do pateo.
Um lugar onde havia sol e mais tarde luz
E também flores e árvores pequeninas.
O teu corpo sentava-se muitas vezes naquela cadeira de vime que tínhamos
Largada na varanda que dava para dentro.
Era comum leres. Eram tardes inteiras de poesia.
Lias sempre alto, como ainda hoje lês,
Porque era primavera e o inverno havia passado
Ao que nos pareciam muitos meses
Como se tivessem acontecido vários anos sem inverno,
Mas apenas de primavera.
Se nos esticássemos nos varandins fronteiros conseguíamos olhar o rio.
O teu corpo enroscava-se muitas vezes no ferro forjado e frio dos varandins
E suportavas o teu peso com os abdominais tesos e duros.
Ríamos muito nessas tardes
Porque tu encontravas sempre particularidades engraçadas nos barcos que
Víamos passar ao fundo.
Hoje ainda somos felizes, mesmo quando o Inverno parece durar há mais de dez estações,
Porque de manhã o nosso pateo tem sol
E quando acordas muito cedo eu escorrego os meus dedos pelos teus cabelos
Cavalos em encontradas geografias.
Como o deus dos toiros naquela manhã
Assim as coisas aconteciam surpreendentemente.
Amar era fácil como o sumo das nespras
Escorrendo-nos pelos beiços.
Tu dizias Verde e era uma primavera feita de andorinhas,
Rios, flores silvestres e pequenas casas caiadas dispersas nos montes.
Era de manhã muito cedo.
Nos lençóis de ontem os meus dedos encontravam caminhos
Pelos teus cabelos
Cavalos que de súbito surgissem em geografia desconhecida.
O mar muitas vezes, quase todas.
Depois as tardes de passeio e os gelados lambidos sofregamente
À beira-Tejo ou beira-cidade.
A nossa casa na Rua do Alecrim tinha um pateo traseiro de azulejos
Onde Lisboa era uma nova cidade,
Secreta e segura,
Só nossa como os macarrons coloridos que comíamos às cinco da tarde.
Tu eras sempre leve e homem
E isso parecia bastar-me na iminência dos dias sucedidos.
Usavas muitas vezes as calças de linho branco do verão passado
Que eu engomava na tábua colocada sobre as pedras do pateo.
Um lugar onde havia sol e mais tarde luz
E também flores e árvores pequeninas.
O teu corpo sentava-se muitas vezes naquela cadeira de vime que tínhamos
Largada na varanda que dava para dentro.
Era comum leres. Eram tardes inteiras de poesia.
Lias sempre alto, como ainda hoje lês,
Porque era primavera e o inverno havia passado
Ao que nos pareciam muitos meses
Como se tivessem acontecido vários anos sem inverno,
Mas apenas de primavera.
Se nos esticássemos nos varandins fronteiros conseguíamos olhar o rio.
O teu corpo enroscava-se muitas vezes no ferro forjado e frio dos varandins
E suportavas o teu peso com os abdominais tesos e duros.
Ríamos muito nessas tardes
Porque tu encontravas sempre particularidades engraçadas nos barcos que
Víamos passar ao fundo.
Hoje ainda somos felizes, mesmo quando o Inverno parece durar há mais de dez estações,
Porque de manhã o nosso pateo tem sol
E quando acordas muito cedo eu escorrego os meus dedos pelos teus cabelos
Cavalos em encontradas geografias.
quarta-feira, abril 27, 2011
Os homens belos
Os homens belos do pateo grego são como a biga latina de cavalos cujas velozes patas batem vorazes sobre o meu peito.
quinta-feira, março 31, 2011
A casa dos ricos
Era uma coisa estranha- a casa dos ricos. Os móveis eram bonitos e caros; as paredes mostravam quadros que nos faziam acreditar um gosto soberbo; e nas casas de banho havia pequenas toalhas individuais que depois de usadas deitavam-se num cesto estratègicamente colocado debaixo do lava-mãos. Mas o mais impressionante era que os ricos tinham no terraço grandes sofás de pano e tapetes por debaixo deles. Certo dia, contudo, descobriu que aos ricos as casas também custam a manter: durante o Inverno os móveis do terraço cobriam-se com grandes protecções de plástico, porque afinal os móveis dos ricos também se sujam e apanham chuva. Mas o mais engraçado de tudo é que em dias de sol punha-se no terraço, como em qualquer varanda suburbana, um estendal articulado onde, entre outras peças, coravam as cuecas brancas.
quarta-feira, março 23, 2011
Lisboa-Azulejo
Lisboa e suas ruas de azulejos,
Lisboa e suas tardes de turistas,
Lisboa centro da vida,
Descendo invariavelmente para o Tejo.
Lisboa e suas tardes de turistas,
Lisboa centro da vida,
Descendo invariavelmente para o Tejo.
Corpo-Tejo
O corpo jamais percorrido,
Depois o Tejo- sem ondas, sem barcos,
Como a rua estreita que caminha para cima
E nada de si mesma guarda.
Depois o Tejo- sem ondas, sem barcos,
Como a rua estreita que caminha para cima
E nada de si mesma guarda.
quinta-feira, março 17, 2011
Pequena casa branca
para Nini Salgueiro
Saberás se a seda é tão macia como a caxemira.
Enroscada na manta do sofá.
Da luz de todas as janelas da pequena casa branca,
Agora teu corpo como depois.
Os passos assustados do gato, tacteando.
E tu repousada,
Apontando com certeza as almofadas riscadas para a cama.
Saberás se a seda é tão macia como a caxemira.
Enroscada na manta do sofá.
Da luz de todas as janelas da pequena casa branca,
Agora teu corpo como depois.
Os passos assustados do gato, tacteando.
E tu repousada,
Apontando com certeza as almofadas riscadas para a cama.
Tejo e sala
para Stijn Luyten, ao jantar.
Havia esta sala muitas vezes.
Era como uma coisa da memória.
Nos dia de sol apontava uma cadeira
para o varandim.
Espraiava
depois o corpo.
Lisboa era leve nesses dias e cheia de Tejo.
Havia esta sala muitas vezes.
Era como uma coisa da memória.
Nos dia de sol apontava uma cadeira
para o varandim.
Espraiava
depois o corpo.
Lisboa era leve nesses dias e cheia de Tejo.
Sem Tejo
No páteo escuro para onde dão as janelas deste quarto.
Além,
dois gatos brincam entre as grades.
Abaixo,
como um fosso longo.
Nunca lhes mostram os becos da cidade onde o sol não chega. Nunca.
São as traseiras dos prédios que guardam o segredo-
Lisboa sem qualquer Tejo.
Além,
dois gatos brincam entre as grades.
Abaixo,
como um fosso longo.
Nunca lhes mostram os becos da cidade onde o sol não chega. Nunca.
São as traseiras dos prédios que guardam o segredo-
Lisboa sem qualquer Tejo.
quarta-feira, março 16, 2011
A marquise e as gaiolas
à Tia Lil
Eram seis da manhã quando atravessava o Príncipe Real. Lisboa ainda sem gente, mas já com sol. Maio. É como dizer que nasciam flores no jardim e mais à frente nas roseiras que plantaram no miradouro.
O Tio Raoul tinha aqui uma casa quando eu era pequeno. Era um apartamento antigo da rua da Escola Politécnica. Tinha um quarto interior, com uma janela interior. Ai era a casa de jantar. Isto era um fascínio.
Havia também uma marquise de ferro azul que dava para o pateo traseiro do prédio. Há um único pateo para os prédios da rua da Escola Politécnica que se estende do Museu de Ciência ao palacete Ribeiro da Cunha. Por isso é demasiado grande para ser um pateo e demasiado seco para ser um jardim. É um quintal?
O Tio Raoul tinha gaiolas na marquise e dentro delas tinha piriquitos coloridos. Todos tinham nome e eu não lembro do nome de nenhum. Os piriquitos nunca me fascinaram. Mas as gaiolas.
Eram 6h45 quando cheguei ao meu apartamento em Campo de Ourique. Tenho uma casa pequena pela qual pago muito dinheiro. Pelo menos é muito face ao seu tamanho que é apenas razoável. O meu quarto é quase do tamanho da sala e as janelas fazem um marquise. Não tenho mais nada no quarto: uma cama de casal, duas mesas de cabeceira e vinte e sete gaiolas de todos os tamanhos e formas dispostas ao longo da marquise do quarto.
Lembram-me o Tio Raoul que era um tio de que não gostava particularmente. Gostava da sua casa, fascinavam-me as suas gaiolas. Das vinte e sete que tenho, catorze são dele. Todas as que guardavam piriquitos coloridos na marquise de ferro azul.
Amanhã vou ao banco, depois à imobiliária e vou mandar tirar o cartaz que diz "Vende-se" e por outro que diga "Vendido" no apartamento da rua da Escola Politécnica. Já não aguento mais não guardar as minhas gaiolas naquela marquise de ferro azul.
Eram seis da manhã quando atravessava o Príncipe Real. Lisboa ainda sem gente, mas já com sol. Maio. É como dizer que nasciam flores no jardim e mais à frente nas roseiras que plantaram no miradouro.
O Tio Raoul tinha aqui uma casa quando eu era pequeno. Era um apartamento antigo da rua da Escola Politécnica. Tinha um quarto interior, com uma janela interior. Ai era a casa de jantar. Isto era um fascínio.
Havia também uma marquise de ferro azul que dava para o pateo traseiro do prédio. Há um único pateo para os prédios da rua da Escola Politécnica que se estende do Museu de Ciência ao palacete Ribeiro da Cunha. Por isso é demasiado grande para ser um pateo e demasiado seco para ser um jardim. É um quintal?
O Tio Raoul tinha gaiolas na marquise e dentro delas tinha piriquitos coloridos. Todos tinham nome e eu não lembro do nome de nenhum. Os piriquitos nunca me fascinaram. Mas as gaiolas.
Eram 6h45 quando cheguei ao meu apartamento em Campo de Ourique. Tenho uma casa pequena pela qual pago muito dinheiro. Pelo menos é muito face ao seu tamanho que é apenas razoável. O meu quarto é quase do tamanho da sala e as janelas fazem um marquise. Não tenho mais nada no quarto: uma cama de casal, duas mesas de cabeceira e vinte e sete gaiolas de todos os tamanhos e formas dispostas ao longo da marquise do quarto.
Lembram-me o Tio Raoul que era um tio de que não gostava particularmente. Gostava da sua casa, fascinavam-me as suas gaiolas. Das vinte e sete que tenho, catorze são dele. Todas as que guardavam piriquitos coloridos na marquise de ferro azul.
Amanhã vou ao banco, depois à imobiliária e vou mandar tirar o cartaz que diz "Vende-se" e por outro que diga "Vendido" no apartamento da rua da Escola Politécnica. Já não aguento mais não guardar as minhas gaiolas naquela marquise de ferro azul.
Tecido
daquele tecido fino que usava sobre o ombro preso com a pregadeira da mãe.
era assim que se vestiam os deuses, num tempo em que se falava deles.
era assim que se vestiam os deuses, num tempo em que se falava deles.
Numa nesga de Tejo
Depois eram as janelas demasiado longas.
Lisboa, numa nesga de Tejo, e este páteo de azulejos pombalinos.
Lisboa, numa nesga de Tejo, e este páteo de azulejos pombalinos.
terça-feira, março 08, 2011
Poema do Tio Olavo
Ajuntámo-nos ali como as crias das águias
Sem que tarde ou mar nos viessem
Chorámos incessantemente por uma vitória
Longo tempo imaginada
E só o sol se pôs no horizonte
Em nós nunca pusémos mais que a força
Dos instantes milimetricamente acontecidos nas nossas vidas
Sem a sombra de que mais tarde houvesse consequências
A tarde nem sequer existia senão num conceito abstracto de rima
Todos os dias comíamos a areia das praias
Porque delirávamos sonhando com sermos peixes azuis brincando
Em gentis recifes de corais
No Ocenao pacífico
Não podia necessariamente ser ilha
Porque nunca nada me envolveu por completo
Fui sempre algo mais do que alguma coisa de que se pode dizer
Isto aqui
Ele é tão só isto aqui
Ninguém é tão só alguma coisa
Havia depois uma janela que na casa abria sobre o pateo
Era lá que as crianças brincavam
O tio Olavo martelava com fúria as teclas precárias da máquina de escrever
Era um pouco de mais
A vida tem que ter algo de exagero
Ou seríamos monótonos como um carreiro certo de formigas
Sem que o coração batesse violentamente dentro do peito
Enquanto esperamos por alguma coisa que há-de vir alguma coisa que não se saberá nunca o que é
Não podemos ansiar
Porque não podemos usar palavras sagradas
Nem gestos nem ritos
Nem rituais em que deusas nascem do mar engrinaldadas de violetas
Afrodite escrevia tragédias no Olimpo
Isto é um dado certo e seguro
Nada na História comprova que Hefesto o tenho feito, mas Afrodite sim
Escrevia tragédias descontinuas
E criou conceitos que só as pombas brancas conhecem
Certa manhã o Tio Olavo parecia filosofar com as pombas brancas
No beiral da janela do escritório
Nós as crianças vimos tudo enquanto
Brincávamos no páteo
Quem sabe se não seria tarde em vez de manhã
Ou em razão se não seria nenhuma hora do dia
Ou se não seria mesmo dia
Mas instante
Todos nós estávamos nas palavras que ele escrevia
nas teclas precárias da máquina de escrever
Depois as palavras, sempre as palavras
Ele repetia as palavras
Incessantemente as palavras
E agora sou eu que continuo a construir o seu mundo
Como Afrodite no Monte Olimpo escrevendo tragédias.
