sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Caleidoscópio

Fujo a cada impulso criador. Às vezes, por exemplo, estou parado em algum sítio... imagina a esplanada dum shopping dum subúrbio de Lisboa. Estou sentado, é Inverno, e apesar do frio o sol é quente que chegue para me espreguiçar na cadeira e lamentar não haver espreguiçadeiras. À minha frente há o barulho forte da auto-estrada que é o barulho mais lindo deste tempo. Tudo devia ser como a auto-estrada: veloz, moderno, eficiente e sem possibilidade de voltar atrás. Depois é assim, vês? Começo logo a divagar. A pensar muitas coisas. Quando estou sozinho penso porque acho que é o que as pessoas fazem quando estão sozinhas.

Mas voltemos ao assunto! Não, não vou fazer literatura agora se não a fiz antes.

Eu estou sentado. O mundo moderno está aberto à minha frente. Já falei da auto-estrada. Mas há betão por todo o lado. Muitos prédios onde vivem muitas pessoas em muitas casas. Foram todas equipadas no Ikea ou na Moviflor. É só uma questão de datas. Tudo é novo. O mundo moderno só existe a sério nos subúrbios onde não existem centros históricos. Foram deitados abaixo para construir eficientes repartições de finanças. Aquilo que o sociólogo da Câmara não deixou enfiar no entulho está no museu municipal ou à porta duma biblioteca da zona (quando há alguma).

Mas vês como me perco? Divagação outra vez!

Vou resumir os factos: é Inverno, mas o sol é quente e eu estou sentado na esplanada dum shopping suburbano com o mundo moderno à minha frente. Tudo o que eu disse antes cabe aqui: sem fazer literatura!

Conquanto esteja atento a tudo isto (repara como é elegante a palavra conquanto) há uns miúdos do liceu a conversar. Há aqui muitos miúdos do liceu porque são apenas 3h da tarde. Ali, naquela mesa, são dez: contei-os. Agora levantaram-se. Agora não há quase ninguém. Eu e uma senhora ali ao fundo sentada noutra mesa a falar ao telemóvel. Ela não tem o mundo moderno à sua frente, mas compõe a visão que eu tenho do mundo moderno.

É no meio disto tudo que tenho vontade de escrever. Nada disto cabia nas páginas dum romance. Um subúrbio, miúdos do liceu no shopping, a senhora a falar ao telemóvel. Depois penso que podia ter lugar num blogue. Num desses blogues que os tipos como eu têm, os tipos que querem escrever. Esses que os tipos como tu, os que escrevem mesmo, acham risível. Só acham risível porque é uma maneira literariamente polida de dizer digno de dó. É que "digno de dó", apesar da aliteração, não é nada polido. Não é nada digno de ser literário.

É isto mesmo, vês? É sempre assim! Penso em escrever. Mas depois penso no que é escrever: em tudo o que isso quer dizer, entendes? As implicações que tem. Escrever não é para um tipo numa esplanada dum shopping suburbano a falar de auto-estradas. Deve falar da vida. De pessoas. De complexidades. Deve ser uma coisa feita, construída. Olha, maquinada, que é mesmo a palavra ideal. Então não escrevo. Não escrevo mesmo. Recuso-me! A sério. Digo para mim "Não tires daí o caderno. Não escrevas. Não consegues. Escrever não é para tipos como tu. É para tipos mesmo bons que sabem o que fazem."

Nunca falei disto a ninguém. É paralisante, sabes? Tenho estórias na minha cabeça. É tão absurdo que narro para mim certos episódios porque passo. Narro-os como se estivessem escritos num livro escrito por mim. Mas eu posso lá escrever livros. Ou blogues. Ou coisas num caderno preto que se leva na mala.

Não escrevo, é como te disse. Fico muito tempo parado ao sol. A vontade passa. Com o tempo fica mais fácil. Eduquei-me bem. Agora já nem sinto vontade de escrever.

Fico sentado a pensar em muitas coisas como fazem todas as pessoas quando estão sozinhas.

terça-feira, janeiro 19, 2010

O estado da Arte

A arte não pode ser limitada por algo tão reles como as pessoas. As pessoas são apenas cobaias da arte. A grandeza de tudo o que sentem não é senão acessório para a grandeza de tudo o que escrevo.

