segunda-feira, junho 28, 2010
Tamina
A princesa da Cidade Santa mora por detrás dos seus véus. Sua pele palmada do Verão quente não sua ou transpira. Cada tatuagem do corpo é como um pomo de Deus. Respira o dia anseado do príncipe da Pérsia por buscá-la.
quinta-feira, junho 03, 2010
Solar
Como gesto novo
Assim aparece
O Poema
Sua coisa de espanto e calma
Como rio tranquilo de Verão
Um caudal langoroso
Imperceptível teia de Penélope
De dedos fiados demasiado finos
Para que se lhes possa seguir
Como um encontro do mar
Aqui minha alma repousará
Sou-me que me chegue
Debaixo da oliveira
Assim vem-me a musa
Seu sussurro inescutável
Em perseguindo
Aqui está a mais feliz tormenta
Assim aparece
O Poema
Sua coisa de espanto e calma
Como rio tranquilo de Verão
Um caudal langoroso
Imperceptível teia de Penélope
De dedos fiados demasiado finos
Para que se lhes possa seguir
Como um encontro do mar
Aqui minha alma repousará
Sou-me que me chegue
Debaixo da oliveira
Assim vem-me a musa
Seu sussurro inescutável
Em perseguindo
Aqui está a mais feliz tormenta
Poesias de Verão
As linhas do poema na noite quente de Verão.
O livro pousado na mão é como um gesto de espanto.
*
Os bois de Samarcanda lavram a terra estéril.
Em cada esquina um deus se levanta como um pomo dourado.
*
Gentil é o cheiro a cardamomo na manhã inicial.
O corpo do meu amado existe entre todas as coisas.
*
Como Sekhmet a leoa estende o corpo.
Os gatos dançam sua dança das três da tarde.
*
Impregnada, resta a casa com o cheiro das romãs.
O meu peito está imperturbável nos vidros da livraria.
sexta-feira, maio 28, 2010
Da Lua Nova sobre uma música que Daniela cantava
Para D., enquanto ouvia as suas músicas.
Olha, meu amor
Hoje vem a Lua Nova.
Namorámos a cidade
Lento a lento
Comendo o prazer de cada rua
Como a ambrósia irrepetível
Dos deuses.
Do Olimpo algumas cores
Como um quadro que pintaras
Lá longe
Quando os dias eram outros.
Deste se dirá rosa,
Daquele branco e daqueloutro amarelo.
São as janelas da cidade, meu amor.
Mas eis que vem a Lua Nova!
Meu corpo apartado do teu
Escuta ainda a tua voz
ao longe
não distante
Como canto de matar
Saudade.
Como canto de dizeres-
"Hoje-me aqui, meu amor.
Não me vês, mas ouves-me.
Ouves como canto para ti nas
Noites diurnas da cidade.
Até mesmo nesta em que hoje
É Lua Nova."
Fora eu de novo menino
Assim, como era no mar da infância
E de rir e de brincar
E de jogar as pedras e as palminhas
Cantavas para mim, meu amor?
Cantavas para mim ainda que
Fora menino
E sendo a Lua Nova tivera medo do
Papão?
Dizes-
"De nos sonhos
Nada se tem medo.
Estão nos sonhos as máquinas para fazer o mundo
E eu estou sempre nos sonhos
Para que possas encontrar-me."
Eu pergunto:
Mesmo hoje que é a Lua Nova
Sonhamos juntos, meu amor?
"Sim, mesmo hoje que é a Lua Nova
Sonhamos juntos, meu amor."
(E dizes-me ainda:)
"Ouve agora como quando me vês
Perto do gradeamento
Chorando à paisagem idílica da cidade.
Ouve agora dos poemas brancos
Que te canto
Sente-me perto
Sempre perto
Porque agora,
no fim das palavras que se dizem,
Aqui
onde o silêncio começa,
Já quase não há a Lua Nova.
Olha, meu amor
Hoje vem a Lua Nova.
Namorámos a cidade
Lento a lento
Comendo o prazer de cada rua
Como a ambrósia irrepetível
Dos deuses.
