sexta-feira, outubro 12, 2007

Jantar do conde e do general

O criado fechou a porta. Entram minutos que se vão arrastar até determinadas infinitudes antes que o criado a volte a abrir. É um ritual longo, mas sobretudo arrastado pelo tempo que se prepara. Não há música e quem fosse atento diria não haver respiração. Apenas o toque constante e confuso do relógio sobre o mármore da madeira no tic-taquear infinito do tempo que guarda. São oito horas exactas e é de noite. Talvez seja Novembro. Se for, em meses será Primavera e quando os ponteiros chegarem ali será de dia. Mas serão sempre oito horas. Sem estações, sem manhãs ou noites e quase sempre sem tempo.

O general não é um homem velho. Alguma coisa acabou nele há muito tempo, ainda assim. Dir-se-ia dele o resultado dos estragos que os anos trazem, mais do que provocam. Foi um homem duro que se deixou vencer pelas durezas da vida. Vive numa lucidez que só em si é lúcida e o grande espelho por cima da lareira devolve-lhe uma imagem que só ele vê. Outros veriam um homem alto e de meia-idade. Ele verá coisas que não podemos saber. Não vemos com os seus olhos.

O conde já lá está, sentado para as janelas, perdido numa poltrona qualquer da sala. Nunca é a mesma. Há-de se sentar em todas para que o general entenda que não se pode sentar em nenhuma. Existe cada vez mais elegante, cada vez mais artificial na esperança de alguma vez existir para ele. Os olhos do general estarão sempre fixados no espelho sobre a lareira. A cada ruga uma razão, a cada traço um motivo, a cada gesto a certeza de que nada mudou. Ainda que o conde use um magnífico colete em seda selvagem pouco lhe importa. É um esforço que não há-de fazer. Um esforço que também há de ter retorno. Quantas vezes, no prolongar dum ritual vazio de sentido, tentou o conde encontrar o outro reflexo no reflexo do general?

Sentam-se. A mesa em toda a elegância da etiqueta gela o que já de si é menos que morno. Nada para o aproximar. Tudo para o espantar. Cada espaço ocupado no desejo de um olhar que se desprenda do espelho. Mas porque há-de ele olhar para outro lado que não para o espelho? Que há dele nesta sala senão o seu próprio retrato inventado na devolução do reflexo? O conde nunca olha para o espelho. Não para aquele, ou não para aquele como se fosse aquele. São tantos os seus espelhos nos seus corredores da sua casa que repetem a sua imagem cada dia mais magnífica. Um homem que veste um colete bordeaux de seda selvagem há-de ser realmente esplêndido. Que lhe interessa o reflexo? Que interesse pode ter para o general a extravagância palerma dum colete bordeaux?

A sala é ampla e branca em seus contornos. A mesa fica para lá da porta e para cá das duas poltronas que enfrentam a lareira, as janelas, o jardim. Mas as cortinas foram corridas pelo criado quando o conde se levantou. O criado já serve há muito tempo. Frente a frente o conde e o general trocam expressões delicadas. Um há-de mostrar ao outro que aquele é o seu espaço. O outro nem sequer se lembrará de pensar nisso durante todo o jantar. O olhar reprovador do general recai sobre o prato quase cheio do conde, mas mais sobre os talheres cruzados. Será que percebe que o conde lhe devolve um olhar de raiva? (Será que ambos sabem que se destroem no terror das coisas breves que se calam?)

Que criança parva é esta que brinca às bonecas neste palácio de muitas salas que a sorte mais que a morte da mãe lhe deixou? Que homem frio é este que nada sabe dos outros, ou dele ainda que fosse?

Apenas dele, nem que fosse apenas dele. Uma tarde. Que bom seria Abril. O jardim. Uma mesa lá fora. O gosto bucólico das conversas banais. Depois um abraço, um recanto. Algo onde se esconder. Ele que o protegesse.

No vai-e-vem do garfo há-de pensar que criança pequena que não soube crescer.

Não há lugar para coisas idealizadas. Não há lugar para bucolismos. Não há espaço para abraços. Há só o ar pesado e sufocante da sala. O barulho ensurdecedor do relógio. O arrastar mais que lento do tempo. A dor que os dois pagam para estar aqui. Frente a frente- o conde e o general, no braço de ferro das emoções. Que não se chegue ao outro nunca, que não se diga nunca nada. Que nesta sala não haja lugar para fraquezas.

(E se ainda assim ele visse alguma coisa no espelho. E se ainda assim ele reparasse no colete bordeaux.)

O relógio já bateu horas. O tictaquear dos tempos é mais lento, mais calmo, mas constante. Já quase se pode respirar. O conde levanta-se, o general também. Olham-se, estão frente a frente- o conde e o general. É a hora das palavras:
-Então até à próxima quarta.
-Até à próxima quarta, pai.

sábado, outubro 06, 2007

Embalo das coisas ou Variação às suas exortações

Em longas linhas leves, mas tensas
Tento
Encontrar o acordo secreto das coisas.

Acordo e é mar.
Enquanto,
Tudo se encanta de estar em seu canto.
Encantamento.
Tormento sábio, mas manso
De tudo o que existe embalado
Em seu vivo descanso.

Segredo de Francisca

De repente falou:

-Francisca.

E o sabor da romã invadiu-lhe
De súbito a boca.

Seus olhos rasos
De novo em mar.
Seu mar de corpo
De novo no espanto das coisas
Que nascem da terra.

Sua terra nascida
De um seu próprio nome
Como se ao dizê-lo
Num mesmo jogo
Lhe roubassem e devolvessem
Num mesmo instante
A magia primeira da sua palavra.

sexta-feira, outubro 05, 2007

If you love somebody set them free ou Despedida cantada em agonizando

Ao Pedro.

Pedaço distante,

Instante exacto,

Tempo constante,

Em que te vais,

Em que me perco,

Em que te alongas,

Em que m'esgoto.


Além de mim,

Além de ti,

P'r'àlém de nós,

Depois de algo,

Palavras que não diga mais.


Certezas outras,

Novas manhãs,

Velhas dúvidas,

Coisas que restam-

If you love somebody set them free.

quinta-feira, outubro 04, 2007

Retrato de rapaz em algumas variações (Revisited)

Guardo uma imagem em mim:

Uma janela (alta, grande e de vidro); um jardim (que é como se a vida acontecesse além de tudo isto); ele.

Que ele exista não é mais que uma quase certeza. A banalidade do que veste torná-lo-ia real, não fosse a abstracção com que se coloca exactamente no meio de tudo.

Ele está em todo o lado (por todo o lado) sem que possa existir sequer aquém de si mesmo. Que o corpo esteja largado a uma canto (contra a janela, contra o jardim) não é mais que um pormenor. É estruturalmente clássico sem que deixe de ser desejosamente latino. É o seu corpo que o diz além do terceiro botão aberto da camisa.

Anseio mais pela sua imagem do que ambiciono o seu corpo. O mármore das estátuas é sagrado demais para que se lhe toque e o fogo dos deuses trar-lhe-ia um calor humano demais para que não se perdesse. Ele deve existir acima de tudo mesmo que para isso não deva existir.

É sumamente belo. É sumamente arrogante. É sumamente divino. (e todas estas coisas existem em consequência umas das outras)

Se vive nem quero saber. De pouco me vale aquilo que nele há de humano.

A sua imagem. Apenas a sua imagem. Continuadamente a sua imagem...

A existência dum corpo ou A probabilidade da inexistência

Tem o corpo esgarço partido contra uma coluna. Há copos à sua volta. O vidro faz barulho de encontro ao vidro. É vida que existe.

Tem olhos com que diga coisas. Não as diz. É possível que as guarde. Aguarda o tempo. As pessoas existem continuamente em seu redor. Encantamento.

Resta parado. Os outros passam. Vivem, ele observa. Talvez exista nos outros, para além de si. Não existe, não pode existir!

O seu corpo esgarço continua partido contra a coluna da sala.

Breve estória de sinhàzinha

S'engravidou-se sinhàzinha de tempo
Por não ter mais tempo por onde andar

S'engravidou-se sinhàzinha de coisas
Por onde houvesse mistérios para dizer

S'engravidou-se sinhàzinha de vida
E partiu na barca funda
Pelo anseio profundo de partir

quinta-feira, setembro 27, 2007

Coisas que a vida traz ou Pequeno episódio tragi-cómico no autocarro

Uma mulher de preto no autocarro.

"-Morreu-lhe alguém?

-O meu marido em Agosto!

-Ai, que as pessoas nascem, morrem e vão a enterrar e eu não sei nada.

-Também, sai de casa de madrugada só volta à noite..."

Será que se acordar mais tarde posso ver morrer o marido das outras?

A varanda e o seu palácio

Au jeune comte du Petit-palais, avec toute m'amitié.

-Este é o Pedro, avó.
-Muito prazer. Como está?
Há-de durar mais um tempo o constrangimento. Ele não é trémulo, mas treme. A Condessa resta inalterada. Está estática. Permanece. Ele também, mas bem gostava de não o fazer. A Condessa falhou com a sua parte do ensaio. Não houve nenhuma das suas mãos que se tenha levantado. A direita sobre a esquerda. Ambas sobre o colo. Há-de durar mais um tempo o constrangimento até que perceba que o ensaio acabou. Ainda não é hoje que ele lhe alcançará a mão.

Estão frente a frente. Francisco mais ao lado. Manso, o tio Afonso trinca o seu cachimbo maciço, esparramado na poltrona. A tia está lá por cima a atarantar a criada (a que restou) com o final das mudanças. Queixa-se do corpo fraco e sobrecarrega a criada com as dores do corpo, mas mais com as dores da alma. É possível que António esteja no quarto. Estão frente a frente, ele e a Condessa. A Condessa é mais imponente do que bonita, como convém. É imensa. A Condessa está por toda a casa, desde as lojas que cedo não serão suas às escadas e aos corredores por onde corre o sangue dos dias do seu palácio. Ele está apenas onde está. É mais alto do que ela, mas agora é quase corpuscular. Nessa noite a Condessa só lhe voltará a dedicar as palavras de despedida. Não haverá mais palavras por agora. Isso basta para que ele saiba da sua inexistência nesta casa.

-Nós vamos para o quarto.
Finalmente acabou. O corpo respira de alívio. A Condessa deu-lhe as costas. Eles já vão na porta. A Condessa murmurou alguma coisa em francês ao tio Afonso. Ele não consegue perceber o que foi, mais pela distância que pelo seu mau francês. Não há-de saber como a Condessa confessava ao filho que lhe tinha achado bom ar. Há pouco de belo na Condessa (ela não o ignora). Tão pouco teve um marido bonito e fez filhos em vez de beldades. A beleza não é senão um prazer rechonchudo de fim de tarde para as burguesinhas do Príncipe Real (que agora habitam em Telheiras). Francisco, o neto, é mais bonito do que Pedro. Mas Pedro tem bom ar. Isso evita-o à vulgaridade. A Condessa há-de lembrar-se disso.

Podiam ter ido pelo corredor, mas foram antes pelas duas salas que levam ao quarto de Francisco. O quarto de jantar guarda a imagem antiga dum fresco que cobriu as janelas antes da cal descascar-se. Agora nada disfarça as rachas. O vazio da antecâmara encerra o segredo das partilhas numa família que já guarda pouco que dividir.

Chegam ao quarto. Arejado, honesto, simples. Os livros foram uma desculpa, as mãos não. Encontram-se na excitação do silêncio. A Condessa continua a estar por toda a casa. Há que guardar o barulho para outros dias. É fim de tarde. Lá fora Lisboa. As bocas. Dos turistas que devoram vorazmente um último pedaço de pão. A respiração lenta. Dos cães que passeiam pelas esquinas da cidade. As roupas caídas. Nas montras das lojas que fecham. Os corpos deitados. De dois namorados que se encontram num banco do Camões. O grito abafado. Do estertor do eléctrico acabado pelos barulhos das ruas. Francisco salta da cama, meio nu como uma estátua. Tem um ar meio provincial de fidalgo minhoto. Tem um embrulho nas mãos. Dá-o. Pedro recebe-o. São promessas de coisas que podem existir. Francisco lê-lhe entre os beiços "Amo-te". É mentira. Ainda não é verdade. Talvez seja. Nenhum dos dois sabe. Que importa? É verdade desde que ele o disse e enquanto o outro o acreditar. O telemóvel. Uma mensagem para o António (estará no quarto?). "Fumamos na varanda?(está cá o Pedro)". O primo aparece logo. Francisco abre a vidraça. Lá fora o século XXI. Lá fora Lisboa. A varanda é curta demais para os três, mas encaixam-se. António está tão esmagado como constrangido entre os dois. Está a aprender. São tão etéreos como o fumo. Os fins de tarde de Lisboa. Talvez Francisco e Pedro. Encontram-se pelo canto que cada um ocupa na varanda. Existem além de António. Só um para o outro. Conversam. Conversam sempre. António não pode perceber. Não porque seja um segredo. Porque é um segredo apenas deles.

