terça-feira, janeiro 25, 2011

terça-feira, dezembro 21, 2010

Boas Festas

Um Feliz Natal para todos! E desejos de um bom 2011!

Tríptico

Renata ficou espantada. Não se tratava dum questão de gestos, até porque restava quase imóvel. A imagem que o espelho lhe devolvia era uma incógnita aliciante. No quarto pequeno da Calçada de Santana continuava nua frente ao reflexo espremida entre a cama e o espelho. O que era, não sabia.
*
Aquilo provava-lhe que, apesar de tudo, era um homem e mais que isso um homem da sua família. No quarto da avó Laura, decorado com cortinas azul-claro e com folhos brancos, a telefonia, parada na Rádio Renascença, deitava as orações de Avé-Marias e Padre-Nossos que eles depois repetiam. Primeiro ele, em voz clara e grossa, depois as duas velhas num discurso mais sumido e disconexo. Aquelas mulheres já tão velhas, naquele quarto que era quase um oratório, e era ele que liderava as orações, porque ele era um homem da família.
*
Teresa adorava a sala cor de rosa. A primeira coisa que fazia era esfregar-se no tecido fino da senhorinha mais encostada à porta. Ficava ali sentada muito tempo admirando os retratos da avó Filomena e do avô Vasco. Os retratos caiam da parede, ligeiramente inclinados como antes se usou. Sem nunca ter aprendido, levantava depois a tampa pesada e preta do piano e passava os dedos pelas teclas cada vez mais desafinadas. Depois seguia as filas decoradas de parentes mortos nas fotografias a preto e branco. Fechava os olhos e sonhava com vidas que nunca viria a ter.

terça-feira, novembro 23, 2010

Poesias Simples

Dizes que te ponha a mão
Como um pássaro.
É tarde.
*
De todas as cores escolherás
O azul
Para usares no sahri festivo.
*
No campo marcham as hordas
De Esparta.
No templo profetisa a Pitonisa.
*
Amas esta arte como tua.
O quadro
Não saberás quem o pintou.
*
É tantas vezes de noite como de dia.
A alma
Não tem relógio que conte o tempo.
*
De todas as palavras terei
Uma.
O poema surgirá no silêncio.
*
A criança brinca junto à fonte.
A sua mão
Faz pensar no que é breve e rir.
*
Os jogos matutinos começaram com
Os jovens nus.
Todos os dias estendes o corpo sob os lençóis.
*
Cultiva o branco no pateo quadrado
Da casa da ilha.
Os deuses serão clementes quando te olharem.
*
Da laranja guarda o gesto de
A trincares.
O seu sabor é perecível como o sumo.
*
Das muralhas da cidade nada penses.
Toca-as
Para sentires como são frias.
*
Passa este dia sobre o campo.
Amanhã
A chuva fará crescer os rios.
*
Das flores conhece-as
Como a ti.
Em cada pétala a possível história de uma vida.
*
Sedentas de gozo vivem
As crianças
Jogando suas bolas no relvado.
*
Acerca-te das ondas onde
Rebentam.
Os teus pés saberão a que sabe a espuma.
*
Guarda silêncio do fim das palavras.
É esse
O segredo inconfessável.

Poema Árabe

Esta noite
Li todos os poetas árabes.

Sei fazer poemas de pérolas,
Ginetes e sandálias
Enquanto durar o sabor do vinho.

Mas é segredo o que aprendi
Como a luz branca da Lua.

terça-feira, novembro 02, 2010

Bruno

Do compasso de espera
Terrivelmente lento
Resta a repetição de cada minuto

Encosto-me a uma esquina da sala, com um livro na mão
A marca que me deixaste, mesmo depois de tanto tempo

Parênteses

(voltei a subir o casaco pelas costas. estava enregelado. está visto- escrever poemas não aquece.)

A sala em medida exacta ou Do Branco

Procuro a sala exacta em sua medida. De linhas absolutamente rectas e janelas vertidas sobre o pateo. Sei hoje as suas cores, a luz como incide quando mexo em cada centímetro das cortinas. Procuro a sala exacta em sua medida e vazia em seu silêncio, sem móveis que contem estórias de seus espaços. Apenas espaço. A mansidão das horas ineterruptas. Languidez. Lansidão. Exacto, como o branco do mar como o pateo onde Antígona se viu sacrificada.

Do Outono

De mar e ondas
Como no início

Deixar que o poema se diga lentamente
Ao ouvido

De todas as coisas as tardes
A meia-luz
E o cheiro dos frutos ácidos
Sob a boca

Muralhas desta casa
Como uma Atenas de Espartanos
Poema de dizer indizível
Como em transe de pitonisa

Tudo em quase noite
As cores deste crepúsculo outonal

Mais tarde o dia
A vida
O sonho


Lentamente deixo o casaco escorregar-me pelas costas.
Na cadeira escrevo agora aquilo que oiço.

quinta-feira, outubro 28, 2010

Terribilíssimo

Amei-te no perfume ácido das laranjas

Por certo no Inverno,
Quando tudo esfria

E a cabeça tende a doer mais.

Terás o sabor ácido das laranjas
E isso é algo que já não vou nunca descobrir-

O teu corpo imaginado tantas vezes.

Ansiei mais pelos teus cabelos, no entanto.

