quarta-feira, agosto 30, 2006

Estórias das paredes desta quinta

Às velhas fidalgas da vila da Ponta-do-Sol por quem o tempo passou sem darem por isso, para que saibam que há ainda quem as recorde.

O braço estendido para abrir o portão. O pedaço de ferro enferrujado já se arrasta quase sozinho agora que lhe começam a faltar as forças para reproduzir um gesto maquinal de tempos já quase perdidos. Agora que Agosto está perto do fim a grande alameda que conduz à casa enche-se de uva americana. E os seus braços velhos e as suas pernas cansadas chegam apenas para colher o suficente que lhe mate a saudade de um tempo em que braços mais viris que os seus limpavam as videiras por esta altura. A grande casa, velha de trezentos anos, ergue-se imensa na beleza da sua simplicidade, uma grande porta, sete janelas com caixilhos magnânimos de pedra trabalhada. Tudo por aqui é velho como ela, de um tempo que o tempo já levou há muito tempo, de uma memória perdida na memória das coisas. Agora ela é velha, como os galhos das videiras, velha como as pedras do pateo, velha como o tempo é velho e por isso ainda mais velha, por ser tanta coisa velha ao mesmo tempo.

Lá dentro as três salas continuam numa escuridão a média-luz, sempi-eterna, como se uma morte anunciada lhes tivesse chegado e mesmo depois de morta ela continuasse ali só para garantir aquela casa. Os braços ainda abriam o portão, as pernas ainda subiam para apanhar as uvas, mas quando tinha Madalena realmente morrido era um mistério de que ela mesma não conhecia a resposta. Muitas vezes nas horas mortas, que agora eram tantas, jogava-se a advinhar esse momento em que a vida acabara, mas em que ela, por falta de qualquer acidente que lhe parasse o coração continuara a viver. Às vezes pensava que tinha sido no seu décimo quinto aniversário quando acordou com os berros da Luzia, uma das criadas, a dizer que a Sra D Teodora, a velha tia, tinha morrido. Essa tia Teodora que mais que tia tinha sido uma avó, por falta da verdadeira que morrera antes de Madalena ter três anos, essa tia que enfeitava as horas de sereias e fadas e sabia falar das plantas e das flores e das frutas e sabia de tudo e de nada. Mas Teodora morrera quando ela era ainda tão jovem e ninguém se morre de viver aos quinze anos. Não podia ter sido quando os pais morreram naquele horrível acidente, encosta abaixo, quando regressavam de umas férias na quinta do visconde de Bianchi. Nunca sofrera tanto, mas nunca sentira a família tão unida. Foi um tempo em que aprendeu o valor das serras da sua ilha e de que no último minuto a voz do sangue clama sempre mais alto. Podia ter sido quando percebeu que nunca iria amar e se resignou ao condão de ser a tia solteira de muitos sobrinhos; ou quando os manos abandonaram a vila para ir para o Funchal; ou quando o mundo mudou, as criadas fizeram as malas e levaram os homens da fazenda consigo. Capaz que tivesse sido nos primeiros anos da velhice, em que as sobrinhas Andrade e Mello tornaram cada vez mais espaçadas as suas visitas à quinta até que o grande relógio da sala deixasse de bater a hora das suas chegadas. Talvez a grande resposta fosse que Madalena tivesse morrido em cada um destes momentos e que uma partida do Senhor seu Deus que tanto amava lhe tivesse dado o golpe final sem lhe tirar a vida.

