Pela chegada da noite reservo-me direitos lânguidos.
Levemente esticado no grande cadeirão azul
O corpo de hoje dá à luz meu corpo para amanhã.
Rolam nos dedos folhas que dizem poesias.
Nos olhos agora o sono.
O sono é um banho tépido
Que a alma toma.
Adormeço como quem dorme descansado
Um sonho onde soubera o que começa,
Mas nunca acaba.
sexta-feira, julho 03, 2009
terça-feira, junho 30, 2009
Gaivota
Nas mãos abertas encontro agora pequenos silêncios.
Como em aves voando o gesto é gerador de intensas palavras.
Como em aves voando o gesto é gerador de intensas palavras.
sábado, junho 20, 2009
Dança entre a mulher mais bela do mundo e o rapaz de olhos de azul
Numa sala que não existe, onde a luz não há, a mulher mais bela do mundo aplica delicadamente o pó de arroz. Estrondosamente feliz ela agora invade cada salão.
O rapaz de olhos de azul é luz em si mesmo no pateo escuro. Agita os braços magros em gestos lentos. A face coberta de pó de arroz.
A música é um exaltação dos sentidos. Ambos vêem com os olhos demasiado abertos. Tudo neles é agora desperto e natural.
O rapaz de olhos de azul e a mulher mais bela do mundo são como duas crianças irmãs que se amam pela inocência dos olhos. São demasiado belos para perceber como de facto são exultantemente belos.
Os dois vivem agora uma felicidade isolada e compreendida a dois. São alheios ao impacto visual que causam em todos quantos os vêem sem por isso se deixarem de sentir de certa forma olhados.
Deixado só a um canto observo-os e imagino quanto de prazer me daria escrevê-los.
O rapaz de olhos de azul é luz em si mesmo no pateo escuro. Agita os braços magros em gestos lentos. A face coberta de pó de arroz.
A música é um exaltação dos sentidos. Ambos vêem com os olhos demasiado abertos. Tudo neles é agora desperto e natural.
O rapaz de olhos de azul e a mulher mais bela do mundo são como duas crianças irmãs que se amam pela inocência dos olhos. São demasiado belos para perceber como de facto são exultantemente belos.
Os dois vivem agora uma felicidade isolada e compreendida a dois. São alheios ao impacto visual que causam em todos quantos os vêem sem por isso se deixarem de sentir de certa forma olhados.
Deixado só a um canto observo-os e imagino quanto de prazer me daria escrevê-los.
segunda-feira, junho 08, 2009
Das folhas
Há folhas mortas no meu jardim. Com que cuidado as limpo, lavo e penteio! Ansiosamente junto-as. Observo-as como quem mastiga algo superiormente bom. Enrugadas, por vezes estalam e partem apenas com ligeiros toques. Mesmo a essas guardo-as. Guardo-as todas em grandes jarros de vidro cuidadosamente transparente. Observo-as como um cientista disseca. Longas horas de Outono. Não falo delas nunca. Não são para se falar. São para eu observá-las Conheco-as por cada linha e dar-lhes-ia mesmo nome não fosse isso bizarro. Agora que é verão deixo-me quieto, calado e mudo até ao instante em que haja no meu jardim a primeira folha morta.
domingo, maio 24, 2009
Duma tarde de Domingo
Da vida dir-se-ia uma tarde de domingo. Ao fundo da sala resta a mesa cheia de coisas d'ontem: os pratos ainda sujos da sobremesa, os copos ligeiramente entornados deixando uma e outra mancha de tinto sobre a toalha. O corpo afundado no sofá, afogado em almofadas e mantas. Emoções em pequenas cenas passam no ecrã. Ocasionalmente, alguém ri e isso lembra-nos o prazer de ter amigos. Felizes, os olhares encontram-se na sala. Enquanto o sol morre na varanda sabemos, descansados, que está tudo bem.
sexta-feira, maio 15, 2009
Retrato de elegante saboreando um sorvete
Vejo-a enquanto morde e masca a fruta de gosto forte e ácido. Por vezes dá gritinhos e outras tantas faz caretas de desagrado. Mas continua a levar a fruta de gosto forte e ácido à boca. Estica os beiços e dá breves dentadas. Enquanto o suco lhe ultrapassa as papilas gustativas e lhe chega ao esófago, percebo um ritual humano e de segredos. Em cada gesto resta um espelho que revela o contrário do que esconde. Como ver agora cada reflexo em cada espelho e ainda assim sentir o seu sabor?
terça-feira, maio 12, 2009
Para uma tarde em que talvez amasse uma rapariga sobre uma janela
Dizem assim que é tão bela
E bela coisa de ver.
