pour lui
Isto que é maior que tudo: sem dias de chuva, sem livros nos bancos de jardim.
Demorarás muito tempo a voltar a casa e em verdade não mais poderás
Dizer que ali é a tua casa.
Há estas palavras que te guardo para os dias de ausência, para o não saber das coisas.
Mas aos domingos ainda haverá missa, mesmo que não estejas em nenhum banco.
Há um não-lugar onde te busco no seguimento das horas,
Aquele álbum antigo de fotografias, como uma manhã
Em que chegaste atrasado pelo sono e eu ralhei, mas depois achei graça.
A cidade é esta tua ausência porque estás
Longe das longas viagens suburbanas dos autocarros. Os jardins não te vêem
E não hei-de esperar num deles para te entregar um filme de Visconti.
Pudéramos ser personagens numa estória que termine com as palavras de sempre.
A vida não é feita de estórias, mas de ausências. É um não-estar
Mais do que um não-haver.
Porque existes nas estações, na música, sempre nas palavras. Por isso eu sei.
Por isso estou aqui.
sexta-feira, dezembro 20, 2013
domingo, dezembro 01, 2013
Ana
para A.G.
Como podendo estar parados num teatro dirias
uma coisa, depois outra.
Uma manhã em Lisboa em que Ana
Tivesse camélias na janela, como antes o fizera Dumas,
enquanro admitia um choro ou uma hipótese de ser
Mais do que uma personagem dizendo uma coisa,
depois outra coisa.
Pequeno-almoço na Confeitaria Nacional, pequena degustação dos jesuítas.
Abordas uma nota do trágico. Expulsões.
Lisboa interdita para sempre, isso sim era dramático.
Escondes-te por esta rua donde se
não veem camélias à janela. Um livro que diga a
cidade, que a explique como um pai explicando a um filho, que
não pudera ver, mas sente
no chão o tremor quando eles passam.
Chegas agora ao Tejo, paras como num teatro.
o palácio do rei de Portugal cheira a cravinho
E canela. Mas aqui
Nada cheira assim, foi acolá que mataram el-rey.
Deixei que crescessem camélias à minha
Janela não porque lesse um livro, mas porque era
Um tempo em que Ana amava um
Homem chamado Lisboa.
Como podendo estar parados num teatro dirias
uma coisa, depois outra.
Uma manhã em Lisboa em que Ana
Tivesse camélias na janela, como antes o fizera Dumas,
enquanro admitia um choro ou uma hipótese de ser
Mais do que uma personagem dizendo uma coisa,
depois outra coisa.
Pequeno-almoço na Confeitaria Nacional, pequena degustação dos jesuítas.
Abordas uma nota do trágico. Expulsões.
Lisboa interdita para sempre, isso sim era dramático.
Escondes-te por esta rua donde se
não veem camélias à janela. Um livro que diga a
cidade, que a explique como um pai explicando a um filho, que
não pudera ver, mas sente
no chão o tremor quando eles passam.
Chegas agora ao Tejo, paras como num teatro.
o palácio do rei de Portugal cheira a cravinho
E canela. Mas aqui
Nada cheira assim, foi acolá que mataram el-rey.
Deixei que crescessem camélias à minha
Janela não porque lesse um livro, mas porque era
Um tempo em que Ana amava um
Homem chamado Lisboa.
terça-feira, abril 23, 2013
Receita para sítios que magoam
Do sítio magoado não temas. Volta ao mesmo lugar onde sofreste. Olhando-o imaginarás como conquistá-lo. Trarás amigos quando houver sol. Com eles ali passearás como descendo uma alameda de tílias no jardim. Hás-de escolher um banco onde sentar ou na falta deste um degrau ou um relvado. Apenas das melhores coisas falarão. Repetirás os dias, mesmo que por vezes haja nuvens. Fa-lo-ás a pouco para que assim lentamente mudes. Repetirás mesmo as estações se tanto for preciso. Saberás agora novas memórias no sítio onde antes sofreste. Lembrarás as flores, quando houver flores, e o riso, porque haverá riso. Do sítio magoado não temas, mas conquista.
sexta-feira, abril 05, 2013
Dos dias e desta noite
Que dirás das coisas? Abeira-te das flores para saberes o que
Em secretos cantos sussuram umas às outras.
Ficavas assim parado, como algo não descrito nas páginas dos livros
Que lias nos cafés itenerantes da cidade.