Havia uma coisa que Madalena sabia: nem ela nem aquela casa eram já deste tempo. Porque no tempo de Madalena a simples menção do nome dos Pina e Câmara era suficiente para tremer o mundo, para fazer mudar o curso das águas, sobretudo quando o pai cavalgava os seus cavalos, tão senhor da sua fúria, dando ordens a todos, viesse Rei ou Papa para detê-lo. Antes bastava estender a mão que viriam as criadas da casa, os pensamentos transportados telepaticamente numa sedução dos caprichos de quem nasceu para ser servida. O pai já não lia na lareira da saleta, o piano restava fechado sem mãos que o tocassem, os quartos jaziam vazios, camas de ferro velho sem roupa, porque agora não havia ninguém que nelas matasse o cansaço. O tempo passara e agora Madalena sabia que não dera por ele. Agora, enquanto restava na grande poltrona com o gato no colo só uma pergunta lhe vinha constantemente à cabeça :"Depois de nós, quem há-de vir para nos lembrar?"

segunda-feira, julho 31, 2006

Nós- eu e o teu corpo

O teu corpo deita-se todas as noites ao meu lado depois de ter estado dentro de mim. Mas só o teu corpo.

Eu deito-me ao lado do teu corpo todas as noites depois de o ter tido dentro de mim. Agora eu queria falar-te de coisas tristes, como dormir ao lado dum corpo, e dizer-te que nestas noites a noite prolonga-se por mim adentro, sem luz, sem estrelas, só o espaço vazio que é a verdadeira essência da noite juntamente com o silêncio. Mas não é possível falar ao teu corpo da noite quando a única maneira que ele tem de a sentir é dormindo.

De manhã, muito antes de eu acordar e ter palavras, o teu corpo vai erguer-se, perdido numa esquina da Estrela, e eu vou perder mais uma vez esse instante em que quase te tive, ficando apenas com o teu corpo.

Nós, eu e o teu corpo, vivemos uma relação viciada de gestos automáticos e rotinas enfadonhas já há tanto tempo entranhadas em nós que me torno incapaz de te dizer como odeio que me esperes todos os dias na paragem. Não pela vulgaridade do que significa ter-te à minha espera numa paragem de autocarro, ou pelo que isso denuncia da preciosa estabilidade das nossas vidas que tu nunca desejas quebrar, mas porque todos os dias eu sei que perdi mais um encontro contigo para ficar só com o teu corpo. Porque o instante em que abro a porta do carro é o instante em que tu acabas, em que acaba o teu dia e tu, depois de horas de trabalho, és incapaz de seres algo além do teu corpo. E não é que me importe de ter os teus braços tão fortes nos meus ombros ou de maquinalmente beijar-te, é apenas essa tua incapacidade de seres homem e me amares como homem, essa incapacidade que me deixa sempre a sós com o teu corpo.

É por isso que não te falo da noite e não te digo que do Restô se vê toda a Lisboa pombalina que tanto amamos, que às conversas sobre dramática da escrita se servem cogumelos e ao ênfase que se dá quando te leio Herberto Hélder servem-se salmão e caviar. Porque o que sabe o teu corpo do gosto do caviar, da poesia de Herberto Hélder ou da cabeça do empregado espetada viva no Terreiro do Paço? Que sensibilidade tem o teu corpo além desse quasemomento em que tu estás dentro de mim e eu sou um só- com o teu corpo.

Resta-nos agora a cidade, a mim, a ti e ao teu corpo, os dias calmos de Abril e a pressa eufórica das primeiras tardes de chuva em Setembro. Restam-nos os cafés da Baixa e os restos da vida elegante de por quem lá passa e resta a vontade de que um dia me convides para ir beber chá ao Rato.

Acima de tudo, resta esse momento em que eu, de joelhos, te tenho na boca e em que o teu corpo, segurando os meus cabelos, diz de mansinho: Amo-te. Agora voltas a ser tu, instantes breves, talvez um dia fiques mais tempo além da altura em que escorres e te esvais por mim adentro.
Não sei viver além do quotidiano.
Chegam nas manhãs de Agosto
Coisas alegres de que te fale
Coisas do cheiro do Verão
Que as ondas que chegam às ilhas
Touxeram.

