Aqui em encontro, eu que sonhei com as estrelas. Que dizer de ti? Desta noite? Das geométricas ruas de Riga onde sem sucesso nos tentávamos perder? Dias que duram até perto da meia noite.
Sentados num bar, olhando as pessoas em volta, falávamos com amigos que não voltaríamos a ver e que conheceramos dois dias antes. Uma boda à beira praia. Tu subias as dunas de pés descalços sem que a dor de pequenas pinhas te parasse os passos. Lembro-me do Báltico, duma caminhada junto às ondas em que me confessavas o teu amor pelas aulas de teatro até teres que fugir para fazer chichi.
Sossegadamente voltámos à casa da floresta, o descanso depois da dança. Quantas horas conversámos deitados numa cama de rende suspensa no alpendre, a tua mão estendida levemente tocando as pedras depois a minha, ambos olhando o jardim que o mau gosto soviético pontuara com pirosos duendes de barro.
Ausente o barulho da cidade, dos carros, da pressa. O tempo havia parado por dois dias para em quarenta e cinco minutos vermos os nossos amigos casarem-se em cima duma prancha colocada sobre um pequeno lago. Distantes os cheiros do Gastro Market e de Old Town antes ou depois dos rios, dependendo de que margem de Riga se chega. O cheiro denso dos morangos mais doces do que em outras europas. Parámos a um balcão onde pediste rosé para que o empregado pergunta-se se os aristocratas estavam de volta.
Aprendi a beber cidras nessa Primavera em Riga sentado em paletes num pateo escondido onde nos levou uma hora a chegar.
Subia os seis andares do velho prédio russo onde apenas um gato pardo me espreitava sempre de variadas janelas até ao último dia em que, talvez buscando despedir-se, escapuliu-se pela primeira fresta de porta que abri.
Descer as ruas rectas da cidade, Orlinski cantando nos meus hedaphones- Alla gente a dio dileta. Com que felicidade vivi os dias eternos de Riga. Noites claras de fim breve. Choveu apenas na penúltima tarde. Uma antevisão de cidade por vir em próximas viagens.
Riga, onde vivemos a mais bela e longa Primavera.
segunda-feira, junho 24, 2019
sábado, novembro 15, 2014
Depois, o Outono passou
Eventualmente descobrimos que os fins de semana também são bons para dormir, que devemos pedir e guardar recibos e que nem sempre, quando chove o dilúvio em Lisboa, podemos apanhar um táxi pela impossibilidade de o pagar.
Temos que acordar ao sábado, olhar para a pilha de louça na cozinha, pôr alguma coisa a tocar e arregaçar as mangas. As caixas no pátio que estão há mês e meio para serem deitadas fora e que de tanta chuva muito provavelmente qualquer dia dissolvem-se continuam lá, imóveis pela preguiça de quem as devia levar- eu. Depois é arrumar o quarto com tudo o que isso tem- varrer, aspirar, limpar o pó, guardar a roupa, nunca necessariamente por esta ou pela mesma ordem. Abrir o frigorífico, imaginar o que se pode fazer com o que lá há. A ditadura dos congelados farta-nos só para nos rendermos à ditadura dos fritos. Um dia vou sentar-me a ver daqueles blogues com conselhos bons e práticos e rápidos e coloridos e sofisticados para pratos saudáveis, mas não é hoje. Não. Hoje é uma caneca quente de cappucino para começar com o dia e depois ovos mexidos com linguiça e tomate. Sim, ovos mexidos. Porque quero, porque me apetece, porque são meus!
Poder escolher o que fazer e ter tempo, espaço, cabeça e acima de tudo dinheiro para o fazer. Hoje a feira de velharias no jardim da Estela. Amigos, conversas, cacaus quentes. À tarde uma exposição de arte. Agora sem culpas, sem contar à míngua os cêntimos e irremediavelmente ter que fazer o telefonema: "Oh mãe, eu queria mesmo ir, mas não tenho dinheiro". Depois ter que suportar a vergonha dos gritos de que sou um bebé que nunca cresce por saber que depois disso o dinheiro vinha. Não é uma vergonha antecipada, mas atrasada de ter conseguido viver assim, cada vez com menos peso "Ela acaba sempre por dar". O dinheiro sim. Mas não o que ele significa, não o esforço que representa. Não o poder dizer "É meu!" não pelo orgulho de ter, mas pelo orgulho do que foi feito para ter. "Ganharás o pão com o suor do teu rosto!". E é um pão que sabe melhor, Mesmo se molhado em gotas de suor porque é meu e não o pedi a ninguém.
