Esta cidade de prédios altos.
Como as praças, espectacularmente grandes, onde leio os outdoors distribuídos. Casa fica em todo o lado- desde as avenidas vivas aos becos de má morte logo ali ao canto.
Aquela mulher mora aqui. É fantasticamente bela. Usa um vestido elegante de griffe e um perfume assinado por um couturier de Paris. Para falar sobre ela escreveria muitas palavras em itálico onde estariam todos os galicismos que ela usa. É chique, como se diz.
Aquela mulher nunca apanha o metro. As estações meio sujas e defectas. As pessoas suburbanas e pendulares. E é tão complicado usar uma máquina de bilhetes. É que estragam as unhas de gel.
Às vezes a cidade tem casas antigas. Lá dentro fazem-se fotografias de moda. Os salões rocaille ficaram subitamente todos brancos e vazios. É assim que hoje se fotografa a moda. A moda da cidade é branca e preta, mas sempre clean.
Os autocarros não são nada cleans. Nunca vão estar na moda. No Inverno são particularmente molhados e de Verão são abrasivamente quentes. Os autocarros nunca param mais que três segundos e vinte décimas nos bairros elegantes da cidade. Tanto nos que têm casas antigas, como os que têm penthouses modernaças.
Os cafés do Uptown são elegantes. Servem macarons franceses de diversas cores e scones com manteiga derretida. As bocas dão trincas muito leves e muito curtas. Aqui debica-se.
Nos bairros da classe média a crise abica-se. Come-se à fartazana nos fast-food logo assim que se sai dos ginásios imitados dum Holmes Place. Há sundaes entupidos de chocolate para os mais gulosos e chantilly que chegue para todos. Têm a cara enfiada na comida e a bocarra sempre aberta.
Os prédios distinguem-se entre agradáveis apartamentos ou atarefados escritórios. Ali vive-se, aqui trabalha-se. Desfruta-se mais daqui, do que dali, no entanto. Os arquitectos fizeram prédios todos de vidro e escreveram sobre teorias novas. Agora as pessoas podem viver em casa e no escritório. Os prédios já são todos iguais.
Passam os carros de luxo, os autocarros, os táxis, os eléctricos, as carrinhas, as vans, os cabriolés, os comerciais, os modelos mais baratos e os caros e os assim-assim, todos com rodas e motores e buzinas. Todos a produzirem som, muito som, enfurecedoramente som. O som de cada rua e prédio da cidade desde as avenidas vivas até cada beco de má morte.
quinta-feira, julho 22, 2010
Do mar e das coisas
Que cada palavra seja natural
Como as ondas do silêncio
Em que cada poema nasce mergulhado.
Como as ondas do silêncio
Em que cada poema nasce mergulhado.
Do amado deitado sobre as ondas da praia
Como os frutos doces
De um Agosto pela manhã
Assim o corpo do meu amado
Sabendo sob as ondas da praia
Aos sabores indizíveis
Do prazer.
De um Agosto pela manhã
Assim o corpo do meu amado
Sabendo sob as ondas da praia
Aos sabores indizíveis
Do prazer.
A Ilha
Esta é a dor do Verão-
Que passe depressa.
Fossem dias eternos
Onde sob o calor peganhento dos lençóis
Sobre o corpo
Dormíssemos noites demasiado curtas.
Acordássemos para manhãs
Exactamente longas
E soubéssemos
Debruçados sobre a janela do quarto
Coisas do mar e das ilhas.
Que passe depressa.
Fossem dias eternos
Onde sob o calor peganhento dos lençóis
Sobre o corpo
Dormíssemos noites demasiado curtas.
Acordássemos para manhãs
Exactamente longas
E soubéssemos
Debruçados sobre a janela do quarto
Coisas do mar e das ilhas.
Poema do Amigo
Para o Luisillo
Dele
Dir-se-á a saudade de todos os dias
Como o poema indizível
Que mora sempre connosco
Tão perto e tão longe
Para que um dia
O passamos escrever.
Como os crepúsculos breves de Maio
Ou a sede logo saciada
Assim, me faz falta
Sem que nunca se ausente.
Dele dir-se-á dia e silêncio,
Pois nele estão todas as palavras
Secretas
Impossíveis à boca.
Dele dir-se-á hoje,
Mas também agora.
Pois ele é como o instante imediato
Fugitivo e constante
Sem nunca ser nosso
Estando lá sempre.
