I
Let us be silent
Now.
Let us not say
A word.
An in this silence let us
Hear.
For it is in silence that all words
May be spoken.
II
Let us say a kiss.
Let us open our mouths for a kiss
To be said.
For when is a kiss better said
Then when
We open our mouths and you
Can hear
No sound rather
Then that
Of two mouths touching in a kiss?
III
Let us
Come out
To see both roses and sun.
Let us
See
Where birds fly when the afternoon falls.
Lets us come out.
Let us
Be out...
and slowly, oh ever so slowly,
Just let us breathe.
domingo, maio 11, 2008
Tardes em crepúsculo ou Saudades do Sul
Às vezes a luz cai
Assim
Sobre Lisboa.
É o tempo do crepúsculo.
As tardes são agora
Longas e lisas
Como o voo rasante dos pássaros.
E eu guardo saudades
Do sul.
Assim
Sobre Lisboa.
É o tempo do crepúsculo.
As tardes são agora
Longas e lisas
Como o voo rasante dos pássaros.
E eu guardo saudades
Do sul.
quinta-feira, maio 08, 2008
Excerto ou Ensaio para "Conto de Gustavo-IV"
Ensaiava então um gesto que lhe saia naturalmente: envolvia-lhe o braço direito em torno da cintura. Agarrava-o numa violência de amante plácido. Gustavo deixava-se ir, ainda com medo de um par de olhos que espreitasse em algum canto. Depois esquecia. Enrolava os braços no pescoço dele despreocupadamente. Nunca se beijavam nestas alturas.
De um gesto diário aos olhos em provocação
Surpreendi-lhe um gesto. Era um gesto habitual que costumava ter. Cerrava os dentes com força e quase rasgava o beiço de cada vez que o fazia. Depois parava, era como quem se recompõe. Olhava para mim, o beiço encarnado, sobejamente inchado. Olhava em ar de desafio. Era numa altura em que os olhos dele diziam muita coisa.
terça-feira, maio 06, 2008
Poema da Fertilidade
Em vaso de terra,
Em chão que é fértil
Ergue a semente nova do dia
E a cada grão repete
Vaso, terra, chão.
Em chão que é fértil
Ergue a semente nova do dia
E a cada grão repete
Vaso, terra, chão.
Em palavras
Para o Sérgio e o Stjin com todo o meu carinho.
Ainda que eu pudesse dizer-vos em palavras
Do meu agradecimento
Deixem que o silêncio fale por mim.
De cada vez que o puderem ouvir ele dir-vos-á muito mais do que eu.
Ainda que eu pudesse dizer-vos em palavras
Do meu agradecimento
Deixem que o silêncio fale por mim.
De cada vez que o puderem ouvir ele dir-vos-á muito mais do que eu.
"Fim d'Época" e "Geneticamente Fúteis"
Tenho por hábito passear entre a Baixa e o Chiado tanto como tenho o hábito de não escrever sobre mim e aquilo que faço, ou pelo menos não directamente. O primeiro prende-se com o meu lado de alpinista social, o segundo com o meu ar pseudo-intelectual de quem procura estar ausente à escrita que produz. Um dos sítios que encontrei para melhor conjugar estas duas facetas da pessoa que sou eu é um simpático cadeirão preto colocado de costas para a janela da segunda sala da Bertrand Chiado. É um dos espaços mais agradáveis de leitura que Lisboa oferece e já cheguei a passar tempos bem largos ai sentado, normalmente ao cair da tarde, perdido e absorto em livros, ausente de qualquer outra realidade.
A última vez que lá estive tinha de facto um propósito: ia em busca de um presente para umas primas pequenas. Presente esse que os deuses haviam guardado para mim num canto escondido da última sala- era o único volume em toda a Lisboa. E a par encontrei mais dois livros que levaram a que me sentasse no dito cadeirão: "Fim d'Época" de Lourenço Pereira Coutinho e "Geneticamente Fúteis" de Cláudio Ramos.
