quarta-feira, novembro 14, 2007

Divagações sobre um Inverno próximo

Pudera eu ser como tu. Atenta como antena escutas o poema indizível até que se diga por completo ao teu ouvido.

O pateo é branco como uma manhã de Inverno e certo como a névoa e o frio. Perdidas no suor da tarde as aranhas desenham calmamente o seu labor.

Há uma delicadeza de orégãos pelo ar. Cheira a tempo novo.

A tua mão poisa de súbito sobre o espanto das coisas. Eis que acordam!


Há muito tempo foi o tempo do mito.

sexta-feira, novembro 09, 2007

terça-feira, novembro 06, 2007

Palavras para um velho amigo

Ao meu Pedro.

Velho amigo,

Os fins de tarde já são longos agora. A noite chega mais cedo. Talvez devesse dizer como fomos felizes antes. Nos tempos em que era de dia quando era dia. Há quem diga que sim...

Preocupa-te com outras coisas. Não te assustes com elas. Não reconheço qualquer ausência do Verde nestes dias mais escuros.

A horas certas chamo e continuas a vir. Sinto mais saudades do teu abraço do que antes. Talvez seja por isso que hoje ele me sabe melhor.

Continuas quente. Continuas no meu quotidiano.

Tenho orgulho em ti. Caminhos que traces. Metas onde chegas. Ensinaste-me o esforço de todos os dias.

Ensinaste-me os tempos do silêncio e as palavras que o silêncio mede.

São dias novos, velho amigo.

Não há nada de bom em continuar a viver bons tempos, mas antigos. Entusiasmante é atravessar contigo, por onde quer que andes, todos os tempos que nos cheguem.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Carta aberta a um amigo

-Tenho pensado muito no que me disseste. Custa-me tanto tudo. Pensei que não ia ser assim, esperei que não fosse. Mas custa-me.

-Estás magoado comigo, é isso?

-Não contigo, com aquilo que tu disseste.

-Isso é exactamente a mesma coisa. Nós somos aquilo que dizemos. Existimos na medida das nossas palavras. Podemos ficar aquém do que dizemos, mas nunca além. São as palavras que nos moldam, que nos fazem. O que eu te disse é o que eu sou.

-Mas as tuas opiniões sobre mim, sobre o que eu sou...

-As minhas opiniões não são sobre ti. Não foi isso que me pediste, não foi isso que eu te dei.

-Mas é igual ao que disseste. São sobre algo que eu sou, algo que em tantas coisas me define. São contra o que eu sou.

-São contra uma parte de ti. Uma parte importante, é verdade. E não é que seja fácil transpor o que eu acho sobre isto e passá-lo para ti. É como se eu preferisse que tu existisses à parte disso. Mas não pode ser assim.
Tens razão. É contra uma parte de ti. Que eu não entendo, nem aceito.
Não é fácil. É muito difícil.
Mas olha para mim. Eu não posso existir além de todos estes anos. Eu sou aquilo que fiz de mim mesmo. Mas aquilo que fiz de mim mesmo não deixa de ser influenciado pelos sítios por onde andei até agora. E foram tantos anos...
Tu indignas-te e julgas-me porque eu não aceito. E eu? Eu devo aceitar que tu não me aceites? Porque tu não me aceitas. Nem me entendes. Ao menos eu procurei entender-te.
Mas tu, tu chegaste cheio de certezas das tuas filosofias democráticas. Tu vieste com os teus chavões e os teus rótulos. Foste tu o primeiro a acusar. Quem foi mais justo de nós os dois?
Podia dizer-te que gostava de não pensar assim. Não é verdade. Gostava de não ter que pensar nisto. Gostava que não fosses assim.
Mas és, e eu gosto de ti. Não é fácil. É muito difícil. Mas eu estou a tentar. Estou a tentar mesmo. Só que resulta melhor se tu tentares comigo.
Não podemos existir além das nossas palavras, mas podemos existir além de todas as nossas partes. Apenas as palavras são o nosso todo.

E ele ficou ali. Quedo, imóvel. Quieto e à escuta. Para ouvir a chegada dos dias em que chegassem as palavras.

Dizer de palavras

Para a Luísa Vaz Ferreira, amiga de pouco tempo, mas de tantas e tantas coisas com o carinho profundo das palavras.

Leves, longas, lisas,

Assim as palavras.