Dele dir-se-á amigo
E nesta palavra
Todas as outras calarão.
Dele
Dir-se-á a saudade de todos os dias
Como o poema indizível
Que mora sempre connosco
Tão perto e tão longe
Para que um dia
O passamos escrever.
Como os crepúsculos breves de Maio
Ou a sede logo saciada
Assim, me faz falta
Sem que nunca se ausente.
Dele dir-se-á dia e silêncio,
Pois nele estão todas as palavras
Secretas
Impossíveis à boca.
Dele dir-se-á hoje,
Mas também agora.
Pois ele é como o instante imediato
Fugitivo e constante
Sem nunca ser nosso
Estando lá sempre.
Dele dir-se-á amigo
E nesta palavra
Todas as outras calarão.
domingo, julho 04, 2010
Das coisas demasiado quentes
Meu corpo derretido junto ao mar, do calor que me abrasava em outras coisas.
segunda-feira, junho 28, 2010
Tamina
A princesa da Cidade Santa mora por detrás dos seus véus. Sua pele palmada do Verão quente não sua ou transpira. Cada tatuagem do corpo é como um pomo de Deus. Respira o dia anseado do príncipe da Pérsia por buscá-la.
quinta-feira, junho 03, 2010
Solar
Como gesto novo
Assim aparece
O Poema
Sua coisa de espanto e calma
Como rio tranquilo de Verão
Um caudal langoroso
Imperceptível teia de Penélope
De dedos fiados demasiado finos
Para que se lhes possa seguir
Como um encontro do mar
Aqui minha alma repousará
Sou-me que me chegue
Debaixo da oliveira
Assim vem-me a musa
Seu sussurro inescutável
Em perseguindo
Aqui está a mais feliz tormenta
Assim aparece
O Poema
Sua coisa de espanto e calma
Como rio tranquilo de Verão
Um caudal langoroso
Imperceptível teia de Penélope
De dedos fiados demasiado finos
Para que se lhes possa seguir
Como um encontro do mar
Aqui minha alma repousará
Sou-me que me chegue
Debaixo da oliveira
Assim vem-me a musa
Seu sussurro inescutável
Em perseguindo
Aqui está a mais feliz tormenta
Poesias de Verão
As linhas do poema na noite quente de Verão.
O livro pousado na mão é como um gesto de espanto.
*
Os bois de Samarcanda lavram a terra estéril.
Em cada esquina um deus se levanta como um pomo dourado.
*
Gentil é o cheiro a cardamomo na manhã inicial.
O corpo do meu amado existe entre todas as coisas.
*
Como Sekhmet a leoa estende o corpo.
Os gatos dançam sua dança das três da tarde.
*
Impregnada, resta a casa com o cheiro das romãs.
O meu peito está imperturbável nos vidros da livraria.
sexta-feira, maio 28, 2010
Da Lua Nova sobre uma música que Daniela cantava
Para D., enquanto ouvia as suas músicas.
Olha, meu amor
Hoje vem a Lua Nova.
Namorámos a cidade
Lento a lento
Comendo o prazer de cada rua
Como a ambrósia irrepetível
Dos deuses.
Do Olimpo algumas cores
Como um quadro que pintaras
Lá longe
Quando os dias eram outros.
Deste se dirá rosa,
Daquele branco e daqueloutro amarelo.
São as janelas da cidade, meu amor.
Mas eis que vem a Lua Nova!
Meu corpo apartado do teu
Escuta ainda a tua voz
ao longe
não distante
Como canto de matar
Saudade.
Como canto de dizeres-
"Hoje-me aqui, meu amor.
Não me vês, mas ouves-me.
Ouves como canto para ti nas
Noites diurnas da cidade.
Até mesmo nesta em que hoje
É Lua Nova."
Fora eu de novo menino
Assim, como era no mar da infância
E de rir e de brincar
E de jogar as pedras e as palminhas
Cantavas para mim, meu amor?
Cantavas para mim ainda que
Fora menino
E sendo a Lua Nova tivera medo do
Papão?
Dizes-
"De nos sonhos
Nada se tem medo.
Estão nos sonhos as máquinas para fazer o mundo
E eu estou sempre nos sonhos
Para que possas encontrar-me."
Eu pergunto:
Mesmo hoje que é a Lua Nova
Sonhamos juntos, meu amor?
"Sim, mesmo hoje que é a Lua Nova
Sonhamos juntos, meu amor."
