sábado, setembro 17, 2011
Da perda
Perder vem de manso e instala-se nesta cadeira ao meu lado. Depois jogo este quebra-cabeças sem número em que cada dia é mais uma peça falando-me do que perdi.
sábado, setembro 10, 2011
Ritual
Como se das ondas um campo trigado.
Tuas mãos côncavas em alegre seara.
Um jeito de correr, corpo molhado,
Coleccionando as espigas da estrada.
De tarde nunca falavas.
Tisnado do sol, aquele banho
Era o ritual de outras coisas.
Tuas mãos côncavas em alegre seara.
Um jeito de correr, corpo molhado,
Coleccionando as espigas da estrada.
De tarde nunca falavas.
Tisnado do sol, aquele banho
Era o ritual de outras coisas.
No meu regresso
Quantas vezes isto houve no meu regresso?
Deixa que aconteça- o poema
Dir-se-á até ao final.
Era assim que lhes falavam
Os antigos chefes das tribos.
Os homens dançavam uma
Dança de barro.
Chamavam-lhe início.
Depois foi de dia...
Deixa que aconteça- o poema
Dir-se-á até ao final.
Era assim que lhes falavam
Os antigos chefes das tribos.
Os homens dançavam uma
Dança de barro.
Chamavam-lhe início.
Depois foi de dia...
quinta-feira, setembro 01, 2011
Praia
à avó Nicha, essência da minha infância
Naqueles dias-
O vento soprava sempre
Porque éramos velozes a abrir as janelas
E a fazer a cabeça espreitar de fora
Contra as vozes irritadiças das mães
"Ponha já a cabeça para dentro".
Quase não abríamos os olhos, rasgados como um chinês,
Mas tudo era sentir e saber,
A mão inclinada daquela maneira que o tio ensinou
E que não causa atrito.
O vento forte.
Toalhas estendidas longas na praia, banhos de mar e seixos rolantes.
"Cuidado que o mar hoje puxa"
Aquela onda que vinha debaixo da outra e depois eu não vi
Deve ser assim um pateo branco e quadrado
Era a voz da mãe aflita e a mão forte de todas as mãe aflitas
Já não estava dentro de água tinha só o corpo molhado
E um raspanete valente a zumbir nos ouvidos.
Brincadeiras e rochas, pernas esfoladas
"Viu que saltei da pedra grande, mãe?
Foi tão bom- agora não há mais medo, hei-de sempre lá ir"
Queria sentir outra vez o corpo a entrar
A água gelada e depois sabia onde ficava cada osso
Certinhos todos os duzentos e seis.
Hoje ninguém quer comer "faça sandes para levar"
Come-se ali no bar da praia.
Mas não que demora muito tempo,
Esperamos três horas e isso não podemos
Que não queremos deixar de ir ao mar
Mostrar aos grandes que sabemos dar mergulhos, furar ondas
E que não temos medo porque ontem a mamã viu-nos
Pular da pedra grande.
Há tarde sabe melhor "protector na cara, já"
Era aquela pasta pelos olhos, os beiços bem para dentro
Para nem provar
"Estou branco, estou branco?"
"Pareces um E.T."
Risada pelo calhau que se ouvia em todo o lado.
Pastas e pastas de protector e depois era aquele saquinho
Champo e gel
Rápido para os duches
"Eu sou o primeiro"
"Ui, que gela, mal posso cá estar"
"Só aguentamos na praia, est'água assim tão gelada"
(anos a seguir vieram os senhores e proibiram aqueles banhos
e nunca mais tomámos duche ao canto da praia e viamos o por-do-dol
e dizíamos "ai que lindo!")
"Siga já para casa d'avó. Lá ficamos à espera"
Toca a subir essa calçada feita de calhau, vila acima,
Aqui é só escadas
"Um beijo a Nossa Senhora da Luz"
"Mas entrar assim na igreja- molhados e de calções?"
"Nosso Senhora não se zanga, quer é beijinhos que Ela ouve mais
A quem é mais pequeno".
