sexta-feira, outubro 31, 2008

quarta-feira, outubro 29, 2008

Desabafo ou Palavras diárias sem linha mas com fio

A música em flor-de-lis. A falta do Tejo. O teu corpo que não me pertence. Petrónios e Anícios de há tantos tempos. Escrever incessantemente. Voltar a escrever depois.

Não me ligues sempre se faz favor. A mim também me dói e perco tempo para te consolar. Tomar conta de crianças adultas, tormento. Ser genial, ser mais genial, ainda ser genial. A falta do Tejo. Eu sem Lisboa.

Montras, lojas, roupas. Desejos. Pessoas, jantares, almoços, palavras. Ocupem-me que bem preciso!

E tardes e computadores e coisas para escrever. Fadiga. E tu ligas. E ele também liga. E falam um do outro. E eu que penso em mim e no outro que não é o mesmo outro.

Eu arvorado em Prima-Donna. Sim, é mesmo tudo sobre mim. O blogue é meu!

Eu arvorado em Prima-Donna. Milhares de episódios de Anatomia de Grey. Milhares de sexo platónico. Alguma masturbação. Pornografia.

Cansaço. Grande cansaço.

E as noites, noites sempre de noite, sempre escuras enquanto é noite e de noite. Amanhã. Palavra e desejo constante. Vou esquecer tudo e construir amanhãs como num filme qualquer.

Mas por onde é que eu ando!?

terça-feira, outubro 28, 2008

Estória das duas cidades com rio ou Conversa entre coisas que nos rodeiam

Para Ana Garcia e Sara Borga, porque me inspiram .

A. senta-se numa cadeira perto do lago. A. descobriu agora a vida em Lisboa e isso entusiasma-a. Este é um prazer conquistado: A. senta-se numa cadeira do Relógio d'Água com uma fatia de bolo. O jardim Amália Rodrigues é agora um dos seus sítios preferidos. Há gente e vida assim como ela queria que houvesse. As pessoas têm em geral um ar feliz e o jardim é quase sempre verde. Outubro é agora escaldante nas suas tardes. E isso agrada-a. Ver as coisas acontecerem fá-la sentir que faz parte delas. A. está sentada na sua cadeira mas viaja em torno de si e dos outros.

Enquanto, S. lembra-se de Lisboa e do jardim Amália Rodrigues dos tempos em que morava no Bairro Azul. Era mais nova, mas já tinha os olhos abertos. A mãe levava-a a passear pelo corredor verde. Uma bicicleta ocasional parece-lhe agora ridículo, como antes lhe parecia fantástico. Em Gent, frente ao rio, são várias as bicicletas, todas ocasionais, porque para todas as ocasiões. Outubro tem agora tardes enregelantes enquanto S. se habitua aos rigores do Norte. Os gestos são uma chamada de atenção constante e S. deixa-se levar. Desenha incessantemente para captar a vida da pequena cidade à sua volta. Porque nas tardes de Outubro S. tenta entender a vida da cidade enquanto se senta numa café junto ao rio.

A. e S. têm normalmente vidas distantes. Partilharam uma vez algumas palavras e uma peça de teatro, uma tarde no São Luiz. A. e S. amam a vida da cidade e têm sede. A sede fá-las procurar novas nascentes. No metro, ou a caminho da faculdade numa bicicleta. Na aula de economia financeira ou frente a uma tela. Ao som dum cavaquinho ou ao som de qualquer que seja o instrumento típico dos belgas. A. e S. dão saudades porque vão fazendo a vida loge de mim, mas sobretudo guardam em mim esperanças de outras sedes.

sexta-feira, outubro 24, 2008

Passeio do pequeno conde ou Viagem em redor de outros

Esta gente aqui sentada é sempre algo estranha. O mundo passa veloz lá fora, tão mais veloz quanto tudo anda mais rápido. E passam as luzes e vagueamos no escuro a 200km/h até que se ouve uma claro som, quase sempre sobreposto aos outros, que anuncia: "próxima paragem...".

Esta gente aqui sentada não tem pressa, mesmo quando tem. Há quem bata um pé nervoso e vá dando estalidos com a língua. Outros bufam constantemente. Alguém há-de ter a culpa por chegarem atrasados onde hão-de chegar. Alguém que não eles. Todos nós os outros. Mas o tempo não passa, só o nervosismo deles aumenta. O comboio continua estagnado enquanto viaja à velocidade da escuridão.