A estonteante velocidade do metro, como as coisas aconteciam pelas ruas
De súbito invadidas pelos gatos vadios das esquinas.
Havia uma cor indízivel, uma coisa que todos conheciam
No coração da cidade.
Durante os tempos da tarde as horas do teu relógio rodopiavam
E tu ficavas apenas sentado à varanda na velha cadeira de verga.
Depois esta marquise de ferro forjado, as coisas das avenidas novas.
Casas de amigas que nos fazem chá às 8h da noite.
Os cães também passeiam ao redor da praça, sendo que é
Impossível falar se é dia ou depois.
Estamos em certo todos presos por uma trela assustadoramente laça
A que não queremos jamais largar.
Os jornais ondeiam enquanto viras as páginas consumindo a informação
Diária como uma obrigação urbana dos dias.
A cidade existe afinal na medida das pessoas, das janelas e das
Várias pedras da calçada.
Enquanto as coisas passam, de ligeiro te apercebes de que
Os poemas inevitavelmente acabam como uma fatalidade.
terça-feira, fevereiro 19, 2013
Os aristocratas
Aquela coisa estranhamente aristocrática de sabermos nossos os espaços também da nossa família. Essa unidade não só do tempo como do espaço, revivendo, reavivando memórias e coisas que por bem não devemos, não podemos esquecer.
segunda-feira, dezembro 31, 2012
As visitas do almoço
Esperamos pacientemente as visitas do almoço.
Desde as onze horas da manhã que povoamos a cozinha de
Cheiros, sabores e manchas nas bancadas de pedra branca.
A habilidade com que a mão segura a faca que habilmente corta
Legumes, despedaça frangos e esmaga alhos
Convenientemente odoríferos para nos fazer ansiar a passagem das horas.
Procuramos com cuidado os melhores cristais, porcelanas, linhos.
Repetimos um ritual de mesa na segurança que nos liga ao passado
Às coisas certas, às certezas indubitáveis daquilo que somos
E do que nos define.
Cumprimentamo-nos lentamente, beijos com economia planeada
Com sorrisos aprendidos na infância e reservados aos íntimos,
Os que ocupam o topo da hierarquia dos afectos.
Aprendemos cedo os lugares do mundo, das coisas, das pessoas,
Os teatros medidos dos gestos.
A casa resta no seu conforto urbano de classe média,
A elegância de varandas viradas para o Tejo
E de grandes salas luminosas e bem iluminadas
Onde pacientemente esperamos as visitas do almoço.
Desde as onze horas da manhã que povoamos a cozinha de
Cheiros, sabores e manchas nas bancadas de pedra branca.
A habilidade com que a mão segura a faca que habilmente corta
Legumes, despedaça frangos e esmaga alhos
Convenientemente odoríferos para nos fazer ansiar a passagem das horas.
Procuramos com cuidado os melhores cristais, porcelanas, linhos.
Repetimos um ritual de mesa na segurança que nos liga ao passado
Às coisas certas, às certezas indubitáveis daquilo que somos
E do que nos define.
Cumprimentamo-nos lentamente, beijos com economia planeada
Com sorrisos aprendidos na infância e reservados aos íntimos,
Os que ocupam o topo da hierarquia dos afectos.
Aprendemos cedo os lugares do mundo, das coisas, das pessoas,
Os teatros medidos dos gestos.
A casa resta no seu conforto urbano de classe média,
A elegância de varandas viradas para o Tejo
E de grandes salas luminosas e bem iluminadas
Onde pacientemente esperamos as visitas do almoço.
terça-feira, outubro 16, 2012
Livros
As coisas acontecem a seu tempo e nunca por acaso. De manhã, ainda antes da casa acordar, ou à noite quando já todos foram dormir, em casa de amigos ou familiares acontece-me por vezes (poucas) esta coisa fantástica em que um livro vem ter comigo. Eu não o conhecia, tão pouco o seu autor, mas de certa forma o encontro dá-se quando aquele é mesmo o livro que quero ler, ainda que não o soubesse. Quando o peço emprestado acabo sempre por ouvir que tinham pensado em mim quando o leram. Mas não me falaram dele- o livro esperou até à altura certa em que o pudesse encontrar numa prateleira de estante para depois passarmos longos dias a encontrarmo-nos.
sexta-feira, setembro 14, 2012
Pessoas
Das pessoas é isto que guardo- o gesto. Cada qual encerrado
Como uma coisa que acontece inesperadamente e que mesmo assim
Permanece há já muito tempo esperada.