Sem que tarde ou mar nos viessem
Chorámos incessantemente por uma vitória
Longo tempo imaginada
E só o sol se pôs no horizonte
Em nós nunca pusémos mais que a força
Dos instantes milimetricamente acontecidos nas nossas vidas
Sem a sombra de que mais tarde houvesse consequências
A tarde nem sequer existia senão num conceito abstracto de rima
Todos os dias comíamos a areia das praias
Porque delirávamos sonhando com sermos peixes azuis brincando
Em gentis recifes de corais
No Ocenao pacífico
Não podia necessariamente ser ilha
Porque nunca nada me envolveu por completo
Fui sempre algo mais do que alguma coisa de que se pode dizer
Isto aqui
Ele é tão só isto aqui
Ninguém é tão só alguma coisa
Havia depois uma janela que na casa abria sobre o pateo
Era lá que as crianças brincavam
O tio Olavo martelava com fúria as teclas precárias da máquina de escrever
Era um pouco de mais
A vida tem que ter algo de exagero
Ou seríamos monótonos como um carreiro certo de formigas
Sem que o coração batesse violentamente dentro do peito
Enquanto esperamos por alguma coisa que há-de vir alguma coisa que não se saberá nunca o que é
Não podemos ansiar
Porque não podemos usar palavras sagradas
Nem gestos nem ritos
Nem rituais em que deusas nascem do mar engrinaldadas de violetas
Afrodite escrevia tragédias no Olimpo
Isto é um dado certo e seguro
Nada na História comprova que Hefesto o tenho feito, mas Afrodite sim
Escrevia tragédias descontinuas
E criou conceitos que só as pombas brancas conhecem
Certa manhã o Tio Olavo parecia filosofar com as pombas brancas
No beiral da janela do escritório
Nós as crianças vimos tudo enquanto
Brincávamos no páteo
Quem sabe se não seria tarde em vez de manhã
Ou em razão se não seria nenhuma hora do dia
Ou se não seria mesmo dia
Mas instante
Todos nós estávamos nas palavras que ele escrevia
nas teclas precárias da máquina de escrever
Depois as palavras, sempre as palavras
Ele repetia as palavras
Incessantemente as palavras
E agora sou eu que continuo a construir o seu mundo
Como Afrodite no Monte Olimpo escrevendo tragédias.
Da Tarde
Naquela tarde de ondas,
Enquanto o mar expirava,
Corrias atrás das gaivotas para que não deixassem
O sol esconder-se.
As rochas carregavam palavras antigas
De um mundo que aqui passou antes.
O poema aconteceu depois
Sem que eu esperasse.
Enquanto o mar expirava,
Corrias atrás das gaivotas para que não deixassem
O sol esconder-se.
As rochas carregavam palavras antigas
De um mundo que aqui passou antes.
O poema aconteceu depois
Sem que eu esperasse.
sábado, março 05, 2011
O deus do mar
O deus do mar morava ali. Venci lentamente o medo das ondas que fazem rolar os calhaus e cheguei mesmo a saltar da pedra grande. Ao deus do mar, nunca o vi. Mas sei que é ali que ele mora.
A varanda
A varanda, esse segredo antigo da cidade, onde o sol batente faz o tempo correr devagarinho.
quarta-feira, fevereiro 23, 2011
terça-feira, fevereiro 22, 2011
Lamentação
Era um dia cheio de erros, como um sol nascido prematuro e que fora apenas demasiado pálido.
Era uma sala pequena e escura onde podia conversar-se baixinho como as aranhas.
Tudo era triste e bom, e ambas as coisas coexistiam com paciência.
O mar era demasiado leve nessa tarde e por uma vez não me quis suicidar nas suas ondas.
Desejei tanto não amá-lo que a cada ânsia pensava nele e amava-o mais.
Foi a casa mais escura de todas as que nunca habitei e nunca vi que nenhuma luz ardesse lá dentro.
Eu ardi todo na manhã de verão quando o meu corpo não aguentou mais nunca ter o dele.
Era uma sala pequena e escura onde podia conversar-se baixinho como as aranhas.
Tudo era triste e bom, e ambas as coisas coexistiam com paciência.
O mar era demasiado leve nessa tarde e por uma vez não me quis suicidar nas suas ondas.
Desejei tanto não amá-lo que a cada ânsia pensava nele e amava-o mais.
Foi a casa mais escura de todas as que nunca habitei e nunca vi que nenhuma luz ardesse lá dentro.
Eu ardi todo na manhã de verão quando o meu corpo não aguentou mais nunca ter o dele.
terça-feira, janeiro 25, 2011
Antinoos ou Crónica do Homem e da Imagem num espelho
Passeávamos os dois de barco
Rio acima
Ele inclinava-se muito junto das bordas
E depois ria humanamente
E isso era triste.
Batia as mãos como os meninos
Que jogam o jogo das pedrinhas
E se o barco o permitisse
Teria dado saltos e pulos
De algum espanto.
Depois vi o escravo levantar-se,
Vi a mão do escravo aberta
Em suas costas.
Depois eu não me levantei,
Eu nunca me levantei.
Também gritou quando caiu
Ao rio.
Um grito seco, sem espanto,
Já morto, ou quem dera quase.
Então o escravo estendeu-me com a mesma mão
A cera e o cálamo.
Agora o teu corpo
Afundava-se muito.
Era como se fizesses um jogo novo e propositado-
Para que eu te escrevesse.
Não deixei que ninguém te tirasse da água-
Devias morrer.
Tão fundo, depois cada vez mais fundo
Que agora já só espreitavas e
Os teus caracóis ficaram desfeitos na água do rio.
Foi assim a última vez que olhei os teus olhos
E teria sido a última vez a tocar a tua pele
Tivesse eu esticado a minha mão para te erguer.
Salvei-te-
Todos sabem.
Só tu não acreditas.
Odeias-me no fundo do lago,
Mas isso é um segredo só teu
Com o qual eu posso viver.
Todos te amam depois desse dia
E eu cada vez mais,
Eu amo-te cada vez mais
Agora que humanamente
Não existes.
Eis o deus que morreu
Para buscar ser imortal
E a quem eu proibi qualquer ressureição.
No fundo do lago odeias-me,
Mas és só tu.
Por te matar e
Ao mesmo tempo
Entregar-te a vida eterna
Todos me amam
E só tu me custaste.
Rio acima
Ele inclinava-se muito junto das bordas
E depois ria humanamente
E isso era triste.
Batia as mãos como os meninos
Que jogam o jogo das pedrinhas
E se o barco o permitisse
Teria dado saltos e pulos
De algum espanto.
Depois vi o escravo levantar-se,
Vi a mão do escravo aberta
Em suas costas.
Depois eu não me levantei,
Eu nunca me levantei.
Também gritou quando caiu
Ao rio.
Um grito seco, sem espanto,
Já morto, ou quem dera quase.
Então o escravo estendeu-me com a mesma mão
A cera e o cálamo.
Agora o teu corpo
Afundava-se muito.
Era como se fizesses um jogo novo e propositado-
Para que eu te escrevesse.
Não deixei que ninguém te tirasse da água-
Devias morrer.
Tão fundo, depois cada vez mais fundo
Que agora já só espreitavas e
Os teus caracóis ficaram desfeitos na água do rio.
Foi assim a última vez que olhei os teus olhos
E teria sido a última vez a tocar a tua pele
Tivesse eu esticado a minha mão para te erguer.
Salvei-te-
Todos sabem.
Só tu não acreditas.
Odeias-me no fundo do lago,
Mas isso é um segredo só teu
Com o qual eu posso viver.
Todos te amam depois desse dia
E eu cada vez mais,
Eu amo-te cada vez mais
Agora que humanamente
Não existes.
Eis o deus que morreu
Para buscar ser imortal
E a quem eu proibi qualquer ressureição.
No fundo do lago odeias-me,
Mas és só tu.
Por te matar e
Ao mesmo tempo
Entregar-te a vida eterna
Todos me amam
E só tu me custaste.
Tarde
Mariana junto às ondas
Naquela tarde de praia.
Não soube das gaivotas
Até que o vermelho
Dos pimentos que assávamos
Escorreu como sangue
No pateo da ilha.
Naquela tarde de praia.
Não soube das gaivotas
Até que o vermelho
Dos pimentos que assávamos
Escorreu como sangue
No pateo da ilha.
terça-feira, dezembro 21, 2010
Tríptico
Renata ficou espantada. Não se tratava dum questão de gestos, até porque restava quase imóvel. A imagem que o espelho lhe devolvia era uma incógnita aliciante. No quarto pequeno da Calçada de Santana continuava nua frente ao reflexo espremida entre a cama e o espelho. O que era, não sabia.
*
Aquilo provava-lhe que, apesar de tudo, era um homem e mais que isso um homem da sua família. No quarto da avó Laura, decorado com cortinas azul-claro e com folhos brancos, a telefonia, parada na Rádio Renascença, deitava as orações de Avé-Marias e Padre-Nossos que eles depois repetiam. Primeiro ele, em voz clara e grossa, depois as duas velhas num discurso mais sumido e disconexo. Aquelas mulheres já tão velhas, naquele quarto que era quase um oratório, e era ele que liderava as orações, porque ele era um homem da família.
*
Teresa adorava a sala cor de rosa. A primeira coisa que fazia era esfregar-se no tecido fino da senhorinha mais encostada à porta. Ficava ali sentada muito tempo admirando os retratos da avó Filomena e do avô Vasco. Os retratos caiam da parede, ligeiramente inclinados como antes se usou. Sem nunca ter aprendido, levantava depois a tampa pesada e preta do piano e passava os dedos pelas teclas cada vez mais desafinadas. Depois seguia as filas decoradas de parentes mortos nas fotografias a preto e branco. Fechava os olhos e sonhava com vidas que nunca viria a ter.
terça-feira, novembro 23, 2010
Poesias Simples
Dizes que te ponha a mão
Como um pássaro.
É tarde.
*
De todas as cores escolherás
O azul
Para usares no sahri festivo.
*
No campo marcham as hordas
De Esparta.
No templo profetisa a Pitonisa.
*
Amas esta arte como tua.
O quadro
Não saberás quem o pintou.
*
É tantas vezes de noite como de dia.
A alma
Não tem relógio que conte o tempo.
*
De todas as palavras terei
Uma.
O poema surgirá no silêncio.
*
Como um pássaro.
É tarde.
*
De todas as cores escolherás
O azul
Para usares no sahri festivo.
*
No campo marcham as hordas
De Esparta.
No templo profetisa a Pitonisa.
*
Amas esta arte como tua.
O quadro
Não saberás quem o pintou.
*
É tantas vezes de noite como de dia.
A alma
Não tem relógio que conte o tempo.
*
De todas as palavras terei
Uma.
O poema surgirá no silêncio.
*
A criança brinca junto à fonte.
A sua mão
Faz pensar no que é breve e rir.
*
Os jogos matutinos começaram com
Os jovens nus.
Todos os dias estendes o corpo sob os lençóis.
*
Cultiva o branco no pateo quadrado
Da casa da ilha.
Os deuses serão clementes quando te olharem.
*
Da laranja guarda o gesto de
A trincares.
O seu sabor é perecível como o sumo.
*
Das muralhas da cidade nada penses.
Toca-as
Para sentires como são frias.
*
Passa este dia sobre o campo.
Amanhã
A chuva fará crescer os rios.
*
A sua mão
Faz pensar no que é breve e rir.
*
Os jogos matutinos começaram com
Os jovens nus.
Todos os dias estendes o corpo sob os lençóis.
*
Cultiva o branco no pateo quadrado
Da casa da ilha.
