"Difícil é saber de frente a tua morte
E não te esperar nunca mais nos espelhos da bruma"
Sophia de Mello Breyner Andresen in Navegações
Difícil é saber de frente a morte dos meus sonhos
E não os esperar nunca mais nos espelhos da vida
domingo, junho 25, 2006
sexta-feira, junho 16, 2006
Tríptico da Dificuldade
I
Difícil é buscar
Continuamente
As palavras
II
Difícil é saber
Da tua ausência
Na continuidade
De todas as horas
III
Difícil é continuar
À tua espera
Nos minutos infinitos
Mesmo quando a noite
Já se levantou sobre nós
E a Lua Nova
É presságio de que não virás
Difícil é buscar
Continuamente
As palavras
II
Difícil é saber
Da tua ausência
Na continuidade
De todas as horas
III
Difícil é continuar
À tua espera
Nos minutos infinitos
Mesmo quando a noite
Já se levantou sobre nós
E a Lua Nova
É presságio de que não virás
sábado, junho 10, 2006
Midsummer night dream
O teu corpo tem um gosto estranho que provém do facto de beberes shot's sempre sentado nas noites de Junho do Bairro Alto.
Tu sabes beber. E quando digo isto não é com mansidão, mas com carinho nas palavras. Tu bebes com a elegância de se saber estar em qualquer lado, mesmo nas noites mais frias de Junho (que as há!) quando só querias um casaco por cima dos ombros. Ainda assim, não deixas de beber, nunca com exagero, sempre suavemente como alguém que realmente aprecia o que faz e imprime a cada gesto, neste caso a cada gole, a certeza interior dos gestos que são definitivos, porque são importantes.
E o mais estranho, não é o teu corpo erguer-se acima dos outros numa elegância impar em qualquer tasca do Bairro Alto, estranho é como os teus lábios em volta de um copo fazem com que o calor e o frio dessas noites de Junho me excitem mais e mais no desejo do teu corpo.
É como uma bebedeira de muitos shot's bebidos todos de uma vez (o limão só com açúcar, nada de canela, se faz favor), que está longe da elegância deliciosa dos teus lábios suavemente em cada gole, mas que é quase tão gulosa como tu e certamente incontrolável. Fogo do álcool que me queima as entranhas numa ânsia súbita de entrar pelas tuas entranhas e unir os nossos corpos num cio furioso numa esquina estranha do Bairro Alto.
A noite vai-se instalando cada vez mais. Tu sabes beijar, beijas como bebes, com a sofreguião elegante do gole em cada vez que a tua língua busca algo na minha boca. A pele sente o calor, mais forte, mas nunca como num filme porno espanhol. É uma coisa do cinema francês onde numa tela gigante numa língua de suma elegância Isabel Huppert e Catherine Deneuve dançam a dança antiga das damas sedutoras esperando que Fanny Ardant saia do piano para se nos juntar. Beijo-te como se elas se rissem sobre nós com grandes flutes de cristal num champagne precioso.
A noite, sempre a noite, ainda mais a noite. O Junho, tão diferente dos Junhos da minha infância. O calor, tão palpável que era capaz de o engarrafar. Os teus lábios em torno de um copo. A maneira como chupas o limão. E eu de cabeça perdida enquanto anseio por ti e por Junho.
Tu sabes beber. E quando digo isto não é com mansidão, mas com carinho nas palavras. Tu bebes com a elegância de se saber estar em qualquer lado, mesmo nas noites mais frias de Junho (que as há!) quando só querias um casaco por cima dos ombros. Ainda assim, não deixas de beber, nunca com exagero, sempre suavemente como alguém que realmente aprecia o que faz e imprime a cada gesto, neste caso a cada gole, a certeza interior dos gestos que são definitivos, porque são importantes.
E o mais estranho, não é o teu corpo erguer-se acima dos outros numa elegância impar em qualquer tasca do Bairro Alto, estranho é como os teus lábios em volta de um copo fazem com que o calor e o frio dessas noites de Junho me excitem mais e mais no desejo do teu corpo.
É como uma bebedeira de muitos shot's bebidos todos de uma vez (o limão só com açúcar, nada de canela, se faz favor), que está longe da elegância deliciosa dos teus lábios suavemente em cada gole, mas que é quase tão gulosa como tu e certamente incontrolável. Fogo do álcool que me queima as entranhas numa ânsia súbita de entrar pelas tuas entranhas e unir os nossos corpos num cio furioso numa esquina estranha do Bairro Alto.
A noite vai-se instalando cada vez mais. Tu sabes beijar, beijas como bebes, com a sofreguião elegante do gole em cada vez que a tua língua busca algo na minha boca. A pele sente o calor, mais forte, mas nunca como num filme porno espanhol. É uma coisa do cinema francês onde numa tela gigante numa língua de suma elegância Isabel Huppert e Catherine Deneuve dançam a dança antiga das damas sedutoras esperando que Fanny Ardant saia do piano para se nos juntar. Beijo-te como se elas se rissem sobre nós com grandes flutes de cristal num champagne precioso.
A noite, sempre a noite, ainda mais a noite. O Junho, tão diferente dos Junhos da minha infância. O calor, tão palpável que era capaz de o engarrafar. Os teus lábios em torno de um copo. A maneira como chupas o limão. E eu de cabeça perdida enquanto anseio por ti e por Junho.
sábado, junho 03, 2006
Fundação Medeiros e Almeida
Num transversal pequena e simpática da Avenida da Liberdade (Rua Rosa Araújo) ergue- -se, entre a sombra de umas poucas árvores, a Fundação Medeiros e Almeida.
Casa-museu, o edifício alberga dentro de si uma impressionante e magnífica colecção construída pelo seu falecido patrono ao longo de toda uma vida. Os corredores e salas do palacete são uma deliciosa viagem pela estética de uma pessoa, estética que nos oferece uma envolvência delicado no bom e no belo passeando pelos mais variados objectos, dando-nos a certeza de que é possível viver-se numa obra de arte.
Um viagem aconselhada a todos os amantes do belo para se aproveitar uma das muitas tardes quentes que Lisboa agora oferece!