O pequeno conde senta-se alheado e distante numa cadeira a um canto. Um homem, à sua frente, tira da mala uma sanduíche. Trinca-a em grandes nacos que mastiga com vontade. Ver alguém abrir uma mala é sempre uma surpresa, uma interrogação e um verdadeiro acto de coscuvilhice, porque é simplesmente impossível resistir à curiosidade. É assim como um Kinder Surpresa, três desejos num só, mas numa versão adulta, melhorada e que não faz mal aos dentes embora não comporte tanto leite para beneficiar os ossos. É como dizia, resistir a olhar é quase impossível. E o momento melhor é aquele antes, em que estabelecemos um jogo de adivinhas connsoco mesmos. O que será? Ah, uma sanduíche, nota com ar aborrecido. O pequeno conde ouve muitas vezes a voz da mãe na cabeça. Que não se deve olhar, nem espreitar, nem coscuvilhar. Mas a mãe não anda por aqui todos os dias e sabe pouco desta tentação.

Mas há mais pessoas neste micro-universo que se reorganiza a cada nova paragem. São mulheres de encantos fanados e roupas justas. São crianças aspersoras que balançam o guarda-chuva molhado dum lado para o outro. São pais que berram e pais que se deixam estar enquanto a filha mama furiosamente a ponta do casaco. São novos executivos que berram muito alto ao telémovel. "Sim, estou no metro. Não, não, claro que posso falar! Diga, diga..." e aumentam a frequência em decibéis impossíveis para se fazerem ouvir. São jovens suburbanos que chegam do colégio e entrando no Rato só querem ouvir a senhora do anúncio anunciar que a próxima paragem é Odivelas.

Onde quer que pare a vida desta gente, ou Olaias ou Areeiro, ela passa e pára no Metro. E há quem não perceba e quem não pense nisso. Até o pequeno conde lhe dedica pouco tempo. Mas há perguntas que ficam. Quantas vezes ao longo da vida teremos visto a mesma pessoa no comboio sem nos darmos conta?

E há vezes, embora houvesse mais antigamente, em que o Metro pára no túnel escuro. É como se a escuridão forçada acordasse as gentes. De súbito, e por não mais tempo que isso, todos sabem do momento comum que vivem e do micro-kosmos onde se encontram. Agora há amigos dum minuto a quem dizer "E eu que estava cheia de pressa!", ou "Isto é sempre o mesmo!". Até o pequeno conde, entusiasmado, se vira para a senhora velha e gorda ao seu lado e diz "Que aborrecido, não é? Isto do Metro parar...". E a senhora torce o nariz, mas consciente de que não terá mais amigos senão o pequeno conde durante o tempo de paragem do Metro, ri, concorda acenando com a cabeça e continua a conversa.

E o metro voltou a andar. A seguir é a vez do pequeno conde sair. Não olha para trás, mal se despediu da senhora velha e gorda, não voltará a pensar nela. O pequeno conde poucas vezes voltará a pensar em todas estas coisas no correr deste e doutros dias. Mas é certo que a vida do pequeno conde há-de voltar a passar pelo metro e lá passando há-de parar nesse tempo infinito entre uma estação e outra em que se formam micro-kosmos.

quinta-feira, outubro 23, 2008

Cliché ou Noite em desabafo

Dói como uma dor estranha. Agora sei tudo o que tinha medo de saber e ainda tenho. E não estou livre, mas ainda preso. Porque ele está dentro de mim. Porqe ele é ao mesmo tempo a maior das alegrias e a mais profunda das dores. E não há como arrancá-lo porque ele e o que sinto por ele são hoje um só!


E dói e dói e dói sem nunca parar de doer, mesmo quando é bom. E não há mais nada lá fora, só ele e as suas palavras cheias de vento e de coisa nenhuma. Agora restam-me promessas que só eu entendo e esperanças que só eu tenho. E agora há dias no meu futuro que não vão nunca existir.


São dias de dizer a pele dele sobre a minha e o peito dele encostado ao meu. Mas sempre sendo dois e nunca um. Sempre perto mas vivendo a maior das distâncias, sempre desejando sem nunca saciar o desejo. E ele morre aos poucos, comido pela dúvida. E eu morro aos poucos vencido pelo cansaço de tudo isto.


E já nem escrevo e já nada do que digo presta. E já nem penso porque nada do que penso chega. E já não olho porque ando de olhos fechados para o ver só a ele. E sofro, sofro, todos os dias sofro. E eles repetem-se infindavelmente, sempre iguais e escuros, como uma lembrança de que o tempo passa, mas não cura.

sábado, outubro 11, 2008

Desconsolo ou Vitória do dia que há-de nascer amanhã

Em nada nada direi

Que não há nada que em nada se possa dizer.