O piano deita o cheiro do Verão
Ao toque de cada tecla
Contando estórias da infância
Que guardámos dentro dele,

Estórias de quando o Mundo
Cabia
Numa praia e numa sala

Em que os nossos corpos
Molhados
Sobre os arraiolos da avó
Nos davam, com certeza dumas palmadas,
A certeza de que éramos felizes.

São estóriasde subir a ribeira
E descobrir sempre a frescura do Verde
Enquanto a água nos escorre nos pés
E o doce sabor das bananas
Nos invade a boca.

Agora o nosso cheiro suado
Confunde-se com
O cheiro das noites de Verão
Que é o cheiro
De quem está cansado e feliz
De se por ao lado do sofá
Com a mão da mãe
Na cabeça
Enquanto
A avó canta
Num som que muito além do Verão
Não mais deixará de visitar
Os nossos ouvidos.

É disto que te falam
As manhãs de Agosto
Quando o teu corpo amanhece,
Fresco de Luz,
E tu, da janela do teu quarto,
Mergulhas no mar
Prenhe do cheiro das coisas do Verão.

domingo, julho 30, 2006

Carta que Teodoro de Freitas nunca escreveu a sua prima, Noémia das Mercês

Querida Prima,

Escrevo-lhe porque ao fim destes anos veio-me hoje uma visão que me fez pensar em si: um piano! É bem verdade, um piano. Esse piano que me trouxe logo a sua imagem e a sua lembrança à minha está em casa de tal menina que com seus olhos prendeu os meus. Mas oiça-me minha adorada prima, se o verde dos olhos de tal menina cortejada superam o castanho dos seus olhos, as mãos pobres e gordas desta não têm a elegância que nas suas vive.

Porque esta menina, querida prima, apesar de ter uns olhos de um verde tão profundo como o seu dote, toca numa sala onde o excesso em tudo toca e onde a toda a hora o chapéu de um senhor está sujeito a roçar-se nas cortinas que descem por todo o lado. Não toca ela nessa sala onde toca a prima que guarda na tinta rosa das suas paredes o segredo dos primeiros olhares trocados, a prima tão moça e eu já homem feito, a prima com tanto para aprender e eu julgando que já tanto sabia. Essa sala onde roubávamos horas à costura da Titá para trocar sobre a forma desses livros encadernados do escritório do pai confidências tão íntimas como o são elogiar as suas mãos. E depois a prima enchia as horas que sobravam de música, porque a música vive bem dentro das suas mãos, diria dentro de si, agitando-se continuamente e enfeitiçando as horas. Como as donzelas coquettes enchem com flores os seus cestos, a prima enche o ar de música na leveza do ron-ron dos seus vestidos que descançam sobre o banco desse bem-dito piano.

Estivesse eu aí e não ouvesse mar entre nós, uma vez mais a roubaria e sobre a vista do balcão lhe diria, querida prima, que não há vista que supere a sua vista e que o odor estontiante de tudo o que é natural e bom e que nos rodeia é mil vezes inferior ao simples perfume que de manhã deixa cair atrás das orelhas num gesto de suprema elegância, pois em si tudo é elegante, as mãos, as luvas, o cabelo, pois nasceu com a certeza de que o mundo é seu, e é de facto, só pelo simples facto de ter nascido com as mãos que mais delicadamente alguma vez poisaram sobre um piano!

Amo-a, mas agora não há tempo para o amor, pois na sala ao lado deste gabinete umas mãos pobres e gordas esperam por mim agora que cometi o erro de lhe dar a ela, e não a si adorada prima, as minhas palavras que, como bem sabe, prendem mais que tudo o resto.

Seu primo,

Theodoro de Freittas

segunda-feira, julho 24, 2006

Rondó de palavras

A inspiração é sempre algo muito difícil em mim, tremendo sobre o terror das minhas próprias letras escritas sobre o papel.
É um tempo difícil quando deixo que as palavras fujam e vem nos meus pés, fruto das minhas ideias movidas, preguiça de correr para buscá-las. Quem diz preguiça diz medo porque é verdade que as palavras dão medo e que a metafísica de amar as palavras é como respirar o perfume que está na tua mesa: cansa, mas o primeiro é sempre bom.