Uma vez que apenas li ambos en passant vou guardar as críticas e ater-me a breves comentários que me parecem interessantes. "Fim d'Época" passa-se na Lisboa da primeira década do Século XX tendo como personagem principal o Dr. Miguel Sebastião Telles de Almeida, filho dos Condes de Valverde. As descrições ricas e o tratamento cuidado da época, fundado nos conhecimentos do autor que além de historiador já publicou ensaios sobre a época, fazem da obra um agradável retrato da alta sociedade lisboeta e das suas preocupações políticas, sociais e económicas que por sua vez a torna agradável a quem, como eu, vive em paixão constante pela História Social. "Genéticamente Fúteis" passa-se na Lisboa da primeira década do Século XXI. Conta a história do assassinato e consequente investigação do crime dum afamado colunista social e da trupe que vivia em seu redor. A escrita não é das melhores e, muito num estilo da literatura-light, é pouco profunda atendendo mais às frivolidades da acção que à importância quer da descrição, quer da reflecção. Notemos agora aspectos interessantes: se pusermos as classes que cada livro representa, que pretende ser a mesma com 100 anos de diferença, nós é que encontraremos diferenças abismais. Não só a maneira de estar, mas sobretudo a maneira de ver e entender o mundo, bem como a imagem que certa classe projecta de si mesma mudou radicalmente, talvez como nunca antes tenha mudado num tão curto espaço de tempo. A família e as soirées, a arte de receber e de estar com amigos, as discussões sobre o tenso ambiente político de "Fim d'Época" são substituídas em "Geneticamente Fúteis" pelas festas e vernisages, a arte de enganar e fazer amigos proveitosos e as discussões sobre o cabeleireiro ou o último desfile daquele costureiro famosíssimo.
Dizer que prefiro um ao outro está longe do ambito desta crónica. Tenho as minhas escolhas pessoais e reservo a outros o direito de terem as suas. Note-se apenas a mudança de uma elite culta e preocupada, ainda que um pouco desfazada da realidade, para uma pseudo-elite sem ethos ou mesmo savoir-faire que o seu autor retrata como sendo de facto geneticamente fútil.
Se puderem e quiserem vão a uma livraria peguem nos dois livros, escolham um canto e tirem as vossas próprias conclusões. Só peço que me deixem o meu cadeirão contra a janela.
A última vez que lá estive tinha de facto um propósito: ia em busca de um presente para umas primas pequenas. Presente esse que os deuses haviam guardado para mim num canto escondido da última sala- era o único volume em toda a Lisboa. E a par encontrei mais dois livros que levaram a que me sentasse no dito cadeirão: "Fim d'Época" de Lourenço Pereira Coutinho e "Geneticamente Fúteis" de Cláudio Ramos.
Uma vez que apenas li ambos en passant vou guardar as críticas e ater-me a breves comentários que me parecem interessantes. "Fim d'Época" passa-se na Lisboa da primeira década do Século XX tendo como personagem principal o Dr. Miguel Sebastião Telles de Almeida, filho dos Condes de Valverde. As descrições ricas e o tratamento cuidado da época, fundado nos conhecimentos do autor que além de historiador já publicou ensaios sobre a época, fazem da obra um agradável retrato da alta sociedade lisboeta e das suas preocupações políticas, sociais e económicas que por sua vez a torna agradável a quem, como eu, vive em paixão constante pela História Social. "Genéticamente Fúteis" passa-se na Lisboa da primeira década do Século XXI. Conta a história do assassinato e consequente investigação do crime dum afamado colunista social e da trupe que vivia em seu redor. A escrita não é das melhores e, muito num estilo da literatura-light, é pouco profunda atendendo mais às frivolidades da acção que à importância quer da descrição, quer da reflecção. Notemos agora aspectos interessantes: se pusermos as classes que cada livro representa, que pretende ser a mesma com 100 anos de diferença, nós é que encontraremos diferenças abismais. Não só a maneira de estar, mas sobretudo a maneira de ver e entender o mundo, bem como a imagem que certa classe projecta de si mesma mudou radicalmente, talvez como nunca antes tenha mudado num tão curto espaço de tempo. A família e as soirées, a arte de receber e de estar com amigos, as discussões sobre o tenso ambiente político de "Fim d'Época" são substituídas em "Geneticamente Fúteis" pelas festas e vernisages, a arte de enganar e fazer amigos proveitosos e as discussões sobre o cabeleireiro ou o último desfile daquele costureiro famosíssimo.