E de dizer nada nada fica

Nada passa, nada marca.


Mancha imaculada

Em nada que tenha, nada comporta ou conserva

Que é nada que eu sinto agora

Como se nada tivesse sido e em dia nada resolvido

De nós mais não sobresse que algum breve resto de nada!

Renúncia do dia que não existiu ou Busca ansiada do corpo perfeito que eu criei

Aqui em vã fraqueza me quedo

Sem corpo teu ou meu que chame.

quinta-feira, outubro 02, 2008

Eça

Estranha gente, para quem é fora de dúvida que ninguém pode ser moral sem ler a Bíblia, ser forte sem jogar o cricket, e ser gentleman sem ser inglês!

In Eça de Queiroz, Cartas de Inglaterra e Crónicas de Londres (publicado pela 1ª vez em 24 de Outubro de 1882 na Gazeta de Notícias)

segunda-feira, setembro 29, 2008

Contorno algo incerto ou Cisne barroco esvoaçando as asas

"Maruliano, meu avô, acreditava nos astros."

E repito tantas vezes, palavras mágicas.

Encontro o impensável, para dizer o indizível.

É que agora talvez já não te ame.

Recomeço

Disse-te em palavras mornas

Da mansidão em que levo a alma.

Foi Verão, Primavera e Outono nesta ordem certa.


Teu corpo quente tem um quê de se fazer frio

Quando te toco.

Há estações, mas não estações para nós.


Para nós há dias de Inverno

Em que sol e céu são apenas uma ideia

Para além das nuvens.


Para nós nem nós mesmos havemos.

Não há nada teu que tu me dês

E tudo quanto te queria dar é agora algo

Indizível, indecifrável, até mesmo para mim.


Eis palavras onde não escreverei porém.

Hoje já não há espaço para falar dos teus olhos verdes,

Ou do teu sorriso,

Ou do cheiro do teu cabelo quando enfio o nariz na tua nuca.


Hoje não há sol,

Sem sol não há tempo de nós.

Agora somos dois, eu e tu,

Sem palavras, sem risos, e de lágrimas tão cheias e secas.


E talvez por aqui haja um caminho onde seguir

E no fim

Construa um hoje que seja meu novamente.

De l'espoir (Da esperança)

O texto que se segue foi novamente roubado a um querido amigo. O texto em francês é seu enquanto a tradução livre é minha.

- Regarde, mon amour! Il y a le soleil qui se lève et la pluie qui cesse!

- C'est bien drôle, puisque l'été s'achève.

- Oui... ce seront peut-être les feuilles de nos chagrins qui tomberont cet automne.

- Je crois. Je crois en nous.



-Olha, meu amor! Eis o sol que se levanta e a chuva que cessa.

-É estranho, porque o Verão acaba.

-Sim... talvez venham a ser as folhas das nossas dores que irão cair neste Outono.

-Eu creio. Eu creio em nós.

sexta-feira, setembro 19, 2008

Pois que a eles já ninguém os rouba!

Entre os tantos tipos curiosos de gentes que o nosso país tem produzido entendo que resta falar de um a que se tem prestado pouca atenção. Falo do madeirense, esse tipo tristonho e insular a que vamos dando lugar de baixa monta.

É bem verdade que em quase nada se apresenta como um tipo de excepção: passa a vida bilhardando e resondando; não sendo introspectivo é bem virado para si; cultiva um certo tipo de mesquinhez que talvez valesse a pena estudar. Mas o que importa realmente no madeirense, o que o faz digno de nota e da escrita é a sua arte superior de evitar ladrões. Pois que o amigo mais céptico não se pasme que juro falar verdade. Descobriu o madeirense essa fórmula mágica, que o resto do povo português tanto almeja, de evitar a ladroagem. Não os pequenos entenda-se, que em se agarrar punhados de grãos de areia sempre escapa este ou outro, mas os grandes que são afinal quem importa porque roubam a valer. Senão, vejamos como o fazem.