(E dizes-me ainda:)
"Ouve agora como quando me vês
Perto do gradeamento
Chorando à paisagem idílica da cidade.
Ouve agora dos poemas brancos
Que te canto
Sente-me perto
Sempre perto
Porque agora,
no fim das palavras que se dizem,
Aqui
onde o silêncio começa,
Já quase não há a Lua Nova.
Olha, meu amor
Hoje vem a Lua Nova.
Namorámos a cidade
Lento a lento
Comendo o prazer de cada rua
Como a ambrósia irrepetível
Dos deuses.
Do Olimpo algumas cores
Como um quadro que pintaras
Lá longe
Quando os dias eram outros.
Deste se dirá rosa,
Daquele branco e daqueloutro amarelo.
São as janelas da cidade, meu amor.
Mas eis que vem a Lua Nova!
Meu corpo apartado do teu
Escuta ainda a tua voz
ao longe
não distante
Como canto de matar
Saudade.
Como canto de dizeres-
"Hoje-me aqui, meu amor.
Não me vês, mas ouves-me.
Ouves como canto para ti nas
Noites diurnas da cidade.
Até mesmo nesta em que hoje
É Lua Nova."
Fora eu de novo menino
Assim, como era no mar da infância
E de rir e de brincar
E de jogar as pedras e as palminhas
Cantavas para mim, meu amor?
Cantavas para mim ainda que
Fora menino
E sendo a Lua Nova tivera medo do
Papão?
Dizes-
"De nos sonhos
Nada se tem medo.
Estão nos sonhos as máquinas para fazer o mundo
E eu estou sempre nos sonhos
Para que possas encontrar-me."
Eu pergunto:
Mesmo hoje que é a Lua Nova
Sonhamos juntos, meu amor?
"Sim, mesmo hoje que é a Lua Nova
Sonhamos juntos, meu amor."
(E dizes-me ainda:)
"Ouve agora como quando me vês
Perto do gradeamento
Chorando à paisagem idílica da cidade.
Ouve agora dos poemas brancos
Que te canto
Sente-me perto
Sempre perto
Porque agora,
no fim das palavras que se dizem,
Aqui
onde o silêncio começa,
Já quase não há a Lua Nova.
sábado, maio 22, 2010
Do choro, lágrimas
Tivera hoje como uma vontade de chorar.
Não que houvesse razão, mas assim se dera.
Chorava, pois.
De manso, choro conjugado.
De mim para mim pensava-
Porque choro, ora?
De nada havia que pudesse dizer-
Eis esta a razão de chorar.
Mas chorava, chorei
Chorara já.
Não muito... pouco assim,
lágrimas escorregando lentas, quentes
Com a noite de verão insuportável.
O corpo como um vestido pegajoso
Pegando todos pedaços da pele
E elas escorrendo-
Lágrimas de contra-gosto sem nelas compreender
Razão.
Assim, de lágrimas
Vontade e escrita
Do choro virou poema
Virado nesta queda das palavras que aqui deixo
Como se nesta noite dissera-
Chorava com gosto de as escrever.
Não que houvesse razão, mas assim se dera.
Chorava, pois.
De manso, choro conjugado.
De mim para mim pensava-
Porque choro, ora?
De nada havia que pudesse dizer-
Eis esta a razão de chorar.
Mas chorava, chorei
Chorara já.
Não muito... pouco assim,
lágrimas escorregando lentas, quentes
Com a noite de verão insuportável.
O corpo como um vestido pegajoso
Pegando todos pedaços da pele
E elas escorrendo-
Lágrimas de contra-gosto sem nelas compreender
Razão.
Assim, de lágrimas
Vontade e escrita
Do choro virou poema
Virado nesta queda das palavras que aqui deixo
Como se nesta noite dissera-
Chorava com gosto de as escrever.
quinta-feira, abril 29, 2010
A Ponta-do-Sol
Há coisas que me povoam
Como se fora a sua casa.
As ruas da infância encontram por mim
Os seus caminhos.
Nunca um nostos
Nem saudade.
Gozo, prazer, riso
E essa memória perene de ser-se feliz à beira-mar.
Como o cheiro da sala
E dos retratos oblíquamente pendurados
Na parede
(outrora rosa e hoje amarela).
As crianças multiplicam-se até à infinidade dos dias,
Um infância continuada por cada criança
Do meu sangue.
A ilha, no fim do Caminho Novo.