As pessoas são espantosas ao atravessar as ruas da cidade, a guiar
Os carros da cidade, a encher os sacos de plástico comprados a
Dois cêntimos nos supermercados da cidade.
Tudo o que as pessoas vestem é belo, único e existe
Neste só momento de viver todas as coisas.
Tudo o que as pessoas escolhem é bom, justo e sensato.
Aquela mãe ali sentada, enquanto a criança lhe mama no peito
Neste pequeno espaço da paragem de autocarro, o banco
Amarelo donde ao lado o senhor corta despodoradamente as unhas dos pés.
É como uma partilha intensa de coisas, de vidas- ainda o gesto.
As pessoas são cheias de vida com mãos de agarrar, beiços que berram
Impropérios ao senhor da loja e corações constantemente batentes e que mal se sentem.
Como não amar as pessoas? Como um claustro de pensamentos reflectidos,
Com a água correndo pelas fontes, assim as pessoas- calmas e rápidas,
Cheias duma dinâmica pacífica e furiosa onde se pode adormecer a criança
Por meio da discussão com o marido.
Um cão ladra quando vê uma pessoa não por medo ou por resposta
Hormonal. Ladra de espanto, de maravilhamento por essa coisa única,
Sublime que é a pessoa. Quando lhe largará um osso ou uma bofetada
É a chave equacional que rege a vida do cão comandada por esse deus-pessoa.
Com que gosto mobilam suas casa, cadeiras na sala, camas nos quartos,
Colchas, almofadas e um quadro na parede. Medem os filhos, os luxos, os dinheiros
E os dias em que não há nada sempre em comparação com aqueles que compraram
A casa mesmo ao lado da sua- as outras pessoas.
Porque as pessoas amam tudo- só se escusam de amar aqueles, as outras pessoas.
Como uma coisa que acontece inesperadamente e que mesmo assim
Permanece há já muito tempo esperada.
As pessoas são espantosas ao atravessar as ruas da cidade, a guiar
Os carros da cidade, a encher os sacos de plástico comprados a
Dois cêntimos nos supermercados da cidade.
Tudo o que as pessoas vestem é belo, único e existe
Neste só momento de viver todas as coisas.
Tudo o que as pessoas escolhem é bom, justo e sensato.
Aquela mãe ali sentada, enquanto a criança lhe mama no peito
Neste pequeno espaço da paragem de autocarro, o banco
Amarelo donde ao lado o senhor corta despodoradamente as unhas dos pés.
É como uma partilha intensa de coisas, de vidas- ainda o gesto.
As pessoas são cheias de vida com mãos de agarrar, beiços que berram
Impropérios ao senhor da loja e corações constantemente batentes e que mal se sentem.
Como não amar as pessoas? Como um claustro de pensamentos reflectidos,
Com a água correndo pelas fontes, assim as pessoas- calmas e rápidas,
Cheias duma dinâmica pacífica e furiosa onde se pode adormecer a criança
Por meio da discussão com o marido.
Um cão ladra quando vê uma pessoa não por medo ou por resposta
Hormonal. Ladra de espanto, de maravilhamento por essa coisa única,
Sublime que é a pessoa. Quando lhe largará um osso ou uma bofetada
É a chave equacional que rege a vida do cão comandada por esse deus-pessoa.
Com que gosto mobilam suas casa, cadeiras na sala, camas nos quartos,
Colchas, almofadas e um quadro na parede. Medem os filhos, os luxos, os dinheiros
E os dias em que não há nada sempre em comparação com aqueles que compraram
A casa mesmo ao lado da sua- as outras pessoas.
Porque as pessoas amam tudo- só se escusam de amar aqueles, as outras pessoas.
sexta-feira, maio 11, 2012
Lisboa Triste
Às vezes esta cidade sem gente, sem coisas.
Esta rua que desce com varandas velhas e telhados abatendo.
Esta gente triste que aqui mora e o seu gesto ritual
Pendurando peças de roupa na corda.
Uma vida de dedos cruzados, este pateo traseiro
Por onde rebentam as ervas daninhas.
Depois esta cidade d'ausência que nos faz crescer
O vazio enquanto nos afaga e diz boa-noite.