Pedro atravessa o corredor. Já não treme. A Condessa está onde a deixou. Não a tivesse visto falar com o filho diria que tinha ficado sempre ali. Afonso não está. Talvez com a mulher em qualquer lado do sótão.
-Até amanhã. Muito gosto.
-Boa noite. O prazer foi meu.
Sorri. Afinal ele tem bom ar. A Condessa há-de lembrar-se disso. Mas ainda não haverá mãos levantadas, pelo menos por hoje. Francisco existe meio alheio à cena. Pedro faz o seu papel que aprendeu depressa. Sem ensaios desta vez. Devolve o sorriso. Saem.
Cá em baixo na porta hão-de demorar-se até ao estertor abafado do próximo eléctrico. Lá fora Lisboa. Talvez a Condessa se lembre disso.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Just like Marie Antoinette. Retrato de elegante no Lux. (Revisited)

Leva-me a dançar ao Lux, she said just like Marie Antoinette.

Uma maravilha de betão e vidro- ela ou o loft? A chuva que escorrega pelas janelas, ela que nunca escorrega por lado nenhum. Ela existe. Há o espaço exacto do vazio da sua presença. É por lá que ecoa a sua voz. As palavras nas paredes. Algo chega até ele. Ele cuida dos gestos quotidianos: o casaco, o guarda-chuva, as chaves do carro. Ela existe. Imensa, soberana, imperial, just like Marie Antoinette.

Ela está próxima das pessoas. Nunca pode estar entre elas. As suas linhas são distantes demais para que possa existir no meio das pessoas. Há os risos, os olhares. Para ela, nunca dela. Os seus olhares não se desperdiçam e as suas palavras não são palavras, mas desejos.

Há um equilíbrio delicado (e medido) enquanto sobe as escadas. Estas ou as de qualquer rua de Lisboa. A subida de uma escada é um espaço onde a elgância pode viver. Ela é curva como os espelhos onde encontra a projecção de si mesma. Eles não lhe mentem. Ela ama-se até à infinitude do seu reflexo, just like Marie Antoinette.

Pisa o chão como quem pisa a vida, agarra o copo como quem prende algo seu entre as mãos. Despeja nos lábios algo inútil. Nunca nada será tão seu como ela própria. O corpo meio estendido sobre um dos sofás. Ela pertence, não observa. Ela também é a elegância urbana do espaço.

Vêem-na, olham-na, observam-na. Talvez a desejem. Nada a preocupa, just like Marie Antoinette. Pelo corpo um vestido de veludo escarlate, perto do peito, solto na cintura. O vestido ondula, ela não. É estática como qualquer peça dali. Caem-lhe três fiadas de pérolas e no decote uma jóia de Lalique. Pelas pernas os collants pretos e os stillettos encarnados.

Nunca se farta, mas cansa-se por vezes. Levanta-se. Outras escadas, a mesma elegância. Os seus gestos são uma repetição de todos os outros. Na pista tudo se mexe. Ela fica parada. As bolas giram depressa demais, as luzes brilham demasiado. Tudo é rápido. Ela é exacta.

As pessoas teimam em existir à sua volta. Alguém lhe toca. De repente, ouve a música. O corpo dominado desprende-se. Ela mexe-se. Uma maravilha de betão e vidro- o loft; ela derreteu por entre a pista. Agora dança. Freneticamente como as luzes. Os cabelos existem. Ondeiam. Ondulam-se. É real. Mas é só um instante. Os espelhos não mentem. Ela ama-se até à infinitude do seu reflexo, just like Marie Antoinette.

Há-de voltar ao seu elemento,

Just like Marie Antoinette.

terça-feira, setembro 18, 2007

Breve meditação sobre Sara

À Sara Guia d'Abreu que povoa os meus dias.

Uma tarde,

Um intento,

Incenso que arde devagar.

Tarde.

Luz do sol sobre os teus óculos,

Um carro numa rua de Lisboa.

Nós!

Um cheiro doce de canela,

Coisas lembradas nas esplandas da cidade.

Recantos,

Encantos fadados,

Lembrados de coisas,

Livros sobre as mãos.

Esquinas de dizer palavras.

Corpos molhados.

Rimos,

Gargalhadas.

Quadros pendurados nas paredes procuradas,

Bailados,

Janelas em que digas:

Lisboa.

Palavras deitadas à toa

À tona do corpo,

Dos lábios.

Vagueamos, vagamos lugares,

Breves sábios.

Entendimentos,

Intentos,

Incensos

Que queimamos no arrastar lento dos dias lentos.

domingo, setembro 16, 2007

Anseios do Verão


Como numa tarde d'Inverno

Como numa sessão de cinema

Como numa noite sem lua

Fico quieto, calado

À espera,

À espreita.

Pode ser que te esgueires por um buraco

E que carregues nas costas

Dias de Verão.

terça-feira, setembro 11, 2007

A nós que nos vamos dizendo

Ao Luisillo e ao Pedro.

Devo dizer-vos palavras

Se nos vamos dizendo

Em cada dia

Por onde a vida nos encontra?

Epitáfio do Verão ou Devaneio sobre algumas estações e seus sucedimentos

Esperar na linha longa do mar

Que Outubro vire Outono

E que na volta do Inverno

Haja de novo vislumbres do Verão.

Ele e Ela ou Poema dos amantes que sabem viver

Ele

Ela

Dançando, entendendo-se

Enlaçando-se

Verão, volta

Fruto.

Experimenta palavras para poesia.

Que dizer?

Ele

Ela

Seus corpos.

Haverá mãos por onde traçar mapas?

Encanto

Folha cadente

Ensaio de amor em poucas palavras.

Gemido

Gritinhos soltados em frente ao televisor.

Não sei mais.

Ele

Ela

Sabem talvez

O que se diga

Mas sobretudo por onde se viva.

Viver uma morada

Na ideia

A casa, a janela, o recanto de aldeia

Num canto chamado cidade

Onde lhe conte estórias da Sherazade.

Vislumbre, perdão

Quotidiano perdido na mesa da cozinha.

Verdade.

Ele

Ela

Sabem mais.

Ele

Ela

Sabem horas, anos, dias,

Esperas.

Pequena declaração no parapeito de uma janela de Lisboa

Anseio.

Mente de manso.

Tarde acabada num jardim.

Que dizer sobre as mãos que param de par em par à tua janela?

Devaneio sobre as cidades dos livros ou Busca incoerente de algo que se chame amor

Por hoje uma mão. Para outros instantes a outra.

Palavras
Escorregam
De
Manso.

Encanto. Sussurro na ausência das palavras: faltas-me!

Quando te direi?

Páras porque cidade? Quem te viu já nas ruas tortuosas de Alexandria?

Tens poemas como as planicies onde estão os prédios elegantes de Paris. És pouco atento ao crepúsculo.

Ondas, folhas, falas.

Falhas em alguns instantes. Faltam-te cidades. O gosto do mar.

Tens troncos e és de árvores. Talvez por algum dia perdido te falte o verde.

Faltas-me!

Para quando? Por onde? Para onde?

Meu corpo que sossega, respiração lenta, sossego.

Por hoje uma mão. Para outros instantes a outra.

Outros dias, outras luas, novas palavras.

Crónica de dois amantes junto ao rio

Para o Sérgio e o Stijn, com todo o meu carinho.

Ele estava mais calado. Talvez porque os seus olhos verdes tenham um pouco mais de rio. O outro tem mãos mais fortes e rosto construído de cidade. Tem menos palavras que diga, mas quase tantas para dar como ele. Entendem-se por vezes em silêncios longos.

Constroem dias. Apercebem-se um do outro nas dificuldades incontornáveis do quotidiano. Qual a dose de amor que pode ter uma taça de cereais deixada ao acaso da súbita falta de fome? É o instante em que se engolem as palavras. Amar é também saber calar-se.

Não é fácil a cedência, a compreensão dos limites do tu face ao intento expansionista do eu. Eles sabem que não é fácil. Não soubessem não eram construtores de dias. Têm a certeza das tardes longas e da possibilidade de um por-do-sol roubado a alguma horas de outras coisas.

Enlaçam um entendimento. Descobrem-se. Magoam-se pelo caminho. Cravam-se um ao outro perdidos entre o eu, o tu e o nós.

Mas ele tem o corpo calmo. O outro também. A tarde escorre ao lado do rio. Lisboa ergue-se no alto das colinas e o rio atlântico leva sensações do Mediterrâneo. Dois homens de mãos dadas. Uma compreensão superior a eles mesmos. Deixam-se partir numa tarde soalheira de Domingo. Haverá outras para o regresso. Haverá sempre o regresso.

segunda-feira, agosto 27, 2007

Ser poeta, o que é?

À Rosa Carreiro.

Há por aí uma bela dona que me chama de poeta.

Não me insultes de maneira vil, dona rica. Não quero ser poeta, não quero.

Ser poeta é andar de cabeça perdida, sem cabeça talvez e não ver as cores havidas das coisas vividas de cada dia em mim.

Ser poeta é saber significados ocultos, palavras, tumultos, que os ferem a eles mais do que a nós. É dar nós em pontas de facas. É ser esmoleiro, alarde, aldrabão.

Ser poeta é ser vendido às coisas do havido. É ser poeta repetido e reclamar uma invenção.

Ser poeta é tanta coisa sem saber se é pouca, se muita, se tanta, se coisa alguma. É andar perdido e gostar-se de lá estar.

Ser poeta é fazer más rimas, é criticar em palavras finas as finuras d'outros que tais.

Ser poeta é soltar ais. Ais que não são nossos, dores que não podemos haver.

Ser poeta é tudo isto, é pior ainda talvez. É uma história nunca finda, viagem morta de vez.

Que'é ser poeta não sei. Não sou, não quero, não posso. Falta-me o orgulho moço de por dados a rolar em mim.

Por isso te peço bela dona não me chames poeta ainda que em tal palavra finda dar-me meu triste fim.

Criar ou O desespero do acto e da palavra

Criar.

É ainda o peso aterrador da palavra que me assusta, que me ausenta. O medo da palavra que me atormenta. Quedo, imóvel, instável, cruzo no tempo do instante a possibilidade da palavra,

Criar.

Enlaço, engano, enredo. É uma fonte de fictícias ilusões abstraídas obtidas no momento mais desesperante dos momentos, o momento errante. Errando, escrevendo, criando, temendo.

Criar.

É ainda o peso aterrador da palavra que se alevanta para o levante de inesgotáveis invenções que a palavra há-de guardar.

Lembrança do Verão

Já não é mais a tarde,
Mas a memória da tarde.

Já não é mais a música,
Mas a memória da música.

O espaço de recordar. Vivo talvez para a lembrança.

Ando perdido entre o que foi e o que me fica.
Entretanto apenas recordo.

Embaraço das horas
Contadas sendo vividas ou lembradas.
Quem sabe para que se vê?
Se para viver se para lembrar.

Já não é mais o cheiro,
Mas a memória do cheiro.

Já não é mais o Verde,
Mas a memória do Verde.

Lembro o tempo vivido
Até que o tempo vire para o viver.

Vivo para a lembrança. Talvez.

A dança dos mosquitos

O silêncio imenso da noite é quebrado pelo zumbir tremeluzente dos mosquitos. Em cada quarto cada um prepara uma orgia de sangue. É irónico que nos comam enquanto sonhamos.

Enquanto espero o fim das férias

Já não estou,

Ou por outra
Estou mas não fico.

Agora só anseio por lembrar.

sábado, agosto 25, 2007

Tarde de Primavera numa sala de retratos

Para o Ricardo Proença que me pediu uma coisa assim.

Há uma sala velha. As paredes estão pintadas de novo. Creme. Em tempos foram cor-de-rosa. No pequeno sofá semi-curvo e de canto, que também é rosa, as molas saem por debaixo do acento. Um número pouco certo e certamente alternado de almofadas esconde o que falta. Guardam em si desenhos a ponto cruz da vida oriental. Buscam conforto em coisas que não existem. Há duas senhorinhas: uma ao lado do sofá, a outro no outro canto da sala. Há também cadeiras. Tudo é rosa e tudo tem as molas a sair.

Na senhorinha do canto da sala está sentada uma mulher mais ou menos velha. Tem os cabelos longos como as suas pernas e um vestido de veludo púrpura cobre-lhe os pés como um mar. Os cabelos debatem-se entre o louro e o branco evidente. Tem de volta do pescoço um fio de lã. Faz crochet. No sofá há uma velha realmente velha. Magra, cadavérica. Os braços, que são ossos, estão destendidos sobre o sofá. Usa um vestido leve de flores. Ao piano, que fica na outra parede da sala, uma criança de dez anos toca uma sonatina furiosa. Tem os cabelos em ouro, molhados e ondulados e veste um fato de banho. Toca com uma calma complacente, mas a música que sae do piano é imensa.

A sala é pejada de retratos antigos a preto e branco. Nos dois maiores uma senhora e um senhor olham-se e cumprimentam-se. Não têm braços com que se tocar. Lamentam-se. Noutro decorre um piquenique. Uma rajada de vento ameaça fazer voar os chapéus de pluma das elegantes senhoras que seguram os chapéus com uma mão e as saias com a outra. Um rapaz de fato à maruja olha curioso para as saias das primas. O bebé que está no outro retrato cai e chora por uma mãe que não lhe pode valer, por não existir naquele mesmo espaço. A noiva do retrato pequeno rasga o vestido contra a mão imperiante do marido complacente e espectante. O comendador assusta-se com o bolor que já lhe come as pernas no seu retrato.