Outros diriam que sou desprezível. Mas o que dizem tem a importância limitada da matéria bruta para que depois eu a escreva. Se tivesse moral era um cínico. A moral serve para pôr em bons livros e dá boas tramas. Eu não tenho moral e assim tenho todas e consigo escrevê-las. Sou vazio de tudo para que tudo de desprezível que acontece às pequenas pessoas à minha volta me encha e preencha as páginas quintessências que escrevo.

terça-feira, dezembro 29, 2009

Os odores de Samarcanda ou Viagem Oriental através dum livro

De Samarcanda guarda o cheiro do bazar. A luz reflecte levemente nas pedras de âmbar dispostas nos tabuleiros de quase todas as bancas. A cidade confude-se com ruídos que te confundem. Confia apenas no teu cheiro e nada mais. O Verde é apenas uma miragem dos ricos jardins além-muros, nos palácios inacessíveis do Oriente. Não percas tempo com eles. As casas são de tijolo cru e batido e ainda cheiram a terra e a poeira. Era assim há mil anos como é hoje. Se buscas cor, confia de novo no cheiro e vai até à mesquita. Admira agora os ricos azulejos da sua porta e do alto do seu minarete. Encosta o nariz a um deles e sente. Sente agora o cheiro dos anos, do tempo, o cheiro do corpo de centenas de homens em oração em mistura com o barro cozido num fogo demasiado alto. É o fogo que queima o barro e os homens de fé que rezam. Escolhe agora uma rua tortuosa. Atravessa as casas e ligeiramente olha para o seu interior. Uma casa cheira sempre a comida e a lume. A lume brando e calmo. Que ouvirás dentro das casas? Risos, queixas, gritos, carícias, prazeres. As casas de Samarcanda são como todas as casas do mundo onde moram pessoas. Que há de diferente nas pessoas de Samarcanda em relação com as pessoas do mundo? Descobre nelas o cheiro da Pérsia. Não desta Pérsia de agora. Dessa que dorme um sono no coração dessas pessoas. Aproxima-te do coração dum habitante de Samarcanda e cheira-o. Encontrarás aí tapetes voadores, abóbadas douradas, turbantes e espadas curvas. Ali dorme o país encantado, no coração batente de cada cidadão de Samarcanda.
Depois, lembra-te apenas do cheiro, nada além do cheiro, e que ele te guie sem destino pelo labirinto das ruas de casas sempre iguais, pelo labirinto de rostos sempre iguais até chegares a um sítio que só o cheiro sabe onde é.

Experimentação em trilhadas trincheiras

Sigo o trilho desta trilha
Com minh'alma trilhada em coisas d'alma
Entrincheirada em trincheiras tão trincadas
Que até trincar o pão duro é difícil
Enquanto sigo o trilho desta trilha
Que me leva ao nada.

Poema dum dia de chuva ou Evocação bucólica

Digamos um poema de sala e de luz.
As palavras constroem-se como se chamadas a isso.

Tudo é natural e bom como um dia de Inverno com muita chuva.
Ao redor da minha janela deito-me a imaginar prados verdes.
Que há de bom em imaginar prados verdes num dia de chuva
E céu cinzento?
Absolutamente nada a não ser o prazer de imaginar prados verdes em que a chuva
Molha e acorda o cheiro a terra.
Imagino depois que dou uma grande golfada e o cheiro da terra molhada
Invade-me as narinas brutalmente.

Enquanto, estou na sala
E o poema conta estórias de luz e de outras coisas que não se podem ver
A não ser que as imaginemos.
A sala é todo um mundo-
Do poema, de nós mesmos e das coisas infinitas que temos dentro de nós mesmos.

Agora, entre a luz e a sala fecho os olhos,
Fecho os olhos muito devagar, devagarinho, para guardar dentro de mim
Luzes, salas e tantas, tantas coisas.
E adormeço. E sonhando vou até aos prados verdes que imagino e agora sonho
Onde um dia de chuva faz com que cheire muito a terra molhada.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Tarde alexandrina ou O Velho Criador da(s) Palavra(s)