Casa-museu, o edifício alberga dentro de si uma impressionante e magnífica colecção construída pelo seu falecido patrono ao longo de toda uma vida. Os corredores e salas do palacete são uma deliciosa viagem pela estética de uma pessoa, estética que nos oferece uma envolvência delicado no bom e no belo passeando pelos mais variados objectos, dando-nos a certeza de que é possível viver-se numa obra de arte.
Um viagem aconselhada a todos os amantes do belo para se aproveitar uma das muitas tardes quentes que Lisboa agora oferece!
sábado, maio 27, 2006
Assim, de repente...
Ao Luisillo.
Numa noite de calor fresco que nos sabia como a promessa de um banho de água morna que se toma de manhã e nos desperta os sentidos, deixámo-nos cair nas confissões. Foi uma noite de palavras- palavras que os dias que nos separavam pediam há já algum tempo. Foi uma noite lenta de intimidades rápidas e tão complexas que nos permitimos viver como as mãos escorregam pelo marfim frio de um piano para lhe roubar as notas mais fundas.
Podia ter sido nessa hora de calor insuportável, quando no relógio de García Marquéz batem as três, enquanto estávamos deitados nas redes dos nossos alpendres. Podiámos ter escolhido falar por aí. Mas esperar até ao calor tropical dos verões colômbianos ia demorar tempo de mais. E nessa noite fomos nós que construímos o tempo.
Os teus olhos nunca me mentem e o meu corpo cai de leve sobre o teu. O teu abraço surge de repente para criar espaço para as palavras. E assim, de repente, largaste as tuas palavras sobre mim com uma insustentável leveza. Numa noite de palavras, as tuas palavras tão poucas para que tudo continue bem.
Para mim também Tu és o mais importante!
Numa noite de calor fresco que nos sabia como a promessa de um banho de água morna que se toma de manhã e nos desperta os sentidos, deixámo-nos cair nas confissões. Foi uma noite de palavras- palavras que os dias que nos separavam pediam há já algum tempo. Foi uma noite lenta de intimidades rápidas e tão complexas que nos permitimos viver como as mãos escorregam pelo marfim frio de um piano para lhe roubar as notas mais fundas.
Podia ter sido nessa hora de calor insuportável, quando no relógio de García Marquéz batem as três, enquanto estávamos deitados nas redes dos nossos alpendres. Podiámos ter escolhido falar por aí. Mas esperar até ao calor tropical dos verões colômbianos ia demorar tempo de mais. E nessa noite fomos nós que construímos o tempo.
Os teus olhos nunca me mentem e o meu corpo cai de leve sobre o teu. O teu abraço surge de repente para criar espaço para as palavras. E assim, de repente, largaste as tuas palavras sobre mim com uma insustentável leveza. Numa noite de palavras, as tuas palavras tão poucas para que tudo continue bem.
Para mim também Tu és o mais importante!
quinta-feira, maio 11, 2006
Os Aristocratas
Estreou recentemente "Os Aristocratas".
Desaconselhado a pessoas sensíveis, "Os Aristocratas", é uma fabulosa viagem ao mundo da comédia e àquela que, provavelmente, será a maior piada do mundo.
Correndo o rsico mais perigoso no humor- que é o de falar sobre ele e de o teorizar- o autor deste genial documentário percorre todas as vertentes de uma única piada sem que ela nunca perca graça.
"Os Aristocratas" joga com os nossos preconceitos mais profundos e assim leva-nos numa interessante viagem aos limites e às barreiras que a sociedade e nós mesmos nos impomos.
Desaconselhado a pessoas sensíveis, "Os Aristocratas", é uma fabulosa viagem ao mundo da comédia e àquela que, provavelmente, será a maior piada do mundo.
Correndo o rsico mais perigoso no humor- que é o de falar sobre ele e de o teorizar- o autor deste genial documentário percorre todas as vertentes de uma única piada sem que ela nunca perca graça.
"Os Aristocratas" joga com os nossos preconceitos mais profundos e assim leva-nos numa interessante viagem aos limites e às barreiras que a sociedade e nós mesmos nos impomos.
Lie with me- Vem comigo
Provavelmente o filme já estará fora de cena. Mas se tiverem a incrível sorte de descobrirem que não está não deixem de ir ver.
Brilhantemente interpretado, Lie with me, é uma viagem ao mundo da linguagem sexual e da viagem que nos leva do sexo aquilo que pode ser o amor. De uma beleza estética impressionante e de um erotismo delicado e elegante é um filme a não perder.
Brilhantemente interpretado, Lie with me, é uma viagem ao mundo da linguagem sexual e da viagem que nos leva do sexo aquilo que pode ser o amor. De uma beleza estética impressionante e de um erotismo delicado e elegante é um filme a não perder.
segunda-feira, maio 01, 2006
Poema ao 25 de Abril
I
Espera que o sol seja muito quente
E então sai à rua.
Caminha pelo lado da sombra sem nunca
Tirares os olhos do outro lado.
Vê como o mestre-d’obras
Desenhou todas aquelas janelas
Só para que tu as pudesses ver esta tarde
Continua a caminhar.
Deixa que o cheiro,
Que de súbito se instalou no teu coração,
Te indique o caminho.
Quando chegares ao jardim
Atraído pelo cheiro das coisas frescas
Que vivem no calor da tarde
Senta-te debaixo da sombra do grande caramanchão
Que está no centro do jardim.
Ouve o riso das crianças que brincam no parque
À tua frente
Para aprenderes como o mundo é ainda jovem
E por momentos deixa-te levar.
Agora abre o livro-
Lê dez páginas e respira,
Respira fundo
E deixa que o sol profundo que se instalou
Entre as três e as quatro
Se instale também dentro de ti;
Que ele te invada o corpo.
O rio continua à tua frente
E a cidade pulsa agora nas tuas veias.
Por esta altura já todos os cheiros te chegaram,
As aves voam cada vez mais alto.
Respira fundo.
II
Quando abrires os teus olhos
Ainda prontos para ver tanta coisa
Lembra-te de Abril.
Lembra-te desse dia em que se começou
A construir a tua tarde.