Como vimos imediatamente há assim dois tipos de ladroagem: essa da arraia-miúda, antes com uns furtos e uns assaltos às bombas de gasolina, hoje já mais evoluída com direito a car-jackings e assaltos a bancos com reféns e tudo; aquela a que tantos chamam política, mas que na verdade não se fica por aí, pois qualquer tacho em Portugal, ainda que indirectamente ligado à política, já é bom para exercer a ladroagem. A primeira para o povo, a segunda para os espertos. E a única maneira de superar estes segundos é ser-se ainda mais esperto que os espertos. E aquilo que tem levado anos e anos aos teóricos políticos a descobrir descobriram-no os madeirenses logo nos primeiros anos da sua democracia. Qual é pois o grande motor da ladroagem dos tachos? Ora, é mais que claro: a rotação dos cargos. Ora se dá quatro anos de comer a este, depois tu esperas mais quatro enquanto eu lá vou, que a seguir já te vens encher outros quatro. E o madeirense há trinta anos que começou a acabar com isso. Primeiro, nunca mudou de Presidente Regional e conferiu-lhe sempre, em voto democrático, livre e secreto maioria absoluta. A maioria absoluta serve dois propósitos: num primeiro tempo de poder permite roubar tudo quanto se quer; num segundo tempo permite afastar esses rufiões que depois de verem os outros com a pança cheia também querem então ir encher a sua. É que se o madeirense descobriu como por fim à ladroagem, não descobriu nem descobrirá como se põe fim aos ladrões. Mas voltemos ao assunto que nos ocupa e que louva o tipo do madeirense. Depois de garantir o mesmo Presidente Regional ocupou-se o madeirense de uniformizar nos seguintes vinte anos todas as autarquias do arquipélago sobre uma mesma bandeira. Se essa é a bandeira regional ou a bandeira do PPD-Madeira é assunto de pouca monta, que afinal do amarelo ao laranja vai uma pinga de vermelho, que até serve para não virem dizer que não à esquerdismo na ilha.

E agora pensa o bom leitor que esse tipo fantástico que é o madeirense, a quem todos deviam estar gratos pela sua descoberta, viva na sua ilha olímpica uma paz dos deuses. Desengane-se então, pois que há coisas que não se mudam, como vimos. O madeirense, apesar de não se lembrar muitas vezes e de não o querer outras tantas, ainda é português. E ao povo português não se pode tirar um fado que se chore. Não, o povo da Madeira cá continua bilhardando e resondando políticios, ganhos e custos. Lá vai, num canto do autocarro queixando-se disto ou daquilo com a frase sempre generosa que ocupa a ponta dos beiços de todo o português: "isto vai mal!" frase que requer ser dita de maneira séria, pensativa e até filosófica como uma verdade assertiva ao jeito de Atlas que leva o mundo sobre os ombros. Mas ai daquele que se insurja contra o Governo Regional. Aí o madeirense não perdoa! Pois que rouba? Ora se vier outro rouba tudo de novo e este ao menos já roubou tudo quanto tinha a roubar. Pois que é mentira? Então um homem que podendo morar no belo palácio da Quinta Vigia abre antes os jardins do paço ao público e para mais de quarenta anos mora na sua pequena casa e não faz férias senão no Porto Santo. Um homem que só melhorou a Madeira e a rasgou de estradas e furados! Pois, que um homem destes mesmo que roube é santo, que os santos também são homens e lá têm tentações e seus pecados. E ao madeirense parece pouco preço a pagar pelo grande homem que em todas as eleições sentam de maneira livre e democrática na cadeira do poder.

Felizes madeirenses, atentados com tantos tormentos, que ao menos perderam esse de serem roubados em grande ladroagem. Que importa a liberdade de expressão, que importam as tramóias na função pública, ou caciquismos e clientelismos? Que importa que a isto outros chamem ditadura se ao madeirense é a democracia que melhor lhe convém? Pois paga-se tal preço para que não lhes roubem os bolsos, que esses que roubam são cubanos do lado de lá do mar, que a Madeira até vai mal e sem dinheiro que a culpa é deles e não do madeirense. Que importa se o País não deve temer ladrões, pois porque há-de temer ladrões um país que já não tem nada que roubar? Ora não senhor! O que importa ao madeirense é que lhe deixem o bolso quieto que a sexta-feira chega sempre e fim-de-semana é tempo de gastar e haja dinheiro para ser gastado sem que ninguém o faça desaparecer. Que depois segue-se a segunda onde enfiado nos bancos de autocarro lá vai o madeirense no canto culpando o cubano e afirmando a verdade máxima e última que tudo vai mal.

Isto o que Portugal precisa, e o madeirense já descobriu, é de António de Oliveira Salazar que esteve lá quarenta e poucos anos e nunca roubou tostão que fosse. Esse sim havia de guiar os destinos da gloriosa democracia lusitana a belo porto!

quarta-feira, setembro 03, 2008

Digo-te: anseio!