Do Olimpo algumas cores
Como um quadro que pintaras
Lá longe
Quando os dias eram outros.
Deste se dirá rosa,
Daquele branco e daqueloutro amarelo.
São as janelas da cidade, meu amor.
Mas eis que vem a Lua Nova!
Meu corpo apartado do teu
Escuta ainda a tua voz
ao longe
não distante
Como canto de matar
Saudade.
Como canto de dizeres-
"Hoje-me aqui, meu amor.
Não me vês, mas ouves-me.
Ouves como canto para ti nas
Noites diurnas da cidade.
Até mesmo nesta em que hoje
É Lua Nova."
Fora eu de novo menino
Assim, como era no mar da infância
E de rir e de brincar
E de jogar as pedras e as palminhas
Cantavas para mim, meu amor?
Cantavas para mim ainda que
Fora menino
E sendo a Lua Nova tivera medo do
Papão?
Dizes-
"De nos sonhos
Nada se tem medo.
Estão nos sonhos as máquinas para fazer o mundo
E eu estou sempre nos sonhos
Para que possas encontrar-me."
Eu pergunto:
Mesmo hoje que é a Lua Nova
Sonhamos juntos, meu amor?
"Sim, mesmo hoje que é a Lua Nova
Sonhamos juntos, meu amor."
(E dizes-me ainda:)
"Ouve agora como quando me vês
Perto do gradeamento
Chorando à paisagem idílica da cidade.
Ouve agora dos poemas brancos
Que te canto
Sente-me perto
Sempre perto
Porque agora,
no fim das palavras que se dizem,
Aqui
onde o silêncio começa,
Já quase não há a Lua Nova.
sábado, maio 22, 2010
Do choro, lágrimas
Tivera hoje como uma vontade de chorar.
Não que houvesse razão, mas assim se dera.
Chorava, pois.
De manso, choro conjugado.
De mim para mim pensava-
Porque choro, ora?
De nada havia que pudesse dizer-
Eis esta a razão de chorar.
Mas chorava, chorei
Chorara já.
Não muito... pouco assim,
lágrimas escorregando lentas, quentes
Com a noite de verão insuportável.
O corpo como um vestido pegajoso
Pegando todos pedaços da pele
E elas escorrendo-
Lágrimas de contra-gosto sem nelas compreender
Razão.
Assim, de lágrimas
Vontade e escrita
Do choro virou poema
Virado nesta queda das palavras que aqui deixo
Como se nesta noite dissera-
Chorava com gosto de as escrever.
Não que houvesse razão, mas assim se dera.
Chorava, pois.
De manso, choro conjugado.
De mim para mim pensava-
Porque choro, ora?
De nada havia que pudesse dizer-
Eis esta a razão de chorar.
Mas chorava, chorei
Chorara já.
Não muito... pouco assim,
lágrimas escorregando lentas, quentes
Com a noite de verão insuportável.
O corpo como um vestido pegajoso
Pegando todos pedaços da pele
E elas escorrendo-
Lágrimas de contra-gosto sem nelas compreender
Razão.
Assim, de lágrimas
Vontade e escrita
Do choro virou poema
Virado nesta queda das palavras que aqui deixo
Como se nesta noite dissera-
Chorava com gosto de as escrever.
quinta-feira, abril 29, 2010
A Ponta-do-Sol
Há coisas que me povoam
Como se fora a sua casa.
As ruas da infância encontram por mim
Os seus caminhos.
Nunca um nostos
Nem saudade.
Gozo, prazer, riso
E essa memória perene de ser-se feliz à beira-mar.
Como o cheiro da sala
E dos retratos oblíquamente pendurados
Na parede
(outrora rosa e hoje amarela).
As crianças multiplicam-se até à infinidade dos dias,
Um infância continuada por cada criança
Do meu sangue.
A ilha, no fim do Caminho Novo.
Como mar e praia feita de ondas pedras amigos e memórias
Há hoje também a música d'ontem
Coisas mais antigas que velhas
("a avó tem as mãos pintalgadas como as bananas doces")
As suas unhas longas polidas
Enterradas no meu cabelo em anteriores caracóis
E uma rosa formosa
Ao embalar-me
Disto direi agora um caminho para casa-
Sem regresso ou retornamento.
