A medo abre a porta do quarto devagar. Esperou meticulosamente de olhos abertos a chegada desta hora que o relógio do quarto parecia fazer demorar. Os pés descalços, para não fazer barulho, entram no corredor. Nas paredes altas repetem-se os quadros de avoengos antigos, presenças assustadoras de uma infância ainda há pouco vivida, que de novo parecem semi-cerrar os olhos para lhe lembrar que o que faz é mal feito. Felizmente que ao fundo resta a grande imagem da Pietá, consolo eterno da avó, e em segredo também seu. Para si foi sempre ele nos braços da Virgem em vez do Cristo morto. Ele nos braços da mãe, não no fim da vida, mas numa espécie de vida fetal ainda por nascer.
Uma porta, outra porta, mais duas. Por fim, o grande quarto de hóspedes. Ele resta breves minutos indefinidos numa infinita espera. As mãos arriscam a maçaneta por várias vezes sem nunca a agarrar, até que se sente invadido por um surto de coragem e abre a porta. Todo aquele momento gira na sua cabeça fazendo dançar um turbilhão de ideias. Como se vem tornando habitual vive e pensa os instantes tudo ao mesmo tempo o que torna tudo mais confuso. Em si resta um misto de terror e de auto-reprovação apimentado por uma curiosidade de descoberta, descoberta que é mais sua do que de qualquer outro. Mas ainda que pense este momento serão ainda precisos alguns anos para que uma maturidade crescente lhe permita arrancar estas conclusões à memória. Será preciso passar a calma acastanhada dos outonos cadentes e os rigores frios de um Inverno que se anuncia cada vez mais próximo até chegar a uma Primavera (que por ora ele nem imagina que possa existir) libertadora e fulgurante culminando com o seu corpo nú nas águas de uma praia nesse Verão catárquico que há-de chegar. Mas isto são tudo coisas que se avizinham nas estações e que moram no seu futuro.
De mansinho, Gustavo abre a porta do quarto de hóspedes. Como uma terra prometida a imagem tão ansiada: o corpo nú de Martinho estendido sobre a cama sem qualquer coberta. Revela-se numa beleza fria de estátua ao mesmo tempo desejável e distante, provocatória sem que em si Martinho faça nada para o ser. Afinal, o primo dorme na tranquilidade do seu sono nú e talvez seja isso mesmo que faz dele ainda mais belo e ao mesmo tempo (felizmente) intocável. O corpo de Gustavo cede naturalmente e o sangue começa a correr com mais força. Mas não há em si nenhuma vontade de se tocar. De certa forma isso estragaria a intensidade deste momento. Este é afinal um instante de descoberta e de alguma maneira, ainda que vaga, Gustavo tem já noção disso. Não é como aquelas tardes quentes de verão em que a visão do corpo semi-nú e molhado de Martinho o faz correr para o toillette do pavilhão da piscina na quinta dos avós. Gustavo descobre com algum prazer que este não é um momento físico. Enquanto a penumbra o vai permitindo ver o corpo nú do primo e os olhos se habituam à escuridão Gustavo estuda cuidadosamente cada bocado de Martinho. É como um exercício analítico em que o estudo do corpo nú de Martinho lhe vai permitindo conhecer o que lhe agrada ou não. Martinho serve de primeira base para uma definição do seu gosto. Este gosto que agora se torna claro e vai adquirindo os seus moldes e que faz Gustavo entender que embarcou numa viagem sem regresso possível. Não que alguma vez a caravela tivesse prometido algum regresso, mas só agora, perante o corpo nú de Martinho, símbolo de tudo aquilo que ao mesmo tempo esconde e anseia, é que se apercebe disso.