Como mar e praia feita de ondas pedras amigos e memórias
Há hoje também a música d'ontem
Coisas mais antigas que velhas
("a avó tem as mãos pintalgadas como as bananas doces")
As suas unhas longas polidas
Enterradas no meu cabelo em anteriores caracóis
E uma rosa formosa
Ao embalar-me
Disto direi agora um caminho para casa-
Sem regresso ou retornamento.
Deixamos a nossa casa para irmos para a nossa casa.
A ilha é como se fora em mim uma casa de todas quantas coisas
Ela me traz
Recordando continuamente
A infância que se alarga pelos dias
Banhada no mar de pedras e ondas
Ao som da música antiga
Que cantam para mim as avós.
Como se fora a sua casa.
As ruas da infância encontram por mim
Os seus caminhos.
Nunca um nostos
Nem saudade.
Gozo, prazer, riso
E essa memória perene de ser-se feliz à beira-mar.
Como o cheiro da sala
E dos retratos oblíquamente pendurados
Na parede
(outrora rosa e hoje amarela).
As crianças multiplicam-se até à infinidade dos dias,
Um infância continuada por cada criança
Do meu sangue.
A ilha, no fim do Caminho Novo.
Como mar e praia feita de ondas pedras amigos e memórias
Há hoje também a música d'ontem
Coisas mais antigas que velhas
("a avó tem as mãos pintalgadas como as bananas doces")
As suas unhas longas polidas
Enterradas no meu cabelo em anteriores caracóis
E uma rosa formosa
Ao embalar-me
Disto direi agora um caminho para casa-
Sem regresso ou retornamento.
Deixamos a nossa casa para irmos para a nossa casa.
A ilha é como se fora em mim uma casa de todas quantas coisas
Ela me traz
Recordando continuamente
A infância que se alarga pelos dias
Banhada no mar de pedras e ondas
Ao som da música antiga
Que cantam para mim as avós.
quinta-feira, abril 15, 2010
Poema de Merlim, Morgana, Artur, Ginevra, Lancelot e da Senhora Igraine, sendo que do primeiro e última aqui não se consta
(ou mais simplesmente Poema dum dia sobre um pensamento hoje miticamente céltico)
Para I., de ascéticos passos druídicos, como prova de que também nasci do mesmo rio Oceano e mesmo entre a coluna dórica, sobre o pateo branco, conheço sua alma irascível de carvalho e onda.
Celebra-me a alma
Nos fogos de Beltane,
Um novo rei Artur
De mito e espada
Uma Camelot inteira
Feita de cartas
Construída de coisas
Paradoxalmente
Irremediavelmente
Sólidas porque assim efémeras.
De Morgana,
Por sobre o lago,
Aguarda o barco
O dia a hora
Da bruma certa
Descerrada
Como de nova Ginevra
Lancelot,
Beijos adúlteros
Novamente adúlteros
Uma outra vez adúlteros
Como um círculo perpétuo
Nas muralhas do castelo
Como um amor
Inefugível
Que nenhuma Excalibur
Poderá, por ora, cortar.
A magia dos elementos
Essenciais
Palavra e Terra
Seiva rasgada dos
Veios carnudos dos carvalhos
Druídicos
Também aqui
Espaço Casa Verbo
Novo sonho, mesmo mito
Como se continuamente
Continuadissimamente
Alguém conjugue em deleite
e como seu
o declinável
Refurjar.
Para I., de ascéticos passos druídicos, como prova de que também nasci do mesmo rio Oceano e mesmo entre a coluna dórica, sobre o pateo branco, conheço sua alma irascível de carvalho e onda.
Celebra-me a alma
Nos fogos de Beltane,
Um novo rei Artur
De mito e espada
Uma Camelot inteira
Feita de cartas
Construída de coisas
Paradoxalmente
Irremediavelmente
Sólidas porque assim efémeras.
De Morgana,
Por sobre o lago,
Aguarda o barco
O dia a hora
Da bruma certa
Descerrada
Como de nova Ginevra
Lancelot,
Beijos adúlteros
Novamente adúlteros
Uma outra vez adúlteros
Como um círculo perpétuo
Nas muralhas do castelo
Como um amor
Inefugível
Que nenhuma Excalibur
Poderá, por ora, cortar.
A magia dos elementos
Essenciais
Palavra e Terra
Seiva rasgada dos
Veios carnudos dos carvalhos
Druídicos
Também aqui
Espaço Casa Verbo
Novo sonho, mesmo mito
Como se continuamente
Continuadissimamente
Alguém conjugue em deleite
e como seu
o declinável
Refurjar.
quarta-feira, março 24, 2010
Das coisas ditas, palavras, da Terra
Da terra, pergunta o menino, "que há-de aqui ser?"