De súbito, a mulher mais ou menos velha suspira:
- A Primavera outra vez.
A velha do sofá parece despertar por um segundo para voltar a ficar absorta outra vez. As figuras dos retratos descobrem-se. Cumprimentam-se, parentes que não se veem há muito tempo. Talvez há tempo demais. O bebé pára de chorar vendo a mãe e o pai que lhe vão fazendo caretas que divertem todos. Todos riem. As três mulheres na sala não estão ausentes, mas distantes da cena. Permanecem. Trocam-se estórias, anedotas de salão e novidades de coisas que podem ter-se passado há um século.

A Primavera entra pela sala. As cortinas brancas tornam-se imensas até cobrirem tudo. Há o silêncio. Um silêncio feliz de quem viveu muito.

As cortinas retornam. A sala continua velha e pintada de novo. A criança terminou a sonatina. Já nenhuma das três tem um ar fantasmagórico e já não existem cabelos estendidos até ao joelho. Uma mulher de sessenta anos bem passados põem a mão sobre o ombro da criança:
- Vamos lanchar? Há refresco de maracujá, sussurra como um segredo.
-E a Titi, perguntam os olhos da criança num tom naturalmente subido.
-Adormeceu.
As duas contemplam a mulher nonagenária que dorme ausente no sofá. Saem por uma porta. A velha fica a dormir com a cortina esvoaçando.

Dentro de mim

Para o meu Pedro Miguel.

Há um recanto onde há palavras,
Tardes de segredo.

Em quantas manhãs esvaziámos boca e alma?
Quantas vezes nos percorremos um ao outro
Na busca do que o outro é?

Questionámo-nos ao longo das noites
Em rumos obtusos de significados
Como músicas sussurradas em lábios
Que encerram dentes cerrados.

Perdi-te, achaste-me. Foi ao contrário
Também.

E agora há um dia em que estamos parados na elegância
De Lisboa,
Há uma mesa de café verde e há as nossas mãos
Que nos desenham entre as nuvens de Monet.

Busca-me até ao Tejo,
Dentro de ti
Como tu estás dentro de mim.

quarta-feira, agosto 08, 2007

Conto de Servília (1ª parte)- Corpus et Verbum

O conto de Servília baseia-se na minha leitura de As memórias de Adriano de Marguerite Yourcenar. Não tem assim nada de original na sua essência. Contudo, também não foi minha intenção plagiar a autora. O que aqui se apresenta é o resultado do acto fenomenológico da escrita.

Maruliano meu avô acreditava nos astros. Gastou os últimos dias de uma vida calma perdido no seu observatório achando pela primeira vez para si astros que outros haviam encontrado. Foi nesses anos de criança e com Maruliano que me apercebi da importância de descobrirmos em nós mesmos aquilo que já outros descobriram. Só aí é que as coisas passam a ser verdadeiramente nossas. Foi debaixo da sua capa que encontrei o mundo que ficava do outro lado do portão da nossa villa. O mercado era o centro buliçoso da cidade e como todos os lugares de negócio era interdito às mulheres. Só àquelas que não podiam traçar os seus antepassados até épocas longínquas é que se permitia perderem os dias atrás de uma banca qualquer. Mais tarde apercebi-me da diferença entre quem compra e quem vende: o vendedor pode até exercer uma certa pressão sobre o comprador, mas quem vende precisa desesperadamente mais de quem compra do que o contrário. Esta verdade revelou-se-me ao longo dos anos nas caras dos muitos mercadores que encontrei pelos mercados onde estive.

Não sei se alguma vez acreditei nos astros. De resto, isso foi de pouca importância no correr da minha vida. Era mulher demais para me dedicar à astronomia, era patrícia demais para me perder na astrologia. Encontrei-me em outros campos. O meu corpo foi o primeiro e o mais importante. Nunca fui capaz de amá-lo porque nunca fui capaz de entender essa filosofia que encontra no corpo um ser ao mesmo tempo estranho e íntimo, companheiro de jornada, exterior a nós mesmos. Só os homens podem amar os seus corpos porque só eles podem procurar a sua ascese. As mulheres não têm tempo para isso. A sua sobrevivência insiste num jogo diário que decide quem ganha e quem perde, quem continua e quem cessa de existir. Ao meu corpo domei-o sempre sob jugo forte.

Adriano, meu primo, amou os corpos nessa profundidade filosófica. Encontrei sempre beleza nas suas palavras, mas já não fui capaz de a reconhecer nos corpos que teimava em divinizar. Adriano, meu imperador, gabou-se de ter melhorado a vida das mulheres. Nunca lhe censurei esta vã-glória. Era a sua condição natural de homem e não algo que ele pudesse contornar que o impedia de ver o breve alcance das suas leis. Também não tentei explicar-lho nas muitas cartas que trocámos. Não é para o mundo dos homens perceber o mundo das mulheres. Os homens andam por estradas longas e abertas, as estradas com que construíram o mundo. As mulheres movem-se por becos tortuosos, quase sempre sem saída. Tão tortuosos que atrevo-me a dizer que é mais difícil morrer velha e patrícia em Roma que velho e imperador. O casamento e a minha partida para o Lácio trouxeram-me a certeza de que não há lugar para as mulheres no mundo que é Roma. Mesmo as grandes patrícias devem nascer sob a sombra paterna, viver sob a sombra matrimonial e morrer sob a sombra dos filhos. A glória que foi reservada a algumas não foi senão o resto da glória dos homens a quem se ligaram e que tantas vezes ajudaram a construir.

Foi esta certeza da minha dificuldade de mulher que me fez olhar para o meu corpo. Tirei dele tudo o que ele me pôde dar. Tive a sorte, mais que a inteligência, de ter tido olhos sempre tão claros como os espelhos que me reflectiam e vontade de me ver neles. Soube pesar o tempo em medidas tão exactas que pude usar o meu corpo consoante cada época que a vida me trouxe. Na minha juventude levei-o em jogos perigosos de sedução em que se promete nada, perde-se muito e compromete-se tudo. Mas soube orientá-lo bem nos sentidos que me interessavam e não houve homem, enquanto a minha pele foi fresca, que me tenha resistido. Cedi poucas vezes às tentações do corpo. Talvez tenha sido o bocado de estoicismo que me sobrou da minha educação: não aceitei nenhum senhor, nem mesmo esse. Lamento-me, no entanto, dessas fraquezas que me seriam breves de esquecer não fosse a imensa vergonha que me trazem. Essas são as cicatrizes do meu corpo.

Hoje tenho a certeza, que também já esboçava na altura, de que o meu corpo foi o meu melhor aliado político nas poucas ambições que tive com o meu marido. Achei sempre extraordinário que duas criaturas que nutriam uma profunda indiferença uma pela outra se entendessem tão bem na política. Talvez porque ele tivesse a masculinidade necessária e eu o conhecimento induzido dum mundo tão parecido com o das mulheres. Não acho que seja por acaso que a palavra política é feminina. Tivémos os dois uma ambição medida e sem grandezas e sobretudo uma consciência clara da nossa posição enquanto primos do imperador. De quase nada valia em Roma o nosso parentesco com Adriano a não ser para nos granjear inimigos que quase nunca conhecemos em aberto, mas contra os quais tivemos que lutar até ao fim da vida. De resto, em Roma nunca conheci diferença entre ter-se a cabeça a prémio ou ostentar-se o título imperial.
Talvez esta fosse uma razão secreta para Adriano ter estado tão pouco tempo em Roma, perdido nos seus ímpetos criadores. Ou talvez porque foi o primeiro homem a aperceber-se que Roma era já todo o mundo aonde chegavam as estradas e o latim e não mais essa capital, em tanto já decadente, que agonizava longe dos seus adorados Júlios e Antónios, esses patrícios que traçavam as suas ascendências além da realeza até aos casamentos celestes. Não havia lugar na Urbe para os imperadores nascidos de homens. Esses tinham o seu lugar nas estradas que saem das sete colinas a construir o mundo novo. Adriano soube-o melhor que outros.

Os meus receios políticos ligaram-me desde o início a Plotina, a imperatriz de Trajano, e a quem Adriano me recomendara. Quando a conheci Plotina vivia já nessa casa pequena onde morreu à margem da cidade e à margem da vida. Trajava nos seus véus de luto a única soberba que lhe conheci: a de ser uma matrona romana dos tempos da Respublica. A sua vida marginal não fez dela na sua viuvez, no entanto, uma mulher desatenta do mundo. O espaço da sua casa tinha o tamanho dos seus aposentos no palácio imperial. Confessou-me mais tarde que isto não se devia ao acaso e menos ainda à humildade: este era o espaço preciso em que se habituara a governar. Com Plotina entrei realmente no mundo das mulheres. No mundo das mulheres encontrei os limites do meu corpo e aprendi com dura facilidade que o que nos ganha o mundo dos homens perde-nos quando o mundo passa a ser no feminino. O nosso não é um mundo de corpos, mas da palavra. O mundo das mulheres é o mundo da palavra. O dos homens o mundo das palavras. Os homens, que são senhores do tempo, podem perder-se na busca ascética que cada palavra encerra num significado único que a singulariza e a torna ao mesmo tempo distante e próxima das outras palavras igualmente únicas. Para nós, que vivemos de bocados de tempo, cada palavra encerra o significado do universo. É preciso ter a atenção das mãos que vagueiam pelo tear na escuta das palavras das mulheres. As suas palavras são um código antigo de múltiplos significados em poucos significantes. O instante da palavra mal entendida pode deitar a perder o mundo de uma mulher.

segunda-feira, agosto 06, 2007

Versos pouco inspirados para os dias de férias

De mar e ondas, novas verdades.

Intensos caminhos, rios,
Riscos corridos sobre as ondas
Da manhã que tarda em chegar.

O dia começa às onze
Com o corpo estendido sobre a cama.
O sol existe na extensão da alvura
Dos meus lençóis.

As coisas gozam uma existência
Calma, cálida, breve,
Temperada.
O tempo é medido em proporções diferentes do ser.

Existimos de outra maneira.
As tardes são como os avessos de nós mesmos.
Longos instantes sobre o calor abrasador
Em que o nosso mundo vive
Das praias onde as horas nos permitem chegar.

De mar e ondas as noites,
Com cheiro de sal e coisas das ilhas.
A elegância dos turistas passeia-se
Nos múltiplos promenades das ruas.
São festas de vestidos brancos e ondulantes
Com encantos musicais
Que se pode dizer surgirem dentro de nós.

De mar e ondas e cores
Os sonos, os sonhos,
Vagos, distantes, confusos,
Linhas blândulas, obnubiladas,
Existências vagueantes, calmas,
Plácidas.
Segredos de agora, depois,
De amanhã, de outros dias.

De mar e ondas os tempos...

sábado, julho 14, 2007

Poema de Pedro e Catarina

Dizes-me noites de poemas magoados
Para que eu os entenda.

Vive em ti um mistério confuso
Como se de uma vez duas árvores nascessem enroladas.

Procuro chegar-te nas calmas completas
Das tardes de praia
Quando em Julhos soalheiros
O teu corpo cabe debaixo dos meus braços.

Perco-te tantas vezes
Nas horas confusas que te assombram
E te levam em demandas de cabelos soltos,
Cavalos largados ao largo de chãos infinitos.

Hei-de saber esperar-te.

Nas horas do consolo
Eu me acalmo
Para que haja paz
Em teu estar confuso
E magoado de viver.

Envolve-me em teu corpo,
Prisão dos cheiros que de ti me prendem.
Sou teu chão onde plantes alicerces
Fundos como a profundidade
Dos momentos em que de súbito és minha.

Porque eu quero-te,
Quero-te além das palavras.

segunda-feira, julho 09, 2007

Poema dum operário que perdeu a esperança num dia de pouco mar

Quase nada
Um resto de pouco

Um viver adormecido
Sobre o cais de amanhã

Pouco pão
Pouco sol
Muita luta

Braços molhados
De longos mares outonais
Corpos caidos de cansados
Que sobram
O Mundo,
Uma existência triste,
Enrolada em tiras
Do seu cabelo espalhado ao vento

quinta-feira, julho 05, 2007

Diz ao mar que passo

Não disse ao mar que passava.

Em quantas luas me esvaí?

Prados que se arrastam
Pela infinidade lenta
Da terra fecundada.

No suor dos dias de trabalho
O labor burila as horas.

Eu perdi-me em que durantes?

Os pés escavam na areia
Palavras que diga
Amanhã,
Depois do tempo.

Mas não disse ao mar que passava.

quarta-feira, junho 06, 2007

Segredos dos amantes escondidos

Para I. e A., até que chegue a Setembro.

I
Na noite quente das amoras
Escrevo-te.

Vê que há uma liberdade
Só nossa na noite.
É nosso aquilo que
Só nós conhecemos.

As minhas mãos escorrem
Pelas paredes brancas da casa.
É como se te acariciasse.