Demora-se no quarto um tempo que ele próprio preferiu não contar. Sempre junto à porta, tentando o mais possível manter-se imóvel e sem fazer barulho. Felizmente Martinho não acorda. Nunca saberá desta noite nem da importância desta noite na vida do seu primo Gustavo. Gustavo por seu lado percebe muitas coisas. Fecha a porta. Em volta, no comprido corredor, já não há nada de acusativo nos olhos pintados nas telas dos avoengos, reflexo das acusações que se fazia a si próprio. Mas ao fundo a Pietá ainda resta como imagem de consolo, mãe para sempre carinhosa e protectora que o amparará num mundo que acaba agora e num outro que começa. O mesmo silêncio de volta ao seu quarto, os pés deslizando de mansinho sobre o tapete. A porta fecha-se. Gustavo volta para os seus lençóis. Como sempre a janela resta aberta (marca do seu medo infantil do escuro). Nunca Gustavo ansiou tanto pela chegada da manhã. Saberá mais tarde que a nova manhã trará o seu Outono e por vezes desejará um outro tempo até que as manhãs repetidas lhe tragam um novo Verão.
quarta-feira, fevereiro 28, 2007
segunda-feira, fevereiro 26, 2007
Amar e um piano
Os dedos esguios buscam nas teclas frias do piano o calor da carne dela enquanto ela se contorce sobre si mesma numa dança lenta, mas contínua. É como se ela se entregasse a ele entregando-se ao piano e à música que ele desenha sobre as teclas. Ele busca-a incessantemente no piano e conhece cada curva do seu corpo através de cada nota.
Ela tem um corpo esguio e magro. É como se fosse uma flor de cristal e a todo o momento restasse o perigo de partir os braços. Mas os braços não se partem voam. Ou esvoaçam parecendo que voam. Ela embebeda-se na música dele, doce, suave, calma, como uma primavera que de súbito tivesse chegado mais cedo. Os dedos dele nunca se alteram só a música cresce e se transforma, agora intensa, depois não tanto. As musas vêm buscá-la. A música transporta-a a algo divino, ascético. O corpo não pára jamais. É como se continuadamente fizesse amor com a música, com o piano e por fim com ele. É como se ele lentamente a conhecesse, a masturbasse e finalmente a penetrasse em cada tecla.
Ele toca, ela dança. Olham-se, anseiam-se, desejam-se, mas jamais se tocam.
Ela tem um corpo esguio e magro. É como se fosse uma flor de cristal e a todo o momento restasse o perigo de partir os braços. Mas os braços não se partem voam. Ou esvoaçam parecendo que voam. Ela embebeda-se na música dele, doce, suave, calma, como uma primavera que de súbito tivesse chegado mais cedo. Os dedos dele nunca se alteram só a música cresce e se transforma, agora intensa, depois não tanto. As musas vêm buscá-la. A música transporta-a a algo divino, ascético. O corpo não pára jamais. É como se continuadamente fizesse amor com a música, com o piano e por fim com ele. É como se ele lentamente a conhecesse, a masturbasse e finalmente a penetrasse em cada tecla.
Ele toca, ela dança. Olham-se, anseiam-se, desejam-se, mas jamais se tocam.
E se o verão de súbito regressasse?
Talvez te diga das cartas,
Das folhas,
E do chá nas tardes calmas de Inverno.
Porque a minha vida é como o livro manso
Que resta na mesa de cabeceira.
Leio(-me) devagar .
Invento nos livros uma mitologia
Nova e minha.
Não tenho mais que te diga. Tu procuras tanto de mim.
De súbito peço: esgota-me.
Levanta o livro da mesa e lê-me vorazmente.
Que saudades do verão que volta com a tua voz
Enquanto tu enches o quarto de mim,
Palavras que buscas nos livros.
Traz de volta o sol e o encanto de ser feliz sem roupa
Enquanto deixamos o corpo adormecer
À beira-mar.
É à beira-mar que cultivamos nossa terra de sonhos,
Desejos que escreves na areia
E que o mar apaga.
Aguardo.
As horas rasgam os dias
Sem sequer pensar em nós.
Só um mês,
Mais uns dias.
Agora a primavera.
Depois o verão.
Enquanto,
Anseio...
Das folhas,
E do chá nas tardes calmas de Inverno.