Corre, corre a ver quem chega primeiro
"Deixe os patos da ribeira, vamos indo"
Hoje os patos têm todos penas
Não era como naquele dia das estórias
Que as penas estavam na casa das tias velhas e não nos patos
Coitadinhos, que os patos também sofrem para nós termos nossos milagres.
A bexiga aperta tanto e só há uma retrete.
"Vamos contar piadas, a ver se passa o tempo"
"Um de cada vez para irmos todos"
"Eu primeiro e tu depois"
Esparramados no caramanchão da sala
Tão cansados do banho e dos mergulhos e do mar que não tem fim
E aquele que se'nrolou e aquele que saltou da pedra
Agora os grandes já sabem como eles mergulham
"P'ró ano ainda está mais crescido"
Vamos com estórias para contar, tantas quando chegarmos a casa
Tudo a rir enquanto janta.
Era assim ser feliz sem saber, mas lá no fundo sabendo
Quando o verão era verão
A praia era calhau
E todos que deviam por lá estavam.
Naqueles dias-
O vento soprava sempre
Porque éramos velozes a abrir as janelas
E a fazer a cabeça espreitar de fora
Contra as vozes irritadiças das mães
"Ponha já a cabeça para dentro".
Quase não abríamos os olhos, rasgados como um chinês,
Mas tudo era sentir e saber,
A mão inclinada daquela maneira que o tio ensinou
E que não causa atrito.
O vento forte.
Toalhas estendidas longas na praia, banhos de mar e seixos rolantes.
"Cuidado que o mar hoje puxa"
Aquela onda que vinha debaixo da outra e depois eu não vi
Deve ser assim um pateo branco e quadrado
Era a voz da mãe aflita e a mão forte de todas as mãe aflitas
Já não estava dentro de água tinha só o corpo molhado
E um raspanete valente a zumbir nos ouvidos.
Brincadeiras e rochas, pernas esfoladas
"Viu que saltei da pedra grande, mãe?
Foi tão bom- agora não há mais medo, hei-de sempre lá ir"
Queria sentir outra vez o corpo a entrar
A água gelada e depois sabia onde ficava cada osso
Certinhos todos os duzentos e seis.
Hoje ninguém quer comer "faça sandes para levar"
Come-se ali no bar da praia.
Mas não que demora muito tempo,
Esperamos três horas e isso não podemos
Que não queremos deixar de ir ao mar
Mostrar aos grandes que sabemos dar mergulhos, furar ondas
E que não temos medo porque ontem a mamã viu-nos
Pular da pedra grande.
Há tarde sabe melhor "protector na cara, já"
Era aquela pasta pelos olhos, os beiços bem para dentro
Para nem provar
"Estou branco, estou branco?"
"Pareces um E.T."
Risada pelo calhau que se ouvia em todo o lado.
Pastas e pastas de protector e depois era aquele saquinho
Champo e gel
Rápido para os duches
"Eu sou o primeiro"
"Ui, que gela, mal posso cá estar"
"Só aguentamos na praia, est'água assim tão gelada"
(anos a seguir vieram os senhores e proibiram aqueles banhos
e nunca mais tomámos duche ao canto da praia e viamos o por-do-dol
e dizíamos "ai que lindo!")
"Siga já para casa d'avó. Lá ficamos à espera"
Toca a subir essa calçada feita de calhau, vila acima,
Aqui é só escadas
"Um beijo a Nossa Senhora da Luz"
"Mas entrar assim na igreja- molhados e de calções?"
"Nosso Senhora não se zanga, quer é beijinhos que Ela ouve mais
A quem é mais pequeno".
Corre, corre a ver quem chega primeiro
"Deixe os patos da ribeira, vamos indo"
Hoje os patos têm todos penas
Não era como naquele dia das estórias
Que as penas estavam na casa das tias velhas e não nos patos
Coitadinhos, que os patos também sofrem para nós termos nossos milagres.
A bexiga aperta tanto e só há uma retrete.
"Vamos contar piadas, a ver se passa o tempo"
"Um de cada vez para irmos todos"
"Eu primeiro e tu depois"
Esparramados no caramanchão da sala
Tão cansados do banho e dos mergulhos e do mar que não tem fim
E aquele que se'nrolou e aquele que saltou da pedra
Agora os grandes já sabem como eles mergulham
"P'ró ano ainda está mais crescido"
Vamos com estórias para contar, tantas quando chegarmos a casa
Tudo a rir enquanto janta.