Os deuses serão clementes quando te olharem.
*
Da laranja guarda o gesto de
A trincares.
O seu sabor é perecível como o sumo.
*
Das muralhas da cidade nada penses.
Toca-as
Para sentires como são frias.
*
Passa este dia sobre o campo.
Amanhã
A chuva fará crescer os rios.
*
Das flores conhece-as
Como a ti.
Em cada pétala a possível história de uma vida.
*
Sedentas de gozo vivem
As crianças
Jogando suas bolas no relvado.
*
Acerca-te das ondas onde
Rebentam.
Os teus pés saberão a que sabe a espuma.
*
Guarda silêncio do fim das palavras.
É esse
O segredo inconfessável.
Como a ti.
Em cada pétala a possível história de uma vida.
*
Sedentas de gozo vivem
As crianças
Jogando suas bolas no relvado.
*
Acerca-te das ondas onde
Rebentam.
Os teus pés saberão a que sabe a espuma.
*
Guarda silêncio do fim das palavras.
É esse
O segredo inconfessável.
Poema Árabe
Esta noite
Li todos os poetas árabes.
Sei fazer poemas de pérolas,
Ginetes e sandálias
Enquanto durar o sabor do vinho.
Mas é segredo o que aprendi
Como a luz branca da Lua.
Li todos os poetas árabes.
Sei fazer poemas de pérolas,
Ginetes e sandálias
Enquanto durar o sabor do vinho.
Mas é segredo o que aprendi
Como a luz branca da Lua.
terça-feira, novembro 02, 2010
Bruno
Do compasso de espera
Terrivelmente lento
Resta a repetição de cada minuto
Encosto-me a uma esquina da sala, com um livro na mão
A marca que me deixaste, mesmo depois de tanto tempo
Terrivelmente lento
Resta a repetição de cada minuto
Encosto-me a uma esquina da sala, com um livro na mão
A marca que me deixaste, mesmo depois de tanto tempo
Parênteses
(voltei a subir o casaco pelas costas. estava enregelado. está visto- escrever poemas não aquece.)
A sala em medida exacta ou Do Branco
Procuro a sala exacta em sua medida. De linhas absolutamente rectas e janelas vertidas sobre o pateo. Sei hoje as suas cores, a luz como incide quando mexo em cada centímetro das cortinas. Procuro a sala exacta em sua medida e vazia em seu silêncio, sem móveis que contem estórias de seus espaços. Apenas espaço. A mansidão das horas ineterruptas. Languidez. Lansidão. Exacto, como o branco do mar como o pateo onde Antígona se viu sacrificada.
Do Outono
De mar e ondas
Como no início
Deixar que o poema se diga lentamente
Ao ouvido
De todas as coisas as tardes
A meia-luz
E o cheiro dos frutos ácidos
Sob a boca
Muralhas desta casa
Como uma Atenas de Espartanos
Poema de dizer indizível
Como em transe de pitonisa
Tudo em quase noite
As cores deste crepúsculo outonal
Mais tarde o dia
A vida
O sonho
Lentamente deixo o casaco escorregar-me pelas costas.
Na cadeira escrevo agora aquilo que oiço.
Como no início
Deixar que o poema se diga lentamente
Ao ouvido
De todas as coisas as tardes
A meia-luz
E o cheiro dos frutos ácidos
Sob a boca
Muralhas desta casa
Como uma Atenas de Espartanos
Poema de dizer indizível
Como em transe de pitonisa
Tudo em quase noite
As cores deste crepúsculo outonal
Mais tarde o dia
A vida
O sonho
Lentamente deixo o casaco escorregar-me pelas costas.
Na cadeira escrevo agora aquilo que oiço.
quinta-feira, outubro 28, 2010
Terribilíssimo
Amei-te no perfume ácido das laranjas
Por certo no Inverno,
Quando tudo esfria
E a cabeça tende a doer mais.
Terás o sabor ácido das laranjas
E isso é algo que já não vou nunca descobrir-
O teu corpo imaginado tantas vezes.
Ansiei mais pelos teus cabelos, no entanto.
Mas tudo era como no Inverno-
Frio, distância e desnexo.
Quem me dera guardar, flores secas entre os livros,
Para quando chegasse a Primavera.
Mas tudo era como o Inverno.
Por certo no Inverno,
Quando tudo esfria
E a cabeça tende a doer mais.
Terás o sabor ácido das laranjas
E isso é algo que já não vou nunca descobrir-
O teu corpo imaginado tantas vezes.
Ansiei mais pelos teus cabelos, no entanto.
Mas tudo era como no Inverno-
Frio, distância e desnexo.
Quem me dera guardar, flores secas entre os livros,
Para quando chegasse a Primavera.
Mas tudo era como o Inverno.
terça-feira, outubro 26, 2010
Ensaio em Gustavo
Como Gustavo conheceu Artur perto da perda de (um) Salvador mesquinho e de esquinas. De todas e tantas ruas- traçado geométrico do Bairro Alto. Fadista de encantos fanados. Como esta porta por onde entraram como se ainda agora mesmo os tivesse visto. E a correr- sobe e desce as ruas cheias de gente onde só estão eles- Artur e Gustavo. Dançando, dançando, dançando. Dancin' Days. Como mais uma novela barata- é assim que justamente os imagino, comos os entendo, como em verdade os escrevo e crio. Depois um beijo, dois três quatro cinco. Muitas línguas. Em palavras cifradas que na minha cabeça dizem um ao outro como se os visse, os ouvisse dizerem piropos banais um ao outro, piropos que numa outra realidade (como fora a deles criada por mim) funcionariam de facto. Aumento o já previsto, o visto de antes mais pela frente que dor detrás. De todas as coisas que vivem- agora manhã, um jipe- rumo à Peninha. O nascer do sol, um rumo de associações fáceis. O mistério, absolutamente inalcansável nestas palavras, em quase tudo o que escrevo. E ele, Artur, todo debruçado, todo misterioso sobre o inexistente Gustavo confessando o amor duma noite no cenário idílico onde só falta que a minha escrita tivesse qualquer qualidade.
quarta-feira, outubro 13, 2010
Poesia (morta) de Outono
Um poema escrito no Outono
Não trás em si nada de novo.
Coisa triste e seca
Que se repete sem cessar
Apenas porque tem que ser.
Não trás em si nada de novo.
Coisa triste e seca
Que se repete sem cessar
Apenas porque tem que ser.
O homem que amava o que era triste
Aquele homem amava o que era triste.
E sendo jovem era seco,
Uma geografia sem casa ou
Poço construído.
Era um homem mais triste que a sua tristeza
E de vê-lo dava pena.
E sentei-me assim para escrever
Das coisas tão tristes que eu sei
Que ele sentia.
E sendo jovem era seco,
Uma geografia sem casa ou
Poço construído.
Era um homem mais triste que a sua tristeza
E de vê-lo dava pena.
E sentei-me assim para escrever
Das coisas tão tristes que eu sei
Que ele sentia.
segunda-feira, outubro 11, 2010
Imladris
Olha agora os olhos
Que olharam a luz das árvores.
Quem voltará atrás
Ouvindo os belos cantos
Que os elfos cantam há anos
Em Imladris?
Olha agora os olhos
Que olharam a luz das árvores.
Quem desejará o regresso da fadiga
E do cansaço dos dias
Quando hoje repousa
Em Imladris?
Olha agora os olhos
Que olharam a luz das árvores.
Quem ansiará pelo combate
Vendo a forja reluzente
Das espadas dos senhores dos Elfos
Em Imladris?
Olha agora os olhos
Que olharam a luz das árvores.
Além aguardam os portões que guardam
O resto do mundo.
Porque ninguém,
Por mais anelante coração,
Restará para sempre
Em Imladris.
Que olharam a luz das árvores.
Quem voltará atrás
Ouvindo os belos cantos
Que os elfos cantam há anos
Em Imladris?
Olha agora os olhos
Que olharam a luz das árvores.
Quem desejará o regresso da fadiga
E do cansaço dos dias
Quando hoje repousa
Em Imladris?
Olha agora os olhos
Que olharam a luz das árvores.
Quem ansiará pelo combate
Vendo a forja reluzente
Das espadas dos senhores dos Elfos
Em Imladris?
Olha agora os olhos
Que olharam a luz das árvores.
Além aguardam os portões que guardam
O resto do mundo.
Porque ninguém,
Por mais anelante coração,
Restará para sempre
Em Imladris.
domingo, outubro 10, 2010
De um ia em que não fui sozinho a Sesimbra
Que dirás tu desta tarde
Sobre as colinas da Serra?
O mar por certo batia em ondas
Sobre a estrada dos carros.
Mas só isso?
A tarde era maior sobre a casa
Sem que tu mesmo o pudesses reparar.
E se me tivesses dito nem mesmo ai
Os teus gestos seriam necessidades.
Eu já sei do dia de hoje como se hoje eu
Mesmo o tivesse vivido.
Não podes agora abandonar a ideia da casa alta
Voltada em seus terraços nivelados
Para o pateo.
Ali é por onde escorre a água pura
Destes risos que ouves incansavelmente por todo o lado
Como uns abdominais tesos e duros que
Nunca se cansassem do mais divertido dos exercícios.
Vês como é tão simples uma tarde
Esta mesma sobre a Serra?
Então porque não tenho vontade de palavras,
Mas apenas das coisas que uma a uma recordo
Como se fossem por mim chamadas?
quinta-feira, outubro 07, 2010
Mães e Muralhas de Atenas
Eis aqui onde a lança espartana
Conhece a muralha de Atenas.
Por onde todas as mães choram
Vieram os soldados semi-nus
Com uma fúria que mais tarde outros diriam
Parecer-se a um afecto enamorado.
E deleitaram-se em Atenas todas as donzelas
Que esperavam sobre todas as varandas.
Conhece a muralha de Atenas.
Por onde todas as mães choram
Vieram os soldados semi-nus
Com uma fúria que mais tarde outros diriam
Parecer-se a um afecto enamorado.
E deleitaram-se em Atenas todas as donzelas
Que esperavam sobre todas as varandas.
quinta-feira, setembro 30, 2010
Segredo, como se estivesse
Da água límpida de cada memória
Por sobre a sombra enigmática destes dias
Cada casa como uma estória que se conte muitas vezes
Para a sabermos de cor.
Ruas da cidade enquanto entardece,
Como um verbo que se usa por razões gentis de estilo
Mas que quer dizer muito mais do que nós.
Por sobre a sombra enigmática destes dias
Cada casa como uma estória que se conte muitas vezes
Para a sabermos de cor.
Ruas da cidade enquanto entardece,
Como um verbo que se usa por razões gentis de estilo
Mas que quer dizer muito mais do que nós.
Insaciável por Lisboa
Por hoje não me basta a cidade
Como se de um crepúsculo eterno me falasses
Agarrada como uma criança pequena a um chupa-chupa peganhento de melaço
Cada rua se torna um prazer indizível.
Hoje à noite na colina
Vivo sozinho na cidade
Onde os outros são apenas a elegante decoração
De uma sala de estar.
Como se de um crepúsculo eterno me falasses
Agarrada como uma criança pequena a um chupa-chupa peganhento de melaço
Cada rua se torna um prazer indizível.
Hoje à noite na colina
Vivo sozinho na cidade
Onde os outros são apenas a elegante decoração
De uma sala de estar.
De anima
Sobre todas as coisas
A minha alma existe ao fim da tarde
Como um misterioso quiosque de jardim entre as folhas
Onde nunca conseguimos chegar.
A minha alma existe ao fim da tarde
Como um misterioso quiosque de jardim entre as folhas
Onde nunca conseguimos chegar.
quarta-feira, setembro 29, 2010
Da Água ou Das primeiras coisas que aconteceram no mundo
Como de todas as coisas,
Água,
Insuportavelmente leve e translúcida.
Aqui morou o espanto de todos os primeiros dias do mundo.
Água,
Insuportavelmente leve e translúcida.
Aqui morou o espanto de todos os primeiros dias do mundo.
quinta-feira, agosto 12, 2010
Do Vazio
As palavras completamente exintas de prazer.
Caixa de ferramentas para obituários.
Dor incrível de criado agonizante-
Sem qualquer choro.
Enunciação dos versos sem nada que neles contenha.
Vazio.
Caixa de ferramentas para obituários.
Dor incrível de criado agonizante-
Sem qualquer choro.
Enunciação dos versos sem nada que neles contenha.
Vazio.
quarta-feira, agosto 11, 2010
Sob a noite
Ninguém pode ver o espectáculo único:
Das palavras em linha
Cortando o meu corpo em infinitas metades.