Sou algo entre o proletário e o pequeno burguês que neste país onde escolho ficar se chama classe média, Reclamo das condições do trabalho, para depois admitir que são boas comparadas com o resto que há pr'aí, para trabalhar dias seguidos cronometrados pelo relógio do canto esquerdo do computador à espera que me diga que passaram nove horas e posso voltar para casa. Eventualmente vai acabar por dizer-me que é sexta-feira, mesmo a qualquer outro dia da semana, e que posso ir para casa dois dias descansar.
Para dormir até tarde, para arrumar a casa, para ouvir música durante esse tempo, para me render aos fritos ou aos congelados. Para ler, escrever, sair, passear- fazer o que eu quiser apenas porque me apetece. E poder sonhar, sonhar sempre. Mas agora sonhar com o que pode vir e não com o que já foi. Sonhar em construir e não só em preservar. E acho que a isso, neste país em que escolho ficar e em todos os outros do Ocidente se chama viver.
Esta casa de dois quartos, com um pátio atrás e com uma sala mais pequena que o quarto da mãe no Funchal, é onde os sonhos vêm morrer e as ilusões acabam. Esta casa de dois quartos onde estão as minhas coisas e esta sala que eu arranjei (quase) como quis são minhas e são onde sonho sonhos novos e onde penso como deixá-los permanecer sonhos, mas encontrar para eles um espaço real nisto que eu agora construí para mim e que parece chamar-se Vida.
segunda-feira, abril 21, 2014
Fragilidade
Como esta fragilidade de coisa morta em que
Lentamente algo perde sabor na boca por ser tantas vezes mastigado.
Esta renda tecida de mãos fiando cansadas como uma dia
Que passaras à janela e no fim das horas, em chegando a noite,
Me perguntaras- "Porquê?", e eu ficara calado.
Como dizer-te o enigma do desperdício num tempo que já não era
De palavras?
Ao pequeno-almoço não te saiam as mãos dos bolsos senão
Para afagares o gato e eu escolhia uma música da Gal,
Daquelas alegres e mexidas,
Porque este era um dia triste, imenso,interminável.
Não que pudesses dizer algo que repetir os erros meteorológicos
Da telefonia, mas eu querendo sempre mais, exigindo
Palavras de jogos maiores, que lentamente sufocavam
Aquilo que não me dirias estar sentindo.
Era como uma estação onde encontrasses um pequeno buraco
Junto à sola dos botins, um pé erradamente escorregado
Em água ainda calçado em meia, um grito que percebera
Abafado na almofada no instante em que desperto de tudo isto.
Lentamente algo perde sabor na boca por ser tantas vezes mastigado.
Esta renda tecida de mãos fiando cansadas como uma dia
Que passaras à janela e no fim das horas, em chegando a noite,
Me perguntaras- "Porquê?", e eu ficara calado.
Como dizer-te o enigma do desperdício num tempo que já não era
De palavras?
Ao pequeno-almoço não te saiam as mãos dos bolsos senão
Para afagares o gato e eu escolhia uma música da Gal,
Daquelas alegres e mexidas,
Porque este era um dia triste, imenso,interminável.
Não que pudesses dizer algo que repetir os erros meteorológicos
Da telefonia, mas eu querendo sempre mais, exigindo
Palavras de jogos maiores, que lentamente sufocavam
Aquilo que não me dirias estar sentindo.
Era como uma estação onde encontrasses um pequeno buraco
Junto à sola dos botins, um pé erradamente escorregado
Em água ainda calçado em meia, um grito que percebera
Abafado na almofada no instante em que desperto de tudo isto.
sábado, fevereiro 15, 2014
Poema do dia de ontem
pour lui, encore
Não me interessam que olhos pousaram antes sobre ti, ou que lábios disseram amorosamente o teu nome.
Não me importam as árvores debaixo das quais te sentaste de mãos dadas,
Nem as horas que perdeste pensando em outrém.
Não te quero com anos, nem com estórias acontecidas.
Ambiciono estar nos teus sonhos e que ocasionalmente me dediques um pensamento.
Espero o teu cheiro e poder tocar os teus cabelos .
Quero que me chegues sem ontens. E que faças meus todos os dias que se seguirem.
Não me interessam que olhos pousaram antes sobre ti, ou que lábios disseram amorosamente o teu nome.
Não me importam as árvores debaixo das quais te sentaste de mãos dadas,
Nem as horas que perdeste pensando em outrém.
Não te quero com anos, nem com estórias acontecidas.