Vivo nas palavras dos segredos
Escondidos,
Guardados nas horas dos
Recantos onde desenhamos
As hipóteses dos primeiros beijos.

Amo-te como se ama o
Fim da tarde:
Ao fim de um longa espera.

II
Falo-te na manhã fresca dos frutos.
O cheiro inunda agora
A casa
Com os nossos segredos.

Compomos um tesouro feito
De palavras não ditas.
É uma música que dança
No silêncio provocado
Dos nossos corpos.

Ardo por te encontrar.
Que as minhas mãos
Sejam os meus olhos,
Aranhas que traçam
Teias sobre o teu corpo.

Desenho-te no espaço
Ensaiado das horas
Em que te espero

Permaneço. Anseio-te.

terça-feira, junho 05, 2007

Homero talvez

Homero talvez,
Um encanto de fim de tarde.

Ilha grega:
Teu corpo,
Minhas mãos.
Intenções.

Repouso a cabeça
Sobre o teu peito,
Hora dos ritos.
Construção das tardes
Iniciáticas
Dos nossos dias longos.

Árvore,
Homero talvez.
Palmeira de Delos.
Fruto, sonho.

Mergulho.
O mar é mais azul
Quando se guarda o Mediterrâneo na boca.
As tuas mãos seguram os meus
Tornozelos.
Nado.
Busco a unidade.

Ânfora, coisa d'alma,
Homero talvez.
O encanto de um
Pateo branco
Sobre um porto
Breve.
Recriação,
Começo,
Cais.

Partimos.
Viagem incessante
Das mãos.
Altar.
Teu corpo, terra de
Imolação.
Primícias.

O vento vem do mar
Leve, forte,
Preciso.
A casa constroe-se
Na luz das suas janelas.

A minha alma é branca
Como as partes que
Conheço do teu corpo,
Homero talvez.

Dizes noite.
Música.
Os teus pulsos seguram
Os meus.
Levanto-me.
A força dos meus braços
Ergue-me acima da
Materialidade das coisas vivas.

Espanto,
Homero talvez.
Vinho, vinha, vento.
Barco, branco, breve.
Mar Mediterrâneo.

Desafogo.
Teus olhos,
Terras de oliveira.
Doce labor dos azeites
Que me escorrem pelas mãos
Na tarde das aranhas.

Orégão.
Trinco os frutos verdes
Da areia pedregosa.
Sal.
Há uma saída
Além nas grutas,
Homero talvez.

Ulisses, Aquiles, Heitor,
Minha Tróia feita
De muros caídos.
Anseio constante
De estrada que sobe.
Soneto medido na
Perfeição do templo.
Minha coluna dórica,
Meu espaço idílico,
Centro de mim.

Projecto fabrico
Real festa enfeite
Vida,
Homero talvez.

Mesa de estudo

As horas não te trouxeram:
Levaram-me.

O tempo não perdoa:
Ditador.

Ficam as minhas palavras,
Já soltas,
Perdidas.

Encontra-as, acha-as
E fala-me delas,
Espantos que me digam coisas
Do cair da noite.

sexta-feira, junho 01, 2007

Desabafos literários ou O milagre da criação das coisas exteriores a nós

Não tenho encontrado tempo para escrever, mas apetece-me muito. Talvez eu não saiba investir tempo. Escrever é como ser artesão e dedilhar o tempo com as mãos. Eu com certeza perdi essa noção vagarosa do tempo, perdido entre as coisas que no meu tempo levam as pessoas a perderem-se. Vamos chamar-lhe futilidades. Eu prefiro ilusões breves, mas talvez sejam na verdade futilidades.

A cidade traz-me muitas vezes o que escrever. Se o Tejo não se esgota de água também não me esgota a inspiração. Vão nascendo dentro de mim. Muitos morrem. Aprendi tarde, mas bem, que escrever é ser Deus, logo é um acto blasfémico. Não devíamos poder escrever, a escrita aproxima-nos da criação e logo de Deus. E Deus não deve estar próximo, mas presente, ainda que de esguelha, naquilo que escrevemos.

Esta aura de criação e de criacionismo que envolve a escrita seduz-me como uma bebedeira de licor de chocolate ou como um Domingo de sol passado na Pena. Viajo várias vezes ao passado para criar. Algumas ao passado de mim, muitas ao passado dos outros. Os outros são sempre mais interessantes porque os seus segredos são confessáveis. Os nossos nunca!

Andam por aqui algumas personagens. Felizmente são poucas e dão-me o trabalho que me chegue. Tenho sobre elas uma visão completamente paternalista e isso já não me incomoda. Não são minhas: são eu. São parte intrínseca de mim, foi de mim que as arranquei. (Ainda que tudo isto surja como um cliché, os clichés também se sentem). Ando é com falta de vestidos no armário para elas. Têm andado nuas e ainda assim parece-me que passam bem. Lamento é quando elas ainda são disformes ou quase nada. Por vezes surje serem assim. Elas pedem-me muitas coisas. Nem sempre acedo.

Estou constantemente fascinado comigo próprio quando crio ou penso criar. Descobri-me. É um processo pouco modesto e quase sempre arrogante. Algo em contrário foge à verdade. Ao real foge-se sempre quando se cria. Mesmo para depois retornar. Há saídas nos movimentos fenemenológicos e a composição das letras, que constroem a composição das personagens, é talvez a maior das divagações.

Mas para tudo é preciso tempo. É uma certeza bíblica que o Eclesiastes nos garante. Quem me dera saber tecê-lo. Talvez me faltem Ulisses que me ofereçam tempo mais do que amor. Lá fora, felizmente, ainda não deixei de me deslumbrar. Lá fora. Quase tudo é lá fora. Mesmo quando é cá dentro. Fenemenologias da escrita. Hei-de ser artesão. Mais tarde, quando houver tempo. Por agora nascem pelas ruas, sedes das igrejas onde Deus sou eu.

segunda-feira, maio 21, 2007

Anseios de Lisboa ao fim da tarde

Para a Raquel Lemos, a Ana Ferreira e a Migui Carvalho-Salgueiro.

O rio passa lento
Sobre o meu corpo.

Deixei-me afogar
No mar de gente
Que povoa o fim da tarde
Entre as ruas.

Algures as vidas passam
Em minha volta.
Levam o encanto de viver em Lisboa.

Cidade/rio,
Descanso primaveril,
Cavalo, palavra, cerca em aberto.

Grandes arcos
Arqueiam ideias.
Suspiros vagos,
Vivos,
Corpos esperando a
Cidade.
Anseios.

O Sol ainda existe
Atrás das casas.
Amarelas as casas
Nos raios de sol,
Janelas brancas de Lisboa.

Olhar com que se ama o rio,
As janelas,
As pessoas.

sexta-feira, maio 18, 2007

Jogo das coisas ao longo das ruas de Lisboa

Espera pelo fim da tarde, há uma magia na luz que traz. Guarda os olhos bem abertos para a veres.

Lisboa dir-te-á um poema, um consolo, ao ouvido, de mansinho. E há uma sala fresca na elegância dos apartamentos do Saldanha. Lá dentro a tarde escorre pelas paredes brancas da casa. O poema constrói-se em cada divisão: da casa, do corpo, de ti. Uma música chega-nos e o cheiro intenso da cozinha impregna o ar. É o cheiro da vida que chega do pateo de trás. A vida passa-se aí, nos pequenos recantos dos prédios de Lisboa. O cheiro traz-te leves recordações de infância como os acordes de um perfume. A vida é um jogo de peças modeladas pouco a pouco.

Com o fim da tarde tu esculpes a memória até daquilo que ainda não aconteceu. Perdes-te algures nos corredores brancos da casa. Ligeiramente à deriva. Tudo te leva à porta, à rua, à vida. Procura uma esquina do Chiado que te agrade. Saberás dizer que restos aí sobram da vida das pessoas? Para e constrói. Olha atento a vida que desfila à tua frente como uma tela de museu. Há seiva nas coisas, nas pessoas. Nada é estático. Tudo é estético. A vida consumida na elegância de se viver.

Vai. Algures além dum arco Lisboa oferece-se a quem a sabe ver. Algures alguém há-de morrer na cidade. São ainda as peças do teu jogo que se resolve pouco a pouco. Agora deixa-te guiar pelas palavras, ruas secretas, escondidas, oferecendo a possibilidade de sol. Afinal, tu andas contra o fim da tarde. O sol ameaça por-se. O jogo resta por terminar. Tu não descansas. Os olhos continuam deitados sobre as coisas que te envolvem. Buscas a estética perdida das coisas. Crias elos em cadeias que começam a fazer sentido dentro de ti. Quase tudo é natural, como o espanto das coisas sobre elas mesmas.

Lentamente a fadiga acorda-te: as pessoas não param de existir. Quantas peças já recolheste? Agora sabes mais da vida das gentes do que elas mesmas. Tens algo que elas não têm: a atenção por sobre o que passa. A estrada oferece-se longa. Mas é preciso continuar. Entregue às sombras que agora tomam os bocados de todos os recantos não te entregues. Continua. Hás-de chegar à porta da casa. Lá dentro a noite instalou-se. O poema continua a dizer-se ao longo das paredes brancas, é Lisboa que se canta. Senta-te. Espera de mansinho que as palavras que agora moram em ti se venham dizer.

quinta-feira, maio 10, 2007

Os amores da filha do marquês ou Gentil despedida experimentada em rimas

Encanto guardado com graça,
Recato primaveril.
Espanto de tudo o que passa
Em seu viver juvenil.

Cabelos loiros voando,
Vontade amarrada ao cais.
Idos de quem vive amando,
É uma aristocracia que vai.

Talvez regresse na vinda
Tal belo e jovem inglês.
Talvez seja uma história finda,
Os amores da filha do marquês.

Mas espera ainda, gentil dona,
Que em esperar há bem razão.
Pois por certo que a este cais torna
Quem naquele barco te leva o coração.

sexta-feira, maio 04, 2007

Kirsten Dunst


No recentemente estreado filme Homem-Aranha 3 há apenas uma coisa que vale mesmo a pena ver: o desempenho de Kirsten Dunst.


Na sua beleza encantada de mulher petite Kirsten mostra-se mais uma vez como a actriz das pequenas coisas. Nela guardam-se os pequenos sorrisos do quotidiano e os gestos leves que desenhamos sem pensar. Se ela os pensa ou não, não sei e tão pouco me importa. Ela encanta-me e é isso que eu busco nela. Não admira portanto que a actriz seja um dos fetiches da brilhante Copolla que busca precisamente as pequenas pequenezes do quotidiano. E é toda uma naturalidade que nos apresenta em Marie Antoinette (até hoje o seu mais genial desempenho) que continua a oferecer-nos em Homem-Aranha 3 apesar de todas as limitações oferecidas por Mary Jane Watson.


Verdade que Dunst está ainda longe do brilhantismo. Falta saber transpor a sua naturalidade das pequenas coisas para aquelas maiores. Ainda teatrais restam muitas das suas cenas de choro e dor ou de profunda paixão, um cliché americano que acredito seja difícil de largar para qualquer actor. Mas Kirsten lá vai guiando a sua carreira com cuidado, como a delicadeza dos seus gestos, escolhendo um filme aqui e outro ali, ora mais comercial ora menos. Eu continuo à espera que ela me continue a surpreender!


(Não deixem de ver, se ainda não viram, O Sorriso de Mona Lisa e Marie Antoinette, as suas duas melhores actuações)

domingo, abril 29, 2007

Crescendo

Sabes quantas voltas há no recomeço?

Passeiam por mim as horas incontáveis

Enquanto espero viver
Segundos que não acabem.

Reescrevo o sentido da vida.

As águas trazem-me de volta.

Digam-se as palavras:

Pedra, planta, fruto.

A tarde aquece-me
Com inspirações de verde.

Agora busco as ruas
Por onde deves ter perdido a minha poesia.

Lembra-me para não te voltar a dar
Intimidades.

quarta-feira, abril 25, 2007

Poema da espera

Não sei mais que te diga

A não ser esperar por ti

Até que a tarde vire noite.

Amando-nos

Dá-me palavras, segredos, espantos.

Enlaça-me em teus cabelos, cavalos soltos.

Encantos distantes, valsas.

Teu corpo, bocado de terra, país.

Meu corpo, descanso e casa.

Acasala.

Murmúrio, meu ouvido,
Secreto, suspiro.

Inspiro-te,
Teu odor leve,
Tua força bruta,
Tuas mãos,
Tua virilidade tão ferida e aflorada.

Desinquietas-me,
Enfrentas-me.

Nosso amor não é algo sossegado,
Não tem lago,
Nem água.

Destreza das tuas mãos
Prendendo as minhas.

Eu rendo-me,
Tu entras-me.

Quietos
Respiramos.
Os corpos violentos
Inclinam-se, lutam-se,
Perdidos, onde (?),
Ficamos
Amando-nos.

Mediterrâneo

O poema diz-se enquanto a tarde se instala
Através das paredes nuas da casa.

A média-luz do início faz-nos lembrar
Que o branco
É um estado mediterrânico de ser.

O corpo do mar é longo e calmo
E repousa sob o sol
No pátio quadrado da casa da ilha.