Era assim ser feliz sem saber, mas lá no fundo sabendo
Quando o verão era verão
A praia era calhau
E todos que deviam por lá estavam.
quinta-feira, maio 26, 2011
À Tarde
Para Luísa Vaz Ferreira
Às vezes, quando passo por Lisboa, sinto-te a falta. São algumas intimidades para as quais urge nunca inventar palavras. O tempo é demasiado longo nas eternas viagens suburbanas e no espaço perdido entre a cidade e as coisas pensamos em tudo, mas mais na saudade. Lisboa agora sem fado, sem Tejo, sem cais. Onde andas?
Às vezes, quando passo por Lisboa, sinto-te a falta. São algumas intimidades para as quais urge nunca inventar palavras. O tempo é demasiado longo nas eternas viagens suburbanas e no espaço perdido entre a cidade e as coisas pensamos em tudo, mas mais na saudade. Lisboa agora sem fado, sem Tejo, sem cais. Onde andas?
segunda-feira, maio 23, 2011
Fragmentum Gustaui
Aquela cadeira tinha sido restaurada pela tia Bé. Era uma cadeira velha e de vime onde Gustavo gostava de sentar-se quando, era ainda miúdo, passava tardes no terraço da casa das Azinhagas do Mar a ver as ondas lamberem a encosta. Na altura da mudança do Artur a tia Bé tinha-a restaurado e oferecido ao casal. Gustavo soubera logo que ia ficar na marquise de ferro azul. Era uma pequena marquise de muitos vidros pequenos e quadrados e de ferro forjado azul que ligava por fora o escritório e a sala. Era ali, que nos crepúsculos já quentes de Maio Gustavo se sentava a ler. Tinha sempre ânsias de coisas bucólicas, como as saudades de um campo onde nunca tivesse tido uma infância. Como se o pateo ajardinado em baixo o fizesse pensar em montanhas e cozinhas impregnadas do cheiro axaropado das compotas em líquido ainda quente. Isto dava-lhe paz e deixava-o calmo. Pousava na mesa ao lado uma grande caneca com uma infusão de menta e hortelã. Esperava que arrefecesse e depois tragava em grandes goles até ao fundo. Lia à espera do efeito que chegava sempre: uma camada gentil e ligeira de suor refrescava todo o corpo. Depois, gostava ainda de abrir a palma da mão e espalmá-la contra as paredes curtas e férreas da marquise- o ferro eternamente frio em todos os seus cinco dedos. Eram tardes sem Lisboa e sem pessoas como se o mundo acontecesse num dos seus livros bucólicos de belas capas velhas de alfarrabista.
terça-feira, maio 03, 2011
D
Pour lui
Como o deus dos toiros naquela manhã
Assim as coisas aconteciam surpreendentemente.
Amar era fácil como o sumo das nespras
Escorrendo-nos pelos beiços.
Tu dizias Verde e era uma primavera feita de andorinhas,
Rios, flores silvestres e pequenas casas caiadas dispersas nos montes.
Era de manhã muito cedo.
Nos lençóis de ontem os meus dedos encontravam caminhos
Pelos teus cabelos
Cavalos que de súbito surgissem em geografia desconhecida.
O mar muitas vezes, quase todas.
Depois as tardes de passeio e os gelados lambidos sofregamente
À beira-Tejo ou beira-cidade.
A nossa casa na Rua do Alecrim tinha um pateo traseiro de azulejos
Onde Lisboa era uma nova cidade,
Secreta e segura,
Só nossa como os macarrons coloridos que comíamos às cinco da tarde.
Tu eras sempre leve e homem
E isso parecia bastar-me na iminência dos dias sucedidos.
Usavas muitas vezes as calças de linho branco do verão passado
Que eu engomava na tábua colocada sobre as pedras do pateo.
Um lugar onde havia sol e mais tarde luz
E também flores e árvores pequeninas.
O teu corpo sentava-se muitas vezes naquela cadeira de vime que tínhamos
Largada na varanda que dava para dentro.