Porque a minha vida é como o livro manso
Que resta na mesa de cabeceira.
Leio(-me) devagar .
Invento nos livros uma mitologia
Nova e minha.
Não tenho mais que te diga. Tu procuras tanto de mim.
De súbito peço: esgota-me.
Levanta o livro da mesa e lê-me vorazmente.
Que saudades do verão que volta com a tua voz
Enquanto tu enches o quarto de mim,
Palavras que buscas nos livros.
Traz de volta o sol e o encanto de ser feliz sem roupa
Enquanto deixamos o corpo adormecer
À beira-mar.
É à beira-mar que cultivamos nossa terra de sonhos,
Desejos que escreves na areia
E que o mar apaga.
Aguardo.
As horas rasgam os dias
Sem sequer pensar em nós.
Só um mês,
Mais uns dias.
Agora a primavera.
Depois o verão.
Enquanto,
Anseio...
sábado, janeiro 27, 2007
A escrita
"O alívio que deriva do género de trabalho que produzo com o cérebro e o coração reside nisto: só no silêncio activo do pintor ou do escritor é que a realidade pode ser reelaborada e revelada no seu aspecto verdadeiramente significativo."
Lawrence Durrel in O Quarteto de Alexandria I. Justine.
Lawrence Durrel in O Quarteto de Alexandria I. Justine.
Em dias que guardamos para nós
Hoje abandonei-me do mundo. Vim viver um bocado em mim. Deixei-me ficar na turbulência deliciosa e mansa de quem acorda e adormece entre as primeiras horas de sol. Dormi sem ninguém à minha espera e acordei quando esperava por mim.
Li, li muito, deixei-me ler. Perdi horas de livro na mão, enquanto subitamente andava lá por Alexandria entre uma Grécia que já não existe e uma cidade que só nós fazemos existir. Perdi-me por lá e demorei a voltar.
Voltei para escrever. Fui buscar palavras às salas da casa que ainda deixei na penumbra dos estores meio corridos. Achei-as em breves raios de luz que furavam caminho. Sentei-me para escrever cartas e escrever sobre escrever. Que encanto pensar em nós num dia que para nós guardámos e saber como gostamos do que fazemos.
Ouvia. Algures pela casa, nos caminhos do corredor, chegavam-me as vozes das divas que de manso me cantavam Vinícius. Deixei-me embebedar de leve numa dança que ainda não conheço, mas que o meu corpo soube bem desenhar.
Com a tarde regresso. É preciso espreitar o mundo pela janela e deixar a luz correr pelos estores agora abertos. Lá fora o dia, a vida- encontro-me.
Li, li muito, deixei-me ler. Perdi horas de livro na mão, enquanto subitamente andava lá por Alexandria entre uma Grécia que já não existe e uma cidade que só nós fazemos existir. Perdi-me por lá e demorei a voltar.
Voltei para escrever. Fui buscar palavras às salas da casa que ainda deixei na penumbra dos estores meio corridos. Achei-as em breves raios de luz que furavam caminho. Sentei-me para escrever cartas e escrever sobre escrever. Que encanto pensar em nós num dia que para nós guardámos e saber como gostamos do que fazemos.
Ouvia. Algures pela casa, nos caminhos do corredor, chegavam-me as vozes das divas que de manso me cantavam Vinícius. Deixei-me embebedar de leve numa dança que ainda não conheço, mas que o meu corpo soube bem desenhar.
Com a tarde regresso. É preciso espreitar o mundo pela janela e deixar a luz correr pelos estores agora abertos. Lá fora o dia, a vida- encontro-me.
Enquanto me olhas nas horas da escrita
Das palavras que toldo, que temo
Transformo.
Enquanto te digo encanto,
Te danço, te arrasto, te rasgo.
Enleias meu labor.
Teus cabelos,
Cavalos vagueando em torno do meu pescoço.
Meus olhos entornam vagas de amor
Que a ti tornam.
Desenho,
Descrevo,
Teu traço,
Te escrevo.
Transformo.