Peso da leveza demasiado insuportável.
Peso em que a boca agoniza.
Das palavras em linha
Cortando o meu corpo em infinitas metades.
Peso da leveza demasiado insuportável.
Peso em que a boca agoniza.
As palavras- um peso
Já não espero nada de mim-
As palavras que projecto escrever
Corroeram-me por dentro até que me acabasse.
As palavras que projecto escrever
Corroeram-me por dentro até que me acabasse.
segunda-feira, agosto 09, 2010
sexta-feira, agosto 06, 2010
Do prazer (sob a noite)
Sou o choro do deus que não existe
Assim a sua noite
Não busco moral nem conduta
Todo o meu corpo sou eu
E cada um dos seus cantos
É hoje uma geografia de prazer
Morro-me como a água que renasce
Meu corpo lambido de saliva
Eis que seguro entre as pernas
A taça que sacia todos os desejos
Dos deuses que não existiram
Tudo se possa escrever
Como o corpo ansiado
Que nunca se amou
Transpiro todas as ânsias
De um corpo
Orgasmicamente
Consumido
Assim a sua noite
Não busco moral nem conduta
Todo o meu corpo sou eu
E cada um dos seus cantos
É hoje uma geografia de prazer
Morro-me como a água que renasce
Meu corpo lambido de saliva
Eis que seguro entre as pernas
A taça que sacia todos os desejos
Dos deuses que não existiram
Tudo se possa escrever
Como o corpo ansiado
Que nunca se amou
Transpiro todas as ânsias
De um corpo
Orgasmicamente
Consumido
quinta-feira, julho 22, 2010
Geografia Errónea
Nas areias da praia
Está a linha dum corpo
Que amei pela noite
Até que a manhã me confessasse
Que aquela não era a minha
Geografia.
Está a linha dum corpo
Que amei pela noite
Até que a manhã me confessasse
Que aquela não era a minha
Geografia.
Do cavaleiro amado
Dele direi espaço
Mas nunca casa
Mapa
Mas nunca folha
Porque nele tudo é largo e natural
Sem páteo de muros que o limite.
Eis o amado
Cavalgador de cavalos em fúria
Sob a clara manhã de cada onda.
Mas nunca casa
Mapa
Mas nunca folha
Porque nele tudo é largo e natural
Sem páteo de muros que o limite.
Eis o amado
Cavalgador de cavalos em fúria
Sob a clara manhã de cada onda.
Geografia Babilónica
O corpo do amado como um mapa
Geografia onde construa casa e poço
Água onde solte cavalos como cabelos
Espaço de dizer:
"Ontem não te vi em Babilónia."
Geografia onde construa casa e poço
Água onde solte cavalos como cabelos
Espaço de dizer:
"Ontem não te vi em Babilónia."
Geografia do corpo
Eis certa a geografia do teu corpo
Mapa estudado pela noite
Palavra secreta e minha
Que não mora debaixo de nenhum lençol branco
Lugar da musa
Das palavras, do silêncio.
Mapa estudado pela noite
Palavra secreta e minha
Que não mora debaixo de nenhum lençol branco
Lugar da musa
Das palavras, do silêncio.
Teu corpo, geografia
Teu corpo, geografia
Palmares de Junho, Abril e Verão.
Cada parte é uma casa
Ou fora um poço
Donde todos os dias recolhia água que bebesse.
Palmares de Junho, Abril e Verão.
Cada parte é uma casa
Ou fora um poço
Donde todos os dias recolhia água que bebesse.
Do corpo amantíssimo
Como a geografia de uma casa minha
Eis ora o corpo do meu amado
Estendido ao comprido da cama.
Eis ora o corpo do meu amado
Estendido ao comprido da cama.
A Cidade
Esta cidade de prédios altos.
Como as praças, espectacularmente grandes, onde leio os outdoors distribuídos. Casa fica em todo o lado- desde as avenidas vivas aos becos de má morte logo ali ao canto.
Aquela mulher mora aqui. É fantasticamente bela. Usa um vestido elegante de griffe e um perfume assinado por um couturier de Paris. Para falar sobre ela escreveria muitas palavras em itálico onde estariam todos os galicismos que ela usa. É chique, como se diz.
Aquela mulher nunca apanha o metro. As estações meio sujas e defectas. As pessoas suburbanas e pendulares. E é tão complicado usar uma máquina de bilhetes. É que estragam as unhas de gel.
Às vezes a cidade tem casas antigas. Lá dentro fazem-se fotografias de moda. Os salões rocaille ficaram subitamente todos brancos e vazios. É assim que hoje se fotografa a moda. A moda da cidade é branca e preta, mas sempre clean.
Os autocarros não são nada cleans. Nunca vão estar na moda. No Inverno são particularmente molhados e de Verão são abrasivamente quentes. Os autocarros nunca param mais que três segundos e vinte décimas nos bairros elegantes da cidade. Tanto nos que têm casas antigas, como os que têm penthouses modernaças.
Os cafés do Uptown são elegantes. Servem macarons franceses de diversas cores e scones com manteiga derretida. As bocas dão trincas muito leves e muito curtas. Aqui debica-se.
Nos bairros da classe média a crise abica-se. Come-se à fartazana nos fast-food logo assim que se sai dos ginásios imitados dum Holmes Place. Há sundaes entupidos de chocolate para os mais gulosos e chantilly que chegue para todos. Têm a cara enfiada na comida e a bocarra sempre aberta.
Os prédios distinguem-se entre agradáveis apartamentos ou atarefados escritórios. Ali vive-se, aqui trabalha-se. Desfruta-se mais daqui, do que dali, no entanto. Os arquitectos fizeram prédios todos de vidro e escreveram sobre teorias novas. Agora as pessoas podem viver em casa e no escritório. Os prédios já são todos iguais.
Passam os carros de luxo, os autocarros, os táxis, os eléctricos, as carrinhas, as vans, os cabriolés, os comerciais, os modelos mais baratos e os caros e os assim-assim, todos com rodas e motores e buzinas. Todos a produzirem som, muito som, enfurecedoramente som. O som de cada rua e prédio da cidade desde as avenidas vivas até cada beco de má morte.
Como as praças, espectacularmente grandes, onde leio os outdoors distribuídos. Casa fica em todo o lado- desde as avenidas vivas aos becos de má morte logo ali ao canto.
Aquela mulher mora aqui. É fantasticamente bela. Usa um vestido elegante de griffe e um perfume assinado por um couturier de Paris. Para falar sobre ela escreveria muitas palavras em itálico onde estariam todos os galicismos que ela usa. É chique, como se diz.
Aquela mulher nunca apanha o metro. As estações meio sujas e defectas. As pessoas suburbanas e pendulares. E é tão complicado usar uma máquina de bilhetes. É que estragam as unhas de gel.
Às vezes a cidade tem casas antigas. Lá dentro fazem-se fotografias de moda. Os salões rocaille ficaram subitamente todos brancos e vazios. É assim que hoje se fotografa a moda. A moda da cidade é branca e preta, mas sempre clean.
Os autocarros não são nada cleans. Nunca vão estar na moda. No Inverno são particularmente molhados e de Verão são abrasivamente quentes. Os autocarros nunca param mais que três segundos e vinte décimas nos bairros elegantes da cidade. Tanto nos que têm casas antigas, como os que têm penthouses modernaças.
Os cafés do Uptown são elegantes. Servem macarons franceses de diversas cores e scones com manteiga derretida. As bocas dão trincas muito leves e muito curtas. Aqui debica-se.
Nos bairros da classe média a crise abica-se. Come-se à fartazana nos fast-food logo assim que se sai dos ginásios imitados dum Holmes Place. Há sundaes entupidos de chocolate para os mais gulosos e chantilly que chegue para todos. Têm a cara enfiada na comida e a bocarra sempre aberta.
Os prédios distinguem-se entre agradáveis apartamentos ou atarefados escritórios. Ali vive-se, aqui trabalha-se. Desfruta-se mais daqui, do que dali, no entanto. Os arquitectos fizeram prédios todos de vidro e escreveram sobre teorias novas. Agora as pessoas podem viver em casa e no escritório. Os prédios já são todos iguais.
Passam os carros de luxo, os autocarros, os táxis, os eléctricos, as carrinhas, as vans, os cabriolés, os comerciais, os modelos mais baratos e os caros e os assim-assim, todos com rodas e motores e buzinas. Todos a produzirem som, muito som, enfurecedoramente som. O som de cada rua e prédio da cidade desde as avenidas vivas até cada beco de má morte.
Do mar e das coisas
Que cada palavra seja natural
Como as ondas do silêncio
Em que cada poema nasce mergulhado.
Como as ondas do silêncio
Em que cada poema nasce mergulhado.
Do amado deitado sobre as ondas da praia
Como os frutos doces
De um Agosto pela manhã
Assim o corpo do meu amado
Sabendo sob as ondas da praia
Aos sabores indizíveis
Do prazer.
De um Agosto pela manhã
Assim o corpo do meu amado
Sabendo sob as ondas da praia
Aos sabores indizíveis
Do prazer.
A Ilha
Esta é a dor do Verão-
Que passe depressa.
Fossem dias eternos
Onde sob o calor peganhento dos lençóis
Sobre o corpo
Dormíssemos noites demasiado curtas.
Acordássemos para manhãs
Exactamente longas
E soubéssemos
Debruçados sobre a janela do quarto
Coisas do mar e das ilhas.
Que passe depressa.
Fossem dias eternos
Onde sob o calor peganhento dos lençóis
Sobre o corpo
Dormíssemos noites demasiado curtas.
Acordássemos para manhãs
Exactamente longas
E soubéssemos
Debruçados sobre a janela do quarto
Coisas do mar e das ilhas.
Poema do Amigo
Para o Luisillo
Dele
Dir-se-á a saudade de todos os dias
Como o poema indizível
Que mora sempre connosco
Tão perto e tão longe
Para que um dia
O passamos escrever.
Como os crepúsculos breves de Maio
Ou a sede logo saciada
Assim, me faz falta
Sem que nunca se ausente.
Dele dir-se-á dia e silêncio,
Pois nele estão todas as palavras
Secretas
Impossíveis à boca.
Dele dir-se-á hoje,
Mas também agora.
Pois ele é como o instante imediato
Fugitivo e constante
Sem nunca ser nosso
Estando lá sempre.
Dele dir-se-á amigo
E nesta palavra
Todas as outras calarão.
Dele
Dir-se-á a saudade de todos os dias
Como o poema indizível
Que mora sempre connosco
Tão perto e tão longe
Para que um dia
O passamos escrever.
Como os crepúsculos breves de Maio
Ou a sede logo saciada
Assim, me faz falta
Sem que nunca se ausente.
Dele dir-se-á dia e silêncio,
Pois nele estão todas as palavras
Secretas
Impossíveis à boca.
Dele dir-se-á hoje,
Mas também agora.
Pois ele é como o instante imediato
Fugitivo e constante
Sem nunca ser nosso
Estando lá sempre.
Dele dir-se-á amigo
E nesta palavra
Todas as outras calarão.
domingo, julho 04, 2010
Das coisas demasiado quentes
Meu corpo derretido junto ao mar, do calor que me abrasava em outras coisas.
segunda-feira, junho 28, 2010
Tamina
A princesa da Cidade Santa mora por detrás dos seus véus. Sua pele palmada do Verão quente não sua ou transpira. Cada tatuagem do corpo é como um pomo de Deus. Respira o dia anseado do príncipe da Pérsia por buscá-la.
quinta-feira, junho 03, 2010
Solar
Como gesto novo
Assim aparece
O Poema
Sua coisa de espanto e calma
Como rio tranquilo de Verão
Um caudal langoroso
Imperceptível teia de Penélope
De dedos fiados demasiado finos
Para que se lhes possa seguir
Como um encontro do mar
Aqui minha alma repousará
Sou-me que me chegue
Debaixo da oliveira
Assim vem-me a musa
Seu sussurro inescutável
Em perseguindo
Aqui está a mais feliz tormenta
Assim aparece
O Poema
Sua coisa de espanto e calma
Como rio tranquilo de Verão
Um caudal langoroso
Imperceptível teia de Penélope
De dedos fiados demasiado finos
Para que se lhes possa seguir
Como um encontro do mar
Aqui minha alma repousará
Sou-me que me chegue
Debaixo da oliveira
Assim vem-me a musa
Seu sussurro inescutável
Em perseguindo
Aqui está a mais feliz tormenta
Poesias de Verão
As linhas do poema na noite quente de Verão.
O livro pousado na mão é como um gesto de espanto.
*
Os bois de Samarcanda lavram a terra estéril.