Não sei se bela é ela
Ou qualquer coisa além dela
Que se parece perder.
Tem recato e é bela,
Ela sobre a janela,
Isso todos dirão.
É ela mais bela que a janela,
Janela por ela aberta
Directa ao meu coração.
E bela coisa de ver.
Não sei se bela é ela
Ou qualquer coisa além dela
Que se parece perder.
Tem recato e é bela,
Ela sobre a janela,
Isso todos dirão.
É ela mais bela que a janela,
Janela por ela aberta
Directa ao meu coração.
Das coisas que o corpo nu de um homem nos faz pensar
De um dia como hoje
Diga-se
Sol, mas também vento.
Sobre a mesa
A ideia
Da imagem do teu corpo estendido.
A pele escura e um cheiro
Intrincado
Difícil de destrincar.
Jogamos o jogo dos signos
E outro
Das palavras fáceis.
Há coisas ainda para dizer:
Agora as tuas mãos, como cavalos,
Pelos meus cabelos,
Como mar.
O teu beiço de carne
É agora
Silêncio.
Um gemido breve
Mas, lânguido.
Nele sei que há também outros dias,
De outras
Palavras,
Mas nunca mais como este.
Diga-se
Sol, mas também vento.
Sobre a mesa
A ideia
Da imagem do teu corpo estendido.
A pele escura e um cheiro
Intrincado
Difícil de destrincar.
Jogamos o jogo dos signos
E outro
Das palavras fáceis.
Há coisas ainda para dizer:
Agora as tuas mãos, como cavalos,
Pelos meus cabelos,
Como mar.
O teu beiço de carne
É agora
Silêncio.
Um gemido breve
Mas, lânguido.
Nele sei que há também outros dias,
De outras
Palavras,
Mas nunca mais como este.
quinta-feira, maio 07, 2009
Um corpo que não o toque
Teu corpo que não toque
E teus cabelos que não os sinta
Em força és ausência em mim
E quase abstracção
Não sei, mas sinto
E nem sei o que sinto
Nem nada do que é de saber
Teu corpo escapa-me
Foge-me
Ausentas-te de mim
Como se nunca mais viesses
Como se nunca estivesses
Perto do meu corpo
A respiração lenta
A viagem das tuas mãos
Novas terras que reclames
Lembra-me de chorar-te
No dia que chegar Outubro
Quando os dias perderem sentido
E teus cabelos que não os sinta
Em força és ausência em mim
E quase abstracção
Não sei, mas sinto
E nem sei o que sinto
Nem nada do que é de saber
Teu corpo escapa-me
Foge-me
Ausentas-te de mim
Como se nunca mais viesses
Como se nunca estivesses
Perto do meu corpo
A respiração lenta
A viagem das tuas mãos
Novas terras que reclames
Lembra-me de chorar-te
No dia que chegar Outubro
Quando os dias perderem sentido
Ideia de mulher que dorme sobre uma rede
Simples como a água é o canto
De redores, de estradas, de espanto
De cavalos em fúria em teus cabelos.
E dizê-lo é chegar-te
Como o sol das três da tarde
Enquanto tua alma transpirada resta
Sob o sol de todos os dias.
De redores, de estradas, de espanto
De cavalos em fúria em teus cabelos.
E dizê-lo é chegar-te
Como o sol das três da tarde
Enquanto tua alma transpirada resta
Sob o sol de todos os dias.
domingo, maio 03, 2009
Evocando a última cena do bailado "Inês de Castro"
Dona Inês está morta, mas sussurra no ouvido de Dom Pedro:
"Leva-me a dançar sobre a água"
No corpo jacente e bailante de Inês, Pedro planta um jardim de coisas indizíveis. Tudo nasce sobre a água que submergiu o convento de Santa Clara. Essa água emerge em nós, sempre que uma Inês sussura ao ouvido de um seu Pedro.
"Leva-me a dançar sobre a água"
No corpo jacente e bailante de Inês, Pedro planta um jardim de coisas indizíveis. Tudo nasce sobre a água que submergiu o convento de Santa Clara. Essa água emerge em nós, sempre que uma Inês sussura ao ouvido de um seu Pedro.