A Lisboa dura das pedras. emprestada por horas
Ao cansaço suburbano,
Mas que nos cai sempre na alma
E nos engana de mansinho.
Esta rua que desce com varandas velhas e telhados abatendo.
Esta gente triste que aqui mora e o seu gesto ritual
Pendurando peças de roupa na corda.
Uma vida de dedos cruzados, este pateo traseiro
Por onde rebentam as ervas daninhas.
Depois esta cidade d'ausência que nos faz crescer
O vazio enquanto nos afaga e diz boa-noite.
A Lisboa dura das pedras. emprestada por horas
Ao cansaço suburbano,
Mas que nos cai sempre na alma
E nos engana de mansinho.
sexta-feira, março 09, 2012
Gustavo (talvez IV)
Chegou, abeirou-se da estante da sala, escolheu um livro e seguiu para o quarto. Lembrou-se que a incoerência faz de nós seres fantásticos. Levantou o casaco caído no chão e, junto com o seu, pendurou-os em dois cabides junto à porta. Entrou no escritório, abeirou-se da estante, escolheu um livro. Sentou-se na cadeira de palhinha da Tia Bé.
O sorriso. Depois lembrarem-se de tantas coisas passadas juntos. Felizes, como se tivesse sido sempre assim. Esticou os pés em pontos de maneira a afundá-los completamente debaixo das cobertas. Tudo era diferente e estava tudo bem. Como é que podia ser? Ele que tinha ouvido horas e horas de lamúrias. "Um palerma, um frouxo, um incapaz." Estava bem capacitado o incapaz- boa conversa, grandes sorrisos. O sorriso. E como eles sorriam...
Fechou o livro. Levantou-se, correu as cortinas, baixou os estores, passou à sala, ajeitou as almofadas do sofá, tirou os discos que estavam na aparelhagem e no leitor de DVD's, esticou as pontas do tapete, ajeitou as revistas na mesa de centro. Ia passar à casa de jantar. Ele era sempre tão confiante. Entre os dois não havia dúvidas. Os amigos notavam, as irmãs dele notavam. Um dia até a mãe lho tinha dito. Ele era a parte cheia de segurança deles os dois. Já ele, mais sumido em quase tudo, pouco se dava pela confiança que tinha em si mesmo.
Irritavam-no os sapatos ridículos de berloque e que alguém com menos de trinta anos pudesse jantar com abotoaduras de punho. A camisa engomadíssima, o fato de corte italiano. O exagero, o barroquismo. Um lenço de pescoço- de facto só um palerma se lembra de usar com vinte e oito anos o mesmo acessório que o seu avô. Mas era mais que isso. A mão dada ao namorado. "Nunca me deu sequer a mão em público. Uma vez fui jogado escadas abaixo n'"A Brasileira" só para não nos verem juntos." Ali todos os viam juntos. Ele até queria que os vissem juntos.
As gaiolas. Na marquise azul da cozinha. Chá. Um bocado de leite. Duas colheres de açúcar. Três. Era normal, afinal. Eles nunca se tinham visto. Ele mesmo não o havia há eternidades. E depois de tudo o que ele tinha dito dele. Mas ainda assim. Era de mais. Um exagero. Um amuo por encontrar o ex-namorado feliz e contente com o namorado de agora. E ele estava tão bem. Tinha gostado tanto de o ver. Geoffroy também parecia ser bem simpático. Estava a adorar Lisboa.
Entrou no quarto. Vestiu o pijama. Deitou-se esticando os pés para os afundar debaixo dos cobertores.
- É perfeitamente normal. Não sei porque é que ficaste assim.
- Não gostei. Também posso não gostar.
- Sabes que não sou eu deitado na cama dele hoje à noite, não sabes?
(não podia deixar de sorrir)
- Sim, sei. Agora que dizes isso. Sim sei, sei mesmo. Não estás pois, não? (enquanto fazia um ar agradado de espanto). Chega-te aqui. (o braço por cima do ombro.
- Vais ler-me uma estória de embalar?
- Queres?
- Porque não?
O sorriso. Depois lembrarem-se de tantas coisas passadas juntos. Felizes, como se tivesse sido sempre assim. Esticou os pés em pontos de maneira a afundá-los completamente debaixo das cobertas. Tudo era diferente e estava tudo bem. Como é que podia ser? Ele que tinha ouvido horas e horas de lamúrias. "Um palerma, um frouxo, um incapaz." Estava bem capacitado o incapaz- boa conversa, grandes sorrisos. O sorriso. E como eles sorriam...
