sábado, junho 20, 2009

Dança entre a mulher mais bela do mundo e o rapaz de olhos de azul

Numa sala que não existe, onde a luz não há, a mulher mais bela do mundo aplica delicadamente o pó de arroz. Estrondosamente feliz ela agora invade cada salão.

O rapaz de olhos de azul é luz em si mesmo no pateo escuro. Agita os braços magros em gestos lentos. A face coberta de pó de arroz.

A música é um exaltação dos sentidos. Ambos vêem com os olhos demasiado abertos. Tudo neles é agora desperto e natural.

O rapaz de olhos de azul e a mulher mais bela do mundo são como duas crianças irmãs que se amam pela inocência dos olhos. São demasiado belos para perceber como de facto são exultantemente belos.

Os dois vivem agora uma felicidade isolada e compreendida a dois. São alheios ao impacto visual que causam em todos quantos os vêem sem por isso se deixarem de sentir de certa forma olhados.

Deixado só a um canto observo-os e imagino quanto de prazer me daria escrevê-los.

segunda-feira, junho 08, 2009

Das folhas

Há folhas mortas no meu jardim. Com que cuidado as limpo, lavo e penteio! Ansiosamente junto-as. Observo-as como quem mastiga algo superiormente bom. Enrugadas, por vezes estalam e partem apenas com ligeiros toques. Mesmo a essas guardo-as. Guardo-as todas em grandes jarros de vidro cuidadosamente transparente. Observo-as como um cientista disseca. Longas horas de Outono. Não falo delas nunca. Não são para se falar. São para eu observá-las Conheco-as por cada linha e dar-lhes-ia mesmo nome não fosse isso bizarro. Agora que é verão deixo-me quieto, calado e mudo até ao instante em que haja no meu jardim a primeira folha morta.

domingo, maio 24, 2009

Duma tarde de Domingo

Da vida dir-se-ia uma tarde de domingo. Ao fundo da sala resta a mesa cheia de coisas d'ontem: os pratos ainda sujos da sobremesa, os copos ligeiramente entornados deixando uma e outra mancha de tinto sobre a toalha. O corpo afundado no sofá, afogado em almofadas e mantas. Emoções em pequenas cenas passam no ecrã. Ocasionalmente, alguém ri e isso lembra-nos o prazer de ter amigos. Felizes, os olhares encontram-se na sala. Enquanto o sol morre na varanda sabemos, descansados, que está tudo bem.

sexta-feira, maio 15, 2009

Retrato de elegante saboreando um sorvete

Vejo-a enquanto morde e masca a fruta de gosto forte e ácido. Por vezes dá gritinhos e outras tantas faz caretas de desagrado. Mas continua a levar a fruta de gosto forte e ácido à boca. Estica os beiços e dá breves dentadas. Enquanto o suco lhe ultrapassa as papilas gustativas e lhe chega ao esófago, percebo um ritual humano e de segredos. Em cada gesto resta um espelho que revela o contrário do que esconde. Como ver agora cada reflexo em cada espelho e ainda assim sentir o seu sabor?

terça-feira, maio 12, 2009

Para uma tarde em que talvez amasse uma rapariga sobre uma janela

Dizem assim que é tão bela
E bela coisa de ver.
Não sei se bela é ela
Ou qualquer coisa além dela
Que se parece perder.

Tem recato e é bela,
Ela sobre a janela,
Isso todos dirão.
É ela mais bela que a janela,
Janela por ela aberta
Directa ao meu coração.

Das coisas que o corpo nu de um homem nos faz pensar

De um dia como hoje
Diga-se
Sol, mas também vento.

Sobre a mesa
A ideia
Da imagem do teu corpo estendido.

A pele escura e um cheiro
Intrincado
Difícil de destrincar.

Jogamos o jogo dos signos
E outro
Das palavras fáceis.

Há coisas ainda para dizer:
Agora as tuas mãos, como cavalos,
Pelos meus cabelos,
Como mar.

O teu beiço de carne
É agora
Silêncio.
Um gemido breve
Mas, lânguido.