Dizer que prefiro um ao outro está longe do ambito desta crónica. Tenho as minhas escolhas pessoais e reservo a outros o direito de terem as suas. Note-se apenas a mudança de uma elite culta e preocupada, ainda que um pouco desfazada da realidade, para uma pseudo-elite sem ethos ou mesmo savoir-faire que o seu autor retrata como sendo de facto geneticamente fútil.
Se puderem e quiserem vão a uma livraria peguem nos dois livros, escolham um canto e tirem as vossas próprias conclusões. Só peço que me deixem o meu cadeirão contra a janela.
quarta-feira, abril 16, 2008
Palavras de coisas do Oriente ou Anseios por cidades tão distantes
Onde os horizontes de Edo e Kioto?
Perdi-os nos olhos fechados do teu sono.
Oh, diz-me agora
E outra vez de Edo e Kioto para que os sonhe
Como em ti são lembrados.
Perdi-os nos olhos fechados do teu sono.
Oh, diz-me agora
E outra vez de Edo e Kioto para que os sonhe
Como em ti são lembrados.
Poema das tardes dos pássaros
E se houvesse pássaros?
Até onde voariam as tardes, até onde se alongariam as horas?
E se houvesse pássaros em vez de crepúsculos?
Que triste seria o para sempre.
Até onde voariam as tardes, até onde se alongariam as horas?
E se houvesse pássaros em vez de crepúsculos?
Que triste seria o para sempre.
segunda-feira, abril 14, 2008
Varandas sobre o Tejo ou Canto crespuscular da cidade numa casa de Alfama
Duma varanda donde se veja o Tejo
Numa tarde
Duma tarde em que se embale em palavras
Numa varanda
Agora Lisboa, ainda de dia
Depois logo à noite, quando for noite
Mas ainda palavras
Como ruas
Pelas ruas
Palavras de dizer coisas nuas
como uma
Varanda donde numa tarde
Se veja o Tejo
Numa tarde
Duma tarde em que se embale em palavras
Numa varanda
Agora Lisboa, ainda de dia
Depois logo à noite, quando for noite
Mas ainda palavras
Como ruas
Pelas ruas
Palavras de dizer coisas nuas
como uma
Varanda donde numa tarde
Se veja o Tejo
Evocando a Lagoa de Óbidos
Digo-te assim
Prazer e mar
De teu corpo-lagoa
Riacho, atraso
Perdido de tempo
De espaços e de palavras que digam
Talvez, fruto, pedra, planta,
Horas
De quem se guarda em devaneios junto da água
Num qualquer dia primeiro de Primavera
Prazer e mar
De teu corpo-lagoa
Riacho, atraso
Perdido de tempo
De espaços e de palavras que digam
Talvez, fruto, pedra, planta,
Horas
De quem se guarda em devaneios junto da água
Num qualquer dia primeiro de Primavera
sexta-feira, abril 04, 2008
Palavra de Viagem
Palavra de Viagem,
De coisa passada, de coisa vivida,
De cheiro que dorme e que nasce na gente
A cada reviver.
Palavra de Viagem
É palavra que desperta,
Que alegra, que chama,
E que anda com a gente pelas ruas da Cidade.
Palavra de Viagem,
Que vai onde não vou
E volta de coisas que têm sempre voltar.
De coisa passada, de coisa vivida,
De cheiro que dorme e que nasce na gente
A cada reviver.
Palavra de Viagem
É palavra que desperta,
Que alegra, que chama,
E que anda com a gente pelas ruas da Cidade.
Palavra de Viagem,
Que vai onde não vou
E volta de coisas que têm sempre voltar.
Poema da Viagem
Sabes versos antigos?