Era comum leres. Eram tardes inteiras de poesia.
Lias sempre alto, como ainda hoje lês,
Porque era primavera e o inverno havia passado
Ao que nos pareciam muitos meses
Como se tivessem acontecido vários anos sem inverno,
Mas apenas de primavera.
Se nos esticássemos nos varandins fronteiros conseguíamos olhar o rio.
O teu corpo enroscava-se muitas vezes no ferro forjado e frio dos varandins
E suportavas o teu peso com os abdominais tesos e duros.
Ríamos muito nessas tardes
Porque tu encontravas sempre particularidades engraçadas nos barcos que
Víamos passar ao fundo.
Hoje ainda somos felizes, mesmo quando o Inverno parece durar há mais de dez estações,
Porque de manhã o nosso pateo tem sol
E quando acordas muito cedo eu escorrego os meus dedos pelos teus cabelos
Cavalos em encontradas geografias.
Como o deus dos toiros naquela manhã
Assim as coisas aconteciam surpreendentemente.
Amar era fácil como o sumo das nespras
Escorrendo-nos pelos beiços.
Tu dizias Verde e era uma primavera feita de andorinhas,
Rios, flores silvestres e pequenas casas caiadas dispersas nos montes.
Era de manhã muito cedo.
Nos lençóis de ontem os meus dedos encontravam caminhos
Pelos teus cabelos
Cavalos que de súbito surgissem em geografia desconhecida.
O mar muitas vezes, quase todas.
Depois as tardes de passeio e os gelados lambidos sofregamente
À beira-Tejo ou beira-cidade.
A nossa casa na Rua do Alecrim tinha um pateo traseiro de azulejos
Onde Lisboa era uma nova cidade,
Secreta e segura,
Só nossa como os macarrons coloridos que comíamos às cinco da tarde.
Tu eras sempre leve e homem
E isso parecia bastar-me na iminência dos dias sucedidos.
Usavas muitas vezes as calças de linho branco do verão passado
Que eu engomava na tábua colocada sobre as pedras do pateo.
Um lugar onde havia sol e mais tarde luz
E também flores e árvores pequeninas.
O teu corpo sentava-se muitas vezes naquela cadeira de vime que tínhamos
Largada na varanda que dava para dentro.
Era comum leres. Eram tardes inteiras de poesia.
Lias sempre alto, como ainda hoje lês,
Porque era primavera e o inverno havia passado
Ao que nos pareciam muitos meses
Como se tivessem acontecido vários anos sem inverno,
Mas apenas de primavera.
Se nos esticássemos nos varandins fronteiros conseguíamos olhar o rio.
O teu corpo enroscava-se muitas vezes no ferro forjado e frio dos varandins
E suportavas o teu peso com os abdominais tesos e duros.
Ríamos muito nessas tardes
Porque tu encontravas sempre particularidades engraçadas nos barcos que
Víamos passar ao fundo.
Hoje ainda somos felizes, mesmo quando o Inverno parece durar há mais de dez estações,
Porque de manhã o nosso pateo tem sol
E quando acordas muito cedo eu escorrego os meus dedos pelos teus cabelos
Cavalos em encontradas geografias.
quarta-feira, abril 27, 2011
Os homens belos
Os homens belos do pateo grego são como a biga latina de cavalos cujas velozes patas batem vorazes sobre o meu peito.
quinta-feira, março 31, 2011
A casa dos ricos
Era uma coisa estranha- a casa dos ricos. Os móveis eram bonitos e caros; as paredes mostravam quadros que nos faziam acreditar um gosto soberbo; e nas casas de banho havia pequenas toalhas individuais que depois de usadas deitavam-se num cesto estratègicamente colocado debaixo do lava-mãos. Mas o mais impressionante era que os ricos tinham no terraço grandes sofás de pano e tapetes por debaixo deles. Certo dia, contudo, descobriu que aos ricos as casas também custam a manter: durante o Inverno os móveis do terraço cobriam-se com grandes protecções de plástico, porque afinal os móveis dos ricos também se sujam e apanham chuva. Mas o mais engraçado de tudo é que em dias de sol punha-se no terraço, como em qualquer varanda suburbana, um estendal articulado onde, entre outras peças, coravam as cuecas brancas.
quarta-feira, março 23, 2011
Lisboa-Azulejo
Lisboa e suas ruas de azulejos,
Lisboa e suas tardes de turistas,
Lisboa centro da vida,
Descendo invariavelmente para o Tejo.
