quarta-feira, março 16, 2011

Tecido

daquele tecido fino que usava sobre o ombro preso com a pregadeira da mãe.

era assim que se vestiam os deuses, num tempo em que se falava deles.

Numa nesga de Tejo

Depois eram as janelas demasiado longas.

Lisboa, numa nesga de Tejo, e este páteo de azulejos pombalinos.

terça-feira, março 08, 2011

Poema do Tio Olavo

Ajuntámo-nos ali como as crias das águias
Sem que tarde ou mar nos viessem

Chorámos incessantemente por uma vitória
Longo tempo imaginada

E só o sol se pôs no horizonte

Em nós nunca pusémos mais que a força
Dos instantes milimetricamente acontecidos nas nossas vidas

Sem a sombra de que mais tarde houvesse consequências

A tarde nem sequer existia senão num conceito abstracto de rima

Todos os dias comíamos a areia das praias
Porque delirávamos sonhando com sermos peixes azuis brincando
Em gentis recifes de corais
No Ocenao pacífico

Não podia necessariamente ser ilha
Porque nunca nada me envolveu por completo

Fui sempre algo mais do que alguma coisa de que se pode dizer
Isto aqui
Ele é tão só isto aqui

Ninguém é tão só alguma coisa

Havia depois uma janela que na casa abria sobre o pateo
Era lá que as crianças brincavam

O tio Olavo martelava com fúria as teclas precárias da máquina de escrever
Era um pouco de mais

A vida tem que ter algo de exagero
Ou seríamos monótonos como um carreiro certo de formigas
Sem que o coração batesse violentamente dentro do peito

Enquanto esperamos por alguma coisa que há-de vir alguma coisa que não se saberá nunca o que é

Não podemos ansiar
Porque não podemos usar palavras sagradas
Nem gestos nem ritos
Nem rituais em que deusas nascem do mar engrinaldadas de violetas

Afrodite escrevia tragédias no Olimpo
Isto é um dado certo e seguro
Nada na História comprova que Hefesto o tenho feito, mas Afrodite sim

Escrevia tragédias descontinuas
E criou conceitos que só as pombas brancas conhecem

Certa manhã o Tio Olavo parecia filosofar com as pombas brancas
No beiral da janela do escritório

Nós as crianças vimos tudo enquanto
Brincávamos no páteo

Quem sabe se não seria tarde em vez de manhã
Ou em razão se não seria nenhuma hora do dia
Ou se não seria mesmo dia
Mas instante

Todos nós estávamos nas palavras que ele escrevia
nas teclas precárias da máquina de escrever

Depois as palavras, sempre as palavras
Ele repetia as palavras
Incessantemente as palavras

E agora sou eu que continuo a construir o seu mundo
Como Afrodite no Monte Olimpo escrevendo tragédias.

Da Tarde

Naquela tarde de ondas,
Enquanto o mar expirava,
Corrias atrás das gaivotas para que não deixassem
O sol esconder-se.

As rochas carregavam palavras antigas
De um mundo que aqui passou antes.

O poema aconteceu depois
Sem que eu esperasse.

sábado, março 05, 2011

O deus do mar

O deus do mar morava ali. Venci lentamente o medo das ondas que fazem rolar os calhaus e cheguei mesmo a saltar da pedra grande. Ao deus do mar, nunca o vi. Mas sei que é ali que ele mora.

A varanda

A varanda, esse segredo antigo da cidade, onde o sol batente faz o tempo correr devagarinho.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Manhã e Tejo

Das gaivotas como águias,
Aves quase reais e quase mágicas

Naquela manhã junto ao Tejo.

terça-feira, fevereiro 22, 2011

Lamentação

Era um dia cheio de erros, como um sol nascido prematuro e que fora apenas demasiado pálido.

Era uma sala pequena e escura onde podia conversar-se baixinho como as aranhas.

Tudo era triste e bom, e ambas as coisas coexistiam com paciência.

O mar era demasiado leve nessa tarde e por uma vez não me quis suicidar nas suas ondas.

Desejei tanto não amá-lo que a cada ânsia pensava nele e amava-o mais.

Foi a casa mais escura de todas as que nunca habitei e nunca vi que nenhuma luz ardesse lá dentro.

Eu ardi todo na manhã de verão quando o meu corpo não aguentou mais nunca ter o dele.

terça-feira, janeiro 25, 2011

Antinoos ou Crónica do Homem e da Imagem num espelho

Passeávamos os dois de barco
Rio acima
Ele inclinava-se muito junto das bordas
E depois ria humanamente
E isso era triste.

Batia as mãos como os meninos
Que jogam o jogo das pedrinhas
E se o barco o permitisse
Teria dado saltos e pulos
De algum espanto.

Depois vi o escravo levantar-se,
Vi a mão do escravo aberta
Em suas costas.

Depois eu não me levantei,
Eu nunca me levantei.

Também gritou quando caiu
Ao rio.
Um grito seco, sem espanto,
Já morto, ou quem dera quase.

Então o escravo estendeu-me com a mesma mão
A cera e o cálamo.

Agora o teu corpo
Afundava-se muito.
Era como se fizesses um jogo novo e propositado-
Para que eu te escrevesse.

Não deixei que ninguém te tirasse da água-
Devias morrer.

Tão fundo, depois cada vez mais fundo
Que agora já só espreitavas e
Os teus caracóis ficaram desfeitos na água do rio.

Foi assim a última vez que olhei os teus olhos
E teria sido a última vez a tocar a tua pele
Tivesse eu esticado a minha mão para te erguer.

Salvei-te-
Todos sabem.
Só tu não acreditas.

Odeias-me no fundo do lago,
Mas isso é um segredo só teu
Com o qual eu posso viver.