Há algures o cheiro novo dos orégãos
E do azeite.
Nas ânforas guardadas na rua
Restam as esperanças antigas
Do dia de amanhã.

As aranhas trabalham desafogadamente,
Enquanto vem a tarde,
No seu labor de séculos.

O sumo das laranjas frescas
Refresca-me.

Tudo é natural e bom
Na tarde branca e fresca da ilha,
Como se as coisas vivessem
Espantadas de ser elas.

Lar antigo dos deuses,
Pátio da eterna recriação,
Viagem à Hélade antiga
Em busca de algo que perdemos
E não conseguimos lembrar,
Memória das tardes brancas do sol.

segunda-feira, abril 16, 2007

Poema do homem bucólico

Às angústias que nestes dias me angustiam.

Ligeiros chegam os fins-de-tarde de Abril
E trazem consigo os primeiros crepúsculos do ano.

Abril fala-me sempre da Primavera,
Dum chão novo
Que os deuses renovam para nós.

Tu és como as manhãs calmas de Sol
Ouves atentamente o que eu digo
Como se as minhas palavras fossem de beber.

Bebes os sonhos que te conto
De coisas distantes que encontras nos momentos
Escondidos das tardes e das flores.

Tu és como o riacho manso e de água doce-
Corres devagar, mas sabes por onde andas
E para onde vais.

Tens uma sede de coisas maiores
Que procuras sofregamente
Saciar nas minhas palavras.

Não percebes que todas as minhas palavras
Cabem em ti;
Em ti onde me esgoto, onde me começo,
Onde me renasço.

Súbita Primavera constante,
Que toldas minhas tardes de uma alegria
Feita de gestos simples e certos,

Como desenhos de crianças quando chega o Sol,
Breves e duradoiros reinos de luz.

Não sabes que sabes das cores
E das coisas que elas ensinam.
Tudo em ti é tão natural e simples
Que não te permites pensar,
Mas apenas viver as coisas,
Os dias,
As horas.

Sabes apenas que queres mais,
Assim como eu sei que te quero a ti.

quinta-feira, abril 12, 2007

Peter Pan

A mim.

Wendy: "Acabaram-se as tuas aventuras, rapaz!"

Peter: "Não! Viver é ainda a maior das aventuras!"

quarta-feira, março 28, 2007

Prenhes

É ainda possível dizer que é tarde?

Já lancei os dados, mas algo
Continua a rolar incesantemente na minha cabeça.

Começo a ficar prenhe de ti.

O teu mundo é natural e verde
Como as tardes de junho que espero nesta primavera
E trazes em ti segredos solares.

Eu sou feito de betão,
Tenho alma de cidade
E no peito uma insensibilidade que o prova.

Tu moras algures dentro de mim.

Procuro-te por dentro,
Não te acho,
Mas sei-te e
Isso é um tormento.

Vives na minha sombra
Mas levas mais luz que eu.

Não tenho nome que te chame
E se chamasse
Não virias.

Vives além das palavras ditas,
Vives num chão de terra cultivado
E colhido nas primeiras chuvas de setembro.

Pudesse eu ser fértil como tu!

Assim saberia como se constrói uma vida
E quantas gotas de suor fazem
Um dia de labor.

Tu sabes do chão,
Eu sei do mar.
Tu és dos meus olhos verdes
Mas eu ainda não tenho lugar em ti.

Quando chegar a noite
Pede ao teu corpo
Que se emprenhe de mim.

Rememoriar



São elegâncias passadas que raramente nos visitam. Tardes de sol e corpo molhado entre os banhos na praia e os lanches na sala antiga. Memória de uma infância guardada no zelo das primeiras horas e constantemente revivida, reinventada, readquirida. Nomes ditos de cor pelo prazer de chamar os que já não estão, mas que ficam sempre. Tardes de um Agosto distante que, espero, chegue depressa.

O nu de Radcliffe e as suas curiosidades



Com tanto falatório em torno desta polémica do jovem Radcliffe aparecer nú nos cartazes de propaganda da sua primeira peça (bem como na peça em si), não quis deixar de deixar em nota o que acho.

De facto, o nu é um fenómeno curioso. Usei durante muito tempo no MSN uma imagem de Gale Harold e Randy Harrison (Queer as Folk, the american series) representando as suas personagens, Brian e Justin, em pleno acto sexual. Confesso que o fiz por pura provocação e que obtive o resultado desejado. No entanto, esse mesmo resultado não passou de meia-dúzia de comentários mais ou menos bem-humorados sobre a dita imagem. E porquê? Porque ainda que ambos aparecessem nus e simulando o acto sexual apenas se via o bem torneado rabo de Gale Harold.

Descobri na net há relativamente pouco tempo as fotos para a propaganda da peça "Equus". As fotos são, em meu ver, de uma beleza extraordinária, com um jogo de luzes muito bom e uma brilhante encenação estética, com o jovem Daniel num ar de fria masculinidade anglo-saxónica, algo que quase poderíamos chamar de agressividade elegante e delicada.

Ora, quando tomei posse desta foto que apresento passei a usá-la no MSN, pelas razões referidas, porque me agrada o pequeno e porque sim! Pois agora não há pessoa que não critique a dita foto. E porquê? Porque é um nu!

Descobri que podemos servir-nos da pornografia na net e seus afins desde que não se vejam genitais.

Para aqueles que conseguem ver além dos desnecessários pudores fica uma foto belíssima.

domingo, março 18, 2007

Uma vez numa tarde de Domingo

Fui lá beber palavras
Encantos sonhados,
Vividos.

Sou cheio de espanto!

Aprecio estes recantos
Guardados, escondidos,
Segredos da tarde
Em meus pés cansados
De passear ao Domingo.

Tardiamente me encosto
Recostado nas letras
Seguro, secreto,
Criando as palavras
Ofício continuo,
Enquanto nos teus livros,
Cabaças,
De lento bebessem as Áfricas.

quinta-feira, março 08, 2007

Conto de Gustavo-II

Para Daniela Brigue Varela, que sente como eu. Para Filipa Tereno Nunes, que me lê como uma transparência. Para Maria Ribeiro Braga, cuja extraordinária beleza e tocante delicadeza me inspiraram.

O trânsito não avança. O relógio do carro mostra 14:11. No visor do telemóvel que começou agora a tocar pisca o nome de Artur.
-Sim?
-Olha, falei agora com a tua irmã Teresa, por causa de vir cá deixar os miúdos. Ela disse que não tinhas passado por lá.
-Sim, é verdade. Acabei por não ir lá a casa. Se eu te disser onde fui zangas-te?
-Foste aos Penedos outra vez ver os teus fantasmas!
-Sabes que não gosto nada quando falas assim. Precisava de lá ir. Precisava de ver as coisas para sentir a ausênsia das coisas.
-Eu só não sei se com essa poesia toda tu precisas de te despedir das pessoas ou da segurança que essas pessoas te transmitiam.
-Olha, quando um GNR me mandar parar o carro queres que lhe peça um tempo para te responder, ou passo-lhe o telefone para ser ele a resolver essa tua dúvida filosófica?
-Espirituoso! Ainda estás nos Penedos?
-Não. Estou parado no IC 19. Acreditas que esta porra tem trânsito a esta hora?
-Eu não acreditava era se não tivesse trânsito!
-É verdade, Artur, tu não te importas mesmo de ficar com os miúdos?
-Não me importo nada Gustavo. Tu sabes que eu adoro ficar com os teus sobrinhos.
-Então está bem. Aquilo deve acabar lá para as cinco, cinco e meia. Passamos aí por casa depois para tomar qualquer coisa: eu, a Teresa, o Inácio e o Miguel.
-Vá então, beijo.
-Outro.

Havia sempre este conflito entre os dois: os Penedos. Desde que a avó morrera há menos de dois anos que Gustavo ia pelo menos duas vezes por mês aos Penedos, a quinta dos avós em Colares.
A quinta tinha sido mandada construir por um dos vários ilustres antepassados de Gustavo lá para meados dos século XIX quando Sintra, e por acréscimo Colares, se tornaram local de férias da Família Real e logo a zona chique de veraneio a par de Cascais. Agora, com os avós mortos, a quinta restava fechada e de certa forma abandonada, não por desmazelo da família, mas por dor, uma dor imensa que atravessava todos uma vez que para eles aquele lugar não existia separado da presença dos seus patriarcais donos. Era agora uma coisa quase romântica, uma ruína deixada ao acaso, mas carregada de memórias e de imagens. Gustavo era o único que se aventurava com tanta frequência para além do grande portão de ferro dos Penedos. O que ia lá buscar nem ele mesmo sabia. Dizia a si próprio que ia despedir-se dos avós e sentir nos móveis e nos objectos que ficaram a ausência daqueles que haviam partido. Mas ao fim deste tempo, e ainda que não o chegasse a confessar, tinha que admitir que Artur estava de certa forma certo. Mas não inteiramente. É verdade que não se conseguia desligar do conforto e da segurança que aquele lugar lhe oferecia, da maneira como o transportava para o tempo idílico da infância. Mas também, por outro lado havia tanta coisa para lembrar ali. Era tudo tão mais complexo e difícil do que aquilo que Artur punha em palavras. Estava tudo tão emaranhado dentro dele. Era quase como decidir por ficar com a melhor metade de um quadro e deixar a outra para trás- simplesmente não é possível, temos que levar tudo.

Abrir o portão era sempre um rito que o gosto teatral de Gustavo por estas situações tornava ainda mais magnânimo. Era um amor pelo exagero de certa forma escondido que Gustavo só revelava a si próprio nestas coisas e que só os mais íntimos, como Artur, eram capazes de ler nele. Seguia pelas escadas que davam à entrada principal. Entrar era mais do que voltar a casa, era voltar atrás no tempo. O seu amor pelo exagero e pela grandeza atraía-o para os grandes salões da casa. Abria logo as janelas, mas deixava as cortinas corridas para que fosse tudo a média-luz, na criação de um espaço que ele queria e sabia onírico. Na sala principal da casa parava muito tempo sentado numa das poltronas frente à lareira que tinha, um de cada lado, os retratos da avó e do avô, ela de vestido comprido, ele com o seu traje de cavaleiro da Jarrateira. Antes havia sempre um ramo de flores frescas que Jacinto, o filho do jardineiro, colhia no jardim de três em três dias e punha no grande jarrão setecentista que ficava em cima da lareira. A avó adorava flores. Gustavo adorava flores. E lá restavam nesse mesmo jarrão os cadáveres das últimas flores que Jacinto lá colocara antes da avó morrer. Para Gustavo representavam mais uma fantasia romântica daquela casa. Depois levantava-se e seguia para o grande quarto de jantar. Lá estava a grande mesa com os dois candelabros de prata escola da Flandres do século XVII. E Gustavo lembrava as estórias que o avô contava sobre as muitas viagens daqueles candelabros que tinham vindo lá da Bélgica, mas que acompanharam D. Jerónimo na sua estadia na Índia portuguesa e D. Teodoro durante o seu vice-reinado brasileiro, dois ilustres antepassados da família de Gustavo. As muitas cadeiras com os lugares sempre certos para os filhos e os netos e sobre a lareira o belíssimo espelho veneziano que a avó trouxera duma das suas viagens a Turim, onde o comprara num leilão. Mas apesar do seu amor pelas grandes salas era sempre nas mais pequenas que se sentia melhor, um gosto quase vitoriano pelo recanto. A sala de xadrez, toda em madeira num pesado estilo neo-gótico com os contornos da sua imensa janela retorcidos em figuras que tinham atormentado a infância de Gustavo, dos manos e dos primos. Ao fundo o grande sofá Luís XVI, uma mistura arriscada que só o extremo bom-gosto da avó fizera funcionar. Mas era para lá da sala de xadrez que estava a sala preferida de Gustavo: a sala de música. Pequena e rectangular reservava quase metade do seu espaço para o grande Erard de cauda de 1840. No resto os confortáveis sofás de aspecto chinês para os quais a avó mandara bordar inúmeras almofadas com representações do quotidiano oriental. Ao longo da das paredes de imenso pé direito repetiam-se fotografias a preto e branco dos mais variados elementos da família. Avôs de bigodes retorcidos a fumar cachimbo, tias com grandes chapéus de plumas, avós com pentados elaboradíssimos, meninos ainda bebés usando longos vestidos no dia do seu baptizado. Eram figuras fantásticas que tinham habitado a infância de Gustavo e de quem Gustavo sabia os nomes e os hábitos como se com elas tivesse vivido. Tinham-lhe nascido nessas horas mágicas do verão, entre as duas e as quatro, quando o grande relógio da sala de bilhar, ao lado, batia as três e o mundo semi-cerrava os olhos numa média-luz que nunca demorava muito. Tinha sido a hora dos afectos em que ele se sentava aos pés da avó, que se sentava num dos cadeirões e a ouvia contar estórias daquela gente que havia vivido no seu passado. Foi o tempo dos segredos e das intimidades onde se ataram laços de seda que Gustavo sabia ninguém ser capaz de cortar. Felizmente a avó restava ainda nesta sala presente no grande retrato que ocupava sozinho uma das paredes. Era a avó, a cavalo, com quinze anos na quinta dos seus pais na Chamusca. Tinha os cabelos loiros escorridos sobre o ombro direito e nos seus olhos claros brilhava um brilho de pedra preciosa que manteve ao longo da vida. A pele apenas ligeiramente queimada, como se nela a pele teimasse em permanecer para sempre naquela alvura delicada que tinha. Encantava-o a visão da avó, no seu ar de menina, vestida naquele fato de linhas tão direitas e masculinas, em que a sua beleza, que se advinhava já estonteante, quase que explodia dentro do fato. Afinal, Maria das Dores fora sempre, em todas as idades, uma mulher de uma beleza invulgar. Gustavo gostava de acreditar que havia algo de mágico no seu nome, nome que carregava num misto de orgulho e fardo e que se repetia na sua família há gerações quase incontáveis. Eram na verdade, gerações de Marias das Dores, sempre casadas com diplomatas que haviam passado o seu nome como se ele pudesse sustentar uma família. Nome que coubera à avó fazer repetir no futuro dando à luz uma outra Maria das Dores, mãe de Gustavo, que tivera também uma Maria das Dores, que por sua vez, há quatro anos tivera a mais nova Maria das Dores da família.