Como a mão experiente

Como os frutos que colhe

Azuis como o mar

Brancas como o páteo

Breves como o Verde.


Enlaçam estranhos desenhos

Mistérios antigos.

Têm cheiro de orégãos

E odor forte de coisas que voam.


Uma viagem pelo que foi.

Velhos barcos, novas velas.

Escuta onde quebra a onda, atenta.


De baixo de água abre os olhos.

É o espanto das coisas enquanto existem.


Assim as palavras,

Leves, longas, lisas.

domingo, novembro 04, 2007

O rapaz de asas marcadas pelo fogo (L'énfant aux ailes brûlées)

O texto que aqui apresentamos foi descaradamente roubado a um amigo. A tradução que o segue surgiu do nosso fascínio por esse mesmo texto.

"L'enfant est resté là-bas. Perdu, il croise les chemins qui mènent aux sommets des volcans.
L'enfant aux ailes brûlées, essaie d'entendre le vent. Les voix des temps oubliés, des murmures qu'il ne comprend plus.
Il pleure l'Atlantique. Du feu dans son sang, du noir dans son coeur. Le corps par terre, il désire le ciel. Noyé dans sa mer, il rêve l'infini.

Je sais bien que tu me cherches. Moi aussi, je voudrais te retrouver."


O rapaz ali restou. Perdido, ele busca os caminhos que apontam ao cimo dos vulcões. O rapaz de asas marcadas pelo fogo procura compreender o vento. As vozes de tempos esquecidos, murmúrios que não entende mais.
Ele chora o Atlântico. O fogo no seu sangue, o negro no seu coração. Com o corpo por terra, ele anseia o céu. Mergulhado no seu mar, ele sonha o infinito.

Sei bem que me procuras. Pudesse, também eu, encontrar-te.

sexta-feira, novembro 02, 2007

Colheita de palavras ou O esforço da escrita

Para a Susana Correia, que pediu as minhas palavras.

Digo-te

Um espaço onde se construam palavras.

Um olhar deitado ao quotidiano.


Atento, quase imóvel,

O outro, o breve,

A essência.


E assim encontro um espaço

Quase terrível,

Quase de medo

Em cada página branca onde escrevo.

A tela sobre o Tejo

Palavras que não são de escrever,

Cidade em plácido anonimato,

As pessoas que passam pelas ruas,

O sangue que flui durante as horas.


Lisboa sem retratos

Retratada de gente.

Entre os passos suas histórias,

Segredos que digam um dia.


Enquanto,

Respiro, reflicto.

A cidade, o rio, talvez o fado.

Coisas que conte depois de amanhã.


Agora

Fecho os olhos,

Descanso.

Deixo pousar

De manso

A tela sobre o Tejo.

quinta-feira, novembro 01, 2007

Carta ao rapaz atlante

Ao Ivan, em fraternas insularidades.

Rapaz atlante, era preciso que tivesse palavras para te dar. Que podes ter tu de mim que eu te dê?

Tu sabes da bruma e do cheiro que ela encerra, conheces as palavras guardadas no vento do oceano e vês para onde o açor vira as suas asas.

Eu não tenho mais tempo senão em que te diga aranha, orégão, odor. Tempo em que te fale da tarde e em que descreva as medidas exactas de um pateo grego.

Que há das máscaras, dos ditos, dos coros, que te diga em cima do palco de Dioniso essencialmente nu? Estou como quem não pode estar, na frieza de uma estátua grega de Praxíteles, certo como coluna no frontão do Templo.

Eu que sou do Branco e dórico no corpo, que há em mim que se assemelhe a teu passo invulgar de divindade celta? Não penso que haja palavras que nos possamos dizer.

A vida não é uma delicadeza que se lê numa elegância de fim de tarde.

Que posso eu que sou mar dar-te a ti que és também oceano? Atento como a onda quando quebra, escuta.

Et pourtant, est-ce que je peux aussi pleurer l'Atlantique? Je veux tellement rever l'infini.

sexta-feira, outubro 12, 2007

Jantar do conde e do general

O criado fechou a porta. Entram minutos que se vão arrastar até determinadas infinitudes antes que o criado a volte a abrir. É um ritual longo, mas sobretudo arrastado pelo tempo que se prepara. Não há música e quem fosse atento diria não haver respiração. Apenas o toque constante e confuso do relógio sobre o mármore da madeira no tic-taquear infinito do tempo que guarda. São oito horas exactas e é de noite. Talvez seja Novembro. Se for, em meses será Primavera e quando os ponteiros chegarem ali será de dia. Mas serão sempre oito horas. Sem estações, sem manhãs ou noites e quase sempre sem tempo.