Fechou o livro. Levantou-se, correu as cortinas, baixou os estores, passou à sala, ajeitou as almofadas do sofá, tirou os discos que estavam na aparelhagem e no leitor de DVD's, esticou as pontas do tapete, ajeitou as revistas na mesa de centro. Ia passar à casa de jantar. Ele era sempre tão confiante. Entre os dois não havia dúvidas. Os amigos notavam, as irmãs dele notavam. Um dia até a mãe lho tinha dito. Ele era a parte cheia de segurança deles os dois. Já ele, mais sumido em quase tudo, pouco se dava pela confiança que tinha em si mesmo.
Irritavam-no os sapatos ridículos de berloque e que alguém com menos de trinta anos pudesse jantar com abotoaduras de punho. A camisa engomadíssima, o fato de corte italiano. O exagero, o barroquismo. Um lenço de pescoço- de facto só um palerma se lembra de usar com vinte e oito anos o mesmo acessório que o seu avô. Mas era mais que isso. A mão dada ao namorado. "Nunca me deu sequer a mão em público. Uma vez fui jogado escadas abaixo n'"A Brasileira" só para não nos verem juntos." Ali todos os viam juntos. Ele até queria que os vissem juntos.
As gaiolas. Na marquise azul da cozinha. Chá. Um bocado de leite. Duas colheres de açúcar. Três. Era normal, afinal. Eles nunca se tinham visto. Ele mesmo não o havia há eternidades. E depois de tudo o que ele tinha dito dele. Mas ainda assim. Era de mais. Um exagero. Um amuo por encontrar o ex-namorado feliz e contente com o namorado de agora. E ele estava tão bem. Tinha gostado tanto de o ver. Geoffroy também parecia ser bem simpático. Estava a adorar Lisboa.
Entrou no quarto. Vestiu o pijama. Deitou-se esticando os pés para os afundar debaixo dos cobertores.
- É perfeitamente normal. Não sei porque é que ficaste assim.
- Não gostei. Também posso não gostar.
- Sabes que não sou eu deitado na cama dele hoje à noite, não sabes?
(não podia deixar de sorrir)
- Sim, sei. Agora que dizes isso. Sim sei, sei mesmo. Não estás pois, não? (enquanto fazia um ar agradado de espanto). Chega-te aqui. (o braço por cima do ombro.
- Vais ler-me uma estória de embalar?
- Queres?
- Porque não?
quarta-feira, fevereiro 22, 2012
Lisboa
para Sara Guia d'Abreu, como todas as nossas lisboas
Este jogo inconsequente de quebra-cabeças; uma cidade sempre nova em cada esquina. Há o mistério do azulejo, do varandim com sol, da pessoa que desce as mil escadinhas da cidade que desaguam em bairros e jardins de segredo escondidos atrás de fachadas velhas e também cansadas. Não há domingo, nem dia de estar só- em lisboa há os dias do Sol várias vezes por semana, várias vezes por estação. É esta coisa que não contamos a ninguém- este anseio sempre presente de ser cidade, de estar uno com o espaço da cidade. A cidade tem muitas torres de igreja, muitas praças, muitos cantos guardados. Uma cidade secreta, como um presente que se oferece, prenhe de estórias porque ansiamos.
Este jogo inconsequente de quebra-cabeças; uma cidade sempre nova em cada esquina. Há o mistério do azulejo, do varandim com sol, da pessoa que desce as mil escadinhas da cidade que desaguam em bairros e jardins de segredo escondidos atrás de fachadas velhas e também cansadas. Não há domingo, nem dia de estar só- em lisboa há os dias do Sol várias vezes por semana, várias vezes por estação. É esta coisa que não contamos a ninguém- este anseio sempre presente de ser cidade, de estar uno com o espaço da cidade. A cidade tem muitas torres de igreja, muitas praças, muitos cantos guardados. Uma cidade secreta, como um presente que se oferece, prenhe de estórias porque ansiamos.
sexta-feira, janeiro 27, 2012
O Quarto
para a avó
Depois que morreu, desfizeram-lhe o quarto.