Deixamos a nossa casa para irmos para a nossa casa.
A ilha é como se fora em mim uma casa de todas quantas coisas
Ela me traz
Recordando continuamente
A infância que se alarga pelos dias
Banhada no mar de pedras e ondas
Ao som da música antiga
Que cantam para mim as avós.
Como se fora a sua casa.
As ruas da infância encontram por mim
Os seus caminhos.
Nunca um nostos
Nem saudade.
Gozo, prazer, riso
E essa memória perene de ser-se feliz à beira-mar.
Como o cheiro da sala
E dos retratos oblíquamente pendurados
Na parede
(outrora rosa e hoje amarela).
As crianças multiplicam-se até à infinidade dos dias,
Um infância continuada por cada criança
Do meu sangue.
A ilha, no fim do Caminho Novo.
Como mar e praia feita de ondas pedras amigos e memórias
Há hoje também a música d'ontem
Coisas mais antigas que velhas
("a avó tem as mãos pintalgadas como as bananas doces")
As suas unhas longas polidas
Enterradas no meu cabelo em anteriores caracóis
E uma rosa formosa
Ao embalar-me
Disto direi agora um caminho para casa-
Sem regresso ou retornamento.
Deixamos a nossa casa para irmos para a nossa casa.
A ilha é como se fora em mim uma casa de todas quantas coisas
Ela me traz
Recordando continuamente
A infância que se alarga pelos dias
Banhada no mar de pedras e ondas
Ao som da música antiga
Que cantam para mim as avós.
quinta-feira, abril 15, 2010
Poema de Merlim, Morgana, Artur, Ginevra, Lancelot e da Senhora Igraine, sendo que do primeiro e última aqui não se consta
(ou mais simplesmente Poema dum dia sobre um pensamento hoje miticamente céltico)
Para I., de ascéticos passos druídicos, como prova de que também nasci do mesmo rio Oceano e mesmo entre a coluna dórica, sobre o pateo branco, conheço sua alma irascível de carvalho e onda.
Celebra-me a alma
Nos fogos de Beltane,
Um novo rei Artur
De mito e espada
Uma Camelot inteira
Feita de cartas
Construída de coisas
Paradoxalmente
Irremediavelmente
Sólidas porque assim efémeras.
De Morgana,
Por sobre o lago,
Aguarda o barco
O dia a hora
Da bruma certa
Descerrada
Como de nova Ginevra
Lancelot,
Beijos adúlteros
Novamente adúlteros
Uma outra vez adúlteros
Como um círculo perpétuo
Nas muralhas do castelo
Como um amor
Inefugível
Que nenhuma Excalibur
Poderá, por ora, cortar.
A magia dos elementos
Essenciais
Palavra e Terra
Seiva rasgada dos
Veios carnudos dos carvalhos
Druídicos
Também aqui
Espaço Casa Verbo
Novo sonho, mesmo mito
Como se continuamente
Continuadissimamente
Alguém conjugue em deleite
e como seu
o declinável
Refurjar.
Para I., de ascéticos passos druídicos, como prova de que também nasci do mesmo rio Oceano e mesmo entre a coluna dórica, sobre o pateo branco, conheço sua alma irascível de carvalho e onda.
Celebra-me a alma
Nos fogos de Beltane,
Um novo rei Artur
De mito e espada
Uma Camelot inteira
Feita de cartas
Construída de coisas
Paradoxalmente
Irremediavelmente
Sólidas porque assim efémeras.
De Morgana,
Por sobre o lago,
Aguarda o barco
O dia a hora
Da bruma certa
Descerrada
Como de nova Ginevra
Lancelot,
Beijos adúlteros
Novamente adúlteros
Uma outra vez adúlteros
Como um círculo perpétuo
Nas muralhas do castelo
Como um amor
Inefugível
Que nenhuma Excalibur
Poderá, por ora, cortar.