O general não é um homem velho. Alguma coisa acabou nele há muito tempo, ainda assim. Dir-se-ia dele o resultado dos estragos que os anos trazem, mais do que provocam. Foi um homem duro que se deixou vencer pelas durezas da vida. Vive numa lucidez que só em si é lúcida e o grande espelho por cima da lareira devolve-lhe uma imagem que só ele vê. Outros veriam um homem alto e de meia-idade. Ele verá coisas que não podemos saber. Não vemos com os seus olhos.

O conde já lá está, sentado para as janelas, perdido numa poltrona qualquer da sala. Nunca é a mesma. Há-de se sentar em todas para que o general entenda que não se pode sentar em nenhuma. Existe cada vez mais elegante, cada vez mais artificial na esperança de alguma vez existir para ele. Os olhos do general estarão sempre fixados no espelho sobre a lareira. A cada ruga uma razão, a cada traço um motivo, a cada gesto a certeza de que nada mudou. Ainda que o conde use um magnífico colete em seda selvagem pouco lhe importa. É um esforço que não há-de fazer. Um esforço que também há de ter retorno. Quantas vezes, no prolongar dum ritual vazio de sentido, tentou o conde encontrar o outro reflexo no reflexo do general?

Sentam-se. A mesa em toda a elegância da etiqueta gela o que já de si é menos que morno. Nada para o aproximar. Tudo para o espantar. Cada espaço ocupado no desejo de um olhar que se desprenda do espelho. Mas porque há-de ele olhar para outro lado que não para o espelho? Que há dele nesta sala senão o seu próprio retrato inventado na devolução do reflexo? O conde nunca olha para o espelho. Não para aquele, ou não para aquele como se fosse aquele. São tantos os seus espelhos nos seus corredores da sua casa que repetem a sua imagem cada dia mais magnífica. Um homem que veste um colete bordeaux de seda selvagem há-de ser realmente esplêndido. Que lhe interessa o reflexo? Que interesse pode ter para o general a extravagância palerma dum colete bordeaux?

A sala é ampla e branca em seus contornos. A mesa fica para lá da porta e para cá das duas poltronas que enfrentam a lareira, as janelas, o jardim. Mas as cortinas foram corridas pelo criado quando o conde se levantou. O criado já serve há muito tempo. Frente a frente o conde e o general trocam expressões delicadas. Um há-de mostrar ao outro que aquele é o seu espaço. O outro nem sequer se lembrará de pensar nisso durante todo o jantar. O olhar reprovador do general recai sobre o prato quase cheio do conde, mas mais sobre os talheres cruzados. Será que percebe que o conde lhe devolve um olhar de raiva? (Será que ambos sabem que se destroem no terror das coisas breves que se calam?)

Que criança parva é esta que brinca às bonecas neste palácio de muitas salas que a sorte mais que a morte da mãe lhe deixou? Que homem frio é este que nada sabe dos outros, ou dele ainda que fosse?

Apenas dele, nem que fosse apenas dele. Uma tarde. Que bom seria Abril. O jardim. Uma mesa lá fora. O gosto bucólico das conversas banais. Depois um abraço, um recanto. Algo onde se esconder. Ele que o protegesse.

No vai-e-vem do garfo há-de pensar que criança pequena que não soube crescer.

Não há lugar para coisas idealizadas. Não há lugar para bucolismos. Não há espaço para abraços. Há só o ar pesado e sufocante da sala. O barulho ensurdecedor do relógio. O arrastar mais que lento do tempo. A dor que os dois pagam para estar aqui. Frente a frente- o conde e o general, no braço de ferro das emoções. Que não se chegue ao outro nunca, que não se diga nunca nada. Que nesta sala não haja lugar para fraquezas.

(E se ainda assim ele visse alguma coisa no espelho. E se ainda assim ele reparasse no colete bordeaux.)

O relógio já bateu horas. O tictaquear dos tempos é mais lento, mais calmo, mas constante. Já quase se pode respirar. O conde levanta-se, o general também. Olham-se, estão frente a frente- o conde e o general. É a hora das palavras:
-Então até à próxima quarta.
-Até à próxima quarta, pai.

sábado, outubro 06, 2007

Embalo das coisas ou Variação às suas exortações

Em longas linhas leves, mas tensas
Tento
Encontrar o acordo secreto das coisas.