Para Sara Guia d'Abreu

(Procuro uma posição na cadeira para escrever. Vou escrever rápido para que as palavras não se percam. A tua música corre no computador: "Un jour triste". Eu começo)

Amanhã será dia, como hoje foi. E não será como o hoje, nem como o amanhã do amanhã. Será dia como terá de ser. Cada dia com suas palavras novas de dizer e de calar.

Digo-te: da minha janela vê-se o mar e na ilha a noite chegará em duas horas. Há nuvens e não há sol. Amanhã haverá sol? Quem sabe se na minha janela amanhã haverá palavras para que eu me debruce no parapeito e diga "Hoje é um dia de sol!"

Tenho o corpo deitado sobre a cama. Tapei a janela com os taipais da janela. É de tarde porque em mim, enquanto escrevo, já é amanhã. É amanhã como digo e estou deitado, de tapais tapados, tapando a janela. Entra uma luz fina porque as cortinas são finas como a luz. Eu estou parado na cama, de corpo para cima e a luz enche-me. Estou a criar palavras.

De onde as palavras nascem é algo que não posso dizer: se da luz que amanhã me virá ao quarto se da música que corre agora, hoje, pelo computador e por mim. Não estou ligado à máquina, mas à música e talvez da música às palavras.

Digo-te hoje, julgando que é a tarde de amanhã: palavras de ser adolescente e estender o corpo no relvado do liceu; e medo do teste que vem; e o primeiro copo e a primeira noite; e confissões e risos; e tantas coisas de ser feliz e triste ao mesmo tempo; e digo tempo de conhecer e saber; tempo de amar e de criar. E lembro com saudade e sem mágoa palavras de ontem que não voltarão a ser hoje nem amanhã, nem mesmo no amanhã do amanhã.

Lembro-as hoje, sentado ao computador com medo que fujam, ou deitado amanhã à tarde sobre a cama. E seja onde for estico o braço e tu estás lá, porque são palavras de dizer que te amo e que me lembro.

segunda-feira, agosto 11, 2008

Deambulante na cidade ou Verbos que me vêm só por pensar em Lisboa enquanto é tarde

Diz-me um fado, um canto lento. Uma história do quotidiano. Quantas janelas tem Alfama enquanto o sol se põe? Umas abrem-se, outras fecham-se.

Ruas de Lisboa onde as perdesse, por elas ande perdidamente em busca de algo que chega até ao Tejo.

Cidade, mulher, como se fosse vida, como se fosse coisa com alma. Breve jóia, breve espanto de passar momentos duma tarde olhando-te do jardim do Príncipe Real.

Chãos de Belém, além o rio. Mar de casório com cheiro próximo de sardinhas a assar na brasa.

Escadarias de Lisboa onde diga Santos, Graça, Alcântara, Chiado. Para onde nos levam quando já nem os passos nos guiam? Eis janelas que se abrem enquanto passo pelos passeios estreitos da cidade. Cada janela é uma pequena vida. Quantas hão de passar ainda pelo caminho?

Lisboa sem noite, só em luz, possa eu dormir enquanto me velas. Quieto e manso, de mansinho conta-me histórias de vidas que há dentro de cada varanda da Mouraria.

E diz-me um fado, calmo e não calado, essa coisa lusa que vem de dentro e que aperta mais nos terraços da cidade quando a noite caí e traz essa outra luz.

quarta-feira, agosto 06, 2008

Canção do amor triste ou Versos de quem não soube amar

Rasgar-te-ei teu vestido, Raquel,

Hei-de rasgá-lo com força e fúria.


E agora minhas mãos sobre teus seios

E agora teus gritos que sufoco

E agora tua alma que se rasga

Nas mãos da minha.


Rasgar-te-ei teu vestido, Raquel,

Para que minhas mãos sejam d'homem

Enquanto to devassam

Para que minhas pernas sejam d'homem

Enquanto t'entrelaçam

Para que minha alma seja minha

Assim como perdes dentro de mim a tua.


Rasgar-te-ei teu vestido Raquel,

Sem medos, sem dores, nem culpas.

E sem suavidade, direi suavemente,

Enquanto soluças,

Amo-te!

segunda-feira, julho 28, 2008

Segundo Tríptico Barroco

A Pedro Palma Baracho.


NATUREZA MORTA COM LIMÕES, LARANJAS E ROMÃS



-Não sei, mas acho que temos que mandar isto para a Asae!


PIERROT



-É a minha roupa para atravessar as cheias de Loures.