Em Alexandria certa tarde encontrei um homem numa esquina. Não representa qualquer dificuldade encontrar um homem numa esquina numa tarde de calor em Alexandria. Descrevê-lo é desnecessário: era um homem velho igual a todos os homens velhos de Alexandria que em si são todos iguais. Não me tivesse falado teria passado por ele na busca duma sombra melhor. Mas falou-me. Adoptava um ar grave quando falava. Tinha uma voz encantadoramente pausada e cada sílaba era dita como um acto religioso. Ainda que não entendesse o que dizia (tinha um árabe demasiado dialético para mim) ouvi-lo era mágico. Cada palavra era todo a possibilidade de ser todas as palavras ao mesmo tempo. A partir de certo momento deixei de tentar descortinar sentidos ou sequer de os imaginar. As palavras diziam-se na sua boca e isso era o bastante para mim. E nos minutos em que o ouvi aquele velho foi Deus para mim, Javé num tempo ancestral criando o Mundo em que a Palavra era em si a Essência.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

Vista do mar sobre a janela da casa branca

Não esqueças as palavras da casa branca-
Seus sentidos amargos e doces
Como as frutas da árvore que grande
Cresce no quintal.

Não esqueças os segredos espalhados
Em cada esquina, em cada canto
Palavras encantadas de dizer dia, manhã e sol.

Não esqueças os cheiros prenhes de palavras
Ainda por nascer,
De sensações indescritíveis.

Não esqueças o não dizer do silêncio,
A vista certa do mar numa tarde debruçado
Na janela
E todas as coisas possíveis de construir
No instante exacto em que cada palavra te sai da boca.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

A casa antiga

Na esquina das escadas com a porta envidraçada da livraria- aí é onde o cheiro da casa é mais forte.

Pequenas aranhas tecem um labor ao longo das paredes. Tudo é interior e bom.

A casa está carregada das recordações de todas as infâncias.

terça-feira, novembro 17, 2009

Jogo parco

Deus do mar,

construo hoje a casa onde hei-de nascer nesse dia que tu sabes.

Servirá de Babilónia ou Atenas e serão apenas alguns livros como mobília.

Tempo da memória para construir um corpo novo.



As Parcas jogam os dados no pateo exactamente quadrado.

Parole

Não digas nenhuma palavra. Não é tempo delas.

Não há tempo delas.

As palavras vivem melhor se não existerem nas nossas bocas,

Mas apenas onde as fabricamos.

domingo, outubro 18, 2009

Crónica de grande revolta ou Último apelo àquele que se esqueceu

Lento reajustar das placas tectónicas, novo decifrar de novas línguas. Criar um mundo agora de barro fundido, esperado mais forte, deixando outros ventos para trás.

Que nada se faça, contudo, assim- como eu me quedo agora: em fúria, em raiva e tanta mágoa. Porque de tudo o que dissemos já não te sinto, e em tudo o que fizemos já não te encontro. Esqueceste-me numa das curvas. E deixaste que o tempo arrastado rompesse o que antes havia.

Que nada se crie assim. Os deuses, por fim, far-me-ão dormir. E do sono virá nova manhã. Nessa manhã possa ser mais do que sou agora. E mesmo que lá não estejas possa haver um sentido de real em cada coisa que será criada.

segunda-feira, outubro 12, 2009

Ânsia

E se numa palavra te pudesse dizer diria mais que saudade, embora por vezes ausência. Mas se ainda assim fosse só uma, diria: Anseio!

sábado, outubro 10, 2009

De uma videira outonal

De quantos frutos nascem nas árvores, do número de todos não bastaria para esboçar de quanto te sinto a falta.

quinta-feira, outubro 08, 2009

Carta a um dia fascinado de Verão ou Langor d'Infância

Quero outra vez um dia de Verão. Entenda-se que não peço um dia de sol, mas sim que quero um dia de Verão.