Acordo e é mar.
Enquanto,
Tudo se encanta de estar em seu canto.
Encantamento.
Tormento sábio, mas manso
De tudo o que existe embalado
Em seu vivo descanso.

Segredo de Francisca

De repente falou:

-Francisca.

E o sabor da romã invadiu-lhe
De súbito a boca.

Seus olhos rasos
De novo em mar.
Seu mar de corpo
De novo no espanto das coisas
Que nascem da terra.

Sua terra nascida
De um seu próprio nome
Como se ao dizê-lo
Num mesmo jogo
Lhe roubassem e devolvessem
Num mesmo instante
A magia primeira da sua palavra.

sexta-feira, outubro 05, 2007

If you love somebody set them free ou Despedida cantada em agonizando

Ao Pedro.

Pedaço distante,

Instante exacto,

Tempo constante,

Em que te vais,

Em que me perco,

Em que te alongas,

Em que m'esgoto.


Além de mim,

Além de ti,

P'r'àlém de nós,

Depois de algo,

Palavras que não diga mais.


Certezas outras,

Novas manhãs,

Velhas dúvidas,

Coisas que restam-

If you love somebody set them free.

quinta-feira, outubro 04, 2007

Retrato de rapaz em algumas variações (Revisited)

Guardo uma imagem em mim:

Uma janela (alta, grande e de vidro); um jardim (que é como se a vida acontecesse além de tudo isto); ele.

Que ele exista não é mais que uma quase certeza. A banalidade do que veste torná-lo-ia real, não fosse a abstracção com que se coloca exactamente no meio de tudo.

Ele está em todo o lado (por todo o lado) sem que possa existir sequer aquém de si mesmo. Que o corpo esteja largado a uma canto (contra a janela, contra o jardim) não é mais que um pormenor. É estruturalmente clássico sem que deixe de ser desejosamente latino. É o seu corpo que o diz além do terceiro botão aberto da camisa.

Anseio mais pela sua imagem do que ambiciono o seu corpo. O mármore das estátuas é sagrado demais para que se lhe toque e o fogo dos deuses trar-lhe-ia um calor humano demais para que não se perdesse. Ele deve existir acima de tudo mesmo que para isso não deva existir.

É sumamente belo. É sumamente arrogante. É sumamente divino. (e todas estas coisas existem em consequência umas das outras)

Se vive nem quero saber. De pouco me vale aquilo que nele há de humano.

A sua imagem. Apenas a sua imagem. Continuadamente a sua imagem...

A existência dum corpo ou A probabilidade da inexistência

Tem o corpo esgarço partido contra uma coluna. Há copos à sua volta. O vidro faz barulho de encontro ao vidro. É vida que existe.

Tem olhos com que diga coisas. Não as diz. É possível que as guarde. Aguarda o tempo. As pessoas existem continuamente em seu redor. Encantamento.

Resta parado. Os outros passam. Vivem, ele observa. Talvez exista nos outros, para além de si. Não existe, não pode existir!

O seu corpo esgarço continua partido contra a coluna da sala.

Breve estória de sinhàzinha

S'engravidou-se sinhàzinha de tempo
Por não ter mais tempo por onde andar

S'engravidou-se sinhàzinha de coisas
Por onde houvesse mistérios para dizer

S'engravidou-se sinhàzinha de vida
E partiu na barca funda
Pelo anseio profundo de partir

quinta-feira, setembro 27, 2007

Coisas que a vida traz ou Pequeno episódio tragi-cómico no autocarro

Uma mulher de preto no autocarro.

"-Morreu-lhe alguém?

-O meu marido em Agosto!

-Ai, que as pessoas nascem, morrem e vão a enterrar e eu não sei nada.

-Também, sai de casa de madrugada só volta à noite..."

Será que se acordar mais tarde posso ver morrer o marido das outras?

A varanda e o seu palácio

Au jeune comte du Petit-palais, avec toute m'amitié.