Nele sei que há também outros dias,
De outras
Palavras,
Mas nunca mais como este.

quinta-feira, maio 07, 2009

Um corpo que não o toque

Teu corpo que não toque
E teus cabelos que não os sinta

Em força és ausência em mim
E quase abstracção

Não sei, mas sinto
E nem sei o que sinto

Nem nada do que é de saber

Teu corpo escapa-me
Foge-me

Ausentas-te de mim

Como se nunca mais viesses
Como se nunca estivesses
Perto do meu corpo

A respiração lenta
A viagem das tuas mãos
Novas terras que reclames

Lembra-me de chorar-te
No dia que chegar Outubro
Quando os dias perderem sentido

Ideia de mulher que dorme sobre uma rede

Simples como a água é o canto

De redores, de estradas, de espanto

De cavalos em fúria em teus cabelos.


E dizê-lo é chegar-te

Como o sol das três da tarde

Enquanto tua alma transpirada resta

Sob o sol de todos os dias.

domingo, maio 03, 2009

Evocando a última cena do bailado "Inês de Castro"

Dona Inês está morta, mas sussurra no ouvido de Dom Pedro:

"Leva-me a dançar sobre a água"

No corpo jacente e bailante de Inês, Pedro planta um jardim de coisas indizíveis. Tudo nasce sobre a água que submergiu o convento de Santa Clara. Essa água emerge em nós, sempre que uma Inês sussura ao ouvido de um seu Pedro.

Em noite frente ao Tejo ou Ensaios de literatura vindoira

Nas horas inumeráveis e inexistíveis encontro um espaço
Por onde abrir uma porta.

Coisas que se digam.
Guardo amenos silêncios romanos.

É de tarde no forum da minha vida
E estendo uma rede da coluna de Trajano à coluna de Adriano.

Uma cesta leve
Leva coisas que me fazem feliz

Como o rio.

Hoje é um dia em que estou frente
Ao rio assim que cai a noite.

Ao longe os cafés, os restaurantes,
Todas as coisas de frenesim

E na estação os combois vão para longe
Com coisas de livros que quero escrever.

terça-feira, abril 21, 2009

Gonçala sentada no muro

Não me lembro de estar parada há tanto tempo. Aqui é como se houvesse ausência de tempo. O tempo afogou-se no verde. Mas continua uma palavra constante.

Estou sentada em cima do muro e não falo há quatro dias. Penso muito. Observo sobretudo. A casa é grande e de pedra. Os nosso quartos são frios e pela parede escorre a humidade. O jardim em redor da casa é tão grande como o silêncio. Aqui tudo se funde misturado em círculos que se inter-cruzam continuamente sem entender o que é um ou outro. Silêncio, paz, pensamento, Verde.

Ainda há pouco passou por aqui um grupo de miúdos. Vi-os apenas ao longe. Pareciam figurinhas de desenho animado. Via-lhes os gestos desfocados e ouvia as suas vozes esganiçadas pela distância. Estavam alegres e riam. Talvez partilhassem estórias engraçadas uns com os outros.

Que pode achar um grupo de miúdos duma rapariga sentada em cima dum muro olhando o vale? E que me interessa isso? Eles não vão tocar a minha vida. Tão pouco eu a deles. Mas ainda assim, aqui onde nada é, parecemos ligados pelo Verde.

Agora fecho os olhos. Sou eu que estou também ali, do outro lado do muro, cheia de gente, contando estórias engraçadas duma outra vida que vivi.

quinta-feira, abril 16, 2009

Numa noite de dor d'alma

Perguntei no velho da tribo dos significados das coisas. Falou-me nas voltas do mundo e no voo do grande pássaro umbi-umbi. E disse de dias de tristeza e dor e falou dum sol, esse tal que nasce depois das coisas.

quarta-feira, março 11, 2009

Três elementos em variações, ainda que aproximadas, de escrita ou Retratos inseguros duma cena que vi numa telenovela e suas alterações

Atentemos: o corpo em rotação. Os fones pendurados nas orelhas como algo entre uns brincos e um colar. Alma esguia, corpo sadio. Há música! O vestido é azul e escorrega pela cintura até aos joelhos. (não há grande poesia em dizer-se joelhos). Tentemos de novo: o vestido é branco e escorrega pelas ancas. O movimento é langoroso. Dir-se-ia exacto. Sobretudo, sensual. É uma música que ela sabe, só ela sabe.

Um outro plano. Uma mulher, vulgar de trinta anos, digamos, tem um vestido azul. Agora está numa sala muito grande e dança frente ao espelho. Frente ao espelho está vidrada frente ao vidro. Vício da própria imagem. Quem será? Ela ou outra? O corpo dança. Não podemos repetir que é langoroso ou sensual. O corpo mexe-se num movimento envolvente. (sim, digamos envolvente). A música é da Ella Fitzgerald. Todos sabem como gosta d'Ella.

