quarta-feira, agosto 08, 2007

Conto de Servília (1ª parte)- Corpus et Verbum

O conto de Servília baseia-se na minha leitura de As memórias de Adriano de Marguerite Yourcenar. Não tem assim nada de original na sua essência. Contudo, também não foi minha intenção plagiar a autora. O que aqui se apresenta é o resultado do acto fenomenológico da escrita.

Maruliano meu avô acreditava nos astros. Gastou os últimos dias de uma vida calma perdido no seu observatório achando pela primeira vez para si astros que outros haviam encontrado. Foi nesses anos de criança e com Maruliano que me apercebi da importância de descobrirmos em nós mesmos aquilo que já outros descobriram. Só aí é que as coisas passam a ser verdadeiramente nossas. Foi debaixo da sua capa que encontrei o mundo que ficava do outro lado do portão da nossa villa. O mercado era o centro buliçoso da cidade e como todos os lugares de negócio era interdito às mulheres. Só àquelas que não podiam traçar os seus antepassados até épocas longínquas é que se permitia perderem os dias atrás de uma banca qualquer. Mais tarde apercebi-me da diferença entre quem compra e quem vende: o vendedor pode até exercer uma certa pressão sobre o comprador, mas quem vende precisa desesperadamente mais de quem compra do que o contrário. Esta verdade revelou-se-me ao longo dos anos nas caras dos muitos mercadores que encontrei pelos mercados onde estive.

Não sei se alguma vez acreditei nos astros. De resto, isso foi de pouca importância no correr da minha vida. Era mulher demais para me dedicar à astronomia, era patrícia demais para me perder na astrologia. Encontrei-me em outros campos. O meu corpo foi o primeiro e o mais importante. Nunca fui capaz de amá-lo porque nunca fui capaz de entender essa filosofia que encontra no corpo um ser ao mesmo tempo estranho e íntimo, companheiro de jornada, exterior a nós mesmos. Só os homens podem amar os seus corpos porque só eles podem procurar a sua ascese. As mulheres não têm tempo para isso. A sua sobrevivência insiste num jogo diário que decide quem ganha e quem perde, quem continua e quem cessa de existir. Ao meu corpo domei-o sempre sob jugo forte.

Adriano, meu primo, amou os corpos nessa profundidade filosófica. Encontrei sempre beleza nas suas palavras, mas já não fui capaz de a reconhecer nos corpos que teimava em divinizar. Adriano, meu imperador, gabou-se de ter melhorado a vida das mulheres. Nunca lhe censurei esta vã-glória. Era a sua condição natural de homem e não algo que ele pudesse contornar que o impedia de ver o breve alcance das suas leis. Também não tentei explicar-lho nas muitas cartas que trocámos. Não é para o mundo dos homens perceber o mundo das mulheres. Os homens andam por estradas longas e abertas, as estradas com que construíram o mundo. As mulheres movem-se por becos tortuosos, quase sempre sem saída. Tão tortuosos que atrevo-me a dizer que é mais difícil morrer velha e patrícia em Roma que velho e imperador. O casamento e a minha partida para o Lácio trouxeram-me a certeza de que não há lugar para as mulheres no mundo que é Roma. Mesmo as grandes patrícias devem nascer sob a sombra paterna, viver sob a sombra matrimonial e morrer sob a sombra dos filhos. A glória que foi reservada a algumas não foi senão o resto da glória dos homens a quem se ligaram e que tantas vezes ajudaram a construir.

Foi esta certeza da minha dificuldade de mulher que me fez olhar para o meu corpo. Tirei dele tudo o que ele me pôde dar. Tive a sorte, mais que a inteligência, de ter tido olhos sempre tão claros como os espelhos que me reflectiam e vontade de me ver neles. Soube pesar o tempo em medidas tão exactas que pude usar o meu corpo consoante cada época que a vida me trouxe. Na minha juventude levei-o em jogos perigosos de sedução em que se promete nada, perde-se muito e compromete-se tudo. Mas soube orientá-lo bem nos sentidos que me interessavam e não houve homem, enquanto a minha pele foi fresca, que me tenha resistido. Cedi poucas vezes às tentações do corpo. Talvez tenha sido o bocado de estoicismo que me sobrou da minha educação: não aceitei nenhum senhor, nem mesmo esse. Lamento-me, no entanto, dessas fraquezas que me seriam breves de esquecer não fosse a imensa vergonha que me trazem. Essas são as cicatrizes do meu corpo.

Hoje tenho a certeza, que também já esboçava na altura, de que o meu corpo foi o meu melhor aliado político nas poucas ambições que tive com o meu marido. Achei sempre extraordinário que duas criaturas que nutriam uma profunda indiferença uma pela outra se entendessem tão bem na política. Talvez porque ele tivesse a masculinidade necessária e eu o conhecimento induzido dum mundo tão parecido com o das mulheres. Não acho que seja por acaso que a palavra política é feminina. Tivémos os dois uma ambição medida e sem grandezas e sobretudo uma consciência clara da nossa posição enquanto primos do imperador. De quase nada valia em Roma o nosso parentesco com Adriano a não ser para nos granjear inimigos que quase nunca conhecemos em aberto, mas contra os quais tivemos que lutar até ao fim da vida. De resto, em Roma nunca conheci diferença entre ter-se a cabeça a prémio ou ostentar-se o título imperial.
Talvez esta fosse uma razão secreta para Adriano ter estado tão pouco tempo em Roma, perdido nos seus ímpetos criadores. Ou talvez porque foi o primeiro homem a aperceber-se que Roma era já todo o mundo aonde chegavam as estradas e o latim e não mais essa capital, em tanto já decadente, que agonizava longe dos seus adorados Júlios e Antónios, esses patrícios que traçavam as suas ascendências além da realeza até aos casamentos celestes. Não havia lugar na Urbe para os imperadores nascidos de homens. Esses tinham o seu lugar nas estradas que saem das sete colinas a construir o mundo novo. Adriano soube-o melhor que outros.

Os meus receios políticos ligaram-me desde o início a Plotina, a imperatriz de Trajano, e a quem Adriano me recomendara. Quando a conheci Plotina vivia já nessa casa pequena onde morreu à margem da cidade e à margem da vida. Trajava nos seus véus de luto a única soberba que lhe conheci: a de ser uma matrona romana dos tempos da Respublica. A sua vida marginal não fez dela na sua viuvez, no entanto, uma mulher desatenta do mundo. O espaço da sua casa tinha o tamanho dos seus aposentos no palácio imperial. Confessou-me mais tarde que isto não se devia ao acaso e menos ainda à humildade: este era o espaço preciso em que se habituara a governar. Com Plotina entrei realmente no mundo das mulheres. No mundo das mulheres encontrei os limites do meu corpo e aprendi com dura facilidade que o que nos ganha o mundo dos homens perde-nos quando o mundo passa a ser no feminino. O nosso não é um mundo de corpos, mas da palavra. O mundo das mulheres é o mundo da palavra. O dos homens o mundo das palavras. Os homens, que são senhores do tempo, podem perder-se na busca ascética que cada palavra encerra num significado único que a singulariza e a torna ao mesmo tempo distante e próxima das outras palavras igualmente únicas. Para nós, que vivemos de bocados de tempo, cada palavra encerra o significado do universo. É preciso ter a atenção das mãos que vagueiam pelo tear na escuta das palavras das mulheres. As suas palavras são um código antigo de múltiplos significados em poucos significantes. O instante da palavra mal entendida pode deitar a perder o mundo de uma mulher.

segunda-feira, agosto 06, 2007

Versos pouco inspirados para os dias de férias

De mar e ondas, novas verdades.

Intensos caminhos, rios,
Riscos corridos sobre as ondas
Da manhã que tarda em chegar.

O dia começa às onze
Com o corpo estendido sobre a cama.
O sol existe na extensão da alvura
Dos meus lençóis.

As coisas gozam uma existência
Calma, cálida, breve,
Temperada.
O tempo é medido em proporções diferentes do ser.

Existimos de outra maneira.
As tardes são como os avessos de nós mesmos.
Longos instantes sobre o calor abrasador
Em que o nosso mundo vive
Das praias onde as horas nos permitem chegar.

De mar e ondas as noites,
Com cheiro de sal e coisas das ilhas.
A elegância dos turistas passeia-se
Nos múltiplos promenades das ruas.
São festas de vestidos brancos e ondulantes
Com encantos musicais
Que se pode dizer surgirem dentro de nós.

De mar e ondas e cores
Os sonos, os sonhos,
Vagos, distantes, confusos,
Linhas blândulas, obnubiladas,
Existências vagueantes, calmas,
Plácidas.
Segredos de agora, depois,
De amanhã, de outros dias.

De mar e ondas os tempos...

sábado, julho 14, 2007

Poema de Pedro e Catarina

Dizes-me noites de poemas magoados
Para que eu os entenda.

Vive em ti um mistério confuso
Como se de uma vez duas árvores nascessem enroladas.

Procuro chegar-te nas calmas completas
Das tardes de praia
Quando em Julhos soalheiros
O teu corpo cabe debaixo dos meus braços.

Perco-te tantas vezes
Nas horas confusas que te assombram
E te levam em demandas de cabelos soltos,
Cavalos largados ao largo de chãos infinitos.

Hei-de saber esperar-te.

Nas horas do consolo
Eu me acalmo
Para que haja paz
Em teu estar confuso
E magoado de viver.

Envolve-me em teu corpo,
Prisão dos cheiros que de ti me prendem.
Sou teu chão onde plantes alicerces
Fundos como a profundidade
Dos momentos em que de súbito és minha.

Porque eu quero-te,
Quero-te além das palavras.

segunda-feira, julho 09, 2007

Poema dum operário que perdeu a esperança num dia de pouco mar

Quase nada
Um resto de pouco

Um viver adormecido
Sobre o cais de amanhã

Pouco pão
Pouco sol
Muita luta

Braços molhados
De longos mares outonais
Corpos caidos de cansados
Que sobram
O Mundo,
Uma existência triste,
Enrolada em tiras
Do seu cabelo espalhado ao vento

quinta-feira, julho 05, 2007

Diz ao mar que passo

Não disse ao mar que passava.

Em quantas luas me esvaí?

Prados que se arrastam
Pela infinidade lenta
Da terra fecundada.

No suor dos dias de trabalho
O labor burila as horas.

Eu perdi-me em que durantes?

Os pés escavam na areia
Palavras que diga
Amanhã,
Depois do tempo.

Mas não disse ao mar que passava.

quarta-feira, junho 06, 2007

Segredos dos amantes escondidos

Para I. e A., até que chegue a Setembro.

I
Na noite quente das amoras
Escrevo-te.

Vê que há uma liberdade
Só nossa na noite.
É nosso aquilo que
Só nós conhecemos.

As minhas mãos escorrem
Pelas paredes brancas da casa.
É como se te acariciasse.

Vivo nas palavras dos segredos
Escondidos,
Guardados nas horas dos
Recantos onde desenhamos
As hipóteses dos primeiros beijos.

Amo-te como se ama o
Fim da tarde:
Ao fim de um longa espera.

II
Falo-te na manhã fresca dos frutos.
O cheiro inunda agora
A casa
Com os nossos segredos.

Compomos um tesouro feito
De palavras não ditas.
É uma música que dança
No silêncio provocado
Dos nossos corpos.

Ardo por te encontrar.
Que as minhas mãos
Sejam os meus olhos,
Aranhas que traçam
Teias sobre o teu corpo.

Desenho-te no espaço
Ensaiado das horas
Em que te espero

Permaneço. Anseio-te.

terça-feira, junho 05, 2007

Homero talvez

Homero talvez,
Um encanto de fim de tarde.

Ilha grega:
Teu corpo,
Minhas mãos.
Intenções.

Repouso a cabeça
Sobre o teu peito,
Hora dos ritos.
Construção das tardes
Iniciáticas
Dos nossos dias longos.

Árvore,
Homero talvez.
Palmeira de Delos.
Fruto, sonho.

Mergulho.
O mar é mais azul
Quando se guarda o Mediterrâneo na boca.
As tuas mãos seguram os meus
Tornozelos.
Nado.
Busco a unidade.

Ânfora, coisa d'alma,
Homero talvez.
O encanto de um
Pateo branco
Sobre um porto
Breve.
Recriação,
Começo,
Cais.

Partimos.
Viagem incessante
Das mãos.
Altar.
Teu corpo, terra de
Imolação.
Primícias.

O vento vem do mar
Leve, forte,
Preciso.
A casa constroe-se
Na luz das suas janelas.

A minha alma é branca
Como as partes que
Conheço do teu corpo,
Homero talvez.

Dizes noite.
Música.
Os teus pulsos seguram
Os meus.
Levanto-me.
A força dos meus braços
Ergue-me acima da
Materialidade das coisas vivas.

Espanto,
Homero talvez.
Vinho, vinha, vento.
Barco, branco, breve.
Mar Mediterrâneo.

Desafogo.
Teus olhos,
Terras de oliveira.
Doce labor dos azeites
Que me escorrem pelas mãos
Na tarde das aranhas.

Orégão.
Trinco os frutos verdes
Da areia pedregosa.
Sal.
Há uma saída
Além nas grutas,
Homero talvez.

Ulisses, Aquiles, Heitor,
Minha Tróia feita
De muros caídos.
Anseio constante
De estrada que sobe.
Soneto medido na
Perfeição do templo.
Minha coluna dórica,
Meu espaço idílico,
Centro de mim.