Depois, lá fora, estendia-se o grande jardim da quinta e mais além os terrenos continuavam, florestas por onde Gustavo e os primos aprenderam a andar a cavalo. Ficava sempre sentado no terraço a olhar a pisicina. A visão da água fascinara-o sempre e tinha o poder de o levar a um estado de meia-sonolência. Então era como se sonhasse com as primeiras tardes de Maio, com o abrir das rosas no jardim, e os primos todos de volta da mesa do terraço, de corpos molhados, a comer sandes e a beber sumo de laranja. Mais tarde com os outros verões chegaram esses tempos confusos, que Gustavo organizava na sua cabeça como o tempo de Martinho, em que a visão do corpo molhado e semi-nu do primo, na sua beleza e musculatura perfeitas de estátua grega o fazia descobrir os primeiros prazeres do corpo no quarto de banho do pavilhão da piscina. Era tudo ao mesmo tempo tão próximo e tão distante. Como se enquanto memórias tivessem acabado de ser vividas, mas enquanto vida pertencessem já a um tempo muito distante e muito antigo de que Gustavo tinha apenas uma ideia leve.

Quando deu por si tinha já chegado a Lisboa e levava agora o carro para o Príncipe Real onde a sua irmã Teresa lhe dissera que ia haver o leilão. Andava à meses aflitíssimo por causa deste leilão sem ter bem certeza do que fazer. Só sabia que tinha que vir. Parou a custo num lugar perto do jardim e ainda perdeu dez minutos à procura da galeria. Era uma zona de Lisboa que o encantara sempre, a praça do Príncipe Real. Morando no Rato preferira sempre aquele jardim ao mais elegante jardim da Estrela. Era como se ali, numa qualquer hora mágica à qual era preciso estar atento, ainda se conseguisse viver na Lisboa oitocentista. Mas agora não havia tempo para estes devaneios. Eram já três e dez e Gustavo tinha que lá estar um pouco antes para o sempi-eterno social.

A galeria ficava num desses edifícios antigos da rua D. Pedro V por debaixo do prédio onde Teresa e Inácio moravam. Aliás, tinha sido assim que os pais tinham descoberto aquela galeria. Desde a morte da sua mãe que Maria das Dores, a mãe de Gustavo, se fora aos poucos desfazendo de algumas peças que a lembravam dela. Eram sobretudo peças que tinham estado nos Penedos ou na casa dos avós em Campo de Ourique e que tinham passado para o casarão do Rato onde Gustavo crescera e onde moravam os seus pais. Mas quando a mãe decidira vender a Pietá quase que tinha ensandecido. Perder aquela Virgem era quase como perder a avó de novo. A Pietá fora sempre a grande confidente de Gustavo, aquela que guardava os seus segredos mais íntimos desde a primeira noite, quando, cheio de coragem, se esgueirou para espreitar Martinho e ela fora o seu único consolo. De certa forma, era um outro lado da avó a quem fazia as confidências que estavam para sempre proibídas à sua maior confidente que fora sempre a avó Maria das Dores. Discutira várias vezes com Artur se devia comprar a imagem da Virgem. Artur achava-a belíssima, mas de certa forma temia aquilo que ela representava para Gustavo e tinha mesmo ciúmes dela por saber que aquela Virgem guardava mais segredos de Gustavo do que ele algum dia iria saber. Em suma, tinha-se decidido que não seria Gustavo a comprar a Pietá.

Lá dentro a sala da galeria estava convenientemente aquecida com os ares condicionados, nada daqueles calores exagerados quase a roçar os trópicos que se fazia sentir na biblioteca da faculdade. Os frios rigorosos de Novembro chegavam agora apesar das tardes esplêndidas com que o sol decidira honrar Lisboa nas últimas duas semanas. Enquanto descalçava as luvas encontrou Teresa e Inácio.
-Então e o Miguel?
-Ainda não chegou.
-A Maria não vem mesmo, pois não?
-Não. Disse que achava que já era masoquismo a mais e que não aguentava mais nenhum leilão com peças da família. Eu vou-lhe ser honesta Gustavo, eu também não sei quanto mais é que aguento. A mãe teima em fazer isto aos bocados sei lá porquê. Parece que se anda a purgar duma culpa qualquer. Eu já estou como dizem os ingleses "a person can only suffer so much"!
-Sim, sim, é claro que tem razão, mas adianta falar com a mãe? E depois o pai com aquela filosofia de "nas coisas da sua mãe eu não me meto". Enfim... Por falar nisto tenho que ir dar um beijinho aos pais.
Num dos cantos Sebastião e Maria das Dores Lemos da Cunha restavam discretamente trocando algumas palavras. Maria das Dores agora sempre com um tailleur preto deixando escapar no pescoço um colar de pérolas brancas. No seu porte altivo habitual não era senão uma sombra daquilo que fora a beleza e a presença da mãe. Sebastião Lemos da Cunha estava muito direito, aliás como sempre, no seu ar de militar, esplêndido no seu fato italiano. Gustavo aproximou-se dos pais para os cumprimentar.
- Gustavo, a mãe pede-lhe mais uma vez, não vá fazer nenhum disparate! Não se atreva sequer a licitar a peça.
-Sim, mãe, já tínhamos resolvido esse assunto, não já?
-Espero que mantenha o combinado. Está ali a Amélia Brandão de Lacerda. Desculpem, mas tenho que lá ir cumprimentá-la.
Com a saída da mulher Sebastião afrouxou um pouco a sua pose sempre rígida para dizer a Gustavo:
-Agradeço-lhe tanto que venha, filho. Eu sei como estas coisas são difíceis para si, aliás para a família toda. Mas apesar da mãe não dizer a vossa presença dá-lhe uma grande segurança.
Gustavo sorriu. Era impresionante como o pai o continuava a espantar. Ninguém que não pertencesse ao núcleo mais íntimo da família seria capaz de perceber o marido dócil e atento e o pai extraordinário que Sebastião era por detrás da figura do rigoroso Coronel Lemos da Cunha.

Os pais sentaram-se à frente. Gustavo, Teresa, Inácio e Miguel, o marido de Maria das Dores que entretanto chegara, sentaram-se um pouco mais atrás. Gustavo começou a suar das mãos, sinal claro de nervosismo. Mal ouviu o homenzinho da galeria dizer que se ia licitar uma belíssima Pietá de artista desconhecido, mas certamente português, do século XVIII. A base de licitação era de €5.000. As licitações subiam, €6.100. As mãos a tremer. A voz do homem parecia cada vez mais irritante. A Pietá à sua frente como naquela noite. €7.650. De súbito, a voz calma de Teresa, a sua mão sobre a de Gustavo:
-Sabe que mais, borre-se na mãe.
Levantou-se de repente:
-Trinta e cinco mil euros!
E um alívio enorme percorreu-lhe todo o corpo enquanto se sentava. Estava feito, não se voltava atrás. Agora era só aguentar os sermões que se iam seguir ao olhar reprovador que a mãe já lhe lançara. Mas comparado com a alegria de ter comprado a sua Virgem isso era coisa de pouca monta. Resolveu o que tinha a resolver, levantou a imagem, despediu-se do pai e entrou no carro.
-Sempre vamos para sua casa, perguntou Teresa.
-Claro, então agora ainda mais. Ligue à Maria e diga que está intimada a ir lá jantar.

Gustavo mal viu o caminho que o levou do Príncipe Real ao seu apartamento na Andrade Corvo. Chegou eufórico, mal conseguindo esperar pela irmã e os cunhados. Teresa estacionou o carro.
-Agora é passar pelo Artur.
-Não, eu até acho que, de certa maneira, ele já sabe.
Entraram no belíssimo edifício dos anos quarenta. Foi Teresa quem abriu a porta.
- Chegámos, disse Teresa.
-Mãe, gritaram as crianças enquanto corriam para a abraçar.
-Entrem, entrem, respondeu Artur. Estava com os miúdos na cozinha a fazer umas tapas para agora. O Gustavo disse-te que estamos sem escrava?
-Oh, Artur, coitada da senhora.
-Olha, que é do Gustavo?
-Temos uma surpresa, espreitou Gustavo pela porta.
-Então quanto é que o teu irmão deu pela Pietá, perguntou Artur a Teresa.
-Meus Deus, mas tu sabes sempre tudo?
-No que toca a ti Gustavo, sim!
-Hum, então se calhar isto é amor, disse Gustavo com um sorriso irónico e de gozo enquanto ele e Artur se beijavam e Teresa ia já a caminho da cozinha para acabar de fazer as tapas com os filhos.
-Tinha pensado em pô-la no escritório.
-Acho bem, passas lá mais tempo do que em qualquer lado da casa.
O escritório era pequeno e estreito mas com uma janela imensa que o inundava de luz. Verde, a cor preferida de Gustavo, com uma grande cadeira de braços em vime para a secretária e duas iguais noutra ponta com uma mesa de canto. Uma estante apinhada de livros correndo uma das paredes. Gustavo colocou a Virgem em cima da secretária. Sentou-se. Artur enroscou os braços em torno do pescoço de Gustavo enquanto olhavam a Virgem.
-Vieste guardar os teus fantasmas?
-Não Artur, vim soltá-los dentro de mim e aprender a viver com eles.

quarta-feira, março 07, 2007

Desejo-te

Teu corpo,
Uma delícia revelada
Por entre as coisas
Que imagino.

De súbito
As minhas mãos
Perdem-se
Na seda das tuas
E a minha língua
Viaja-te,
Itenerário leve
De cadências longas.

Meu corpo,
Uma fantasia
Que tu descobres
Nas voltas do teu relógio,
Teu tempo próprio.

Invades-me
Enquanto me deixo tomar,
Cidades de muros caídos.

Lisboa que te sente a falta

Para Sérgio Dias de Figueiredo, com saudade.

Que diz a Cidade da tua ausência?

Diz das tuas mãos que não a tocam
Dos teus pés que não a caminham
Dos teus risos que não tos ouve.

Porque te demoras nas tardes
Agora que chegou a Primavera?

Não sabes que Lisboa nos ama a Todos
E embala o rio como o choro
De seus filhos distantes?

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Conto de Gustavo

A medo abre a porta do quarto devagar. Esperou meticulosamente de olhos abertos a chegada desta hora que o relógio do quarto parecia fazer demorar. Os pés descalços, para não fazer barulho, entram no corredor. Nas paredes altas repetem-se os quadros de avoengos antigos, presenças assustadoras de uma infância ainda há pouco vivida, que de novo parecem semi-cerrar os olhos para lhe lembrar que o que faz é mal feito. Felizmente que ao fundo resta a grande imagem da Pietá, consolo eterno da avó, e em segredo também seu. Para si foi sempre ele nos braços da Virgem em vez do Cristo morto. Ele nos braços da mãe, não no fim da vida, mas numa espécie de vida fetal ainda por nascer.

Uma porta, outra porta, mais duas. Por fim, o grande quarto de hóspedes. Ele resta breves minutos indefinidos numa infinita espera. As mãos arriscam a maçaneta por várias vezes sem nunca a agarrar, até que se sente invadido por um surto de coragem e abre a porta. Todo aquele momento gira na sua cabeça fazendo dançar um turbilhão de ideias. Como se vem tornando habitual vive e pensa os instantes tudo ao mesmo tempo o que torna tudo mais confuso. Em si resta um misto de terror e de auto-reprovação apimentado por uma curiosidade de descoberta, descoberta que é mais sua do que de qualquer outro. Mas ainda que pense este momento serão ainda precisos alguns anos para que uma maturidade crescente lhe permita arrancar estas conclusões à memória. Será preciso passar a calma acastanhada dos outonos cadentes e os rigores frios de um Inverno que se anuncia cada vez mais próximo até chegar a uma Primavera (que por ora ele nem imagina que possa existir) libertadora e fulgurante culminando com o seu corpo nú nas águas de uma praia nesse Verão catárquico que há-de chegar. Mas isto são tudo coisas que se avizinham nas estações e que moram no seu futuro.