As palavras têm uma luz consigo, mas a maneira de a ver é tão difícil que temos que sentar e não ter preguiça de escrever Verde e Mar, mesmo para perceber que são palavras diferentes.

Lentamente agora bebo o cálice das palavras, antídoto do medo, agora que chega o crepúsculo e está quse na hora do Sol tomar seu banho de Lua, lá na linha onde terminam as ondas.

As paredes do meu quarto enchem-se agora de palavras enquanto a preguiça se esgota com as linhas do meu caderno.

A cama, terra de segredos fechados, e os olhos postos no mundo, que começa na janela do meu quarto, e a noite que me traz as palavras que me escaparam no dia.

sábado, julho 22, 2006

O Mar e também os Verdes que a Ilha esconde

Para Sofia Palma Baracho, que guarda comigo os segredos das florestas.

Diz-me do mar para que eu te fale de Marta Telles e dos seus traços em tons carmim.

Então, na sala de refrescos de um grande palácio insular, verás pela clara-bóia como as luzes da manhã da minha ilha são diferentes.

O medo de perder o sol farte-á subir as escadas, para que estejas certa de que as nuvens ainda não vieram morar nos picos dos montes.

Molha agora os teus pés de mansinho na água, com cuidado para que te não rolem os calhaus, e deixa que o mar te beba delicadamente.

Do alto da montanha entenderás a verdade que a ilha encerra sobre a ciência do Verde, e de uma golfada verás como nós respiramos as quatro estações.

Deixa cair a noite. A noite aqui chega tarde e com aviso do sol. A noite aqui é só um dia mais escuro.

Do alto da ponte, na velocidade do teu carro, olha as luzes que bordam as encostas da cidade e respira outra vez.

Perde o mar, as montanhas, o verde, guarda o cheiro intenso que a neblina deixou sobre as flores, larga o corpo, queda-livre, aprende os segredos que esconde o coração da ilha.

Enquanto chega o sono

Para Marta Vieira da Silva.

Há uma certa poesia nos olhos fechados duma criança enquanto dorme. Nos olhos da Marta há a poesia de quem sonha depois de um dia a brincar entre os livros e se deita cansada de ter esgotado a vida que aquele dia lhe deu.

Quando fecha os olhos diz devagar "Não tenho sono" só para poder vir para a minha cama. Então eu abro os lençóis e ela adormece junto de mim. Eu fico guardado nos sonhos dela, porque os sonhos da Marta traçam o labirinto das minhas esperanças até que tudo se perca quando lhe toco os cabelos. A partir daí já mais nada importa, o mundo pára na seda dos cabelos dela: a Marta é maior que o mundo porque o seu desejo de viver é tão grande e ainda assim cabe na pequena biblioteca onde a Marta gasta os seus dias em brincadeiras e sendo grande não vai além dos muros do jardim da casa da avó que vão até onde chega o mar.

A Marta tem uma doçura verde na sua ânsia de ser crescida. E eu, enquanto ela dorme e lhe toco nos cabelos, tenho uma ânsia doce que a vida passe gentilmente por ela.

Mas a vida nunca passa gentilmente.

Mas nada disso importa enquanto a Marta dorme e a poesia se desenha em mim.

sexta-feira, julho 14, 2006

Licor de Tangerina

"O licor servia-se às sextas-feiras, depois do jantar com bolo de laranja. Assim, aprendi que a vida se serve quente ou fria, em banho-maria, com as suas caldas e essências para beber devagar em pequenos copos de vidro."

Ana Paula Tavares in "A Cabeça de Salomé"

sábado, julho 08, 2006

Viagem em Lisboa, em torno de nós mesmos

Para Sara Guia d'Abreu, com toda a minha admiração.