Quando respirares fundo
Pensa nos capitães em suas chaimites
E deixa que o cheiro inexistente dos cravos
Te chegue ao nariz.
Olha agora o sol de frente,
Ele já não te pode mais queimar,
Agora, Abril construiu s liberdade.
Espera que o sol seja muito quente
E então sai à rua.
Caminha pelo lado da sombra sem nunca
Tirares os olhos do outro lado.
Vê como o mestre-d’obras
Desenhou todas aquelas janelas
Só para que tu as pudesses ver esta tarde
Continua a caminhar.
Deixa que o cheiro,
Que de súbito se instalou no teu coração,
Te indique o caminho.
Quando chegares ao jardim
Atraído pelo cheiro das coisas frescas
Que vivem no calor da tarde
Senta-te debaixo da sombra do grande caramanchão
Que está no centro do jardim.
Ouve o riso das crianças que brincam no parque
À tua frente
Para aprenderes como o mundo é ainda jovem
E por momentos deixa-te levar.
Agora abre o livro-
Lê dez páginas e respira,
Respira fundo
E deixa que o sol profundo que se instalou
Entre as três e as quatro
Se instale também dentro de ti;
Que ele te invada o corpo.
O rio continua à tua frente
E a cidade pulsa agora nas tuas veias.
Por esta altura já todos os cheiros te chegaram,
As aves voam cada vez mais alto.
Respira fundo.
II
Quando abrires os teus olhos
Ainda prontos para ver tanta coisa
Lembra-te de Abril.
Lembra-te desse dia em que se começou
A construir a tua tarde.
Quando respirares fundo
Pensa nos capitães em suas chaimites
E deixa que o cheiro inexistente dos cravos
Te chegue ao nariz.
Olha agora o sol de frente,
Ele já não te pode mais queimar,
Agora, Abril construiu s liberdade.
sábado, abril 22, 2006
Suavemente
As tuas mãos percorrem o meu corpo suavemente.
Eu deixo-me ir,
Como as folhas dos campos franceses
Que caem continuamente sobre os lagos
Sem saberem de estações.
Amar-te é como olhar de frente
Os campos verdes da França
E perceber que o fim está sempre além da próxima colina.
Os teus lábios encostam-se
Agora ao meu peito.
O vento
Leva os nossos suspiros profundos
Até que se percam nas cores do pôr-do-sol.
As tuas mãos descem até à minha cintura,
E como num quadro de Dali
Entras por mim adentro.
Os nossos corpos fundem-se.
Não há grandes clarões sobre nós
(Que agora somos um só),
Mas a tua boca ainda sussurra as palavras certas,
Narcisos que acariciassem de súbito os meus ouvidos.
Amamo-nos
No mesmo ritmo que os arcos
Fazem vibrar os violinos
Nas orquestras de Bach.
À beira do lago,
Já coberto de folhas,
Nossos corpos caem, cansados e vivos do amor
Até que o Sol venha lembrar-nos
Do futuro dos próximos dias.
Eu deixo-me ir,
Como as folhas dos campos franceses
Que caem continuamente sobre os lagos
Sem saberem de estações.
Amar-te é como olhar de frente
Os campos verdes da França
E perceber que o fim está sempre além da próxima colina.
Os teus lábios encostam-se
Agora ao meu peito.
O vento
Leva os nossos suspiros profundos
Até que se percam nas cores do pôr-do-sol.
As tuas mãos descem até à minha cintura,
E como num quadro de Dali
Entras por mim adentro.
Os nossos corpos fundem-se.
Não há grandes clarões sobre nós
(Que agora somos um só),
Mas a tua boca ainda sussurra as palavras certas,
Narcisos que acariciassem de súbito os meus ouvidos.
Amamo-nos
No mesmo ritmo que os arcos
Fazem vibrar os violinos
Nas orquestras de Bach.
À beira do lago,
Já coberto de folhas,
Nossos corpos caem, cansados e vivos do amor
Até que o Sol venha lembrar-nos
Do futuro dos próximos dias.
domingo, março 19, 2006
A Domani
Para a Tânia Caldeira Pereira Paes, erasmiana em Messina, na Sicília.
Agora que partiste, resta a sede do teu regresso.
Enquanto,
É como se as coisas estivessem prenhes de ti
E tocar os cantos da tua ausência é quase tão real
Como tocar-te.
Algumas palavras:
Canto, riso, manga, cheiro,
euforia, música.
A tua guitarra resta encostada à parede
À espera dos teus dedos;
Nós restamos
De braços abertos
À espera que voltes
Com a música dos pássaros de Junho.
Agora que partiste, resta a sede do teu regresso.
Enquanto,
É como se as coisas estivessem prenhes de ti
E tocar os cantos da tua ausência é quase tão real
Como tocar-te.
Algumas palavras:
Canto, riso, manga, cheiro,
euforia, música.
A tua guitarra resta encostada à parede
À espera dos teus dedos;
Nós restamos
De braços abertos
À espera que voltes
Com a música dos pássaros de Junho.
quarta-feira, março 01, 2006
Mafalda Arnauth
Para a Raquel Eugénio, que partilha comigo este gosto por fadistices e que me falou de Mafalda Arnauth.
Preparo a casa e preparo-me a mim. O silêncio. Pelas janelas entra o sol e o já quase calor das três da tarde, ora mágica dos latinos em que se tecem os sonhos reais. A luz prende-se nas cortinas e eu deixo que durma.
Ligo a aparelhagem. Deixo que o som me inunde, deixo que se transforme em música dentro de mim. Mafalda Arnauth canta com alma ao som da guitarra portuguesa. É uma música muito antiga que os seus dedos desenham há coisa de uns anos. Mas é como se estivesse estado sempre lá. A música de Mafalda Arnauth não tem tempo- é de sempre, porque é uma música que conhece a essência do Fado, sofrido, cantado, rido, mas acima de tudo vivido. Os fados de Mafalda Arnauth oferecem acima de tudo uma vivência essencial do Fado.