De mansinho, Gustavo abre a porta do quarto de hóspedes. Como uma terra prometida a imagem tão ansiada: o corpo nú de Martinho estendido sobre a cama sem qualquer coberta. Revela-se numa beleza fria de estátua ao mesmo tempo desejável e distante, provocatória sem que em si Martinho faça nada para o ser. Afinal, o primo dorme na tranquilidade do seu sono nú e talvez seja isso mesmo que faz dele ainda mais belo e ao mesmo tempo (felizmente) intocável. O corpo de Gustavo cede naturalmente e o sangue começa a correr com mais força. Mas não há em si nenhuma vontade de se tocar. De certa forma isso estragaria a intensidade deste momento. Este é afinal um instante de descoberta e de alguma maneira, ainda que vaga, Gustavo tem já noção disso. Não é como aquelas tardes quentes de verão em que a visão do corpo semi-nú e molhado de Martinho o faz correr para o toillette do pavilhão da piscina na quinta dos avós. Gustavo descobre com algum prazer que este não é um momento físico. Enquanto a penumbra o vai permitindo ver o corpo nú do primo e os olhos se habituam à escuridão Gustavo estuda cuidadosamente cada bocado de Martinho. É como um exercício analítico em que o estudo do corpo nú de Martinho lhe vai permitindo conhecer o que lhe agrada ou não. Martinho serve de primeira base para uma definição do seu gosto. Este gosto que agora se torna claro e vai adquirindo os seus moldes e que faz Gustavo entender que embarcou numa viagem sem regresso possível. Não que alguma vez a caravela tivesse prometido algum regresso, mas só agora, perante o corpo nú de Martinho, símbolo de tudo aquilo que ao mesmo tempo esconde e anseia, é que se apercebe disso.

Demora-se no quarto um tempo que ele próprio preferiu não contar. Sempre junto à porta, tentando o mais possível manter-se imóvel e sem fazer barulho. Felizmente Martinho não acorda. Nunca saberá desta noite nem da importância desta noite na vida do seu primo Gustavo. Gustavo por seu lado percebe muitas coisas. Fecha a porta. Em volta, no comprido corredor, já não há nada de acusativo nos olhos pintados nas telas dos avoengos, reflexo das acusações que se fazia a si próprio. Mas ao fundo a Pietá ainda resta como imagem de consolo, mãe para sempre carinhosa e protectora que o amparará num mundo que acaba agora e num outro que começa. O mesmo silêncio de volta ao seu quarto, os pés deslizando de mansinho sobre o tapete. A porta fecha-se. Gustavo volta para os seus lençóis. Como sempre a janela resta aberta (marca do seu medo infantil do escuro). Nunca Gustavo ansiou tanto pela chegada da manhã. Saberá mais tarde que a nova manhã trará o seu Outono e por vezes desejará um outro tempo até que as manhãs repetidas lhe tragam um novo Verão.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Amar e um piano

Os dedos esguios buscam nas teclas frias do piano o calor da carne dela enquanto ela se contorce sobre si mesma numa dança lenta, mas contínua. É como se ela se entregasse a ele entregando-se ao piano e à música que ele desenha sobre as teclas. Ele busca-a incessantemente no piano e conhece cada curva do seu corpo através de cada nota.

Ela tem um corpo esguio e magro. É como se fosse uma flor de cristal e a todo o momento restasse o perigo de partir os braços. Mas os braços não se partem voam. Ou esvoaçam parecendo que voam. Ela embebeda-se na música dele, doce, suave, calma, como uma primavera que de súbito tivesse chegado mais cedo. Os dedos dele nunca se alteram só a música cresce e se transforma, agora intensa, depois não tanto. As musas vêm buscá-la. A música transporta-a a algo divino, ascético. O corpo não pára jamais. É como se continuadamente fizesse amor com a música, com o piano e por fim com ele. É como se ele lentamente a conhecesse, a masturbasse e finalmente a penetrasse em cada tecla.

Ele toca, ela dança. Olham-se, anseiam-se, desejam-se, mas jamais se tocam.

E se o verão de súbito regressasse?

Talvez te diga das cartas,
Das folhas,
E do chá nas tardes calmas de Inverno.

Porque a minha vida é como o livro manso
Que resta na mesa de cabeceira.

Leio(-me) devagar .

Invento nos livros uma mitologia
Nova e minha.

Não tenho mais que te diga. Tu procuras tanto de mim.

De súbito peço: esgota-me.
Levanta o livro da mesa e lê-me vorazmente.

Que saudades do verão que volta com a tua voz
Enquanto tu enches o quarto de mim,
Palavras que buscas nos livros.

Traz de volta o sol e o encanto de ser feliz sem roupa
Enquanto deixamos o corpo adormecer
À beira-mar.

É à beira-mar que cultivamos nossa terra de sonhos,
Desejos que escreves na areia
E que o mar apaga.

Aguardo.
As horas rasgam os dias
Sem sequer pensar em nós.

Só um mês,
Mais uns dias.
Agora a primavera.
Depois o verão.

Enquanto,

Anseio...

sábado, janeiro 27, 2007

A escrita

"O alívio que deriva do género de trabalho que produzo com o cérebro e o coração reside nisto: só no silêncio activo do pintor ou do escritor é que a realidade pode ser reelaborada e revelada no seu aspecto verdadeiramente significativo."

Lawrence Durrel in O Quarteto de Alexandria I. Justine.

Em dias que guardamos para nós

Hoje abandonei-me do mundo. Vim viver um bocado em mim. Deixei-me ficar na turbulência deliciosa e mansa de quem acorda e adormece entre as primeiras horas de sol. Dormi sem ninguém à minha espera e acordei quando esperava por mim.

Li, li muito, deixei-me ler. Perdi horas de livro na mão, enquanto subitamente andava lá por Alexandria entre uma Grécia que já não existe e uma cidade que só nós fazemos existir. Perdi-me por lá e demorei a voltar.

Voltei para escrever. Fui buscar palavras às salas da casa que ainda deixei na penumbra dos estores meio corridos. Achei-as em breves raios de luz que furavam caminho. Sentei-me para escrever cartas e escrever sobre escrever. Que encanto pensar em nós num dia que para nós guardámos e saber como gostamos do que fazemos.

Ouvia. Algures pela casa, nos caminhos do corredor, chegavam-me as vozes das divas que de manso me cantavam Vinícius. Deixei-me embebedar de leve numa dança que ainda não conheço, mas que o meu corpo soube bem desenhar.

Com a tarde regresso. É preciso espreitar o mundo pela janela e deixar a luz correr pelos estores agora abertos. Lá fora o dia, a vida- encontro-me.

Enquanto me olhas nas horas da escrita

Das palavras que toldo, que temo
Transformo.

Enquanto te digo encanto,
Te danço, te arrasto, te rasgo.

Enleias meu labor.

Teus cabelos,
Cavalos vagueando em torno do meu pescoço.

Meus olhos entornam vagas de amor
Que a ti tornam.

Desenho,
Descrevo,
Teu traço,
Te escrevo.

Volta-me

Enquanto te deixo
Me deixas.

Que importam as tuas carícias
Se tu não estás nelas?

Meu corpo, terra de abandono,
E o vento impele
Sobre a minha pele
Sinais da tua ausência.

Música cadente
Que me incandesce,
Resto teu porão esquecido,
Sensibilidade dos meus poros que te lembram.

Encanto, valsa, soneto,

Volta-me.

Enumeração

Encanto cadente
Valsa
Soneto
Serenata

Aliciante
Marcante
Maresia
Sereia

Semeio
Semente

Força
Esforço
Esgar
Frio
Elegante
Elogio

Dente
Densidade
Doar
Nostálgico

Número
Encanto
Enumerar

sábado, janeiro 13, 2007

Quando os nossos corpos

Teu corpo, que delicia,
Um encanto que acordo
Enquanto ainda dormes
Entre as minhas mãos

Minhas mãos que te prendem
E por onde teu corpo anda solto

Nossos corpos, geografias,
Por-do-Sol
Palavras

As tuas pernas enroladas nas minhas
Uma brincadeira,
De súbito os beijos

Um encanto
Agarro-te quando os teus olhos
Me dizem do desejo

Enterras-te em mim
Uma sede sem oásis

Uma busca intranquila

Meu corpo onde não paras
Mas ficas

Onde descansas em tumulto

Eu gemo aos teus ouvidos
De mansinho

Tu violas-me
Eu deixo

Até caíres sobre mim
Exausto das viagens

E quando a luz nos inunda o quarto

Eu sei que escolhes ficar por mais um dia.

Das palavras, que encanto

Correm-me palavras
Sempre
Constantes

A umas agarro-as
A outras deixo-as

Umas dizem-me
Outras ferem-me

Por vezes tenho medo delas
Por vezes deixo-as agonizar
Enquanto morrem
Na minha preguiça lenta

Enfrento-as
Há sempre essa hora
Em que elas me voltam
Rasgam-me magoam-me
Enaltecem-me elevam-me

Encantam-me

Colho-as
De leve
Escolho-as
Com precisão
Meço-as
Na balança que guardo em mim

E dou-as
Desapegado
Enquanto elas me fogem
Por entre os dedos
Das minhas mãos abertas

O Chá

Lisboa entardece no frio do seu sol de Janeiro. Entregas-me a uma esquina esquecida da tua rua. Há, de súbito, um cheiro que me alerta os sentidos. E de repente folhas de chá dançam-me com a coreografia milenar das mãos que as colhem quando o sol vem aquecer a Primavera, lá do outro lado do mundo.

O chá é como um líquido sagrado dos deuses com culto próprio. Uma palavra para mim: saboreia. Leve e suave, pequenas agulhas de prata. O chá entra delicadamente por mim, descobre-me. Primeiro o o nariz, os olhos, depois a boca e as mãos. O meu corpo tacteia o chá levemente, enquanto os meus dedos se prendem em torno de um corpo de vidro quase orgânico pousado numa folha de cobre.

Deixo-me estar mais um pouco nesta elegância descoberta de repente, mas com o cuidado de quem sabe apreciar as coisas. Fecho os olhos. Tudo me inunda. Um cheiro que quase se bebe em antecipação do que está para vir.

Palavras arrancadas a custo, numa altura que não é de palavras, mas de sentidos. Sentidos que me enleiam e que me levam. O chá...

P.S.- Não deixem de ir ao "Chá não falta" numa das esquinas da Andrade Corvo.

O Silêncio

O silêncio é

A atenção que deixamos recair sobre as coisas.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Das coisas que há no mar e nas ilhas guardadas na minha infância das primeiras horas

Busco um tempo fértil de palavras
E procuro em mim a hora da minha infância
Que tenha em si guardada
O início da poesia.

Hoje o poema diz-se em mim devagar,
Como uma onda que vem leve,
Mas que leva o verde das serras até ao mar.

Sophia fala-me de mansinho

Duma terra que eu amo de pés molhados.

Construo o poema num equilíbrio delicado
Entre a infância, o Verde e o eu.
Desfaço ligeiramente o novelo dos primeiros dias
Onde em suas linhas encontre as horas que me falam das palavras.

Em campo fértil de palavras
Meu labor árduo
Meu encanto em sangue
Minha dor de escrever
Dizer poema
Para vê-lo escrito
Perdidas horas de infância
Que agora me oferecem as coisas que há no mar e nas ilhas.

Mar

Dá-me palavras-plantas,
Pedras, rios
E diz-me de coisas que cresçam
Com a leveza furiosa das ondas

Meu corpo
Ilha nas ilhas
Água, parte do mar
Mar em si

Imensa sucessão de palavras
Imensidão. Micro-cosmos.
Palavras-plantas que me digam ilha.
Talvez eu
Eu e o mar
Perdido no mar que sou eu.

Descoberta,
Corre em mim o sussurro lento das ribeiras.

Sou como as trutas do Ribeiro Frio:
Nado sem destino, mas sei que nado.

E o dia (re)nasce ,
Luz que bate nas águas
Do mar que sou.

domingo, dezembro 24, 2006

Feliz Natal!

A vasta equipa d'"Enquanto Lisboa namora o Tejo..." (que sou apenas eu) agradece a amizade de todos os seus leitores e a todos deseja um feliz Natal!

Faz-me falta um fado

Para ti, minha companheira de fados.

Agora falta-me o fado

Quando começo a ter saudades de ter saudades

Quando o meu corpo te sente a falta

E alguém geme numa guitarra

As palavras que gostava que fossem minhas


Agora falta-me o fado

Nas noites longas do Inverno

Uma dor que aqueça a minha

Na nudez de uma cama vazia

Onde a saudade me adormece


Agora falta-me o fado

Quando me esqueces não sei onde

Nos braços não sei de quem

E meu coração magoado

Anseia por ti só

E mais ninguém.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Nós

Ao Luisillo, que bem mais que o meu silêncio é a fonte de todas as minhas palavras.

Meu sonho de Verde,
Nossas verdades.

Escreves palavras em cada acto que tomas,
Nosso secreto vocabulário.

Os olhos, uma nova gramática.
Em ti meu campo lexical de palavras.