Lisboa e suas tardes de turistas,
Lisboa centro da vida,
Descendo invariavelmente para o Tejo.
Corpo-Tejo
O corpo jamais percorrido,
Depois o Tejo- sem ondas, sem barcos,
Como a rua estreita que caminha para cima
E nada de si mesma guarda.
Depois o Tejo- sem ondas, sem barcos,
Como a rua estreita que caminha para cima
E nada de si mesma guarda.
quinta-feira, março 17, 2011
Pequena casa branca
para Nini Salgueiro
Saberás se a seda é tão macia como a caxemira.
Enroscada na manta do sofá.
Da luz de todas as janelas da pequena casa branca,
Agora teu corpo como depois.
Os passos assustados do gato, tacteando.
E tu repousada,
Apontando com certeza as almofadas riscadas para a cama.
Saberás se a seda é tão macia como a caxemira.
Enroscada na manta do sofá.
Da luz de todas as janelas da pequena casa branca,
Agora teu corpo como depois.
Os passos assustados do gato, tacteando.
E tu repousada,
Apontando com certeza as almofadas riscadas para a cama.
Tejo e sala
para Stijn Luyten, ao jantar.
Havia esta sala muitas vezes.
Era como uma coisa da memória.
Nos dia de sol apontava uma cadeira
para o varandim.
Espraiava
depois o corpo.
Lisboa era leve nesses dias e cheia de Tejo.
Havia esta sala muitas vezes.
Era como uma coisa da memória.
Nos dia de sol apontava uma cadeira
para o varandim.
Espraiava
depois o corpo.
Lisboa era leve nesses dias e cheia de Tejo.
Sem Tejo
No páteo escuro para onde dão as janelas deste quarto.
Além,
dois gatos brincam entre as grades.
Abaixo,
como um fosso longo.
Nunca lhes mostram os becos da cidade onde o sol não chega. Nunca.
São as traseiras dos prédios que guardam o segredo-
Lisboa sem qualquer Tejo.
Além,
dois gatos brincam entre as grades.
Abaixo,
como um fosso longo.
Nunca lhes mostram os becos da cidade onde o sol não chega. Nunca.
São as traseiras dos prédios que guardam o segredo-
Lisboa sem qualquer Tejo.
quarta-feira, março 16, 2011
A marquise e as gaiolas
à Tia Lil
Eram seis da manhã quando atravessava o Príncipe Real. Lisboa ainda sem gente, mas já com sol. Maio. É como dizer que nasciam flores no jardim e mais à frente nas roseiras que plantaram no miradouro.
O Tio Raoul tinha aqui uma casa quando eu era pequeno. Era um apartamento antigo da rua da Escola Politécnica. Tinha um quarto interior, com uma janela interior. Ai era a casa de jantar. Isto era um fascínio.
Havia também uma marquise de ferro azul que dava para o pateo traseiro do prédio. Há um único pateo para os prédios da rua da Escola Politécnica que se estende do Museu de Ciência ao palacete Ribeiro da Cunha. Por isso é demasiado grande para ser um pateo e demasiado seco para ser um jardim. É um quintal?
O Tio Raoul tinha gaiolas na marquise e dentro delas tinha piriquitos coloridos. Todos tinham nome e eu não lembro do nome de nenhum. Os piriquitos nunca me fascinaram. Mas as gaiolas.
Eram 6h45 quando cheguei ao meu apartamento em Campo de Ourique. Tenho uma casa pequena pela qual pago muito dinheiro. Pelo menos é muito face ao seu tamanho que é apenas razoável. O meu quarto é quase do tamanho da sala e as janelas fazem um marquise. Não tenho mais nada no quarto: uma cama de casal, duas mesas de cabeceira e vinte e sete gaiolas de todos os tamanhos e formas dispostas ao longo da marquise do quarto.