Projecto fabrico
Real festa enfeite
Vida,
Homero talvez.

Mesa de estudo

As horas não te trouxeram:
Levaram-me.

O tempo não perdoa:
Ditador.

Ficam as minhas palavras,
Já soltas,
Perdidas.

Encontra-as, acha-as
E fala-me delas,
Espantos que me digam coisas
Do cair da noite.

sexta-feira, junho 01, 2007

Desabafos literários ou O milagre da criação das coisas exteriores a nós

Não tenho encontrado tempo para escrever, mas apetece-me muito. Talvez eu não saiba investir tempo. Escrever é como ser artesão e dedilhar o tempo com as mãos. Eu com certeza perdi essa noção vagarosa do tempo, perdido entre as coisas que no meu tempo levam as pessoas a perderem-se. Vamos chamar-lhe futilidades. Eu prefiro ilusões breves, mas talvez sejam na verdade futilidades.

A cidade traz-me muitas vezes o que escrever. Se o Tejo não se esgota de água também não me esgota a inspiração. Vão nascendo dentro de mim. Muitos morrem. Aprendi tarde, mas bem, que escrever é ser Deus, logo é um acto blasfémico. Não devíamos poder escrever, a escrita aproxima-nos da criação e logo de Deus. E Deus não deve estar próximo, mas presente, ainda que de esguelha, naquilo que escrevemos.

Esta aura de criação e de criacionismo que envolve a escrita seduz-me como uma bebedeira de licor de chocolate ou como um Domingo de sol passado na Pena. Viajo várias vezes ao passado para criar. Algumas ao passado de mim, muitas ao passado dos outros. Os outros são sempre mais interessantes porque os seus segredos são confessáveis. Os nossos nunca!

Andam por aqui algumas personagens. Felizmente são poucas e dão-me o trabalho que me chegue. Tenho sobre elas uma visão completamente paternalista e isso já não me incomoda. Não são minhas: são eu. São parte intrínseca de mim, foi de mim que as arranquei. (Ainda que tudo isto surja como um cliché, os clichés também se sentem). Ando é com falta de vestidos no armário para elas. Têm andado nuas e ainda assim parece-me que passam bem. Lamento é quando elas ainda são disformes ou quase nada. Por vezes surje serem assim. Elas pedem-me muitas coisas. Nem sempre acedo.

Estou constantemente fascinado comigo próprio quando crio ou penso criar. Descobri-me. É um processo pouco modesto e quase sempre arrogante. Algo em contrário foge à verdade. Ao real foge-se sempre quando se cria. Mesmo para depois retornar. Há saídas nos movimentos fenemenológicos e a composição das letras, que constroem a composição das personagens, é talvez a maior das divagações.

Mas para tudo é preciso tempo. É uma certeza bíblica que o Eclesiastes nos garante. Quem me dera saber tecê-lo. Talvez me faltem Ulisses que me ofereçam tempo mais do que amor. Lá fora, felizmente, ainda não deixei de me deslumbrar. Lá fora. Quase tudo é lá fora. Mesmo quando é cá dentro. Fenemenologias da escrita. Hei-de ser artesão. Mais tarde, quando houver tempo. Por agora nascem pelas ruas, sedes das igrejas onde Deus sou eu.

segunda-feira, maio 21, 2007

Anseios de Lisboa ao fim da tarde

Para a Raquel Lemos, a Ana Ferreira e a Migui Carvalho-Salgueiro.

O rio passa lento
Sobre o meu corpo.

Deixei-me afogar
No mar de gente
Que povoa o fim da tarde
Entre as ruas.

Algures as vidas passam
Em minha volta.
Levam o encanto de viver em Lisboa.

Cidade/rio,
Descanso primaveril,
Cavalo, palavra, cerca em aberto.

Grandes arcos
Arqueiam ideias.
Suspiros vagos,
Vivos,
Corpos esperando a
Cidade.
Anseios.

O Sol ainda existe
Atrás das casas.
Amarelas as casas
Nos raios de sol,
Janelas brancas de Lisboa.

Olhar com que se ama o rio,
As janelas,
As pessoas.

sexta-feira, maio 18, 2007

Jogo das coisas ao longo das ruas de Lisboa

Espera pelo fim da tarde, há uma magia na luz que traz. Guarda os olhos bem abertos para a veres.

Lisboa dir-te-á um poema, um consolo, ao ouvido, de mansinho. E há uma sala fresca na elegância dos apartamentos do Saldanha. Lá dentro a tarde escorre pelas paredes brancas da casa. O poema constrói-se em cada divisão: da casa, do corpo, de ti. Uma música chega-nos e o cheiro intenso da cozinha impregna o ar. É o cheiro da vida que chega do pateo de trás. A vida passa-se aí, nos pequenos recantos dos prédios de Lisboa. O cheiro traz-te leves recordações de infância como os acordes de um perfume. A vida é um jogo de peças modeladas pouco a pouco.

Com o fim da tarde tu esculpes a memória até daquilo que ainda não aconteceu. Perdes-te algures nos corredores brancos da casa. Ligeiramente à deriva. Tudo te leva à porta, à rua, à vida. Procura uma esquina do Chiado que te agrade. Saberás dizer que restos aí sobram da vida das pessoas? Para e constrói. Olha atento a vida que desfila à tua frente como uma tela de museu. Há seiva nas coisas, nas pessoas. Nada é estático. Tudo é estético. A vida consumida na elegância de se viver.

Vai. Algures além dum arco Lisboa oferece-se a quem a sabe ver. Algures alguém há-de morrer na cidade. São ainda as peças do teu jogo que se resolve pouco a pouco. Agora deixa-te guiar pelas palavras, ruas secretas, escondidas, oferecendo a possibilidade de sol. Afinal, tu andas contra o fim da tarde. O sol ameaça por-se. O jogo resta por terminar. Tu não descansas. Os olhos continuam deitados sobre as coisas que te envolvem. Buscas a estética perdida das coisas. Crias elos em cadeias que começam a fazer sentido dentro de ti. Quase tudo é natural, como o espanto das coisas sobre elas mesmas.

Lentamente a fadiga acorda-te: as pessoas não param de existir. Quantas peças já recolheste? Agora sabes mais da vida das gentes do que elas mesmas. Tens algo que elas não têm: a atenção por sobre o que passa. A estrada oferece-se longa. Mas é preciso continuar. Entregue às sombras que agora tomam os bocados de todos os recantos não te entregues. Continua. Hás-de chegar à porta da casa. Lá dentro a noite instalou-se. O poema continua a dizer-se ao longo das paredes brancas, é Lisboa que se canta. Senta-te. Espera de mansinho que as palavras que agora moram em ti se venham dizer.

quinta-feira, maio 10, 2007

Os amores da filha do marquês ou Gentil despedida experimentada em rimas

Encanto guardado com graça,
Recato primaveril.
Espanto de tudo o que passa
Em seu viver juvenil.

Cabelos loiros voando,
Vontade amarrada ao cais.
Idos de quem vive amando,
É uma aristocracia que vai.

Talvez regresse na vinda
Tal belo e jovem inglês.
Talvez seja uma história finda,
Os amores da filha do marquês.

Mas espera ainda, gentil dona,
Que em esperar há bem razão.
Pois por certo que a este cais torna
Quem naquele barco te leva o coração.

sexta-feira, maio 04, 2007

Kirsten Dunst


No recentemente estreado filme Homem-Aranha 3 há apenas uma coisa que vale mesmo a pena ver: o desempenho de Kirsten Dunst.


Na sua beleza encantada de mulher petite Kirsten mostra-se mais uma vez como a actriz das pequenas coisas. Nela guardam-se os pequenos sorrisos do quotidiano e os gestos leves que desenhamos sem pensar. Se ela os pensa ou não, não sei e tão pouco me importa. Ela encanta-me e é isso que eu busco nela. Não admira portanto que a actriz seja um dos fetiches da brilhante Copolla que busca precisamente as pequenas pequenezes do quotidiano. E é toda uma naturalidade que nos apresenta em Marie Antoinette (até hoje o seu mais genial desempenho) que continua a oferecer-nos em Homem-Aranha 3 apesar de todas as limitações oferecidas por Mary Jane Watson.


Verdade que Dunst está ainda longe do brilhantismo. Falta saber transpor a sua naturalidade das pequenas coisas para aquelas maiores. Ainda teatrais restam muitas das suas cenas de choro e dor ou de profunda paixão, um cliché americano que acredito seja difícil de largar para qualquer actor. Mas Kirsten lá vai guiando a sua carreira com cuidado, como a delicadeza dos seus gestos, escolhendo um filme aqui e outro ali, ora mais comercial ora menos. Eu continuo à espera que ela me continue a surpreender!


(Não deixem de ver, se ainda não viram, O Sorriso de Mona Lisa e Marie Antoinette, as suas duas melhores actuações)

domingo, abril 29, 2007

Crescendo

Sabes quantas voltas há no recomeço?

Passeiam por mim as horas incontáveis

Enquanto espero viver
Segundos que não acabem.

Reescrevo o sentido da vida.

As águas trazem-me de volta.

Digam-se as palavras:

Pedra, planta, fruto.

A tarde aquece-me
Com inspirações de verde.

Agora busco as ruas
Por onde deves ter perdido a minha poesia.

Lembra-me para não te voltar a dar
Intimidades.

quarta-feira, abril 25, 2007

Poema da espera

Não sei mais que te diga

A não ser esperar por ti

Até que a tarde vire noite.

Amando-nos

Dá-me palavras, segredos, espantos.

Enlaça-me em teus cabelos, cavalos soltos.

Encantos distantes, valsas.

Teu corpo, bocado de terra, país.

Meu corpo, descanso e casa.

Acasala.

Murmúrio, meu ouvido,
Secreto, suspiro.

Inspiro-te,
Teu odor leve,
Tua força bruta,
Tuas mãos,
Tua virilidade tão ferida e aflorada.

Desinquietas-me,
Enfrentas-me.

Nosso amor não é algo sossegado,
Não tem lago,
Nem água.

Destreza das tuas mãos
Prendendo as minhas.

Eu rendo-me,
Tu entras-me.

Quietos
Respiramos.
Os corpos violentos
Inclinam-se, lutam-se,
Perdidos, onde (?),
Ficamos
Amando-nos.

Mediterrâneo

O poema diz-se enquanto a tarde se instala
Através das paredes nuas da casa.

A média-luz do início faz-nos lembrar
Que o branco
É um estado mediterrânico de ser.

O corpo do mar é longo e calmo
E repousa sob o sol
No pátio quadrado da casa da ilha.

Há algures o cheiro novo dos orégãos
E do azeite.
Nas ânforas guardadas na rua
Restam as esperanças antigas
Do dia de amanhã.

As aranhas trabalham desafogadamente,
Enquanto vem a tarde,
No seu labor de séculos.

O sumo das laranjas frescas
Refresca-me.

Tudo é natural e bom
Na tarde branca e fresca da ilha,
Como se as coisas vivessem
Espantadas de ser elas.

Lar antigo dos deuses,
Pátio da eterna recriação,
Viagem à Hélade antiga
Em busca de algo que perdemos
E não conseguimos lembrar,
Memória das tardes brancas do sol.

segunda-feira, abril 16, 2007

Poema do homem bucólico

Às angústias que nestes dias me angustiam.

Ligeiros chegam os fins-de-tarde de Abril
E trazem consigo os primeiros crepúsculos do ano.

Abril fala-me sempre da Primavera,
Dum chão novo
Que os deuses renovam para nós.

Tu és como as manhãs calmas de Sol
Ouves atentamente o que eu digo
Como se as minhas palavras fossem de beber.

Bebes os sonhos que te conto
De coisas distantes que encontras nos momentos
Escondidos das tardes e das flores.

Tu és como o riacho manso e de água doce-
Corres devagar, mas sabes por onde andas
E para onde vais.

Tens uma sede de coisas maiores
Que procuras sofregamente
Saciar nas minhas palavras.

Não percebes que todas as minhas palavras
Cabem em ti;
Em ti onde me esgoto, onde me começo,
Onde me renasço.

Súbita Primavera constante,
Que toldas minhas tardes de uma alegria
Feita de gestos simples e certos,

Como desenhos de crianças quando chega o Sol,
Breves e duradoiros reinos de luz.

Não sabes que sabes das cores
E das coisas que elas ensinam.
Tudo em ti é tão natural e simples
Que não te permites pensar,
Mas apenas viver as coisas,
Os dias,
As horas.

Sabes apenas que queres mais,
Assim como eu sei que te quero a ti.

quinta-feira, abril 12, 2007

Peter Pan

A mim.

Wendy: "Acabaram-se as tuas aventuras, rapaz!"

Peter: "Não! Viver é ainda a maior das aventuras!"

quarta-feira, março 28, 2007

Prenhes

É ainda possível dizer que é tarde?

Já lancei os dados, mas algo
Continua a rolar incesantemente na minha cabeça.

Começo a ficar prenhe de ti.

O teu mundo é natural e verde
Como as tardes de junho que espero nesta primavera
E trazes em ti segredos solares.

Eu sou feito de betão,
Tenho alma de cidade
E no peito uma insensibilidade que o prova.

Tu moras algures dentro de mim.

Procuro-te por dentro,
Não te acho,
Mas sei-te e
Isso é um tormento.

Vives na minha sombra
Mas levas mais luz que eu.

Não tenho nome que te chame
E se chamasse
Não virias.

Vives além das palavras ditas,
Vives num chão de terra cultivado
E colhido nas primeiras chuvas de setembro.