Em noite frente ao Tejo ou Ensaios de literatura vindoira
Nas horas inumeráveis e inexistíveis encontro um espaço
Por onde abrir uma porta.
Coisas que se digam.
Guardo amenos silêncios romanos.
É de tarde no forum da minha vida
E estendo uma rede da coluna de Trajano à coluna de Adriano.
Uma cesta leve
Leva coisas que me fazem feliz
Como o rio.
Hoje é um dia em que estou frente
Ao rio assim que cai a noite.
Ao longe os cafés, os restaurantes,
Todas as coisas de frenesim
E na estação os combois vão para longe
Com coisas de livros que quero escrever.
Por onde abrir uma porta.
Coisas que se digam.
Guardo amenos silêncios romanos.
É de tarde no forum da minha vida
E estendo uma rede da coluna de Trajano à coluna de Adriano.
Uma cesta leve
Leva coisas que me fazem feliz
Como o rio.
Hoje é um dia em que estou frente
Ao rio assim que cai a noite.
Ao longe os cafés, os restaurantes,
Todas as coisas de frenesim
E na estação os combois vão para longe
Com coisas de livros que quero escrever.
terça-feira, abril 21, 2009
Gonçala sentada no muro
Não me lembro de estar parada há tanto tempo. Aqui é como se houvesse ausência de tempo. O tempo afogou-se no verde. Mas continua uma palavra constante.
Estou sentada em cima do muro e não falo há quatro dias. Penso muito. Observo sobretudo. A casa é grande e de pedra. Os nosso quartos são frios e pela parede escorre a humidade. O jardim em redor da casa é tão grande como o silêncio. Aqui tudo se funde misturado em círculos que se inter-cruzam continuamente sem entender o que é um ou outro. Silêncio, paz, pensamento, Verde.
Ainda há pouco passou por aqui um grupo de miúdos. Vi-os apenas ao longe. Pareciam figurinhas de desenho animado. Via-lhes os gestos desfocados e ouvia as suas vozes esganiçadas pela distância. Estavam alegres e riam. Talvez partilhassem estórias engraçadas uns com os outros.
Que pode achar um grupo de miúdos duma rapariga sentada em cima dum muro olhando o vale? E que me interessa isso? Eles não vão tocar a minha vida. Tão pouco eu a deles. Mas ainda assim, aqui onde nada é, parecemos ligados pelo Verde.
Agora fecho os olhos. Sou eu que estou também ali, do outro lado do muro, cheia de gente, contando estórias engraçadas duma outra vida que vivi.
Estou sentada em cima do muro e não falo há quatro dias. Penso muito. Observo sobretudo. A casa é grande e de pedra. Os nosso quartos são frios e pela parede escorre a humidade. O jardim em redor da casa é tão grande como o silêncio. Aqui tudo se funde misturado em círculos que se inter-cruzam continuamente sem entender o que é um ou outro. Silêncio, paz, pensamento, Verde.
Ainda há pouco passou por aqui um grupo de miúdos. Vi-os apenas ao longe. Pareciam figurinhas de desenho animado. Via-lhes os gestos desfocados e ouvia as suas vozes esganiçadas pela distância. Estavam alegres e riam. Talvez partilhassem estórias engraçadas uns com os outros.
Que pode achar um grupo de miúdos duma rapariga sentada em cima dum muro olhando o vale? E que me interessa isso? Eles não vão tocar a minha vida. Tão pouco eu a deles. Mas ainda assim, aqui onde nada é, parecemos ligados pelo Verde.
Agora fecho os olhos. Sou eu que estou também ali, do outro lado do muro, cheia de gente, contando estórias engraçadas duma outra vida que vivi.
quinta-feira, abril 16, 2009
Numa noite de dor d'alma
Perguntei no velho da tribo dos significados das coisas. Falou-me nas voltas do mundo e no voo do grande pássaro umbi-umbi. E disse de dias de tristeza e dor e falou dum sol, esse tal que nasce depois das coisas.
quinta-feira, março 12, 2009
quarta-feira, março 11, 2009
Três elementos em variações, ainda que aproximadas, de escrita ou Retratos inseguros duma cena que vi numa telenovela e suas alterações
Atentemos: o corpo em rotação. Os fones pendurados nas orelhas como algo entre uns brincos e um colar. Alma esguia, corpo sadio. Há música! O vestido é azul e escorrega pela cintura até aos joelhos. (não há grande poesia em dizer-se joelhos). Tentemos de novo: o vestido é branco e escorrega pelas ancas. O movimento é langoroso. Dir-se-ia exacto. Sobretudo, sensual. É uma música que ela sabe, só ela sabe.