Em cada esquina um deus se levanta como um pomo dourado.
*
Gentil é o cheiro a cardamomo na manhã inicial.
O corpo do meu amado existe entre todas as coisas.
*
Como Sekhmet a leoa estende o corpo.
Os gatos dançam sua dança das três da tarde.
*
Impregnada, resta a casa com o cheiro das romãs.
O meu peito está imperturbável nos vidros da livraria.
sexta-feira, maio 28, 2010
Da Lua Nova sobre uma música que Daniela cantava
Para D., enquanto ouvia as suas músicas.
Olha, meu amor
Hoje vem a Lua Nova.
Namorámos a cidade
Lento a lento
Comendo o prazer de cada rua
Como a ambrósia irrepetível
Dos deuses.
Do Olimpo algumas cores
Como um quadro que pintaras
Lá longe
Quando os dias eram outros.
Deste se dirá rosa,
Daquele branco e daqueloutro amarelo.
São as janelas da cidade, meu amor.
Mas eis que vem a Lua Nova!
Meu corpo apartado do teu
Escuta ainda a tua voz
ao longe
não distante
Como canto de matar
Saudade.
Como canto de dizeres-
"Hoje-me aqui, meu amor.
Não me vês, mas ouves-me.
Ouves como canto para ti nas
Noites diurnas da cidade.
Até mesmo nesta em que hoje
É Lua Nova."
Fora eu de novo menino
Assim, como era no mar da infância
E de rir e de brincar
E de jogar as pedras e as palminhas
Cantavas para mim, meu amor?
Cantavas para mim ainda que
Fora menino
E sendo a Lua Nova tivera medo do
Papão?
Dizes-
"De nos sonhos
Nada se tem medo.
Estão nos sonhos as máquinas para fazer o mundo
E eu estou sempre nos sonhos
Para que possas encontrar-me."
Eu pergunto:
Mesmo hoje que é a Lua Nova
Sonhamos juntos, meu amor?
"Sim, mesmo hoje que é a Lua Nova
Sonhamos juntos, meu amor."
(E dizes-me ainda:)
"Ouve agora como quando me vês
Perto do gradeamento
Chorando à paisagem idílica da cidade.
Ouve agora dos poemas brancos
Que te canto
Sente-me perto
Sempre perto
Porque agora,
no fim das palavras que se dizem,
Aqui
onde o silêncio começa,
Já quase não há a Lua Nova.
Olha, meu amor
Hoje vem a Lua Nova.
Namorámos a cidade
Lento a lento
Comendo o prazer de cada rua
Como a ambrósia irrepetível
Dos deuses.
Do Olimpo algumas cores
Como um quadro que pintaras
Lá longe
Quando os dias eram outros.
Deste se dirá rosa,
Daquele branco e daqueloutro amarelo.
São as janelas da cidade, meu amor.
Mas eis que vem a Lua Nova!
Meu corpo apartado do teu
Escuta ainda a tua voz
ao longe
não distante
Como canto de matar
Saudade.
Como canto de dizeres-
"Hoje-me aqui, meu amor.
Não me vês, mas ouves-me.
Ouves como canto para ti nas
Noites diurnas da cidade.
Até mesmo nesta em que hoje
É Lua Nova."
Fora eu de novo menino
Assim, como era no mar da infância
E de rir e de brincar
E de jogar as pedras e as palminhas
Cantavas para mim, meu amor?
Cantavas para mim ainda que
Fora menino
E sendo a Lua Nova tivera medo do
Papão?
Dizes-
"De nos sonhos
Nada se tem medo.
Estão nos sonhos as máquinas para fazer o mundo
E eu estou sempre nos sonhos
Para que possas encontrar-me."
Eu pergunto:
Mesmo hoje que é a Lua Nova
Sonhamos juntos, meu amor?
"Sim, mesmo hoje que é a Lua Nova
Sonhamos juntos, meu amor."
(E dizes-me ainda:)
"Ouve agora como quando me vês
Perto do gradeamento
Chorando à paisagem idílica da cidade.
Ouve agora dos poemas brancos
Que te canto
Sente-me perto
Sempre perto
Porque agora,
no fim das palavras que se dizem,
Aqui
onde o silêncio começa,
Já quase não há a Lua Nova.
sábado, maio 22, 2010
Do choro, lágrimas
Tivera hoje como uma vontade de chorar.
Não que houvesse razão, mas assim se dera.
Chorava, pois.
De manso, choro conjugado.
De mim para mim pensava-
Porque choro, ora?
De nada havia que pudesse dizer-
Eis esta a razão de chorar.
Mas chorava, chorei
Chorara já.
Não muito... pouco assim,
lágrimas escorregando lentas, quentes
Com a noite de verão insuportável.
O corpo como um vestido pegajoso
Pegando todos pedaços da pele
E elas escorrendo-
Lágrimas de contra-gosto sem nelas compreender
Razão.
Assim, de lágrimas
Vontade e escrita
Do choro virou poema
Virado nesta queda das palavras que aqui deixo
Como se nesta noite dissera-
Chorava com gosto de as escrever.
Não que houvesse razão, mas assim se dera.
Chorava, pois.
De manso, choro conjugado.
De mim para mim pensava-
Porque choro, ora?
De nada havia que pudesse dizer-
Eis esta a razão de chorar.
Mas chorava, chorei
Chorara já.
Não muito... pouco assim,
lágrimas escorregando lentas, quentes
Com a noite de verão insuportável.
O corpo como um vestido pegajoso
Pegando todos pedaços da pele
E elas escorrendo-
Lágrimas de contra-gosto sem nelas compreender
Razão.
Assim, de lágrimas
Vontade e escrita
Do choro virou poema
Virado nesta queda das palavras que aqui deixo
Como se nesta noite dissera-
Chorava com gosto de as escrever.
quinta-feira, abril 29, 2010
A Ponta-do-Sol
Há coisas que me povoam
Como se fora a sua casa.
As ruas da infância encontram por mim
Os seus caminhos.
Nunca um nostos
Nem saudade.
Gozo, prazer, riso
E essa memória perene de ser-se feliz à beira-mar.
Como o cheiro da sala
E dos retratos oblíquamente pendurados
Na parede
(outrora rosa e hoje amarela).
As crianças multiplicam-se até à infinidade dos dias,
Um infância continuada por cada criança
Do meu sangue.
A ilha, no fim do Caminho Novo.
Como mar e praia feita de ondas pedras amigos e memórias
Há hoje também a música d'ontem
Coisas mais antigas que velhas
("a avó tem as mãos pintalgadas como as bananas doces")
As suas unhas longas polidas
Enterradas no meu cabelo em anteriores caracóis
E uma rosa formosa
Ao embalar-me
Disto direi agora um caminho para casa-
Sem regresso ou retornamento.
Deixamos a nossa casa para irmos para a nossa casa.
A ilha é como se fora em mim uma casa de todas quantas coisas
Ela me traz
Recordando continuamente
A infância que se alarga pelos dias
Banhada no mar de pedras e ondas
Ao som da música antiga
Que cantam para mim as avós.
Como se fora a sua casa.
As ruas da infância encontram por mim
Os seus caminhos.
Nunca um nostos
Nem saudade.
Gozo, prazer, riso
E essa memória perene de ser-se feliz à beira-mar.
Como o cheiro da sala
E dos retratos oblíquamente pendurados
Na parede
(outrora rosa e hoje amarela).
As crianças multiplicam-se até à infinidade dos dias,
Um infância continuada por cada criança
Do meu sangue.
A ilha, no fim do Caminho Novo.
Como mar e praia feita de ondas pedras amigos e memórias
Há hoje também a música d'ontem
Coisas mais antigas que velhas
("a avó tem as mãos pintalgadas como as bananas doces")
As suas unhas longas polidas
Enterradas no meu cabelo em anteriores caracóis
E uma rosa formosa
Ao embalar-me
Disto direi agora um caminho para casa-
Sem regresso ou retornamento.
Deixamos a nossa casa para irmos para a nossa casa.
A ilha é como se fora em mim uma casa de todas quantas coisas
Ela me traz
Recordando continuamente
A infância que se alarga pelos dias
Banhada no mar de pedras e ondas
Ao som da música antiga
Que cantam para mim as avós.
quinta-feira, abril 15, 2010
Poema de Merlim, Morgana, Artur, Ginevra, Lancelot e da Senhora Igraine, sendo que do primeiro e última aqui não se consta
(ou mais simplesmente Poema dum dia sobre um pensamento hoje miticamente céltico)
Para I., de ascéticos passos druídicos, como prova de que também nasci do mesmo rio Oceano e mesmo entre a coluna dórica, sobre o pateo branco, conheço sua alma irascível de carvalho e onda.
Celebra-me a alma
Nos fogos de Beltane,
Um novo rei Artur
De mito e espada
Uma Camelot inteira
Feita de cartas
Construída de coisas
Paradoxalmente
Irremediavelmente
Sólidas porque assim efémeras.
De Morgana,
Por sobre o lago,
Aguarda o barco
O dia a hora
Da bruma certa
Descerrada
Como de nova Ginevra
Lancelot,
Beijos adúlteros
Novamente adúlteros
Uma outra vez adúlteros
Como um círculo perpétuo
Nas muralhas do castelo
Como um amor
Inefugível
Que nenhuma Excalibur
Poderá, por ora, cortar.
A magia dos elementos
Essenciais
Palavra e Terra
Seiva rasgada dos
Veios carnudos dos carvalhos
Druídicos
Também aqui
Espaço Casa Verbo
Novo sonho, mesmo mito
Como se continuamente
Continuadissimamente
Alguém conjugue em deleite
e como seu
o declinável
Refurjar.
Para I., de ascéticos passos druídicos, como prova de que também nasci do mesmo rio Oceano e mesmo entre a coluna dórica, sobre o pateo branco, conheço sua alma irascível de carvalho e onda.
Celebra-me a alma
Nos fogos de Beltane,
Um novo rei Artur
De mito e espada
Uma Camelot inteira
Feita de cartas
Construída de coisas
Paradoxalmente
Irremediavelmente
Sólidas porque assim efémeras.
De Morgana,
Por sobre o lago,
Aguarda o barco
O dia a hora
Da bruma certa
Descerrada
Como de nova Ginevra
Lancelot,
Beijos adúlteros
Novamente adúlteros
Uma outra vez adúlteros
Como um círculo perpétuo
Nas muralhas do castelo
Como um amor
Inefugível
Que nenhuma Excalibur
Poderá, por ora, cortar.
A magia dos elementos
Essenciais
Palavra e Terra
Seiva rasgada dos
Veios carnudos dos carvalhos
Druídicos
Também aqui
Espaço Casa Verbo
Novo sonho, mesmo mito
Como se continuamente
Continuadissimamente
Alguém conjugue em deleite
e como seu
o declinável
Refurjar.
quarta-feira, março 24, 2010
Das coisas ditas, palavras, da Terra
Da terra, pergunta o menino, "que há-de aqui ser?"
Tenha noite quando for noite
E riso em toda a hora boa de rir.
E crianças
Que criança é bom de ver crescer.
Mais água fresca e sombra d'árvore. E canto de alegrar as almas.
Quando o menino perguntar "e aqui que há-de ser?"
Então diz-lhe
"Aqui, como um nome, seja casa."
Tenha noite quando for noite
E riso em toda a hora boa de rir.
E crianças
Que criança é bom de ver crescer.
Mais água fresca e sombra d'árvore. E canto de alegrar as almas.
Quando o menino perguntar "e aqui que há-de ser?"
Então diz-lhe
"Aqui, como um nome, seja casa."
Do langor
Assim o corpo, assim a calma,
Assim o espanto das coisas.
E casa e pateo branco ondas mar e além.
Assim o dia, assim o sol,
Assim a luz.
Todas as coisas existem na claridade de si mesmas.
Assim o espanto das coisas.
E casa e pateo branco ondas mar e além.
Assim o dia, assim o sol,
Assim a luz.
Todas as coisas existem na claridade de si mesmas.
Espelho
O poema existe na meta do indizível.
Isto que agora lês
Não é tanto um poema como o reflexo de um poema.
Não sobre ti, mas sobre mim.
Fosse de facto um poema, como nunca poderá ser,
E seria um reflexo sobre as
Coisas.
Isto que agora lês
Não é tanto um poema como o reflexo de um poema.
Não sobre ti, mas sobre mim.
Fosse de facto um poema, como nunca poderá ser,
E seria um reflexo sobre as
Coisas.
Do espaço e centro das coisas nomeadas
Aqui o espaço do nome.
De cada coisa s'inventa de dentro
Para fora
Como chamada por
Palavra.