Entãos diz-mos em mansidão agora que a Cidade se prepara para dormir.
Tu buscas os cheiros da cidade. Cada pessoa tem um cheiro e cada pessoa é uma cidade.
Quantas pessoas perfazem a tua Cidade?
Agora que a noite caí sobre nós diz-me depressa, mas de manso, quantas palavras são precisas para que tu olhes e digas- Cidade.
Entãos diz-mos em mansidão agora que a Cidade se prepara para dormir.
Tu buscas os cheiros da cidade. Cada pessoa tem um cheiro e cada pessoa é uma cidade.
Quantas pessoas perfazem a tua Cidade?
Agora que a noite caí sobre nós diz-me depressa, mas de manso, quantas palavras são precisas para que tu olhes e digas- Cidade.
terça-feira, abril 01, 2008
Experimentação para "Conto de Gustavo-IV"
Revirou os olhos. Que havia de dizer? Era a quarta vez que a Ana perguntava se ele não o achava maravilhoso. Não que se referisse ao aspecto, pelo menos em princípio, mas à eloquência do homem. Porque para Gustavo era isso que ele era: um eloquente.
Lá estava, gordo e transpirado, com uma grande linha quase nas fraldas da camisa a marcar o suor. Tinha um lencinho de bolso que tirava mais vezes do que se desejava e limpava a testa molhada arrastando as mãos pequenas e sapudas de um lado para o outro como se estivesse a puxar lustro. Estava a falar há quase quinze minutos e ainda não dissera nada que valesse a pena ouvir. Vagamente percebia-se que falava de Tácito. Ia alternando o seu discurso barroco e bacoco ora com evidências óbvias ("A noite em Tácito é fundamental"), ora em emaranhados vazios ("Há que entender a questão não só do ponto de vista histórico e filosófico, como igualmente perante a necessidade de ser literário"). Era, enfim, um eloquente. Um homem de muita sabedura, mas muito pouco saber. Lá que lera Tácito e o seu latinório nem Gustavo punha em causa. Lá que ele não dizia nada que na Sorbonne ou em Oxford ou Princeton já antes não se tivesse dito era bem verdade.
Ainda assim, a Ana continuava a espetar-lhe o dedo no ombro de forma cada vez mais furiosa conforme a sua excitação aumentava. E eram gritinhos de "Fabuloso!" ou "Muito bom!" a cada nova balela que o gordo empapado em suor soltava.
O Artur gostava de dizer que a Ana era uma freira com falta de homem. As coisas eram, contudo, mais complexas. A Ana era, nas palavras de Gustavo, uma vítima do sistema. Licenciada em Estudos Clássicos com média de 18,7 valores passara o curso agarrada às saias das professoras que a passeavam e elogiavam como uma mãe vitoriana quando o filho diz a primeira palavra ou aprende a primeira habilidade. A Ana era esperta, tinha boa cabeça e boas ideias. Tinha era a cabeça muito enfiada nos livros e era pouco livre em relação a eles. E das poucas vezes que voava, lá iam as boas professoras, quais fadas madrinhas, impedi-la de voos tão altos que ferissem a menina. E assim a Ana foi-se adaptando àquela maneira académica de estar, comezinha e banal, do pequeno palanque e do pequeno poder. Mestrou-se com uma tese sobre Catulo, tão gémea da tese da sua orientadora, que não trazia nada de novo. Depois, com os trabalhos de doutoramento e a docência universitária trazida pelo mestrado a Ana instalara-se. Agora, às portas de defender a tese, era um produto acabado do sistema: servil e pouco ambiciosa, bastando-se nos seus conhecimentos escolásticos que ia buscar ao saber sacrossanto dos livros que a Sorbonne regorgitara nos anos setenta. Mas não era má miúda. Os alunos adoravam-na e ela adorava-os e a verdade era que os protegidos da Ana eram por norma mesmo muito bons, como as grandes professoras de ballet que, incapazes de terem elas mesmas uma grande carreira, têm, ainda assim, olho para aqueles a possam vir a ter. E depois era divertida e no meio daqueles salamaleques todos da faculdade era bem desempoeirada. Claro que tantas vezes era demasiao infantil, dessas crianças que as bibliotecas conservam para sempre crianças por falta de ver o mundo. O Artur bufava cada vez que a sabia lá em casa para jantar. Era certo que ia ter uma noite repleta de todos os pormenores mais íntimos da faculdade e dos meandros dos seus departamentos, desde a última tese ao último escândalo. Mas Gustavo gostava dela e o sentimento era bastante mútuo.