Um outro plano. Uma mulher, vulgar de trinta anos, digamos, tem um vestido azul. Agora está numa sala muito grande e dança frente ao espelho. Frente ao espelho está vidrada frente ao vidro. Vício da própria imagem. Quem será? Ela ou outra? O corpo dança. Não podemos repetir que é langoroso ou sensual. O corpo mexe-se num movimento envolvente. (sim, digamos envolvente). A música é da Ella Fitzgerald. Todos sabem como gosta d'Ella.
Como as ondas do mar assim o corpo se agitasse num vestido azul. A sua dança talvez em palavras de pouca poesia, poesia barata.
Tentemos de novo ainda uma outra vez. Na Fábrica do Braço de Prata. A cantora, ao fundo da sala, de uma das salas, canta um jazz sobre a Primavera. Ela já não tem fones entre uns brincos e um colar, mas tem brincos e colar. Está acopanhada. Por quem ainda não interessa bem. Ri muito alto, é estridente. O vestido é branco, mas tem uma barra azul. Poisou o martini na bancada. Segura a mão dele e puxa-o com muita força. Não mede os gestos. Nada é exacto senão a voz segura da cantora que está no fundo da sala. Abana-se e agita-se e estrangula-se em movimentos irregulares duma dança desorganizada.
(que diria esta mulher, a outra, a das primeiras vezes, se olhasse para esta mulher, esta a da última vez? o que há de comum em tudo)
A imagem é certa e forte. Talvez tente escrever sobre isso: uma mulher, um vestido e uma dança frenética ou talvez segura sobre tudo isto.
Um outro plano. Uma mulher, vulgar de trinta anos, digamos, tem um vestido azul. Agora está numa sala muito grande e dança frente ao espelho. Frente ao espelho está vidrada frente ao vidro. Vício da própria imagem. Quem será? Ela ou outra? O corpo dança. Não podemos repetir que é langoroso ou sensual. O corpo mexe-se num movimento envolvente. (sim, digamos envolvente). A música é da Ella Fitzgerald. Todos sabem como gosta d'Ella.
Como as ondas do mar assim o corpo se agitasse num vestido azul. A sua dança talvez em palavras de pouca poesia, poesia barata.
Tentemos de novo ainda uma outra vez. Na Fábrica do Braço de Prata. A cantora, ao fundo da sala, de uma das salas, canta um jazz sobre a Primavera. Ela já não tem fones entre uns brincos e um colar, mas tem brincos e colar. Está acopanhada. Por quem ainda não interessa bem. Ri muito alto, é estridente. O vestido é branco, mas tem uma barra azul. Poisou o martini na bancada. Segura a mão dele e puxa-o com muita força. Não mede os gestos. Nada é exacto senão a voz segura da cantora que está no fundo da sala. Abana-se e agita-se e estrangula-se em movimentos irregulares duma dança desorganizada.
(que diria esta mulher, a outra, a das primeiras vezes, se olhasse para esta mulher, esta a da última vez? o que há de comum em tudo)
A imagem é certa e forte. Talvez tente escrever sobre isso: uma mulher, um vestido e uma dança frenética ou talvez segura sobre tudo isto.
Enfim, alguma coisa... ou Temperança sobre a Viagem
De coisas frescas se faz uma manhã
De coisas simples o resto do dia.
Hoje há sol
Como quando a luz bate sobre a casa branca.
Medida exacta
Razão de ouro.
Sob o pateo quadrado algo ancestral.
Dias anteriores ao tempo.
E fronteiras além-mar até onde eu chegue.
De coisas simples o resto do dia.
Hoje há sol
Como quando a luz bate sobre a casa branca.
Medida exacta
Razão de ouro.
Sob o pateo quadrado algo ancestral.
Dias anteriores ao tempo.