Lembram-me o Tio Raoul que era um tio de que não gostava particularmente. Gostava da sua casa, fascinavam-me as suas gaiolas. Das vinte e sete que tenho, catorze são dele. Todas as que guardavam piriquitos coloridos na marquise de ferro azul.
Amanhã vou ao banco, depois à imobiliária e vou mandar tirar o cartaz que diz "Vende-se" e por outro que diga "Vendido" no apartamento da rua da Escola Politécnica. Já não aguento mais não guardar as minhas gaiolas naquela marquise de ferro azul.
Eram seis da manhã quando atravessava o Príncipe Real. Lisboa ainda sem gente, mas já com sol. Maio. É como dizer que nasciam flores no jardim e mais à frente nas roseiras que plantaram no miradouro.
O Tio Raoul tinha aqui uma casa quando eu era pequeno. Era um apartamento antigo da rua da Escola Politécnica. Tinha um quarto interior, com uma janela interior. Ai era a casa de jantar. Isto era um fascínio.
Havia também uma marquise de ferro azul que dava para o pateo traseiro do prédio. Há um único pateo para os prédios da rua da Escola Politécnica que se estende do Museu de Ciência ao palacete Ribeiro da Cunha. Por isso é demasiado grande para ser um pateo e demasiado seco para ser um jardim. É um quintal?
O Tio Raoul tinha gaiolas na marquise e dentro delas tinha piriquitos coloridos. Todos tinham nome e eu não lembro do nome de nenhum. Os piriquitos nunca me fascinaram. Mas as gaiolas.
Eram 6h45 quando cheguei ao meu apartamento em Campo de Ourique. Tenho uma casa pequena pela qual pago muito dinheiro. Pelo menos é muito face ao seu tamanho que é apenas razoável. O meu quarto é quase do tamanho da sala e as janelas fazem um marquise. Não tenho mais nada no quarto: uma cama de casal, duas mesas de cabeceira e vinte e sete gaiolas de todos os tamanhos e formas dispostas ao longo da marquise do quarto.
Lembram-me o Tio Raoul que era um tio de que não gostava particularmente. Gostava da sua casa, fascinavam-me as suas gaiolas. Das vinte e sete que tenho, catorze são dele. Todas as que guardavam piriquitos coloridos na marquise de ferro azul.
Amanhã vou ao banco, depois à imobiliária e vou mandar tirar o cartaz que diz "Vende-se" e por outro que diga "Vendido" no apartamento da rua da Escola Politécnica. Já não aguento mais não guardar as minhas gaiolas naquela marquise de ferro azul.
Tecido
daquele tecido fino que usava sobre o ombro preso com a pregadeira da mãe.
era assim que se vestiam os deuses, num tempo em que se falava deles.
era assim que se vestiam os deuses, num tempo em que se falava deles.
Numa nesga de Tejo
Depois eram as janelas demasiado longas.
Lisboa, numa nesga de Tejo, e este páteo de azulejos pombalinos.
Lisboa, numa nesga de Tejo, e este páteo de azulejos pombalinos.