Nos dias de Verão é mais fácil escrever: tudo é mais luminoso e tem mais vida. Podemos falar de uma cadeira de vime no alpendre e de uma almofada fofa no assento. Verde com riscas laranjas e contornos azuis. Assim, exagerada de cor. São três da tarde e o sol bate levemente por sobre o caramanchão que me dá sombra. Uma estrutura simples coberta pelo maracujaleiro em flor. Cheira! E como cheira. Três da tarde é a hora dos gatos e dos segredos. Já é insuportavelmente tarde para o almoço dum dia comum e infinitamente longe de uma hora boa para o chá. É uma hora que não existe. Na casa alguém dorme a sesta num dos quartos com as quatro paredes altas. Os tectos finamente decorados a estuque são como antigos mobiles ou clepsidras que nos fazem adormecer. Contando que nos viremos algumas vezes na cama. Podia estar a escrever, agora que estou no jardim, sentado numa cadeira de vime com uma almofada colorida por assento. Enquanto, prefiro pensar numa sesta não demasiado tranquila no quarto do fundo. O quarto do fundo é grande e branco e tem um tecto como um clepsidra como os outros quartos da casa. Mas não é isso que me atrai. Numa proporção certa a cama enfrenta a janela cuja vista se joga sobre a cidade. Continua depois no mar. Bastaria agora que me levantasse, que pisasse com os pés nús o chão morno de cantaria. Em jeito manso subiria as escadas para encontrar num instante a porta envidraçada da biblioteca. Agora caminhar no longo corredor dum silêncio impossível, feito de velha madeira rangente. A mão poisada sobre a maçaneta, rodando-a num gesto de pulso. De seguida fecho a porta e corro também as cortinas. Às três da tarde todas as luzes devem ser a meia luz. O corpo descansado sobre a cama. O tecto em clepsidra e as paredes altas e brancas e o sol por entre as cortinas leves. Meia-luz com a alma a meio-gás como se meio adormecida. E agora estou sentado na cadeira do jardim a pensar que poderia estar deitado na cama do quarto do fundo. Aí imaginaria o turpor das quatro da tarde, quando nem por um instante houvesse silêncios. As crianças a descer velozmente as escadas, aos tropeções ligeiros; o jardim muito cheio; alguém a por a mesa do lanche. E tudo isto como um preparar lento do funeral duma tarde de verão que se fecha com o ritual do chá servido quente pelas cinco.

Hoje Outubro quase vira Outono. Há ainda resistências do sol e sobretudo da luz. Agora na janela frente à estação de comboios felizes e também velozes penso- no corpo sentado na cadeira no jardim, pensando no corpo deitado na cama do quarto, imaginando a agitação que virá para preparar o final de mais uma coisa que começa. Onde estarei eu pelo mês de Agosto?

quarta-feira, outubro 07, 2009

Palas Ateneia de Rembrandt

I

Quero olhar sem nunca pestanejar até que me sequem os olhos.

(Há que começar com uma frase forte, que marque o leitor e o arrepie. O afastamento da estética pela estética produz o pensamento do leitor).

A intensidade do quadro, nas suas manchas de vermelho sangue vivo, contrastavam fortemente com o ar plácido do rapaz hermafrodito. Como se a inocência fosse arrancada num traje militar.

(Ainda o choque. Tentar ouvir o sofrimento do leitor. Jogar-lhe com manchas de tinta para cima e vê-lo sacudir-se como se salpicado de sangue).

A lança decorativa resta-lhe na mão. Na cabeça a coruja ilumina a sua sabedoria. Estranho jogo o da guerra e o do saber. Onde há um não devia haver o outro.

(Agora apela-se ao sentimento de justiça. Que o leitor sinta, e mais que isso saiba, que o que lê é boa literatura do seu tempo: cheia de ideias e valores, pronta a corrigir e carregar nos erros do passado).


II

Teria sido, certamente, capaz de restar ali por horas até que me secassem os olhos. Não, tanto não! estou ali para ver, ver sempre. Não para deixar de ver.
Queria saber se as manchas de tecido encarnado sobre a armadura dourada têm especial significado. A verdade é que não sei nada de arte. Estou aqui porque gosto de estar aqui. A estética leiga do olhar distante deste rapaz efeminado bastou para que me sentasse a vê-lo. Há outras coisas, mas são para a hora dos segredos. Em geral, a minha opinião é completamente leiga: gosto porque gosto, é há bastante que me chegue nesse gostar.

Sentado, de pé, de lado e por vezes mesmo com coragem para ser de frente olho o quadro. Depois do tempo desço as escadas depressa. Corro os placares um a um com uma calma rápida e mais que isso sedenta. Lá está! Por €3 trago-o para casa. Agora é só meu, como é de todos os outros que o pagam, compram e visitam. Olho-o com um enamoramento recém descoberto. Começo um namoro secreto com o quadro.

sábado, outubro 03, 2009

Cliché de uma folha em branco

De dizer clichés
Como a folha branca dum papel
E a angústia que provoca:

Tentemos então metáforas sobre os rios
E a espuma branca
Das ondas fortes que rebentam contra as rochas
Como línguas lambonas.