De todas as coisas- omnia nomina.
Círculo certo e arguto, de espaço preciso,
Que busca a criar
Coisas
Espantadas.
De cada coisa s'inventa de dentro
Para fora
Como chamada por
Palavra.
De todas as coisas- omnia nomina.
Círculo certo e arguto, de espaço preciso,
Que busca a criar
Coisas
Espantadas.
domingo, março 14, 2010
Verão
Quando era novo e havia dias de sol, descia sozinho até ao calhau. A vila era o espaço da primeira liberdade. Conhecia as escadas, os caminhos e entrava nas casas que deixavam as portas abertas. Quando chegava ao calhau estendia a toalha. Havia sempre alguém no calhau. Na vila todos se conhecem. O corpo ficava levemente estendido ao sol, salgado de banhos longos e ondas perfuradas. Tudo era tranquilo.
Ainda hoje procuro um estrado onde deitar a toalha e esticar o corpo ao sol no calhau. Olhar o mar que chega até às cidades e deixar-me ser feliz por ainda não lá estar. Hoje já não tenho a minha namoradinha dos sete anos e em muitas das casas as portas fecharam-se porque as pessoas morreram. Mas ainda há portas abertas por onde se pode entrar.
A ilha da Memória jaz eterna na Infância.
Ainda hoje procuro um estrado onde deitar a toalha e esticar o corpo ao sol no calhau. Olhar o mar que chega até às cidades e deixar-me ser feliz por ainda não lá estar. Hoje já não tenho a minha namoradinha dos sete anos e em muitas das casas as portas fecharam-se porque as pessoas morreram. Mas ainda há portas abertas por onde se pode entrar.
A ilha da Memória jaz eterna na Infância.
segunda-feira, fevereiro 22, 2010
(Sem título)
À mesa o pouco pão é terra podre
Das terras que choraram a noite inteira.
Hoje o mar corre para as ribeiras
E espalha em todo o canto
O perfume enjoativo dos mortos
Em espanto.
Tudo é interior e fechado.
Negritude.
Eis que as ruas da cidade voltam a ser em pedra bruta.
Algures no oceano a ilha da Memória jaz desfeita.
Das terras que choraram a noite inteira.
Hoje o mar corre para as ribeiras
E espalha em todo o canto
O perfume enjoativo dos mortos
Em espanto.
Tudo é interior e fechado.
Negritude.
Eis que as ruas da cidade voltam a ser em pedra bruta.
Algures no oceano a ilha da Memória jaz desfeita.
sexta-feira, fevereiro 05, 2010
Caleidoscópio
Fujo a cada impulso criador. Às vezes, por exemplo, estou parado em algum sítio... imagina a esplanada dum shopping dum subúrbio de Lisboa. Estou sentado, é Inverno, e apesar do frio o sol é quente que chegue para me espreguiçar na cadeira e lamentar não haver espreguiçadeiras. À minha frente há o barulho forte da auto-estrada que é o barulho mais lindo deste tempo. Tudo devia ser como a auto-estrada: veloz, moderno, eficiente e sem possibilidade de voltar atrás. Depois é assim, vês? Começo logo a divagar. A pensar muitas coisas. Quando estou sozinho penso porque acho que é o que as pessoas fazem quando estão sozinhas.
Mas voltemos ao assunto! Não, não vou fazer literatura agora se não a fiz antes.
Eu estou sentado. O mundo moderno está aberto à minha frente. Já falei da auto-estrada. Mas há betão por todo o lado. Muitos prédios onde vivem muitas pessoas em muitas casas. Foram todas equipadas no Ikea ou na Moviflor. É só uma questão de datas. Tudo é novo. O mundo moderno só existe a sério nos subúrbios onde não existem centros históricos. Foram deitados abaixo para construir eficientes repartições de finanças. Aquilo que o sociólogo da Câmara não deixou enfiar no entulho está no museu municipal ou à porta duma biblioteca da zona (quando há alguma).
Mas vês como me perco? Divagação outra vez!
Vou resumir os factos: é Inverno, mas o sol é quente e eu estou sentado na esplanada dum shopping suburbano com o mundo moderno à minha frente. Tudo o que eu disse antes cabe aqui: sem fazer literatura!
Conquanto esteja atento a tudo isto (repara como é elegante a palavra conquanto) há uns miúdos do liceu a conversar. Há aqui muitos miúdos do liceu porque são apenas 3h da tarde. Ali, naquela mesa, são dez: contei-os. Agora levantaram-se. Agora não há quase ninguém. Eu e uma senhora ali ao fundo sentada noutra mesa a falar ao telemóvel. Ela não tem o mundo moderno à sua frente, mas compõe a visão que eu tenho do mundo moderno.
É no meio disto tudo que tenho vontade de escrever. Nada disto cabia nas páginas dum romance. Um subúrbio, miúdos do liceu no shopping, a senhora a falar ao telemóvel. Depois penso que podia ter lugar num blogue. Num desses blogues que os tipos como eu têm, os tipos que querem escrever. Esses que os tipos como tu, os que escrevem mesmo, acham risível. Só acham risível porque é uma maneira literariamente polida de dizer digno de dó. É que "digno de dó", apesar da aliteração, não é nada polido. Não é nada digno de ser literário.
É isto mesmo, vês? É sempre assim! Penso em escrever. Mas depois penso no que é escrever: em tudo o que isso quer dizer, entendes? As implicações que tem. Escrever não é para um tipo numa esplanada dum shopping suburbano a falar de auto-estradas. Deve falar da vida. De pessoas. De complexidades. Deve ser uma coisa feita, construída. Olha, maquinada, que é mesmo a palavra ideal. Então não escrevo. Não escrevo mesmo. Recuso-me! A sério. Digo para mim "Não tires daí o caderno. Não escrevas. Não consegues. Escrever não é para tipos como tu. É para tipos mesmo bons que sabem o que fazem."
Nunca falei disto a ninguém. É paralisante, sabes? Tenho estórias na minha cabeça. É tão absurdo que narro para mim certos episódios porque passo. Narro-os como se estivessem escritos num livro escrito por mim. Mas eu posso lá escrever livros. Ou blogues. Ou coisas num caderno preto que se leva na mala.
Não escrevo, é como te disse. Fico muito tempo parado ao sol. A vontade passa. Com o tempo fica mais fácil. Eduquei-me bem. Agora já nem sinto vontade de escrever.
Fico sentado a pensar em muitas coisas como fazem todas as pessoas quando estão sozinhas.
Mas voltemos ao assunto! Não, não vou fazer literatura agora se não a fiz antes.
Eu estou sentado. O mundo moderno está aberto à minha frente. Já falei da auto-estrada. Mas há betão por todo o lado. Muitos prédios onde vivem muitas pessoas em muitas casas. Foram todas equipadas no Ikea ou na Moviflor. É só uma questão de datas. Tudo é novo. O mundo moderno só existe a sério nos subúrbios onde não existem centros históricos. Foram deitados abaixo para construir eficientes repartições de finanças. Aquilo que o sociólogo da Câmara não deixou enfiar no entulho está no museu municipal ou à porta duma biblioteca da zona (quando há alguma).
Mas vês como me perco? Divagação outra vez!
Vou resumir os factos: é Inverno, mas o sol é quente e eu estou sentado na esplanada dum shopping suburbano com o mundo moderno à minha frente. Tudo o que eu disse antes cabe aqui: sem fazer literatura!
Conquanto esteja atento a tudo isto (repara como é elegante a palavra conquanto) há uns miúdos do liceu a conversar. Há aqui muitos miúdos do liceu porque são apenas 3h da tarde. Ali, naquela mesa, são dez: contei-os. Agora levantaram-se. Agora não há quase ninguém. Eu e uma senhora ali ao fundo sentada noutra mesa a falar ao telemóvel. Ela não tem o mundo moderno à sua frente, mas compõe a visão que eu tenho do mundo moderno.
É no meio disto tudo que tenho vontade de escrever. Nada disto cabia nas páginas dum romance. Um subúrbio, miúdos do liceu no shopping, a senhora a falar ao telemóvel. Depois penso que podia ter lugar num blogue. Num desses blogues que os tipos como eu têm, os tipos que querem escrever. Esses que os tipos como tu, os que escrevem mesmo, acham risível. Só acham risível porque é uma maneira literariamente polida de dizer digno de dó. É que "digno de dó", apesar da aliteração, não é nada polido. Não é nada digno de ser literário.
É isto mesmo, vês? É sempre assim! Penso em escrever. Mas depois penso no que é escrever: em tudo o que isso quer dizer, entendes? As implicações que tem. Escrever não é para um tipo numa esplanada dum shopping suburbano a falar de auto-estradas. Deve falar da vida. De pessoas. De complexidades. Deve ser uma coisa feita, construída. Olha, maquinada, que é mesmo a palavra ideal. Então não escrevo. Não escrevo mesmo. Recuso-me! A sério. Digo para mim "Não tires daí o caderno. Não escrevas. Não consegues. Escrever não é para tipos como tu. É para tipos mesmo bons que sabem o que fazem."
Nunca falei disto a ninguém. É paralisante, sabes? Tenho estórias na minha cabeça. É tão absurdo que narro para mim certos episódios porque passo. Narro-os como se estivessem escritos num livro escrito por mim. Mas eu posso lá escrever livros. Ou blogues. Ou coisas num caderno preto que se leva na mala.
Não escrevo, é como te disse. Fico muito tempo parado ao sol. A vontade passa. Com o tempo fica mais fácil. Eduquei-me bem. Agora já nem sinto vontade de escrever.
Fico sentado a pensar em muitas coisas como fazem todas as pessoas quando estão sozinhas.
terça-feira, janeiro 19, 2010
O estado da Arte
A arte não pode ser limitada por algo tão reles como as pessoas. As pessoas são apenas cobaias da arte. A grandeza de tudo o que sentem não é senão acessório para a grandeza de tudo o que escrevo.
Outros diriam que sou desprezível. Mas o que dizem tem a importância limitada da matéria bruta para que depois eu a escreva. Se tivesse moral era um cínico. A moral serve para pôr em bons livros e dá boas tramas. Eu não tenho moral e assim tenho todas e consigo escrevê-las. Sou vazio de tudo para que tudo de desprezível que acontece às pequenas pessoas à minha volta me encha e preencha as páginas quintessências que escrevo.
Outros diriam que sou desprezível. Mas o que dizem tem a importância limitada da matéria bruta para que depois eu a escreva. Se tivesse moral era um cínico. A moral serve para pôr em bons livros e dá boas tramas. Eu não tenho moral e assim tenho todas e consigo escrevê-las. Sou vazio de tudo para que tudo de desprezível que acontece às pequenas pessoas à minha volta me encha e preencha as páginas quintessências que escrevo.
terça-feira, dezembro 29, 2009
Os odores de Samarcanda ou Viagem Oriental através dum livro
De Samarcanda guarda o cheiro do bazar. A luz reflecte levemente nas pedras de âmbar dispostas nos tabuleiros de quase todas as bancas. A cidade confude-se com ruídos que te confundem. Confia apenas no teu cheiro e nada mais. O Verde é apenas uma miragem dos ricos jardins além-muros, nos palácios inacessíveis do Oriente. Não percas tempo com eles. As casas são de tijolo cru e batido e ainda cheiram a terra e a poeira. Era assim há mil anos como é hoje. Se buscas cor, confia de novo no cheiro e vai até à mesquita. Admira agora os ricos azulejos da sua porta e do alto do seu minarete. Encosta o nariz a um deles e sente. Sente agora o cheiro dos anos, do tempo, o cheiro do corpo de centenas de homens em oração em mistura com o barro cozido num fogo demasiado alto. É o fogo que queima o barro e os homens de fé que rezam. Escolhe agora uma rua tortuosa. Atravessa as casas e ligeiramente olha para o seu interior. Uma casa cheira sempre a comida e a lume. A lume brando e calmo. Que ouvirás dentro das casas? Risos, queixas, gritos, carícias, prazeres. As casas de Samarcanda são como todas as casas do mundo onde moram pessoas. Que há de diferente nas pessoas de Samarcanda em relação com as pessoas do mundo? Descobre nelas o cheiro da Pérsia. Não desta Pérsia de agora. Dessa que dorme um sono no coração dessas pessoas. Aproxima-te do coração dum habitante de Samarcanda e cheira-o. Encontrarás aí tapetes voadores, abóbadas douradas, turbantes e espadas curvas. Ali dorme o país encantado, no coração batente de cada cidadão de Samarcanda.