terça-feira, março 08, 2011
Poema do Tio Olavo
Ajuntámo-nos ali como as crias das águias
Sem que tarde ou mar nos viessem
Chorámos incessantemente por uma vitória
Longo tempo imaginada
E só o sol se pôs no horizonte
Em nós nunca pusémos mais que a força
Dos instantes milimetricamente acontecidos nas nossas vidas
Sem a sombra de que mais tarde houvesse consequências
A tarde nem sequer existia senão num conceito abstracto de rima
Todos os dias comíamos a areia das praias
Porque delirávamos sonhando com sermos peixes azuis brincando
Em gentis recifes de corais
No Ocenao pacífico
Não podia necessariamente ser ilha
Porque nunca nada me envolveu por completo
Fui sempre algo mais do que alguma coisa de que se pode dizer
Isto aqui
Ele é tão só isto aqui
Ninguém é tão só alguma coisa
Havia depois uma janela que na casa abria sobre o pateo
Era lá que as crianças brincavam
O tio Olavo martelava com fúria as teclas precárias da máquina de escrever
Era um pouco de mais
A vida tem que ter algo de exagero
Ou seríamos monótonos como um carreiro certo de formigas
Sem que o coração batesse violentamente dentro do peito
Enquanto esperamos por alguma coisa que há-de vir alguma coisa que não se saberá nunca o que é
Não podemos ansiar
Porque não podemos usar palavras sagradas
Nem gestos nem ritos
Nem rituais em que deusas nascem do mar engrinaldadas de violetas
Afrodite escrevia tragédias no Olimpo
Isto é um dado certo e seguro
Nada na História comprova que Hefesto o tenho feito, mas Afrodite sim
Escrevia tragédias descontinuas
E criou conceitos que só as pombas brancas conhecem
Certa manhã o Tio Olavo parecia filosofar com as pombas brancas
No beiral da janela do escritório
Nós as crianças vimos tudo enquanto
Brincávamos no páteo
Quem sabe se não seria tarde em vez de manhã
Ou em razão se não seria nenhuma hora do dia
Ou se não seria mesmo dia
Mas instante
Todos nós estávamos nas palavras que ele escrevia
nas teclas precárias da máquina de escrever
Depois as palavras, sempre as palavras
Ele repetia as palavras
Incessantemente as palavras
E agora sou eu que continuo a construir o seu mundo
Como Afrodite no Monte Olimpo escrevendo tragédias.
Sem que tarde ou mar nos viessem
Chorámos incessantemente por uma vitória
Longo tempo imaginada
E só o sol se pôs no horizonte
Em nós nunca pusémos mais que a força
Dos instantes milimetricamente acontecidos nas nossas vidas
Sem a sombra de que mais tarde houvesse consequências
A tarde nem sequer existia senão num conceito abstracto de rima
Todos os dias comíamos a areia das praias
Porque delirávamos sonhando com sermos peixes azuis brincando
Em gentis recifes de corais
No Ocenao pacífico
Não podia necessariamente ser ilha
Porque nunca nada me envolveu por completo
Fui sempre algo mais do que alguma coisa de que se pode dizer
Isto aqui
Ele é tão só isto aqui
Ninguém é tão só alguma coisa
Havia depois uma janela que na casa abria sobre o pateo
Era lá que as crianças brincavam
O tio Olavo martelava com fúria as teclas precárias da máquina de escrever
Era um pouco de mais
A vida tem que ter algo de exagero
Ou seríamos monótonos como um carreiro certo de formigas
Sem que o coração batesse violentamente dentro do peito
Enquanto esperamos por alguma coisa que há-de vir alguma coisa que não se saberá nunca o que é
Não podemos ansiar
Porque não podemos usar palavras sagradas
Nem gestos nem ritos
Nem rituais em que deusas nascem do mar engrinaldadas de violetas
Afrodite escrevia tragédias no Olimpo
Isto é um dado certo e seguro
Nada na História comprova que Hefesto o tenho feito, mas Afrodite sim
Escrevia tragédias descontinuas
E criou conceitos que só as pombas brancas conhecem
Certa manhã o Tio Olavo parecia filosofar com as pombas brancas
No beiral da janela do escritório
Nós as crianças vimos tudo enquanto
Brincávamos no páteo
Quem sabe se não seria tarde em vez de manhã
Ou em razão se não seria nenhuma hora do dia
Ou se não seria mesmo dia
Mas instante
Todos nós estávamos nas palavras que ele escrevia
nas teclas precárias da máquina de escrever
Depois as palavras, sempre as palavras
Ele repetia as palavras
Incessantemente as palavras
E agora sou eu que continuo a construir o seu mundo
Como Afrodite no Monte Olimpo escrevendo tragédias.
Da Tarde
Naquela tarde de ondas,
Enquanto o mar expirava,
Corrias atrás das gaivotas para que não deixassem
O sol esconder-se.
As rochas carregavam palavras antigas
De um mundo que aqui passou antes.
O poema aconteceu depois
Sem que eu esperasse.
Enquanto o mar expirava,
Corrias atrás das gaivotas para que não deixassem
O sol esconder-se.
As rochas carregavam palavras antigas
De um mundo que aqui passou antes.
O poema aconteceu depois
Sem que eu esperasse.
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