Ambiciono estar nos teus sonhos e que ocasionalmente me dediques um pensamento.
Espero o teu cheiro e poder tocar os teus cabelos .
Quero que me chegues sem ontens. E que faças meus todos os dias que se seguirem.
quinta-feira, janeiro 23, 2014
Pateo II
De ti, um gesto breve no pateo branco. Não esperes
Mais que te espere sob a lua.
Rua direita da cidade. Espaço conciso.
Amei em ti todas as coisas que me deste.
Mais que te espere sob a lua.
Rua direita da cidade. Espaço conciso.
Amei em ti todas as coisas que me deste.
Pateo I
De ti, um breve gesto sobre o pateo, numa noite
Em que os deuses souberam dizer o teu nome sob a lua.
Rua direita da cidade branca. Janela do quarto.
Palavra.
Amei em ti todas as coisas possíveis.
Em que os deuses souberam dizer o teu nome sob a lua.
Rua direita da cidade branca. Janela do quarto.
Palavra.
Amei em ti todas as coisas possíveis.
sexta-feira, dezembro 20, 2013
Porque não podia ser para ele
pour lui
Isto que é maior que tudo: sem dias de chuva, sem livros nos bancos de jardim.
Demorarás muito tempo a voltar a casa e em verdade não mais poderás
Dizer que ali é a tua casa.
Há estas palavras que te guardo para os dias de ausência, para o não saber das coisas.
Mas aos domingos ainda haverá missa, mesmo que não estejas em nenhum banco.
Há um não-lugar onde te busco no seguimento das horas,
Aquele álbum antigo de fotografias, como uma manhã
Em que chegaste atrasado pelo sono e eu ralhei, mas depois achei graça.
A cidade é esta tua ausência porque estás
Longe das longas viagens suburbanas dos autocarros. Os jardins não te vêem
E não hei-de esperar num deles para te entregar um filme de Visconti.
Pudéramos ser personagens numa estória que termine com as palavras de sempre.
A vida não é feita de estórias, mas de ausências. É um não-estar
Mais do que um não-haver.
Porque existes nas estações, na música, sempre nas palavras. Por isso eu sei.
Por isso estou aqui.
Isto que é maior que tudo: sem dias de chuva, sem livros nos bancos de jardim.
Demorarás muito tempo a voltar a casa e em verdade não mais poderás
Dizer que ali é a tua casa.
Há estas palavras que te guardo para os dias de ausência, para o não saber das coisas.
Mas aos domingos ainda haverá missa, mesmo que não estejas em nenhum banco.
Há um não-lugar onde te busco no seguimento das horas,
Aquele álbum antigo de fotografias, como uma manhã
Em que chegaste atrasado pelo sono e eu ralhei, mas depois achei graça.
A cidade é esta tua ausência porque estás
Longe das longas viagens suburbanas dos autocarros. Os jardins não te vêem
E não hei-de esperar num deles para te entregar um filme de Visconti.
Pudéramos ser personagens numa estória que termine com as palavras de sempre.
A vida não é feita de estórias, mas de ausências. É um não-estar
Mais do que um não-haver.
Porque existes nas estações, na música, sempre nas palavras. Por isso eu sei.
Por isso estou aqui.
domingo, dezembro 01, 2013
Ana
para A.G.
Como podendo estar parados num teatro dirias
uma coisa, depois outra.
Uma manhã em Lisboa em que Ana
Tivesse camélias na janela, como antes o fizera Dumas,
enquanro admitia um choro ou uma hipótese de ser
Mais do que uma personagem dizendo uma coisa,
depois outra coisa.
Pequeno-almoço na Confeitaria Nacional, pequena degustação dos jesuítas.
Abordas uma nota do trágico. Expulsões.
Lisboa interdita para sempre, isso sim era dramático.
Escondes-te por esta rua donde se
não veem camélias à janela. Um livro que diga a
cidade, que a explique como um pai explicando a um filho, que
não pudera ver, mas sente
no chão o tremor quando eles passam.
Chegas agora ao Tejo, paras como num teatro.
o palácio do rei de Portugal cheira a cravinho
E canela. Mas aqui
Nada cheira assim, foi acolá que mataram el-rey.
Deixei que crescessem camélias à minha
Janela não porque lesse um livro, mas porque era
Um tempo em que Ana amava um
Homem chamado Lisboa.
Como podendo estar parados num teatro dirias
uma coisa, depois outra.
Uma manhã em Lisboa em que Ana
Tivesse camélias na janela, como antes o fizera Dumas,
enquanro admitia um choro ou uma hipótese de ser
Mais do que uma personagem dizendo uma coisa,
depois outra coisa.