E fronteiras além-mar até onde eu chegue.
sexta-feira, fevereiro 20, 2009
Carni Vale
Mas o que imprime a sua marca ao Carnaval, o seu espírito enganador, é o dominó de veludo, conferindo aos que o usam o anonimato a que todo o homem aspira no fundo do coração. Tornar-se anónimo, no meio de uma multidão anónima, sem revelar nem sexo, nem origem, nem mesmo a expressão do rosto, porque a máscara desse hábito de frade louco só descobre dois olhos, brilhando como os olhos de uma muçulmana ou de um urso. Nenhum traço identificador; nem mesmo o contorno do corpo se desvenda. seios, coxas, faces, tudo desaparece. E escondido sob o hábito carnavalesco (como um desejo criminoso no coração, uma tentação irresistível, um impulso que aprece predeterminado) jaz o germe de qualquer coisa: de uma liberdade que o homem nem sequer se atreve a sonhar. O mascarado sente-se livre de fazer o que lhe aprouver. Todos os crimes impunes da cidade, todos os casos trágicos de confusão de identidade, são o fruto do Carnaval; e por outro lado muitas aventuras de amor se atam e desatam nesses dias em que nos libertamos do selo da personalidade, da servidão das nossas pessoas. Uma vez dentro da opa de veludo, a mulher perde o marido, o marido perde a mulher, o amante a bem amada. O ar crepita com o sal das contendas e loucuras, com a fúria das batalhas, com a agonia de uma noite de buscas infrutíferas, de desesperos. Nunca se sabe se dançamos com uma mulher ou com um homem. As márés sombrias de Eros, que exigem uma identidade total para inundarem a alma humana, explodem durante o Carnaval com uma força longamente represada e libertam estranhas criaturas primitivas- as perversões que são, suponho eu, o alimento da psique-, seres que se podem crer fugidos do monte Brocken ou das garras de Eblis. Sim, quem pode deixar de amar o Carnaval quando nele todas as dívidas se pagam, todos os crimes se expiam ou cometem, todos os desejos ilícitos se satisfazem, sem culpa ou premeditação, sem as penas que a consciência ou a sociedade humana combinam?
In "Quarteto de Alexandria. Baltasar"
In "Quarteto de Alexandria. Baltasar"
Excertos- I
Foram os melhores dias da vida de Tancredi e de Angelica, vidas que viriam depois a ser tão diversas, tão pecaminosas sobre o inevitável fundo de dor. Nessa altura porém não o sabiam e ambicionavam um futuro que julgavam mais concreto, embora depois se revelasse feito apenas de fumo e vento. Quando já eram velhos e inultilmente sábios, os seus pensamentos regressavam a esses dias do desejo sempre presente porque sempre vencido, dos inúmeros leitos que se tinham oferecido e que tinham sido recusados, do frenesim sensual que, refreado, se sublimara, por um instante, em renúncia, ou seja, em verdadeiro amor. Esses dias foram a preparação para o casamento que, mesmo no plano erótico, foi um fracasso; uma preparação, porém, que assumiu o aspecto de algo independente, delicado e breve: como aquelas aberturas que sobrevivem às óperas esquecidas e que contêm em esboço e cheias de uma vitalidade velada de pudor, todas as árias que sem qualquer destreza eram depois desenvolvidas na ópera, e fracassavam.
In "O Leopardo"
Quanto a mim, foi como se não tivesse lá estado, ou muito pouco... Na obscuridade da capela, iluminada apenas pelos dois cilícios do altar, naão vi a quem dava a mão. O bom Henri de Montchevreuil, que me servia de testemunha, disse-me qualquer coisa, mas não percebi o quê. Não ouvi o rei responder às perguntas do arcebispo, não me ouvi a mim própria consentir na minha elevação. Só recuperei a consciência de mim mesma por volta do Agnus Dei para reflectir que estava a ser tão glorificada neste mundo que tinha motivos para recear ser humilhada e confundida no outro; e recaí no meu estupor até ao último evangelho, quando subitamente disse a mim mesma que não poderia subir mais alto.
Comecei, então, a temer o tédio.
In "A Alameda do Rei"
In "O Leopardo"
Quanto a mim, foi como se não tivesse lá estado, ou muito pouco... Na obscuridade da capela, iluminada apenas pelos dois cilícios do altar, naão vi a quem dava a mão. O bom Henri de Montchevreuil, que me servia de testemunha, disse-me qualquer coisa, mas não percebi o quê. Não ouvi o rei responder às perguntas do arcebispo, não me ouvi a mim própria consentir na minha elevação. Só recuperei a consciência de mim mesma por volta do Agnus Dei para reflectir que estava a ser tão glorificada neste mundo que tinha motivos para recear ser humilhada e confundida no outro; e recaí no meu estupor até ao último evangelho, quando subitamente disse a mim mesma que não poderia subir mais alto.
Comecei, então, a temer o tédio.
In "A Alameda do Rei"
Subscrever:
Mensagens (Atom)