Mudaram a colcha (agora guardada num baú do quarto de arrumos) e
Fizeram a cama de lavado.
Um a um, despregaram da parede os quadros dos santos à cabeceira.
Levaram para outras prateleiras, umas longe da casa,
As hagiografias da pequena estante de vimes ao canto.
Abriram os armários.
Primeiro chamaram as filhas, depois as noras, depois as netas, por fim as criadas.
Dividiram a sua roupa e deram o que cresceu aos pobres.
Empilharam as caixas que estavam no toucador, agora esvaziadas,
E como tinha dito, cada mulher do seu sangue recebeu uma jóia.
Com gravidade mandaram a escrivaninha para a casa de restauro
Prometendo mantê-la como peça de família,
Herança de disputa entre aqueles que a quisessem.
Até a velha cadeira de vimes junto à janela, onde antes fazia costura,
Está agora no jardim para que, sentados, a possamos lembrar em dias de sol.
Os homens da casa instalaram depois o escadote de ferro
E fizeram descer as cortinas azuis de folhos brancos.
Limparam-se as gavetas, distribuíram-se os terços, mudou-se a cómoda alta
E eu fiquei com o crucifixo do antigo oratório que tinha vindo em panos de linho
Pelas mãos da avó Maria Augusta.
Abrimos as cartas que eram para ler. E lemos. Ficámos muitas horas deitados
Na cama velha lendo uns aos outros pequenos bocados que nos
Apanhavam a atenção.
Houve silêncio.
A casa era este retrato físico de ausência.
Era uma coisa indizível em todas as gargantas.
Chorámos e mandámos dizer missa em igrejas da cidade.
Continuámos a amar.
Depois fomos felizes.
Depois que morreu, desfizeram-lhe o quarto.
Mudaram a colcha (agora guardada num baú do quarto de arrumos) e
Fizeram a cama de lavado.
Um a um, despregaram da parede os quadros dos santos à cabeceira.
Levaram para outras prateleiras, umas longe da casa,
As hagiografias da pequena estante de vimes ao canto.
Abriram os armários.
Primeiro chamaram as filhas, depois as noras, depois as netas, por fim as criadas.
Dividiram a sua roupa e deram o que cresceu aos pobres.
Empilharam as caixas que estavam no toucador, agora esvaziadas,
E como tinha dito, cada mulher do seu sangue recebeu uma jóia.
Com gravidade mandaram a escrivaninha para a casa de restauro
Prometendo mantê-la como peça de família,
Herança de disputa entre aqueles que a quisessem.
Até a velha cadeira de vimes junto à janela, onde antes fazia costura,
Está agora no jardim para que, sentados, a possamos lembrar em dias de sol.
Os homens da casa instalaram depois o escadote de ferro
E fizeram descer as cortinas azuis de folhos brancos.
Limparam-se as gavetas, distribuíram-se os terços, mudou-se a cómoda alta
E eu fiquei com o crucifixo do antigo oratório que tinha vindo em panos de linho
Pelas mãos da avó Maria Augusta.
Abrimos as cartas que eram para ler. E lemos. Ficámos muitas horas deitados
Na cama velha lendo uns aos outros pequenos bocados que nos
Apanhavam a atenção.
Houve silêncio.
A casa era este retrato físico de ausência.
Era uma coisa indizível em todas as gargantas.
Chorámos e mandámos dizer missa em igrejas da cidade.
Continuámos a amar.
Depois fomos felizes.
sexta-feira, dezembro 23, 2011
sábado, dezembro 10, 2011
Natal
Pequena medida certa para todas as coisas.
Sítio da casa. Um jardim de
Pequenos seixos. As mãos enrolando
Arduamente
Os dedos,
as peças,
o jogo,
as palavras.
Era aquela morte lenta e súbita
Do espanto com que entendíamos
Os dias.
Foi Outono,
depois houve tarde.
Tu sentavas-te no balcão
E bebias chá de jasmim com pó de canela.
Lá dentro era um segredo.
A casa ordenava uma a uma
As coisas ordinárias e quotidianas.
Houve esta tarde de comboios
Rápidos e ultra-sons.
Houve esta tarde de risos,
licor,
amigos,
compotas.
As panelas eram mexidas
Em intervalos exactos
De 2 horas,
Uma calda doce escorrendo
Com a eternidade do mundo
Pela colher de pau.
Às vezes abríamos a janela
E o frio entrava.