Todos te amam depois desse dia
E eu cada vez mais,
Eu amo-te cada vez mais
Agora que humanamente
Não existes.

Eis o deus que morreu
Para buscar ser imortal
E a quem eu proibi qualquer ressureição.

No fundo do lago odeias-me,
Mas és só tu.

Por te matar e
Ao mesmo tempo
Entregar-te a vida eterna
Todos me amam
E só tu me custaste.

Tarde

Mariana junto às ondas
Naquela tarde de praia.

Não soube das gaivotas
Até que o vermelho
Dos pimentos que assávamos
Escorreu como sangue
No pateo da ilha.

Auto-retrato

Amavo o desenho da escrita.

Em cada letra,
Aguarela deste auto-retrato.

Pássaros

Os pássaros do meu bloco de notas
Mudam de voo cada vez
Que viro a folha.

terça-feira, dezembro 21, 2010

Boas Festas

Um Feliz Natal para todos! E desejos de um bom 2011!

Tríptico

Renata ficou espantada. Não se tratava dum questão de gestos, até porque restava quase imóvel. A imagem que o espelho lhe devolvia era uma incógnita aliciante. No quarto pequeno da Calçada de Santana continuava nua frente ao reflexo espremida entre a cama e o espelho. O que era, não sabia.
*
Aquilo provava-lhe que, apesar de tudo, era um homem e mais que isso um homem da sua família. No quarto da avó Laura, decorado com cortinas azul-claro e com folhos brancos, a telefonia, parada na Rádio Renascença, deitava as orações de Avé-Marias e Padre-Nossos que eles depois repetiam. Primeiro ele, em voz clara e grossa, depois as duas velhas num discurso mais sumido e disconexo. Aquelas mulheres já tão velhas, naquele quarto que era quase um oratório, e era ele que liderava as orações, porque ele era um homem da família.
*
Teresa adorava a sala cor de rosa. A primeira coisa que fazia era esfregar-se no tecido fino da senhorinha mais encostada à porta. Ficava ali sentada muito tempo admirando os retratos da avó Filomena e do avô Vasco. Os retratos caiam da parede, ligeiramente inclinados como antes se usou. Sem nunca ter aprendido, levantava depois a tampa pesada e preta do piano e passava os dedos pelas teclas cada vez mais desafinadas. Depois seguia as filas decoradas de parentes mortos nas fotografias a preto e branco. Fechava os olhos e sonhava com vidas que nunca viria a ter.

terça-feira, novembro 23, 2010

Poesias Simples

Dizes que te ponha a mão
Como um pássaro.
É tarde.
*
De todas as cores escolherás
O azul
Para usares no sahri festivo.
*
No campo marcham as hordas
De Esparta.
No templo profetisa a Pitonisa.
*
Amas esta arte como tua.
O quadro
Não saberás quem o pintou.
*
É tantas vezes de noite como de dia.
A alma
Não tem relógio que conte o tempo.
*
De todas as palavras terei
Uma.
O poema surgirá no silêncio.
*
A criança brinca junto à fonte.
A sua mão
Faz pensar no que é breve e rir.
*
Os jogos matutinos começaram com
Os jovens nus.
Todos os dias estendes o corpo sob os lençóis.
*
Cultiva o branco no pateo quadrado
Da casa da ilha.
Os deuses serão clementes quando te olharem.
*
Da laranja guarda o gesto de
A trincares.
O seu sabor é perecível como o sumo.
*
Das muralhas da cidade nada penses.
Toca-as
Para sentires como são frias.
*
Passa este dia sobre o campo.
Amanhã
A chuva fará crescer os rios.
*
Das flores conhece-as
Como a ti.
Em cada pétala a possível história de uma vida.
*
Sedentas de gozo vivem
As crianças
Jogando suas bolas no relvado.
*
Acerca-te das ondas onde
Rebentam.
Os teus pés saberão a que sabe a espuma.
*
Guarda silêncio do fim das palavras.
É esse
O segredo inconfessável.

Poema Árabe

Esta noite
Li todos os poetas árabes.

Sei fazer poemas de pérolas,
Ginetes e sandálias
Enquanto durar o sabor do vinho.

Mas é segredo o que aprendi
Como a luz branca da Lua.

terça-feira, novembro 02, 2010

Bruno

Do compasso de espera
Terrivelmente lento
Resta a repetição de cada minuto

Encosto-me a uma esquina da sala, com um livro na mão
A marca que me deixaste, mesmo depois de tanto tempo

Parênteses

(voltei a subir o casaco pelas costas. estava enregelado. está visto- escrever poemas não aquece.)

A sala em medida exacta ou Do Branco

Procuro a sala exacta em sua medida. De linhas absolutamente rectas e janelas vertidas sobre o pateo. Sei hoje as suas cores, a luz como incide quando mexo em cada centímetro das cortinas. Procuro a sala exacta em sua medida e vazia em seu silêncio, sem móveis que contem estórias de seus espaços. Apenas espaço. A mansidão das horas ineterruptas. Languidez. Lansidão. Exacto, como o branco do mar como o pateo onde Antígona se viu sacrificada.

Do Outono

De mar e ondas
Como no início

Deixar que o poema se diga lentamente
Ao ouvido

De todas as coisas as tardes
A meia-luz
E o cheiro dos frutos ácidos
Sob a boca

Muralhas desta casa
Como uma Atenas de Espartanos
Poema de dizer indizível
Como em transe de pitonisa

Tudo em quase noite
As cores deste crepúsculo outonal

Mais tarde o dia
A vida
O sonho


Lentamente deixo o casaco escorregar-me pelas costas.
Na cadeira escrevo agora aquilo que oiço.