Pudesse eu ser fértil como tu!

Assim saberia como se constrói uma vida
E quantas gotas de suor fazem
Um dia de labor.

Tu sabes do chão,
Eu sei do mar.
Tu és dos meus olhos verdes
Mas eu ainda não tenho lugar em ti.

Quando chegar a noite
Pede ao teu corpo
Que se emprenhe de mim.

Rememoriar



São elegâncias passadas que raramente nos visitam. Tardes de sol e corpo molhado entre os banhos na praia e os lanches na sala antiga. Memória de uma infância guardada no zelo das primeiras horas e constantemente revivida, reinventada, readquirida. Nomes ditos de cor pelo prazer de chamar os que já não estão, mas que ficam sempre. Tardes de um Agosto distante que, espero, chegue depressa.

O nu de Radcliffe e as suas curiosidades



Com tanto falatório em torno desta polémica do jovem Radcliffe aparecer nú nos cartazes de propaganda da sua primeira peça (bem como na peça em si), não quis deixar de deixar em nota o que acho.

De facto, o nu é um fenómeno curioso. Usei durante muito tempo no MSN uma imagem de Gale Harold e Randy Harrison (Queer as Folk, the american series) representando as suas personagens, Brian e Justin, em pleno acto sexual. Confesso que o fiz por pura provocação e que obtive o resultado desejado. No entanto, esse mesmo resultado não passou de meia-dúzia de comentários mais ou menos bem-humorados sobre a dita imagem. E porquê? Porque ainda que ambos aparecessem nus e simulando o acto sexual apenas se via o bem torneado rabo de Gale Harold.

Descobri na net há relativamente pouco tempo as fotos para a propaganda da peça "Equus". As fotos são, em meu ver, de uma beleza extraordinária, com um jogo de luzes muito bom e uma brilhante encenação estética, com o jovem Daniel num ar de fria masculinidade anglo-saxónica, algo que quase poderíamos chamar de agressividade elegante e delicada.

Ora, quando tomei posse desta foto que apresento passei a usá-la no MSN, pelas razões referidas, porque me agrada o pequeno e porque sim! Pois agora não há pessoa que não critique a dita foto. E porquê? Porque é um nu!

Descobri que podemos servir-nos da pornografia na net e seus afins desde que não se vejam genitais.

Para aqueles que conseguem ver além dos desnecessários pudores fica uma foto belíssima.

domingo, março 18, 2007

Uma vez numa tarde de Domingo

Fui lá beber palavras
Encantos sonhados,
Vividos.

Sou cheio de espanto!

Aprecio estes recantos
Guardados, escondidos,
Segredos da tarde
Em meus pés cansados
De passear ao Domingo.

Tardiamente me encosto
Recostado nas letras
Seguro, secreto,
Criando as palavras
Ofício continuo,
Enquanto nos teus livros,
Cabaças,
De lento bebessem as Áfricas.

quinta-feira, março 08, 2007

Conto de Gustavo-II

Para Daniela Brigue Varela, que sente como eu. Para Filipa Tereno Nunes, que me lê como uma transparência. Para Maria Ribeiro Braga, cuja extraordinária beleza e tocante delicadeza me inspiraram.

O trânsito não avança. O relógio do carro mostra 14:11. No visor do telemóvel que começou agora a tocar pisca o nome de Artur.
-Sim?
-Olha, falei agora com a tua irmã Teresa, por causa de vir cá deixar os miúdos. Ela disse que não tinhas passado por lá.
-Sim, é verdade. Acabei por não ir lá a casa. Se eu te disser onde fui zangas-te?
-Foste aos Penedos outra vez ver os teus fantasmas!
-Sabes que não gosto nada quando falas assim. Precisava de lá ir. Precisava de ver as coisas para sentir a ausênsia das coisas.
-Eu só não sei se com essa poesia toda tu precisas de te despedir das pessoas ou da segurança que essas pessoas te transmitiam.
-Olha, quando um GNR me mandar parar o carro queres que lhe peça um tempo para te responder, ou passo-lhe o telefone para ser ele a resolver essa tua dúvida filosófica?
-Espirituoso! Ainda estás nos Penedos?
-Não. Estou parado no IC 19. Acreditas que esta porra tem trânsito a esta hora?
-Eu não acreditava era se não tivesse trânsito!
-É verdade, Artur, tu não te importas mesmo de ficar com os miúdos?
-Não me importo nada Gustavo. Tu sabes que eu adoro ficar com os teus sobrinhos.
-Então está bem. Aquilo deve acabar lá para as cinco, cinco e meia. Passamos aí por casa depois para tomar qualquer coisa: eu, a Teresa, o Inácio e o Miguel.
-Vá então, beijo.
-Outro.

Havia sempre este conflito entre os dois: os Penedos. Desde que a avó morrera há menos de dois anos que Gustavo ia pelo menos duas vezes por mês aos Penedos, a quinta dos avós em Colares.
A quinta tinha sido mandada construir por um dos vários ilustres antepassados de Gustavo lá para meados dos século XIX quando Sintra, e por acréscimo Colares, se tornaram local de férias da Família Real e logo a zona chique de veraneio a par de Cascais. Agora, com os avós mortos, a quinta restava fechada e de certa forma abandonada, não por desmazelo da família, mas por dor, uma dor imensa que atravessava todos uma vez que para eles aquele lugar não existia separado da presença dos seus patriarcais donos. Era agora uma coisa quase romântica, uma ruína deixada ao acaso, mas carregada de memórias e de imagens. Gustavo era o único que se aventurava com tanta frequência para além do grande portão de ferro dos Penedos. O que ia lá buscar nem ele mesmo sabia. Dizia a si próprio que ia despedir-se dos avós e sentir nos móveis e nos objectos que ficaram a ausência daqueles que haviam partido. Mas ao fim deste tempo, e ainda que não o chegasse a confessar, tinha que admitir que Artur estava de certa forma certo. Mas não inteiramente. É verdade que não se conseguia desligar do conforto e da segurança que aquele lugar lhe oferecia, da maneira como o transportava para o tempo idílico da infância. Mas também, por outro lado havia tanta coisa para lembrar ali. Era tudo tão mais complexo e difícil do que aquilo que Artur punha em palavras. Estava tudo tão emaranhado dentro dele. Era quase como decidir por ficar com a melhor metade de um quadro e deixar a outra para trás- simplesmente não é possível, temos que levar tudo.

Abrir o portão era sempre um rito que o gosto teatral de Gustavo por estas situações tornava ainda mais magnânimo. Era um amor pelo exagero de certa forma escondido que Gustavo só revelava a si próprio nestas coisas e que só os mais íntimos, como Artur, eram capazes de ler nele. Seguia pelas escadas que davam à entrada principal. Entrar era mais do que voltar a casa, era voltar atrás no tempo. O seu amor pelo exagero e pela grandeza atraía-o para os grandes salões da casa. Abria logo as janelas, mas deixava as cortinas corridas para que fosse tudo a média-luz, na criação de um espaço que ele queria e sabia onírico. Na sala principal da casa parava muito tempo sentado numa das poltronas frente à lareira que tinha, um de cada lado, os retratos da avó e do avô, ela de vestido comprido, ele com o seu traje de cavaleiro da Jarrateira. Antes havia sempre um ramo de flores frescas que Jacinto, o filho do jardineiro, colhia no jardim de três em três dias e punha no grande jarrão setecentista que ficava em cima da lareira. A avó adorava flores. Gustavo adorava flores. E lá restavam nesse mesmo jarrão os cadáveres das últimas flores que Jacinto lá colocara antes da avó morrer. Para Gustavo representavam mais uma fantasia romântica daquela casa. Depois levantava-se e seguia para o grande quarto de jantar. Lá estava a grande mesa com os dois candelabros de prata escola da Flandres do século XVII. E Gustavo lembrava as estórias que o avô contava sobre as muitas viagens daqueles candelabros que tinham vindo lá da Bélgica, mas que acompanharam D. Jerónimo na sua estadia na Índia portuguesa e D. Teodoro durante o seu vice-reinado brasileiro, dois ilustres antepassados da família de Gustavo. As muitas cadeiras com os lugares sempre certos para os filhos e os netos e sobre a lareira o belíssimo espelho veneziano que a avó trouxera duma das suas viagens a Turim, onde o comprara num leilão. Mas apesar do seu amor pelas grandes salas era sempre nas mais pequenas que se sentia melhor, um gosto quase vitoriano pelo recanto. A sala de xadrez, toda em madeira num pesado estilo neo-gótico com os contornos da sua imensa janela retorcidos em figuras que tinham atormentado a infância de Gustavo, dos manos e dos primos. Ao fundo o grande sofá Luís XVI, uma mistura arriscada que só o extremo bom-gosto da avó fizera funcionar. Mas era para lá da sala de xadrez que estava a sala preferida de Gustavo: a sala de música. Pequena e rectangular reservava quase metade do seu espaço para o grande Erard de cauda de 1840. No resto os confortáveis sofás de aspecto chinês para os quais a avó mandara bordar inúmeras almofadas com representações do quotidiano oriental. Ao longo da das paredes de imenso pé direito repetiam-se fotografias a preto e branco dos mais variados elementos da família. Avôs de bigodes retorcidos a fumar cachimbo, tias com grandes chapéus de plumas, avós com pentados elaboradíssimos, meninos ainda bebés usando longos vestidos no dia do seu baptizado. Eram figuras fantásticas que tinham habitado a infância de Gustavo e de quem Gustavo sabia os nomes e os hábitos como se com elas tivesse vivido. Tinham-lhe nascido nessas horas mágicas do verão, entre as duas e as quatro, quando o grande relógio da sala de bilhar, ao lado, batia as três e o mundo semi-cerrava os olhos numa média-luz que nunca demorava muito. Tinha sido a hora dos afectos em que ele se sentava aos pés da avó, que se sentava num dos cadeirões e a ouvia contar estórias daquela gente que havia vivido no seu passado. Foi o tempo dos segredos e das intimidades onde se ataram laços de seda que Gustavo sabia ninguém ser capaz de cortar. Felizmente a avó restava ainda nesta sala presente no grande retrato que ocupava sozinho uma das paredes. Era a avó, a cavalo, com quinze anos na quinta dos seus pais na Chamusca. Tinha os cabelos loiros escorridos sobre o ombro direito e nos seus olhos claros brilhava um brilho de pedra preciosa que manteve ao longo da vida. A pele apenas ligeiramente queimada, como se nela a pele teimasse em permanecer para sempre naquela alvura delicada que tinha. Encantava-o a visão da avó, no seu ar de menina, vestida naquele fato de linhas tão direitas e masculinas, em que a sua beleza, que se advinhava já estonteante, quase que explodia dentro do fato. Afinal, Maria das Dores fora sempre, em todas as idades, uma mulher de uma beleza invulgar. Gustavo gostava de acreditar que havia algo de mágico no seu nome, nome que carregava num misto de orgulho e fardo e que se repetia na sua família há gerações quase incontáveis. Eram na verdade, gerações de Marias das Dores, sempre casadas com diplomatas que haviam passado o seu nome como se ele pudesse sustentar uma família. Nome que coubera à avó fazer repetir no futuro dando à luz uma outra Maria das Dores, mãe de Gustavo, que tivera também uma Maria das Dores, que por sua vez, há quatro anos tivera a mais nova Maria das Dores da família.

Depois, lá fora, estendia-se o grande jardim da quinta e mais além os terrenos continuavam, florestas por onde Gustavo e os primos aprenderam a andar a cavalo. Ficava sempre sentado no terraço a olhar a pisicina. A visão da água fascinara-o sempre e tinha o poder de o levar a um estado de meia-sonolência. Então era como se sonhasse com as primeiras tardes de Maio, com o abrir das rosas no jardim, e os primos todos de volta da mesa do terraço, de corpos molhados, a comer sandes e a beber sumo de laranja. Mais tarde com os outros verões chegaram esses tempos confusos, que Gustavo organizava na sua cabeça como o tempo de Martinho, em que a visão do corpo molhado e semi-nu do primo, na sua beleza e musculatura perfeitas de estátua grega o fazia descobrir os primeiros prazeres do corpo no quarto de banho do pavilhão da piscina. Era tudo ao mesmo tempo tão próximo e tão distante. Como se enquanto memórias tivessem acabado de ser vividas, mas enquanto vida pertencessem já a um tempo muito distante e muito antigo de que Gustavo tinha apenas uma ideia leve.

Quando deu por si tinha já chegado a Lisboa e levava agora o carro para o Príncipe Real onde a sua irmã Teresa lhe dissera que ia haver o leilão. Andava à meses aflitíssimo por causa deste leilão sem ter bem certeza do que fazer. Só sabia que tinha que vir. Parou a custo num lugar perto do jardim e ainda perdeu dez minutos à procura da galeria. Era uma zona de Lisboa que o encantara sempre, a praça do Príncipe Real. Morando no Rato preferira sempre aquele jardim ao mais elegante jardim da Estrela. Era como se ali, numa qualquer hora mágica à qual era preciso estar atento, ainda se conseguisse viver na Lisboa oitocentista. Mas agora não havia tempo para estes devaneios. Eram já três e dez e Gustavo tinha que lá estar um pouco antes para o sempi-eterno social.