Há no teu nome uma melodia delicada, como as notas que o Tom desenhava no piano.

Viver-te é como ver Van Gogh a pintar uma tela cheia de cores. O teu vestido enrosca-se por nós nos bares do Bairro Alto, mesmo quando não o trazes e o som dos teus risos vai além da noite, até às minhas tardes de Junho para nelas derramar o sol eufórico como as músicas da Ella. Como se eu agora fosse o Sinatra e tu a Fitzgerald a cantar "The Lady is a Tramp" e isso nos lembrasse de súbito de um tempo em que eles ainda não nos existiam.

Agora temos o corpo deitado na relva (mesmo contra as ordens do sr. Agostinho) e o muundo que vemos para lá dos óculos de sol é ainda muito fosco e tem continuamente o toque do liceu a pautar-lhe os ritmos. É um tempo delicado de já não infância mas ainda de crescimentos. Tu guardas nas mãos algo. Ofereces-me as primeiras palavras.

Agora eu estou sentado numa grande poltrona, é uma sala velha dum palácio do Bairro Alto. Tchekov está ao meu lado e tu simplesmente não queres mais Ivan Vasilievitch.
Dás-me a mão para corrermos até ao teu sofá nas Ruínas do Carmo. agora vemos o Tejo todo. Tu dizes que o Tejo continua a ser o grande rio da nossa vida, que é a vida de Lisboa. E enquanto Lisboa namora o Tejo há vedettes que se abanam sobre os seus cariocas de limão escondendo estórias de tabus e mariscos. Nós gastamos a tarde a despechar confissões nas nossas chávenas de chá, porque já estamos sentados numa varanda às Escolas Gerias, mas ainda a ver o Rio.

Vivemo-nos só de vez em quando, mas olha como a cidade dança connosco os choros do Tom quando estamos juntos! E assim, viver-te é cada vez melhor, com o rio, com as flores, com os risos, meu encanto de cantos tão distantes, amiga de ontem e hoje, tu que me inspiras quando fazes biquinho enquanto lembras a Ivan Vasilievitch que são teus os prados de Valovyl.

domingo, junho 25, 2006

Contaminatio

"Difícil é saber de frente a tua morte
E não te esperar nunca mais nos espelhos da bruma"

Sophia de Mello Breyner Andresen in Navegações

Difícil é saber de frente a morte dos meus sonhos
E não os esperar nunca mais nos espelhos da vida

sexta-feira, junho 16, 2006

Tríptico da Dificuldade

I
Difícil é buscar
Continuamente
As palavras

II
Difícil é saber
Da tua ausência
Na continuidade
De todas as horas

III
Difícil é continuar
À tua espera
Nos minutos infinitos
Mesmo quando a noite
Já se levantou sobre nós
E a Lua Nova
É presságio de que não virás

sábado, junho 10, 2006

Midsummer night dream

O teu corpo tem um gosto estranho que provém do facto de beberes shot's sempre sentado nas noites de Junho do Bairro Alto.

Tu sabes beber. E quando digo isto não é com mansidão, mas com carinho nas palavras. Tu bebes com a elegância de se saber estar em qualquer lado, mesmo nas noites mais frias de Junho (que as há!) quando só querias um casaco por cima dos ombros. Ainda assim, não deixas de beber, nunca com exagero, sempre suavemente como alguém que realmente aprecia o que faz e imprime a cada gesto, neste caso a cada gole, a certeza interior dos gestos que são definitivos, porque são importantes.

E o mais estranho, não é o teu corpo erguer-se acima dos outros numa elegância impar em qualquer tasca do Bairro Alto, estranho é como os teus lábios em volta de um copo fazem com que o calor e o frio dessas noites de Junho me excitem mais e mais no desejo do teu corpo.