"Brilhante, brilhante. Muito, muito bom!", gritava a Ana enquanto batia as mãos uma contra a outra. O presidente da mesa começou nos agradecimentos e acabou nas perguntas. Gustavo não ia aguentar mais nada daquele homem. Enquanto arrumava as coisas na pasta largou um beijinho no ar à Ana e, o mais silenciosamente possível, esgueirou-se pela porta direita do Anfiteatro III. Desceu as escadas num repente e atravessou o longo corredor em passo largo. Pegou no telemóvel. 13h28. Aquele papalvo do coimbrão eloquente tinha-lhes comido vinte minutos a mais e ainda estava lá para cima a despejar idiotices. Virou no corredor do Departamento de História ainda indeciso entre ser apanhado no corredor da secretaria pela Dona Ifigénia ou no átrio central por um aluno ou colega qualquer. Decidiu-se pelo átrio e atravessou-o a toda a pressa oferencendo aos alunos que o cumprimentavam sorrisos distantes e pouco convidativos. Desceu os degraus da porta principal da faculdade e olhou para trás. Lá estava Letras, igual há dez anos atrás, senão um pouco mais podre e mais suja pelos cantos.
No telemóvel tocou uma mensagem. Era o Artur "Demoras?" O Artur não tinha um doutoramento, nunca lera Tácito e de Latim sabia dizer E pluribus unum e Pisces conam furant. Mas dava-lhe a certeza de uma vida além de todas estas coisas de que ele gostava. O Artur era, em grande medida, o que o impedia de ser como a Ana. E ao menos o Artur suava por razões melhores que o jagunço de Coimbra.
Lá estava, gordo e transpirado, com uma grande linha quase nas fraldas da camisa a marcar o suor. Tinha um lencinho de bolso que tirava mais vezes do que se desejava e limpava a testa molhada arrastando as mãos pequenas e sapudas de um lado para o outro como se estivesse a puxar lustro. Estava a falar há quase quinze minutos e ainda não dissera nada que valesse a pena ouvir. Vagamente percebia-se que falava de Tácito. Ia alternando o seu discurso barroco e bacoco ora com evidências óbvias ("A noite em Tácito é fundamental"), ora em emaranhados vazios ("Há que entender a questão não só do ponto de vista histórico e filosófico, como igualmente perante a necessidade de ser literário"). Era, enfim, um eloquente. Um homem de muita sabedura, mas muito pouco saber. Lá que lera Tácito e o seu latinório nem Gustavo punha em causa. Lá que ele não dizia nada que na Sorbonne ou em Oxford ou Princeton já antes não se tivesse dito era bem verdade.
Ainda assim, a Ana continuava a espetar-lhe o dedo no ombro de forma cada vez mais furiosa conforme a sua excitação aumentava. E eram gritinhos de "Fabuloso!" ou "Muito bom!" a cada nova balela que o gordo empapado em suor soltava.