A magia dos elementos
Essenciais
Palavra e Terra
Seiva rasgada dos
Veios carnudos dos carvalhos
Druídicos
Também aqui
Espaço Casa Verbo
Novo sonho, mesmo mito
Como se continuamente
Continuadissimamente
Alguém conjugue em deleite
e como seu
o declinável
Refurjar.
quarta-feira, março 24, 2010
Das coisas ditas, palavras, da Terra
Da terra, pergunta o menino, "que há-de aqui ser?"
Tenha noite quando for noite
E riso em toda a hora boa de rir.
E crianças
Que criança é bom de ver crescer.
Mais água fresca e sombra d'árvore. E canto de alegrar as almas.
Quando o menino perguntar "e aqui que há-de ser?"
Então diz-lhe
"Aqui, como um nome, seja casa."
Tenha noite quando for noite
E riso em toda a hora boa de rir.
E crianças
Que criança é bom de ver crescer.
Mais água fresca e sombra d'árvore. E canto de alegrar as almas.
Quando o menino perguntar "e aqui que há-de ser?"
Então diz-lhe
"Aqui, como um nome, seja casa."
Do langor
Assim o corpo, assim a calma,
Assim o espanto das coisas.
E casa e pateo branco ondas mar e além.
Assim o dia, assim o sol,
Assim a luz.
Todas as coisas existem na claridade de si mesmas.
Assim o espanto das coisas.
E casa e pateo branco ondas mar e além.
Assim o dia, assim o sol,
Assim a luz.
Todas as coisas existem na claridade de si mesmas.
Espelho
O poema existe na meta do indizível.
Isto que agora lês
Não é tanto um poema como o reflexo de um poema.
Não sobre ti, mas sobre mim.
Fosse de facto um poema, como nunca poderá ser,
E seria um reflexo sobre as
Coisas.
Isto que agora lês
Não é tanto um poema como o reflexo de um poema.
Não sobre ti, mas sobre mim.
Fosse de facto um poema, como nunca poderá ser,
E seria um reflexo sobre as
Coisas.
Do espaço e centro das coisas nomeadas
Aqui o espaço do nome.
De cada coisa s'inventa de dentro
Para fora
Como chamada por
Palavra.
De todas as coisas- omnia nomina.
Círculo certo e arguto, de espaço preciso,
Que busca a criar
Coisas
Espantadas.
De cada coisa s'inventa de dentro
Para fora
Como chamada por
Palavra.
De todas as coisas- omnia nomina.
Círculo certo e arguto, de espaço preciso,
Que busca a criar
Coisas
Espantadas.
domingo, março 14, 2010
Verão
Quando era novo e havia dias de sol, descia sozinho até ao calhau. A vila era o espaço da primeira liberdade. Conhecia as escadas, os caminhos e entrava nas casas que deixavam as portas abertas. Quando chegava ao calhau estendia a toalha. Havia sempre alguém no calhau. Na vila todos se conhecem. O corpo ficava levemente estendido ao sol, salgado de banhos longos e ondas perfuradas. Tudo era tranquilo.
Ainda hoje procuro um estrado onde deitar a toalha e esticar o corpo ao sol no calhau. Olhar o mar que chega até às cidades e deixar-me ser feliz por ainda não lá estar. Hoje já não tenho a minha namoradinha dos sete anos e em muitas das casas as portas fecharam-se porque as pessoas morreram. Mas ainda há portas abertas por onde se pode entrar.
A ilha da Memória jaz eterna na Infância.
Ainda hoje procuro um estrado onde deitar a toalha e esticar o corpo ao sol no calhau. Olhar o mar que chega até às cidades e deixar-me ser feliz por ainda não lá estar. Hoje já não tenho a minha namoradinha dos sete anos e em muitas das casas as portas fecharam-se porque as pessoas morreram. Mas ainda há portas abertas por onde se pode entrar.
A ilha da Memória jaz eterna na Infância.
segunda-feira, fevereiro 22, 2010
(Sem título)
À mesa o pouco pão é terra podre
Das terras que choraram a noite inteira.
Hoje o mar corre para as ribeiras
E espalha em todo o canto
O perfume enjoativo dos mortos
Em espanto.
Tudo é interior e fechado.
Negritude.