A galeria ficava num desses edifícios antigos da rua D. Pedro V por debaixo do prédio onde Teresa e Inácio moravam. Aliás, tinha sido assim que os pais tinham descoberto aquela galeria. Desde a morte da sua mãe que Maria das Dores, a mãe de Gustavo, se fora aos poucos desfazendo de algumas peças que a lembravam dela. Eram sobretudo peças que tinham estado nos Penedos ou na casa dos avós em Campo de Ourique e que tinham passado para o casarão do Rato onde Gustavo crescera e onde moravam os seus pais. Mas quando a mãe decidira vender a Pietá quase que tinha ensandecido. Perder aquela Virgem era quase como perder a avó de novo. A Pietá fora sempre a grande confidente de Gustavo, aquela que guardava os seus segredos mais íntimos desde a primeira noite, quando, cheio de coragem, se esgueirou para espreitar Martinho e ela fora o seu único consolo. De certa forma, era um outro lado da avó a quem fazia as confidências que estavam para sempre proibídas à sua maior confidente que fora sempre a avó Maria das Dores. Discutira várias vezes com Artur se devia comprar a imagem da Virgem. Artur achava-a belíssima, mas de certa forma temia aquilo que ela representava para Gustavo e tinha mesmo ciúmes dela por saber que aquela Virgem guardava mais segredos de Gustavo do que ele algum dia iria saber. Em suma, tinha-se decidido que não seria Gustavo a comprar a Pietá.

Lá dentro a sala da galeria estava convenientemente aquecida com os ares condicionados, nada daqueles calores exagerados quase a roçar os trópicos que se fazia sentir na biblioteca da faculdade. Os frios rigorosos de Novembro chegavam agora apesar das tardes esplêndidas com que o sol decidira honrar Lisboa nas últimas duas semanas. Enquanto descalçava as luvas encontrou Teresa e Inácio.
-Então e o Miguel?
-Ainda não chegou.
-A Maria não vem mesmo, pois não?
-Não. Disse que achava que já era masoquismo a mais e que não aguentava mais nenhum leilão com peças da família. Eu vou-lhe ser honesta Gustavo, eu também não sei quanto mais é que aguento. A mãe teima em fazer isto aos bocados sei lá porquê. Parece que se anda a purgar duma culpa qualquer. Eu já estou como dizem os ingleses "a person can only suffer so much"!
-Sim, sim, é claro que tem razão, mas adianta falar com a mãe? E depois o pai com aquela filosofia de "nas coisas da sua mãe eu não me meto". Enfim... Por falar nisto tenho que ir dar um beijinho aos pais.
Num dos cantos Sebastião e Maria das Dores Lemos da Cunha restavam discretamente trocando algumas palavras. Maria das Dores agora sempre com um tailleur preto deixando escapar no pescoço um colar de pérolas brancas. No seu porte altivo habitual não era senão uma sombra daquilo que fora a beleza e a presença da mãe. Sebastião Lemos da Cunha estava muito direito, aliás como sempre, no seu ar de militar, esplêndido no seu fato italiano. Gustavo aproximou-se dos pais para os cumprimentar.
- Gustavo, a mãe pede-lhe mais uma vez, não vá fazer nenhum disparate! Não se atreva sequer a licitar a peça.
-Sim, mãe, já tínhamos resolvido esse assunto, não já?
-Espero que mantenha o combinado. Está ali a Amélia Brandão de Lacerda. Desculpem, mas tenho que lá ir cumprimentá-la.
Com a saída da mulher Sebastião afrouxou um pouco a sua pose sempre rígida para dizer a Gustavo:
-Agradeço-lhe tanto que venha, filho. Eu sei como estas coisas são difíceis para si, aliás para a família toda. Mas apesar da mãe não dizer a vossa presença dá-lhe uma grande segurança.
Gustavo sorriu. Era impresionante como o pai o continuava a espantar. Ninguém que não pertencesse ao núcleo mais íntimo da família seria capaz de perceber o marido dócil e atento e o pai extraordinário que Sebastião era por detrás da figura do rigoroso Coronel Lemos da Cunha.

Os pais sentaram-se à frente. Gustavo, Teresa, Inácio e Miguel, o marido de Maria das Dores que entretanto chegara, sentaram-se um pouco mais atrás. Gustavo começou a suar das mãos, sinal claro de nervosismo. Mal ouviu o homenzinho da galeria dizer que se ia licitar uma belíssima Pietá de artista desconhecido, mas certamente português, do século XVIII. A base de licitação era de €5.000. As licitações subiam, €6.100. As mãos a tremer. A voz do homem parecia cada vez mais irritante. A Pietá à sua frente como naquela noite. €7.650. De súbito, a voz calma de Teresa, a sua mão sobre a de Gustavo:
-Sabe que mais, borre-se na mãe.
Levantou-se de repente:
-Trinta e cinco mil euros!
E um alívio enorme percorreu-lhe todo o corpo enquanto se sentava. Estava feito, não se voltava atrás. Agora era só aguentar os sermões que se iam seguir ao olhar reprovador que a mãe já lhe lançara. Mas comparado com a alegria de ter comprado a sua Virgem isso era coisa de pouca monta. Resolveu o que tinha a resolver, levantou a imagem, despediu-se do pai e entrou no carro.
-Sempre vamos para sua casa, perguntou Teresa.
-Claro, então agora ainda mais. Ligue à Maria e diga que está intimada a ir lá jantar.

Gustavo mal viu o caminho que o levou do Príncipe Real ao seu apartamento na Andrade Corvo. Chegou eufórico, mal conseguindo esperar pela irmã e os cunhados. Teresa estacionou o carro.
-Agora é passar pelo Artur.
-Não, eu até acho que, de certa maneira, ele já sabe.
Entraram no belíssimo edifício dos anos quarenta. Foi Teresa quem abriu a porta.
- Chegámos, disse Teresa.
-Mãe, gritaram as crianças enquanto corriam para a abraçar.
-Entrem, entrem, respondeu Artur. Estava com os miúdos na cozinha a fazer umas tapas para agora. O Gustavo disse-te que estamos sem escrava?
-Oh, Artur, coitada da senhora.
-Olha, que é do Gustavo?
-Temos uma surpresa, espreitou Gustavo pela porta.
-Então quanto é que o teu irmão deu pela Pietá, perguntou Artur a Teresa.
-Meus Deus, mas tu sabes sempre tudo?
-No que toca a ti Gustavo, sim!
-Hum, então se calhar isto é amor, disse Gustavo com um sorriso irónico e de gozo enquanto ele e Artur se beijavam e Teresa ia já a caminho da cozinha para acabar de fazer as tapas com os filhos.
-Tinha pensado em pô-la no escritório.
-Acho bem, passas lá mais tempo do que em qualquer lado da casa.
O escritório era pequeno e estreito mas com uma janela imensa que o inundava de luz. Verde, a cor preferida de Gustavo, com uma grande cadeira de braços em vime para a secretária e duas iguais noutra ponta com uma mesa de canto. Uma estante apinhada de livros correndo uma das paredes. Gustavo colocou a Virgem em cima da secretária. Sentou-se. Artur enroscou os braços em torno do pescoço de Gustavo enquanto olhavam a Virgem.
-Vieste guardar os teus fantasmas?
-Não Artur, vim soltá-los dentro de mim e aprender a viver com eles.

quarta-feira, março 07, 2007

Desejo-te

Teu corpo,
Uma delícia revelada
Por entre as coisas
Que imagino.

De súbito
As minhas mãos
Perdem-se
Na seda das tuas
E a minha língua
Viaja-te,
Itenerário leve
De cadências longas.

Meu corpo,
Uma fantasia
Que tu descobres
Nas voltas do teu relógio,
Teu tempo próprio.

Invades-me
Enquanto me deixo tomar,
Cidades de muros caídos.

Lisboa que te sente a falta

Para Sérgio Dias de Figueiredo, com saudade.

Que diz a Cidade da tua ausência?

Diz das tuas mãos que não a tocam
Dos teus pés que não a caminham
Dos teus risos que não tos ouve.

Porque te demoras nas tardes
Agora que chegou a Primavera?

Não sabes que Lisboa nos ama a Todos
E embala o rio como o choro
De seus filhos distantes?

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Conto de Gustavo

A medo abre a porta do quarto devagar. Esperou meticulosamente de olhos abertos a chegada desta hora que o relógio do quarto parecia fazer demorar. Os pés descalços, para não fazer barulho, entram no corredor. Nas paredes altas repetem-se os quadros de avoengos antigos, presenças assustadoras de uma infância ainda há pouco vivida, que de novo parecem semi-cerrar os olhos para lhe lembrar que o que faz é mal feito. Felizmente que ao fundo resta a grande imagem da Pietá, consolo eterno da avó, e em segredo também seu. Para si foi sempre ele nos braços da Virgem em vez do Cristo morto. Ele nos braços da mãe, não no fim da vida, mas numa espécie de vida fetal ainda por nascer.

Uma porta, outra porta, mais duas. Por fim, o grande quarto de hóspedes. Ele resta breves minutos indefinidos numa infinita espera. As mãos arriscam a maçaneta por várias vezes sem nunca a agarrar, até que se sente invadido por um surto de coragem e abre a porta. Todo aquele momento gira na sua cabeça fazendo dançar um turbilhão de ideias. Como se vem tornando habitual vive e pensa os instantes tudo ao mesmo tempo o que torna tudo mais confuso. Em si resta um misto de terror e de auto-reprovação apimentado por uma curiosidade de descoberta, descoberta que é mais sua do que de qualquer outro. Mas ainda que pense este momento serão ainda precisos alguns anos para que uma maturidade crescente lhe permita arrancar estas conclusões à memória. Será preciso passar a calma acastanhada dos outonos cadentes e os rigores frios de um Inverno que se anuncia cada vez mais próximo até chegar a uma Primavera (que por ora ele nem imagina que possa existir) libertadora e fulgurante culminando com o seu corpo nú nas águas de uma praia nesse Verão catárquico que há-de chegar. Mas isto são tudo coisas que se avizinham nas estações e que moram no seu futuro.

De mansinho, Gustavo abre a porta do quarto de hóspedes. Como uma terra prometida a imagem tão ansiada: o corpo nú de Martinho estendido sobre a cama sem qualquer coberta. Revela-se numa beleza fria de estátua ao mesmo tempo desejável e distante, provocatória sem que em si Martinho faça nada para o ser. Afinal, o primo dorme na tranquilidade do seu sono nú e talvez seja isso mesmo que faz dele ainda mais belo e ao mesmo tempo (felizmente) intocável. O corpo de Gustavo cede naturalmente e o sangue começa a correr com mais força. Mas não há em si nenhuma vontade de se tocar. De certa forma isso estragaria a intensidade deste momento. Este é afinal um instante de descoberta e de alguma maneira, ainda que vaga, Gustavo tem já noção disso. Não é como aquelas tardes quentes de verão em que a visão do corpo semi-nú e molhado de Martinho o faz correr para o toillette do pavilhão da piscina na quinta dos avós. Gustavo descobre com algum prazer que este não é um momento físico. Enquanto a penumbra o vai permitindo ver o corpo nú do primo e os olhos se habituam à escuridão Gustavo estuda cuidadosamente cada bocado de Martinho. É como um exercício analítico em que o estudo do corpo nú de Martinho lhe vai permitindo conhecer o que lhe agrada ou não. Martinho serve de primeira base para uma definição do seu gosto. Este gosto que agora se torna claro e vai adquirindo os seus moldes e que faz Gustavo entender que embarcou numa viagem sem regresso possível. Não que alguma vez a caravela tivesse prometido algum regresso, mas só agora, perante o corpo nú de Martinho, símbolo de tudo aquilo que ao mesmo tempo esconde e anseia, é que se apercebe disso.

Demora-se no quarto um tempo que ele próprio preferiu não contar. Sempre junto à porta, tentando o mais possível manter-se imóvel e sem fazer barulho. Felizmente Martinho não acorda. Nunca saberá desta noite nem da importância desta noite na vida do seu primo Gustavo. Gustavo por seu lado percebe muitas coisas. Fecha a porta. Em volta, no comprido corredor, já não há nada de acusativo nos olhos pintados nas telas dos avoengos, reflexo das acusações que se fazia a si próprio. Mas ao fundo a Pietá ainda resta como imagem de consolo, mãe para sempre carinhosa e protectora que o amparará num mundo que acaba agora e num outro que começa. O mesmo silêncio de volta ao seu quarto, os pés deslizando de mansinho sobre o tapete. A porta fecha-se. Gustavo volta para os seus lençóis. Como sempre a janela resta aberta (marca do seu medo infantil do escuro). Nunca Gustavo ansiou tanto pela chegada da manhã. Saberá mais tarde que a nova manhã trará o seu Outono e por vezes desejará um outro tempo até que as manhãs repetidas lhe tragam um novo Verão.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Amar e um piano

Os dedos esguios buscam nas teclas frias do piano o calor da carne dela enquanto ela se contorce sobre si mesma numa dança lenta, mas contínua. É como se ela se entregasse a ele entregando-se ao piano e à música que ele desenha sobre as teclas. Ele busca-a incessantemente no piano e conhece cada curva do seu corpo através de cada nota.

Ela tem um corpo esguio e magro. É como se fosse uma flor de cristal e a todo o momento restasse o perigo de partir os braços. Mas os braços não se partem voam. Ou esvoaçam parecendo que voam. Ela embebeda-se na música dele, doce, suave, calma, como uma primavera que de súbito tivesse chegado mais cedo. Os dedos dele nunca se alteram só a música cresce e se transforma, agora intensa, depois não tanto. As musas vêm buscá-la. A música transporta-a a algo divino, ascético. O corpo não pára jamais. É como se continuadamente fizesse amor com a música, com o piano e por fim com ele. É como se ele lentamente a conhecesse, a masturbasse e finalmente a penetrasse em cada tecla.