É como uma bebedeira de muitos shot's bebidos todos de uma vez (o limão só com açúcar, nada de canela, se faz favor), que está longe da elegância deliciosa dos teus lábios suavemente em cada gole, mas que é quase tão gulosa como tu e certamente incontrolável. Fogo do álcool que me queima as entranhas numa ânsia súbita de entrar pelas tuas entranhas e unir os nossos corpos num cio furioso numa esquina estranha do Bairro Alto.

A noite vai-se instalando cada vez mais. Tu sabes beijar, beijas como bebes, com a sofreguião elegante do gole em cada vez que a tua língua busca algo na minha boca. A pele sente o calor, mais forte, mas nunca como num filme porno espanhol. É uma coisa do cinema francês onde numa tela gigante numa língua de suma elegância Isabel Huppert e Catherine Deneuve dançam a dança antiga das damas sedutoras esperando que Fanny Ardant saia do piano para se nos juntar. Beijo-te como se elas se rissem sobre nós com grandes flutes de cristal num champagne precioso.

A noite, sempre a noite, ainda mais a noite. O Junho, tão diferente dos Junhos da minha infância. O calor, tão palpável que era capaz de o engarrafar. Os teus lábios em torno de um copo. A maneira como chupas o limão. E eu de cabeça perdida enquanto anseio por ti e por Junho.

sábado, junho 03, 2006

Fundação Medeiros e Almeida

Num transversal pequena e simpática da Avenida da Liberdade (Rua Rosa Araújo) ergue- -se, entre a sombra de umas poucas árvores, a Fundação Medeiros e Almeida.

Casa-museu, o edifício alberga dentro de si uma impressionante e magnífica colecção construída pelo seu falecido patrono ao longo de toda uma vida. Os corredores e salas do palacete são uma deliciosa viagem pela estética de uma pessoa, estética que nos oferece uma envolvência delicado no bom e no belo passeando pelos mais variados objectos, dando-nos a certeza de que é possível viver-se numa obra de arte.

Um viagem aconselhada a todos os amantes do belo para se aproveitar uma das muitas tardes quentes que Lisboa agora oferece!

sábado, maio 27, 2006

Assim, de repente...

Ao Luisillo.

Numa noite de calor fresco que nos sabia como a promessa de um banho de água morna que se toma de manhã e nos desperta os sentidos, deixámo-nos cair nas confissões. Foi uma noite de palavras- palavras que os dias que nos separavam pediam há já algum tempo. Foi uma noite lenta de intimidades rápidas e tão complexas que nos permitimos viver como as mãos escorregam pelo marfim frio de um piano para lhe roubar as notas mais fundas.

Podia ter sido nessa hora de calor insuportável, quando no relógio de García Marquéz batem as três, enquanto estávamos deitados nas redes dos nossos alpendres. Podiámos ter escolhido falar por aí. Mas esperar até ao calor tropical dos verões colômbianos ia demorar tempo de mais. E nessa noite fomos nós que construímos o tempo.

Os teus olhos nunca me mentem e o meu corpo cai de leve sobre o teu. O teu abraço surge de repente para criar espaço para as palavras. E assim, de repente, largaste as tuas palavras sobre mim com uma insustentável leveza. Numa noite de palavras, as tuas palavras tão poucas para que tudo continue bem.

Para mim também Tu és o mais importante!

quinta-feira, maio 11, 2006

Os Aristocratas

Estreou recentemente "Os Aristocratas".

Desaconselhado a pessoas sensíveis, "Os Aristocratas", é uma fabulosa viagem ao mundo da comédia e àquela que, provavelmente, será a maior piada do mundo.

Correndo o rsico mais perigoso no humor- que é o de falar sobre ele e de o teorizar- o autor deste genial documentário percorre todas as vertentes de uma única piada sem que ela nunca perca graça.

"Os Aristocratas" joga com os nossos preconceitos mais profundos e assim leva-nos numa interessante viagem aos limites e às barreiras que a sociedade e nós mesmos nos impomos.