-Este é o Pedro, avó.
-Muito prazer. Como está?
Há-de durar mais um tempo o constrangimento. Ele não é trémulo, mas treme. A Condessa resta inalterada. Está estática. Permanece. Ele também, mas bem gostava de não o fazer. A Condessa falhou com a sua parte do ensaio. Não houve nenhuma das suas mãos que se tenha levantado. A direita sobre a esquerda. Ambas sobre o colo. Há-de durar mais um tempo o constrangimento até que perceba que o ensaio acabou. Ainda não é hoje que ele lhe alcançará a mão.

Estão frente a frente. Francisco mais ao lado. Manso, o tio Afonso trinca o seu cachimbo maciço, esparramado na poltrona. A tia está lá por cima a atarantar a criada (a que restou) com o final das mudanças. Queixa-se do corpo fraco e sobrecarrega a criada com as dores do corpo, mas mais com as dores da alma. É possível que António esteja no quarto. Estão frente a frente, ele e a Condessa. A Condessa é mais imponente do que bonita, como convém. É imensa. A Condessa está por toda a casa, desde as lojas que cedo não serão suas às escadas e aos corredores por onde corre o sangue dos dias do seu palácio. Ele está apenas onde está. É mais alto do que ela, mas agora é quase corpuscular. Nessa noite a Condessa só lhe voltará a dedicar as palavras de despedida. Não haverá mais palavras por agora. Isso basta para que ele saiba da sua inexistência nesta casa.

-Nós vamos para o quarto.
Finalmente acabou. O corpo respira de alívio. A Condessa deu-lhe as costas. Eles já vão na porta. A Condessa murmurou alguma coisa em francês ao tio Afonso. Ele não consegue perceber o que foi, mais pela distância que pelo seu mau francês. Não há-de saber como a Condessa confessava ao filho que lhe tinha achado bom ar. Há pouco de belo na Condessa (ela não o ignora). Tão pouco teve um marido bonito e fez filhos em vez de beldades. A beleza não é senão um prazer rechonchudo de fim de tarde para as burguesinhas do Príncipe Real (que agora habitam em Telheiras). Francisco, o neto, é mais bonito do que Pedro. Mas Pedro tem bom ar. Isso evita-o à vulgaridade. A Condessa há-de lembrar-se disso.

Podiam ter ido pelo corredor, mas foram antes pelas duas salas que levam ao quarto de Francisco. O quarto de jantar guarda a imagem antiga dum fresco que cobriu as janelas antes da cal descascar-se. Agora nada disfarça as rachas. O vazio da antecâmara encerra o segredo das partilhas numa família que já guarda pouco que dividir.

Chegam ao quarto. Arejado, honesto, simples. Os livros foram uma desculpa, as mãos não. Encontram-se na excitação do silêncio. A Condessa continua a estar por toda a casa. Há que guardar o barulho para outros dias. É fim de tarde. Lá fora Lisboa. As bocas. Dos turistas que devoram vorazmente um último pedaço de pão. A respiração lenta. Dos cães que passeiam pelas esquinas da cidade. As roupas caídas. Nas montras das lojas que fecham. Os corpos deitados. De dois namorados que se encontram num banco do Camões. O grito abafado. Do estertor do eléctrico acabado pelos barulhos das ruas. Francisco salta da cama, meio nu como uma estátua. Tem um ar meio provincial de fidalgo minhoto. Tem um embrulho nas mãos. Dá-o. Pedro recebe-o. São promessas de coisas que podem existir. Francisco lê-lhe entre os beiços "Amo-te". É mentira. Ainda não é verdade. Talvez seja. Nenhum dos dois sabe. Que importa? É verdade desde que ele o disse e enquanto o outro o acreditar. O telemóvel. Uma mensagem para o António (estará no quarto?). "Fumamos na varanda?(está cá o Pedro)". O primo aparece logo. Francisco abre a vidraça. Lá fora o século XXI. Lá fora Lisboa. A varanda é curta demais para os três, mas encaixam-se. António está tão esmagado como constrangido entre os dois. Está a aprender. São tão etéreos como o fumo. Os fins de tarde de Lisboa. Talvez Francisco e Pedro. Encontram-se pelo canto que cada um ocupa na varanda. Existem além de António. Só um para o outro. Conversam. Conversam sempre. António não pode perceber. Não porque seja um segredo. Porque é um segredo apenas deles.