Gostavas de deixar as bochechas congelarem
Equilibrando-te com os pés em bico no
Degrau da varanda.
Vivíamos na cozinha.
Debaixo da pedra preta da chaminé
Tinhamos feito instalar o fogão
Como numa sala de trono.
Vivíamos para aquele espaço,
naquele espaço,
durante este espaço.
Os amigos chegavam.
Com que habilidade pares de mãos
Se juntavam para colocar os talheres
Numa ordem premeditada
Muito tempo antes nos palácios
D'el-rey de França.
Bebíamos por copos de cristal
E por isso éramos inevitavelmente chiques,
elegantes,
alegres,
sofisticados.
Dizias: - Somos nós que temos
O monopólio do bom gosto.
Mexíamos pequenas peças nos tabuleiros
Preparados de ante-mão.
Passávamos o tempo,
além do tempo,
sem contar o tempo.
Uma jogada calculada na exactidão
Das suas consequências.
Também fizeram a árvore de Natal,
Decorada das coisas que havíamos comprado
Em Paris, no outro inverno.
Foi naquele dia em que corremos as ruas
De Vaugirard
Entre os mercados de peixe com ostras sobre o gelo
Buscando perfeitos enfeites de vidro.
A cidade profundamente fria.
E os centros comerciais cantando
Músicas americanas do Natal.
O Natal nasceu afinal nos Estados Unidos
Nas fábricas da Coca-cola.
Nós bebemos chocolate quente
Nos cafés de Lisboa
Que servem brunch ao fim de semana.
Porque somos urbanos, internacionais
E porque fingimos ver nas Amoreiras
O Empire State Building.
Voltamos a casa
E despejamos no cabide da entrada
Um exército de casacos,
lãs,
cachecóis.
pull-overs.
Enquanto,
Amontoas pedaços de lenha
Com que enches a lareira
Agora crepitante,
Os pés enrolados nos meus,
Os pratos na mesa com restos de bacalhau
E agora adormecemos juntos
Antes que o Menino Jesus traga
Os nossos presentes.
segunda-feira, novembro 21, 2011
O meu amigo Q
Para Q, de quem já tinha saudades
O meu amigo Q voltou. Andou lá por fora e voltou. Foi "viajar, perder países", porque o Q é um homem mais que moderno- urbano. Q tem um apartamento novo num edifício antigo que decorou com cuidado e gosto. Nada é por acaso nos metros quadrados da casa do Q à excepção dos cocós do cão, que de resto já nunca se vêem. Como homem urbano Q veste bem. Tem uma colecção imensa de camisas penduradas em cabides apoiados nos puxadores das quatro portas da casa. Na verdade, Q tem tanto gosto e tanta roupa que não dorme num quarto, mas num walk-in closet. A acompanhar a roupa Q tem uma colecção admirável de acessórios: um cão lindo e eléctrico; um namorado super divertido; uma irmã fabulosamente elegante e que anda sempre tão bem vestida como ele; amigas engraçadas, giras e bem-dispostas que compõem imenso o quadro. Q tem uma família que adora, cresceu na verdadeira Alta de Lisboa (o triângulo Campo de Ourique-Amoreiras-Campolide) e é um homem educado. Tem um belo emprego e vai para o escritório num óptimo carro que é da empresa. Q gosta de moda, não vê programas parvos na tv, papa séries pela net, tem uma estante com livros do Pedro Paixão por baixo dos livros do Harry Potter e organiza jantares de aniversário no Bar do Peixe em Novembro porque toda a gente com gosto sabe que estar na praia (nunca ir à praia) no Inverno enrolado em camisolões é imenso chique. De Q pode dizer-se que tem alma de pássaro e por isso podia bem ser uma personagem dum romance de Margarida Rebelo Pinto.