Pequeno-almoço na Confeitaria Nacional, pequena degustação dos jesuítas.
Abordas uma nota do trágico. Expulsões.
Lisboa interdita para sempre, isso sim era dramático.
Escondes-te por esta rua donde se
não veem camélias à janela. Um livro que diga a
cidade, que a explique como um pai explicando a um filho, que
não pudera ver, mas sente
no chão o tremor quando eles passam.
Chegas agora ao Tejo, paras como num teatro.
o palácio do rei de Portugal cheira a cravinho
E canela. Mas aqui
Nada cheira assim, foi acolá que mataram el-rey.
Deixei que crescessem camélias à minha
Janela não porque lesse um livro, mas porque era
Um tempo em que Ana amava um
Homem chamado Lisboa.
terça-feira, abril 23, 2013
Receita para sítios que magoam
Do sítio magoado não temas. Volta ao mesmo lugar onde sofreste. Olhando-o imaginarás como conquistá-lo. Trarás amigos quando houver sol. Com eles ali passearás como descendo uma alameda de tílias no jardim. Hás-de escolher um banco onde sentar ou na falta deste um degrau ou um relvado. Apenas das melhores coisas falarão. Repetirás os dias, mesmo que por vezes haja nuvens. Fa-lo-ás a pouco para que assim lentamente mudes. Repetirás mesmo as estações se tanto for preciso. Saberás agora novas memórias no sítio onde antes sofreste. Lembrarás as flores, quando houver flores, e o riso, porque haverá riso. Do sítio magoado não temas, mas conquista.
sexta-feira, abril 05, 2013
Dos dias e desta noite
Que dirás das coisas? Abeira-te das flores para saberes o que
Em secretos cantos sussuram umas às outras.
Ficavas assim parado, como algo não descrito nas páginas dos livros
Que lias nos cafés itenerantes da cidade.
A estonteante velocidade do metro, como as coisas aconteciam pelas ruas
De súbito invadidas pelos gatos vadios das esquinas.
Havia uma cor indízivel, uma coisa que todos conheciam
No coração da cidade.
Durante os tempos da tarde as horas do teu relógio rodopiavam
E tu ficavas apenas sentado à varanda na velha cadeira de verga.
Depois esta marquise de ferro forjado, as coisas das avenidas novas.
Casas de amigas que nos fazem chá às 8h da noite.
Os cães também passeiam ao redor da praça, sendo que é
Impossível falar se é dia ou depois.
Estamos em certo todos presos por uma trela assustadoramente laça
A que não queremos jamais largar.
Os jornais ondeiam enquanto viras as páginas consumindo a informação
Diária como uma obrigação urbana dos dias.
A cidade existe afinal na medida das pessoas, das janelas e das
Várias pedras da calçada.
Enquanto as coisas passam, de ligeiro te apercebes de que
Os poemas inevitavelmente acabam como uma fatalidade.
terça-feira, fevereiro 19, 2013
Os aristocratas
Aquela coisa estranhamente aristocrática de sabermos nossos os espaços também da nossa família. Essa unidade não só do tempo como do espaço, revivendo, reavivando memórias e coisas que por bem não devemos, não podemos esquecer.
segunda-feira, dezembro 31, 2012
As visitas do almoço
Esperamos pacientemente as visitas do almoço.
Desde as onze horas da manhã que povoamos a cozinha de
Cheiros, sabores e manchas nas bancadas de pedra branca.
A habilidade com que a mão segura a faca que habilmente corta
Legumes, despedaça frangos e esmaga alhos
Convenientemente odoríferos para nos fazer ansiar a passagem das horas.
Procuramos com cuidado os melhores cristais, porcelanas, linhos.
Repetimos um ritual de mesa na segurança que nos liga ao passado
Às coisas certas, às certezas indubitáveis daquilo que somos
E do que nos define.
Cumprimentamo-nos lentamente, beijos com economia planeada
Com sorrisos aprendidos na infância e reservados aos íntimos,
Os que ocupam o topo da hierarquia dos afectos.
Aprendemos cedo os lugares do mundo, das coisas, das pessoas,
Os teatros medidos dos gestos.
A casa resta no seu conforto urbano de classe média,
A elegância de varandas viradas para o Tejo
E de grandes salas luminosas e bem iluminadas
Onde pacientemente esperamos as visitas do almoço.
Desde as onze horas da manhã que povoamos a cozinha de
Cheiros, sabores e manchas nas bancadas de pedra branca.