Eis que as ruas da cidade voltam a ser em pedra bruta.
Algures no oceano a ilha da Memória jaz desfeita.
Das terras que choraram a noite inteira.
Hoje o mar corre para as ribeiras
E espalha em todo o canto
O perfume enjoativo dos mortos
Em espanto.
Tudo é interior e fechado.
Negritude.
Eis que as ruas da cidade voltam a ser em pedra bruta.
Algures no oceano a ilha da Memória jaz desfeita.
sexta-feira, fevereiro 05, 2010
Caleidoscópio
Fujo a cada impulso criador. Às vezes, por exemplo, estou parado em algum sítio... imagina a esplanada dum shopping dum subúrbio de Lisboa. Estou sentado, é Inverno, e apesar do frio o sol é quente que chegue para me espreguiçar na cadeira e lamentar não haver espreguiçadeiras. À minha frente há o barulho forte da auto-estrada que é o barulho mais lindo deste tempo. Tudo devia ser como a auto-estrada: veloz, moderno, eficiente e sem possibilidade de voltar atrás. Depois é assim, vês? Começo logo a divagar. A pensar muitas coisas. Quando estou sozinho penso porque acho que é o que as pessoas fazem quando estão sozinhas.
Mas voltemos ao assunto! Não, não vou fazer literatura agora se não a fiz antes.
Eu estou sentado. O mundo moderno está aberto à minha frente. Já falei da auto-estrada. Mas há betão por todo o lado. Muitos prédios onde vivem muitas pessoas em muitas casas. Foram todas equipadas no Ikea ou na Moviflor. É só uma questão de datas. Tudo é novo. O mundo moderno só existe a sério nos subúrbios onde não existem centros históricos. Foram deitados abaixo para construir eficientes repartições de finanças. Aquilo que o sociólogo da Câmara não deixou enfiar no entulho está no museu municipal ou à porta duma biblioteca da zona (quando há alguma).
Mas vês como me perco? Divagação outra vez!
Vou resumir os factos: é Inverno, mas o sol é quente e eu estou sentado na esplanada dum shopping suburbano com o mundo moderno à minha frente. Tudo o que eu disse antes cabe aqui: sem fazer literatura!
Conquanto esteja atento a tudo isto (repara como é elegante a palavra conquanto) há uns miúdos do liceu a conversar. Há aqui muitos miúdos do liceu porque são apenas 3h da tarde. Ali, naquela mesa, são dez: contei-os. Agora levantaram-se. Agora não há quase ninguém. Eu e uma senhora ali ao fundo sentada noutra mesa a falar ao telemóvel. Ela não tem o mundo moderno à sua frente, mas compõe a visão que eu tenho do mundo moderno.
É no meio disto tudo que tenho vontade de escrever. Nada disto cabia nas páginas dum romance. Um subúrbio, miúdos do liceu no shopping, a senhora a falar ao telemóvel. Depois penso que podia ter lugar num blogue. Num desses blogues que os tipos como eu têm, os tipos que querem escrever. Esses que os tipos como tu, os que escrevem mesmo, acham risível. Só acham risível porque é uma maneira literariamente polida de dizer digno de dó. É que "digno de dó", apesar da aliteração, não é nada polido. Não é nada digno de ser literário.
É isto mesmo, vês? É sempre assim! Penso em escrever. Mas depois penso no que é escrever: em tudo o que isso quer dizer, entendes? As implicações que tem. Escrever não é para um tipo numa esplanada dum shopping suburbano a falar de auto-estradas. Deve falar da vida. De pessoas. De complexidades. Deve ser uma coisa feita, construída. Olha, maquinada, que é mesmo a palavra ideal. Então não escrevo. Não escrevo mesmo. Recuso-me! A sério. Digo para mim "Não tires daí o caderno. Não escrevas. Não consegues. Escrever não é para tipos como tu. É para tipos mesmo bons que sabem o que fazem."
Nunca falei disto a ninguém. É paralisante, sabes? Tenho estórias na minha cabeça. É tão absurdo que narro para mim certos episódios porque passo. Narro-os como se estivessem escritos num livro escrito por mim. Mas eu posso lá escrever livros. Ou blogues. Ou coisas num caderno preto que se leva na mala.