Ou então pensar numa família
E fazer uma poesia vulgar- quotidiana mas modernaça
Falar de cervejas e futebol
E de pais gordos com correntes de ouro
E de mães meio tristes de bata gordurenta.

É bom em cliché
Falar-se do sorriso duma criança
Encontros e relações de luz e riso
E encanto
Que uma criança é fácil de encantar
Seja quem for, ainda mais num poema assim cliché
Como este aqui.

E tantas coisas, que num cliché cabe tudo
Nem falo em falar-se de amor.
Não acabava hoje este poema.

Mas há ainda a folha em branco
E por mais cliché que isso seja
O terror de estar por dentro em branco assombra-me mais
Que todas as outras coisas.

domingo, setembro 20, 2009

Mel

O espaço de cada letra invade-me violentamente e cada poro do corpo é agora conspurcado como por um mel doce que chegue.

domingo, agosto 30, 2009

Quando uma revolução tem dois lados

Lembro Cecília com certa exactidão. O queixo caído, os olhos também, o cotovelo agudamente apoiado à mesa, a mão aberta segurando a cara toda. Parecia esperar algo de indecifrável. Nunca olhava para mim, mas às vezes olhava Ângela pelo canto do olho. Ângela Carneiro de Albuquerque era uma brasileira cinquentona divertida que tinha sempre ar de quem tinha tomado sol a mais. Lembro-me de Cecília dizer :" Não a achas tão divertida, tão solta. É uma água de côco!"

Cecília gostava de água de côco quando passeávamos pelo Leblon perto das três da tarde quando o calor era ligeiramente insuportável. A sua blusa, sempre de cor clara, virava transparente e colava às costas. Ainda que a mim me impressionasse a Cecília parecia não mexer com ela. Era bom assim, era legal! Cecília era mais tranquila nesses anos. Vestia-se como as actrizes de "Dancin´Days" e gostava de drinks e boites. Tínhamos amigos na Barra que visitávamos aos Domingos e às vezes recebíamos na nossa cobertura. Cecília já dizia a palavra arrastada e com todas as vogais fortemente pronunciadas ao gosto brasileiro. Se foi feliz é raro eu saber, mas gostava daquela vida, eu acho.

Lembro Cecília naquela tarde. O avião tardava por demais. Três horas de atraso! E Cecília esperando algo mais que o avião. Nunca soube o que esperava. Ângela ria, contando estórias alegres da nossa última estadia em Búzios. (Ângela tinha uma casa lá que às vezes emprestava para a gente). O mar de Búzios é inesquecível, mas não era por isso que Cecília aguardava tão abstraídamente. Não era, tenho a certeza. Seu corpo colado ao vestido de linho branco, o grande casaco de peles apoiado no carrinho do aeroporto.

Sei lá quanto tempo passou desde que me perdi olhando Cecília até que ela despertou com a voz da aero-moça chamando para o nosso voo. Lembro com certa exactidão: era o dia três de Dezembro de 1982. Nosso voo foi longo mas passou por nós voando. Cecília estava cansada de ter esperado tanto. Como tinha ficado à espera por mais do que o avião estava visivelmente mais cansada que todos nós. O avião aterrou em Lisboa. Fazia pouco menos de sete anos que não estávamos na nossa terra, terra que o pai de Cecília lembrava saudoso chamando "Nossa Pátria". Chegados à nossa pátria lembro Cecília levantando sonolenta da cadeira do avião, eu colocando o casaco em seus ombros magros. Enquanto descíamos a escada nossos corpos foram os primeiros a saber que tínhamos verdadeiramente chegado: estavam 6 graus! Cecília, que não falava desde o Rio, apertou minha mão cravando as unhas ligeiramente na palma e falou quase como quem berra "Acordei António, não queria, mas acordei!"

domingo, agosto 16, 2009

Em estado

Tudo era bom como ter certezas e algo em mim evitava a saudade.

Tarde de Domingo

Suspirar de prazer numa tarde de Domingo. Vivo das pequenas coisas.

Carícias.

Queijos.

Vinho Verde.

Deixo-me e vagueio com alguma constância. Agora pelo corpo, depois pela mente, quase sempre pelos dois ao mesmo tempo.