A habilidade com que a mão segura a faca que habilmente corta
Legumes, despedaça frangos e esmaga alhos
Convenientemente odoríferos para nos fazer ansiar a passagem das horas.
Procuramos com cuidado os melhores cristais, porcelanas, linhos.
Repetimos um ritual de mesa na segurança que nos liga ao passado
Às coisas certas, às certezas indubitáveis daquilo que somos
E do que nos define.
Cumprimentamo-nos lentamente, beijos com economia planeada
Com sorrisos aprendidos na infância e reservados aos íntimos,
Os que ocupam o topo da hierarquia dos afectos.
Aprendemos cedo os lugares do mundo, das coisas, das pessoas,
Os teatros medidos dos gestos.
A casa resta no seu conforto urbano de classe média,
A elegância de varandas viradas para o Tejo
E de grandes salas luminosas e bem iluminadas
Onde pacientemente esperamos as visitas do almoço.
terça-feira, outubro 16, 2012
Livros
As coisas acontecem a seu tempo e nunca por acaso. De manhã, ainda antes da casa acordar, ou à noite quando já todos foram dormir, em casa de amigos ou familiares acontece-me por vezes (poucas) esta coisa fantástica em que um livro vem ter comigo. Eu não o conhecia, tão pouco o seu autor, mas de certa forma o encontro dá-se quando aquele é mesmo o livro que quero ler, ainda que não o soubesse. Quando o peço emprestado acabo sempre por ouvir que tinham pensado em mim quando o leram. Mas não me falaram dele- o livro esperou até à altura certa em que o pudesse encontrar numa prateleira de estante para depois passarmos longos dias a encontrarmo-nos.
sexta-feira, setembro 14, 2012
Pessoas
Das pessoas é isto que guardo- o gesto. Cada qual encerrado
Como uma coisa que acontece inesperadamente e que mesmo assim
Permanece há já muito tempo esperada.
As pessoas são espantosas ao atravessar as ruas da cidade, a guiar
Os carros da cidade, a encher os sacos de plástico comprados a
Dois cêntimos nos supermercados da cidade.
Tudo o que as pessoas vestem é belo, único e existe
Neste só momento de viver todas as coisas.
Tudo o que as pessoas escolhem é bom, justo e sensato.
Aquela mãe ali sentada, enquanto a criança lhe mama no peito
Neste pequeno espaço da paragem de autocarro, o banco
Amarelo donde ao lado o senhor corta despodoradamente as unhas dos pés.
É como uma partilha intensa de coisas, de vidas- ainda o gesto.
As pessoas são cheias de vida com mãos de agarrar, beiços que berram
Impropérios ao senhor da loja e corações constantemente batentes e que mal se sentem.
Como não amar as pessoas? Como um claustro de pensamentos reflectidos,
Com a água correndo pelas fontes, assim as pessoas- calmas e rápidas,
Cheias duma dinâmica pacífica e furiosa onde se pode adormecer a criança
Por meio da discussão com o marido.
Um cão ladra quando vê uma pessoa não por medo ou por resposta
Hormonal. Ladra de espanto, de maravilhamento por essa coisa única,
Sublime que é a pessoa. Quando lhe largará um osso ou uma bofetada
É a chave equacional que rege a vida do cão comandada por esse deus-pessoa.
Com que gosto mobilam suas casa, cadeiras na sala, camas nos quartos,
Colchas, almofadas e um quadro na parede. Medem os filhos, os luxos, os dinheiros
E os dias em que não há nada sempre em comparação com aqueles que compraram
A casa mesmo ao lado da sua- as outras pessoas.
Porque as pessoas amam tudo- só se escusam de amar aqueles, as outras pessoas.
Como uma coisa que acontece inesperadamente e que mesmo assim
Permanece há já muito tempo esperada.
As pessoas são espantosas ao atravessar as ruas da cidade, a guiar
Os carros da cidade, a encher os sacos de plástico comprados a
Dois cêntimos nos supermercados da cidade.
Tudo o que as pessoas vestem é belo, único e existe
Neste só momento de viver todas as coisas.
Tudo o que as pessoas escolhem é bom, justo e sensato.
Aquela mãe ali sentada, enquanto a criança lhe mama no peito
Neste pequeno espaço da paragem de autocarro, o banco
Amarelo donde ao lado o senhor corta despodoradamente as unhas dos pés.
É como uma partilha intensa de coisas, de vidas- ainda o gesto.