Mas tudo era como no Inverno-
Frio, distância e desnexo.

Quem me dera guardar, flores secas entre os livros,
Para quando chegasse a Primavera.

Mas tudo era como o Inverno.

terça-feira, outubro 26, 2010

Ensaio em Gustavo

Como Gustavo conheceu Artur perto da perda de (um) Salvador mesquinho e de esquinas. De todas e tantas ruas- traçado geométrico do Bairro Alto. Fadista de encantos fanados. Como esta porta por onde entraram como se ainda agora mesmo os tivesse visto. E a correr- sobe e desce as ruas cheias de gente onde só estão eles- Artur e Gustavo. Dançando, dançando, dançando. Dancin' Days. Como mais uma novela barata- é assim que justamente os imagino, comos os entendo, como em verdade os escrevo e crio. Depois um beijo, dois três quatro cinco. Muitas línguas. Em palavras cifradas que na minha cabeça dizem um ao outro como se os visse, os ouvisse dizerem piropos banais um ao outro, piropos que numa outra realidade (como fora a deles criada por mim) funcionariam de facto. Aumento o já previsto, o visto de antes mais pela frente que dor detrás. De todas as coisas que vivem- agora manhã, um jipe- rumo à Peninha. O nascer do sol, um rumo de associações fáceis. O mistério, absolutamente inalcansável nestas palavras, em quase tudo o que escrevo. E ele, Artur, todo debruçado, todo misterioso sobre o inexistente Gustavo confessando o amor duma noite no cenário idílico onde só falta que a minha escrita tivesse qualquer qualidade.

quarta-feira, outubro 13, 2010

Poesia (morta) de Outono

Um poema escrito no Outono
Não trás em si nada de novo.

Coisa triste e seca
Que se repete sem cessar
Apenas porque tem que ser.

O homem que amava o que era triste

Aquele homem amava o que era triste.

E sendo jovem era seco,
Uma geografia sem casa ou
Poço construído.

Era um homem mais triste que a sua tristeza
E de vê-lo dava pena.

E sentei-me assim para escrever
Das coisas tão tristes que eu sei
Que ele sentia.

Quando já não consigo escrever

Migração das palavras-

Apátridas esperando um barco no porto.

segunda-feira, outubro 11, 2010

Imladris

Olha agora os olhos
Que olharam a luz das árvores.

Quem voltará atrás
Ouvindo os belos cantos
Que os elfos cantam há anos
Em Imladris?

Olha agora os olhos
Que olharam a luz das árvores.

Quem desejará o regresso da fadiga
E do cansaço dos dias
Quando hoje repousa
Em Imladris?

Olha agora os olhos
Que olharam a luz das árvores.

Quem ansiará pelo combate
Vendo a forja reluzente
Das espadas dos senhores dos Elfos
Em Imladris?

Olha agora os olhos
Que olharam a luz das árvores.

Além aguardam os portões que guardam
O resto do mundo.
Porque ninguém,
Por mais anelante coração,
Restará para sempre
Em Imladris.

domingo, outubro 10, 2010

De um ia em que não fui sozinho a Sesimbra

Que dirás tu desta tarde
Sobre as colinas da Serra?
O mar por certo batia em ondas
Sobre a estrada dos carros.
Mas só isso?
A tarde era maior sobre a casa
Sem que tu mesmo o pudesses reparar.
E se me tivesses dito nem mesmo ai
Os teus gestos seriam necessidades.
Eu já sei do dia de hoje como se hoje eu
Mesmo o tivesse vivido.
Não podes agora abandonar a ideia da casa alta
Voltada em seus terraços nivelados
Para o pateo.
Ali é por onde escorre a água pura
Destes risos que ouves incansavelmente por todo o lado
Como uns abdominais tesos e duros que
Nunca se cansassem do mais divertido dos exercícios.
Vês como é tão simples uma tarde
Esta mesma sobre a Serra?
Então porque não tenho vontade de palavras,
Mas apenas das coisas que uma a uma recordo
Como se fossem por mim chamadas?

quinta-feira, outubro 07, 2010

Mães e Muralhas de Atenas

Eis aqui onde a lança espartana
Conhece a muralha de Atenas.

Por onde todas as mães choram
Vieram os soldados semi-nus
Com uma fúria que mais tarde outros diriam
Parecer-se a um afecto enamorado.

E deleitaram-se em Atenas todas as donzelas
Que esperavam sobre todas as varandas.

quinta-feira, setembro 30, 2010

Segredo, como se estivesse

Da água límpida de cada memória

Por sobre a sombra enigmática destes dias

Cada casa como uma estória que se conte muitas vezes
Para a sabermos de cor.

Ruas da cidade enquanto entardece,
Como um verbo que se usa por razões gentis de estilo
Mas que quer dizer muito mais do que nós.

Insaciável por Lisboa

Por hoje não me basta a cidade
Como se de um crepúsculo eterno me falasses
Agarrada como uma criança pequena a um chupa-chupa peganhento de melaço
Cada rua se torna um prazer indizível.

Hoje à noite na colina
Vivo sozinho na cidade
Onde os outros são apenas a elegante decoração
De uma sala de estar.

De anima

Sobre todas as coisas
A minha alma existe ao fim da tarde

Como um misterioso quiosque de jardim entre as folhas
Onde nunca conseguimos chegar.