E eu ouvia-a. E fui lusitano, caminhei sobre Lisboa, dei bom dia à varinas, escutei os pregões, roubaram-me os maridos, chorei muito. Estava lá tudo para que não faltasse nada. E no fim acredito como ela, "Bendito Fado, bendita gente!".
Preparo a casa e preparo-me a mim. O silêncio. Pelas janelas entra o sol e o já quase calor das três da tarde, ora mágica dos latinos em que se tecem os sonhos reais. A luz prende-se nas cortinas e eu deixo que durma.
Ligo a aparelhagem. Deixo que o som me inunde, deixo que se transforme em música dentro de mim. Mafalda Arnauth canta com alma ao som da guitarra portuguesa. É uma música muito antiga que os seus dedos desenham há coisa de uns anos. Mas é como se estivesse estado sempre lá. A música de Mafalda Arnauth não tem tempo- é de sempre, porque é uma música que conhece a essência do Fado, sofrido, cantado, rido, mas acima de tudo vivido. Os fados de Mafalda Arnauth oferecem acima de tudo uma vivência essencial do Fado.
E eu ouvia-a. E fui lusitano, caminhei sobre Lisboa, dei bom dia à varinas, escutei os pregões, roubaram-me os maridos, chorei muito. Estava lá tudo para que não faltasse nada. E no fim acredito como ela, "Bendito Fado, bendita gente!".
sábado, fevereiro 11, 2006
Quando os poemas vêm em dias nocturnos
Há dias em que escrever é uma dor muito grande. Esses dias, quando são dias, parecem noites. Nascem com hora marcada para acabar. Simplesmente anseio que essa hora chegue mais cedo. Nunca presto tanta atenção ao rodar dos relógios como nesses dias, porque cá dentro é sempre de noite até efectivamente ser dia outra vez. Também há poesia nesses dias nocturnos- é mais magoada. São dias para ler a dedicatória de um namorado no livro velho. São palavras delicadas, curtas como convém, numa tinta de azul claro. Já têm em si uma poesia seca. Se o dia vem delas ou as encontro por ser noite enquanto é dia, não sei. Mas roubam a pouca música das minhas palavras.
Eu gosto de escrever poemas magoados, mas só nestes dias- assim grito mais claro como desejo a manhã.
Eu gosto de escrever poemas magoados, mas só nestes dias- assim grito mais claro como desejo a manhã.
domingo, fevereiro 05, 2006
Amar-te
Amar-te não é fácil quando te carrego comigo
No cansaço das minhas tardes em longas viagens suburbanas
Quando as geografias das nossas cidades
Das nossas palavras
E dos nossos corpos
São ainda tão diferentes
É difícil amar-te nas manhãs de Sol
Dos Junhos veraneanos
Na profundidade da água
Na inteireza do Verde
Custa amar-te
Quando isso pede que me desligue de mim
Quando o corpo se impulsiona para uma oferta
Sem egoísmos
Quando corremos para a formação de um "nós"
Como é difícil dizer as palavras
Quando as horas nos perpertuam
Em conflitos
Que não nos trazem nada da música nem dos pássaros
Não é fácil amar-te além dos rios
Dos montes
Das passagens
Dos nossos dias
Dos caminhos luminosos
Das flores
Dos peixes
Não é fácil amar-te
Para lá dos sentidos
Dos pensamentos
Para sempre as palavras
Não é fácil
Mas vale a pena!
No cansaço das minhas tardes em longas viagens suburbanas
Quando as geografias das nossas cidades
Das nossas palavras
E dos nossos corpos
São ainda tão diferentes
É difícil amar-te nas manhãs de Sol
Dos Junhos veraneanos
Na profundidade da água
Na inteireza do Verde
Custa amar-te
Quando isso pede que me desligue de mim
Quando o corpo se impulsiona para uma oferta
Sem egoísmos
Quando corremos para a formação de um "nós"
Como é difícil dizer as palavras
Quando as horas nos perpertuam
Em conflitos
Que não nos trazem nada da música nem dos pássaros
Não é fácil amar-te além dos rios
Dos montes
Das passagens
Dos nossos dias
Dos caminhos luminosos
Das flores
Dos peixes
Não é fácil amar-te
Para lá dos sentidos
Dos pensamentos
Para sempre as palavras
Não é fácil
Mas vale a pena!
Onde encontrar a poesia
Uma das coisas que mais me ocupa a cabeça é precisamente onde se encontra a poesia- donde nascem os versos? Sophia de Mello Breyner falava de uma ligação íntima das coisas para a construção do seu habitat pessoal.
Assim, talvez a poesia se ache na construção de um pequeno vocabulário com conceitos bem próprios. Para Sophia falamos claramente do branco, da casa, do mar, do pátio e da Hélade. Eu prefiro outras coisas, buscar a poesia noutras palavras.
Hoje por exemplo encontrei-a num grande tacho com cogumelos frescos lá dentro. Para mim há poesia que chegue num tacho de cogumelos frescos e na sua cozinha.
Há também pequenos momentos poéticos nos nossos dias: quando uma luz desvulgariza a árvore que está sempre no nosso caminho, numa janela de Alfama, na maneira como o vento mexe nos casacos e nos cabelos. Há poesia nos cavalos e nos ramos dos chorões.
Tudo o que mexe ou que fazem mexer é poesia. Talvez eu procure os meus conceitos em pequenas coisas que por breves momentos se transformam dando-nos uma alegria diferente.
Talvez procure palavras como água, rio, árvores e sobretudo Verde- a minha poesia é decididamente Verde.
É em busca do Verde que vou agora- para mais palavras, para mais poesias.
Assim, talvez a poesia se ache na construção de um pequeno vocabulário com conceitos bem próprios. Para Sophia falamos claramente do branco, da casa, do mar, do pátio e da Hélade. Eu prefiro outras coisas, buscar a poesia noutras palavras.
Hoje por exemplo encontrei-a num grande tacho com cogumelos frescos lá dentro. Para mim há poesia que chegue num tacho de cogumelos frescos e na sua cozinha.
Há também pequenos momentos poéticos nos nossos dias: quando uma luz desvulgariza a árvore que está sempre no nosso caminho, numa janela de Alfama, na maneira como o vento mexe nos casacos e nos cabelos. Há poesia nos cavalos e nos ramos dos chorões.