O Artur gostava de dizer que a Ana era uma freira com falta de homem. As coisas eram, contudo, mais complexas. A Ana era, nas palavras de Gustavo, uma vítima do sistema. Licenciada em Estudos Clássicos com média de 18,7 valores passara o curso agarrada às saias das professoras que a passeavam e elogiavam como uma mãe vitoriana quando o filho diz a primeira palavra ou aprende a primeira habilidade. A Ana era esperta, tinha boa cabeça e boas ideias. Tinha era a cabeça muito enfiada nos livros e era pouco livre em relação a eles. E das poucas vezes que voava, lá iam as boas professoras, quais fadas madrinhas, impedi-la de voos tão altos que ferissem a menina. E assim a Ana foi-se adaptando àquela maneira académica de estar, comezinha e banal, do pequeno palanque e do pequeno poder. Mestrou-se com uma tese sobre Catulo, tão gémea da tese da sua orientadora, que não trazia nada de novo. Depois, com os trabalhos de doutoramento e a docência universitária trazida pelo mestrado a Ana instalara-se. Agora, às portas de defender a tese, era um produto acabado do sistema: servil e pouco ambiciosa, bastando-se nos seus conhecimentos escolásticos que ia buscar ao saber sacrossanto dos livros que a Sorbonne regorgitara nos anos setenta. Mas não era má miúda. Os alunos adoravam-na e ela adorava-os e a verdade era que os protegidos da Ana eram por norma mesmo muito bons, como as grandes professoras de ballet que, incapazes de terem elas mesmas uma grande carreira, têm, ainda assim, olho para aqueles a possam vir a ter. E depois era divertida e no meio daqueles salamaleques todos da faculdade era bem desempoeirada. Claro que tantas vezes era demasiao infantil, dessas crianças que as bibliotecas conservam para sempre crianças por falta de ver o mundo. O Artur bufava cada vez que a sabia lá em casa para jantar. Era certo que ia ter uma noite repleta de todos os pormenores mais íntimos da faculdade e dos meandros dos seus departamentos, desde a última tese ao último escândalo. Mas Gustavo gostava dela e o sentimento era bastante mútuo.
"Brilhante, brilhante. Muito, muito bom!", gritava a Ana enquanto batia as mãos uma contra a outra. O presidente da mesa começou nos agradecimentos e acabou nas perguntas. Gustavo não ia aguentar mais nada daquele homem. Enquanto arrumava as coisas na pasta largou um beijinho no ar à Ana e, o mais silenciosamente possível, esgueirou-se pela porta direita do Anfiteatro III. Desceu as escadas num repente e atravessou o longo corredor em passo largo. Pegou no telemóvel. 13h28. Aquele papalvo do coimbrão eloquente tinha-lhes comido vinte minutos a mais e ainda estava lá para cima a despejar idiotices. Virou no corredor do Departamento de História ainda indeciso entre ser apanhado no corredor da secretaria pela Dona Ifigénia ou no átrio central por um aluno ou colega qualquer. Decidiu-se pelo átrio e atravessou-o a toda a pressa oferencendo aos alunos que o cumprimentavam sorrisos distantes e pouco convidativos. Desceu os degraus da porta principal da faculdade e olhou para trás. Lá estava Letras, igual há dez anos atrás, senão um pouco mais podre e mais suja pelos cantos.
No telemóvel tocou uma mensagem. Era o Artur "Demoras?" O Artur não tinha um doutoramento, nunca lera Tácito e de Latim sabia dizer E pluribus unum e Pisces conam furant. Mas dava-lhe a certeza de uma vida além de todas estas coisas de que ele gostava. O Artur era, em grande medida, o que o impedia de ser como a Ana. E ao menos o Artur suava por razões melhores que o jagunço de Coimbra.
quinta-feira, março 27, 2008
Carta de Servília a Décimo
Não esperes que responda ao que me pedes. E não me leves a mal que o não faça. Aos oitenta e quatro anos aprendi a dizer não. Este não que descobri tão tarde não é, no entanto, igual a esse outro desses jogos perigosos de tirar e dar e que raramente quer dizer o que quer dizer. Assim, não esperes por mim. Não. Definitivamente.
Encontrei, nos campos de Lutércia, uma paz que nunca esperei e talvez por isso ela me saiba tanto melhor. Sei que os romanos urbanizados da grande Urbe acham estas terras selvagens e ermas. Não selvagens, mas virgens. Há qualquer coisa aqui que pode nascer. Perco alguns dias a pensar no que será e não chego a nenhuma conclusão. Mas sinto nesta terra uma vontade. É algo diferente desse infernal acampamento de Godorico onde conheci a verdadeira selvajaria dos bárbaros. Lutércia tem árvores altas e chãos fecundos e o mar é tão forte que o seu cheiro chega até aqui nas brisas das manhãs de Primavera.