Enquanto te digo encanto,
Te danço, te arrasto, te rasgo.
Enleias meu labor.
Teus cabelos,
Cavalos vagueando em torno do meu pescoço.
Meus olhos entornam vagas de amor
Que a ti tornam.
Desenho,
Descrevo,
Teu traço,
Te escrevo.
Volta-me
Enquanto te deixo
Me deixas.
Que importam as tuas carícias
Se tu não estás nelas?
Meu corpo, terra de abandono,
E o vento impele
Sobre a minha pele
Sinais da tua ausência.
Música cadente
Que me incandesce,
Resto teu porão esquecido,
Sensibilidade dos meus poros que te lembram.
Encanto, valsa, soneto,
Volta-me.
Me deixas.
Que importam as tuas carícias
Se tu não estás nelas?
Meu corpo, terra de abandono,
E o vento impele
Sobre a minha pele
Sinais da tua ausência.
Música cadente
Que me incandesce,
Resto teu porão esquecido,
Sensibilidade dos meus poros que te lembram.
Encanto, valsa, soneto,
Volta-me.
Enumeração
Encanto cadente
Valsa
Soneto
Serenata
Aliciante
Marcante
Maresia
Sereia
Semeio
Semente
Força
Esforço
Esgar
Frio
Elegante
Elogio
Dente
Densidade
Doar
Nostálgico
Número
Encanto
Enumerar
Valsa
Soneto
Serenata
Aliciante
Marcante
Maresia
Sereia
Semeio
Semente
Força
Esforço
Esgar
Frio
Elegante
Elogio
Dente
Densidade
Doar
Nostálgico
Número
Encanto
Enumerar
sábado, janeiro 13, 2007
Quando os nossos corpos
Teu corpo, que delicia,
Um encanto que acordo
Enquanto ainda dormes
Entre as minhas mãos
Minhas mãos que te prendem
E por onde teu corpo anda solto
Nossos corpos, geografias,
Por-do-Sol
Palavras
As tuas pernas enroladas nas minhas
Uma brincadeira,
De súbito os beijos
Um encanto
Agarro-te quando os teus olhos
Me dizem do desejo
Enterras-te em mim
Uma sede sem oásis
Uma busca intranquila
Meu corpo onde não paras
Mas ficas
Onde descansas em tumulto
Eu gemo aos teus ouvidos
De mansinho
Tu violas-me
Eu deixo
Até caíres sobre mim
Exausto das viagens
E quando a luz nos inunda o quarto
Eu sei que escolhes ficar por mais um dia.
Um encanto que acordo
Enquanto ainda dormes
Entre as minhas mãos
Minhas mãos que te prendem
E por onde teu corpo anda solto
Nossos corpos, geografias,
Por-do-Sol
Palavras
As tuas pernas enroladas nas minhas
Uma brincadeira,
De súbito os beijos
Um encanto
Agarro-te quando os teus olhos
Me dizem do desejo
Enterras-te em mim
Uma sede sem oásis
Uma busca intranquila
Meu corpo onde não paras
Mas ficas
Onde descansas em tumulto
Eu gemo aos teus ouvidos
De mansinho
Tu violas-me
Eu deixo
Até caíres sobre mim
Exausto das viagens
E quando a luz nos inunda o quarto
Eu sei que escolhes ficar por mais um dia.