Ele toca, ela dança. Olham-se, anseiam-se, desejam-se, mas jamais se tocam.

E se o verão de súbito regressasse?

Talvez te diga das cartas,
Das folhas,
E do chá nas tardes calmas de Inverno.

Porque a minha vida é como o livro manso
Que resta na mesa de cabeceira.

Leio(-me) devagar .

Invento nos livros uma mitologia
Nova e minha.

Não tenho mais que te diga. Tu procuras tanto de mim.

De súbito peço: esgota-me.
Levanta o livro da mesa e lê-me vorazmente.

Que saudades do verão que volta com a tua voz
Enquanto tu enches o quarto de mim,
Palavras que buscas nos livros.

Traz de volta o sol e o encanto de ser feliz sem roupa
Enquanto deixamos o corpo adormecer
À beira-mar.

É à beira-mar que cultivamos nossa terra de sonhos,
Desejos que escreves na areia
E que o mar apaga.

Aguardo.
As horas rasgam os dias
Sem sequer pensar em nós.

Só um mês,
Mais uns dias.
Agora a primavera.
Depois o verão.

Enquanto,

Anseio...

sábado, janeiro 27, 2007

A escrita

"O alívio que deriva do género de trabalho que produzo com o cérebro e o coração reside nisto: só no silêncio activo do pintor ou do escritor é que a realidade pode ser reelaborada e revelada no seu aspecto verdadeiramente significativo."

Lawrence Durrel in O Quarteto de Alexandria I. Justine.

Em dias que guardamos para nós

Hoje abandonei-me do mundo. Vim viver um bocado em mim. Deixei-me ficar na turbulência deliciosa e mansa de quem acorda e adormece entre as primeiras horas de sol. Dormi sem ninguém à minha espera e acordei quando esperava por mim.

Li, li muito, deixei-me ler. Perdi horas de livro na mão, enquanto subitamente andava lá por Alexandria entre uma Grécia que já não existe e uma cidade que só nós fazemos existir. Perdi-me por lá e demorei a voltar.

Voltei para escrever. Fui buscar palavras às salas da casa que ainda deixei na penumbra dos estores meio corridos. Achei-as em breves raios de luz que furavam caminho. Sentei-me para escrever cartas e escrever sobre escrever. Que encanto pensar em nós num dia que para nós guardámos e saber como gostamos do que fazemos.

Ouvia. Algures pela casa, nos caminhos do corredor, chegavam-me as vozes das divas que de manso me cantavam Vinícius. Deixei-me embebedar de leve numa dança que ainda não conheço, mas que o meu corpo soube bem desenhar.

Com a tarde regresso. É preciso espreitar o mundo pela janela e deixar a luz correr pelos estores agora abertos. Lá fora o dia, a vida- encontro-me.

Enquanto me olhas nas horas da escrita

Das palavras que toldo, que temo
Transformo.

Enquanto te digo encanto,
Te danço, te arrasto, te rasgo.

Enleias meu labor.

Teus cabelos,
Cavalos vagueando em torno do meu pescoço.

Meus olhos entornam vagas de amor
Que a ti tornam.

Desenho,
Descrevo,
Teu traço,
Te escrevo.

Volta-me

Enquanto te deixo
Me deixas.

Que importam as tuas carícias
Se tu não estás nelas?

Meu corpo, terra de abandono,
E o vento impele
Sobre a minha pele
Sinais da tua ausência.

Música cadente
Que me incandesce,
Resto teu porão esquecido,
Sensibilidade dos meus poros que te lembram.

Encanto, valsa, soneto,

Volta-me.

Enumeração

Encanto cadente
Valsa
Soneto
Serenata

Aliciante
Marcante
Maresia
Sereia

Semeio
Semente

Força
Esforço
Esgar
Frio
Elegante
Elogio

Dente
Densidade
Doar
Nostálgico

Número
Encanto
Enumerar

sábado, janeiro 13, 2007

Quando os nossos corpos

Teu corpo, que delicia,
Um encanto que acordo
Enquanto ainda dormes
Entre as minhas mãos

Minhas mãos que te prendem
E por onde teu corpo anda solto

Nossos corpos, geografias,
Por-do-Sol
Palavras

As tuas pernas enroladas nas minhas
Uma brincadeira,
De súbito os beijos

Um encanto
Agarro-te quando os teus olhos
Me dizem do desejo

Enterras-te em mim
Uma sede sem oásis

Uma busca intranquila

Meu corpo onde não paras
Mas ficas

Onde descansas em tumulto

Eu gemo aos teus ouvidos
De mansinho

Tu violas-me
Eu deixo

Até caíres sobre mim
Exausto das viagens

E quando a luz nos inunda o quarto

Eu sei que escolhes ficar por mais um dia.

Das palavras, que encanto

Correm-me palavras
Sempre
Constantes

A umas agarro-as
A outras deixo-as

Umas dizem-me
Outras ferem-me

Por vezes tenho medo delas
Por vezes deixo-as agonizar
Enquanto morrem
Na minha preguiça lenta

Enfrento-as
Há sempre essa hora
Em que elas me voltam
Rasgam-me magoam-me
Enaltecem-me elevam-me

Encantam-me

Colho-as
De leve
Escolho-as
Com precisão
Meço-as
Na balança que guardo em mim

E dou-as
Desapegado
Enquanto elas me fogem
Por entre os dedos
Das minhas mãos abertas

O Chá

Lisboa entardece no frio do seu sol de Janeiro. Entregas-me a uma esquina esquecida da tua rua. Há, de súbito, um cheiro que me alerta os sentidos. E de repente folhas de chá dançam-me com a coreografia milenar das mãos que as colhem quando o sol vem aquecer a Primavera, lá do outro lado do mundo.

O chá é como um líquido sagrado dos deuses com culto próprio. Uma palavra para mim: saboreia. Leve e suave, pequenas agulhas de prata. O chá entra delicadamente por mim, descobre-me. Primeiro o o nariz, os olhos, depois a boca e as mãos. O meu corpo tacteia o chá levemente, enquanto os meus dedos se prendem em torno de um corpo de vidro quase orgânico pousado numa folha de cobre.

Deixo-me estar mais um pouco nesta elegância descoberta de repente, mas com o cuidado de quem sabe apreciar as coisas. Fecho os olhos. Tudo me inunda. Um cheiro que quase se bebe em antecipação do que está para vir.

Palavras arrancadas a custo, numa altura que não é de palavras, mas de sentidos. Sentidos que me enleiam e que me levam. O chá...

P.S.- Não deixem de ir ao "Chá não falta" numa das esquinas da Andrade Corvo.

O Silêncio

O silêncio é

A atenção que deixamos recair sobre as coisas.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Das coisas que há no mar e nas ilhas guardadas na minha infância das primeiras horas

Busco um tempo fértil de palavras
E procuro em mim a hora da minha infância
Que tenha em si guardada
O início da poesia.

Hoje o poema diz-se em mim devagar,
Como uma onda que vem leve,
Mas que leva o verde das serras até ao mar.

Sophia fala-me de mansinho

Duma terra que eu amo de pés molhados.

Construo o poema num equilíbrio delicado
Entre a infância, o Verde e o eu.
Desfaço ligeiramente o novelo dos primeiros dias
Onde em suas linhas encontre as horas que me falam das palavras.

Em campo fértil de palavras
Meu labor árduo
Meu encanto em sangue
Minha dor de escrever
Dizer poema
Para vê-lo escrito
Perdidas horas de infância
Que agora me oferecem as coisas que há no mar e nas ilhas.

Mar

Dá-me palavras-plantas,
Pedras, rios
E diz-me de coisas que cresçam
Com a leveza furiosa das ondas

Meu corpo
Ilha nas ilhas
Água, parte do mar
Mar em si

Imensa sucessão de palavras
Imensidão. Micro-cosmos.
Palavras-plantas que me digam ilha.
Talvez eu
Eu e o mar
Perdido no mar que sou eu.

Descoberta,
Corre em mim o sussurro lento das ribeiras.

Sou como as trutas do Ribeiro Frio:
Nado sem destino, mas sei que nado.

E o dia (re)nasce ,
Luz que bate nas águas
Do mar que sou.

domingo, dezembro 24, 2006

Feliz Natal!

A vasta equipa d'"Enquanto Lisboa namora o Tejo..." (que sou apenas eu) agradece a amizade de todos os seus leitores e a todos deseja um feliz Natal!

Faz-me falta um fado

Para ti, minha companheira de fados.

Agora falta-me o fado

Quando começo a ter saudades de ter saudades

Quando o meu corpo te sente a falta

E alguém geme numa guitarra

As palavras que gostava que fossem minhas


Agora falta-me o fado

Nas noites longas do Inverno

Uma dor que aqueça a minha

Na nudez de uma cama vazia

Onde a saudade me adormece


Agora falta-me o fado

Quando me esqueces não sei onde

Nos braços não sei de quem

E meu coração magoado

Anseia por ti só

E mais ninguém.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Nós

Ao Luisillo, que bem mais que o meu silêncio é a fonte de todas as minhas palavras.

Meu sonho de Verde,
Nossas verdades.

Escreves palavras em cada acto que tomas,
Nosso secreto vocabulário.

Os olhos, uma nova gramática.
Em ti meu campo lexical de palavras.

Teus braços
Que me abraçam
Enquanto me falas
Sem palavras

Só os olhos

Nós os dois

A noite, mais nada.

Vem de ti a palavra.
Dizes!

Para mim és o mais importante.

Paixão urbana

Para o Ricardo Proença.

Levas a passear
Minha paixão urbana
Pelas ruas da cidade
Enquanto me beijas nas salas de cinema.

Orquestras as cores que existem
Numa elegância delicada
Como o céu pintado numa galeria da Baixa.

Não te perco,

Deixas-me

Teu corpo, o meu
Tão poucas as palavras perdidas entre as horas

Nas horas da cidade
Não te deixo

Guardo-te

Como a elegância dum gelado comido em Novembro.

De mim te dirá
A cidade que me ofereces devagar,
Um Natal precoce e longo.

Peço-te

Sabe esperar na cidade a minha hora.

Insular

Para a Rosa Carreiro, que conhece os segredos das ilhas.

Teu sorriso leve
Dum canto do Verde
Que Lisboa não te roubou
Perde-se nos teus cabelos
Numa esquina do Chiado

Teu peito carrega um duplo amor
Uma força insular
De ser ilha mesmo além das praias

E assim, quando andas
Pelas ruas estreitas do Bairro Alto
Ondas rebentam aos teus pés.

Porque teu corpo e tu
Vivem de dois mundos
Amor de quem nasceu a cheirar o Verde.

Dos segredos que habitam as palavras

Para a Sara Guia d'Abreu.

Das palavras me dizes
Da tua ânsia delas
Que nelas repousa

Teu sentir escreve-se nas palavras que buscas,
Um livro branco de Yourcenar,
Uma água doce.

Encanto das tuas cores
Na demanda incessante das palavras
Que a poesia te traz.

Gastas as tardes dos teus junhos
Guardas as tardes dos teus junhos para as palavras

E mesmo embalada no calor vivo
Das três horas da tarde
Teu livro não cai da rede onde dormes.

Perdida entre as palavras,
Tuas rússias distantes,
Estórias antigas

Buscas algo que te faça
Saber passar a barreira
Inultrapassável das horas.

Das palavras me dizes
Quem perde, quem acha,
Quem busca,
Suaves grafias
Em que se recorta a vida,
As palavras!

sábado, dezembro 16, 2006

Sentir

Para a Rosa Carreiro a quem descaradamente roubei estas palavras.

Mantens-me em palavras poucas

Enquanto me fazes desaprender a falar

Entregas-me à força do teu corpo

Os teus braços

A minha cintura

Nós

E levas-me a necessidade das palavras

domingo, dezembro 03, 2006

sábado, dezembro 02, 2006

Just like Marie Antoinette. Retrato de elegante no Lux.

Leva-me a dançar ao Lux, she said just like Marie Antoinette.

Lá fora, além das janelas cruas, a chuva cai cortante como ela. Uma maravilha de vidro e betão- ela e o loft. Na imensidão dum espaço criado para ser vazio como ela, nem um olhar. Para quê gastar os olhos verdes? As suas palavras escorregam pelas paredes frias. A sua vontade escorrega soberana até ele, just like Marie Antoinette.

Vestida como quem nasceu para ser de frio ela entra. Não há palavras, só olhares. Os dos outros, os seus nunca se desperdiçam. O corpo perfeitamente equilibrado sobe as escadas num dança ondulante retorcida pelos espelhos. Ela ama-se até à infinidade em que a sua imagem se reproduz.

Pisa o chão como quem pisa a vida. Afinal ela é tão superior a tudo, just like Marie Antoinette. Nos lábios um São Francisco, o álcool já é demasiado vulgar. Senta-se. Não olha em volta. Não faria sentido. Ela pertence, não observa. De resto, ela já conhece tudo de olhos fechados. Tudo guarda a mesma elegância urbana que é a sua. Nem a música a faz mexer.

Na sua perfeição um vestido de veludo escarlate apertado no peito, escorregado na cintura, caido nas pernas. Uma ligeira ondulação- no vestido, nunca nela. As meias pretas. Os stillettos encarnados. No decote uma jóia de Lalique. Sobre o peito fiadas de pérolas negras. Os cabelos serpenteiam em volta da nuca, just like Marie Antoinette.