Xenofonte levou-me a ver o mar. Esse grego velho que eu vi nascer e que é mais velho do que eu é o meu bordão de todas as horas. Na sua paciência infinita preparou tudo e num dia de Junho do ano passado meteu a sua senhora num carro e levou-me. Não te digo quantos dias levei porque prefiro acreditar que não sei esse número e que não os contei. Deixa-me que te fale do mar. Tu andaste nos barcos, mas alguma vez viste a fúria do mar? Quem pode, no resguardo do comandante, onde nos enfiam, ver a verdadeira fúria do mar? Pois eu te digo que o mar dos gauleses é solto e livre, como no fundo também eles, e que a vida de cem imperadores não bastaria para domá-lo. E prefiro que seja assim, que haja algo que fugiu à Ordem e à Norma. Não penses que me perdi nos excessos do orientalismo. Confesso-te, contudo, que gosto de ouvir os magos dos gauleses, a quem eles chamam druídas, e que tenho aprendido muito com eles. Falam-me de coisas distantes de nós e os seus deuses não são senão alma e alheios aos caprichos. Não seria melhor acreditar em deuses assim? Não penses também que aderi ao seu culto, no entanto, ou pior que virei cristã. Não. Cultivei um único ódio na vida e esse foi o ódio pelos cristãos. Não desejo nada de bom a esses semitas sujos e ao seu deus crucificado. Os cristãos trariam mais Norma do que Ordem. Se morro feliz com a idade a que cheguei uma das razões é saber que não serão precisos mais que dez imperadores, ou menos ainda, para que os nomes dessa gente nunca mais sejam escritos.
Mas fecha os olhos agora e não ouças mais os delírios desta velha. Não estou cansada da vida, mas estou já um pouco cansada de ir morrendo. Não sei se verei as folhas caírem e nascerem de novo nas grandes árvores de Lutércia e por certo Xenofonte é agora tão velho que, ainda que quisesse, não me poderia mais levar a ver o mar. E não, não voltarei a Roma. Queres que morra como uma grande matrona num leito de seda do grande palácio que construíste na Urbe? Perdoa o orgulho de uma velha que lhe toma a melhor, mas digo-te não. Uma coisa gostava no entanto, de ver-te outra vez e poisar a minha mão sobre o teu rosto. Também estás velho agora? Quantos anos passaram por ti desde que o meu rapaz se tornou um grande general do Império? Não me digas quantos pois prefiro fingir que os não contei.
Anseio apenas que na tua idade ainda não tenhas aprendido a dizer não como eu aprendi e que sejas tu a aceder ao meu pedido. Vem pelo caminho mais seguro, mas vem depressa, meu filho. Não que morra já, mas porque desejo mais que tudo ter-te a meu lado novamente.
Encontrei, nos campos de Lutércia, uma paz que nunca esperei e talvez por isso ela me saiba tanto melhor. Sei que os romanos urbanizados da grande Urbe acham estas terras selvagens e ermas. Não selvagens, mas virgens. Há qualquer coisa aqui que pode nascer. Perco alguns dias a pensar no que será e não chego a nenhuma conclusão. Mas sinto nesta terra uma vontade. É algo diferente desse infernal acampamento de Godorico onde conheci a verdadeira selvajaria dos bárbaros. Lutércia tem árvores altas e chãos fecundos e o mar é tão forte que o seu cheiro chega até aqui nas brisas das manhãs de Primavera.