Das palavras, que encanto
Correm-me palavras
Sempre
Constantes
A umas agarro-as
A outras deixo-as
Umas dizem-me
Outras ferem-me
Por vezes tenho medo delas
Por vezes deixo-as agonizar
Enquanto morrem
Na minha preguiça lenta
Enfrento-as
Há sempre essa hora
Em que elas me voltam
Rasgam-me magoam-me
Enaltecem-me elevam-me
Encantam-me
Colho-as
De leve
Escolho-as
Com precisão
Meço-as
Na balança que guardo em mim
E dou-as
Desapegado
Enquanto elas me fogem
Por entre os dedos
Das minhas mãos abertas
Sempre
Constantes
A umas agarro-as
A outras deixo-as
Umas dizem-me
Outras ferem-me
Por vezes tenho medo delas
Por vezes deixo-as agonizar
Enquanto morrem
Na minha preguiça lenta
Enfrento-as
Há sempre essa hora
Em que elas me voltam
Rasgam-me magoam-me
Enaltecem-me elevam-me
Encantam-me
Colho-as
De leve
Escolho-as
Com precisão
Meço-as
Na balança que guardo em mim
E dou-as
Desapegado
Enquanto elas me fogem
Por entre os dedos
Das minhas mãos abertas
O Chá
Lisboa entardece no frio do seu sol de Janeiro. Entregas-me a uma esquina esquecida da tua rua. Há, de súbito, um cheiro que me alerta os sentidos. E de repente folhas de chá dançam-me com a coreografia milenar das mãos que as colhem quando o sol vem aquecer a Primavera, lá do outro lado do mundo.
O chá é como um líquido sagrado dos deuses com culto próprio. Uma palavra para mim: saboreia. Leve e suave, pequenas agulhas de prata. O chá entra delicadamente por mim, descobre-me. Primeiro o o nariz, os olhos, depois a boca e as mãos. O meu corpo tacteia o chá levemente, enquanto os meus dedos se prendem em torno de um corpo de vidro quase orgânico pousado numa folha de cobre.
Deixo-me estar mais um pouco nesta elegância descoberta de repente, mas com o cuidado de quem sabe apreciar as coisas. Fecho os olhos. Tudo me inunda. Um cheiro que quase se bebe em antecipação do que está para vir.
Palavras arrancadas a custo, numa altura que não é de palavras, mas de sentidos. Sentidos que me enleiam e que me levam. O chá...
P.S.- Não deixem de ir ao "Chá não falta" numa das esquinas da Andrade Corvo.
O chá é como um líquido sagrado dos deuses com culto próprio. Uma palavra para mim: saboreia. Leve e suave, pequenas agulhas de prata. O chá entra delicadamente por mim, descobre-me. Primeiro o o nariz, os olhos, depois a boca e as mãos. O meu corpo tacteia o chá levemente, enquanto os meus dedos se prendem em torno de um corpo de vidro quase orgânico pousado numa folha de cobre.
Deixo-me estar mais um pouco nesta elegância descoberta de repente, mas com o cuidado de quem sabe apreciar as coisas. Fecho os olhos. Tudo me inunda. Um cheiro que quase se bebe em antecipação do que está para vir.
Palavras arrancadas a custo, numa altura que não é de palavras, mas de sentidos. Sentidos que me enleiam e que me levam. O chá...
P.S.- Não deixem de ir ao "Chá não falta" numa das esquinas da Andrade Corvo.
sexta-feira, dezembro 29, 2006
Das coisas que há no mar e nas ilhas guardadas na minha infância das primeiras horas
Busco um tempo fértil de palavras
E procuro em mim a hora da minha infância
Que tenha em si guardada
O início da poesia.
Hoje o poema diz-se em mim devagar,
Como uma onda que vem leve,
Mas que leva o verde das serras até ao mar.
Sophia fala-me de mansinho
Duma terra que eu amo de pés molhados.
Construo o poema num equilíbrio delicado
Entre a infância, o Verde e o eu.
Desfaço ligeiramente o novelo dos primeiros dias
Onde em suas linhas encontre as horas que me falam das palavras.
Em campo fértil de palavras
Meu labor árduo
Meu encanto em sangue
Minha dor de escrever
Dizer poema
Para vê-lo escrito
Perdidas horas de infância
Que agora me oferecem as coisas que há no mar e nas ilhas.
E procuro em mim a hora da minha infância
Que tenha em si guardada
O início da poesia.
Hoje o poema diz-se em mim devagar,
Como uma onda que vem leve,
Mas que leva o verde das serras até ao mar.
Sophia fala-me de mansinho
Duma terra que eu amo de pés molhados.