Tudo o que mexe ou que fazem mexer é poesia. Talvez eu procure os meus conceitos em pequenas coisas que por breves momentos se transformam dando-nos uma alegria diferente.
Talvez procure palavras como água, rio, árvores e sobretudo Verde- a minha poesia é decididamente Verde.
É em busca do Verde que vou agora- para mais palavras, para mais poesias.
sábado, janeiro 28, 2006
O Grande Júri e o Pequeno Ruiz no autocarro
Num belo dia solarengo o Grande Júri e o Pequeno Ruiz decidiram dar um passeio de autocarro para ver as vistas. Entraram e sentaram-se lá atrás nos bancos de quatro. Iam os dois muito felizes e na paragem seguinte entra uma mãe com a sua filha de quinze anos e um pai com o seu bebé que não podia ter mais que dois. Sentaram-se todos nos bancos de quatro ao lado dos bancos do Grande Júri e do Pequeno Ruiz.
Para surpresa do Pequeno Ruiz a menina de quinze anos de imediato se mete com o bebé e começa a fazer um brrrr infinito com os lábios. quando a menina ia nuns surpreendentes dez minutos sem parar sequer para apanhar fôlego no seu brrrr contínuo o Pequeno Ruiz perguntou ao Grande Júri:
- Oh Grande Júri, ela é tonta?
- Não, respondeu o Grande Júri, o mais certo é ser uma estudiosa de pedagogia que está a ver a influência que a estupidez humana tem nos bebés.
- Ah, disse o Pequeno Ruiz, claro! Tens toda a razão. como tu és esperto Grande Júri.
Entretanto, os dois observavam atentamente. Quando ela consegue por o bebé num estado de histeria tal que ele já grita por todos os cantos da boca, e para espanto de todos, ela própria desata a urrar como se fosse uma macaca.
- Oh Grande Júri, estou a ficar com medo. E se daqui a nada ela se pendura nos varões do autocarro? disse o Pequeno Ruiz com uma certeza quase absoluta de que era isso que ela faria a seguir.
- Não tenhas medo, explicou o Grande Júri. Isto são técnicas muito evoluídas de investigação.
Quando a criança não tinha mais pulmões por onde gritar e a menina de quinze anos deu por finda a investigação o Pequeno Ruiz viu ser-lhe tirada uma dúvida que alimentava já há uns minutos- era verdade, ela efectivamente conseguia falar. Aliás, conseguia-o de tal forma que assim que terminou a investigação pôs-se logo a falar com a sua mãe e o pai do bebé.
- Na nossa família há muita boniteza, dizia ela. Eu sou fantástica e a minha mãe é maravilhosa.
A mãe comovida riu-se com o elogio.
- É verdade, prosseguiu ela. Se tivesses os dentes todos e um pentado fashion como o meu eras um espanto.
Aqui o Pequeno Ruiz não aguentou mais e teve que perguntar ao Grande Júri:
- Oh Grande Júri, mas a mãe é horrível (leia-se urrível)! Magra parece um esquifo, com a cara chupada, a pele envelhecida, um nariz que mete medo e uns óculos de fundo de garrafa. Além disso a miúda tem o cabelo liso e comprido, isso não tem nada de fashion.
- Oh meu pobre Pequeno Ruiz. Nada disso interessa. Isto é o verdadeiro amor filial.
Entretanto o Grande Júri e o Pequeno Ruiz saíram. Foram visitar a cidade grande e nelas viram coisas de espantar e de pasmar de que se falará neste espaço em hipóteses futuras.
Quando a noite já ia alta correram para apanhar o autocarro de volta. Duas paragens depois entram a mãe e a filha. Desta vez o Pequeno Ruiz, expedito, sacou de um bloco de notas que tinha comprado e disse:
- Desta feita não me escapa nada!
De um vasto rol de profundos ensinamentos que a menina deixou escapar pela boca nessa viagem o Pequeno Ruiz reteve sobretudo estes:
A menina fumava um maço de tabaco por dia, mas não era viciada e largava quando quisesse (o Pequeno Ruiz louvou-lhe a força); entre o tempo da mãe dela e o seu era tudo diferente- a mentalidade, tudo diferente (o Pequeno Ruiz só lamentou que a menina não tivesse dito o que, além da mentalidade, mais era diferente, pois ouvi-lo de tão sábia estudiosa seria uma preciosa ajuda).
Porém, o ensinamento mais precioso que tirou foi que a confiança leva um minuto a perder e toda uma vida a recuperar.
Aqui, e comovido até às lágrimas, o Pequeno Ruiz perguntou:
- Oh Grande Júri, mas isto não é uma frase estilo novelas da NBP, muito ao sabor "Morangos com Áçúcar"?
- Que grande estupidez disses tu Pequeno Ruiz. Isto é a sabedoria popular no seu mais alto expoente- na boca de uma menina de quinze anos que berra e urra para um bebé durante vinte minutos para, certamente, estudar a sua reacção.
- Oh Grande Júri, como és inteligente, quem me dera ser como tu.
- É por isso que eu sou o Grande júri e tu és o Pequeno Ruiz.
- Oh Grande Júri, se não fosses tu o que seria de mim?
Para surpresa do Pequeno Ruiz a menina de quinze anos de imediato se mete com o bebé e começa a fazer um brrrr infinito com os lábios. quando a menina ia nuns surpreendentes dez minutos sem parar sequer para apanhar fôlego no seu brrrr contínuo o Pequeno Ruiz perguntou ao Grande Júri:
- Oh Grande Júri, ela é tonta?
- Não, respondeu o Grande Júri, o mais certo é ser uma estudiosa de pedagogia que está a ver a influência que a estupidez humana tem nos bebés.
- Ah, disse o Pequeno Ruiz, claro! Tens toda a razão. como tu és esperto Grande Júri.
Entretanto, os dois observavam atentamente. Quando ela consegue por o bebé num estado de histeria tal que ele já grita por todos os cantos da boca, e para espanto de todos, ela própria desata a urrar como se fosse uma macaca.