As pessoas são cheias de vida com mãos de agarrar, beiços que berram
Impropérios ao senhor da loja e corações constantemente batentes e que mal se sentem.
Como não amar as pessoas? Como um claustro de pensamentos reflectidos,
Com a água correndo pelas fontes, assim as pessoas- calmas e rápidas,
Cheias duma dinâmica pacífica e furiosa onde se pode adormecer a criança
Por meio da discussão com o marido.
Um cão ladra quando vê uma pessoa não por medo ou por resposta
Hormonal. Ladra de espanto, de maravilhamento por essa coisa única,
Sublime que é a pessoa. Quando lhe largará um osso ou uma bofetada
É a chave equacional que rege a vida do cão comandada por esse deus-pessoa.
Com que gosto mobilam suas casa, cadeiras na sala, camas nos quartos,
Colchas, almofadas e um quadro na parede. Medem os filhos, os luxos, os dinheiros
E os dias em que não há nada sempre em comparação com aqueles que compraram
A casa mesmo ao lado da sua- as outras pessoas.
Porque as pessoas amam tudo- só se escusam de amar aqueles, as outras pessoas.
sexta-feira, maio 11, 2012
Lisboa Triste
Às vezes esta cidade sem gente, sem coisas.
Esta rua que desce com varandas velhas e telhados abatendo.
Esta gente triste que aqui mora e o seu gesto ritual
Pendurando peças de roupa na corda.
Uma vida de dedos cruzados, este pateo traseiro
Por onde rebentam as ervas daninhas.
Depois esta cidade d'ausência que nos faz crescer
O vazio enquanto nos afaga e diz boa-noite.
A Lisboa dura das pedras. emprestada por horas
Ao cansaço suburbano,
Mas que nos cai sempre na alma
E nos engana de mansinho.
Esta rua que desce com varandas velhas e telhados abatendo.
Esta gente triste que aqui mora e o seu gesto ritual
Pendurando peças de roupa na corda.
Uma vida de dedos cruzados, este pateo traseiro
Por onde rebentam as ervas daninhas.
Depois esta cidade d'ausência que nos faz crescer
O vazio enquanto nos afaga e diz boa-noite.
A Lisboa dura das pedras. emprestada por horas
Ao cansaço suburbano,
Mas que nos cai sempre na alma
E nos engana de mansinho.
sexta-feira, março 09, 2012
Gustavo (talvez IV)
Chegou, abeirou-se da estante da sala, escolheu um livro e seguiu para o quarto. Lembrou-se que a incoerência faz de nós seres fantásticos. Levantou o casaco caído no chão e, junto com o seu, pendurou-os em dois cabides junto à porta. Entrou no escritório, abeirou-se da estante, escolheu um livro. Sentou-se na cadeira de palhinha da Tia Bé.
O sorriso. Depois lembrarem-se de tantas coisas passadas juntos. Felizes, como se tivesse sido sempre assim. Esticou os pés em pontos de maneira a afundá-los completamente debaixo das cobertas. Tudo era diferente e estava tudo bem. Como é que podia ser? Ele que tinha ouvido horas e horas de lamúrias. "Um palerma, um frouxo, um incapaz." Estava bem capacitado o incapaz- boa conversa, grandes sorrisos. O sorriso. E como eles sorriam...
Fechou o livro. Levantou-se, correu as cortinas, baixou os estores, passou à sala, ajeitou as almofadas do sofá, tirou os discos que estavam na aparelhagem e no leitor de DVD's, esticou as pontas do tapete, ajeitou as revistas na mesa de centro. Ia passar à casa de jantar. Ele era sempre tão confiante. Entre os dois não havia dúvidas. Os amigos notavam, as irmãs dele notavam. Um dia até a mãe lho tinha dito. Ele era a parte cheia de segurança deles os dois. Já ele, mais sumido em quase tudo, pouco se dava pela confiança que tinha em si mesmo.
Irritavam-no os sapatos ridículos de berloque e que alguém com menos de trinta anos pudesse jantar com abotoaduras de punho. A camisa engomadíssima, o fato de corte italiano. O exagero, o barroquismo. Um lenço de pescoço- de facto só um palerma se lembra de usar com vinte e oito anos o mesmo acessório que o seu avô. Mas era mais que isso. A mão dada ao namorado. "Nunca me deu sequer a mão em público. Uma vez fui jogado escadas abaixo n'"A Brasileira" só para não nos verem juntos." Ali todos os viam juntos. Ele até queria que os vissem juntos.