Depois, lembra-te apenas do cheiro, nada além do cheiro, e que ele te guie sem destino pelo labirinto das ruas de casas sempre iguais, pelo labirinto de rostos sempre iguais até chegares a um sítio que só o cheiro sabe onde é.
Depois, lembra-te apenas do cheiro, nada além do cheiro, e que ele te guie sem destino pelo labirinto das ruas de casas sempre iguais, pelo labirinto de rostos sempre iguais até chegares a um sítio que só o cheiro sabe onde é.
Experimentação em trilhadas trincheiras
Sigo o trilho desta trilha
Com minh'alma trilhada em coisas d'alma
Entrincheirada em trincheiras tão trincadas
Que até trincar o pão duro é difícil
Enquanto sigo o trilho desta trilha
Que me leva ao nada.
Com minh'alma trilhada em coisas d'alma
Entrincheirada em trincheiras tão trincadas
Que até trincar o pão duro é difícil
Enquanto sigo o trilho desta trilha
Que me leva ao nada.
Poema dum dia de chuva ou Evocação bucólica
Digamos um poema de sala e de luz.
As palavras constroem-se como se chamadas a isso.
Tudo é natural e bom como um dia de Inverno com muita chuva.
Ao redor da minha janela deito-me a imaginar prados verdes.
Que há de bom em imaginar prados verdes num dia de chuva
E céu cinzento?
Absolutamente nada a não ser o prazer de imaginar prados verdes em que a chuva
Molha e acorda o cheiro a terra.
Imagino depois que dou uma grande golfada e o cheiro da terra molhada
Invade-me as narinas brutalmente.
Enquanto, estou na sala
E o poema conta estórias de luz e de outras coisas que não se podem ver
A não ser que as imaginemos.
A sala é todo um mundo-
Do poema, de nós mesmos e das coisas infinitas que temos dentro de nós mesmos.
Agora, entre a luz e a sala fecho os olhos,
Fecho os olhos muito devagar, devagarinho, para guardar dentro de mim
Luzes, salas e tantas, tantas coisas.
E adormeço. E sonhando vou até aos prados verdes que imagino e agora sonho
Onde um dia de chuva faz com que cheire muito a terra molhada.
As palavras constroem-se como se chamadas a isso.
Tudo é natural e bom como um dia de Inverno com muita chuva.
Ao redor da minha janela deito-me a imaginar prados verdes.
Que há de bom em imaginar prados verdes num dia de chuva
E céu cinzento?
Absolutamente nada a não ser o prazer de imaginar prados verdes em que a chuva
Molha e acorda o cheiro a terra.
Imagino depois que dou uma grande golfada e o cheiro da terra molhada
Invade-me as narinas brutalmente.
Enquanto, estou na sala
E o poema conta estórias de luz e de outras coisas que não se podem ver
A não ser que as imaginemos.
A sala é todo um mundo-
Do poema, de nós mesmos e das coisas infinitas que temos dentro de nós mesmos.
Agora, entre a luz e a sala fecho os olhos,
Fecho os olhos muito devagar, devagarinho, para guardar dentro de mim
Luzes, salas e tantas, tantas coisas.
E adormeço. E sonhando vou até aos prados verdes que imagino e agora sonho
Onde um dia de chuva faz com que cheire muito a terra molhada.
quarta-feira, dezembro 09, 2009
Tarde alexandrina ou O Velho Criador da(s) Palavra(s)
Em Alexandria certa tarde encontrei um homem numa esquina. Não representa qualquer dificuldade encontrar um homem numa esquina numa tarde de calor em Alexandria. Descrevê-lo é desnecessário: era um homem velho igual a todos os homens velhos de Alexandria que em si são todos iguais. Não me tivesse falado teria passado por ele na busca duma sombra melhor. Mas falou-me. Adoptava um ar grave quando falava. Tinha uma voz encantadoramente pausada e cada sílaba era dita como um acto religioso. Ainda que não entendesse o que dizia (tinha um árabe demasiado dialético para mim) ouvi-lo era mágico. Cada palavra era todo a possibilidade de ser todas as palavras ao mesmo tempo. A partir de certo momento deixei de tentar descortinar sentidos ou sequer de os imaginar. As palavras diziam-se na sua boca e isso era o bastante para mim. E nos minutos em que o ouvi aquele velho foi Deus para mim, Javé num tempo ancestral criando o Mundo em que a Palavra era em si a Essência.
segunda-feira, dezembro 07, 2009
Vista do mar sobre a janela da casa branca
Não esqueças as palavras da casa branca-
Seus sentidos amargos e doces
Como as frutas da árvore que grande
Cresce no quintal.
Não esqueças os segredos espalhados
Em cada esquina, em cada canto
Palavras encantadas de dizer dia, manhã e sol.
Não esqueças os cheiros prenhes de palavras
Ainda por nascer,
De sensações indescritíveis.
Não esqueças o não dizer do silêncio,
A vista certa do mar numa tarde debruçado
Na janela
E todas as coisas possíveis de construir
No instante exacto em que cada palavra te sai da boca.
Seus sentidos amargos e doces
Como as frutas da árvore que grande
Cresce no quintal.
Não esqueças os segredos espalhados
Em cada esquina, em cada canto
Palavras encantadas de dizer dia, manhã e sol.
Não esqueças os cheiros prenhes de palavras
Ainda por nascer,
De sensações indescritíveis.
Não esqueças o não dizer do silêncio,
A vista certa do mar numa tarde debruçado
Na janela
E todas as coisas possíveis de construir
No instante exacto em que cada palavra te sai da boca.
sexta-feira, dezembro 04, 2009
A casa antiga
Na esquina das escadas com a porta envidraçada da livraria- aí é onde o cheiro da casa é mais forte.
Pequenas aranhas tecem um labor ao longo das paredes. Tudo é interior e bom.
A casa está carregada das recordações de todas as infâncias.
Pequenas aranhas tecem um labor ao longo das paredes. Tudo é interior e bom.
A casa está carregada das recordações de todas as infâncias.
terça-feira, novembro 17, 2009
Jogo parco
Deus do mar,
construo hoje a casa onde hei-de nascer nesse dia que tu sabes.
Servirá de Babilónia ou Atenas e serão apenas alguns livros como mobília.
Tempo da memória para construir um corpo novo.
As Parcas jogam os dados no pateo exactamente quadrado.
construo hoje a casa onde hei-de nascer nesse dia que tu sabes.
Servirá de Babilónia ou Atenas e serão apenas alguns livros como mobília.
Tempo da memória para construir um corpo novo.
As Parcas jogam os dados no pateo exactamente quadrado.
Parole
Não digas nenhuma palavra. Não é tempo delas.
Não há tempo delas.
As palavras vivem melhor se não existerem nas nossas bocas,
Mas apenas onde as fabricamos.
Não há tempo delas.
As palavras vivem melhor se não existerem nas nossas bocas,
Mas apenas onde as fabricamos.
domingo, outubro 18, 2009
Crónica de grande revolta ou Último apelo àquele que se esqueceu
Lento reajustar das placas tectónicas, novo decifrar de novas línguas. Criar um mundo agora de barro fundido, esperado mais forte, deixando outros ventos para trás.
Que nada se faça, contudo, assim- como eu me quedo agora: em fúria, em raiva e tanta mágoa. Porque de tudo o que dissemos já não te sinto, e em tudo o que fizemos já não te encontro. Esqueceste-me numa das curvas. E deixaste que o tempo arrastado rompesse o que antes havia.
Que nada se crie assim. Os deuses, por fim, far-me-ão dormir. E do sono virá nova manhã. Nessa manhã possa ser mais do que sou agora. E mesmo que lá não estejas possa haver um sentido de real em cada coisa que será criada.
segunda-feira, outubro 12, 2009
Ânsia
E se numa palavra te pudesse dizer diria mais que saudade, embora por vezes ausência. Mas se ainda assim fosse só uma, diria: Anseio!
sábado, outubro 10, 2009
De uma videira outonal
De quantos frutos nascem nas árvores, do número de todos não bastaria para esboçar de quanto te sinto a falta.
quinta-feira, outubro 08, 2009
Carta a um dia fascinado de Verão ou Langor d'Infância
Quero outra vez um dia de Verão. Entenda-se que não peço um dia de sol, mas sim que quero um dia de Verão.
Nos dias de Verão é mais fácil escrever: tudo é mais luminoso e tem mais vida. Podemos falar de uma cadeira de vime no alpendre e de uma almofada fofa no assento. Verde com riscas laranjas e contornos azuis. Assim, exagerada de cor. São três da tarde e o sol bate levemente por sobre o caramanchão que me dá sombra. Uma estrutura simples coberta pelo maracujaleiro em flor. Cheira! E como cheira. Três da tarde é a hora dos gatos e dos segredos. Já é insuportavelmente tarde para o almoço dum dia comum e infinitamente longe de uma hora boa para o chá. É uma hora que não existe. Na casa alguém dorme a sesta num dos quartos com as quatro paredes altas. Os tectos finamente decorados a estuque são como antigos mobiles ou clepsidras que nos fazem adormecer. Contando que nos viremos algumas vezes na cama. Podia estar a escrever, agora que estou no jardim, sentado numa cadeira de vime com uma almofada colorida por assento. Enquanto, prefiro pensar numa sesta não demasiado tranquila no quarto do fundo. O quarto do fundo é grande e branco e tem um tecto como um clepsidra como os outros quartos da casa. Mas não é isso que me atrai. Numa proporção certa a cama enfrenta a janela cuja vista se joga sobre a cidade. Continua depois no mar. Bastaria agora que me levantasse, que pisasse com os pés nús o chão morno de cantaria. Em jeito manso subiria as escadas para encontrar num instante a porta envidraçada da biblioteca. Agora caminhar no longo corredor dum silêncio impossível, feito de velha madeira rangente. A mão poisada sobre a maçaneta, rodando-a num gesto de pulso. De seguida fecho a porta e corro também as cortinas. Às três da tarde todas as luzes devem ser a meia luz. O corpo descansado sobre a cama. O tecto em clepsidra e as paredes altas e brancas e o sol por entre as cortinas leves. Meia-luz com a alma a meio-gás como se meio adormecida. E agora estou sentado na cadeira do jardim a pensar que poderia estar deitado na cama do quarto do fundo. Aí imaginaria o turpor das quatro da tarde, quando nem por um instante houvesse silêncios. As crianças a descer velozmente as escadas, aos tropeções ligeiros; o jardim muito cheio; alguém a por a mesa do lanche. E tudo isto como um preparar lento do funeral duma tarde de verão que se fecha com o ritual do chá servido quente pelas cinco.
Hoje Outubro quase vira Outono. Há ainda resistências do sol e sobretudo da luz. Agora na janela frente à estação de comboios felizes e também velozes penso- no corpo sentado na cadeira no jardim, pensando no corpo deitado na cama do quarto, imaginando a agitação que virá para preparar o final de mais uma coisa que começa. Onde estarei eu pelo mês de Agosto?
Nos dias de Verão é mais fácil escrever: tudo é mais luminoso e tem mais vida. Podemos falar de uma cadeira de vime no alpendre e de uma almofada fofa no assento. Verde com riscas laranjas e contornos azuis. Assim, exagerada de cor. São três da tarde e o sol bate levemente por sobre o caramanchão que me dá sombra. Uma estrutura simples coberta pelo maracujaleiro em flor. Cheira! E como cheira. Três da tarde é a hora dos gatos e dos segredos. Já é insuportavelmente tarde para o almoço dum dia comum e infinitamente longe de uma hora boa para o chá. É uma hora que não existe. Na casa alguém dorme a sesta num dos quartos com as quatro paredes altas. Os tectos finamente decorados a estuque são como antigos mobiles ou clepsidras que nos fazem adormecer. Contando que nos viremos algumas vezes na cama. Podia estar a escrever, agora que estou no jardim, sentado numa cadeira de vime com uma almofada colorida por assento. Enquanto, prefiro pensar numa sesta não demasiado tranquila no quarto do fundo. O quarto do fundo é grande e branco e tem um tecto como um clepsidra como os outros quartos da casa. Mas não é isso que me atrai. Numa proporção certa a cama enfrenta a janela cuja vista se joga sobre a cidade. Continua depois no mar. Bastaria agora que me levantasse, que pisasse com os pés nús o chão morno de cantaria. Em jeito manso subiria as escadas para encontrar num instante a porta envidraçada da biblioteca. Agora caminhar no longo corredor dum silêncio impossível, feito de velha madeira rangente. A mão poisada sobre a maçaneta, rodando-a num gesto de pulso. De seguida fecho a porta e corro também as cortinas. Às três da tarde todas as luzes devem ser a meia luz. O corpo descansado sobre a cama. O tecto em clepsidra e as paredes altas e brancas e o sol por entre as cortinas leves. Meia-luz com a alma a meio-gás como se meio adormecida. E agora estou sentado na cadeira do jardim a pensar que poderia estar deitado na cama do quarto do fundo. Aí imaginaria o turpor das quatro da tarde, quando nem por um instante houvesse silêncios. As crianças a descer velozmente as escadas, aos tropeções ligeiros; o jardim muito cheio; alguém a por a mesa do lanche. E tudo isto como um preparar lento do funeral duma tarde de verão que se fecha com o ritual do chá servido quente pelas cinco.