- Oh Grande Júri, estou a ficar com medo. E se daqui a nada ela se pendura nos varões do autocarro? disse o Pequeno Ruiz com uma certeza quase absoluta de que era isso que ela faria a seguir.
- Não tenhas medo, explicou o Grande Júri. Isto são técnicas muito evoluídas de investigação.
Quando a criança não tinha mais pulmões por onde gritar e a menina de quinze anos deu por finda a investigação o Pequeno Ruiz viu ser-lhe tirada uma dúvida que alimentava já há uns minutos- era verdade, ela efectivamente conseguia falar. Aliás, conseguia-o de tal forma que assim que terminou a investigação pôs-se logo a falar com a sua mãe e o pai do bebé.
- Na nossa família há muita boniteza, dizia ela. Eu sou fantástica e a minha mãe é maravilhosa.
A mãe comovida riu-se com o elogio.
- É verdade, prosseguiu ela. Se tivesses os dentes todos e um pentado fashion como o meu eras um espanto.
Aqui o Pequeno Ruiz não aguentou mais e teve que perguntar ao Grande Júri:
- Oh Grande Júri, mas a mãe é horrível (leia-se urrível)! Magra parece um esquifo, com a cara chupada, a pele envelhecida, um nariz que mete medo e uns óculos de fundo de garrafa. Além disso a miúda tem o cabelo liso e comprido, isso não tem nada de fashion.
- Oh meu pobre Pequeno Ruiz. Nada disso interessa. Isto é o verdadeiro amor filial.
Entretanto o Grande Júri e o Pequeno Ruiz saíram. Foram visitar a cidade grande e nelas viram coisas de espantar e de pasmar de que se falará neste espaço em hipóteses futuras.
Quando a noite já ia alta correram para apanhar o autocarro de volta. Duas paragens depois entram a mãe e a filha. Desta vez o Pequeno Ruiz, expedito, sacou de um bloco de notas que tinha comprado e disse:
- Desta feita não me escapa nada!
De um vasto rol de profundos ensinamentos que a menina deixou escapar pela boca nessa viagem o Pequeno Ruiz reteve sobretudo estes:
A menina fumava um maço de tabaco por dia, mas não era viciada e largava quando quisesse (o Pequeno Ruiz louvou-lhe a força); entre o tempo da mãe dela e o seu era tudo diferente- a mentalidade, tudo diferente (o Pequeno Ruiz só lamentou que a menina não tivesse dito o que, além da mentalidade, mais era diferente, pois ouvi-lo de tão sábia estudiosa seria uma preciosa ajuda).
Porém, o ensinamento mais precioso que tirou foi que a confiança leva um minuto a perder e toda uma vida a recuperar.
Aqui, e comovido até às lágrimas, o Pequeno Ruiz perguntou:
- Oh Grande Júri, mas isto não é uma frase estilo novelas da NBP, muito ao sabor "Morangos com Áçúcar"?
- Que grande estupidez disses tu Pequeno Ruiz. Isto é a sabedoria popular no seu mais alto expoente- na boca de uma menina de quinze anos que berra e urra para um bebé durante vinte minutos para, certamente, estudar a sua reacção.
- Oh Grande Júri, como és inteligente, quem me dera ser como tu.
- É por isso que eu sou o Grande júri e tu és o Pequeno Ruiz.
- Oh Grande Júri, se não fosses tu o que seria de mim?
domingo, janeiro 15, 2006
Choro de meus amigos perdidos
Choro meus amigos perdidos. Das lágrimas com que os choro eu me renasço.
O tempo passou a vida depressa enquanto eu, por um bocado, fechei os olhos. Muitas vezes o encarnado rodou a terra, tantas quantas o ocre mudou de cheiro. O grande pássaro umbi-umbi rumou para longe levando nas costas de suas asas a grande serpente da memória estendida. Ela, a serpente, devorou meus amigos perdidos enquanto os instantes me fabricavam sonhos bons de sonhar enquanto por instantes fechei os olhos. Ela, a serpente, precisa sempre de mais gente para botar seus ovos e continuar o ciclo da vida de seus olhos fundos. O nome de meus amigos perdidos foi parido nos cestos de adivinhação e sussurrado nas cabaças de todas as sanzalas. Por isso, ela, a serpente, os devorou.
Agora viro minhas costas ao norte porque o mar me chama para sul. Fugir com as aves. Ouço na sabedoria das letras escritas pelos mais-velhos o chamado do grande muatiânvua e corro a abraçar as Lundas para encher meu nariz de terra.
O muatiânvua pintará meu rosto de ocre e cerrará meu corpo de fogo. Fará meu gosto de sal e minha boca de trigo. Meus ouvidos serão de música para ouvir. Muatiânvua me forjará então de novo.
Dizem que ela, a serpente, não aguenta mais com o peso do seu fardo-memória. Cada ovo que ela bota e cada filho que de lá nasce carrega consigo um pouco dessa dor. Assim, é que na terra de quem tem boca se aprendeu a dizer saudade. Talvez meus amigos renasçam de seus ovos.
Enquanto,
Choro meus amigos perdidos. Das lágrimas com que os choro eu me renasço.
O tempo passou a vida depressa enquanto eu, por um bocado, fechei os olhos. Muitas vezes o encarnado rodou a terra, tantas quantas o ocre mudou de cheiro. O grande pássaro umbi-umbi rumou para longe levando nas costas de suas asas a grande serpente da memória estendida. Ela, a serpente, devorou meus amigos perdidos enquanto os instantes me fabricavam sonhos bons de sonhar enquanto por instantes fechei os olhos. Ela, a serpente, precisa sempre de mais gente para botar seus ovos e continuar o ciclo da vida de seus olhos fundos. O nome de meus amigos perdidos foi parido nos cestos de adivinhação e sussurrado nas cabaças de todas as sanzalas. Por isso, ela, a serpente, os devorou.
Agora viro minhas costas ao norte porque o mar me chama para sul. Fugir com as aves. Ouço na sabedoria das letras escritas pelos mais-velhos o chamado do grande muatiânvua e corro a abraçar as Lundas para encher meu nariz de terra.