Levanta-se. Desce as escadas com uma elegância superior. A pista escura, as bolas giram e brilham. Tudo é belo e vibrante. Ela vibra na música que lhe entra pelo escarlate do vestido.

O corpo perde o controlo de si mesmo. Ela agita-se na pista em perfeitos movimentos ondulantes. O calor de tudo toma-a cada vez mais. O vidro da sua pele derrete. Ela ainda dança. Torna-se real. O olhar dela cruza-se consigo mesmo nos espelhos dos outros. Ela ama-se até à infinitude do seu reflexo, just like Marie Antoinette.

Agora ela está no seu elemento,

just like Marie Antoinette.

Lá onde passa o rio da minha aldeia

O rio da minha aldeia quase não existe no Verão, mas no Inverno as chuvas enchem-no e ele corre entre as pedras até ir desaguar noutro rio que eu não sei.

Às vezes gosto de olhar o rio da minha terra, no enclave em que nos abandona. E então deito-me a pensar em memórias de infância que vou fabricando enquanto a tarde me deixa.

O rio da minha aldeia faz-me lembrar o cheiro da compota e as horas de espera para que a compota fique pronta e as estórias que uma avó me contaria numa cozinha velha até as horas acabarem. Faz-me pensar em brincar no coreto com os outros meninos e jogar ao pião e ao arco e a coisas antigas de que os rios estão entranhados por força da sua longa vida.

O rio da minha aldeia vai furioso no Inverno, mas só me lembra coisas calmas como dias de escola com a chuva a bater nas janelas e as horas a morrerem no grande relógio ou em noites frias de nevoeiro com o corpo esticado à lareira.

O rio da minha aldeia nada sabe do que está para além do rio onde desagua e que eu não sei. Não sabe de Lisboa, nem das suas cores nem das coisas que eu gosto e que quero para mim, por isso eu não quero o rio da minha aldeia nem ele me quer, porque não tem nada para me dar. Mas há tardes em que olho o rio da minha aldeia e imagino...

Killer Queen

Ao Ricardo, que me apresentou a esta música.

"She keeps Moet et Chandon
In her pretty cabinet
'Let them eat cake' she says
Just like Marie Antoinette
A built-in remedy
For Kruschev and Kennedy
At anytime an invitation
You can't decline

Caviar and cigarettes
Well versed in etiquette
Extraordinarily nice
Chorus

She's a Killer Queen
Gunpowder, gelatine
Dynamite with a laser beam
Guaranteed to blow your mind
Anytime

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Insatiable an appetite
Wanna try?

To avoid complications
She never kept the same address
In conversation
She spoke just like a baroness
Met a man from China
Went down to Geisha Minah
Then again incidentally
If you're that way inclined

Perfume came naturally from Paris
For cars she couldn't care less
Fastidious and precise
Chorus


Drop of a hat she's as willing as
Playful as a pussy cat
Then momentarily out of action
Temporarily out of gas
To absolutely drive you wild, wild
She's all out to get you
Chorus


Recommended at the price
Insatiable an appetite
Wanna try?
You wanna try"

sábado, novembro 18, 2006

Trechos sobre Lisboa ou A dificuldade de escrever

Eu quero as manhãs geladas de Lisboa e tenho saudades do Sol. Canta para mim. Os teus braços à minha volta no miradoiro da Graça. Frases curtas numas linhas de papel. Ao menos se eu pudesse desenhar o teu corpo enquanto as minhas mãos o passeiam.

Sinto falta de ti e da cidade também. Há sempre uma câmara oculta nas esquinas dos bairros para nos apanhar debaixo dos varandins. Para ti a cidade não tem música, mas tem cheiro. O cheiro das pessoas é também o teu cheiro.

A tua língua no meu pescoço. Estou num impasse, mas continuo a escrever. É como uma sede. Parto para falar da cidade. Fico-me pelas palavras. Não é possível falar da Baixa de Lisboa assim, só em palavras. É preciso que as minhas palavras tenham vida. Mas elas não têm.

Os teus braços enrolados nos meus são um bom começo e um porto desce-nos pela garganta. Eu só quero escrever. O castelo está à nossa frente. Para quê fechar os olhos e imaginar outras coisas? O castelo está à nossa frente. Eu anseio desesperadamente por ter sentido. Torces-me a cabeça: alguém bate um tapete sobre uma janela numa casa amarela de Alfama. Lisboa é como um fado.

Eu quero a vida excitante, sentir as coisas que palpitam e provar as cores opacas do urbanismo. Tudo em mim é intenso agora. As tuas mãos estão dentro das minhas calças. As pessoas olham. Mas se tenho as ruínas do Carmo à minha frente para quê olhar para elas?

Escrever dói. É impossível parar de escrever. Leva-me até ao elevador de Santa Justa. É preciso que o vento me invada a cara e a marque. Tu não queres olhar de alto. Queres estar num beco a olhar para uma luta. Eu insisto em escrever. Tu insistes em viver.

Tu beijas-me contra uma parede da Rua Garrett. A tua língua viola-me a escrita. As pessoas aqui não olham. Tudo é urbano demais para que os outros se choquem com a maneira como influências o que escrevo.

Agora o bairro Alto, depois o Príncipe Real, o Rato, a Estrela. E nós, que nunca saímos do miradoiro da Graça. Tu acabas de beber. O teu corpo parado à minha frente a violar-me. O Sol põe-se, ou pelo menos sabemos que se põe para lá das nuvens. A tua mão agarra a minha. Já acabaste? Acabar não é para nós. Nunca se acaba de amar Lisboa.

sexta-feira, novembro 17, 2006

Tríptico de mim mesmo

Lá no ponto onde o mar assenta
Resta a minha consciência do mundo

O meu corpo vai envolto nas gaivotas,~
Comedor do tempo

Mas eu estou sempre dentro das coisas
Que estão dentro de mim

quarta-feira, novembro 08, 2006

Retrato de mulher em vestido de gala

Busca da elegância. E há sempre esse namoro prolongado com o espelho enquanto pinta os lábios. Agora as pérolas para o cabelo, três tiras sobre a testa. Na cintura magérrima o vestido, uma segunda pele. As luvas de manga de canhão descem os braços.

A mão estendida para quem lhe abre a porta. Não há últimos olhares.

Um flute de champagne ergue-se. Ela ri. E ela que quase nunca ri. Mais um brinde. Há um certo toque boémio em cada brinde, como se a vida se tornasse absolutamente fabulosa. O vestido voa por onde ela passa. Tudo é etéreo; nela e por contágio em tudo o que a rodeia.

A pele branca de mais, os cabelos louros de mais. Ela é quase transparente no vestido, onírica como um mundo criado com cuidado para si mesma.

É raro passarem-lhe pensamentos, mas por vezes o luar caído sobre certas nuvens mais escuras chama-lhe a atenção.

Agora a música. As mãos fortes de um homem, a sua cintura magérrima, os violinos que vibram tão alto. O corpo cai. Ela perde-se nele. É mais como se se deixasse ir. Quem sabe naquilo que pensa. Ela é como uma ave nas mãos dele.

Acabar é sempre difícil, mas nunca para ela. A realidade a que volta, a sua, é sempre irreal.

domingo, novembro 05, 2006

Palas Ateneia


Por entre a majestade do ouro e do escarlate das suas roupas, obsessão constante de Rembrandt, surje o seu rosto calmo, como que alheio à sua própria glória. É como se agora e sempre Atena, coroada pela coruja, restasse atenta apenas aos seus pensamentos, mar em si constante, e partisse mais uma vez para a guerra sem vontade de o fazer. A cidade ocupa-a, porque ela mesma se ocupa do Homem civilizado. E ela mesma é homem e mulher ao mesmo tempo, sumo Hermafrodita, juntando em si as qualidades de todos.

Retrato de rapaz em algumas variações

Perto de uma grande parede de vidro o seu corpo resta, como que jogado, a um canto. A sua expressão é ao mesmo tempo distante e orgulhosa. A perna direita flectida ao alto, a esquerda ao lado. É como se alguém o tivesse perdido ali e ele tivesse desejado permanecer perdido. Ali ele está perdido dos outros, mas não de si mesmo. Palavras repetem-se constantemente na sua cabeça e a consciência de se saber simultaneamente divino e rejeitado aflora-lhe a arrogência. O ar arrogante torna-o desejável porque distante e de certo modo inatingível. E isso desperta em mim uma vontade de ver a baixo do terceiro botão aberto da camisa. O corpo está exposto na camisa amarela e aberta e há nele uma doçura clássica e latina, num peito ao mesmo tempo másculo e delicado.

Eu desejo-o, é certo, para mim. Mas ao mesmo tempo, ainda assim, não o quero tocar. É como se desejasse apenas a sua essência. E mais que tudo a sua suma arrogância de estar ao mesmo tempo alheio e atento ao que se passa à sua volta, como se os olhos não soubessem o que sabe o corpo.

Guardo agora a sua imagem junto à parede de vidro. Lembro apenas o divino. De nada me serve nele o que é humano.

terça-feira, outubro 31, 2006

Tranquilidade

Na linha precisa em que o mar encontra o meu corpo

As ondas dizem palavras que me amansam o mundo.

domingo, outubro 29, 2006

Sensualidade

Há uma delicadeza imensa na maneira como ela se debruça. Ao mesmo tempo um misto de tristeza e absoluta segurança numa feminilidade que lhe sai da pele e nos intoxica como um veneno doce. O corpo caído numa exactidão medida, o busto revelado ao de leve, como se fora num filme a preto e branco. E é como se ela se mantivesse alheia a tudo enquanto canta e tudo acontecesse por mero acaso.

A bossa nova leva-a levemente, o corpo gigando, de mansinho, tudo é etéreo enquanto ela derrama as suas músicas numa sonoridade macia como só as brasileiras conseguem.

"Eu faço samba e amor até mais tarde/ E tenho muito sono de manhã". Tudo nela é simples como as palavras da música e nenhum indicador lhe pode medir a intensidade. Ela quase não anda, mas também não flutua. É uma coisa só dela, um andar de gato sobre as flores.

Agora ela tem o corpo derramado numa varanda do Príncipe Real. A cidade daqueles que não vivem morre devagar. É a hora. Mas nos olhos verdes não há expressão nenhuma. Glória onírica de uma existência perfeita longe das sensações.

Afinal, ela existe para fazer os outros sentir, sem que ela mesma sinta nada.

sábado, outubro 14, 2006

Nós- o meu corpo e tu

Para o Pedro, que me ensinou a linguagem dos gestos. Para o Ricardo que nos vai ensinando a ser simples.

Agora tu estás deitado ao meu lado depois das minhas mãos te terem arrancado algo a que tu chamas prazer. Mas eu não estou lá, só o meu corpo. Agora eu estou junto à janela, o meu corpo adormecido ao teu lado. Não penses que eu não oiço a tua respiração curta, meio a medo. Eu sei que neste momento muitas palavras morrem na tua boca, asfixiadas pela minha incapacidade de levantar os braços para ti depois daquele instante. Eu sei que as coisas entre nós são sempre imcompletas: não que tu o digas, afinal tu nunca te queixas, mas o teu corpo, os teus olhos e mais que tudo o teu beijo contam-me da tua insatisfação.

Enquanto o meu corpo dorme ao teu lado eu vejo os contornos da vida que existe para lá da janela. É um espaço em que não é noite nem dia. Daqui vêem-se apenas as essências das coisas. E há pessoas tão felizes a viver para lá da janela do nosso quarto. Mas eu não te sei fazer feliz porque estou parado à janela quando devia estar a dormir ao teu lado e não apenas o meu corpo.

De manhã quando eu me levantar com o meu corpo tu ainda vais estar a dormir e a única coisa que peço é que te lembres de mim quando eu já estiver algures na Estrela. Aqui eu já sou um com o meu corpo, aqui no meio da vida apressada das pessoas que não conheço, das pessoas que não me pedem palavras. Entre esta gente que leva uma vida vulgar e tão desinteressante eu sinto-me vivo outra vez, como naquele instante, e então o jardim da Estrela já faz algum sentido e perder-me entre os papéis do escritório é sempre uma aventura. Porque eu gosto da minha vida como ela é, eu gosto da simplicidade banal dos dias em que ela corre. A mim basta-me saber o conforto do nosso apartamento na Lapa e da elegância da minha família e pouco mais. Quando o dia em que vais entender que eu não entendo os meandros de Herberto Hélder ou porque raio do gostas tanto das peças do Brecht? E as palavras, sempre as palavras, mais e mais palavras. É como se o teu pedido urgente de palavras me sufocasse constantemente. Porque eu não sei viver das palavras e tu não sabes disso.

Agora tu abres a porta do carro e chegou o fim do meu dia. É tempo para o meu corpo. Enquanto me beijas eu já estou outra vez na janela do nosso quarto, a janela das minhas noites, alheio aos teus jantares e às tuas saídas permitindo que o meu corpo leve a vida por mim eternamente repetida em gestos maquinais que nos vão rasgando por dentro.

Agora tu chegas, o corpo envolvido no meu. Primeiro os beijos, depois a camisa, de súbito as calças. Agora de joelhos, eu dentro da tua boca. O sangue corre mais depressa e eu cada vez mais quente. Observo. "Amo-te". E agora sou eu e tu num momento que eu vá aprendendo a encher de palavras.

quinta-feira, outubro 12, 2006

Manhã

Teus olhos, um encanto devagar;

A tua mão sobre a minha de mansinho.