Xenofonte levou-me a ver o mar. Esse grego velho que eu vi nascer e que é mais velho do que eu é o meu bordão de todas as horas. Na sua paciência infinita preparou tudo e num dia de Junho do ano passado meteu a sua senhora num carro e levou-me. Não te digo quantos dias levei porque prefiro acreditar que não sei esse número e que não os contei. Deixa-me que te fale do mar. Tu andaste nos barcos, mas alguma vez viste a fúria do mar? Quem pode, no resguardo do comandante, onde nos enfiam, ver a verdadeira fúria do mar? Pois eu te digo que o mar dos gauleses é solto e livre, como no fundo também eles, e que a vida de cem imperadores não bastaria para domá-lo. E prefiro que seja assim, que haja algo que fugiu à Ordem e à Norma. Não penses que me perdi nos excessos do orientalismo. Confesso-te, contudo, que gosto de ouvir os magos dos gauleses, a quem eles chamam druídas, e que tenho aprendido muito com eles. Falam-me de coisas distantes de nós e os seus deuses não são senão alma e alheios aos caprichos. Não seria melhor acreditar em deuses assim? Não penses também que aderi ao seu culto, no entanto, ou pior que virei cristã. Não. Cultivei um único ódio na vida e esse foi o ódio pelos cristãos. Não desejo nada de bom a esses semitas sujos e ao seu deus crucificado. Os cristãos trariam mais Norma do que Ordem. Se morro feliz com a idade a que cheguei uma das razões é saber que não serão precisos mais que dez imperadores, ou menos ainda, para que os nomes dessa gente nunca mais sejam escritos.
Mas fecha os olhos agora e não ouças mais os delírios desta velha. Não estou cansada da vida, mas estou já um pouco cansada de ir morrendo. Não sei se verei as folhas caírem e nascerem de novo nas grandes árvores de Lutércia e por certo Xenofonte é agora tão velho que, ainda que quisesse, não me poderia mais levar a ver o mar. E não, não voltarei a Roma. Queres que morra como uma grande matrona num leito de seda do grande palácio que construíste na Urbe? Perdoa o orgulho de uma velha que lhe toma a melhor, mas digo-te não. Uma coisa gostava no entanto, de ver-te outra vez e poisar a minha mão sobre o teu rosto. Também estás velho agora? Quantos anos passaram por ti desde que o meu rapaz se tornou um grande general do Império? Não me digas quantos pois prefiro fingir que os não contei.
Anseio apenas que na tua idade ainda não tenhas aprendido a dizer não como eu aprendi e que sejas tu a aceder ao meu pedido. Vem pelo caminho mais seguro, mas vem depressa, meu filho. Não que morra já, mas porque desejo mais que tudo ter-te a meu lado novamente.
terça-feira, março 18, 2008
Beijos por Lisboa ou Aquilo que levamos da Cidade
Para Rosa de Medeiros Carreiro e Sara Guia d'Abreu que comigo vão vivendo e amando Lisboa que namora o Tejo.
Deixa que na mesa as velhas digam a sua conversa
Lenta, cansada e sempre igual.
E os cães passam e ladram sem caravanas
E as pessoas passam pelas mesas dos cafés
Aos olhos atentos do Pessoa
E Lisboa assim é um pouco mais Lisboa no crepúsculo duma tarde.
Numa esquina ou numa escada
Escorrega as tuas mãos sobre a minha cintura
E cola a tua boca na minha num beijo
Que não quero levar mais nada da Cidade.
Deixa que na mesa as velhas digam a sua conversa
Lenta, cansada e sempre igual.
E os cães passam e ladram sem caravanas
E as pessoas passam pelas mesas dos cafés
Aos olhos atentos do Pessoa
E Lisboa assim é um pouco mais Lisboa no crepúsculo duma tarde.
Numa esquina ou numa escada
Escorrega as tuas mãos sobre a minha cintura
E cola a tua boca na minha num beijo
Que não quero levar mais nada da Cidade.
quarta-feira, março 12, 2008
Canto do Chegar
Diz-me de chegar
E de tardes com braços abertos
E beija-me de beijos
Que digam coisas
Que mesmo as palavras não dizem.
E de tardes com braços abertos
E beija-me de beijos
Que digam coisas
Que mesmo as palavras não dizem.
Lamento de Partida
Diz-me de partir
E leva-me em palavras de consolo
Que embalado em palavras dói menos ir
Onde tenho de ir.
E leva-me em palavras de consolo
Que embalado em palavras dói menos ir
Onde tenho de ir.
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