Hoje Outubro quase vira Outono. Há ainda resistências do sol e sobretudo da luz. Agora na janela frente à estação de comboios felizes e também velozes penso- no corpo sentado na cadeira no jardim, pensando no corpo deitado na cama do quarto, imaginando a agitação que virá para preparar o final de mais uma coisa que começa. Onde estarei eu pelo mês de Agosto?
quarta-feira, outubro 07, 2009
Palas Ateneia de Rembrandt
I
Quero olhar sem nunca pestanejar até que me sequem os olhos.
(Há que começar com uma frase forte, que marque o leitor e o arrepie. O afastamento da estética pela estética produz o pensamento do leitor).
A intensidade do quadro, nas suas manchas de vermelho sangue vivo, contrastavam fortemente com o ar plácido do rapaz hermafrodito. Como se a inocência fosse arrancada num traje militar.
(Ainda o choque. Tentar ouvir o sofrimento do leitor. Jogar-lhe com manchas de tinta para cima e vê-lo sacudir-se como se salpicado de sangue).
A lança decorativa resta-lhe na mão. Na cabeça a coruja ilumina a sua sabedoria. Estranho jogo o da guerra e o do saber. Onde há um não devia haver o outro.
(Agora apela-se ao sentimento de justiça. Que o leitor sinta, e mais que isso saiba, que o que lê é boa literatura do seu tempo: cheia de ideias e valores, pronta a corrigir e carregar nos erros do passado).
II
Teria sido, certamente, capaz de restar ali por horas até que me secassem os olhos. Não, tanto não! estou ali para ver, ver sempre. Não para deixar de ver.
Queria saber se as manchas de tecido encarnado sobre a armadura dourada têm especial significado. A verdade é que não sei nada de arte. Estou aqui porque gosto de estar aqui. A estética leiga do olhar distante deste rapaz efeminado bastou para que me sentasse a vê-lo. Há outras coisas, mas são para a hora dos segredos. Em geral, a minha opinião é completamente leiga: gosto porque gosto, é há bastante que me chegue nesse gostar.
Sentado, de pé, de lado e por vezes mesmo com coragem para ser de frente olho o quadro. Depois do tempo desço as escadas depressa. Corro os placares um a um com uma calma rápida e mais que isso sedenta. Lá está! Por €3 trago-o para casa. Agora é só meu, como é de todos os outros que o pagam, compram e visitam. Olho-o com um enamoramento recém descoberto. Começo um namoro secreto com o quadro.
Quero olhar sem nunca pestanejar até que me sequem os olhos.
(Há que começar com uma frase forte, que marque o leitor e o arrepie. O afastamento da estética pela estética produz o pensamento do leitor).
A intensidade do quadro, nas suas manchas de vermelho sangue vivo, contrastavam fortemente com o ar plácido do rapaz hermafrodito. Como se a inocência fosse arrancada num traje militar.
(Ainda o choque. Tentar ouvir o sofrimento do leitor. Jogar-lhe com manchas de tinta para cima e vê-lo sacudir-se como se salpicado de sangue).
A lança decorativa resta-lhe na mão. Na cabeça a coruja ilumina a sua sabedoria. Estranho jogo o da guerra e o do saber. Onde há um não devia haver o outro.
(Agora apela-se ao sentimento de justiça. Que o leitor sinta, e mais que isso saiba, que o que lê é boa literatura do seu tempo: cheia de ideias e valores, pronta a corrigir e carregar nos erros do passado).
II
Teria sido, certamente, capaz de restar ali por horas até que me secassem os olhos. Não, tanto não! estou ali para ver, ver sempre. Não para deixar de ver.
Queria saber se as manchas de tecido encarnado sobre a armadura dourada têm especial significado. A verdade é que não sei nada de arte. Estou aqui porque gosto de estar aqui. A estética leiga do olhar distante deste rapaz efeminado bastou para que me sentasse a vê-lo. Há outras coisas, mas são para a hora dos segredos. Em geral, a minha opinião é completamente leiga: gosto porque gosto, é há bastante que me chegue nesse gostar.
Sentado, de pé, de lado e por vezes mesmo com coragem para ser de frente olho o quadro. Depois do tempo desço as escadas depressa. Corro os placares um a um com uma calma rápida e mais que isso sedenta. Lá está! Por €3 trago-o para casa. Agora é só meu, como é de todos os outros que o pagam, compram e visitam. Olho-o com um enamoramento recém descoberto. Começo um namoro secreto com o quadro.
sábado, outubro 03, 2009
Cliché de uma folha em branco
De dizer clichés
Como a folha branca dum papel
E a angústia que provoca:
Tentemos então metáforas sobre os rios
E a espuma branca
Das ondas fortes que rebentam contra as rochas
Como línguas lambonas.
Ou então pensar numa família
E fazer uma poesia vulgar- quotidiana mas modernaça
Falar de cervejas e futebol
E de pais gordos com correntes de ouro
E de mães meio tristes de bata gordurenta.
É bom em cliché
Falar-se do sorriso duma criança
Encontros e relações de luz e riso
E encanto
Que uma criança é fácil de encantar
Seja quem for, ainda mais num poema assim cliché
Como este aqui.
E tantas coisas, que num cliché cabe tudo
Nem falo em falar-se de amor.
Não acabava hoje este poema.
Mas há ainda a folha em branco
E por mais cliché que isso seja
O terror de estar por dentro em branco assombra-me mais
Que todas as outras coisas.
Como a folha branca dum papel
E a angústia que provoca:
Tentemos então metáforas sobre os rios
E a espuma branca
Das ondas fortes que rebentam contra as rochas
Como línguas lambonas.
Ou então pensar numa família
E fazer uma poesia vulgar- quotidiana mas modernaça
Falar de cervejas e futebol
E de pais gordos com correntes de ouro
E de mães meio tristes de bata gordurenta.
É bom em cliché
Falar-se do sorriso duma criança
Encontros e relações de luz e riso
E encanto
Que uma criança é fácil de encantar
Seja quem for, ainda mais num poema assim cliché
Como este aqui.
E tantas coisas, que num cliché cabe tudo
Nem falo em falar-se de amor.
Não acabava hoje este poema.
Mas há ainda a folha em branco
E por mais cliché que isso seja
O terror de estar por dentro em branco assombra-me mais
Que todas as outras coisas.
domingo, setembro 20, 2009
Mel
O espaço de cada letra invade-me violentamente e cada poro do corpo é agora conspurcado como por um mel doce que chegue.
domingo, agosto 30, 2009
Quando uma revolução tem dois lados
Lembro Cecília com certa exactidão. O queixo caído, os olhos também, o cotovelo agudamente apoiado à mesa, a mão aberta segurando a cara toda. Parecia esperar algo de indecifrável. Nunca olhava para mim, mas às vezes olhava Ângela pelo canto do olho. Ângela Carneiro de Albuquerque era uma brasileira cinquentona divertida que tinha sempre ar de quem tinha tomado sol a mais. Lembro-me de Cecília dizer :" Não a achas tão divertida, tão solta. É uma água de côco!"
Cecília gostava de água de côco quando passeávamos pelo Leblon perto das três da tarde quando o calor era ligeiramente insuportável. A sua blusa, sempre de cor clara, virava transparente e colava às costas. Ainda que a mim me impressionasse a Cecília parecia não mexer com ela. Era bom assim, era legal! Cecília era mais tranquila nesses anos. Vestia-se como as actrizes de "Dancin´Days" e gostava de drinks e boites. Tínhamos amigos na Barra que visitávamos aos Domingos e às vezes recebíamos na nossa cobertura. Cecília já dizia a palavra arrastada e com todas as vogais fortemente pronunciadas ao gosto brasileiro. Se foi feliz é raro eu saber, mas gostava daquela vida, eu acho.
Lembro Cecília naquela tarde. O avião tardava por demais. Três horas de atraso! E Cecília esperando algo mais que o avião. Nunca soube o que esperava. Ângela ria, contando estórias alegres da nossa última estadia em Búzios. (Ângela tinha uma casa lá que às vezes emprestava para a gente). O mar de Búzios é inesquecível, mas não era por isso que Cecília aguardava tão abstraídamente. Não era, tenho a certeza. Seu corpo colado ao vestido de linho branco, o grande casaco de peles apoiado no carrinho do aeroporto.
Sei lá quanto tempo passou desde que me perdi olhando Cecília até que ela despertou com a voz da aero-moça chamando para o nosso voo. Lembro com certa exactidão: era o dia três de Dezembro de 1982. Nosso voo foi longo mas passou por nós voando. Cecília estava cansada de ter esperado tanto. Como tinha ficado à espera por mais do que o avião estava visivelmente mais cansada que todos nós. O avião aterrou em Lisboa. Fazia pouco menos de sete anos que não estávamos na nossa terra, terra que o pai de Cecília lembrava saudoso chamando "Nossa Pátria". Chegados à nossa pátria lembro Cecília levantando sonolenta da cadeira do avião, eu colocando o casaco em seus ombros magros. Enquanto descíamos a escada nossos corpos foram os primeiros a saber que tínhamos verdadeiramente chegado: estavam 6 graus! Cecília, que não falava desde o Rio, apertou minha mão cravando as unhas ligeiramente na palma e falou quase como quem berra "Acordei António, não queria, mas acordei!"
Cecília gostava de água de côco quando passeávamos pelo Leblon perto das três da tarde quando o calor era ligeiramente insuportável. A sua blusa, sempre de cor clara, virava transparente e colava às costas. Ainda que a mim me impressionasse a Cecília parecia não mexer com ela. Era bom assim, era legal! Cecília era mais tranquila nesses anos. Vestia-se como as actrizes de "Dancin´Days" e gostava de drinks e boites. Tínhamos amigos na Barra que visitávamos aos Domingos e às vezes recebíamos na nossa cobertura. Cecília já dizia a palavra arrastada e com todas as vogais fortemente pronunciadas ao gosto brasileiro. Se foi feliz é raro eu saber, mas gostava daquela vida, eu acho.
Lembro Cecília naquela tarde. O avião tardava por demais. Três horas de atraso! E Cecília esperando algo mais que o avião. Nunca soube o que esperava. Ângela ria, contando estórias alegres da nossa última estadia em Búzios. (Ângela tinha uma casa lá que às vezes emprestava para a gente). O mar de Búzios é inesquecível, mas não era por isso que Cecília aguardava tão abstraídamente. Não era, tenho a certeza. Seu corpo colado ao vestido de linho branco, o grande casaco de peles apoiado no carrinho do aeroporto.
Sei lá quanto tempo passou desde que me perdi olhando Cecília até que ela despertou com a voz da aero-moça chamando para o nosso voo. Lembro com certa exactidão: era o dia três de Dezembro de 1982. Nosso voo foi longo mas passou por nós voando. Cecília estava cansada de ter esperado tanto. Como tinha ficado à espera por mais do que o avião estava visivelmente mais cansada que todos nós. O avião aterrou em Lisboa. Fazia pouco menos de sete anos que não estávamos na nossa terra, terra que o pai de Cecília lembrava saudoso chamando "Nossa Pátria". Chegados à nossa pátria lembro Cecília levantando sonolenta da cadeira do avião, eu colocando o casaco em seus ombros magros. Enquanto descíamos a escada nossos corpos foram os primeiros a saber que tínhamos verdadeiramente chegado: estavam 6 graus! Cecília, que não falava desde o Rio, apertou minha mão cravando as unhas ligeiramente na palma e falou quase como quem berra "Acordei António, não queria, mas acordei!"
domingo, agosto 16, 2009
Tarde de Domingo
Suspirar de prazer numa tarde de Domingo. Vivo das pequenas coisas.
Carícias.
Queijos.
Vinho Verde.
Deixo-me e vagueio com alguma constância. Agora pelo corpo, depois pela mente, quase sempre pelos dois ao mesmo tempo.
Carícias.
Queijos.
Vinho Verde.
Deixo-me e vagueio com alguma constância. Agora pelo corpo, depois pela mente, quase sempre pelos dois ao mesmo tempo.
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