Tenha noite quando for noite
E riso em toda a hora boa de rir.
E crianças
Que criança é bom de ver crescer.
Mais água fresca e sombra d'árvore. E canto de alegrar as almas.
Quando o menino perguntar "e aqui que há-de ser?"
Então diz-lhe
"Aqui, como um nome, seja casa."
Tenha noite quando for noite
E riso em toda a hora boa de rir.
E crianças
Que criança é bom de ver crescer.
Mais água fresca e sombra d'árvore. E canto de alegrar as almas.
Quando o menino perguntar "e aqui que há-de ser?"
Então diz-lhe
"Aqui, como um nome, seja casa."
Do langor
Assim o corpo, assim a calma,
Assim o espanto das coisas.
E casa e pateo branco ondas mar e além.
Assim o dia, assim o sol,
Assim a luz.
Todas as coisas existem na claridade de si mesmas.
Assim o espanto das coisas.
E casa e pateo branco ondas mar e além.
Assim o dia, assim o sol,
Assim a luz.
Todas as coisas existem na claridade de si mesmas.
Espelho
O poema existe na meta do indizível.
Isto que agora lês
Não é tanto um poema como o reflexo de um poema.
Não sobre ti, mas sobre mim.
Fosse de facto um poema, como nunca poderá ser,
E seria um reflexo sobre as
Coisas.
Isto que agora lês
Não é tanto um poema como o reflexo de um poema.
Não sobre ti, mas sobre mim.
Fosse de facto um poema, como nunca poderá ser,
E seria um reflexo sobre as
Coisas.
Do espaço e centro das coisas nomeadas
Aqui o espaço do nome.
De cada coisa s'inventa de dentro
Para fora
Como chamada por
Palavra.
De todas as coisas- omnia nomina.
Círculo certo e arguto, de espaço preciso,
Que busca a criar
Coisas
Espantadas.
De cada coisa s'inventa de dentro
Para fora
Como chamada por
Palavra.
De todas as coisas- omnia nomina.
Círculo certo e arguto, de espaço preciso,
Que busca a criar
Coisas
Espantadas.
domingo, março 14, 2010
Verão
Quando era novo e havia dias de sol, descia sozinho até ao calhau. A vila era o espaço da primeira liberdade. Conhecia as escadas, os caminhos e entrava nas casas que deixavam as portas abertas. Quando chegava ao calhau estendia a toalha. Havia sempre alguém no calhau. Na vila todos se conhecem. O corpo ficava levemente estendido ao sol, salgado de banhos longos e ondas perfuradas. Tudo era tranquilo.
Ainda hoje procuro um estrado onde deitar a toalha e esticar o corpo ao sol no calhau. Olhar o mar que chega até às cidades e deixar-me ser feliz por ainda não lá estar. Hoje já não tenho a minha namoradinha dos sete anos e em muitas das casas as portas fecharam-se porque as pessoas morreram. Mas ainda há portas abertas por onde se pode entrar.
A ilha da Memória jaz eterna na Infância.
Ainda hoje procuro um estrado onde deitar a toalha e esticar o corpo ao sol no calhau. Olhar o mar que chega até às cidades e deixar-me ser feliz por ainda não lá estar. Hoje já não tenho a minha namoradinha dos sete anos e em muitas das casas as portas fecharam-se porque as pessoas morreram. Mas ainda há portas abertas por onde se pode entrar.
A ilha da Memória jaz eterna na Infância.
segunda-feira, fevereiro 22, 2010
(Sem título)
À mesa o pouco pão é terra podre
Das terras que choraram a noite inteira.
Hoje o mar corre para as ribeiras
E espalha em todo o canto
O perfume enjoativo dos mortos
Em espanto.
Tudo é interior e fechado.
Negritude.
Eis que as ruas da cidade voltam a ser em pedra bruta.
Algures no oceano a ilha da Memória jaz desfeita.
Das terras que choraram a noite inteira.
Hoje o mar corre para as ribeiras
E espalha em todo o canto
O perfume enjoativo dos mortos
Em espanto.
Tudo é interior e fechado.
Negritude.
Eis que as ruas da cidade voltam a ser em pedra bruta.
Algures no oceano a ilha da Memória jaz desfeita.
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