Lie with me- Vem comigo

Provavelmente o filme já estará fora de cena. Mas se tiverem a incrível sorte de descobrirem que não está não deixem de ir ver.

Brilhantemente interpretado, Lie with me, é uma viagem ao mundo da linguagem sexual e da viagem que nos leva do sexo aquilo que pode ser o amor. De uma beleza estética impressionante e de um erotismo delicado e elegante é um filme a não perder.

segunda-feira, maio 01, 2006

Poema ao 25 de Abril

I
Espera que o sol seja muito quente
E então sai à rua.
Caminha pelo lado da sombra sem nunca
Tirares os olhos do outro lado.
Vê como o mestre-d’obras
Desenhou todas aquelas janelas
Só para que tu as pudesses ver esta tarde

Continua a caminhar.
Deixa que o cheiro,
Que de súbito se instalou no teu coração,
Te indique o caminho.

Quando chegares ao jardim
Atraído pelo cheiro das coisas frescas
Que vivem no calor da tarde
Senta-te debaixo da sombra do grande caramanchão
Que está no centro do jardim.
Ouve o riso das crianças que brincam no parque
À tua frente
Para aprenderes como o mundo é ainda jovem
E por momentos deixa-te levar.
Agora abre o livro-
Lê dez páginas e respira,
Respira fundo
E deixa que o sol profundo que se instalou
Entre as três e as quatro
Se instale também dentro de ti;
Que ele te invada o corpo.

O rio continua à tua frente
E a cidade pulsa agora nas tuas veias.
Por esta altura já todos os cheiros te chegaram,
As aves voam cada vez mais alto.
Respira fundo.

II
Quando abrires os teus olhos
Ainda prontos para ver tanta coisa
Lembra-te de Abril.
Lembra-te desse dia em que se começou
A construir a tua tarde.

Quando respirares fundo
Pensa nos capitães em suas chaimites
E deixa que o cheiro inexistente dos cravos
Te chegue ao nariz.

Olha agora o sol de frente,
Ele já não te pode mais queimar,
Agora, Abril construiu s liberdade.

sábado, abril 22, 2006

Suavemente

As tuas mãos percorrem o meu corpo suavemente.
Eu deixo-me ir,
Como as folhas dos campos franceses
Que caem continuamente sobre os lagos
Sem saberem de estações.

Amar-te é como olhar de frente
Os campos verdes da França
E perceber que o fim está sempre além da próxima colina.

Os teus lábios encostam-se
Agora ao meu peito.

O vento
Leva os nossos suspiros profundos
Até que se percam nas cores do pôr-do-sol.

As tuas mãos descem até à minha cintura,
E como num quadro de Dali
Entras por mim adentro.
Os nossos corpos fundem-se.

Não há grandes clarões sobre nós
(Que agora somos um só),
Mas a tua boca ainda sussurra as palavras certas,
Narcisos que acariciassem de súbito os meus ouvidos.

Amamo-nos
No mesmo ritmo que os arcos
Fazem vibrar os violinos
Nas orquestras de Bach.

À beira do lago,
Já coberto de folhas,
Nossos corpos caem, cansados e vivos do amor
Até que o Sol venha lembrar-nos
Do futuro dos próximos dias.

domingo, março 19, 2006

A Domani

Para a Tânia Caldeira Pereira Paes, erasmiana em Messina, na Sicília.

Agora que partiste, resta a sede do teu regresso.

Enquanto,
É como se as coisas estivessem prenhes de ti
E tocar os cantos da tua ausência é quase tão real
Como tocar-te.

Algumas palavras:
Canto, riso, manga, cheiro,
euforia, música.
A tua guitarra resta encostada à parede
À espera dos teus dedos;

Nós restamos
De braços abertos
À espera que voltes
Com a música dos pássaros de Junho.