Não escrevo, é como te disse. Fico muito tempo parado ao sol. A vontade passa. Com o tempo fica mais fácil. Eduquei-me bem. Agora já nem sinto vontade de escrever.
Fico sentado a pensar em muitas coisas como fazem todas as pessoas quando estão sozinhas.
Mas voltemos ao assunto! Não, não vou fazer literatura agora se não a fiz antes.
Eu estou sentado. O mundo moderno está aberto à minha frente. Já falei da auto-estrada. Mas há betão por todo o lado. Muitos prédios onde vivem muitas pessoas em muitas casas. Foram todas equipadas no Ikea ou na Moviflor. É só uma questão de datas. Tudo é novo. O mundo moderno só existe a sério nos subúrbios onde não existem centros históricos. Foram deitados abaixo para construir eficientes repartições de finanças. Aquilo que o sociólogo da Câmara não deixou enfiar no entulho está no museu municipal ou à porta duma biblioteca da zona (quando há alguma).
Mas vês como me perco? Divagação outra vez!
Vou resumir os factos: é Inverno, mas o sol é quente e eu estou sentado na esplanada dum shopping suburbano com o mundo moderno à minha frente. Tudo o que eu disse antes cabe aqui: sem fazer literatura!
Conquanto esteja atento a tudo isto (repara como é elegante a palavra conquanto) há uns miúdos do liceu a conversar. Há aqui muitos miúdos do liceu porque são apenas 3h da tarde. Ali, naquela mesa, são dez: contei-os. Agora levantaram-se. Agora não há quase ninguém. Eu e uma senhora ali ao fundo sentada noutra mesa a falar ao telemóvel. Ela não tem o mundo moderno à sua frente, mas compõe a visão que eu tenho do mundo moderno.
É no meio disto tudo que tenho vontade de escrever. Nada disto cabia nas páginas dum romance. Um subúrbio, miúdos do liceu no shopping, a senhora a falar ao telemóvel. Depois penso que podia ter lugar num blogue. Num desses blogues que os tipos como eu têm, os tipos que querem escrever. Esses que os tipos como tu, os que escrevem mesmo, acham risível. Só acham risível porque é uma maneira literariamente polida de dizer digno de dó. É que "digno de dó", apesar da aliteração, não é nada polido. Não é nada digno de ser literário.
É isto mesmo, vês? É sempre assim! Penso em escrever. Mas depois penso no que é escrever: em tudo o que isso quer dizer, entendes? As implicações que tem. Escrever não é para um tipo numa esplanada dum shopping suburbano a falar de auto-estradas. Deve falar da vida. De pessoas. De complexidades. Deve ser uma coisa feita, construída. Olha, maquinada, que é mesmo a palavra ideal. Então não escrevo. Não escrevo mesmo. Recuso-me! A sério. Digo para mim "Não tires daí o caderno. Não escrevas. Não consegues. Escrever não é para tipos como tu. É para tipos mesmo bons que sabem o que fazem."
Nunca falei disto a ninguém. É paralisante, sabes? Tenho estórias na minha cabeça. É tão absurdo que narro para mim certos episódios porque passo. Narro-os como se estivessem escritos num livro escrito por mim. Mas eu posso lá escrever livros. Ou blogues. Ou coisas num caderno preto que se leva na mala.
Não escrevo, é como te disse. Fico muito tempo parado ao sol. A vontade passa. Com o tempo fica mais fácil. Eduquei-me bem. Agora já nem sinto vontade de escrever.
Fico sentado a pensar em muitas coisas como fazem todas as pessoas quando estão sozinhas.
terça-feira, janeiro 19, 2010
O estado da Arte
A arte não pode ser limitada por algo tão reles como as pessoas. As pessoas são apenas cobaias da arte. A grandeza de tudo o que sentem não é senão acessório para a grandeza de tudo o que escrevo.