Construo o poema num equilíbrio delicado
Entre a infância, o Verde e o eu.
Desfaço ligeiramente o novelo dos primeiros dias
Onde em suas linhas encontre as horas que me falam das palavras.
Em campo fértil de palavras
Meu labor árduo
Meu encanto em sangue
Minha dor de escrever
Dizer poema
Para vê-lo escrito
Perdidas horas de infância
Que agora me oferecem as coisas que há no mar e nas ilhas.
Mar
Dá-me palavras-plantas,
Pedras, rios
E diz-me de coisas que cresçam
Com a leveza furiosa das ondas
Meu corpo
Ilha nas ilhas
Água, parte do mar
Mar em si
Imensa sucessão de palavras
Imensidão. Micro-cosmos.
Palavras-plantas que me digam ilha.
Talvez eu
Eu e o mar
Perdido no mar que sou eu.
Descoberta,
Corre em mim o sussurro lento das ribeiras.
Sou como as trutas do Ribeiro Frio:
Nado sem destino, mas sei que nado.
E o dia (re)nasce ,
Luz que bate nas águas
Do mar que sou.
Pedras, rios
E diz-me de coisas que cresçam
Com a leveza furiosa das ondas
Meu corpo
Ilha nas ilhas
Água, parte do mar
Mar em si
Imensa sucessão de palavras
Imensidão. Micro-cosmos.
Palavras-plantas que me digam ilha.
Talvez eu
Eu e o mar
Perdido no mar que sou eu.
Descoberta,
Corre em mim o sussurro lento das ribeiras.
Sou como as trutas do Ribeiro Frio:
Nado sem destino, mas sei que nado.
E o dia (re)nasce ,
Luz que bate nas águas
Do mar que sou.
domingo, dezembro 24, 2006
Feliz Natal!
A vasta equipa d'"Enquanto Lisboa namora o Tejo..." (que sou apenas eu) agradece a amizade de todos os seus leitores e a todos deseja um feliz Natal!
Faz-me falta um fado
Para ti, minha companheira de fados.
Agora falta-me o fado
Quando começo a ter saudades de ter saudades
Quando o meu corpo te sente a falta
E alguém geme numa guitarra
As palavras que gostava que fossem minhas
Agora falta-me o fado
Nas noites longas do Inverno
Uma dor que aqueça a minha
Na nudez de uma cama vazia
Onde a saudade me adormece
Agora falta-me o fado
Quando me esqueces não sei onde
Nos braços não sei de quem
E meu coração magoado
Anseia por ti só
E mais ninguém.
Agora falta-me o fado
Quando começo a ter saudades de ter saudades
Quando o meu corpo te sente a falta
E alguém geme numa guitarra
As palavras que gostava que fossem minhas
Agora falta-me o fado
Nas noites longas do Inverno
Uma dor que aqueça a minha
Na nudez de uma cama vazia
Onde a saudade me adormece
Agora falta-me o fado
Quando me esqueces não sei onde
Nos braços não sei de quem
E meu coração magoado
Anseia por ti só
E mais ninguém.
quinta-feira, dezembro 21, 2006
Nós
Ao Luisillo, que bem mais que o meu silêncio é a fonte de todas as minhas palavras.
Meu sonho de Verde,
Nossas verdades.
Escreves palavras em cada acto que tomas,
Nosso secreto vocabulário.
Os olhos, uma nova gramática.
Em ti meu campo lexical de palavras.
Teus braços
Que me abraçam
Enquanto me falas
Sem palavras
Só os olhos
Nós os dois
A noite, mais nada.
Vem de ti a palavra.
Dizes!
Para mim és o mais importante.
Meu sonho de Verde,
Nossas verdades.
Escreves palavras em cada acto que tomas,
Nosso secreto vocabulário.
Os olhos, uma nova gramática.
Em ti meu campo lexical de palavras.
Teus braços
Que me abraçam
Enquanto me falas
Sem palavras
Só os olhos
Nós os dois
A noite, mais nada.