Como as ondas do mar assim o corpo se agitasse num vestido azul. A sua dança talvez em palavras de pouca poesia, poesia barata.

Tentemos de novo ainda uma outra vez. Na Fábrica do Braço de Prata. A cantora, ao fundo da sala, de uma das salas, canta um jazz sobre a Primavera. Ela já não tem fones entre uns brincos e um colar, mas tem brincos e colar. Está acopanhada. Por quem ainda não interessa bem. Ri muito alto, é estridente. O vestido é branco, mas tem uma barra azul. Poisou o martini na bancada. Segura a mão dele e puxa-o com muita força. Não mede os gestos. Nada é exacto senão a voz segura da cantora que está no fundo da sala. Abana-se e agita-se e estrangula-se em movimentos irregulares duma dança desorganizada.

(que diria esta mulher, a outra, a das primeiras vezes, se olhasse para esta mulher, esta a da última vez? o que há de comum em tudo)

A imagem é certa e forte. Talvez tente escrever sobre isso: uma mulher, um vestido e uma dança frenética ou talvez segura sobre tudo isto.

Enfim, alguma coisa... ou Temperança sobre a Viagem

De coisas frescas se faz uma manhã
De coisas simples o resto do dia.

Hoje há sol
Como quando a luz bate sobre a casa branca.

Medida exacta
Razão de ouro.

Sob o pateo quadrado algo ancestral.

Dias anteriores ao tempo.

E fronteiras além-mar até onde eu chegue.

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Carni Vale

Mas o que imprime a sua marca ao Carnaval, o seu espírito enganador, é o dominó de veludo, conferindo aos que o usam o anonimato a que todo o homem aspira no fundo do coração. Tornar-se anónimo, no meio de uma multidão anónima, sem revelar nem sexo, nem origem, nem mesmo a expressão do rosto, porque a máscara desse hábito de frade louco só descobre dois olhos, brilhando como os olhos de uma muçulmana ou de um urso. Nenhum traço identificador; nem mesmo o contorno do corpo se desvenda. seios, coxas, faces, tudo desaparece. E escondido sob o hábito carnavalesco (como um desejo criminoso no coração, uma tentação irresistível, um impulso que aprece predeterminado) jaz o germe de qualquer coisa: de uma liberdade que o homem nem sequer se atreve a sonhar. O mascarado sente-se livre de fazer o que lhe aprouver. Todos os crimes impunes da cidade, todos os casos trágicos de confusão de identidade, são o fruto do Carnaval; e por outro lado muitas aventuras de amor se atam e desatam nesses dias em que nos libertamos do selo da personalidade, da servidão das nossas pessoas. Uma vez dentro da opa de veludo, a mulher perde o marido, o marido perde a mulher, o amante a bem amada. O ar crepita com o sal das contendas e loucuras, com a fúria das batalhas, com a agonia de uma noite de buscas infrutíferas, de desesperos. Nunca se sabe se dançamos com uma mulher ou com um homem. As márés sombrias de Eros, que exigem uma identidade total para inundarem a alma humana, explodem durante o Carnaval com uma força longamente represada e libertam estranhas criaturas primitivas- as perversões que são, suponho eu, o alimento da psique-, seres que se podem crer fugidos do monte Brocken ou das garras de Eblis. Sim, quem pode deixar de amar o Carnaval quando nele todas as dívidas se pagam, todos os crimes se expiam ou cometem, todos os desejos ilícitos se satisfazem, sem culpa ou premeditação, sem as penas que a consciência ou a sociedade humana combinam?

In "Quarteto de Alexandria. Baltasar"

Excertos- I

Foram os melhores dias da vida de Tancredi e de Angelica, vidas que viriam depois a ser tão diversas, tão pecaminosas sobre o inevitável fundo de dor. Nessa altura porém não o sabiam e ambicionavam um futuro que julgavam mais concreto, embora depois se revelasse feito apenas de fumo e vento. Quando já eram velhos e inultilmente sábios, os seus pensamentos regressavam a esses dias do desejo sempre presente porque sempre vencido, dos inúmeros leitos que se tinham oferecido e que tinham sido recusados, do frenesim sensual que, refreado, se sublimara, por um instante, em renúncia, ou seja, em verdadeiro amor. Esses dias foram a preparação para o casamento que, mesmo no plano erótico, foi um fracasso; uma preparação, porém, que assumiu o aspecto de algo independente, delicado e breve: como aquelas aberturas que sobrevivem às óperas esquecidas e que contêm em esboço e cheias de uma vitalidade velada de pudor, todas as árias que sem qualquer destreza eram depois desenvolvidas na ópera, e fracassavam.