De Q pode dizer-se isto, mas dirá quem não o conhece. Q é um amigo. Q andou por fora e nós não andámos mais tristes, mas por certo andámos menos alegres. E percebemos isso quando ele voltou. Q deixa-nos alegres e sempre com muitas gargalhadas na boca. Porque o meu amigo Q tem isso com ele- ele faz bem aos outros, faz genuinamente bem aos outros. Como é que ele faz isso não sei. Tão pouco acho que ele mesmo o saiba. Mas fá-lo melhor que toda a gente que conheço. Mesmo quando Q está sério, está alegre, mesmo quando está triste está ainda assim alegre. Isto não quer dizer que Q seja um tolo. Quer dizer que eu acho que Q é uma pessoa genuinamente alegre a quem o sorriso sai sem esforço porque a vida lhe dá razões para isso. Na vida de Q também deve haver chuva, dias em que o café se entorna nas calças, conversas desagradáveis e decisões difíceis, mas a sua alegria sobrepõe-se a isso. Eu e Q não somos os amigos mais íntimos, não partilhamos segredos, não trocamos confidencias. Eu e Q somos amigos e Q faz-me bem. E eu e já tinha mesmo saudades e ele voltou e faz-me mesmo bem!
O meu amigo Q voltou. Andou lá por fora e voltou. Foi "viajar, perder países", porque o Q é um homem mais que moderno- urbano. Q tem um apartamento novo num edifício antigo que decorou com cuidado e gosto. Nada é por acaso nos metros quadrados da casa do Q à excepção dos cocós do cão, que de resto já nunca se vêem. Como homem urbano Q veste bem. Tem uma colecção imensa de camisas penduradas em cabides apoiados nos puxadores das quatro portas da casa. Na verdade, Q tem tanto gosto e tanta roupa que não dorme num quarto, mas num walk-in closet. A acompanhar a roupa Q tem uma colecção admirável de acessórios: um cão lindo e eléctrico; um namorado super divertido; uma irmã fabulosamente elegante e que anda sempre tão bem vestida como ele; amigas engraçadas, giras e bem-dispostas que compõem imenso o quadro. Q tem uma família que adora, cresceu na verdadeira Alta de Lisboa (o triângulo Campo de Ourique-Amoreiras-Campolide) e é um homem educado. Tem um belo emprego e vai para o escritório num óptimo carro que é da empresa. Q gosta de moda, não vê programas parvos na tv, papa séries pela net, tem uma estante com livros do Pedro Paixão por baixo dos livros do Harry Potter e organiza jantares de aniversário no Bar do Peixe em Novembro porque toda a gente com gosto sabe que estar na praia (nunca ir à praia) no Inverno enrolado em camisolões é imenso chique. De Q pode dizer-se que tem alma de pássaro e por isso podia bem ser uma personagem dum romance de Margarida Rebelo Pinto.
De Q pode dizer-se isto, mas dirá quem não o conhece. Q é um amigo. Q andou por fora e nós não andámos mais tristes, mas por certo andámos menos alegres. E percebemos isso quando ele voltou. Q deixa-nos alegres e sempre com muitas gargalhadas na boca. Porque o meu amigo Q tem isso com ele- ele faz bem aos outros, faz genuinamente bem aos outros. Como é que ele faz isso não sei. Tão pouco acho que ele mesmo o saiba. Mas fá-lo melhor que toda a gente que conheço. Mesmo quando Q está sério, está alegre, mesmo quando está triste está ainda assim alegre. Isto não quer dizer que Q seja um tolo. Quer dizer que eu acho que Q é uma pessoa genuinamente alegre a quem o sorriso sai sem esforço porque a vida lhe dá razões para isso. Na vida de Q também deve haver chuva, dias em que o café se entorna nas calças, conversas desagradáveis e decisões difíceis, mas a sua alegria sobrepõe-se a isso. Eu e Q não somos os amigos mais íntimos, não partilhamos segredos, não trocamos confidencias. Eu e Q somos amigos e Q faz-me bem. E eu e já tinha mesmo saudades e ele voltou e faz-me mesmo bem!
sexta-feira, outubro 28, 2011
sábado, setembro 17, 2011
Da perda
Perder vem de manso e instala-se nesta cadeira ao meu lado. Depois jogo este quebra-cabeças sem número em que cada dia é mais uma peça falando-me do que perdi.
sábado, setembro 10, 2011
Ritual
Como se das ondas um campo trigado.
Tuas mãos côncavas em alegre seara.
Um jeito de correr, corpo molhado,
Coleccionando as espigas da estrada.
De tarde nunca falavas.
Tisnado do sol, aquele banho
Era o ritual de outras coisas.
Tuas mãos côncavas em alegre seara.
Um jeito de correr, corpo molhado,
Coleccionando as espigas da estrada.
De tarde nunca falavas.
Tisnado do sol, aquele banho
Era o ritual de outras coisas.
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