Vem de ti a palavra.
Dizes!
Para mim és o mais importante.
Paixão urbana
Para o Ricardo Proença.
Levas a passear
Minha paixão urbana
Pelas ruas da cidade
Enquanto me beijas nas salas de cinema.
Orquestras as cores que existem
Numa elegância delicada
Como o céu pintado numa galeria da Baixa.
Não te perco,
Deixas-me
Teu corpo, o meu
Tão poucas as palavras perdidas entre as horas
Nas horas da cidade
Não te deixo
Guardo-te
Como a elegância dum gelado comido em Novembro.
De mim te dirá
A cidade que me ofereces devagar,
Um Natal precoce e longo.
Peço-te
Sabe esperar na cidade a minha hora.
Levas a passear
Minha paixão urbana
Pelas ruas da cidade
Enquanto me beijas nas salas de cinema.
Orquestras as cores que existem
Numa elegância delicada
Como o céu pintado numa galeria da Baixa.
Não te perco,
Deixas-me
Teu corpo, o meu
Tão poucas as palavras perdidas entre as horas
Nas horas da cidade
Não te deixo
Guardo-te
Como a elegância dum gelado comido em Novembro.
De mim te dirá
A cidade que me ofereces devagar,
Um Natal precoce e longo.
Peço-te
Sabe esperar na cidade a minha hora.
Insular
Para a Rosa Carreiro, que conhece os segredos das ilhas.
Teu sorriso leve
Dum canto do Verde
Que Lisboa não te roubou
Perde-se nos teus cabelos
Numa esquina do Chiado
Teu peito carrega um duplo amor
Uma força insular
De ser ilha mesmo além das praias
E assim, quando andas
Pelas ruas estreitas do Bairro Alto
Ondas rebentam aos teus pés.
Porque teu corpo e tu
Vivem de dois mundos
Amor de quem nasceu a cheirar o Verde.
Teu sorriso leve
Dum canto do Verde
Que Lisboa não te roubou
Perde-se nos teus cabelos
Numa esquina do Chiado
Teu peito carrega um duplo amor
Uma força insular
De ser ilha mesmo além das praias
E assim, quando andas
Pelas ruas estreitas do Bairro Alto
Ondas rebentam aos teus pés.
Porque teu corpo e tu
Vivem de dois mundos
Amor de quem nasceu a cheirar o Verde.
Dos segredos que habitam as palavras
Para a Sara Guia d'Abreu.
Das palavras me dizes
Da tua ânsia delas
Que nelas repousa
Teu sentir escreve-se nas palavras que buscas,
Um livro branco de Yourcenar,
Uma água doce.
Encanto das tuas cores
Na demanda incessante das palavras
Que a poesia te traz.
Gastas as tardes dos teus junhos
Guardas as tardes dos teus junhos para as palavras
E mesmo embalada no calor vivo
Das três horas da tarde
Teu livro não cai da rede onde dormes.
Perdida entre as palavras,
Tuas rússias distantes,
Estórias antigas
Buscas algo que te faça
Saber passar a barreira
Inultrapassável das horas.
Das palavras me dizes
Quem perde, quem acha,
Quem busca,
Suaves grafias
Em que se recorta a vida,
As palavras!
Das palavras me dizes
Da tua ânsia delas
Que nelas repousa
Teu sentir escreve-se nas palavras que buscas,
Um livro branco de Yourcenar,
Uma água doce.
Encanto das tuas cores
Na demanda incessante das palavras
Que a poesia te traz.
Gastas as tardes dos teus junhos
Guardas as tardes dos teus junhos para as palavras
E mesmo embalada no calor vivo
Das três horas da tarde
Teu livro não cai da rede onde dormes.
Perdida entre as palavras,
Tuas rússias distantes,
Estórias antigas
Buscas algo que te faça
Saber passar a barreira
Inultrapassável das horas.
Das palavras me dizes
Quem perde, quem acha,
Quem busca,
Suaves grafias
Em que se recorta a vida,
As palavras!
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