In "O Leopardo"


Quanto a mim, foi como se não tivesse lá estado, ou muito pouco... Na obscuridade da capela, iluminada apenas pelos dois cilícios do altar, naão vi a quem dava a mão. O bom Henri de Montchevreuil, que me servia de testemunha, disse-me qualquer coisa, mas não percebi o quê. Não ouvi o rei responder às perguntas do arcebispo, não me ouvi a mim própria consentir na minha elevação. Só recuperei a consciência de mim mesma por volta do Agnus Dei para reflectir que estava a ser tão glorificada neste mundo que tinha motivos para recear ser humilhada e confundida no outro; e recaí no meu estupor até ao último evangelho, quando subitamente disse a mim mesma que não poderia subir mais alto.
Comecei, então, a temer o tédio.

In "A Alameda do Rei"

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Tela Roubada de A. (Revisited)

Entenda-se umas águas furtadas na Baixa de Lisboa. É Maio e por isso há sol. Frente a uma das janelas da casa há uma cadeira e uma mesa próxima da cadeira. A. está sentada e tem uma revista sobre o colo. As mãos, por vezes, passam as folhas, mas ela está sobretudo distraída com a luz da manhã lá fora. Olha para o lado. Sobre o sofá está o vestido que usou ontem à noite. Caído ao acaso A. descobre-lhe uma posição estética como se tivesse caído assim com alguma razão. Depois volta a concentrar-se na luz que vem da janela. Ainda tem a revista no colo, mas já não a folheia. Em cima da mesa há um copo com sumo de laranja. A. pegue nele e leva-o aos beiços. Bebe uns goles. Pousa o copo e levanta-se. Debruçada sobre o varandim A. corta algumas camélias. A. tem três varandins e ao longo deles plantou camélias. Antes havia rosas, encarnadas e brancas, mas o seu cheiro intenso e doce empastava a casa nos dias quentes de Agosto. Era apenas insuportável. Então A. desceu à Parça da Figueira e numa loja de esquina comprou sementes de camélia. Delicadamente, como quem estuda um gesto sem saber A. pega numa jarra. As camélias estão agora na jarra e A. dá-lhes um último toque. Pára uns momentos entre o distraída e o absorta e pensa no que irá fazer. Há mais um corpo deitado na sua cama e há que equacioná-lo. Entra no quarto. O homem está só ligeiramente tapado pelo lençol. A. repara nas costas fortes, nos ombros largos e na pele profundamente morena. E na luz que entra pela janela e banha o corpo do homem que dorme. A. entra na banheira. Com um gesto rápido roda a torneira e sente a água fria. O corpo contrai e a respiração torna-se mais rápida. Sente cada parte. Enquanto passa o sabão pelo corpo lembra-se da noite d'ontem. A música, a dança frenética, a casa, a cama, o seu corpo demasiado branco contra o corpo dele demasiado moreno. A. envolve-se agora na toalha. No quarto ele acordou com o som da água e levantou-se. Veste-se rapidamente e diz que prefere tomar banho em casa. A. olha-o talvez esperando que ele saia do quarto. Ele senta-se numa ponta da cama ainda por fazer. A. arranja os cabelos, livra-se da toalha e veste o vestido amarelo. Ele olha-a sempre em tudo. Ela está de costas, ams ve-o e isso deixa-a feliz.