O muatiânvua pintará meu rosto de ocre e cerrará meu corpo de fogo. Fará meu gosto de sal e minha boca de trigo. Meus ouvidos serão de música para ouvir. Muatiânvua me forjará então de novo.
Dizem que ela, a serpente, não aguenta mais com o peso do seu fardo-memória. Cada ovo que ela bota e cada filho que de lá nasce carrega consigo um pouco dessa dor. Assim, é que na terra de quem tem boca se aprendeu a dizer saudade. Talvez meus amigos renasçam de seus ovos.
Enquanto,
Choro meus amigos perdidos. Das lágrimas com que os choro eu me renasço.
Aristocracia
(Luiz Capucho e Suely Mesquita)
Sua aristocracia vem de algum mistério
é sério
você é sério demais
pros seus poucos anos
um rapaz sem planos como você
devia estar
jogando bola
vendo televisão
indo ao cinema
pensando em dinheiro e sexo e só isso
nada de poemas
sobre os animais humanos
nada de filosofias
um rapaz sem planos
um brasileiro
um rapaz do interior
sua aristocracia deslocada
é uma delicadeza
da vida bruta
você é o olho do mundo
no seu lugar
só você vê daí
você pode contar
daí você pode contar
Sua aristocracia vem de algum mistério
é sério
você é sério demais
pros seus poucos anos
um rapaz sem planos como você
devia estar
jogando bola
vendo televisão
indo ao cinema
pensando em dinheiro e sexo e só isso
nada de poemas
sobre os animais humanos
nada de filosofias
um rapaz sem planos
um brasileiro
um rapaz do interior
sua aristocracia deslocada
é uma delicadeza
da vida bruta
você é o olho do mundo
no seu lugar
só você vê daí
você pode contar
daí você pode contar
quinta-feira, janeiro 12, 2006
Aurora ou Sonhos de uma infância mitológica
Quando nasceste para mim já eras velha. Embora eu não me lembre desse momento em que nasceste para mim tenho a certeza de que já eras velha e tenho a certeza de que o facto de não me lembrar quer dizer apenas que exististe desde que eu existo. Assim, será melhor dizer que desde que eu sou tu és velha.
Os teus olhos claros já eram baços por cansaço de ver, já eras alta e grandiosa como uma alemã e só o teu cabelo ainda não era, aliás como não é hoje, completamente branco- como se fosse um último sinal de resistência a uma velhice que mais tarde descobri te custava a suportar.
Mas enquanto fui menino nada disso interessava, porque tu eras a avó e isso era tudo o que bastava para te descrever, o que, de resto, para uma definição de criança é já bastante.
Não sei quando se estreitaram os laços entre nós, sei que demorou muito tempo e que o tempo é muito irregular quando se é criança. Não percebia quando discutias com o pai e depois choravas, nem gostava quando ralhavas comigo. No entanto, dessa infância muito antiga lembro-me de um palco grande e amplo, que era também a minha secretária, onde me vestias e lembro um saco muito grande feito de palha onde cabiam a tua cozinha e as tuas receitas, o ar frio de Novembro e a banca dos legumes, os teus dedos sábios tacteando com uma visão perfeita o que era melhor. Foram, sem eu saber os primeiros laços, os primeiros segredos só nossos que tinhas o cuidado de não encher com demasiadas palavras.
Então eu cresci: cresceram os braços, cresceram as pernas, as mãos e os pés. Cresci e de menino fiz-me rapaz. Chegou a escola. Com ela vieram tardes de televisão que sabiam a sandes de manteiga, queijo e marmelada e a cacau quente. Tardes que se repetiam sempre iguais sem que isso fosse um problema para nenhum dos dois. Eram os ritos, esses momentos tão importantes em que a vida se repete vezes e vezes sem conta, em que o mesmo gesto existe na continuidade de todas as horas. Mas ainda não tinham chegado os momentos mágicos.
Apareceram mais tarde, quando descobri o caminho do liceu e as alegrias da rua, nos dias em que ficava em casa, entre as duas e as quatro, à hora em que as horas morrem. E aí nasceram as histórias. Ouvi-as todas muitas vezes, porque só vale a pena ouvir histórias se as ouvirmos muitas vezes, porque não interessa só saber contar uma história- interessa conhecer-lhe a essência. Só se consegue chegar à essência duma história quando no-la contam muitas vezes, todas as versões, todas as palavras, toda a história.
Nas tuas histórias havia um grande planalto a que deste o nome de Huíla e havia sítios misteriosos com nomes de feitiçio- a Chibia, a serra da Leba… Havia reinos e palácios estranhos que chamavas de sanzalas e quimbos e reis de cara preta sem princesas que salvar. Havia gado e mulheres que esmagavam o milho no pilão, porque as tuas histórias são de um tempo em que a riqueza ainda vinha da terra. Falavas de povos estranhos e davas-lhes nomes fantásticos- cuonhamas, mucobais e quiocos- e envolvias tudo com palavras mágicas duma língua que mais tarde soube chamar-se Umbundo. Nas tuas histórias também havia um mundo muito novo à espera de ser moldado e homens ainda de barro cru e de capacete colonial que o amavam de mãos fechadas. Havia um pai herói que fazia bem de rei justo e que era amado por todos. E por fim uma menina chamada Aurora que soube amar tanto esse pai-herói-rei.
Foi então que eu descobri que antes de eu ser tu já eras há muitas eras e que nem sempre tinhas sido velha. Para grande surpresa de garoto que descobre a infância da avó tu também tinhas sido menina e tinhas sonhado sonhos cor da terra nessa África lá longe. Descobri assim a tua infância dentro desses contornos esbatidos que fazem da infância de quem é velho toda uma nova mitologia.
Agora vem avó, que é tempo de mais histórias, e juntos sonhemos novamente de mãos dadas teus sonhos africanos de menina.
Os teus olhos claros já eram baços por cansaço de ver, já eras alta e grandiosa como uma alemã e só o teu cabelo ainda não era, aliás como não é hoje, completamente branco- como se fosse um último sinal de resistência a uma velhice que mais tarde descobri te custava a suportar.