O teu cabelo, a minha pele.

E em nós havia música.

quarta-feira, setembro 27, 2006

O grito de Hécuba mãe ou O tempo das novas memórias

Cala agora o teu grito de dor,
Hécuba, mãe,
E guarda em teus olhos as lágrimas
Que ainda te faltam
Por teu filho Heitor

O tempo descascou as paredes do teu vestíbulo
E os frescos que outrora falavam dos deuses
São agora pedras que falam do branco

Os homens,
Esquecidos das suas mães,
Desenharam no horizonte novas tragédias
E o barulho das suas armas
Lança-se ensurdecedor sobre o teu grito de mágoa

Novas letras se escrevem agora
Em tuas paredes brancas,
Hécuba, mãe,
Para contar histórias de um terror novo

Este é o tempo que temos
Para povoar a memória de novas coisas
Sem que por isso nos abandonem as Parcas

O tempo das novas tragédias
Que calam sobre a poeira da terra
O grito das mulheres de Tróia.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Etiqueta

Então lá fui etiquetado pela colher de chá. Normalmente, nem sequer alinhava nestes rituais estranhos do mundo virtual (este consiste em escrever 6 coisas aleatórias sobre mim), mas este ritual é diferente, porque, e consta no prinmeiro da lista:

1. Tenho uma coisa (será que lhe posso chamar uma afectção, não será muito gay?) pela etiqueta, não uma extrema exigência, mas algum cuidado e atenção;

2. Sou completamente viciado em refrigerantes com gás. A 7Up, o Sumol de Laranja e a Brisa de Maracujá estão em primeiro lugar ex aequo;

3. Adoro dançar. Quando saio à noite normalmente danço imenso e até tive aulas de hip-hop, agora só falta ter jeito;

4. Sou provavelmente a pessoa mais previsível que existe ou pelo menos uma das mais previsiveis;

5. O Gabriel García Marquéz é o meu escritor favorito;

6. Serei com certeza no futuro um brilhante professor universitário. (Na verdade a característica deste último ponto é a minha, por vezes assustadora, falta de modéstia).

quarta-feira, agosto 30, 2006

Estórias das paredes desta quinta

Às velhas fidalgas da vila da Ponta-do-Sol por quem o tempo passou sem darem por isso, para que saibam que há ainda quem as recorde.

O braço estendido para abrir o portão. O pedaço de ferro enferrujado já se arrasta quase sozinho agora que lhe começam a faltar as forças para reproduzir um gesto maquinal de tempos já quase perdidos. Agora que Agosto está perto do fim a grande alameda que conduz à casa enche-se de uva americana. E os seus braços velhos e as suas pernas cansadas chegam apenas para colher o suficente que lhe mate a saudade de um tempo em que braços mais viris que os seus limpavam as videiras por esta altura. A grande casa, velha de trezentos anos, ergue-se imensa na beleza da sua simplicidade, uma grande porta, sete janelas com caixilhos magnânimos de pedra trabalhada. Tudo por aqui é velho como ela, de um tempo que o tempo já levou há muito tempo, de uma memória perdida na memória das coisas. Agora ela é velha, como os galhos das videiras, velha como as pedras do pateo, velha como o tempo é velho e por isso ainda mais velha, por ser tanta coisa velha ao mesmo tempo.

Lá dentro as três salas continuam numa escuridão a média-luz, sempi-eterna, como se uma morte anunciada lhes tivesse chegado e mesmo depois de morta ela continuasse ali só para garantir aquela casa. Os braços ainda abriam o portão, as pernas ainda subiam para apanhar as uvas, mas quando tinha Madalena realmente morrido era um mistério de que ela mesma não conhecia a resposta. Muitas vezes nas horas mortas, que agora eram tantas, jogava-se a advinhar esse momento em que a vida acabara, mas em que ela, por falta de qualquer acidente que lhe parasse o coração continuara a viver. Às vezes pensava que tinha sido no seu décimo quinto aniversário quando acordou com os berros da Luzia, uma das criadas, a dizer que a Sra D Teodora, a velha tia, tinha morrido. Essa tia Teodora que mais que tia tinha sido uma avó, por falta da verdadeira que morrera antes de Madalena ter três anos, essa tia que enfeitava as horas de sereias e fadas e sabia falar das plantas e das flores e das frutas e sabia de tudo e de nada. Mas Teodora morrera quando ela era ainda tão jovem e ninguém se morre de viver aos quinze anos. Não podia ter sido quando os pais morreram naquele horrível acidente, encosta abaixo, quando regressavam de umas férias na quinta do visconde de Bianchi. Nunca sofrera tanto, mas nunca sentira a família tão unida. Foi um tempo em que aprendeu o valor das serras da sua ilha e de que no último minuto a voz do sangue clama sempre mais alto. Podia ter sido quando percebeu que nunca iria amar e se resignou ao condão de ser a tia solteira de muitos sobrinhos; ou quando os manos abandonaram a vila para ir para o Funchal; ou quando o mundo mudou, as criadas fizeram as malas e levaram os homens da fazenda consigo. Capaz que tivesse sido nos primeiros anos da velhice, em que as sobrinhas Andrade e Mello tornaram cada vez mais espaçadas as suas visitas à quinta até que o grande relógio da sala deixasse de bater a hora das suas chegadas. Talvez a grande resposta fosse que Madalena tivesse morrido em cada um destes momentos e que uma partida do Senhor seu Deus que tanto amava lhe tivesse dado o golpe final sem lhe tirar a vida.

Havia uma coisa que Madalena sabia: nem ela nem aquela casa eram já deste tempo. Porque no tempo de Madalena a simples menção do nome dos Pina e Câmara era suficiente para tremer o mundo, para fazer mudar o curso das águas, sobretudo quando o pai cavalgava os seus cavalos, tão senhor da sua fúria, dando ordens a todos, viesse Rei ou Papa para detê-lo. Antes bastava estender a mão que viriam as criadas da casa, os pensamentos transportados telepaticamente numa sedução dos caprichos de quem nasceu para ser servida. O pai já não lia na lareira da saleta, o piano restava fechado sem mãos que o tocassem, os quartos jaziam vazios, camas de ferro velho sem roupa, porque agora não havia ninguém que nelas matasse o cansaço. O tempo passara e agora Madalena sabia que não dera por ele. Agora, enquanto restava na grande poltrona com o gato no colo só uma pergunta lhe vinha constantemente à cabeça :"Depois de nós, quem há-de vir para nos lembrar?"

segunda-feira, julho 31, 2006

Nós- eu e o teu corpo

O teu corpo deita-se todas as noites ao meu lado depois de ter estado dentro de mim. Mas só o teu corpo.

Eu deito-me ao lado do teu corpo todas as noites depois de o ter tido dentro de mim. Agora eu queria falar-te de coisas tristes, como dormir ao lado dum corpo, e dizer-te que nestas noites a noite prolonga-se por mim adentro, sem luz, sem estrelas, só o espaço vazio que é a verdadeira essência da noite juntamente com o silêncio. Mas não é possível falar ao teu corpo da noite quando a única maneira que ele tem de a sentir é dormindo.

De manhã, muito antes de eu acordar e ter palavras, o teu corpo vai erguer-se, perdido numa esquina da Estrela, e eu vou perder mais uma vez esse instante em que quase te tive, ficando apenas com o teu corpo.

Nós, eu e o teu corpo, vivemos uma relação viciada de gestos automáticos e rotinas enfadonhas já há tanto tempo entranhadas em nós que me torno incapaz de te dizer como odeio que me esperes todos os dias na paragem. Não pela vulgaridade do que significa ter-te à minha espera numa paragem de autocarro, ou pelo que isso denuncia da preciosa estabilidade das nossas vidas que tu nunca desejas quebrar, mas porque todos os dias eu sei que perdi mais um encontro contigo para ficar só com o teu corpo. Porque o instante em que abro a porta do carro é o instante em que tu acabas, em que acaba o teu dia e tu, depois de horas de trabalho, és incapaz de seres algo além do teu corpo. E não é que me importe de ter os teus braços tão fortes nos meus ombros ou de maquinalmente beijar-te, é apenas essa tua incapacidade de seres homem e me amares como homem, essa incapacidade que me deixa sempre a sós com o teu corpo.

É por isso que não te falo da noite e não te digo que do Restô se vê toda a Lisboa pombalina que tanto amamos, que às conversas sobre dramática da escrita se servem cogumelos e ao ênfase que se dá quando te leio Herberto Hélder servem-se salmão e caviar. Porque o que sabe o teu corpo do gosto do caviar, da poesia de Herberto Hélder ou da cabeça do empregado espetada viva no Terreiro do Paço? Que sensibilidade tem o teu corpo além desse quasemomento em que tu estás dentro de mim e eu sou um só- com o teu corpo.

Resta-nos agora a cidade, a mim, a ti e ao teu corpo, os dias calmos de Abril e a pressa eufórica das primeiras tardes de chuva em Setembro. Restam-nos os cafés da Baixa e os restos da vida elegante de por quem lá passa e resta a vontade de que um dia me convides para ir beber chá ao Rato.

Acima de tudo, resta esse momento em que eu, de joelhos, te tenho na boca e em que o teu corpo, segurando os meus cabelos, diz de mansinho: Amo-te. Agora voltas a ser tu, instantes breves, talvez um dia fiques mais tempo além da altura em que escorres e te esvais por mim adentro.
Não sei viver além do quotidiano.
Chegam nas manhãs de Agosto
Coisas alegres de que te fale
Coisas do cheiro do Verão
Que as ondas que chegam às ilhas
Touxeram.

O piano deita o cheiro do Verão
Ao toque de cada tecla
Contando estórias da infância
Que guardámos dentro dele,

Estórias de quando o Mundo
Cabia
Numa praia e numa sala

Em que os nossos corpos
Molhados
Sobre os arraiolos da avó
Nos davam, com certeza dumas palmadas,
A certeza de que éramos felizes.

São estóriasde subir a ribeira
E descobrir sempre a frescura do Verde
Enquanto a água nos escorre nos pés
E o doce sabor das bananas
Nos invade a boca.

Agora o nosso cheiro suado
Confunde-se com
O cheiro das noites de Verão
Que é o cheiro
De quem está cansado e feliz
De se por ao lado do sofá
Com a mão da mãe
Na cabeça
Enquanto
A avó canta
Num som que muito além do Verão
Não mais deixará de visitar
Os nossos ouvidos.

É disto que te falam
As manhãs de Agosto
Quando o teu corpo amanhece,
Fresco de Luz,
E tu, da janela do teu quarto,
Mergulhas no mar
Prenhe do cheiro das coisas do Verão.

domingo, julho 30, 2006

Carta que Teodoro de Freitas nunca escreveu a sua prima, Noémia das Mercês

Querida Prima,

Escrevo-lhe porque ao fim destes anos veio-me hoje uma visão que me fez pensar em si: um piano! É bem verdade, um piano. Esse piano que me trouxe logo a sua imagem e a sua lembrança à minha está em casa de tal menina que com seus olhos prendeu os meus. Mas oiça-me minha adorada prima, se o verde dos olhos de tal menina cortejada superam o castanho dos seus olhos, as mãos pobres e gordas desta não têm a elegância que nas suas vive.

Porque esta menina, querida prima, apesar de ter uns olhos de um verde tão profundo como o seu dote, toca numa sala onde o excesso em tudo toca e onde a toda a hora o chapéu de um senhor está sujeito a roçar-se nas cortinas que descem por todo o lado. Não toca ela nessa sala onde toca a prima que guarda na tinta rosa das suas paredes o segredo dos primeiros olhares trocados, a prima tão moça e eu já homem feito, a prima com tanto para aprender e eu julgando que já tanto sabia. Essa sala onde roubávamos horas à costura da Titá para trocar sobre a forma desses livros encadernados do escritório do pai confidências tão íntimas como o são elogiar as suas mãos. E depois a prima enchia as horas que sobravam de música, porque a música vive bem dentro das suas mãos, diria dentro de si, agitando-se continuamente e enfeitiçando as horas. Como as donzelas coquettes enchem com flores os seus cestos, a prima enche o ar de música na leveza do ron-ron dos seus vestidos que descançam sobre o banco desse bem-dito piano.

Estivesse eu aí e não ouvesse mar entre nós, uma vez mais a roubaria e sobre a vista do balcão lhe diria, querida prima, que não há vista que supere a sua vista e que o odor estontiante de tudo o que é natural e bom e que nos rodeia é mil vezes inferior ao simples perfume que de manhã deixa cair atrás das orelhas num gesto de suprema elegância, pois em si tudo é elegante, as mãos, as luvas, o cabelo, pois nasceu com a certeza de que o mundo é seu, e é de facto, só pelo simples facto de ter nascido com as mãos que mais delicadamente alguma vez poisaram sobre um piano!

Amo-a, mas agora não há tempo para o amor, pois na sala ao lado deste gabinete umas mãos pobres e gordas esperam por mim agora que cometi o erro de lhe dar a ela, e não a si adorada prima, as minhas palavras que, como bem sabe, prendem mais que tudo o resto.

Seu primo,

Theodoro de Freittas

segunda-feira, julho 24, 2006

Rondó de palavras

A inspiração é sempre algo muito difícil em mim, tremendo sobre o terror das minhas próprias letras escritas sobre o papel.
É um tempo difícil quando deixo que as palavras fujam e vem nos meus pés, fruto das minhas ideias movidas, preguiça de correr para buscá-las. Quem diz preguiça diz medo porque é verdade que as palavras dão medo e que a metafísica de amar as palavras é como respirar o perfume que está na tua mesa: cansa, mas o primeiro é sempre bom.