Outros diriam que sou desprezível. Mas o que dizem tem a importância limitada da matéria bruta para que depois eu a escreva. Se tivesse moral era um cínico. A moral serve para pôr em bons livros e dá boas tramas. Eu não tenho moral e assim tenho todas e consigo escrevê-las. Sou vazio de tudo para que tudo de desprezível que acontece às pequenas pessoas à minha volta me encha e preencha as páginas quintessências que escrevo.
Outros diriam que sou desprezível. Mas o que dizem tem a importância limitada da matéria bruta para que depois eu a escreva. Se tivesse moral era um cínico. A moral serve para pôr em bons livros e dá boas tramas. Eu não tenho moral e assim tenho todas e consigo escrevê-las. Sou vazio de tudo para que tudo de desprezível que acontece às pequenas pessoas à minha volta me encha e preencha as páginas quintessências que escrevo.
terça-feira, dezembro 29, 2009
Os odores de Samarcanda ou Viagem Oriental através dum livro
De Samarcanda guarda o cheiro do bazar. A luz reflecte levemente nas pedras de âmbar dispostas nos tabuleiros de quase todas as bancas. A cidade confude-se com ruídos que te confundem. Confia apenas no teu cheiro e nada mais. O Verde é apenas uma miragem dos ricos jardins além-muros, nos palácios inacessíveis do Oriente. Não percas tempo com eles. As casas são de tijolo cru e batido e ainda cheiram a terra e a poeira. Era assim há mil anos como é hoje. Se buscas cor, confia de novo no cheiro e vai até à mesquita. Admira agora os ricos azulejos da sua porta e do alto do seu minarete. Encosta o nariz a um deles e sente. Sente agora o cheiro dos anos, do tempo, o cheiro do corpo de centenas de homens em oração em mistura com o barro cozido num fogo demasiado alto. É o fogo que queima o barro e os homens de fé que rezam. Escolhe agora uma rua tortuosa. Atravessa as casas e ligeiramente olha para o seu interior. Uma casa cheira sempre a comida e a lume. A lume brando e calmo. Que ouvirás dentro das casas? Risos, queixas, gritos, carícias, prazeres. As casas de Samarcanda são como todas as casas do mundo onde moram pessoas. Que há de diferente nas pessoas de Samarcanda em relação com as pessoas do mundo? Descobre nelas o cheiro da Pérsia. Não desta Pérsia de agora. Dessa que dorme um sono no coração dessas pessoas. Aproxima-te do coração dum habitante de Samarcanda e cheira-o. Encontrarás aí tapetes voadores, abóbadas douradas, turbantes e espadas curvas. Ali dorme o país encantado, no coração batente de cada cidadão de Samarcanda.
Depois, lembra-te apenas do cheiro, nada além do cheiro, e que ele te guie sem destino pelo labirinto das ruas de casas sempre iguais, pelo labirinto de rostos sempre iguais até chegares a um sítio que só o cheiro sabe onde é.
Depois, lembra-te apenas do cheiro, nada além do cheiro, e que ele te guie sem destino pelo labirinto das ruas de casas sempre iguais, pelo labirinto de rostos sempre iguais até chegares a um sítio que só o cheiro sabe onde é.
Experimentação em trilhadas trincheiras
Sigo o trilho desta trilha
Com minh'alma trilhada em coisas d'alma
Entrincheirada em trincheiras tão trincadas
Que até trincar o pão duro é difícil
Enquanto sigo o trilho desta trilha
Que me leva ao nada.
Com minh'alma trilhada em coisas d'alma
Entrincheirada em trincheiras tão trincadas
Que até trincar o pão duro é difícil
Enquanto sigo o trilho desta trilha
Que me leva ao nada.
Poema dum dia de chuva ou Evocação bucólica
Digamos um poema de sala e de luz.
As palavras constroem-se como se chamadas a isso.
Tudo é natural e bom como um dia de Inverno com muita chuva.
Ao redor da minha janela deito-me a imaginar prados verdes.
Que há de bom em imaginar prados verdes num dia de chuva
E céu cinzento?
Absolutamente nada a não ser o prazer de imaginar prados verdes em que a chuva
Molha e acorda o cheiro a terra.