Agora sairam. Passaram o Rossio e começam a entrar na Praça da Figueira. Daqui a pouco não será mais manhã. Gentilmente ele abre-lhe a porta da Confeitaria Nacional. Ouve-se uma música alegre. Dessas que os cantores americanos lançam na Primavera. Ela sobe a escada à frente e lá em cima escolhe a mesa. Senta-se numa cadeira junto à janela. O empregado vem e eles pedem. Enquanto esperam e depois enquanto comem falam de coisas supinamente triviais. C. tinha uma exposição perto da Graça que eles tinham que ir ver. I. lançava um novo romance nessa tarde, mas ele não podia ir. E depois a política, e a sociedade e o estado da arte. Mas a vida acontecia lá fora. A. equilibrava-se agora entre a conversa com ele e a vista sobre a Praça da Figueira. E os skaters perto da estátua, e os homens encostados à paragem do metro de olhares vagos, e as prostitutas que abriam as janelas das suas pensões de ratos e baratas. Os autocarros amarelos da Carris e os eléctricos estridentes. As pessoas apressadas e mais aquela que quase ia sendo atropelada por não respeitar o sinal. Os miúdos que chupavam em grandes doces ou trincavam bons bolos e as mães desesperadas com o melaço que escorre e mancha e suja tudo. E a possibilidade de tantas outras coisas entre a janela de casa e o varandim da Confeitaria Nacional. Ele está a pagar. Ela lança a mão à bolsa, mas ele cobre o gesto com a sua mão. Eles descem a escada e ela vai à frente. Já na rua despedem-se com um beijo. E têm mesmo que ir ver a exposição de C. e ele não vai mesmo poder ir hoje ao lançamento do livro de I., mais por embirração do que por indisponibilidade. A. tem que passar por casa antes de ir almoçar com L. como prometeu. Levanta o pulso e olha o relógio. Ainda tem tempo. A. desce a Rua Augusta. Quantas vezes podem oferecer drogas a uma pessoa? Os turistas debruçados nas montras das lojas típicas e os portugueses a encherem a Zara. E som e luz e cor. E vida! E A. chega a uma Praça do Comércio agora restaurada, agora longe dos tempos da crise. O coração da cidade bate ao mesmo tempo que o seu. Cedo A. vai partir para Berlim e ainda não sabe quando volta. Voltar isso há-de voltar. Tem voltado sempre à cidade. E no cais das colunas, o rio em frente e a cidade nas costas, A. fecha os olhos e inspira com força. Tem os pulmões cheios do ar do rio. Agora A. constrói o amanhã.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Em Alexandarplatz ou Um dia na toirada ou ainda Viagem entre a Alemanha e a arena dentro de mim mesmo

Para G., sem autorização de ser miserabilista.

Algures no vazio de Alexanderplatz passeia uma multidão de gente. Os sons estridentes da cidade, entre os comboios velozes e os infindáveis autocarros. A Galeria e as salsichas e os donuts e todas as coisa que fazem uma praça da cidade.

Depois olhei para dentro de mim mesmo.

Era um dia de arena e toirada. E a vida feito toiro marrava num recanto até correr na minha direcção. E fiquei sem ar e quase sem pulmões e não respirei durante segundos demasiado longos. E tive os olhos sempre fechados. Mas quando os abri tinha agarrado o toiro pelos cornos.

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Berlim- Impressões II

Entre as avenidas largas gosto de olhar as pessoas. Berlim entre os anos noventa e o estilo alternativo. As bicicletas passam por estradas de pedra vermelha em cima dos passeios. Ninguém sorri, mas três portugueses falam sempre muito alto onde quer que estejam. Nas lojas o hábito latino faz-nos mexer em tudo. "Olha, não achas giro?" e os olhares da caixa registadora meio desconfiados. O preto é quase imperante na rua, seja nas roupas, seja nos grandes outdoors que aqui e ali vestem os prédios altos da cidade. É uma cidade de contrastes entre a riqueza dos edifícios capitalistas e a dureza magnânima dos edifícios da RDA. Na parte boémia onde vivemos, os jovens andam em grupo e abraçam-se muito. A vitória do capital sente-se muito aqui. Entre pequenas lojas de colares e bugigangas e mercearias de cantinho há por todo o lado aliciantes fast-food's. Chineses, japoneses, vietnamitas, tantos turcos e claro os normais americanos. Oásis são as pastelarias alemãs e os seus muitos bolos de aspecto e sabor maravilhoso. Custa não comer quase tanto como custa fazê-lo. No país mais caro da Europa os preços sobem. Mas é irressistível com tantos belos convites. Nos nossos sacos comprados a vinte cêntimos descemos a rua até uma mercearia aqui perto. Os olhos bem fechados para não cair em tentação. Na casa branca, breve e quente o pão com gouda lembra de alguma maneira o pequeno-almoço em Portugal. Lá fora Berlim em stand-by só durante um momento.