As palavras têm uma luz consigo, mas a maneira de a ver é tão difícil que temos que sentar e não ter preguiça de escrever Verde e Mar, mesmo para perceber que são palavras diferentes.

Lentamente agora bebo o cálice das palavras, antídoto do medo, agora que chega o crepúsculo e está quse na hora do Sol tomar seu banho de Lua, lá na linha onde terminam as ondas.

As paredes do meu quarto enchem-se agora de palavras enquanto a preguiça se esgota com as linhas do meu caderno.

A cama, terra de segredos fechados, e os olhos postos no mundo, que começa na janela do meu quarto, e a noite que me traz as palavras que me escaparam no dia.

sábado, julho 22, 2006

O Mar e também os Verdes que a Ilha esconde

Para Sofia Palma Baracho, que guarda comigo os segredos das florestas.

Diz-me do mar para que eu te fale de Marta Telles e dos seus traços em tons carmim.

Então, na sala de refrescos de um grande palácio insular, verás pela clara-bóia como as luzes da manhã da minha ilha são diferentes.

O medo de perder o sol farte-á subir as escadas, para que estejas certa de que as nuvens ainda não vieram morar nos picos dos montes.

Molha agora os teus pés de mansinho na água, com cuidado para que te não rolem os calhaus, e deixa que o mar te beba delicadamente.

Do alto da montanha entenderás a verdade que a ilha encerra sobre a ciência do Verde, e de uma golfada verás como nós respiramos as quatro estações.

Deixa cair a noite. A noite aqui chega tarde e com aviso do sol. A noite aqui é só um dia mais escuro.

Do alto da ponte, na velocidade do teu carro, olha as luzes que bordam as encostas da cidade e respira outra vez.

Perde o mar, as montanhas, o verde, guarda o cheiro intenso que a neblina deixou sobre as flores, larga o corpo, queda-livre, aprende os segredos que esconde o coração da ilha.

Enquanto chega o sono

Para Marta Vieira da Silva.

Há uma certa poesia nos olhos fechados duma criança enquanto dorme. Nos olhos da Marta há a poesia de quem sonha depois de um dia a brincar entre os livros e se deita cansada de ter esgotado a vida que aquele dia lhe deu.

Quando fecha os olhos diz devagar "Não tenho sono" só para poder vir para a minha cama. Então eu abro os lençóis e ela adormece junto de mim. Eu fico guardado nos sonhos dela, porque os sonhos da Marta traçam o labirinto das minhas esperanças até que tudo se perca quando lhe toco os cabelos. A partir daí já mais nada importa, o mundo pára na seda dos cabelos dela: a Marta é maior que o mundo porque o seu desejo de viver é tão grande e ainda assim cabe na pequena biblioteca onde a Marta gasta os seus dias em brincadeiras e sendo grande não vai além dos muros do jardim da casa da avó que vão até onde chega o mar.

A Marta tem uma doçura verde na sua ânsia de ser crescida. E eu, enquanto ela dorme e lhe toco nos cabelos, tenho uma ânsia doce que a vida passe gentilmente por ela.

Mas a vida nunca passa gentilmente.

Mas nada disso importa enquanto a Marta dorme e a poesia se desenha em mim.

sexta-feira, julho 14, 2006

Licor de Tangerina

"O licor servia-se às sextas-feiras, depois do jantar com bolo de laranja. Assim, aprendi que a vida se serve quente ou fria, em banho-maria, com as suas caldas e essências para beber devagar em pequenos copos de vidro."

Ana Paula Tavares in "A Cabeça de Salomé"

sábado, julho 08, 2006

Viagem em Lisboa, em torno de nós mesmos

Para Sara Guia d'Abreu, com toda a minha admiração.

Há no teu nome uma melodia delicada, como as notas que o Tom desenhava no piano.

Viver-te é como ver Van Gogh a pintar uma tela cheia de cores. O teu vestido enrosca-se por nós nos bares do Bairro Alto, mesmo quando não o trazes e o som dos teus risos vai além da noite, até às minhas tardes de Junho para nelas derramar o sol eufórico como as músicas da Ella. Como se eu agora fosse o Sinatra e tu a Fitzgerald a cantar "The Lady is a Tramp" e isso nos lembrasse de súbito de um tempo em que eles ainda não nos existiam.

Agora temos o corpo deitado na relva (mesmo contra as ordens do sr. Agostinho) e o muundo que vemos para lá dos óculos de sol é ainda muito fosco e tem continuamente o toque do liceu a pautar-lhe os ritmos. É um tempo delicado de já não infância mas ainda de crescimentos. Tu guardas nas mãos algo. Ofereces-me as primeiras palavras.

Agora eu estou sentado numa grande poltrona, é uma sala velha dum palácio do Bairro Alto. Tchekov está ao meu lado e tu simplesmente não queres mais Ivan Vasilievitch.
Dás-me a mão para corrermos até ao teu sofá nas Ruínas do Carmo. agora vemos o Tejo todo. Tu dizes que o Tejo continua a ser o grande rio da nossa vida, que é a vida de Lisboa. E enquanto Lisboa namora o Tejo há vedettes que se abanam sobre os seus cariocas de limão escondendo estórias de tabus e mariscos. Nós gastamos a tarde a despechar confissões nas nossas chávenas de chá, porque já estamos sentados numa varanda às Escolas Gerias, mas ainda a ver o Rio.

Vivemo-nos só de vez em quando, mas olha como a cidade dança connosco os choros do Tom quando estamos juntos! E assim, viver-te é cada vez melhor, com o rio, com as flores, com os risos, meu encanto de cantos tão distantes, amiga de ontem e hoje, tu que me inspiras quando fazes biquinho enquanto lembras a Ivan Vasilievitch que são teus os prados de Valovyl.

domingo, junho 25, 2006

Contaminatio

"Difícil é saber de frente a tua morte
E não te esperar nunca mais nos espelhos da bruma"

Sophia de Mello Breyner Andresen in Navegações

Difícil é saber de frente a morte dos meus sonhos
E não os esperar nunca mais nos espelhos da vida

sexta-feira, junho 16, 2006

Tríptico da Dificuldade

I
Difícil é buscar
Continuamente
As palavras

II
Difícil é saber
Da tua ausência
Na continuidade
De todas as horas

III
Difícil é continuar
À tua espera
Nos minutos infinitos
Mesmo quando a noite
Já se levantou sobre nós
E a Lua Nova
É presságio de que não virás

sábado, junho 10, 2006

Midsummer night dream

O teu corpo tem um gosto estranho que provém do facto de beberes shot's sempre sentado nas noites de Junho do Bairro Alto.

Tu sabes beber. E quando digo isto não é com mansidão, mas com carinho nas palavras. Tu bebes com a elegância de se saber estar em qualquer lado, mesmo nas noites mais frias de Junho (que as há!) quando só querias um casaco por cima dos ombros. Ainda assim, não deixas de beber, nunca com exagero, sempre suavemente como alguém que realmente aprecia o que faz e imprime a cada gesto, neste caso a cada gole, a certeza interior dos gestos que são definitivos, porque são importantes.

E o mais estranho, não é o teu corpo erguer-se acima dos outros numa elegância impar em qualquer tasca do Bairro Alto, estranho é como os teus lábios em volta de um copo fazem com que o calor e o frio dessas noites de Junho me excitem mais e mais no desejo do teu corpo.

É como uma bebedeira de muitos shot's bebidos todos de uma vez (o limão só com açúcar, nada de canela, se faz favor), que está longe da elegância deliciosa dos teus lábios suavemente em cada gole, mas que é quase tão gulosa como tu e certamente incontrolável. Fogo do álcool que me queima as entranhas numa ânsia súbita de entrar pelas tuas entranhas e unir os nossos corpos num cio furioso numa esquina estranha do Bairro Alto.

A noite vai-se instalando cada vez mais. Tu sabes beijar, beijas como bebes, com a sofreguião elegante do gole em cada vez que a tua língua busca algo na minha boca. A pele sente o calor, mais forte, mas nunca como num filme porno espanhol. É uma coisa do cinema francês onde numa tela gigante numa língua de suma elegância Isabel Huppert e Catherine Deneuve dançam a dança antiga das damas sedutoras esperando que Fanny Ardant saia do piano para se nos juntar. Beijo-te como se elas se rissem sobre nós com grandes flutes de cristal num champagne precioso.

A noite, sempre a noite, ainda mais a noite. O Junho, tão diferente dos Junhos da minha infância. O calor, tão palpável que era capaz de o engarrafar. Os teus lábios em torno de um copo. A maneira como chupas o limão. E eu de cabeça perdida enquanto anseio por ti e por Junho.

sábado, junho 03, 2006

Fundação Medeiros e Almeida

Num transversal pequena e simpática da Avenida da Liberdade (Rua Rosa Araújo) ergue- -se, entre a sombra de umas poucas árvores, a Fundação Medeiros e Almeida.

Casa-museu, o edifício alberga dentro de si uma impressionante e magnífica colecção construída pelo seu falecido patrono ao longo de toda uma vida. Os corredores e salas do palacete são uma deliciosa viagem pela estética de uma pessoa, estética que nos oferece uma envolvência delicado no bom e no belo passeando pelos mais variados objectos, dando-nos a certeza de que é possível viver-se numa obra de arte.

Um viagem aconselhada a todos os amantes do belo para se aproveitar uma das muitas tardes quentes que Lisboa agora oferece!

sábado, maio 27, 2006

Assim, de repente...

Ao Luisillo.

Numa noite de calor fresco que nos sabia como a promessa de um banho de água morna que se toma de manhã e nos desperta os sentidos, deixámo-nos cair nas confissões. Foi uma noite de palavras- palavras que os dias que nos separavam pediam há já algum tempo. Foi uma noite lenta de intimidades rápidas e tão complexas que nos permitimos viver como as mãos escorregam pelo marfim frio de um piano para lhe roubar as notas mais fundas.

Podia ter sido nessa hora de calor insuportável, quando no relógio de García Marquéz batem as três, enquanto estávamos deitados nas redes dos nossos alpendres. Podiámos ter escolhido falar por aí. Mas esperar até ao calor tropical dos verões colômbianos ia demorar tempo de mais. E nessa noite fomos nós que construímos o tempo.

Os teus olhos nunca me mentem e o meu corpo cai de leve sobre o teu. O teu abraço surge de repente para criar espaço para as palavras. E assim, de repente, largaste as tuas palavras sobre mim com uma insustentável leveza. Numa noite de palavras, as tuas palavras tão poucas para que tudo continue bem.

Para mim também Tu és o mais importante!

quinta-feira, maio 11, 2006

Os Aristocratas

Estreou recentemente "Os Aristocratas".

Desaconselhado a pessoas sensíveis, "Os Aristocratas", é uma fabulosa viagem ao mundo da comédia e àquela que, provavelmente, será a maior piada do mundo.

Correndo o rsico mais perigoso no humor- que é o de falar sobre ele e de o teorizar- o autor deste genial documentário percorre todas as vertentes de uma única piada sem que ela nunca perca graça.

"Os Aristocratas" joga com os nossos preconceitos mais profundos e assim leva-nos numa interessante viagem aos limites e às barreiras que a sociedade e nós mesmos nos impomos.

Lie with me- Vem comigo

Provavelmente o filme já estará fora de cena. Mas se tiverem a incrível sorte de descobrirem que não está não deixem de ir ver.

Brilhantemente interpretado, Lie with me, é uma viagem ao mundo da linguagem sexual e da viagem que nos leva do sexo aquilo que pode ser o amor. De uma beleza estética impressionante e de um erotismo delicado e elegante é um filme a não perder.

segunda-feira, maio 01, 2006

Poema ao 25 de Abril

I
Espera que o sol seja muito quente
E então sai à rua.
Caminha pelo lado da sombra sem nunca
Tirares os olhos do outro lado.
Vê como o mestre-d’obras
Desenhou todas aquelas janelas
Só para que tu as pudesses ver esta tarde

Continua a caminhar.
Deixa que o cheiro,
Que de súbito se instalou no teu coração,
Te indique o caminho.

Quando chegares ao jardim
Atraído pelo cheiro das coisas frescas
Que vivem no calor da tarde
Senta-te debaixo da sombra do grande caramanchão
Que está no centro do jardim.
Ouve o riso das crianças que brincam no parque
À tua frente
Para aprenderes como o mundo é ainda jovem
E por momentos deixa-te levar.
Agora abre o livro-
Lê dez páginas e respira,
Respira fundo
E deixa que o sol profundo que se instalou
Entre as três e as quatro
Se instale também dentro de ti;
Que ele te invada o corpo.

O rio continua à tua frente
E a cidade pulsa agora nas tuas veias.
Por esta altura já todos os cheiros te chegaram,
As aves voam cada vez mais alto.
Respira fundo.

II
Quando abrires os teus olhos
Ainda prontos para ver tanta coisa
Lembra-te de Abril.
Lembra-te desse dia em que se começou
A construir a tua tarde.

Quando respirares fundo
Pensa nos capitães em suas chaimites
E deixa que o cheiro inexistente dos cravos
Te chegue ao nariz.

Olha agora o sol de frente,
Ele já não te pode mais queimar,
Agora, Abril construiu s liberdade.