Imagino depois que dou uma grande golfada e o cheiro da terra molhada
Invade-me as narinas brutalmente.
Enquanto, estou na sala
E o poema conta estórias de luz e de outras coisas que não se podem ver
A não ser que as imaginemos.
A sala é todo um mundo-
Do poema, de nós mesmos e das coisas infinitas que temos dentro de nós mesmos.
Agora, entre a luz e a sala fecho os olhos,
Fecho os olhos muito devagar, devagarinho, para guardar dentro de mim
Luzes, salas e tantas, tantas coisas.
E adormeço. E sonhando vou até aos prados verdes que imagino e agora sonho
Onde um dia de chuva faz com que cheire muito a terra molhada.
As palavras constroem-se como se chamadas a isso.
Tudo é natural e bom como um dia de Inverno com muita chuva.
Ao redor da minha janela deito-me a imaginar prados verdes.
Que há de bom em imaginar prados verdes num dia de chuva
E céu cinzento?
Absolutamente nada a não ser o prazer de imaginar prados verdes em que a chuva
Molha e acorda o cheiro a terra.
Imagino depois que dou uma grande golfada e o cheiro da terra molhada
Invade-me as narinas brutalmente.
Enquanto, estou na sala
E o poema conta estórias de luz e de outras coisas que não se podem ver
A não ser que as imaginemos.
A sala é todo um mundo-
Do poema, de nós mesmos e das coisas infinitas que temos dentro de nós mesmos.
Agora, entre a luz e a sala fecho os olhos,
Fecho os olhos muito devagar, devagarinho, para guardar dentro de mim
Luzes, salas e tantas, tantas coisas.
E adormeço. E sonhando vou até aos prados verdes que imagino e agora sonho
Onde um dia de chuva faz com que cheire muito a terra molhada.
quarta-feira, dezembro 09, 2009
Tarde alexandrina ou O Velho Criador da(s) Palavra(s)
Em Alexandria certa tarde encontrei um homem numa esquina. Não representa qualquer dificuldade encontrar um homem numa esquina numa tarde de calor em Alexandria. Descrevê-lo é desnecessário: era um homem velho igual a todos os homens velhos de Alexandria que em si são todos iguais. Não me tivesse falado teria passado por ele na busca duma sombra melhor. Mas falou-me. Adoptava um ar grave quando falava. Tinha uma voz encantadoramente pausada e cada sílaba era dita como um acto religioso. Ainda que não entendesse o que dizia (tinha um árabe demasiado dialético para mim) ouvi-lo era mágico. Cada palavra era todo a possibilidade de ser todas as palavras ao mesmo tempo. A partir de certo momento deixei de tentar descortinar sentidos ou sequer de os imaginar. As palavras diziam-se na sua boca e isso era o bastante para mim. E nos minutos em que o ouvi aquele velho foi Deus para mim, Javé num tempo ancestral criando o Mundo em que a Palavra era em si a Essência.
segunda-feira, dezembro 07, 2009
Vista do mar sobre a janela da casa branca
Não esqueças as palavras da casa branca-
Seus sentidos amargos e doces
Como as frutas da árvore que grande
Cresce no quintal.
Não esqueças os segredos espalhados
Em cada esquina, em cada canto
Palavras encantadas de dizer dia, manhã e sol.
Não esqueças os cheiros prenhes de palavras
Ainda por nascer,
De sensações indescritíveis.
Não esqueças o não dizer do silêncio,
A vista certa do mar numa tarde debruçado
Na janela
E todas as coisas possíveis de construir
No instante exacto em que cada palavra te sai da boca.
Seus sentidos amargos e doces
Como as frutas da árvore que grande
Cresce no quintal.
Não esqueças os segredos espalhados
Em cada esquina, em cada canto
Palavras encantadas de dizer dia, manhã e sol.
Não esqueças os cheiros prenhes de palavras
Ainda por nascer,
De sensações indescritíveis.
Não esqueças o não dizer do silêncio,
A vista certa do mar numa tarde debruçado
Na janela
E todas as coisas possíveis de construir
No instante exacto em que cada palavra te sai da boca.
Subscrever:
Mensagens (Atom)