RETRATO DE MESTRE PEPJIN



-Sim, guardo-a aqui junto ao peito. Assim, não andam cá carteiristas.








domingo, julho 20, 2008

Esboço de Laura ou Escrita breve em "andante furioso"

Para Ana Garcia com carinho, paixão, orgulho e fúria.

A sala era escura. A sala era escura e isso irritava-o. Guardava um medo infantil do escuro, com lugar para monstros e papões, e isso deixava-o mal-disposto. Batia furiosamente com a caneta no apoio de madeira onde tinhas os papéis em branco. Era bom que tudo aquilo acabasse depressa.

Letícia, não era excessivamente alta e decididamente não era excessivamente bela. Era mesmo difícil confessar que tivesse alguma beleza além da vulgaridade daqueles que por um acaso não nasceram feios. Tinha um aspecto vulgar, uma estatura vulgar e um nome vulgar. Escolhera uma música vulgar.

Entrou no palco decidida como quem retoma uma velha posição deixada há muitos anos, ou na verdade uma antecipação disso: reclamava um velho lugar que era seu há muitos anos, mas que por algum acaso nunca tomara. Letícia começou a dançar quando se ouviu a música. Envolvia o corpo em gestos compassados e rítmicos num estudo acertado de expressão e técnica. Gabriel restava para ali, meio alheio a tudo, olhando uma rapariga vulgar, com um corpo vulgar, dançando uma música vulgar. Quando terá ele reparado que ela não dançava de maneira vulgar?

O corpo de Letícia subia de ritmo, como um termómetro em que o mercúrio ameaça explodir. Vinha-lhe de dentro para fora, como se de repente mãos e pés e pernas e braços e ancas e coxas fossem as formas naturais de revelar palavras ocultas, palavras de dizer senão com o corpo. Gabriel deu por si dentro daquele emaranhado de coisas em que o corpo de Letícia se transformava numa rapidez extra-temporal. Letícia era em si uma revelação de algo.

E tomou a caneta e começou a escrever com fúria sobre o papel branco. Acertava cada compasso pelo corpo dela e cada palavra correspondia assim a um gesto.

Laura era branca, como um nevão irremediável que submerge tudo. (risco) afoga tudo. Laura passeando entre as gentes como se fosse (risco) fora invisível.

Letícia agitava-se no palco ao som duma música que já não existia. Como poderia haver música, onde não havia qualquer som? Letícia já nem era a própria Letícia. Era algo exterior a si mesma. Era um corpo que se estende e contrái em gestos que eram como imensos significantes vazios de significados. E esse vazio transbordava da caneta para a folha de papel com a vontade furiosa de escrever, sem que também isso se concebesse em significado algum. Letícia agitava-se em literatura. Era como se urgisse comê-la de um trago e tirar-lhe tudo o que ela oferecia dar.

Laura e Tristão sobre o barco. Laura preparando as amarguras de outras vidas. Laura alheia a si mesma, como se fora duas Lauras.

E a sala já não era escura agora, e ele não queria que isto acabasse. Oh, que não acabasse nunca! Como se Letícia, sem ser já Letícia, fosse a fonte última de inspiração. Como se o corpo de Letícia fosse despersonalizado de toda a personalidade para poder construir esse outro corpo e essa outra pessoa, tão irreais como tudo aquilo, que era essa atormentante Laura, ansiosa e ociosa por nascer. Paria em frases soltas, sem tempo nem espaço, num espaço onde ele era alheio a tudo.

Ouviu num assombro que não se ouvia mais música. Letícia estava parada no palco, de novo Letícia, olhando-o de frente. Ainda assim, não mais poderia ser essa outra Letícia, ainda tão vulgar, ainda tão comum. Laura ali estava, escrita em frases dispersas, tão real em carne e osso como esse corpo dançante a que chamava Letícia.

Olhou o papel nas mãos e a rapariga no palco. Suspirou como quem se entrega à fraqueza.
- Mais uma vez, só mais uma vez, pediu.

Letícia agitou-se no palco. Instantes depois já ele não ouvia a música que tocava.

sábado, julho 12, 2008

Palavras, onde as busque? ou Incursão nocturna na busca contínua das palavras por que anseio

Diz-me onde há palavras que as busque.

Para que por um instante nunca mais seja dia e eu perca todas as minhas noites como se uma única fora em folhas e folhas de papel.

E lentamente, quase como se não me mexesse, a um mesmo tempo morra e renasça soterrado e erguido em palavras que eu tenha escrito em sítios onde as buscasse.