As gaiolas. Na marquise azul da cozinha. Chá. Um bocado de leite. Duas colheres de açúcar. Três. Era normal, afinal. Eles nunca se tinham visto. Ele mesmo não o havia há eternidades. E depois de tudo o que ele tinha dito dele. Mas ainda assim. Era de mais. Um exagero. Um amuo por encontrar o ex-namorado feliz e contente com o namorado de agora. E ele estava tão bem. Tinha gostado tanto de o ver. Geoffroy também parecia ser bem simpático. Estava a adorar Lisboa.
Entrou no quarto. Vestiu o pijama. Deitou-se esticando os pés para os afundar debaixo dos cobertores.
- É perfeitamente normal. Não sei porque é que ficaste assim.
- Não gostei. Também posso não gostar.
- Sabes que não sou eu deitado na cama dele hoje à noite, não sabes?
(não podia deixar de sorrir)
- Sim, sei. Agora que dizes isso. Sim sei, sei mesmo. Não estás pois, não? (enquanto fazia um ar agradado de espanto). Chega-te aqui. (o braço por cima do ombro.
- Vais ler-me uma estória de embalar?
- Queres?
- Porque não?
O sorriso. Depois lembrarem-se de tantas coisas passadas juntos. Felizes, como se tivesse sido sempre assim. Esticou os pés em pontos de maneira a afundá-los completamente debaixo das cobertas. Tudo era diferente e estava tudo bem. Como é que podia ser? Ele que tinha ouvido horas e horas de lamúrias. "Um palerma, um frouxo, um incapaz." Estava bem capacitado o incapaz- boa conversa, grandes sorrisos. O sorriso. E como eles sorriam...
Fechou o livro. Levantou-se, correu as cortinas, baixou os estores, passou à sala, ajeitou as almofadas do sofá, tirou os discos que estavam na aparelhagem e no leitor de DVD's, esticou as pontas do tapete, ajeitou as revistas na mesa de centro. Ia passar à casa de jantar. Ele era sempre tão confiante. Entre os dois não havia dúvidas. Os amigos notavam, as irmãs dele notavam. Um dia até a mãe lho tinha dito. Ele era a parte cheia de segurança deles os dois. Já ele, mais sumido em quase tudo, pouco se dava pela confiança que tinha em si mesmo.
Irritavam-no os sapatos ridículos de berloque e que alguém com menos de trinta anos pudesse jantar com abotoaduras de punho. A camisa engomadíssima, o fato de corte italiano. O exagero, o barroquismo. Um lenço de pescoço- de facto só um palerma se lembra de usar com vinte e oito anos o mesmo acessório que o seu avô. Mas era mais que isso. A mão dada ao namorado. "Nunca me deu sequer a mão em público. Uma vez fui jogado escadas abaixo n'"A Brasileira" só para não nos verem juntos." Ali todos os viam juntos. Ele até queria que os vissem juntos.
As gaiolas. Na marquise azul da cozinha. Chá. Um bocado de leite. Duas colheres de açúcar. Três. Era normal, afinal. Eles nunca se tinham visto. Ele mesmo não o havia há eternidades. E depois de tudo o que ele tinha dito dele. Mas ainda assim. Era de mais. Um exagero. Um amuo por encontrar o ex-namorado feliz e contente com o namorado de agora. E ele estava tão bem. Tinha gostado tanto de o ver. Geoffroy também parecia ser bem simpático. Estava a adorar Lisboa.
Entrou no quarto. Vestiu o pijama. Deitou-se esticando os pés para os afundar debaixo dos cobertores.
- É perfeitamente normal. Não sei porque é que ficaste assim.
- Não gostei. Também posso não gostar.
- Sabes que não sou eu deitado na cama dele hoje à noite, não sabes?
(não podia deixar de sorrir)
- Sim, sei. Agora que dizes isso. Sim sei, sei mesmo. Não estás pois, não? (enquanto fazia um ar agradado de espanto). Chega-te aqui. (o braço por cima do ombro.
- Vais ler-me uma estória de embalar?
- Queres?
- Porque não?
quarta-feira, fevereiro 22, 2012
Lisboa
para Sara Guia d'Abreu, como todas as nossas lisboas
Este jogo inconsequente de quebra-cabeças; uma cidade sempre nova em cada esquina. Há o mistério do azulejo, do varandim com sol, da pessoa que desce as mil escadinhas da cidade que desaguam em bairros e jardins de segredo escondidos atrás de fachadas velhas e também cansadas. Não há domingo, nem dia de estar só- em lisboa há os dias do Sol várias vezes por semana, várias vezes por estação. É esta coisa que não contamos a ninguém- este anseio sempre presente de ser cidade, de estar uno com o espaço da cidade. A cidade tem muitas torres de igreja, muitas praças, muitos cantos guardados. Uma cidade secreta, como um presente que se oferece, prenhe de estórias porque ansiamos.