Mas enquanto fui menino nada disso interessava, porque tu eras a avó e isso era tudo o que bastava para te descrever, o que, de resto, para uma definição de criança é já bastante.
Não sei quando se estreitaram os laços entre nós, sei que demorou muito tempo e que o tempo é muito irregular quando se é criança. Não percebia quando discutias com o pai e depois choravas, nem gostava quando ralhavas comigo. No entanto, dessa infância muito antiga lembro-me de um palco grande e amplo, que era também a minha secretária, onde me vestias e lembro um saco muito grande feito de palha onde cabiam a tua cozinha e as tuas receitas, o ar frio de Novembro e a banca dos legumes, os teus dedos sábios tacteando com uma visão perfeita o que era melhor. Foram, sem eu saber os primeiros laços, os primeiros segredos só nossos que tinhas o cuidado de não encher com demasiadas palavras.
Então eu cresci: cresceram os braços, cresceram as pernas, as mãos e os pés. Cresci e de menino fiz-me rapaz. Chegou a escola. Com ela vieram tardes de televisão que sabiam a sandes de manteiga, queijo e marmelada e a cacau quente. Tardes que se repetiam sempre iguais sem que isso fosse um problema para nenhum dos dois. Eram os ritos, esses momentos tão importantes em que a vida se repete vezes e vezes sem conta, em que o mesmo gesto existe na continuidade de todas as horas. Mas ainda não tinham chegado os momentos mágicos.
Apareceram mais tarde, quando descobri o caminho do liceu e as alegrias da rua, nos dias em que ficava em casa, entre as duas e as quatro, à hora em que as horas morrem. E aí nasceram as histórias. Ouvi-as todas muitas vezes, porque só vale a pena ouvir histórias se as ouvirmos muitas vezes, porque não interessa só saber contar uma história- interessa conhecer-lhe a essência. Só se consegue chegar à essência duma história quando no-la contam muitas vezes, todas as versões, todas as palavras, toda a história.
Nas tuas histórias havia um grande planalto a que deste o nome de Huíla e havia sítios misteriosos com nomes de feitiçio- a Chibia, a serra da Leba… Havia reinos e palácios estranhos que chamavas de sanzalas e quimbos e reis de cara preta sem princesas que salvar. Havia gado e mulheres que esmagavam o milho no pilão, porque as tuas histórias são de um tempo em que a riqueza ainda vinha da terra. Falavas de povos estranhos e davas-lhes nomes fantásticos- cuonhamas, mucobais e quiocos- e envolvias tudo com palavras mágicas duma língua que mais tarde soube chamar-se Umbundo. Nas tuas histórias também havia um mundo muito novo à espera de ser moldado e homens ainda de barro cru e de capacete colonial que o amavam de mãos fechadas. Havia um pai herói que fazia bem de rei justo e que era amado por todos. E por fim uma menina chamada Aurora que soube amar tanto esse pai-herói-rei.
Foi então que eu descobri que antes de eu ser tu já eras há muitas eras e que nem sempre tinhas sido velha. Para grande surpresa de garoto que descobre a infância da avó tu também tinhas sido menina e tinhas sonhado sonhos cor da terra nessa África lá longe. Descobri assim a tua infância dentro desses contornos esbatidos que fazem da infância de quem é velho toda uma nova mitologia.
Agora vem avó, que é tempo de mais histórias, e juntos sonhemos novamente de mãos dadas teus sonhos africanos de menina.
Estórias do Grande Júri e do Pequeno Ruiz
ao Lusillo
As estórias destes dois amigos nasceram faz já algum tempo, se a memória não me falha, em terras francesas.
O Grande Júri e o Pequeno Ruiz são dois amigos que gostam de andar por aí a passear. O primeiro é um grande C feito com a curva da mão esquerda e o segundo um pequeno e longo C feito com a curva da mão direita- a isto se resumem os nossos dois amigos.
O Grande Júri e o Pequeno Ruiz gostam de olhar para as pessoas e para o mundo e trocar ideias sobre aquilo que vêem e vivem. É isso que aqui hão-de fazer- deixar as suas impressões.
Divirtam-se com as estórias dos dois!
As estórias destes dois amigos nasceram faz já algum tempo, se a memória não me falha, em terras francesas.
O Grande Júri e o Pequeno Ruiz são dois amigos que gostam de andar por aí a passear. O primeiro é um grande C feito com a curva da mão esquerda e o segundo um pequeno e longo C feito com a curva da mão direita- a isto se resumem os nossos dois amigos.
O Grande Júri e o Pequeno Ruiz gostam de olhar para as pessoas e para o mundo e trocar ideias sobre aquilo que vêem e vivem. É isso que aqui hão-de fazer- deixar as suas impressões.
Divirtam-se com as estórias dos dois!
Sic Incipitur
Este blog nasce de uma grande vontade de escrever que existe em mim desde quase sempre. Aparece com uma descoberta lenta e deliciosa, que saboreei com cuidado, do valor das palavras. Surge de brincadeiras com as palavras dentro de uma infinitude que lhes oferecemos.
Este blog aparece também impulsionado por uma grande amiga, que por estas bandas virtuais dá pelo nome de colher de chá (vejam http://asvedettestambemseabanam.blogspot.com e adorem), que me encorajou a fazê-lo. Alguém que eu adoro e admiro e com quem partilho e discuto este gosto estranho e por vezes frustrante de escrever.
Sic Incipitur, assim se começa, um projecto que em mim se ambiciona há muito tempo. Porque quem escreve, escreve sempre para ser lido. E como diz Novalis "Urge que o leitor seja o autor-aumentado".
Este blog aparece também impulsionado por uma grande amiga, que por estas bandas virtuais dá pelo nome de colher de chá (vejam http://asvedettestambemseabanam.blogspot.com e adorem), que me encorajou a fazê-lo. Alguém que eu adoro e admiro e com quem partilho e discuto este gosto estranho e por vezes frustrante de escrever.
Sic Incipitur, assim se começa, um projecto que em mim se ambiciona há muito tempo. Porque quem escreve, escreve sempre para ser lido. E como diz Novalis "Urge que o leitor seja o autor-aumentado".
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