Teus braços
Que me abraçam
Enquanto me falas
Sem palavras

Só os olhos

Nós os dois

A noite, mais nada.

Vem de ti a palavra.
Dizes!

Para mim és o mais importante.

Paixão urbana

Para o Ricardo Proença.

Levas a passear
Minha paixão urbana
Pelas ruas da cidade
Enquanto me beijas nas salas de cinema.

Orquestras as cores que existem
Numa elegância delicada
Como o céu pintado numa galeria da Baixa.

Não te perco,

Deixas-me

Teu corpo, o meu
Tão poucas as palavras perdidas entre as horas

Nas horas da cidade
Não te deixo

Guardo-te

Como a elegância dum gelado comido em Novembro.

De mim te dirá
A cidade que me ofereces devagar,
Um Natal precoce e longo.

Peço-te

Sabe esperar na cidade a minha hora.

Insular

Para a Rosa Carreiro, que conhece os segredos das ilhas.

Teu sorriso leve
Dum canto do Verde
Que Lisboa não te roubou
Perde-se nos teus cabelos
Numa esquina do Chiado

Teu peito carrega um duplo amor
Uma força insular
De ser ilha mesmo além das praias

E assim, quando andas
Pelas ruas estreitas do Bairro Alto
Ondas rebentam aos teus pés.

Porque teu corpo e tu
Vivem de dois mundos
Amor de quem nasceu a cheirar o Verde.

Dos segredos que habitam as palavras

Para a Sara Guia d'Abreu.

Das palavras me dizes
Da tua ânsia delas
Que nelas repousa

Teu sentir escreve-se nas palavras que buscas,
Um livro branco de Yourcenar,
Uma água doce.

Encanto das tuas cores
Na demanda incessante das palavras
Que a poesia te traz.

Gastas as tardes dos teus junhos
Guardas as tardes dos teus junhos para as palavras

E mesmo embalada no calor vivo
Das três horas da tarde
Teu livro não cai da rede onde dormes.

Perdida entre as palavras,
Tuas rússias distantes,
Estórias antigas

Buscas algo que te faça
Saber passar a barreira
Inultrapassável das horas.

Das palavras me dizes
Quem perde, quem acha,
Quem busca,
Suaves grafias
Em que se recorta a vida,
As palavras!

sábado, dezembro 16, 2006

Sentir

Para a Rosa Carreiro a quem descaradamente roubei estas palavras.

Mantens-me em palavras poucas

Enquanto me fazes desaprender a falar

Entregas-me à força do teu corpo

Os teus braços

A minha cintura

Nós

E levas-me a necessidade das palavras

domingo, dezembro 03, 2006

sábado, dezembro 02, 2006

Just like Marie Antoinette. Retrato de elegante no Lux.

Leva-me a dançar ao Lux, she said just like Marie Antoinette.

Lá fora, além das janelas cruas, a chuva cai cortante como ela. Uma maravilha de vidro e betão- ela e o loft. Na imensidão dum espaço criado para ser vazio como ela, nem um olhar. Para quê gastar os olhos verdes? As suas palavras escorregam pelas paredes frias. A sua vontade escorrega soberana até ele, just like Marie Antoinette.

Vestida como quem nasceu para ser de frio ela entra. Não há palavras, só olhares. Os dos outros, os seus nunca se desperdiçam. O corpo perfeitamente equilibrado sobe as escadas num dança ondulante retorcida pelos espelhos. Ela ama-se até à infinidade em que a sua imagem se reproduz.

Pisa o chão como quem pisa a vida. Afinal ela é tão superior a tudo, just like Marie Antoinette. Nos lábios um São Francisco, o álcool já é demasiado vulgar. Senta-se. Não olha em volta. Não faria sentido. Ela pertence, não observa. De resto, ela já conhece tudo de olhos fechados. Tudo guarda a mesma elegância urbana que é a sua. Nem a música a faz mexer.

Na sua perfeição um vestido de veludo escarlate apertado no peito, escorregado na cintura, caido nas pernas. Uma ligeira ondulação- no vestido, nunca nela. As meias pretas. Os stillettos encarnados. No decote uma jóia de Lalique. Sobre o peito fiadas de pérolas negras. Os cabelos serpenteiam em volta da nuca, just like Marie Antoinette.

Levanta-se. Desce as escadas com uma elegância superior. A pista escura, as bolas giram e brilham. Tudo é belo e vibrante. Ela vibra na música que lhe entra pelo escarlate do vestido.

O corpo perde o controlo de si mesmo. Ela agita-se na pista em perfeitos movimentos ondulantes. O calor de tudo toma-a cada vez mais. O vidro da sua pele derrete. Ela ainda dança. Torna-se real. O olhar dela cruza-se consigo mesmo nos espelhos dos outros. Ela ama-se até à infinitude do seu reflexo, just like Marie Antoinette.

Agora ela está no seu elemento,

just like Marie Antoinette.

Lá onde passa o rio da minha aldeia

O rio da minha aldeia quase não existe no Verão, mas no Inverno as chuvas enchem-no e ele corre entre as pedras até ir desaguar noutro rio que eu não sei.

Às vezes gosto de olhar o rio da minha terra, no enclave em que nos abandona. E então deito-me a pensar em memórias de infância que vou fabricando enquanto a tarde me deixa.

O rio da minha aldeia faz-me lembrar o cheiro da compota e as horas de espera para que a compota fique pronta e as estórias que uma avó me contaria numa cozinha velha até as horas acabarem. Faz-me pensar em brincar no coreto com os outros meninos e jogar ao pião e ao arco e a coisas antigas de que os rios estão entranhados por força da sua longa vida.

O rio da minha aldeia vai furioso no Inverno, mas só me lembra coisas calmas como dias de escola com a chuva a bater nas janelas e as horas a morrerem no grande relógio ou em noites frias de nevoeiro com o corpo esticado à lareira.

O rio da minha aldeia nada sabe do que está para além do rio onde desagua e que eu não sei. Não sabe de Lisboa, nem das suas cores nem das coisas que eu gosto e que quero para mim, por isso eu não quero o rio da minha aldeia nem ele me quer, porque não tem nada para me dar. Mas há tardes em que olho o rio da minha aldeia e imagino...

Killer Queen

Ao Ricardo, que me apresentou a esta música.

"She keeps Moet et Chandon
In her pretty cabinet
'Let them eat cake' she says
Just like Marie Antoinette
A built-in remedy
For Kruschev and Kennedy
At anytime an invitation
You can't decline

Caviar and cigarettes
Well versed in etiquette
Extraordinarily nice
Chorus

She's a Killer Queen
Gunpowder, gelatine
Dynamite with a laser beam
Guaranteed to blow your mind
Anytime

Recommended at the price
Insatiable an appetite
Wanna try?

To avoid complications
She never kept the same address
In conversation
She spoke just like a baroness
Met a man from China
Went down to Geisha Minah
Then again incidentally
If you're that way inclined

Perfume came naturally from Paris
For cars she couldn't care less
Fastidious and precise
Chorus


Drop of a hat she's as willing as
Playful as a pussy cat
Then momentarily out of action
Temporarily out of gas
To absolutely drive you wild, wild
She's all out to get you
Chorus


Recommended at the price
Insatiable an appetite
Wanna try?
You wanna try"

sábado, novembro 18, 2006

Trechos sobre Lisboa ou A dificuldade de escrever

Eu quero as manhãs geladas de Lisboa e tenho saudades do Sol. Canta para mim. Os teus braços à minha volta no miradoiro da Graça. Frases curtas numas linhas de papel. Ao menos se eu pudesse desenhar o teu corpo enquanto as minhas mãos o passeiam.

Sinto falta de ti e da cidade também. Há sempre uma câmara oculta nas esquinas dos bairros para nos apanhar debaixo dos varandins. Para ti a cidade não tem música, mas tem cheiro. O cheiro das pessoas é também o teu cheiro.

A tua língua no meu pescoço. Estou num impasse, mas continuo a escrever. É como uma sede. Parto para falar da cidade. Fico-me pelas palavras. Não é possível falar da Baixa de Lisboa assim, só em palavras. É preciso que as minhas palavras tenham vida. Mas elas não têm.

Os teus braços enrolados nos meus são um bom começo e um porto desce-nos pela garganta. Eu só quero escrever. O castelo está à nossa frente. Para quê fechar os olhos e imaginar outras coisas? O castelo está à nossa frente. Eu anseio desesperadamente por ter sentido. Torces-me a cabeça: alguém bate um tapete sobre uma janela numa casa amarela de Alfama. Lisboa é como um fado.

Eu quero a vida excitante, sentir as coisas que palpitam e provar as cores opacas do urbanismo. Tudo em mim é intenso agora. As tuas mãos estão dentro das minhas calças. As pessoas olham. Mas se tenho as ruínas do Carmo à minha frente para quê olhar para elas?

Escrever dói. É impossível parar de escrever. Leva-me até ao elevador de Santa Justa. É preciso que o vento me invada a cara e a marque. Tu não queres olhar de alto. Queres estar num beco a olhar para uma luta. Eu insisto em escrever. Tu insistes em viver.

Tu beijas-me contra uma parede da Rua Garrett. A tua língua viola-me a escrita. As pessoas aqui não olham. Tudo é urbano demais para que os outros se choquem com a maneira como influências o que escrevo.

Agora o bairro Alto, depois o Príncipe Real, o Rato, a Estrela. E nós, que nunca saímos do miradoiro da Graça. Tu acabas de beber. O teu corpo parado à minha frente a violar-me. O Sol põe-se, ou pelo menos sabemos que se põe para lá das nuvens. A tua mão agarra a minha. Já acabaste? Acabar não é para nós. Nunca se acaba de amar Lisboa.

sexta-feira, novembro 17, 2006

Tríptico de mim mesmo

Lá no ponto onde o mar assenta
Resta a minha consciência do mundo

O meu corpo vai envolto nas gaivotas,~
Comedor do tempo

Mas eu estou sempre dentro das coisas
Que estão dentro de mim

quarta-feira, novembro 08, 2006

Retrato de mulher em vestido de gala

Busca da elegância. E há sempre esse namoro prolongado com o espelho enquanto pinta os lábios. Agora as pérolas para o cabelo, três tiras sobre a testa. Na cintura magérrima o vestido, uma segunda pele. As luvas de manga de canhão descem os braços.

A mão estendida para quem lhe abre a porta. Não há últimos olhares.

Um flute de champagne ergue-se. Ela ri. E ela que quase nunca ri. Mais um brinde. Há um certo toque boémio em cada brinde, como se a vida se tornasse absolutamente fabulosa. O vestido voa por onde ela passa. Tudo é etéreo; nela e por contágio em tudo o que a rodeia.

A pele branca de mais, os cabelos louros de mais. Ela é quase transparente no vestido, onírica como um mundo criado com cuidado para si mesma.

É raro passarem-lhe pensamentos, mas por vezes o luar caído sobre certas nuvens mais escuras chama-lhe a atenção.

Agora a música. As mãos fortes de um homem, a sua cintura magérrima, os violinos que vibram tão alto. O corpo cai. Ela perde-se nele. É mais como se se deixasse ir. Quem sabe naquilo que pensa. Ela é como uma ave nas mãos dele.

Acabar é sempre difícil, mas nunca para ela. A realidade a que volta, a sua, é sempre irreal.

domingo, novembro 05, 2006

Palas Ateneia


Por entre a majestade do ouro e do escarlate das suas roupas, obsessão constante de Rembrandt, surje o seu rosto calmo, como que alheio à sua própria glória. É como se agora e sempre Atena, coroada pela coruja, restasse atenta apenas aos seus pensamentos, mar em si constante, e partisse mais uma vez para a guerra sem vontade de o fazer. A cidade ocupa-a, porque ela mesma se ocupa do Homem civilizado. E ela mesma é homem e mulher ao mesmo tempo, sumo Hermafrodita, juntando em si as qualidades de todos.

Retrato de rapaz em algumas variações

Perto de uma grande parede de vidro o seu corpo resta, como que jogado, a um canto. A sua expressão é ao mesmo tempo distante e orgulhosa. A perna direita flectida ao alto, a esquerda ao lado. É como se alguém o tivesse perdido ali e ele tivesse desejado permanecer perdido. Ali ele está perdido dos outros, mas não de si mesmo. Palavras repetem-se constantemente na sua cabeça e a consciência de se saber simultaneamente divino e rejeitado aflora-lhe a arrogência. O ar arrogante torna-o desejável porque distante e de certo modo inatingível. E isso desperta em mim uma vontade de ver a baixo do terceiro botão aberto da camisa. O corpo está exposto na camisa amarela e aberta e há nele uma doçura clássica e latina, num peito ao mesmo tempo másculo e delicado.

Eu desejo-o, é certo, para mim. Mas ao mesmo tempo, ainda assim, não o quero tocar. É como se desejasse apenas a sua essência. E mais que tudo a sua suma arrogância de estar ao mesmo tempo alheio e atento ao que se passa à sua volta, como se os olhos não soubessem o que sabe o corpo.

Guardo agora a sua imagem junto à parede de vidro. Lembro apenas o divino. De nada me serve nele o que é humano.