Este jogo inconsequente de quebra-cabeças; uma cidade sempre nova em cada esquina. Há o mistério do azulejo, do varandim com sol, da pessoa que desce as mil escadinhas da cidade que desaguam em bairros e jardins de segredo escondidos atrás de fachadas velhas e também cansadas. Não há domingo, nem dia de estar só- em lisboa há os dias do Sol várias vezes por semana, várias vezes por estação. É esta coisa que não contamos a ninguém- este anseio sempre presente de ser cidade, de estar uno com o espaço da cidade. A cidade tem muitas torres de igreja, muitas praças, muitos cantos guardados. Uma cidade secreta, como um presente que se oferece, prenhe de estórias porque ansiamos.
sexta-feira, janeiro 27, 2012
O Quarto
para a avó
Depois que morreu, desfizeram-lhe o quarto.
Mudaram a colcha (agora guardada num baú do quarto de arrumos) e
Fizeram a cama de lavado.
Um a um, despregaram da parede os quadros dos santos à cabeceira.
Levaram para outras prateleiras, umas longe da casa,
As hagiografias da pequena estante de vimes ao canto.
Abriram os armários.
Primeiro chamaram as filhas, depois as noras, depois as netas, por fim as criadas.
Dividiram a sua roupa e deram o que cresceu aos pobres.
Empilharam as caixas que estavam no toucador, agora esvaziadas,
E como tinha dito, cada mulher do seu sangue recebeu uma jóia.
Com gravidade mandaram a escrivaninha para a casa de restauro
Prometendo mantê-la como peça de família,
Herança de disputa entre aqueles que a quisessem.
Até a velha cadeira de vimes junto à janela, onde antes fazia costura,
Está agora no jardim para que, sentados, a possamos lembrar em dias de sol.
Os homens da casa instalaram depois o escadote de ferro
E fizeram descer as cortinas azuis de folhos brancos.
Limparam-se as gavetas, distribuíram-se os terços, mudou-se a cómoda alta
E eu fiquei com o crucifixo do antigo oratório que tinha vindo em panos de linho
Pelas mãos da avó Maria Augusta.
Abrimos as cartas que eram para ler. E lemos. Ficámos muitas horas deitados
Na cama velha lendo uns aos outros pequenos bocados que nos
Apanhavam a atenção.
Houve silêncio.
A casa era este retrato físico de ausência.
Era uma coisa indizível em todas as gargantas.
Chorámos e mandámos dizer missa em igrejas da cidade.
Continuámos a amar.
Depois fomos felizes.
Depois que morreu, desfizeram-lhe o quarto.
Mudaram a colcha (agora guardada num baú do quarto de arrumos) e
Fizeram a cama de lavado.
Um a um, despregaram da parede os quadros dos santos à cabeceira.
Levaram para outras prateleiras, umas longe da casa,
As hagiografias da pequena estante de vimes ao canto.
Abriram os armários.
Primeiro chamaram as filhas, depois as noras, depois as netas, por fim as criadas.
Dividiram a sua roupa e deram o que cresceu aos pobres.
Empilharam as caixas que estavam no toucador, agora esvaziadas,
E como tinha dito, cada mulher do seu sangue recebeu uma jóia.
Com gravidade mandaram a escrivaninha para a casa de restauro
Prometendo mantê-la como peça de família,
Herança de disputa entre aqueles que a quisessem.
Até a velha cadeira de vimes junto à janela, onde antes fazia costura,
Está agora no jardim para que, sentados, a possamos lembrar em dias de sol.
Os homens da casa instalaram depois o escadote de ferro
E fizeram descer as cortinas azuis de folhos brancos.
Limparam-se as gavetas, distribuíram-se os terços, mudou-se a cómoda alta
E eu fiquei com o crucifixo do antigo oratório que tinha vindo em panos de linho
Pelas mãos da avó Maria Augusta.
Abrimos as cartas que eram para ler. E lemos. Ficámos muitas horas deitados
Na cama velha lendo uns aos outros pequenos bocados que nos
Apanhavam a atenção.
Houve silêncio.
A casa era este retrato físico de ausência.
Era uma coisa indizível em todas as gargantas.
Chorámos e mandámos dizer missa em igrejas da cidade.
Continuámos a amar.
Depois fomos felizes.
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