Pedro atravessa o corredor. Já não treme. A Condessa está onde a deixou. Não a tivesse visto falar com o filho diria que tinha ficado sempre ali. Afonso não está. Talvez com a mulher em qualquer lado do sótão.
-Até amanhã. Muito gosto.
-Boa noite. O prazer foi meu.
Sorri. Afinal ele tem bom ar. A Condessa há-de lembrar-se disso. Mas ainda não haverá mãos levantadas, pelo menos por hoje. Francisco existe meio alheio à cena. Pedro faz o seu papel que aprendeu depressa. Sem ensaios desta vez. Devolve o sorriso. Saem.
Cá em baixo na porta hão-de demorar-se até ao estertor abafado do próximo eléctrico. Lá fora Lisboa. Talvez a Condessa se lembre disso.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Just like Marie Antoinette. Retrato de elegante no Lux. (Revisited)

Leva-me a dançar ao Lux, she said just like Marie Antoinette.

Uma maravilha de betão e vidro- ela ou o loft? A chuva que escorrega pelas janelas, ela que nunca escorrega por lado nenhum. Ela existe. Há o espaço exacto do vazio da sua presença. É por lá que ecoa a sua voz. As palavras nas paredes. Algo chega até ele. Ele cuida dos gestos quotidianos: o casaco, o guarda-chuva, as chaves do carro. Ela existe. Imensa, soberana, imperial, just like Marie Antoinette.

Ela está próxima das pessoas. Nunca pode estar entre elas. As suas linhas são distantes demais para que possa existir no meio das pessoas. Há os risos, os olhares. Para ela, nunca dela. Os seus olhares não se desperdiçam e as suas palavras não são palavras, mas desejos.

Há um equilíbrio delicado (e medido) enquanto sobe as escadas. Estas ou as de qualquer rua de Lisboa. A subida de uma escada é um espaço onde a elgância pode viver. Ela é curva como os espelhos onde encontra a projecção de si mesma. Eles não lhe mentem. Ela ama-se até à infinitude do seu reflexo, just like Marie Antoinette.

Pisa o chão como quem pisa a vida, agarra o copo como quem prende algo seu entre as mãos. Despeja nos lábios algo inútil. Nunca nada será tão seu como ela própria. O corpo meio estendido sobre um dos sofás. Ela pertence, não observa. Ela também é a elegância urbana do espaço.

Vêem-na, olham-na, observam-na. Talvez a desejem. Nada a preocupa, just like Marie Antoinette. Pelo corpo um vestido de veludo escarlate, perto do peito, solto na cintura. O vestido ondula, ela não. É estática como qualquer peça dali. Caem-lhe três fiadas de pérolas e no decote uma jóia de Lalique. Pelas pernas os collants pretos e os stillettos encarnados.

Nunca se farta, mas cansa-se por vezes. Levanta-se. Outras escadas, a mesma elegância. Os seus gestos são uma repetição de todos os outros. Na pista tudo se mexe. Ela fica parada. As bolas giram depressa demais, as luzes brilham demasiado. Tudo é rápido. Ela é exacta.

As pessoas teimam em existir à sua volta. Alguém lhe toca. De repente, ouve a música. O corpo dominado desprende-se. Ela mexe-se. Uma maravilha de betão e vidro- o loft; ela derreteu por entre a pista. Agora dança. Freneticamente como as luzes. Os cabelos existem. Ondeiam. Ondulam-se. É real. Mas é só um instante. Os espelhos não mentem. Ela ama-se até à infinitude do seu reflexo, just like Marie Antoinette.

Há-de voltar ao seu elemento,

Just like Marie Antoinette.

terça-feira, setembro 18, 2007

Breve meditação sobre Sara

À Sara Guia d'Abreu que povoa os meus dias.

Uma tarde,

Um intento,

Incenso que arde devagar.

Tarde.

Luz do sol sobre os teus óculos,

Um carro numa rua de Lisboa.

Nós!

Um cheiro doce de canela,

Coisas lembradas nas esplandas da cidade.

Recantos,

Encantos fadados,

Lembrados de coisas,

Livros sobre as mãos.

Esquinas de dizer palavras.

Corpos molhados.

Rimos,

Gargalhadas.

Quadros pendurados nas paredes procuradas,

Bailados,

Janelas em que digas:

Lisboa.

Palavras deitadas à toa

À tona do corpo,

Dos lábios.

Vagueamos, vagamos lugares,

Breves sábios.

Entendimentos,

Intentos,

Incensos

Que queimamos no arrastar lento dos dias lentos.